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Drácula de Tessa Reis 7




Mordida


Esses dias, vi um tópico no Reddit a respeito de “mordidas consensuais”. A cena em que Carmilla, um clássico vampírico escrito 25 anos antes de Drácula, morde Laura é hipnotizante e não é exatamente consensual: Laura não nega, mas apenas porque está altamente seduzida por Carmilla.


É hipnotizante. É sedutora a ponto de não se conseguir escapar, de não querer escapar.


Quando Drácula morde Lucy, ela mal consegue se mover.


Por que aquilo parecia tão… inevitável?


Sabine se agarrou a Austin, os dedos cravando nela, profundos demais, enquanto aqueles dentes penetravam o seu pescoço. Cortando a pele. Rasgando músculo. O peso do corpo dela caindo sobre o seu. Não dava para se mover.


O vento abriu a janela de uma vez só, de maneira violenta, e uma rajada fria invadiu o quarto, anestesiando a mordida, paralisando o seu corpo, esfriando o sangue quente que escapava da boca de sua namorada.


— Austin! AUSTIN!

— O que foi?!


Sabine se sentou na cama, agarrando o próprio pescoço. Mas… onde Austin estava?


— AUSTIN!

— Aqui, eu cheguei! — Ela entrou no quarto, acelerada — O que aconteceu, meu amor?


Sabine olhou ao redor. Estava nua, com frio, já era noite e... a janela havia aberto. Tocou o próprio pescoço de novo. Não havia nada ali.


— É... a janela abriu e eu me assustei, namorada.

— Ah, o vento segue muito forte — Austin foi até a janela e a fechou, passando o ferrolho antigo sem grandes dificuldades.

— Você... faz isso como se já tivesse feito mil vezes — Sabine ainda estava assustada com tudo o que havia acontecido.

— O quê?

— Essas janelas complicadas. Quase não consegui fechá-las mais cedo. Austin...

— Oi, meu amor.

— A gente... transou?


Ela sorriu. Estava de shortinho, outra camiseta preta, a luz da vela ainda iluminando aquele rosto esculpido.


— Muito gostoso. Estávamos na banheira, tomamos um vinho. Mas perguntei se você estava bem, namorada. Você não está lembrando ou...?

— Não! Eu lembro. É que... eu dormi?

— Dormiu, depois que terminamos. Dormi também, mas acordei antes de anoitecer — Já estava ajudando Sabine a se vestir. Lingerie, moletom quente, meias nos pés — Acho que não devemos beber e transar, não é?

— Não é um problema tão grave também. A gente sempre quer transar, namorada.

— Isso também é verdade. Escuta, Sab, eu fiz o jantar enquanto ainda tinha luz. Sei que você está odiando o lugar, mas eu realmente achei que seria legal, geralmente é legal vir pra cá. É bem bonito quando não está chovendo e tem energia elétrica, juro.

— Ei, claro que não estou odiando, meu amor — Sabine disse, tocando o rosto dela — Estou sendo chata, né?

— Não, claro que não. Sei que eletricidade é importante e o lugar pode ser estranho. Você quer jantar? A lareira está acesa, posso fazer bifes pra gente. A tempestade passou, está só chovendo agora, dá para curtir da porta da varanda.


Austin era mesmo perfeita. E Sabine devia estar ficando maluca. Tocou o pescoço de novo, no lugar da mordida. Será que havia sonhado...?


— Ah, eu fiz uma marca — Austin tocou o mesmo lugar — Desculpa, amor. É que você pediu.

— Eu... pedi? — Sabine se assustou.

— Pediu. Uma mordida. É... você me mordeu também.

— Eu mordi?!


Austin mostrou o ombro.


— Meu Deus, Austin, eu te machuquei!

— Não é pra tanto também, Sab.

— Meus dentes estão aqui! — Era uma bela mordida.

— Ah, eu gostei — Austin a agarrou, deixando beijos no pescoço dela.

— Namorada...


Austin a beijou, agora na boca, muito gostoso.


— Vem, meu amor, vamos jantar.


Foram para a sala e, com a tempestade mais calma, tudo parecia normal demais. Gostoso, na verdade.


Estava chovendo suave, a lareira seguia acesa, Austin havia aberto outro vinho dos mortos e estava fazendo os bifes mais cheirosos do mundo na lareira. Ela fez macarrão novamente, com outro molho delicioso, e elas ficaram no tapete confortável da sala, com a porta aberta, sentindo o vento agora suave enquanto a lareira e as velas iluminavam aquela sala que não parecia mais tão assustadora assim.


A massa ficou pronta, os bifes também. O de Sabine, bem passado; o de Austin, vermelho vivo. Os olhos de uma sustentando os da outra. Austin estava tão linda, a pele brilhando, os olhos brilhando além do normal.


— Sab, queria te contar uma coisa — Ela começou de repente, levando mais um pedaço de bife para a boca.

— A gente havia dito mesmo que ia conversar algumas coisas aqui — Sabine ainda estava pensando sobre a mordida, que tinha parecido tão real. Mas não tão real quanto aquele jantar, o carinho da sua namorada, o cuidado que ela estava mostrando — Meu amor, por que ainda não sei onde você mora?

— É... Amor, eu estou tentando me mudar. Posso te levar quando já tiver me mudado?

— O lugar onde você mora é... ruim?

— É meio esquisito — Austin ficou meio desconfortável.

— Austin... por que uma marchand trabalha de madrugada?

— Hum... — Ela comeu outro pedaço de carne — Era disso que eu ia falar. Sab, eu tenho um outro emprego. Um emprego com plantões.


Sabine cruzou o olhar com o dela.


— Plantões...?

— É, hum... isso é um problema?

— Um emprego com plantões? Claro que não, Austin.

— Ah, isso é ótimo! Hum, você quer mais vinho dos mortos...?


Ela não iria contar mais nada? Sabine até pensou em insistir, mas, de repente, estavam tomando mais um pouco do vinho dos mortos, haviam terminado aquele jantar delicioso e, quando Sabine deu por si, já estava subindo no colo dela outra vez, ficando de frente para ela, sentindo aquelas mãos pelo seu corpo.


Como era bom. Perigosamente bom.


Havia lido em algum lugar da internet que a mordida em romances de vampiro, na verdade, era um simbolismo para a subversão, para desejos proibidos. E fazia sentido. Porque era exatamente assim que se sentia com Austin.


Ela tirou a sua blusa, e Sabine se agarrou à sua namorada, beijando-a mais, sentindo-a profundamente na sua pele. A atmosfera ao redor, o som leve da chuva, o vento suave entrando pela porta, o trepidar da lareira e a boca deliciosa de Austin.


Quando Sabine percebeu, a boca dela já estava baixando pelo seu colo, deitando-a contra o edredom que estava no chão. As mãos firmes pelo seu corpo, o calor se espalhando pela pele das duas, os olhos de Sabine se fechando, a boca mordendo a própria boca porque...


Austin parecia um sonho.


Tanto que, na manhã seguinte, Sabine acordou com a sensação de ainda estar dentro dele.


Foi se movendo devagar. Ainda estava chovendo, agora suave. O vento não soprava frio. As portas gigantescas da sala seguiam abertas, o fogo crepitava na lareira, já no fim, e a sua noite havia sido tão gostosa, mesmo naquela casa mal-assombrada.


— Austin? — Se moveu, tinha alguma coisa coçando na perna. Estava apenas de lingerie — Onde você está? — Se sentou, tentando alcançar o ponto que coçava, quase no seu calcanhar. Mas, quando colocou a mão ali...


Tinha um morcego.


Sabine gritou tão alto que os vidros da porta trepidaram. Sacudiu a perna, se desesperou, saiu correndo pela sala tentando fazer o bicho soltar, gritou por Austin até sua garganta ficar seca e, finalmente, conseguiu. O morcego soltou a sua pele, voou pela sala e saiu pela porta.


E então, Austin apareceu.


Nua.


— Austin! Onde você estava?!

— Mas o que foi, namorada? Eu estava no banho!

— Um morcego me mordeu!


Sabine estava sangrando.


Austin agiu por instinto.


Pegou Sabine quase no colo, a levou para o chuveiro e colocou a mordida sob a água corrente.


— Austin, está gelado, muito gelado!

— A gente precisa lavar, meu amor. Por uns quinze minutos, é o protocolo.

— Como você sabe essas coisas?!

— Eu... bem, eu sou enfermeira.


Sabine parou por um instante. A água fria do chuveiro congelando a sua perna.


— Você...?

— Eu disse que trabalhava por plantões — Ela limpou a garganta, parecia meio desconfortável — Eu queria Medicina, mas o curso era muito caro.


Sabine buscou os olhos dela, mas Austin estava fugindo.


— Não deve ter sido fácil a faculdade, sendo que você é sozinha, né? Você já era sozinha?

— Sim, é... tudo isso, com a minha família, aconteceu muito cedo. É um problema ou...?

— Você ser enfermeira? Claro que não! Por que está pensando essas coisas, Austin?

— É que você vive rodeada de pessoas de alto padrão.

— Como se você não fosse — Tocou o rosto dela, fazendo-a sorrir um pouco — Austin?

— Oi...

— Poucas coisas me fariam desistir de você. Por favor, não se esconda mais de mim.


Austin finalmente a olhou nos olhos.


— Poucas coisas mesmo?

— Ser enfermeira com certeza nem consta na lista de possibilidades, tá? — Sabine disse, fazendo-a rir um pouco.


Mas aquilo não ia acabar ali.


Foi assim que, antes das oito da manhã, estavam as duas num posto de saúde do vilarejo.


— Realizei o protocolo de mordida. Lavei em água corrente por quinze minutos, depois apliquei álcool setenta por cento. Vocês têm a antirrábica? O soro também seria bom, não é? — Austin falava com a enfermeira.

— Certeza de que foi um morcego?

— Ela viu. E a mordida está perfeita, olha.


Estava mesmo. Sabine recebeu vacina antirrábica e instruções para que as doses se repetissem ao longo dos dias. A mordida era pequena, quase no tornozelo, parecia inofensiva. Mas a sensação da mordida do sonho ainda persistia.


Austin a colocou de volta na BMW.


— Tudo bem, meu amor? Acho melhor voltarmos para o Rio. A moça me disse que a vila inteira está sem eletricidade, isso deve demorar, um raio partiu alguma coisa importante — Ela disse, já colocando o cinto de segurança e ligando o carro.

— Austin...

— O quê?

— Você não viu, viu?

— O morcego...?


Sabine a olhou.


— Austin, foi você?


Austin engoliu em seco. E desligou o carro.


— Sabine, que tipo de pergunta é essa, pelo amor de Deus...?!

— É que você só apareceu depois do morcego!

— Eu estava no banho, você gritou, eu me assustei, não consegui achar a toalha, você continuou gritando e eu só decidi sair sem toalha mesmo. Espera... — Austin sentiu a testa dela — Ok, você está com febre.

— Austin! É por causa da mordida?

— Não, meu amor, deve ser por causa da vacina. Escuta, as coisas realmente não saíram como eu imaginava e você vai ter que tomar mais doses de vacina durante a semana. É melhor a gente voltar para o Rio, aproveitar que a chuva parou. Talvez a estrada não esteja tão ruim.

— Eu-eu... não queria estragar o nosso final de semana, amor.

— Sab, não foi você. Foi a chuva e esse morcego. Ah, acho que deixei a sua CNH lá dentro, espera aqui um minuto.


Austin voltou para dentro e Sabine constatou que estava mesmo febril. O corpo estranho, pesado. Algo não estava certo. Se moveu no banco, buscando um casaco extra porque estava com frio, e encontrou a capa de sua namorada. Cobriu-se com ela e notou uma vibração.


Seu celular? Será que tinha sinal ali?


Encontrou seu celular e ele estava mesmo vibrando. Chegava uma mensagem atrás da outra e a maioria delas era de Raisa. Abriu a janela de conversa, foi lendo as mensagens misturadas, uma por cima da outra. Algumas eram só de preocupação, para saber se Sabine havia chegado bem, mas havia outras.


“Você precisa ler isso.” E, abaixo dessa mensagem, tinha um link.


Sabine clicou no link e levou uma vida para conseguir carregar a página. O sinal de internet existia, mas estava muito fraco. Olhou para a porta do posto de saúde e Austin estava voltando. Toda de preto, óculos escuros.


E a página finalmente carregou.


Era uma reportagem de um portal de notícias conhecido e confiável.


“Treze corpos são encontrados em condomínio de luxo na Barra Olímpica. Os corpos estavam drenados e sem sinais de violência.”


Engoliu em seco, rolando a reportagem um pouco mais. E a próxima coisa que viu foi uma foto do prédio onde a namorada morava.


Austin voltou para dentro do carro.


— Aqui, meu amor, sua CNH. Eu deixei no balcão. Tudo bem?

— Sim, é... tem internet aqui.

— Eu nem trouxe meu celular. Mas não é um problema. Vamos passar em algum lugar para tomar café e, então, vamos arrumar nossas coisas e voltar para o Rio. Você está bem mesmo?


Sabine sentiu o ar sumindo do peito por um instante.


— Sim, é... acho que é a vacina mesmo.

— Deve ser. Mas não é um problema, meu amor, eu vou cuidar de você.

 



Notas da Autora: Tessa Reis


Oi, gente! Como estamos?


De repente, já foram sete capítulos, e nossa história já está se aproximando do fim! Eu tinha a sensação de que os microcontos realmente passariam muito rápido. O texto é ágil e, a todo instante, temos algo a resolver.


Tipo agora.


O que acham dessa reportagem que a Sabine recebeu? E o que acham que ela vai fazer agora? Só posso adiantar que nossa história está no final e que ainda temos coisas a descobrir tanto de Austin quanto de Sabine. 👀


Off: Contraste já está disponível! Dominic e Charlie estão prontinhas, esperando pela sua leitura! https://l1nq.com/rAZ4h


Voltamos com Drácula dia 5/5!

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