Relicário 1
- Riesa Editora

- há 5 dias
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Camila
Mudou de música tão rápido que quase passou o sinal vermelho!
Que reação havia sido aquela? Era só uma música. Não podia lhe fazer mal ou lhe tirar um pedaço. Mas, de maneira inconsciente, irracional e até ridícula, no fundo achava que, ouvindo aquela música — que costumava ser sua e dela —, mais um pedaço do seu coração poderia ser pinçado para fora.
E sentia que tinha ficado tão pouco dele depois do término.
Respirou fundo após frear com tudo no sinal. Respirou sentindo seus batimentos descontrolados, fora de ordem. Fechou os olhos castanhos por um instante, tentando voltar a si.
Aconteceu.
Soltou o ar pela boca e desligou o som.
Três meses e nada melhorava. Nem sua ansiedade, nem sua tristeza. Havia parado com suas atitudes desesperadas para tê-la de volta, mas isso não ajudou em nada a se sentir melhor. Havia bloqueado Camila nas redes sociais, bloqueado o número dela, tirado da sua frente todas as coisas que ainda estavam em seu apartamento e que podiam lhe remeter a ela. Porém, não podia escondê-la da própria mente.
Nem dos próprios sentimentos.
O sinal abriu e Theodora seguiu em frente. Dirigia mais devagar agora, tentando acalmar o coração disparado pela inocente música que surgira em sua playlist. Estava ali ainda, escondida, como tantas outras coisas de Camila deixadas para trás.
Que fragilidade era aquela?
Quase vergonhosa para uma mulher forte como ela.
E enquanto pensava nisso, na fragilidade, nas coisas não esquecidas, tentava se recompor… mas foi descomposta outra vez:
Por uma linda garota parada em um ponto de ônibus.
E tudo aconteceu muito rápido. Tão rápido que nem Theodora conseguiria contar direito. Foram segundos, não mais do que isso, com certeza.
Teve seus olhos roubados por aquela beleza. Sua atenção se perdeu nela. Foi doce, foi denso, e então ficou amargo.
Uma enorme tensão desceu pela sua garganta e, quando percebeu, lá estava: uma estrutura de ferro surgindo absolutamente do nada!
Maldita arquitetura da obstrução. Arquitetura hostil, defensiva, qualquer nome que fosse. Maldita fosse!
Pisou no freio, tentou desviar, mas não daria.
Theodora saiu da pista, passou em cima de uma série de tachões metálicos na calçada e decolou contra um hidrante na esquina. Apenas prendeu a respiração e esperou pelos airbags. A pancada foi seca.
O cinto de segurança a segurou para trás, mas seu pescoço chicoteou para frente e sua testa bateu contra o volante. Só então os airbags abriram.
— Theodora!
Ah, tinha esse outro detalhe também.
A garota bonita que lhe roubou a atenção era sua ex-namorada.
Foi uma enorme confusão.
Theodora ficou confusa, zonza, mas estava bem. Na verdade, estava mais chocada consigo mesma por ter visto Camila na rua e achado que era outra garota do que pelo fato de ter batido num hidrante.
Estava desnorteada por ela. Perdida com o que havia acontecido.
Alguém disse que ia ligar para a emergência. Não queria, estava bem. Queria ligar para o guincho, resolver o hidrante. E, quando conseguiu sair do carro e ver o tamanho do estrago… Era tudo o que precisava. Um prejuízo daquele tamanho.
Não faltava mais nada. Ah, faltava sim. Camila não ter ido embora.
Ela não podia simplesmente ter ido? Fingido que não a conhecia, ao invés de ficar ali presenciando toda a sua desventura?
— Deixa isso pra depois, Theodora. O problema é que você está machucada. Se você não quer chamar a emergência, vem comigo, tem uma farmácia logo ali — Camila falou preocupada.
— Eu vou chamar um Uber, Camila. Só quero ir pra casa.
— Eu posso cuidar disso. Sou paramédica, esqueceu?
Camila olhou nos olhos dela, aqueles olhos que conhecia tão bem. E Theodora parecia tão… tão arredia. Tão irritada, tão avessa. Suavemente, tocou o braço dela.
— Theo, vem comigo…
Theodora olhou bem para ela, vendo tudo o que tanto amava. A pele amendoada em tom de chocolate belga, os grandes olhos castanhos, os traços delicados, os cabelos longos e encaracolados. Seu coração enfraqueceu, mas tirou o braço do toque dela.
— Eu não quero que você faça isso!
Camila a encarou. Surpresa. Irritada. Magoada…?
Theodora achou ter visto mágoa.
— Por que você está me odiando tanto? Eu não fiz nada pra você.
Havia terminado tudo. Um namoro de quase oito anos. Como ela podia achar que não estava fazendo nada?
Theodora virou o rosto de lado e sentiu que ia chorar, mas se proibiu. Não demonstraria nada perto dela, Camila não merecia. Mas acontecia que aquela garota costumava ser o amor da sua vida. E ler a sua alma era algo que ela fazia todos os dias.
Camila pegou sua mão, porque sabia que Theo não iria afastá-la, não iria dizer que não.
Ela pegou a sua mão e a levou consigo, porque sabia que, por dentro, era a coisa que Theodora mais queria.
— Para, vem comigo, Theo.
Theodora não iria se questionar ou se julgar. Apenas aceitou ir. Teria que esperar o guincho de qualquer forma. Estava zonza, sua cabeça doía. Não iria a muitos lugares sozinha.
Camila a deixou sentada em um banco da praça e foi até a farmácia. Comprou algumas coisas e voltou, sentando-se à sua frente para limpar o corte em sua testa. O susto havia sido maior do que os danos.
— O que aconteceu? Você perdeu a direção? — Ela perguntou enquanto limpava o ferimento.
— Eu… me distraí.
— Devia estar olhando para alguma garota. Eu conheço você muito bem, Theo.
— E se eu estivesse olhando, o que você tem com isso? — Falou furiosa.
— Nada, foi só uma observação — Respirou fundo, jogando a cabeça para trás por um instante. Como estava difícil — Theodora, escuta… a gente não pode continuar assim. Não faz o menor sentido. Não é justo com o que a gente viveu.
— Terminar não é justo com o que a gente viveu, Camila. Terminamos porque eu queria ir pra Cusco e você para o nordeste. Olha como isso é ridículo!
— Nós não terminamos por isso, este foi apenas o último motivo. Tenho refletido muito neste tempo em que você me cortou da sua vida. Passamos oito anos juntas, mas a verdade é que estamos juntas desde que nascemos. Nós somos primas, Theodora. A minha vida toda eu tive você por perto. Você é todas as minhas primeiras vezes, todos os meus momentos relevantes. E isso acabou nos tornando uma pessoa só, em vez de duas.
— Mas não é isso que tanto se busca em relacionamentos, se tornar um?
— É… mas não deveria ser assim. Somos duas pessoas, Theo, com desejos e vontades diferentes. Você não ter vontade de fazer uma viagem pelo nordeste não deveria me condicionar ao mesmo, porque tenho vontades, eu existo e quero realizar os meus sonhos, ainda que alguns deles você considere bobos ou desnecessários. São os meus sonhos, entende? Outra pessoa não deveria mudar o meu destino de férias apenas porque acha que escolheu um destino melhor.
E Theodora tinha mudado.
Tinham combinado de ir cada uma para um lugar, já que não chegavam a um consenso. Então, ela simplesmente apareceu com duas passagens para Cusco. E nem havia sido a primeira vez.
— E isso não é culpa sua, antes que você se defenda — Camila continuou — Você agia assim por querer ficar comigo, é uma vontade sua. Mas acho que, em algum momento, nossas vontades conflitaram.
— Conflitaram porque hoje eu amo mais você do que você me ama.
— E antes eu sempre amei mais você do que você me amava. Nós desequilibramos, entende? E o que está desequilibrado não tem como continuar de pé. É assim que nascem relacionamentos abusivos. Eu amo você demais para que a gente se torne abusivas uma com a outra. Eu quero você bem. Quero que seja feliz sempre. Acaba comigo pensar que você pode não estar feliz por algum motivo. Você é parte de mim. Se você não está completamente feliz, eu nunca estarei completamente feliz.
Aquilo pegou Theodora de surpresa.
— Você… você não me odeia?
— É claro que não, Theo. Você é minha melhor amiga. Está me faltando um pedaço ficar sem você.
Theodora ficou quieta, sentindo, estranhamente, seu coração ficar mais leve. Porque Camila tinha razão. A verdade é que ela estava com bastante razão.
Respirou fundo e perguntou se ela podia comprar um suco. Estava meio tonta ainda. Ela perguntou se não podiam ir juntas a uma cafeteria e comer alguma coisa, como já haviam feito milhões de vezes.
Achava que podiam sim. Então, foram até uma cafeteria não muito longe. Pediram coisas que costumavam pedir juntas: suco verde, tapiocas, pão com manteiga, porque Theodora jamais conseguiria comer tão verde quanto Camila fazia.
Sempre admirou isso nela. Admirava muitas outras coisas também.
Camila era sua prima por parte de pai, sua família da parte que veio de uma comunidade que teve que lutar muito mais para conseguir alguma coisa. Era preta, linda, empoderada. Médica formada em faculdade federal, concursada em primeiro lugar em sua primeira tentativa de concurso. Liderava projetos desde muito jovem, era engajada em ações sociais.
Theodora só tinha muito orgulho dela. Da mulher que ela se tornou, das conquistas. Achava agora que, no final das contas, só gostaria de poder continuar sentindo orgulho dela em paz.
Conversaram um pouco mais enquanto Theo a desbloqueava de suas redes sociais, tirava o número dela da restrição e dizia que ela podia pegar as coisas que ainda estavam no apartamento, aquele em que havia proibido Camila de entrar.
— Mesmo?
— Acho que pensar que você estava me odiando era todo o meu problema. Eu amo você, Camis. Não tenho que me sentir culpada por amar. Somos mais do que um namoro.
E essa simples frase colocou, enfim, um sorriso amplo naquele rosto que Theodora tanto admirava.
— Nós somos. Então… será que posso te levar pra casa?
Ela podia.
O guincho chegou. Camila pediu um Uber para o antigo endereço, que ainda estava salvo no aplicativo como “casa”. Explicou que era difícil para ela também. Que romper não era simples. Que sofria, chorava à noite, tinha medo. Era complicado.
— Mas você está feliz, Camis? — Perguntou enquanto ainda estavam no carro.
— Felicidade é algo muito relativo. Estou me encontrando ainda.
Theo quis perguntar se ela estava se encontrando sozinha, mas sabia que não deveria. Então, Camila respondeu sem precisar de pergunta, abrindo um sorriso.
— Sozinha, está bem? Eu não te deixei por causa de ninguém. Melhor… foi por alguém, por mim mesma.
Theodora abriu um pequeno sorriso. Havia sido bom ouvir aquilo.
Subiram para o apartamento que havia sido delas por tanto tempo, e foi mesmo difícil para Camila. Era seu apartamento. Na verdade, o apartamento delas. Conseguido com muito choro das duas. Precisavam morar mais perto de onde estudavam, mas as famílias não viam o namoro com bons olhos, e o apartamento era da família de Theodora.
Até hoje, Camila não sabia exatamente como Theodora tinha feito Alberta — a irmã mais velha — abrir mão do apartamentinho de sala, cozinha e quarto único, mas ela abriu mão.
E a mãe de Camila se acalmou sobre a relação. O pai finalmente entendeu que não adiantava lutar contra algo que era impossível de parar.
— Você e a Theo são como aquele meteoro que extinguiu os dinossauros — Ele resumiu no dia em que Camila saiu de casa.
E eram. Tinham sido, ainda eram, ainda seguiam.
Então, o apartamento…
Boa parte da vida de Camila estava ali. Não era apenas pegar suas coisas, porque havia coisas que ela simplesmente não podia pegar.
As lembranças. As risadas. Os momentos de felicidade. O amor que costumavam fazer pelo apartamento inteiro.
Como se recolhe esse tipo de coisa?
— Como você consegue continuar aqui? Eu não conseguiria.
Theodora deu de ombros.
— Acho que vai ser mais fácil agora.
Esperava que fosse.
Levou o dia inteiro. Tinham chegado perto da hora do almoço e Camila se dispôs a preparar algo. Deixou um bolo no forno para que Theo tivesse algo para o café da manhã. Fez outros exames visuais e de percepção. Ela parecia bem. Um corte pequeno na testa, um roxo no rosto por causa do airbag. Aparentemente, o acidente havia acontecido apenas para que pudessem conversar. O universo tem dessas. E a energia viaja. Havia lido isso uma vez, escrito em um quadro em algum lugar. Pegou suas coisas e se despediram com um longo abraço.
E, antes que se afastasse, no seu ouvido, Theodora confessou baixinho:
— A garota bonita que eu estava olhando era você.
Riu, mas riu muito.
— Então fui a causa de você bater o carro?
— E a causa pela qual eu andava batendo a minha vida. Obrigada por todas as coisas.
— Theo…
Camila a olhou e os olhos se encheram.
— Se eu precisar de você por qualquer motivo… você… você viria?
Theodora respondeu, a abraçando muito forte.
Choraram um pouco, juntas, muito agarradas uma na outra.
Ok. O relacionamento estava muito ruim, mas a relação…
A relação entre Camila e Theodora sempre seria igual. Simplesmente sabiam.
— Eu vou, para qualquer coisa. Eu vou.
E assim, Camila finalmente partiu.

Notas da Autora: Tessa Reis
Oi, gente!
Nosso presente de Dia das Mulheres atrasou um pouquinho, mas finalmente chegou!
Entre as histórias que já tínhamos, buscamos algo que pudesse ser realmente especial e encontramos Relicário. Essa história precisou sair da Amazon por conta do formato em que estava publicada, e nós ficamos com o desejo de dar um novo lar para essas queridas, para continuarem disponíveis com o carinho que merecem.
E agora esse espaço existe. Temos a nossa própria casa, e espero que vocês aproveitem esse romance que mistura cura, amores que não duram para sempre e possibilidades infinitas. 💘
Espero, de coração, que vocês curtam esse presente!
Grande beijo,
Tessa.

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