Acróstico 11
- Riesa Editora

- 4 de nov. de 2023
- 19 min de leitura
Atualizado: 26 de jun. de 2025

Hanni
Hanni chegou à academia saltitando mais do que Aika e Pipe.
Ela pulava de um pé para o outro; ainda estavam no estacionamento, e já dava para ver o quanto ela estava realmente ansiosa. Era claramente importante para ela. Uma das principais coisas que ser mãe de Aika havia ensinado a Presley era que não se questiona a importância de cada coisa para quem a coisa pertence. Sabia que a graduação era importante por conta do projeto, mas dentro de si, Presley sentia que o jiu-jitsu tinha salvado Hanni em algum momento crucial. Ela falava do jiu-jitsu da mesma forma que Presley falava da importância da língua de sinais no seu relacionamento com Aika. A língua de sinais havia mudado todas as coisas, salvado a sanidade de Presley, e o mesmo parecia ocorrer com Hanni e o jiu-jitsu.
Ainda tinha muito a descobrir sobre ela, e sua curiosidade não parava de se aguçar.
— Aika, Aika, abraço, por favor, abraço, abraço! — Ela se abaixou sorrindo, falando em coreano, e Aika correu para os braços dela, com aquele sorriso aberto, agarrando Hanni demais, que levantou com ela no colo enquanto Presley pegava as coisas no carro.
— Hanni, ela trouxe o quimono. Eu disse que provavelmente ela não poderia usá-lo hoje, mas fui voto vencido.
— Ela pode usar, sim, claro que pode! — Hanni se abaixou com ela, olhando-a nos olhos, e sinalizou — Quimono, pode usar — Aika ficou muito, muito feliz e começou a saltitar.
— Park Manu, você sinalizou?
— Estava certo? Eu aprendi quimono — Ela fez o sinal de novo — Sinal positivo, vestir, usar, certo?
— Certo, tudo certo — Presley respondeu, com os olhos brilhando um pouquinho. Ela estava... aprendendo?
— Tenho visto alguns vídeos na internet — Ela disse, pegando Aika no colo — A Pipe tem visto também e me mostra o que aprendeu. Ontem aprendeu quimono e vestir, porque ela ajuda a Aika a se vestir ainda.
Presley a olhava nos olhos, a puxou pela cintura e beijou o ombro dela, carinhosamente.
— Você sabe que é muito especial, não sabe?
Hanni ficou vermelha.
— Eu-eu... não sou, não. É que, como estrangeira, aprendi a respeitar a língua dos outros, então, eu tento aprender.
— Você é especial, sim, é mais do que isso. Leve a criança, eu levo a sua bolsa e a dela, vamos — Presley trancou o carro, e começaram a caminhar lado a lado. Era uma academia enorme e bonita. O jiu-jitsu ficava uns lances de escada para cima e todas as salas eram transparentes. Havia uma academia no primeiro andar e aulas de artes marciais nas salas de cima — Leo ainda não aprendeu NZSL até hoje — Disse, enquanto subiam as escadas. Marcelo havia ido com as crianças a outro lugar primeiro, mas chegaria em breve.
— Ele...? — Aquilo pegou Hanni de surpresa — Mas como... eles se comunicam bem mesmo sem a NZSL?
— Depende do humor da Aika. Ela prefere falar em NZSL, mas quando decide falar com ele, se esforça. Tem dias em que não está a fim, e a comunicação simplesmente não flui. Eu traduzo o máximo possível, mas...
— Isso quebra a conexão. Por isso, estou aprendendo um pouco, para ter um laço mais direto com a mocinha aqui — E Hanni se deu conta do que disse — Desculpa, soou como uma crítica.
— Uma crítica que faz sentido. Esse é um dos motivos pelos quais nós nos desentendemos tanto. A Aika é cheia de energia, gosta de brincar, é muito ativa e gostaria de ter isso com o pai. Mas, aparentemente, o Leo apenas desistiu de tentar ser esse tipo de pai para ela. Ele... Sabe? Eu sinto que ele não reagiu à notícia da surdez até hoje. Quando ela estabilizou depois da meningite, corremos com a possibilidade de um implante coclear, a única alternativa para o tipo de surdez dela. Mas não funcionou, e isso acabou com ele. Ele diz que eu vivo em negação, mas eu acho que é o contrário.
— Isso causa um afastamento, não causa?
— Parece que vivemos na mesma casa, mas em países diferentes. Porque existe... — Presley refletiu — A barreira da língua mesmo. É como você voltando ao Brasil sem saber português e desistindo de tentar aprender o idioma. Aquela ali é a sua sala?
Hanni abriu um sorriso.
— É, sim. Grande, não é?
— Os treinos aqui devem ser enormes!
— São, é sempre muito legal, você pode vir comigo qualquer noite. Treino de terça e quinta, as aulas são quase tão legais quanto as aulas que dou — Ela disse, cheia de si, fazendo Presley rir — Vamos lá!
Foram até a sala, entraram. Hanni cumprimentou seu mestre, apresentou Presley e Aika para ele e para outros colegas de treino que já estavam presentes. Quando notou que Presley estava entrosada – o que não era nada difícil, era uma borboleta social a tal de Park Presley, só precisava de um incentivo para socializar – foi para o vestiário com Aika e, quando voltou de lá, Presley abriu um sorriso.
Estavam as duas de branco, de quimono novo, as duas com tranças boxeadoras, e sua filha, claro, roubou a cena totalmente. Veio no colo de Hanni, e as duas foram imediatamente cercadas de atenção feminina, curiosas sobre o bebê, que, de alguma maneira, parecia com Hanni. Quanto mais olhava, mais Presley via semelhanças. Aika tinha o seu sorriso, as suas expressões, mas os olhos e o tipo de olhar eram de Hanni, as sobrancelhas eram de Hanni, o tom do cabelo. Elas se pareciam mesmo, não eram apenas asiáticas, elas se pareciam de fato.
E claro, logo Hanni veio buscar Presley para apresentá-la a mais gente. Kaori Taylor chegou, barulhenta como sempre, não importava onde, quando, o lugar; ela não chegava quietinha. Então, Hanni foi requisitada pelo mestre, deixando as meninas com Kaori. Outros alunos chegaram, mais alguns amigos de Hanni que Presley não conhecia, e Kaori ia fazendo as apresentações.
Por último, estava apresentando Presley assim:
— Pessoal, esta é a Presley, a mãe do bebê da Manu.
— Acabei de me sentir apenas uma progenitora, Kaori.
— Menina, olha a cópia ali, hoje ela está uma cópia da Hanni, você há de concordar.
Presley sorriu. Estava. E as duas estavam lindas.
Pronto, a graduação iria começar. E onde que Aika retornou para a progenitora? Nada, ela foi convidada pelo mestre para perfilar, um paredão enorme de adultos e aquele pequeno ser humano no final. Marcelo e Sabina chegaram e se aproximaram de Presley. A graduação começou oficialmente. Presley não fazia ideia de como ocorria, mas foi fascinante assistir. Começaram com as faixas mais baixas e ela entendeu que poderia envolver tanto a troca de faixa como o ganho de graus na faixa atual, que podiam chegar até três. Isso explicava por que Hanni queria avançar, já que estava no final da faixa roxa com três graus. Os alunos eram chamados, faziam uma demonstração e, no final, recebiam um discurso do mestre, ressaltando seus pontos fortes e o que precisavam melhorar antes de receberem grau ou faixa. Era evidente a relação de respeito entre mestre e alunos. Isso, Presley já havia notado nas aulas de Hanni, o modo como os alunos a olhavam com admiração.
E, ah, sim, os alunos de Hanni não paravam de chegar. Não havia mais espaço dentro do dojô, mas eles assistiam tudo pelas vidraças, o que fez Presley sorrir. Eles haviam vindo torcer por ela, apoiá-la, e isso era um gesto delicado, demonstrava o tanto de admiração e carinho que tinham por Hanni. Ela realmente despertava esses sentimentos neles todos. Sua Aika não saía do colo de Hanni e não fazia feio. Mal dava para crer que era a Aika, o furacão, o bebê da Tasmânia, La Niña. Ela estava quieta, prestando atenção no mestre, e no máximo, agarrava mais forte na mão de Hanni de vez em quando. Presley sabia o que era. Quando estava nervosa e pegava Aika no colo, ela fazia o mesmo consigo. Agora entendia que era porque Aika podia sentir seu coração e fazia carinho para tentar acalmar os batimentos. Segurava na mão, deixava beijinhos, ela fez com Hanni, deu beijinhos que fizeram Hanni sorrir, a cheirar, a apertar um pouquinho, transbordando de carinho, apego, bem-querer. Nós nunca temos que forçar o amor, nós nos afogamos nele quando o encontramos.
O coração de Presley flutuava.
O nome de Manu foi chamado. Ela deixou Aika com uma das dez novas amigas que a pequena já tinha feito e chamou o seu parceiro para a sua demonstração.
— O que iremos ver, Manu?
— Duas variações de leg lock, partindo da guarda aberta, mestre.
— Muito bem. É sabido por toda Auckland e vizinhanças que esta guardeira gosta de jogar de guarda aberta, de alguma maneira, dá certo. Vamos lá, pode demonstrar.
E ela levou dez segundos. Com a guarda aberta e os pés na cintura do oponente, em um movimento, Hanni escorregou para dentro dele. No instante seguinte, ele estava caído de cara no tatame, com o joelho preso em uma chave que não abria de jeito nenhum. Uma alavanca no calcanhar, e pronto, o grandão estava batendo. Na segunda posição, ela inverteu com ele, fazendo-o cair no chão. Quando ele menos se deu conta, ela cruzou para dentro do corpo dele e aplicou a chave de joelho muito bem. Deve ter levado menos de dez segundos daquela vez. Prontinho, Hanni trocou um cumprimento com seu parceiro, cumprimentou o mestre, a turma, e o mestre a segurou do seu lado.
— Esta é Park Manu, minha aluna prodígio, que um belo dia entrou aqui numa turma cem por cento masculina e perguntou se podia treinar conosco. Olhamos para essa coreana aqui, pedindo para treinar e informando ser brasileira, que havia tido algumas aulas no Brasil e não, nada nela fazia sentido, mas de alguma maneira, a deixamos ficar. A turma se tornou mista, 21 marmanjos e a Manu. Achei que ela não iria passar de uma semana, mas quando me dei conta, já estava no seu primeiro mês e dando trabalho para os caras. Vocês tinham que ver, durante os rolas, essa vidraça se enchia para ver a coreana-brasileira batendo nos caras, virou entretenimento puro, o ponto alto dessa academia aqui! — Ele dizia, fazendo Hanni rir, ficar um pouco vermelha, ela era uma graça, Presley não aguentava. Seu rolo da câmera já estava repleto de Park Manu, porque ela não conseguia controlar a vontade de fotografá-la — Então, outras garotas começaram a bater nessa porta. Outras garotas me perguntando se podiam treinar nessa turma e aqui, vocês vão concordar comigo, olhem para Te’o ali — Havia sido o parceiro de Hanni na demonstração — Um belo exemplar de neozelandês-maori, bonitão demais, não é? Achei que ele poderia atrair algum público feminino para a nossa aula, mas se a gente fizer uma rápida pesquisa de opinião — Ele falava num microfone pequeno, veio para a fila dos alunos — Você, Amanda, por que começou a treinar aqui?
A moça abriu um sorriso.
— Porque vi a Manu treinando e me senti segura para treinar aqui também.
— Aleatoriamente agora, deixa eu ver... Você, Brenna, por que começou a treinar aqui?
Ela riu.
— Tinha uma modelo treinando e eu queria treinar com ela — Ela disse, fazendo Hanni quase virar um pimentão de vermelha, Presley não estava aguentando, estava filmando tudo com um sorriso no rosto.
— 2x0 Manu no Te’o. Espera, tentaremos novamente — Ele andou de um lado a outro e abordou outra aluna — Você, Mia, por que decidiu treinar aqui?
— Porque a Manu é linda e eu queria ficar perto dela! Ok, acabei de lembrar que a namorada dela está atrás de mim, tem como responder de novo? — Ela contrapôs, causando risos no dojô e deixando Hanni ROXA de vergonha.
— E eu acho que... — O mestre olhou para Presley que, enfureceu o olhar, só um pouquinho, entrando na brincadeira — Acho que você está ferrada, ela é pequena, mas parece brava, são as mais perigosas. Ok! Vamos encerrar a pesquisa de opinião por aqui, acho que vocês já entenderam que Park Manu não só é a melhor atleta que temos nesta academia, como ela contribui como bom exemplo, fazendo essa turma que antes era de 21 x 1 de homens contra uma mulher, hoje ser de 24 x 27. Temos mais mulheres do que homens. E isso é apenas porque uma garota esquisita bateu na nossa porta, perguntou se podia treinar e inspirou outras mulheres a fazer o mesmo. Tenho orgulho de dizer que hoje somos uma academia feminina e tenho mais orgulho ainda de trocar essa sua faixa roxa por essa marrom bem aqui, Manu. Bem-vinda ao clube das faixas marrons — Ele a abraçou, com a faixa na mão — Obrigada por ter batido nessa porta, Manu, obrigada por ser quem você é.
E ela cristalizou os olhos. Ela era difícil de chorar, mas ficou verdadeiramente emocionada. Presley encheu os olhos também. Manu era fácil de fazer feliz. Ela era simples, era boa e merecia estar cercada de pessoas como ela. Hanni foi a última a graduar, e tudo virou uma espécie de festa jiujiteira no final. Muitos rolas ao mesmo tempo, quase despretensiosos. Era assim que se inaugurava uma faixa nova, e Hanni quis inaugurar a sua com Aika.
“Sim, sim, sim!” Ela gesticulou, saltitando e saltitando, animada demais. E lá foram elas para o tatame, para o rola mais fofo do mundo. Presley filmou tudo, os movimentos de sua Aika, os olhos brilhando, os dela e os de Hanni, os sorrisos abertos, uma felicidade muito clara por estarem juntas, fazendo algo que gostavam, se movendo juntas. Presley se ajoelhou pertinho do tatame, bem perto delas. Estava feito. Hanni já estava na vida de sua filha, era uma realidade, não podia ser removida, e sendo assim, precisava cuidar disso, cuidar de Hanni, cuidar para que o tempo delas juntas fosse sempre saudável. Hanni notou aquele olhar diferente e prendendo o Furacão Katrina um pouquinho, olhou para Presley.
— Você devia colocar o quimono e vir aqui comigo um pouco.
Presley sorriu.
— Eu nem sei se consigo me vestir sozinha ainda, Hanni.
— A Kaori te ajuda, eu acabei de mudar de faixa, quero fazer isso com você.
Olhos nos olhos.
Presley acabou indo para o vestiário com pouquíssima resistência. Levou Kaori junto para questões de amarrar a faixa, vestiu o quimono extra de Hanni, branco também, e Kaori surgiu com uma faixa emprestada. Presley tentou colocar sozinha, e de alguma maneira...
— Está certinho, você pega as coisas rápido. Pres, você vai com a gente, né? Tem uns amigos fazendo uma festinha pra Hanni na casa dela.
— Não vou poder ficar muito, mas fico um pouquinho sim.
Kaori a olhou, sorriu.
— Ela vai ficar feliz.
— Você acha?
— Presley, presta atenção numa coisa aqui, acompanha o meu raciocínio: — Kaori tocou os ombros dela, a olhando nos olhos — Hanni te fez colocar um quimono só pra você entrar naquele tatame com ela e você veio colocar.
— Eu-eu vim.
— Isso é alguma coisa, ok? — Kaori tirou a aliança do dedo dela, não podia usar joias no tatame — Guardo para você, vai lá.
Foi lá e fez direitinho, porque sua filha era perfeita nisso, cumprimentava o tatame, pedia autorização ao mestre, então Presley tinha que fazer tão bem quanto ela. Entrou, prendeu os cabelos num coque alto, bagunçado, e Pipe já tinha entrado, já estava de quimono também, já estava com Aika. Hanni encerrou um rola com um dos rapazes e veio até Presley. As duas de joelhos, de frente uma para a outra, se olharam nos olhos e sorriram.
— Seja boazinha comigo — Presley pediu.
— Quando eu não sou boazinha com você?
— Hum, tem razão, você é sempre boazinha comigo.
— Sempre. Me fala, o que você quer fazer?
Presley olhou para ela. E a puxou para sua guarda imediatamente, tão rápido que Hanni demorou para reagir. Com apenas duas aulas, ela já sabia muita coisa. Presley era forte, embora não parecesse, dada a estrutura delicada que tinha. Ninguém apostava que aquela garota podia ser tão forte, mas ela sabia usar sua força. Foi um rola dinâmico, filmado por Kaori, cheio de pegadas e risadas, porque naquele dia estava liberado rir; era uma festa. O toque ardia, a pressão de um corpo contra o outro despertava muitas sensações, e a risada de uma preenchia a outra. Havia uma sensação constante de coração flutuante, sempre presente, passando de uma para a outra sem parar.
A festa no tatame rendeu fotos. Presley rolando com Aika, tentando sobreviver nas mãos de sua criança, que estava sendo orientada por Hanni. Mais risadas, mais conversas, mais olhos brilhando. Tiraram fotos juntas, as três, e a favorita de Presley havia sido tirada quase no final. Era uma foto espontânea, com Aika agarrada nas costas de Hanni, e Hanni e Presley virando para trás, sorrindo demais, com sorrisos amplos a ponto de deixar os olhos parecendo dois risquinhos. Era algo tão bom que...
Dava para ver. Dava mesmo para ver.
Presley havia aberto a sua conta no Instagram e agora tinha o inimaginável número de 4.712 seguidores. Fez uma postagem quando já estava trocada, vestindo seu moletom e camiseta, pegou algumas fotos e vídeos, não marcou ninguém. Era quase um acordo silencioso entre elas, o de não se marcarem em postagens. A postagem abria com uma foto no carro, tirada no retrovisor, onde só apareciam os olhos das duas: o olho direito de Presley e o esquerdo de Hanni. No espaço entre um rosto e outro, aparecia Aika sorrindo no banco de trás. A postagem fechava com aquela sua foto preferida tirada no tatame.
“Dias que começam assim 😆 e terminam assim ❤️🩹.”
Foram para a casa de Manu, quase em comitiva, em três ou quatro carros, e ao chegarem lá, de fato, uma festa esperava por Hanni. O sol estava se pondo, a casa estava aberta, havia pessoas pelo jardim e pela cozinha. Hanni foi cercada de beijos e abraços; ela era muito querida, de fato. No entanto, voltar àquela casa apertou Presley por dentro um pouco. Ela havia estacionado o carro no mesmo lugar daquela noite, e uma memória sensorial percorreu sua pele, fazendo-a respirar mais profundamente, desfibrilando seu coração. Presley foi ficando para trás no meio das pessoas, no meio das lembranças, mas de repente, a mão de Hanni a puxou de volta, a puxou para perto. Hanni seguia com Aika no colo, e elas não se soltavam de jeito nenhum.
— Tudo bem?
— Tudo bem, eu só...
Hanni a puxou para dentro, levando-a para a cozinha e colocou Aika sobre o balcão.
— Suquinho ou água, bebê? — Perguntou em coreano para Aika. Tinha um churrasco acontecendo do lado de fora, com música tocando.
Ela sinalizou "suquinho". Hanni olhou para Presley.
— Suco, assim, suco — Fez o sinal — Assim, água — Mostrou outro sinal e Hanni repetiu os dois.
— Assim?
Presley ajustou o último gesto dela. Mãos se tocando. Favorite Crime tocando, de Olivia Rodrigo; fazia sentido.
— Assim, isso.
— E você, água ou suquinho?
Presley sorriu, aquele sorriso amplo, lindo demais.
— Mate.
— Você gostou!
— Eu adorei.
Ela abriu a geladeira, pegou um suquinho para Aika e preparou um mate rapidinho para Presley e para si mesma. Conversas paralelas, risadas; estavam em casa apenas pessoas que Hanni amava muito, como ela esclareceu, e queria que Presley conhecesse todo mundo.
— Você vai implodir o meu círculo social muito em breve desse jeito, Park Manu.
— Eu conferi o seu Instagram, vi que você abriu! E vi que... — O tom dela mudou um pouquinho, ficou mais sério — Foi esquisito para você voltar aqui, não foi?
— É só que... memórias voltaram.
Hanni a olhou e, em seguida, colocou Aika no chão, falando com ela em coreano.
— Pode ir com a Pipe. Quer brincar com ela? — A pequena afirmou, ficando animada — Ela está lá fora, não corra, está bem? — Aika concordou e foi caminhando até Pipe, e Presley não parava de ficar surpresa. Então, Hanni se voltou para ela mais uma vez.
— Sabe de uma coisa? Eu moro aqui — Disse, fazendo Presley rir um pouco.
— Não tem para onde correr.
— Não tenho, é mais cruel para mim. Presley, eu nunca... nunca fiz nada assim antes.
— Você quer dizer — Presley aproximou a boca do rosto dela — Amassos em público, tipo, no meio da rua e tal?
Hanni riu.
— Esse tipo de coisa. Eu só não... pensei.
— Você acha que eu pensei? E eu sou uma pessoa que pensa muito, que pensa demais.
— Ah, eu gosto disso.
— Que eu pense demais?
Hanni aproximou sua boca do ouvido dela:
— Gosto de ser algo que você faz sem pensar.
All the things I did. Just so I could call you mine. All the things you did.
Well, I hope I was your favorite crime.
'Cause baby, you were mine.
Todas as coisas que fiz. Só para poder te chamar de minha. Todas as coisas que você fez. Bem, eu espero ter sido o seu crime favorito. Porque, amor, você foi o meu.
Olhos nos olhos. E alguém gritou por Manu lá de fora, o sol estava se pondo e sempre era um espetáculo de se assistir do quintal.
Foram para fora juntas, mãos dadas para ver o espetáculo dourado, o sol descendo por cima das árvores, fazendo valer cada aplauso, cada vibração. Era hora de comer, de jantar do lado de fora, um churrasco plenamente brasileiro, porque a festinha estava cheia de brasileiros. Auckland tinha muitos coreanos, mas também tinha muitos brasileiros, e Presley estava adorando conhecer todo mundo. Estavam num grupo de vinte pessoas, num momento muito agradável no jardim, com conversas cruzadas que se complementavam de alguma maneira, e Sabina e Marcelo garantindo que Presley não ficasse sozinha quando Hanni corria pelos grupos. Já era quase oito da noite, e Presley estava quase indo embora quando um carro estacionou atrás do seu.
Estava conversando com Sabina, terminando de dar comida para Aika, e soube quem ela era assim que a moça desceu. A típica kiwi girl, loira, atlética, garota de praia muito claramente, com sardas na linha abaixo dos olhos, cruzando por cima do nariz; era Alexia. Desceu apressada, vestindo uma blusinha preta, short jeans e chinelo. Presley podia apostar que ela havia acabado de sair de um salão de beleza, com as unhas claramente recém-feitas. Passou pela mesa deles apressada, falando com todo mundo meio que sem falar com ninguém, e correu para dentro, onde abraçou Hanni de surpresa.
Abraço longo, ela dizendo algo no ouvido de Hanni, provavelmente parabenizando pela graduação, fazendo Hanni sorrir, se virar de frente, a abraçar de volta. Viu um beijinho, discreto, mas viu, e em segundos, elas desapareceram para algum lugar. E foi tudo meio rápido, ou a mente de Presley que ficou devagar, mas algum tempo passou, e Hanni retornou com uma mochila nas costas, falou com Kaori, ela ficou claramente irritada com algo, a ponto de elas quase discutirem. Então, Kaori saiu para o outro lado, Hanni falou com Marcelo em um canto e finalmente veio falar com Presley. E Presley entendeu o motivo da irritação de Kaori. Hanni precisaria sair; Alexia havia vindo pedir isso, que ela a acompanhasse em um evento, e Presley só...
— Hanni, você não tem que me explicar nada, não.
— A gente nem pegou o seu carro na embaixada. Tenho que sair, mas você fica com o meu carro.
— Não precisa, eu pego um Uber.
— Você está com a Aika, claro que não. Você fica com o meu carro.
— E você fica como?
— De Uber, a preferência é de quem está com a criança.
Presley a olhou nos olhos.
— Você tem uma jaqueta? Está esfriando.
— Pode pegar qualquer coisa no meu armário. E você pode entrar aqui quando quiser, eu liberei a sua entrada na portaria e enviei a senha da porta para o seu celular.
— Não me dê tantos poderes, Park Manu.
Ela apenas sorriu. E Alexia surgiu.
— Meu bem, podemos ir?
— Você já conheceu a Presley?
Alexia cruzou os olhos com Presley.
— A gente se cruzou na entrada, mas não fomos apresentadas, não.
— Presley, Alexia, Alexia, Presley.
— Você é a mãe da mini Manu ali — Ela disse, simpaticamente. Presley não sentiu falta de simpatia, mas houve uma repelência natural muito claramente.
— Eu sou. Tudo bem com você?
— Tudo bem. Desculpa chegar assim, mas essa moça aqui é difícil de se pegar — Disse, agarrando o braço de Manu.
Presley observou o movimento. Sorriu. A atriz Presley em ação.
— Vou ver a minha criança. Você me liga? — Perguntou para Hanni, já se afastando.
— Ligo, claro que ligo. Não esquece a jaqueta.
— Bem lembrado, eu vou subir para pegar.
Presley subiu. E quando desceu, Hanni e Alexia já tinham saído. Desceu usando um casaco dela, cheirando a Coco Mademoiselle, que Presley havia reforçado antes de sair do quarto. Pegou a chave do Jimny e foi procurar sua criança pelo quintal, mas foi encontrada antes, por Kaori.
— Ela me fez prometer que você vai sair daqui no carro dela, Presley, facilita a minha vida, tá?
— Eu vou — Mostrou as chaves, sorrindo — Você ficou irritada, né? Eu nem achei que você fosse capaz de ficar irritada, sério mesmo.
Kaori bufou, com um pirulito na boca. Ela estava de jeans, top, uma camisa de botões por cima, aberta, verde e branca, xadrez. Boné sobre os cabelos longos, castanhos queimados de sol, e ela estava chateada mesmo.
— Ah, Presley, essa garota me irrita! Foi a semana toda uma perturbação só por causa desse evento dela de agora à noite. Parece que ela não compreende as coisas que são importantes para a Manu, sabe? E presta atenção no que direi: a Manu é toda fechada, eu já te falei sobre isso, ela tende a ser meio egoísta por vezes, quando a equação envolve coisas dela, mas essa Alexia consegue ser mais.
— Claramente, você não gosta dela.
— Eu não sou a única, não. Ela é legal às vezes, mas eu não gosto desse comportamento dela com a Manu. Parece que, sei lá, ela gosta de exibir, sabe? Eu não julgo que ela goste de exibir a gata que a Manu é, eu mesma faço isso de vez em quando, mas sério? Tão descaradamente assim? Ela veio até aqui coagir a Manu a ir com ela.
— Ah, Kaori, mas a Manu é namorada dela, né?
— Namorada nada, porque a Manu não namora ninguém. Essa garota age como namorada dela, e sinceramente? Está por um fio, esse não-namoro. Precisa só de um empurrãozinho para romper, e esse bem que você podia dar, não é, Park Presley?
— E-eu?!
— Não, eu. Claro que você! — Kaori se aproximou dela um pouco mais — Eu sei o que aconteceu.
— Você... sabe?
— Ela precisava falar com alguém, você deve ter precisado também. Presley, vocês vão deixar as coisas assim? Mesmo? Só ignorar o que rolou?
— Kaori, a gente está tudo, menos ignorando o que aconteceu. Mas o que temos agora é isso; ela é comprometida, eu também sou. O que podemos fazer?
— Muitas coisas. Só... não ignorem mesmo o que está acontecendo aqui, de verdade.
Presley a olhava. Subiu na ponta dos pés e a abraçou, sentindo os braços dela em sua cintura em seguida.
— É bom saber que posso falar com você.
— Pode. Lembra que eu te disse? Manu é fechada, não se abre com ninguém, essa conversa sobre vocês duas foi a primeira vez que me senti mais perto dela, foi uma conversa profunda, não rasa, como são as conversas sobre Alexia e outras.
— Ah, existem outras...?
Kaori riu.
— Eu te disse, ela não namora ninguém. O mais próximo de namoro que já vi da Manu é isso aqui, olha... — Abriu o Instagram e mostrou a última postagem que Presley havia feito.
E Presley apenas sorriu, deixou um beijo no rosto de Kaori, foi se despedir de Marcelo, de Sabina, daquela quantidade de pessoas que havia conhecido. Resgatou sua criança, que ainda não queria ir, nada novo sob o sol. A colocou na cadeirinha, que era dos gêmeos, de quando eram menores e que Hanni havia resgatado para Aika, e dirigiu para casa, pensando e pensando sem parar.
Chegou, a casa ainda estava no escuro e vazia, Leo ainda não havia chegado, o que não surpreendia Presley nem um pouco. E nem feria, nem a fazia se questionar, pensar se era apenas trabalho, se não existia nada mais. Não queria saber se existisse. Havia feito essas perguntas há um ano, e depois de um tempo, passou apenas a ficar grata por ter mais tempo distante dele. Isso valia a pena? As coisas tinham que ser assim mesmo? Fez algo para ele comer, deixou na geladeira, foi dar banho em Aika, que estava dormindo antes mesmo que Presley terminasse de trocá-la. Ficou no sofá um pouco, fingiu assistir a um filme, jogou um pouco no celular, resistiu à vontade de checar o Instagram de Hanni.
Estava errado. Estava tudo errado.
Tomou banho, foi para a cama, ainda bem, pegou no sono com alguma facilidade. E foi suavemente acordada em algum momento. Estava sonhando com Hanni. Só pediu que não falasse enquanto dormia. Foi o único pensamento que lhe ocorreu.
E acordou nos braços do seu marido, num domingo chuvoso. Ele estava de folga, perguntou se ela queria almoçar fora, fazer alguma coisa. Concordou, concordou, tudo no automático. Ele levantou, fez o café e, quando Presley chegou na mesa, Aika já estava no colo do pai, contando e contando coisas, que ele só entendia metade. Então, os olhos do desligado Leo Harris, de repente, pegaram algo.
— Presley, cadê a sua aliança?


Kkkkkkkkk a aliança foi de adeus igual o relacionamento dela com o leo
Esse sonho aí vai render né?
Eita! Perder aliança? Não perdoo kkk
as duas se querendo...as duas comprometidas...já vi esse filme! kkkkk😉
Já era, Leo!