First Look - Dentada
- Riesa Editora

- 29 de out. de 2024
- 30 min de leitura
Atualizado: 9 de jul. de 2025

Mordida
"Nunca se envergonhe de amar as coisas estranhas que fazem o seu coraçãozinho esquisito feliz.”
Havia uma festa acontecendo no meio da assombrada fazenda dos Kil, na área rural da mítica Salem, na Nova Inglaterra.
O som estava pulsando alto, tocando Bad Habits, de Ed Sheeran. Noah podia sentir, pela pressão nos ouvidos, que os ajustes feitos nos equipamentos estavam dando certo. Moveu o pescoço de um lado a outro, alongando-se um pouco. Adorava aquela música, sempre lhe dava vontade de dançar, mas não dançava em público, podia ser até perigoso. A camiseta branca estava levemente suja, assim como a calça larga. Tinham trabalhado pesado naquela tarde. Usava um boné sobre os cabelos longos e castanhos, piercings pela orelha direita, olhos escuros e dóceis, e um sorriso perfeito, do qual tinha plena consciência de ser a estrela do seu rosto. Estava emendando um cabo ao outro com um alicate, perto do palco que era montado no meio da sala da antiga casa de madeira escura, bem ao estilo da Nova Inglaterra. Os pais das irmãs Kil não estavam em casa, era 30/10, véspera de Halloween, e elas trabalhavam organizando uma festa.
Já era tradicional: todo Halloween, os Kil abriam sua lendária fazenda para uma enorme comemoração, onde, por um único dia no ano, as pessoas de Salem podiam entrar novamente naquele terreno que, há muito tempo, havia sido palco dos famosos enforcamentos de bruxas. A fazenda era frequentemente assediada por curiosos, atraídos pela história sombria do lugar, mas os Kil mantinham todos afastados com certo rigor. A família havia se estabelecido ali há mais de cem anos e fechou o local para o público, com o seguinte discurso: "Bruxas não existem, deixem nossa casa em paz."
Os Kil eram, há gerações, produtores de frutas. Plantavam morangos, melancias, blueberries e abóboras. As plantações não eram muitas, tratava-se de uma produção claramente familiar. Olhando pela janela, Noah conseguia ver melhor: as plantações estavam lindíssimas. As melancias, no ponto de colheita; os morangos, tão brilhantes que dava para vê-los de longe; e as abóboras, espalhadas pelo quintal, prontas para serem colhidas ou simplesmente para enfeitar a festa da noite seguinte.
Depois das plantações, havia um bosque enorme. Se corresse reto por dentro dele, chegaria à sua casa, já numa área urbana da cidade. Dizia-se comumente que, depois do Bosque das Bruxas, só havia o coven dos Kil, onde era melhor nunca chegar – o nome por si só já indicava que não era uma boa ideia chegar até lá.
Os Kil eram chineses que chegaram aos Estados Unidos há mais de cem anos. Pouco se sabia sobre eles, exceto que não recebiam visitas e gostavam de se manter reservados. Mas isso foi até as suas últimas herdeiras se tornarem absurdamente populares na cidade. Tizu Kil, a irmã mais velha, havia ganhado todos os prêmios estudantis possíveis. Era altamente inteligente, um gênio dos números e das ciências, e com toda certeza devia ser uma das garotas mais bonitas que Noah já havia visto na vida. Ela estava pela sala, cuidando de outros detalhes, altamente silenciosa e mal-humorada, o oposto total de sua irmã mais nova.
E falando na caçula dos Kil...
— Oi! Eu trouxe a sua água.
Ela chegou tão sorrateira e tão inesperada que Noah acabou apertando o próprio dedo com o alicate.
E foi doloroso e violento. A pressão súbita do alicate fez o músculo esmagar e a pele se romper.
— Ai, não, não, não!
— Caramba, eu te assustei?! — Ela ficou genuinamente preocupada.
Noah só podia ser muito idiota mesmo. Passou ANOS querendo falar com ela e, quando finalmente acontecia, fazia isso a si mesma.
— Não, é... eu estava distraída. Acho que... — Colocou o dedo latejante dentro do copo que ela havia trazido por puro instinto, e o sangue se espalhou pela água, deixando-a com um tom quase cor-de-rosa. Aquele movimento fez os olhos de Tayen Kil reagirem um pouco — É... isso foi mal-educado da minha parte, né? Desculpa!
— Não, eu... — Olhos ainda no copo de água — Pego outro, só um minuto.
Ela voltou uns minutos depois com uma garrafinha de água, desta vez, e uma caixinha de band-aid.
— Aqui, coloca para parar de sangrar. Foi muito feio?
— Não, só... apertou um pouquinho — Noah disse, tirando o dedo da água, secando-o com o papel-toalha que ela também havia trazido, e colocando o band-aid. Os olhos de Tayen seguiram todo aquele movimento. Uma reação levemente física, com os lábios delicadamente se apertando. Mas Noah não notou nada disso.
Apenas pegou a garrafinha de água e tomou dois goles longos, sentindo o coração batendo tão forte que estava até com uma pressão nos ouvidos. Tayen era... muito linda. Os longos cabelos escuros, o sorriso lindinho, os olhinhos castanhos e bem desenhados que sempre a faziam suspirar no colégio. Haviam estudado na mesma escola durante o ensino médio, mas, nos últimos dois anos, Noah esteve fora, fazendo faculdade em Nova York, onde não havia se adaptado de jeito nenhum. Então, em virtude disso, havia decidido retornar para Salem para um ano sabático, para repensar sua vida com calma, no lugar ao qual pertencia.
E esse abandono súbito da faculdade era apenas um item da enorme lista de desgostos que já havia causado aos seus pais. Problema que, com toda certeza, aquela menina linda na sua frente não tinha, de jeito nenhum.
No colégio, Tayen Kil naturalmente se tornou a abelha-rainha quando a irmã mais velha se formou. Ela herdou a coroa numa sucessão direta e sem opositores, e Tizu, apesar de não ter nem um por cento do carisma da irmã mais nova, era linda e havia ficado popular tanto pelo desempenho escolar quanto pelo desempenho nos esportes. Ela tinha medalhas nacionais como competidora de tiro com arco e esgrima. Era uma atleta multifacetada e se tornou popular por tudo isso, enquanto Tayen era popular por... ser Tayen Kil. Não era atleta, não tinha notas altas, só era a garota mais popular que se podia imaginar. Era divertida, adorava uma festa, uma vencedora nata com pouquíssimo esforço, era linda, tinha o sorriso mais bonito do mundo e fazia o coração de Noah palpitar há tanto tempo que nem sabia.
E sim, aquela era a primeira vez que se falavam.
Nem estava acreditando direito ainda. O convite veio por meio de um amigo de uma amiga de Tayen: Noah podia ir ajudar na festa? Ela entendia de som, tocava numa banda. Podia ajudar, não? E assim, pela primeira vez na vida, Noah havia entrado pelo portão da frente na fazenda dos Kil. Veio com seus colegas de banda, foi direto cuidar do sistema de som e, agora, quando a noite já havia caído, pediu água para uma das garotas que estava ajudando a montar a festa e, quem veio trazer a água? Tayen.
— Você quer comer alguma coisa? Acho que não fomos apresentadas. Sou Tayen, e aquela mal-humorada é Tizu, minha irmã.
Noah sorriu.
— Todo mundo nesta cidade sabe quem vocês duas são, desde o colégio. Meu nome é Noah. É... dividimos algumas aulas no ensino médio.
— Noah Renzi, certo?
— É, é... isso — COMO ASSIM ELA SABIA O SEU SOBRENOME?
O sorriso lindo de Tayen, e aqueles olhinhos brilhavam mesmo.
— Meu pai diz que o seu sobrenome é muito, muito antigo. E que a minha família e a sua fizeram negócios há muito, muito tempo. Sua família segue trabalhando com construções?
— É, tipo... sim.
— Os Renzi construíram esta casa aqui, não é?
Noah pensou um pouquinho.
— Acho que sim. O meu tataravô construiu essa casa. Ele construiu boa parte das casas antigas que continuam de pé por aqui.
— Uma família muito antiga, como a nossa.
— É, como... a de vocês — Era impressão sua ou só estava repetindo as coisas que ela estava dizendo?
Ela abriu aquele sorriso lindo outra vez, como se estivesse lendo seus pensamentos. E era muito mais bonita de perto, aff!
— Você não me respondeu se quer comer alguma coisa. Temos alguns tacos e cachorros-quentes.
— Ah, sim, alguém já me ofereceu, mas sou vegetariana e tem carne em tudo, então não posso comer — Mas que frase mais idiota! Claro que ser vegetariana implicava na questão da carne, mas enfim, Noah sendo Noah em sua essência. Mas Tayen não parecia se importar com sua lerdeza. A cada frase lerda dita, ela sorria.
— Vegetariana? Mesmo?
— É, vegetariana. Mas não tem problema, eu comi algumas frutas mais cedo, estou bem.
Um pequeno silêncio, um olhar muito dentro do outro.
— Você vem para a festa amanhã, não é? — Ela estava lhe olhando tão de perto que Noah se via nos olhos dela. Os olhos bem castanhos, brilhantes, lindos! — Já chamei seus amigos, eles disseram que vêm, vão tocar pra gente — E Tayen estava se vendo dentro daqueles olhos também. Apertou os lábios suavemente. Noah tinha duas groselhas pretas lindas nos olhos, bem escuras e que, de alguma maneira, refletiam luz.
— Venho, claro que sim — Respondeu, finalmente sorrindo.
— Ótimo! — Ela pareceu feliz com isso, abriu aquele sorriso lindo outra vez — Hum, não beba do ponche da bruxa.
— Você diz...?
— Tudo que venha das mãos da Tizu, não beba. Só beba o que estiver lacrado. Então, te vejo amanhã, não é?
— Sim, é... sim — Outro sorriso.
Ela seguia olhando, aqueles olhos bonitos brilhando.
— Onde machucou mesmo?
— Ah, foi só esse dedo aqui — Mostrou para ela seu dedo anelar, que, de repente e com muita delicadeza, Tayen pegou, levou até a boca e deixou um beijinho.
— Para curar mais rápido — Ela disse e, então, se afastou, apertando os lábios.
E Noah Renzi ficou imóvel. Congelada. A ponto de ter esquecido até de respirar.
— Noah? Noah!
— Quê? Que foi?! — Um dos seus colegas de banda estava chamando.
— Eu não sei. Você está imóvel aqui, como se estivesse paralisada! Está tudo bem? — Finalmente, ela conseguiu sorrir.
— Tudo está maravilhosamente bem!
Perto da meia-noite, a casa já estava vazia outra vez, e tudo estava pronto para a festa da noite seguinte, o famoso Baile dos Kil de Salem. A decoração estava impecável, as comidas encomendadas, as bebidas ok (as industrializadas e as produzidas pelas mãos de Tizu), e antes de dormir, Tayen ainda estava muito agitada e decidiu descer para se fazer um chá na cozinha. Gotas de melissa, folhas de hortelã, um pouquinho de limão e... ficou cheiroso, muito cheiroso! Eles tinham uma horta para chás e temperos na fazenda também, e não existia nada melhor do que o cheiro de coisas frescas. Qualquer coisa fresca.
Pegou sua caneca de chá e decidiu caminhar um pouco pela casa, checando se tudo estava realmente em ordem. Seus pais estavam em Gansu, na China, porque, todo ano, no mês de outubro, eles tiravam férias e passavam duas semanas fora, na cidade dos seus antepassados. Uma das exigências que deixavam com as filhas era que mantivessem a casa segura.
Então, Tayen foi checando todas as janelas, verificando se cada uma das portas estava mesmo trancada, e não... a porta dos fundos estava aberta. Empurrou a porta centenária apenas para ter certeza de que estava aberta mesmo. Fazia noite alta lá fora. A fazenda isolada causava um enorme silêncio, o tipo de silêncio tão intenso que causava pressão nos ouvidos.
Tomou outro gole do seu chá, observou a noite. O céu estava negro, sem estrelas, e a lua estava quase cheia. Deveria estar cheia na próxima noite. A festa seria perfeita. Hum, era por isso que estava faminta. Pegou um chá para não comer metade da sua geladeira, o que seria desastroso para a festa. E então... um som. Um som muito baixo, mas que Tayen conseguiu ouvir. Havia sido um pequeno farfalhar, mas... Olhou para os plantios, sabendo que tinha vindo dali. E do meio da plantação de melancias, que ficava bem de frente para a varanda onde estava, de repente, um lobo emergiu.
Tayen deu um passo para trás, soltando um suspiro sem sequer perceber. Não queria chamar a atenção do lobo, mas ele ouviu e virou a cabeça direto em sua direção. Então, delicadamente, tateou para trás, encontrando a maçaneta da porta, sem tirar seus olhos de cima daquele lobo, que era ENORME! Enorme, amarronzado, com profundos olhos negros-brilhantes e... estava comendo uma melancia? Lobos comem melancias ou...? Não fazia ideia, mas, olhando reto nos olhos daquele lobo, de alguma maneira, seus olhos faiscaram em outra cor.
— Tay? Por que a porta está aberta?
— Ah! Eu, é que... — Olhou para trás por um segundo e, quando olhou para frente novamente, o lobo já não estava lá.
— O quê? — Tizu chegou na varanda de trás com ela, já olhando tudo ao redor, modo alerta mais do que ligado.
— Nada, eu só... ouvi alguma coisa.
— A noite das bruxas está chegando. O que você esperava? Hum, você não viu, não é? — Ela perguntou, já abrindo um sorriso, orgulhosa de algo.
— O quê?
— Fiz bonecos. Dependurei humanos bem ali naquelas árvores!
Tayen olhou para onde ela estava apontando. Eram as árvores dos enforcamentos, e tinha mesmo bonecos enforcados, em tamanho real, com roupas de época e tudo. E apenas homens.
— Tizu! As bruxas que foram enforcadas, não?
— Óbvio que não! Onde que uma bruxa seria enforcada por um bando de humanos de QI mediano para burro? Aquelas mulheres não eram bruxas, eram apenas azaradas. Uma bruxa de verdade estaria enforcando, jamais enforcada. Por isso, fiz humanos para enforcar, muito mais verossímil que essa baboseira de bruxas enforcadas. E são só bonecos, nem enforquei nenhum humano pra valer — Ela disse, cruzando os braços — E eu podia, porque só hoje vi uns cinco que mereciam enforcamento lento, progressivo, com aquele tipo de laço que vai apertando bem devagar, conscientemente, para não haver dúvidas de que a morte está mesmo se aproximando.
Tayen olhou bem para ela.
— Às vezes, você me dá medo pra caramba, sabia?!
— Sente medo porque é inteligente. Não usa sempre essa inteligência? Não usa, mas é inteligente. Vi você de papo com aquela garota dos Renzi.
— Tizu...
— Ela não é pra você.
— O que você tem contra ela, afinal?
— Tayen, por favor, a garota é a maior perdedora que eu já conheci na minha vida! Sério, tudo o que ela tentava fazer no colégio, falhava. Se ela entrava para uma equipe vencedora, a equipe começava a perder. Ela não é boa nem em uma única coisa que seja. Daí, ela vai para uma faculdade ótima em Nova York, não sei como até hoje, e, subitamente, está aqui de volta. Deve ter falhado também.
Taeyn riu.
— Eu sempre achei uma graça justamente este traço da personalidade dela.
— Tay, deixa de ser idiota que a idiota é ela! Você só não a vence nisso! Isso faria até mal para ela, sabia? A maior perdedora de todas ao lado da maior vencedora de todas. Vocês são opostas totais. Sempre que ela perdia algo, com toda certeza, estava lá você, ganhando este algo dela.
Tayen olhou para sua irmã.
— E lá estava ela, olhando pra mim. Tizu, não se preocupe, ok? Eu só quero dar uns beijinhos nela agora que ela voltou pra cá, justamente na minha festa preferida do ano! O que pode dar errado?
Tizu também olhou para ela.
— Eu não vou listar, porque já está tarde e temos um dia cheio amanhã. Para dentro, vamos! Já passou da nossa hora de dormir.

Amanheceres melancólicos eram algo que, particularmente, Tizu Kil adorava.
Havia acordado pouco depois que o sol nasceu. Seu ciclo circadiano era perfeitamente ajustado, e seus horários de dormir e acordar variavam conforme as estações do ano. Nem era tão cedo; durante o outono, costumava amanhecer às sete da manhã, então foi nesse horário que se levantou. Havia amanhecido frio, um frio incomum para aquela época do ano, então vestiu-se bem agasalhada depois do banho: calça jeans, camiseta, jaqueta por cima e uma balaclava acinzentada de lã, que deixava apenas o seu rosto de fora.
Antes mesmo de tomar café da manhã, todos os dias, Tizu gostava de percorrer as plantações, verificar se tudo estava em ordem, se a fazenda estava segura. E isso era ainda mais rigoroso quando seus pais não estavam em casa: quando eles estavam longe, a chefe da família era ela, e era necessário manter a fazenda segura e sua irmãzinha protegida.
A segunda coisa da lista era sempre mais complexa que a primeira.
Então, pegou uma caneca de café expresso superquente e saiu pela porta da cozinha. Um vento frio beijou o seu rosto assim que pisou na varanda de trás, e após mover o pescoço de um lado a outro, Tizu desceu para sua rotina matinal. A manhã estava cinza, encoberta; havia uma névoa no ar, deixando as abóboras ainda mais na skin de Halloween. As plantações tinham uma ordem: melancias primeiro, alguns metros depois ficavam as abóboras, as blueberries, os morangos de sua mãe. Então...
Algo fez os olhos dela ficarem frios ainda na plantação de melancias.
E o olhar frio de Tizu Kil podia matar.
Quando Tayen acordou e desceu para tomar café, notou que o arco de sua irmã não estava na cozinha. Ela sempre o mantinha ali, junto com uma aljava de flechas carregada, mas as duas coisas estavam faltando, então achou melhor checar se tudo estava bem. Abriu a porta da cozinha e lá estava sua irmã, arco transpassado no corpo, aljava nas costas e dedos na terra. Tinha um carrinho de mão por perto e ela estava manejando uma pá, como se estivesse... enterrando algo?
— Tizu! O que... — Desceu as escadas, de camiseta creme com uma estampa do South Park e calça de moletom escura. Calçou um par de botas antes de descer para o quintal em si. Um traço desaprovado da sua personalidade era gostar de andar descalça pela casa, e se andasse descalça no quintal, nem sabia o que podia acontecer — O que você está fazendo?
— Vou matar aquele lobo!
— Mas que lobo você quer matar, garota?
— Esse que come as nossas melancias! Olha o estrago que ele fez essa noite — Apontou, mostrando para Tayen um buraco no meio das melancias. Várias comidas, todas destroçadas, mordidas; o lobo havia comido, ao menos, umas cinco.
— Tizu, você sabe que não faz sentido nenhum ser um lobo. Quantos lobos frutíferos você conhece por acaso?
— Eu já te disse que já vi um lobo nas nossas plantações! Pois se ele voltar aqui nas próximas noites, terá uma surpresa — Ela seguia se movendo, enterrando coisas.
— Que... surpresa? — Tayen sabia muito bem que um lobo frequentava a fazenda delas, um lobo frutífero. E não, não queria que ele morresse. Já o vira umas três vezes: na primeira, ele estava com a boca cheia de morangos; na segunda, estava sujo de blueberries; e, na terceira, havia sido na noite passada, quando o viu com uma melancia toda abocanhada. O suco escorria, molhando a pelagem do pescoço, e isso talvez a impediu de sentir medo. A cena era fofa. Apesar de o lobo ser enorme.
E Tizu finalmente olhou para ela. Fria, FURIOSA. Podiam mexer com qualquer coisa, menos com as plantações de Tizu Kil.
— Espalhei armadilhas por todas as plantações. E um pouco de veneno também. Se nada disso resolver, eu o pego com isso aqui — Mostrou o arco — Uma flechada bem no meio da cabeça para não estragar O TAPETE que vou fazer com o couro dele!
— Mas que mau-humor! É Halloween, Tizu!
— Tem momento melhor para se pegar um lobo, por acaso?! Eu vou checar nosso estoque de sucos e levar para a cidade. A safra nova de melancias geneticamente modificadas está mais doce e... — Parou um pouco, pensando — Tay, você sabe por que as frutas são doces?
— Por que as frutas são doces...?
— Sim, você sabe? É... uma arma de sedução — Disse, colhendo uma melancia e colocando no carrinho de mão — As frutas precisam ser doces porque, assim, atrairão animais que irão comê-las e, em seguida, irão "plantar" suas sementes. É assim que as frutas se reproduzem na natureza, é uma forma de perpetuarem a sua espécie.
— Você está dizendo que as nossas frutas estão mais sexys desde as suas modificações...?
— Exatamente. E por isso, devem estar atraindo esse lobo pra cá. Mas eu não planto para alimentar lobo nenhum, e menos ainda quero lobos aqui durante a nossa festa de hoje à noite. Já pensou no quão perigoso isso pode ser? Acabei de mudar a minha fantasia.
— Como assim?
— Isso aqui agora — empunhou o arco e pegou uma flecha da aljava em suas costas — faz parte da minha fantasia — Colocou a flecha no arco, mirou para frente e disparou.
A flecha voou velozmente por um quilômetro inteiro e atingiu um dos bonecos que Tizu havia pendurado nas árvores, bem no meio da testa.
— Odeio lobos e você sabe disso — E, dito isso, Tizu Kil apenas pegou seu carrinho e seguiu colhendo melancias.

E na casa que delimitava a zona rural de Salem da zona urbana, Noah Renzi estava um tanto ansiosa. Havia trabalhado o dia inteiro com seu pai, construindo uma cabana de férias perto de uma floresta. A empresa de sua família ainda construía casas de madeira, mas, quando se mudou para Nova York, foi para estudar Administração, e achava que as coisas tinham dado errado bem aí. Noah gostava de construir coisas. Seu pai era engenheiro, e ela aprendia com ele desde muito pequena. A ideia de estudar Administração havia sido para suprir uma necessidade da empresa. O negócio ia bem, mas, com certeza, podia ir muito melhor se tivessem uma administradora na família, e não mais uma engenheira.
Como havia trancado o curso, sua mãe achou de bom-tom que a aspirante a engenheira trabalhasse uns meses como carpinteira.
Coisa que Noah adorava, mas andava destruindo suas mãos, pois nunca havia sido carpinteira por tantas horas por dia. No ensino médio, assentava uma janela ou outra, ajudava numa parede, mas nunca por tantas horas seguidas. E, particularmente naquela tarde, estava difícil; havia apertado o dedo com força no alicate e estava... esfomeada. Aparentemente, nada que comia estava ajudando, e, quando finalmente conseguiu voltar para casa, não cabia em si de ansiedade pela festa de logo mais.
— Mas a conversa entre vocês foi boa, não é? — Sua melhor amiga estava deitada na cama enquanto Noah separava as roupas que iria usar. Colbie e Noah eram amigas há tanto tempo que nem lembravam muito bem como haviam começado a amizade. Eram vizinhas, foram para a escola juntas, e não tinham segredos uma para a outra. Se houvesse uma verdade sobre uma, a outra sabia; eram conectadas assim. Duas excluídas, duas garotas diferentes das demais. Isso as uniu desde o primeiro momento.
— Foi, mas fiquei nervosa. Sei que saí daqui dizendo que ia dar um jeito de falar com ela, mas quando cheguei lá, tive certeza de que não teria coragem mesmo — Explicou, sorrindo, enquanto colocava as roupas que usaria sobre a cama e atacava seu mordedor com longas dentadas. Era um mordedor mesmo, em formato de brócolis, que mordia enquanto conversava — É tão... esquisito — Parou com as mordidas um instante, olhando para Colbie — Eu gosto dela desde que me lembro.
— Você gosta dela desde quando EU ME LEMBRO. Desde o ensino fundamental. E não sei por que você nunca chegou nela. Você chega em qualquer garota, menos na que quer.
— Ela sempre pareceu uma ideia impossível! E a Tizu é esquisita pra caramba! Tenho medo daquela garota.
— Ela só é... mal-humorada, mas não deve fazer mal pra ninguém. Noah, ela te convidou para a festa, você vai estar com os nossos amigos. Se fosse para apostar, eu diria que ela está a fim de você também. Só não fica pensando demais, seja você, seja... a sexy baterista de uma banda de rock ou a dançarina altamente atraente. As garotas adoram quem você é, eu não sei por que Tayen Kil seria imune a isso. Você tem 21 anos, gosta dela desde os sete, já é tempo suficiente para descobrir se isso tem possibilidade ou não. Hum, você vai fantasiada de quê?
— De Jason, Sexta-Feira 13! — Respondeu, empolgada, voltando a morder seu brócolis — Você sabe que é tradição fantasias menos elaboradas nessas festas dos Kil, daí achei que seria uma boa ideia.
— É uma ótima ideia! Combina com o seu estilo.
— Você não pode mesmo ir comigo? Tipo, mesmo, MESMO?
— Essa é a noite das bruxas, Noah! Preciso estar com o meu coven. Faremos um ritual na floresta hoje.
— Tipo, no meio da floresta?
— Sim! Você sabe que as florestas são sagradas para as bruxas, tal como os gatos — Pegou a gatinha que estava brincando pela cama, uma lindíssima gata-preta, enorme e que odiava Noah com tudo o que tinha em si. Colbie era o tipo esquisito de pessoa que saía com uma gata na coleira por aí e a trazia para o seu quarto, mesmo a gata rosnando para Noah sempre que possível — Quando as mulheres acusadas de bruxaria eram expulsas de suas cidades, a floresta as acolhia. Era na floresta que elas construíam suas cabanas. Os gatos se tornaram seus melhores amigos porque são ótimos caçadores e mantinham essas cabanas sem ratos ou outras pequenas pragas — Seguia acariciando a gata, muito carinhosa — Elas tinham que morar lá, longe de todos, e tinham que se virar sozinhas. Plantavam para conseguir alimentos e, mesmo expulsas, atendiam quem as procurava em busca de cura.
Noah acabou sorrindo, porque Colbie nem parecia uma bruxa, parecia uma fada mesmo.
— E nesse seu ritual, você pode incluir um pedido por mim?
Colbie sorriu.
— Claro que sim! O que você quer?
— Que eu não faça nenhuma idiotice hoje. Só hoje, apenas hoje!
Colbie riu alto, e sim, disse que podia incluir tal pedido no ritual sim.
— Ok, pare de morder isso, o brócolis acabou de morrer.
— Mas está coçando muito!
— Eu sei, mas você é civilizada — Pegou o brócolis detonado da mão dela — Vou comprar um mordedor novo pra você, mas daqueles de cachorro grande, sabe?
— AH, VOCÊ DEIXA DE SER IDIOTA!
Ela riu alto e, daí, pegou Noturna, a sua gata, que ainda rosnou para Noah mais uma vez, e foi embora, ou se atrasaria para o tal... ritual. Com o coven dela. Ok, Noah se concentrou em si e na sua básica fantasia de Jason. Havia pegado a calça mais velha que usava para trabalhar, fez alguns cortes nela, um pouquinho de sangue falso. Era jeans, mais larga, preta e bem confortável. Daí colocou uma camiseta preta, então pensou que talvez fosse um bom momento para colocar seu abdômen para jogo.
Tirou a camiseta, colocou um cropped justo, também preto, mais curto, que deixava ver uma nesga do seu abdômen sem se preocupar com os oito graus que a noite prometia como temperatura máxima. Checou o casaco de tecido pesado, também havia caprichado nele: tinha lama e sangue falso. Botas nos pés e, por fim, a clássica máscara de hóquei. Era branca, mas Noah havia achado mais divertido pintar de preto, sua cor preferida. Tinha um machado pequeno que fazia parte da sua fantasia, mas era uma arma de verdade, e estava se perguntando se isso não seria demais. Terminou de se vestir, pegou dois pares de baquetas, vestiu o casaco pesado, colocou a máscara e, quando ia saindo do quarto, recebeu uma mensagem de Colbie:
“Você está indo para a fazenda dos Kil. Leve o machado, diga que é falso, mas leve.”
Noah riu. Saiu do quarto, deu dois passos e voltou.
Pegou o machado, isolou a lâmina, tirou o casaco e o colocou nas costas, por dentro do seu top. Casaco por cima e pronto, ninguém precisava saber. Se soubessem, bem, é apenas Halloween, não é?

E a festa estava, simplesmente, INACREDITÁVEL!
Sim, estava frio, tiveram que separar uma área para casacos, mas tanto a decoração externa quanto a interna estavam incríveis! Tinham abóboras decoradas por todos os lados, tinha sangue falso espalhado pela entrada, da porteira até a porta principal, passando pelas paredes. O vermelho do sangue fazia um contraste incrível com a madeira preta que tinha sido pintada recentemente. Havia uma cópia de uma placa icônica da cidade pendurada logo na entrada, escrita “Witch House 1642”. Os galhos secos das árvores atuavam por si só. Um caldeirão enorme de bruxa explodia algo vermelho-lava bem no meio do jardim, e quando Noah passou pela porta principal, ah, sim, aquela festa era tão icônica como a cidade inteira comentava!
Havia um banquete enorme: cupcakes com cobertura de cereja vibrante, black lemonade, cachorros-quentes com salsichas em formato de dedos, pipocas com rastros vermelhos, mini pizzas temáticas, sanduíches com cara de envenenados e muito ponche da bruxa, de todos os tipos, um mais esquisito que o outro. Inclusive, logo na entrada, tinha um balde com gelo com diversas garrafinhas coloridas e vibrantes, com uma plaquinha “pick your poison”, ou seja, “escolha a sua poção”. Escolheu uma e a festa já estava rolando. Sua banda estava no palco, mas ainda ajustando os instrumentos, enquanto uma determinada DJ colocava todo mundo para dançar.
Noah ainda deu mais uma olhadinha para trás antes de entrar. Tinha dois caras esquisitos agindo... feito cachorros? Era isso mesmo. Sorriu para aquela correria, abriu sua garrafinha de suco — o cheiro de morango veio inebriante de tão bom —, os dois caras passaram correndo de novo e Noah ouviu uma risada. Daí, deu uma olhada na direção da risada e encontrou Tizu há alguns metros de si. E ela estava deslumbrante.
Vestia algum tipo de roupa ancestral chinesa: uma espécie de calça larga preta, junto a uma camisa branca, também tradicional, de mangas até abaixo dos cotovelos, perfeitamente posta para dentro da calça, e um lindíssimo quimono por cima, vermelho-bordô-escuro, com uma faixa larga amarrada na cintura e um peitoral preto. Os longos cabelos negros soltos, os olhos angulados e afiados, e podia jurar que ela não estava usando nenhuma maquiagem. Estava deslumbrante, era bonita assim. E altamente assustadora. Especialmente rindo. Ela estava com um arco cruzado no corpo e uma aljava nas costas, que parecia carregada com flechas de verdade. E de repente, por um segundo, a mente de Noah piscou em preto e branco, como se tivesse tirado dela uma fotografia antiga. Piscou os olhos, balançando a cabeça, saindo daquela sensação estranha. Não se disseram nada, apenas se olharam, mas de alguma maneira, Noah realmente se sentiu mais segura, sentindo seu machado nas costas.
Entrou e tampou a garrafa de suco novamente, subitamente lembrando do que Tayen havia dito sobre não beber nada feito por Tizu. A decoração dentro da casa estava insana. As luzes apagadas e as paredes brilhavam, como se fossem luminol ou algo assim. Havia manchas como se fosse sangue, algumas frases escritas, do tipo “você é o próximo”, letras escorrendo, “apenas saiba que isso não vai embora se você se esconder”, “bebeu da poção da bruxa? Saiba que você foi envenenado”, e enquanto se divertia com as frases escritas com sangue falso, os olhos de Noah foram magneticamente atraídos na direção da DJ.
Fones de ouvido, uma improvisada roupa de colegial: minissaia plissada preta, camisa de botões branca, gravata, sangue falso pela camisa e presas de vampira na boca. As presas mais realísticas que Noah já havia visto na vida, inclusive, pareciam as...
Deixou o pensamento para lá. Estava acontecendo, sua mente já tinha sido completamente invadida por Tayen Kil.
Era como se houvesse drogas naquela garota; era impossível desviar os olhos dela. Sempre havia sido a mesma sensação, tão intensa que Noah sequer conseguia explicar muito bem. Ela estava LINDA! Cabelos soltos, uma maquiagem leve — nem precisava de muito para ficar tão bonita —, basicamente era só aquele rostinho lindo e um batom vermelho naqueles lábios volumosos. Estava com os fones de ouvido, curtindo a música demais, sorrindo sem conseguir parar. As presas de vampira expostas. Tal como o traje tradicional chinês parecia vestir Tizu perfeitamente, de alguma forma, aquelas presas também pareciam se encaixar em Tayen perfeitamente.
Noah colocou a sua máscara ao contrário, para trás, descartou o suco e pegou um refrigerante de limão, em lata, perfeitamente lacrado. Mas não abriu, ficou com a lata na mão, apesar do ar gelado que estava circulando pela sala. Mesmo lotada de jovens dançando freneticamente, a sala dos Kil seguia gelada, mas não era algo que Noah sentia. E nem que Tayen parecia sentir. Ela estava com as pernas de fora, a camisa de botões era finíssima e estava parcialmente aberta, a gravata frouxa.
Noah sorriu, lembrando do ensino médio. Tay era muito popular, estava sempre cercada de pessoas, mas adorava escapar sozinha para ouvir música em algum lugar. Então, aquela imagem dela com fones de ouvido era algo que guardava em suas memórias-conforto preferidas. É certo que devia ter se apaixonado por ela ainda no ensino fundamental, mas foi quando se reencontraram no ensino médio que tudo mudou. E tinham se encontrado assim: Noah escapando da sala de aula e Tayen fugindo de uma aula de educação física para ouvir música sozinha. Elas se olharam naquele dia, mas não se disseram nada; achava até que ela havia pensado em dizer algo, mas Noah acabou se afastando de tão ansiosa que ficou. Mas era confiante agora. Havia ido para Nova York e a melhor parte da cidade foram as garotas. Bastava ser ela mesma, que aquela noite podia ser única.
Os olhares se encontraram enquanto Tay ainda estava tocando. Olhos nos olhos, sorrisos trocados. Noah abriu seu refrigerante e se misturou no meio da pista de dança. Dançar era algo que adorava, mas que raramente fazia em público. Será que podia dançar ali? Era lua cheia, seus dentes estavam coçando, estava morrendo de fome e só...
A lua sempre teria efeitos sobre Noah Renzi.
Virou a máscara para o seu rosto e, de repente, Jason - Sexta-Feira 13, estava dançando bem no meio da pista. E não é que estava apenas dançando, ela estava dançando pra caramba! Com passos precisos de break, de pop, aquele tipo de dança que pede e recebe espaço, que atrai a atenção enquanto “Bad Habits” ecoava dentro daquela mansão secular. E Tayen viu, claro que viu. Viu, sorriu, filmou Jason deslizando habilidosamente naquela coreografia bem no meio da sua sala. E ela tinha uma cintura gostosa, um abdômen firme e dançava daquele jeito, coisa que Tay jamais imaginou. Aham, Tizu queria lhe convencer de que Noah era uma escolha ruim. Não era antes, menos ainda agora. Deixou a pick-up tocando uma playlist e foi para a pista. A música já tinha mudado, Jason havia sido muito aplaudida e...
Um maluco passou correndo pra fora, dizendo que tinha formigas na roupa dele. Tizu. TIZU! Enfim, deixou pra lá e chegou até Noah. Agora estava tocando “Tainted Love”, Marilyn Manson, e quando ela se aproximou, só...
O coração de Noah disparou no peito. Jurava por tudo que ela havia ouvido, de alguma forma, de algum jeito, e em dois movimentos, subitamente, Tayen estava bem na sua frente. Corpo muito próximo ao seu, Noah levou a mão à sua máscara, mas dedos ancoraram na sua nuca, e aquela boca com presas grudou no seu ouvido:
— Não tira a máscara. Você fica à vontade com ela, não é?
— É... sim.
— Você é a única pessoa que não parou de usar máscara facial depois da pandemia — Tay sorriu, dava para sentir — A gente pode conversar depois que você tocar?
— Sim, é... — Coração a ponto de explodir e outras partes suas também — Claro que sim.
Ela se afastou e abriu aquele sorrisinho lindinho com presas.
— OK! Acho que a sua banda está te requisitando no palco, eles estão te chamando. Você nem ouviu, né?
— Eles... — Olhou na direção deles, estavam mesmo lhe chamando — Não ouvi! Tudo bem, eu... É, vou lá.
— Vai — Olhos muito nos olhos — Estou louca para te assistir!
De alguma maneira, Noah encontrou o caminho até o palco, com o coração disparado e as mãos suando.
— Você está atrasada! E ainda decidiu dançar antes de subir — Reclamou seu colega de banda.
— É que foi irresistível — Falou sorrindo, já tirando a máscara, pegando suas baquetas e retirando o machado das costas; não tinha como tocar assim.
— Isso é um machado de verdade?!
— Não, claro que não! Fiz para compor a fantasia. Tudo bem, estamos prontos? — Noah tirou o casaco e se sentou à bateria.
— Você não vai nem aquecer a voz?
— Já estou aquecida — Na verdade, estava fervendo por dentro, a ponto de começar a achar que aquilo podia não ser seguro. Nunca saía em noites de lua cheia, muito menos no Halloween, mas já estava ali de qualquer maneira, e aquela noite seria dela, estava decidida — Vamos, então?
O vocalista a olhou e assumiu o microfone principal. A música eletrônica parou.
— Somos a Terrori e vamos tocar um pouco de rock para vocês! — Dito isso, a bateria insana de Noah começou a tocar.
"The Emptiness Machine", Linkin Park.
E um rock furioso encheu aquela casa, fazendo todo o público pular ao som pancadão da música. Sim, a baterista sem casaco não passava despercebida, atraía mulheres como um ímã, bem como Tayen lembrava. Infelizmente, aquelas garotas não teriam mais chances depois daquela noite.
Carne fresca, gostosa e pulsante. Era sua preferida. Como seria o gosto do sangue dela?
E a voz rasgada no refrão era toda de Noah. O vocalista dava um passo para o lado e simplesmente a deixava brilhar.
— Let you cut me open just to watch me bleed! Gave up who I am for who you wanted me to be… Don't know why I'm hoping for what I won't receive! Falling for the promise of the emptiness machine! The emptiness machine...
Deixo você me cortar só para me ver sangrar! Desisti de quem eu sou para ser quem você queria... Não sei por que espero pelo que não vou receber! Seduzida pela promessa da máquina do vazio... A máquina do vazio...
E Tayen saiu do meio. Todo mundo havia corrido para perto do palco, mas ela se afastou um pouco para pegar um lanchinho especial que sua irmã havia feito: docinhos vermelhos em um potinho de cozinha!
— Ela está cantando sobre… — Era Tizu, aparecendo do nada e pegando um docinho especial do pote.
— O chamado do vazio. Sobre aquela sensação de se dar tudo para alguém e saber que não receberá nada de volta — Respondeu Tayen, com os olhos grudados em Noah no palco. Ela cantava energicamente, jogando o cabelo, os braços firmes com as baquetas, SEXY PRA CARAMBA!
E Tizu olhou bem para sua irmã:
— É sobre um maldito celular.
— Como…?
— Essa música toda, a máquina do vazio, é um celular, garota! Esse que te faz de refém — Disse, pegando outro docinho especial — Hum, até que ela é talentosa nisso.
— Garanto pra você que ela tem outros talentos — Tayen deixou um beijinho no rosto de sua irmã, e quando ia voltando para perto do palco, Tizu a puxou de volta — Tizu!
— Seus olhos estão vermelhos. Coma mais ou vai acabar comendo a coisa errada.
Talvez ela tivesse razão. Então, comeu mais, apesar de não sentir que estava funcionando. Terminou seu potinho e voltou para perto do palco.
I only wanted to be part of something, I only wanted to be part of, part of...
Eu só queria fazer parte de algo, eu só queria ser parte...
A banda tocou mais oito músicas, incluindo uma autoral chamada “Howl”, “Uivar”, uma pancada bem ao estilo deles, que Noah cantava praticamente sozinha. Ok, adorava a voz dela, adorava o cabelo castanho comprido e o estilo tomboy que ela fazia sem sequer se esforçar. Adorava os lábios volumosos, que lhe davam vontade de beijar, e Tayen apenas sabia que, se não a pegasse naquela noite, ia acabar enlouquecendo de tanto tesão ou algo assim. Era lua cheia, era... Halloween.
E assim que ela desceu daquele palco...
— Podemos ir para o seu carro? — Perguntou imediatamente, fazendo Noah suar frio.
— É que, bem... eu não tenho carro.
E Tayen abriu um sorriso lindo naqueles lábios vermelhos com as presas de vampiro.
— Achei mesmo que você ia me dizer isso — Disse, já pegando aquela baterista sexy pelo punho e a levando para outro lugar, enquanto uma garota esquisita GRITAVA que tinha uma bruxa atrás dela.
— Daí nós vamos...?
— Para o meu carro. Você quer vir?
— Eu... Sim, claro que sim!
— Então... — A olhou e abriu outro sorriso — Vamos correr um pouco?
— Correr...?
E era para correr mesmo. Passaram o mais rápido possível pela sala, percorrendo teias de aranha falsas pelo caminho. Saíram na cozinha e, da cozinha, foram para o quintal, onde Tayen fechou a porta imediatamente. Os olhos de Noah percorreram as melancias. Havia deixado seu machado no palco, lembrou de repente.
— Por algum motivo, minha irmã odeia você. Você fez algo para ela? — Perguntou, agora pegando Noah pela mão, fazendo-a descer as escadas e seguir caminhando. Agora sem correr, mas caminhando rápido. E de mãos dadas.
— Eu? Não! A gente nunca se falou, mas sinto que ela não gosta de mim mesmo.
— Tizu não gosta de ninguém também. Às vezes, é tudo gratuito e...
— AH, MEU DEUS!
— O que foi?!
— Aquilo... está muito realístico! — Noah havia olhado em outra direção de repente e visto pessoas balançando em uma árvore.
— Ah, são só bonecos.
— Parecem humanos!
— Eu sei, ela é... esquisita mesmo — Chegaram a um Toyota RAV4 preto, e Tayen abriu a porta — Preparei um lanche para você.
— Você...? — Os olhos de Noah brilharam. Ela havia acabado de esquecer os humanos realísticos pendurados nas árvores.
— Sim, notei que não teríamos versões vegetarianas na festa. Minha família é bem carnívora — Apontou o banco do passageiro, onde Noah podia entrar. Ela entrou, e Tayen deu a volta no carro rapidamente, indo para o lado do motorista, onde também entrou.
— A minha família também.
— Sério? Isso deve ser difícil.
— Muito! Eles não entendem muito bem, enfim — Noah olhou para ela, que se movia pelo carro e alcançou algo no banco de trás: uma caixa.
— Como não ia ter nada vegetariano, eu preparei esse lanche para você — Ela abriu a caixa e aquilo colocou um sorriso enorme no rosto de Noah.
— Mesmo? — Eram várias tangerinas descascadas, disfarçadas de abóboras, com um cabinho verde nelas. E também tinha bananas cortadas ao meio, de pé, disfarçadas de fantasminhas, com olhos feitos de...?
— São confeitos, os olhos. E esse cabinho verde das tangerinas são pedacinhos de aspargos.
Noah ainda estava muito surpresa.
— Tayen, acho que... essa é a coisa mais legal que alguém já fez por mim — Encarou os olhos dela e viu que as presas não estavam mais ali — Você... tirou os dentes de vampiro?
— Sim, é... você não viu?
— Na verdade, eu... — Não deu tempo de completar o pensamento, porque de repente, muito rapidamente, Tay colocou suas frutinhas de Halloween de lado e subiu no colo de Noah. Rápida, gostosa, sexy para caramba! — Tayen, é... — Seu coração disparou por completo.
— Você pode dizer que não, tá? Mas quero muito te beijar, se você também quiser.
Era o que mais queria há ANOS. Mas não sabia se ainda teria controle caso a beijasse. Os olhos grudados naquela boca vermelha, absurdamente hipnotizada, com o corpo dela todo colado ao seu e...
— Dane-se! — Noah a agarrou pela cintura e a beijou.
Sem pensar em nada, apenas nela, a pegou intensamente, sentindo aquele corpo delicado no seu. Ela era toda curvilínea, gostosa, cheirosa, tinha a pele quente e estava, muito claramente, muito, mas muito excitada. Espera, aquilo estava acontecendo mesmo, ou...?
— Tay, é que... — Suas mãos foram para as coxas dela, praticamente sozinhas.
— Gosto de você desde o ensino médio. Você pode abrir a minha blusa, se quiser.
— Ai, meu p... — Ia dizer uma obscenidade, mas se conteve. Ahhh, odiava a lua cheia! Sempre ficava esquisita na lua cheia, acabava dizendo obscenidades, e Tayen...
— Mas é só se você quiser — Ela repetiu, mordiscando sua orelha — Você também gosta de mim, não é? Sua amiga me disse que gosta.
— A Colbie falou com você?!
Tayen riu, deslizando os dedos por aquele abdômen gostoso.
— Eu falei com ela. Queria te convidar para vir à festa, chamei sua amiga também, mas ela disse que estaria envolvida em outro compromisso. Ela não consegue mentir. Perguntei se você gostava de mim, e ela confirmou. Posso tirar sua blusa? Ainda que a gente não faça nada, eu só quero sentir você um pouco.
Noah tirou o cropped, ficando apenas de top esportivo, e então pegou Tay delicadamente pela cintura. Começou a abrir a camisa que ela vestia, botão a botão, o que a fez rosnar um pouquinho, de olhos fechados, jogando a cabeça para trás. Suas grandes mãos a despindo, sua boca no pescoço dela, com os corpos muito grudados um no outro.
— Estou faminta — Tayen disse de repente, de olhos fechados, enquanto os dedos abriam a calça de Noah. As bocas se beijavam de novo e de novo, num ritmo lento, gostoso, mas que estava fazendo o coração das duas disparar.
E ambas podiam ouvir.
— Você quer comer uma frutinha ou...?
Sorriso de Tayen.
— Eu não acho que suas frutinhas podem acalmar a minha fome — Terminou de tirar a gravata, a camisa também, e os olhos de Noah só...
Mudaram. Algo fez os olhos dela ficarem quentes, a respiração acelerar, os braços se apertarem naquela cintura enquanto olhava para os seios de Tay no sutiã preto que ela usava.
Outro sorriso de Tayen.
— Você gostou deles?
— Sim, eu... estou ficando... — E Tay a pegou pela nuca e beijou aquela boca de novo, mas desta vez, forte, firme, puxando o lábio de Noah com os dentes de uma maneira que...
— O quê? — Puxou o lábio dela e o abriu, só um pouquinho, um fiozinho de sangue, onde colocou imediatamente a língua para sentir. O coração de Noah acelerava mais, sua respiração também, com aquele corpo forte que parecia estar lutando contra ela mesma.
— Atordoada — Enfiou a boca no decote de Tay, colocando a língua, chupando forte, agarrando-a firmemente, e seus dentes... Anf! — Desculpa, eu... não mordo. Foi só uma marca. Você sentiu que eu te mordi ou...?
Sorriso de Tayen. Aham, ela havia mordido bem em cima do seu seio.
— Você não morde?
— Não, foi um acidente. Sinto muito!
— Eu que sinto muito, Noah Renzi!
— Pelo quê?
Os olhos de Tayen se tornaram vermelhos, e as presas estavam de volta à sua boca.
— Porque eu mordo.
E assim que Noah puxou aquela calcinha de lado e cravou seus dedos dentro dela, os dentes de Tayen Kil entraram em sua pele.

Notas da Autora: Tessa Reis
Olá, assinantes! Como estamos?
Como já é de conhecimento de vocês, eu amo o Halloween tanto quanto a Brooklyn, e sendo assim, personagens assombradas vivem rondando a minha mente.
Não existe data melhor para elas nascerem do que no Dia das Bruxas!
“Dentada” é o nosso primeiro mini-book de Halloween e estará disponível no dia 31/10!
Espero que tenham curtido a leitura.
Beijos assombrados!
Tessa.

"me desculpe, mais eu mordo!" UAU... incrível.🦊