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Drácula de Tessa Reis 1




Drácula de Tessa Reis: Run from the sunlight


Minha namorada pode ser uma vampira.


Aham, eu sei como isso soa. Eu também achei absurdo no começo.


Mas, quando você namora alguém que desaparece antes do amanhecer, nunca atende o celular durante o dia e pede bife quase cru em todo restaurante... você começa a considerar algumas possibilidades.


Sou louca por ela, você nem faz ideia. Mas estou começando a me cansar de fugir dos raios de sol com ela a cada amanhecer.


Fazia cinco minutos que Raisa, sua melhor amiga, estava imóvel e em completo silêncio bem na sua frente.


Estavam na The Slow Bakery, em Botafogo. Era um dia de chuva, e Sabine se perguntava se, ao menos assim, Austin sairia de casa durante o dia. Não sua melhor amiga, e sim sua namorada.


Sabine sabia que devia parecer loucura, mas tudo o que andava acontecendo parecia apontar para a mesma direção. E, apesar de soar como uma grande loucura, não podia deixar de considerar que:


Um, aquela era a sua vida; e dois, Austin, a esquisita que fugia do sol, era o seu amor.


E menos ainda podia ignorar a conclusão para a qual tudo parecia apontar: a sua lindíssima namorada era uma...


— Ok, por que a gente não marca uma psicóloga pra você? — Foi assim que Raisa quebrou os cinco minutos de silêncio absoluto.

— Mas você não está me ouvindo!

— Sabine, você que não está se ouvindo, pelo amor de Deus! Você... — ela baixou o tom, inclinando-se sobre a mesa — você realmente está falando sério?

— Você acha que, se eu não pensasse que era sério, estaria aqui me expondo ao ridículo dessa maneira?! Sei que você deve estar me achando maluca agora, mas é que... olha, tudo começou quando eu estava lendo esse livro aqui — Tirou um exemplar de “Drácula”, de Bram Stoker, da bolsa.

— Ah, uma obra de ficção do século XIX. Prossiga...

— Tudo bem! Deve ser mesmo uma obra de ficção, mas dizem que foi baseada em fatos reais. Mitos que atravessam o tempo dessa forma geralmente são baseados em fatos reais e...


Raisa ergueu a mão, pedindo um segundo.


— A culpa é minha.

— Como...?

— A culpa deve ser minha. Olha, Sabine, ela é bonita mesmo.

— Você diz...?

— A Austin. Sei que fiquei pegando no seu pé, tentando reduzir a beleza dela, mas preciso admitir que ela é uma das mulheres mais lindas que já vi de perto.


Sabine sorriu.


— Ela é, não é? Olho para ela e não consigo acreditar no quanto ela é linda!

— Mas é uma beleza humana. Se a gente procurar aqui no Rio, deve achar uma garota tão bonita quanto ela. É só questão de procurar. Ela é bonita, mas é humana, OK?

— Não! Não é por causa da beleza que estou achando que...

— Ela é uma vampira?

Shsss! Não diga isso em voz alta. Tive várias pistas em todo esse tempo que estamos juntas, Raisa, e você não pode me dizer que, nesses seis meses, eu tenho um namoro comum.

— Bem, comum-comum não é mesmo. Você continua sem saber onde ela mora?

— Continuo! Ontem, depois de muito insistir, consegui convencê-la a dormir comigo no meu apartamento.

— E como foi?

— Ah, maravilhoso! Ela é uma gostosa. Eu nunca vou conseguir colocar em palavras o quanto a Austin é boa de cama, ela é tipo...

— Tudo bem! Essa parte eu já sei, você vive repetindo em qualquer oportunidade. Mas ela dormiu com você no seu apartamento, já é algo, não é?

— Seria, se ela não tivesse desaparecido antes do amanhecer! Ficamos juntas, foi super gostoso, daí peguei no sono depois que a gente fez amor e acordei com um bilhete no lugar dela na cama!

— Tipo, ela só...?

— Sumiu! Procurei nas câmeras de segurança, e não tem nada gravado.

— Está me dizendo que...?

— As câmeras gravam por movimento, mas não gravaram nada dessa madrugada! Sei que isso deve soar como muita loucura, mas tudo isso está acontecendo, sabe? — Sabine tomou outro gole do café — Você podia ao menos me ouvir antes de me internar.


Raisa chamou o barista e pediu outro macchiato.


— Tudo bem, eu vou te ouvir. Vamos do começo. Você conheceu a Austin naquela balada, seis meses atrás.

— Lembra de como ela estava linda? Dançando sozinha no meio da pista, de óculos escuros!

— Ela parecia uma estrela de cinema, sei lá. As sombras deixavam tudo tão... dramático. E tinha a rosa vermelha.


Sabine jamais esqueceria daquela cena. Estavam na boate em que iam sempre, que ficava no rooftop mais alto da cidade, com uma vista mais do que privilegiada para a orla da zona sul. Então, algo mudou na atmosfera. Era como se todo mundo estivesse olhando para o mesmo ponto: aquela garota linda, dançando de óculos escuros no centro da pista. Ela estava toda de preto, a pele parecia brilhar de tão bonita, os cabelos longos e escuros, e havia aquela sensação esquisita de que cada pessoa naquele lugar estava... presa na gravidade dela.


Era isso. Austin era uma garota magnética.


— Ela te entregou a rosa — Raisa lembrou.

— E eu ainda tenho aqui — Sabine abriu o livro numa determinada página; a rosa estava lá dentro — Foi o melhor primeiro encontro da minha vida. Mas o tempo foi passando, e a gente só se encontra de madrugada, Raisa.

— Mas não deve ser só assim também, amiga.

— É exatamente assim! Olha aqui, são as nossas conversas do WhatsApp. Eu só consigo falar com ela a partir das dezenove, pode ver — Entregou o celular na mão dela — Ah, não olhe as fotos!

— Meu Deus, isso tudo são nudes...?!

— A gente gosta de trocar, ENFIM. Olha os horários em que ela me responde, não importa a hora em que escrevo, ela sempre me responde depois das dezenove. Sair para um encontro? Somente depois das dezenove. Olha as nossas fotos, só tem foto de noite. Eu nunca vi a Austin no sol. Você não acha isso muito estranho, não? A gente mora no Rio de Janeiro!

— Ela... nunca vai à praia?

— Vai, mas de madrugada! A gente teve um date incrível outro dia, às três da manhã, na Praia de Ipanema.

— E você só...?

— Fui! Porque ela é irresistível, eu me sinto tão segura com ela.

— Tem que sentir mesmo para ir à praia às três da manhã no Rio de Janeiro! Ok, essa parte é esquisita mesmo.

— E quando a gente vai a restaurantes? — Sabine falou, pensativa.

— É esquisito também?

— Ela pede coisas tipo chouriço e morcela.


Raisa se recostou na cadeira.


— O que é morcela?

— É uma linguiça feita com sangue de porco e miúdos! Você acredita? Ela ama morcela.

— Mas que nojo!

— E ama galinha à cabidela.

— Meu Deus...!

— Eu te falo, tem umas coisas bem esquisitas! Ela ama vinho e suco de romã, qualquer coisa vermelha numa taça.

— Isso é o que ela te diz, né?

— Como...?

— Ela diz que é vinho ou suco de romã. Mas quem toma suco de romã?

— De que lado você está, garota?!

— Eu não sei! Você está me dizendo todas essas coisas, e agora estou começando a achar a Austin meio esquisita também. Você realmente não consegue falar com ela durante o dia...?

— Não consigo. Olha aqui, já mandei cinco mensagens hoje, ela só vai me responder depois das dezenove.

— São 18h58 agora.

— Pois ela vai me responder depois das dezenove.


Raisa respirou fundo.


— Sabine, eu sei que você vai odiar ouvir isso, mas talvez a Austin só seja casada.

— Claro que não é isso, Raisa!

— E se ela for casada, mãe de dois filhos? Vive uma vida hétero durante o dia e, durante a noite, sai pela cidade pegando gostosas em balada. Você sabe que era a garota mais gostosa daquela balada.

— Isso é verdade.

— Então, e se ela for só uma serial gostosa? Isso explicaria todo esse mistério.

— Ela tem rede social, Raisa.

— Quem garante que só tem uma? Se ela for articulada nesse negócio de pegar gostosas, deve ter mais de uma. O Instagram dela é fechado, ela se recusa a tirar fotos.

— Não é assim também.

— Ah, ela se recusa, sim! Sempre tem uma desculpa e, quando aceita, sai toda disfarçada nas fotos! Ela... só deve ter uma vida dupla, Sabine. O que ela diz sobre não te responder durante o dia?

— Diz que trabalha muito e o trabalho não permite que ela fique com o celular.

— Que trabalho não permite celular, Sab? Sei que você está muito apaixonada, mas essa garota só parece estar... enrolando você.


E Sabine ficou triste.


— Não deve ser isso.

— Vampiros não existem, amiga. De qualquer maneira, diante de tudo isso que você me disse, você precisa tomar uma decisão. Não dá para namorar alguém assim, de quem você não sabe onde mora, com quem não pode contar durante o dia. Você nem sabe o nome dela ainda.

— Eu sei o nome dela.

— Você... sabe? Porque Austin não deve ser o nome.

— Não, é sobrenome. Ela se chama Lana, mas não combina com ela. Daí usa Austin.

— E você já procurou por uma Lana Austin na internet?

— Sim, não encontrei nada. Quero dizer, tem um registro de uma Lana Austin de Almeida, aprovada na UFRJ.

— E tem foto?

— Não tem foto — Bufou. O celular deu sinal — Aqui! Ela respondeu.


Raisa checou o horário.


— São 19:01.

— Eu digo pra você! Ah, não, ela está no hospital — Sabine começou a digitar bem rapidinho.

— No hospital?

— Sim! Tomando sangue, olha — Mostrou a foto enviada. A safada realmente estava... tomando sangue.

— Mas por quê?

— Eu não sei! Eu... preciso ir até lá, Raisa.

— Não, garota! Você está maluca? Você não tem que ir a lugar nenhum. O marido dela pode estar lá!


Sabine riu.


— Ela me pediu para ir. Isso não é bom? Ela está se abrindo um pouquinho! Eu só preciso ver se ela está bem.

— Sabine, você me chamou aqui porque acha que está namorando uma vampira!

— Eu sei, mas... ela precisa de mim.

— E se ela for perigosa?

— A Austin?

— Sim! E se ela for perigosa, garota?!

— Ela... não é. Eu não sinto que ela seja. Na verdade, nunca me senti tão segura com ninguém antes. Eu só preciso entender tudo isso — Disse, já guardando o livro — Ela é perfeita, Raisa. A não ser por esses detalhes. Preciso ir.


“Quem é você, Austin?” Era a pergunta que Sabine se fazia toda vez que a encontrava. Se fez novamente quando, naquela noite, encontrou a namorada recebendo sangue na emergência de um hospital refinado. E meio vazio. Tudo parecia tão abandonado ali naquela ala.


— Austin! O que aconteceu?

— Oi, meu amor — Ela abriu um sorriso na direção de Sabine, mesmo estando claramente fragilizada. Quem poderia julgá-la também? Austin era praticamente o anúncio perfeito de uma vampira: pele pálida, cabelos escuros perfeitos, lábios cheios e vermelhos. Linda. Como ela podia ser tão bonita assim? — Que bom que você veio.


Sabine a beijou imediatamente, se colocando ao lado dela na poltrona em que estava.


— Claro que vim. Está tudo bem?

— Estou, foi só... um mal-estar. Daí precisei de um pouco de sangue. Desculpa ter saído antes de você acordar, tive uma emergência.

— Li o seu bilhete.

— E não ficou muito chateada? Quero compensar. Hoje podemos ir jantar, quando eu sair daqui, dar uma volta pela orla, ver a noite! O que você acha?


Sabine queria questionar sobre mais um encontro noturno. Queria perguntar sobre a emergência que a fez sair tão cedo, o motivo de não haver nada na câmera de segurança. Reparou no médico ao fundo da sala. Ele não parecia preocupado.


Na verdade, parecia acostumado.


Devia perguntar sobre isso. Devia recusar outro encontro noturno. Mas, no final das contas, só disse...


— Até antes do amanhecer?


Austin sorriu lindo. Sempre ouvia dizer que a namorada perfeita não existia, mas isso havia sido antes de Sabine existir. Linda, saudável, sempre corada. Deu uma olhadinha na bolsa de sangue, quase finalizada. E outra na sua lindíssima namorada. Corada.


Tão corada.


— Sempre, meu amor. Prometo que o nosso encontro de hoje vai ser inesquecível.


Sabine e Austin
Sabine e Austin 🩸

Notas da Autora: Tessa Reis


Olá! Como estamos por aqui?


A Ana e eu sempre trabalhamos com um objetivo principal em mente: melhorar o nosso clube de assinantes. E sabem por quê? Porque, não importa a tempestade que tenha nos atingido nos últimos anos, a verdade é que nossos assinantes sempre estiveram aqui, desde o tempo em que o conteúdo da Tessa Reis era feito de escassez e caos. hahaha


Mas isso ficou para trás e, hoje, podemos entregar para vocês o melhor momento do clube. A partir de agora, teremos não só uma, mas duas postagens semanais, duas histórias diferentes, e começamos por esta aqui: “Drácula”, de Tessa Reis, ambientada no Rio de Janeiro e com um plot bem impossível.


Se é para contar uma história em poucas palavras, ela precisa ser rápida e um pouco absurda. 😌


Me contem: o que acharam do capítulo 1? E o que acharam do novo produto do nosso clube?


Voltamos dia 26/3!

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4 comentários


miryacfaustino
22 de abr.

Sabine é das minhas, prefere acreditar em vampiros do que em uma traição.

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Daiani Mantovani
Daiani Mantovani
20 de mar.

Sofria de tristeza por ser apenas uma história semanal. Feliz demais com a notícia. ❤️❤️❤️

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Carolina 🪐
Carolina 🪐
20 de mar.

LET’S GO VAMPIRES


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Adriana Evangelista
Adriana Evangelista
20 de mar.

Será com certeza mais um grande sucesso esses Minicontos...Esse já chegou chegando! Depois de Dentada, as vampiras continuarão sendo "amorzinho" nas escritas da Tessa!😜

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