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Trilha Macchiato



Quando você cresce, o seu coração reduz de tamanho e morre.


Ace realizou tudo o que sonhou. Tornou-se modelo e atriz especializada em cenas de ação, construiu uma carreira internacional e se mudou para a cidade onde sempre quis viver.


Mas existem sonhos que cobram um preço.


Quase oito anos após deixar Londres e encerrar o relacionamento mais importante de sua vida, Ace descobre que algumas histórias simplesmente se recusam a terminar. Um comentário inesperado em uma de suas publicações faz ressurgir um nome que acreditava ter perdido para sempre: Delta Cascon.


Na adolescência, elas foram rivais antes de se apaixonarem. Na vida adulta, seguiram caminhos completamente diferentes. Ace se tornou uma figura pública; Delta escolheu desaparecer do mundo. Sem redes sociais, sem explicações, sem uma verdadeira despedida.


Agora, por uma dessas coincidências que parecem destino, as duas voltam a existir no mesmo mapa.


Separadas por uma fronteira.


Unidas por um sentimento que talvez nunca tenha ido embora.


Entre crises de ansiedade, lembranças de um amor interrompido e a difícil tarefa de descobrir quem se tornaram após tantos anos, Ace precisará enfrentar uma pergunta que nunca teve coragem de responder:


É possível reencontrar alguém que, na verdade, nunca deixou de morar dentro de você?


Macchiato é um romance sobre reencontros, primeiros amores, saúde mental, segundas chances e sentimentos que permanecem quentes mesmo depois de muito tempo — como um café esquecido sobre a mesa em uma tarde fria de inverno.




Nome: Ace Kong-Villa

Nascimento: 01/05/1998, Cidade de Singapura - Singapura

Signo: Touro

Profissão: Atriz e modelo. Especialista em cenas de ação e artes marciais.

Bio: Ace, uma estrangeira na cidade que chama de casa, aprendeu a se defender desde muito cedo. Ela não leva desaforo para casa. Afiada, inteligente, ameaçadora, você não quer estar no caminho dela.

Apelidos: Vivi, kitten, abelha-rainha, vespa-mandarina, anti-heroína


Bio: Ace, uma estrangeira na cidade que chama de casa, aprendeu a se defender desde muito cedo. Nunca levou desaforo pra casa. Afiada, inteligente, ameaçadora, você não quer estar no caminho dela.


Uma frase que a define: "Bad, but kitten (ou seja, Má, mas gatinha 🤏🏼)."

Uma música que ela seria: Drama - Aespa

O que esconde por baixo da pele: A Ace feroz da adolescência, hoje é apenas uma sombra na Ace do presente.

Por onde andou: Cidade de Singapura, Madrid, Londres, Los Angeles, Nova York



Nome: Delta Micaela Cascon

Nascimento: 01/04/1997, Quito - Equador

Signo: Áries (o que pode dar errado, não é?)

Profissão: Engenheira Civil e Historiadora. Especialista em catedrais antigas.

Apelidos: Selvagem, deadly beautiful, piranha de rio amazônico, furacão sul-americano


Bio: Delta é bonita como o seu país de origem e mais inteligente do que você e eu juntos. Bolsista, sempre brigando em busca da melhor educação possível, e isso inclui enfrentar uma determinada abelha-rainha se ela começar a ferroar em cima do seu objetivo.


Uma frase que a define: "Existem mil maneiras de se calar uma boca bonita."

Uma música que ela seria: I knew You Were Trouble - Taylor Swift

O que ela esconde por baixo da pele: Delta seguiu o caminho seguro e agora sente falta de ter sonhos.

Por onde andou: Quito, Londres, Paris, Nova York, Montreal





Legado


“Quando você cresce, o seu coração reduz de tamanho e morre.

A mente afunda, e os sentimentos te afogam. E o que acontece quando você escolhe o sonho errado e o realiza? Acontece de você crescer e seu coração reduzir de tamanho e morrer. Ou pior: ele sobrevive, mas agoniza dentro de você. Eu estou agonizando. De novo. Agora mesmo.”


Ace fechou os olhos e tentou conter todas as emoções dentro de si.


O coração disparado, o corpo suando apesar do inverno em Nova York. Os olhos escuros se moviam depressa de um lado para o outro, enquanto as mãos trêmulas tentavam segurar o celular.


O Twitter estava aberto na postagem que ela precisava fazer. Por que aquela cidade era tão ruidosa? Até o sotaque das pessoas a incomodava. Tinha o inglês como língua nativa, havia nascido em Singapura, filha de pai singapurense e mãe hispano-britânica, mas, em momentos assim, sua mente simplesmente não conseguia compreender muito bem o sotaque da cidade.


Às vezes, um sonho se torna um pesadelo, e Ace parecia estar vivendo o auge dos seus naquele mês de dezembro.


Ajustou a respiração, tentando se acalmar, e seu pedido chegou. Estava em uma Paris Baguette Bakery Cafe perto do apartamento, mas a verdade era que nem pretendia parar ali. Havia saído de uma filmagem na qual foi içada por cabos de aço durante uma cena de ação, percorrendo cerca de trinta metros em um ângulo parabólico. Fez tudo aquilo com absoluta tranquilidade.


Mas, quando entrou no metrô...


O ataque de pânico começou a tomá-la. Seu coração acelerou, as mãos começaram a suar dentro do casaco, e a única coisa em que conseguia pensar era chegar em casa antes de começar a chorar. Mas não conseguiu. As lágrimas vieram ainda na rua, e entrar no café foi quase automático. Escolheu uma mesa perto da vidraça, pediu uma pequena baguete recheada e um macchiato.


Um macchiato de caramelo servido em uma xícara transparente, com as cores se misturando: marrom, caramelo, rajadas de branco-neve. Agradeceu à moça que o trouxe e então respirou muito fundo, fechando os olhos novamente. “Macchiato quer dizer ‘manchado’ em italiano. Não lembra nós duas? Visto assim, contra a luz?” Ace apertou a mandíbula, sentindo a respiração pesar no peito. Ainda ouvia aquela lembrança, com a voz dela ecoando em sua mente.


Era como um legado que não ia embora.


Abriu os olhos, tomou mais um gole do macchiato e, finalmente, conseguiu fazer a postagem. Era um dos looks que havia usado na filmagem: um vestido vermelho e brilhante, os cabelos presos em um coque, o rosto limpo em destaque. Os lábios volumosos, os olhos angulados e alongados, os fios castanho-escuros. Era uma beleza mestiça que intrigava e vendia. Não sabia se já podia se chamar de atriz, mas, em Nova York, havia se tornado uma modelo capaz de atuar em pequenos filmes de ação, como o comercial de perfume que estava gravando naquela semana. Sua aparência também lhe proporcionou algo muito importante na carreira que havia escolhido: popularidade.


Quanto ao restante, inesperadamente, as artes marciais continuavam fazendo o trabalho por si.


Postagem feita, e as notificações começaram a explodir quase imediatamente. Ainda precisava publicar algo no Instagram, mas isso teria que ficar para mais tarde, para quando seu coração parasse de bater tão forte. Será que August estava em casa? Se estivesse, será que poderia ir buscá-la? Só de pensar nisso, seus olhos se encheram. Não acreditava que ainda estava passando por aquilo, não acreditava que...


Quando percebeu, já estava ligando.


— Não, está tudo bem, mas é que... — Nem precisava completar. Do outro lado da linha, August sabia muito bem do que se tratava. Não tinha uma semana em que Ace não tivesse uma crise e precisasse de ajuda. Precisasse se sentir segura. A amiga apenas ouviu e disse que já estava descendo.


Por que não podia amá-la devidamente?


Abriu a bolsa lateral e tirou de lá seu fichário de capa mole e transparente, cheio de recortes, desenhos, clipes e marcadores. Soltou o botão e abriu o bloco de folhas guardado dentro dele. Pegou uma caneta e começou a escrever sem pensar muito. Sua letra era enérgica, irregular.


“Duas pessoas com uma conexão impossível de romper nunca conseguirão cortar o fio invisível. Mesmo que se afastem por muito tempo, mesmo que se desentendam, se desencontrem ou até cheguem a se odiar; mesmo que se neguem, o sentimento sempre estará lá, vivo, ainda que o coração morra, a mente afunde e os sentimentos afoguem. O fio sempre existirá, mesmo que em agonia.”


Outra longa respiração, e uma bela moça atravessou a porta da cafeteria.


Calça preta, casaco longo da mesma cor, blusa creme por baixo e um cap de marinheiro sobre os cabelos claros. August era musicista: tocava guitarra em uma banda de pop-rock e violoncelo em uma orquestra de teatro. Essa dualidade era algo que Ace adorava.


— Você desceu mesmo — Ace se levantou para abraçá-la, afundando o rosto no peito da amiga.

— Claro que sim. Você não precisa de mim? — August aspirou o perfume dos cabelos dela, mantendo-a nos braços — Espera, vou pegar um café pra mim também.


Deixou que ela fosse fazer o pedido, e logo August estava de volta, com um cappuccino fumegante nas mãos. Tirou o casaco e o cap, mexeu nos fios, jogando os longos cabelos para o lado, e se sentou diante de Ace.


— Olha aqui pra mim. Está mais tranquila?

— Eu acho que sim. Sempre fico com vergonha depois que te ligo, sabia? Porque parece... automático.


August riu.


— Eu surjo e a situação desaparece, como num passe de mágica! Você precisa admitir que tenho meus encantos e poderes, Ace — Ela respondeu, sorrindo demais.

— Eu nunca deixei de admitir isso — Ace finalmente, conseguiu abrir um sorriso, sentindo o nó da ansiedade começar a se desfazer por dentro — O que... o que atrapalhei desta vez?

— Nada. Eu estava me vestindo para descer. Ia vir pegar um café.

— Mesmo?

— Mesmo. Eu me arrumei porque ia para o teatro, mas o ensaio acabou sendo cancelado. Daí, ia descer para pegar um café aqui e matar um tempo antes de sair mais tarde para tocar. Me conta, como foi a sua filmagem?


Ace abriu outro sorriso, embora os olhos ainda estivessem aflitos e o rosto, limpo de maquiagem. Sabia o que a amiga estava fazendo: tentava distraí-la dos pensamentos ruins. E sempre funcionava. August era muito doce, a melhor amiga do mundo todo.


— Hoje foi uma cena de ação, com um vestido de festa. Bati em um cara enquanto estava de salto alto.

— Amo esse tipo de cena! — August abriu um sorriso enorme, porque o que Ace fazia era sempre divertido — E o que mais?

— Voei por cima do Arco dos Soldados e Marinheiros.

— Mas tem uns trinta metros de altura!

— Tem, né? Acho que nunca fui içada tão alto assim — Abriu outro sorriso — Foi bem legal. Voei e, depois, saltei de costas lá de cima. Acho que o resultado ficou muito bom.

— E então...?


Ace respirou fundo outra vez. Havia visto um homem de capuz, todo vestido de preto, no metrô, e aquilo a desequilibrou.


— Eu só... comecei a ficar nervosa dentro do metrô.

— Se sentiu ameaçada, algo assim? — August tocou a mão da amiga com carinho.


E os olhos de Ace se inundaram, mas não transbordaram.


— Você não tem que se cobrar por causa disso, Ace. Não é culpa sua. Cada coisa tem seu tempo, e eu acho você incrível porque o que aconteceu não te parou. Você é, de longe, a garota mais corajosa que eu conheço.

— AG, eu acabei de te ligar chorando, pedindo pra você vir me buscar aqui, e a gente mora na esquina.

— E o que uma coisa tem a ver com a outra? Eu já te liguei chorando para ir me buscar em lugares muito piores — Disse, fazendo Ace rir um pouco.


Então, de repente, o olhar de August se prendeu a algo no celular que havia deixado sobre a mesa. Tinha aberto o Twitter para conferir as postagens de Ace daquela semana, curtiu o tweet e continuou rolando a tela no automático, apenas para ler os comentários, como sempre fazia.


Foi quando algo se destacou. Franziu o cenho, conferindo se estava enxergando direito.


— O que foi? — Ace perguntou.

— Eu acho que... a sua ex respondeu a uma postagem sua.

— A minha o quê?!

— A sua ex — August clicou no perfil, @deltasinistmo, procurando alguma foto. Só havia a imagem de perfil — Hum, gostosa.

— August, de quem você está falando...?

— Da única ex que você considera ex, a que tem a coroa vitalícia de sua ex-namorada! — Respondeu, rindo.


E o coração de Ace parou dentro do peito.


— Mas como é que... — Não, não devia ser ela. Claro que não era — Por que você acha que é ela?

— Porque não deve haver muitas garotas por aí chamadas Delta. Aqui, não é ela? — August mostrou a foto de perfil, e aqueles olhos eram inconfundíveis.


Era ela, de máscara facial preta, boné, cabelos longos e escuros, camiseta preta e jaqueta de couro. O tipo de foto inspo, candid, que ela sempre amou tirar. Era Delta. Delta Micaela Cascon, a própria.


— É... é ela — Ace disse, sem conseguir afastar os olhos da imagem. Sua boca secou e mal conseguiu acreditar que...


Caramba, era ela mesmo!


— Você nunca me disse que ela era bonita assim! Dá para ver o quê? Uns dez por cento desse rosto, e já dá para saber que ela é muito bonita.

— Ela... ela é bonita mesmo. Sempre foi. Eu nunca te disse que ela era bonita...? — Ace estava claramente surpresa.

— Você nunca me diz nada sobre a ex! Eu não disse pra você? Ela devia acompanhar você em alguma rede. Da mesma forma que não há muitas Deltas por aí, também não há muitas Aces. E Ace Kong-Villa só tem uma.

— Você não entende. A Delta sempre detestou redes sociais — Mantinha os olhos presos à imagem dela e, quando pegou o celular das mãos de August e navegou um pouco pelo perfil, descobriu que só havia mesmo aquela foto de Delta. Ela até publicava imagens, mas eram aleatórias, nunca de si mesma, o tipo de fotografia que alguém apaixonado pela arte registrava por aí. Ace sempre foi a fanática por selfies, e Delta era justamente o contrário.

— Então ela está na rede de todos os low profiles: o falecido Twitter.

— AG, o que... o que ela comentou?

— Espera, vou voltar para achar aqui — August pegou o celular novamente e retornou até o tweet que havia encontrado — Aqui — Devolveu o aparelho a Ace.


O tweet, na verdade, era de outro perfil, @followthisriver, que havia marcado @deltasinistmo com a mensagem: “É por isso que você ainda sonha com ela.” A moça escreveu aquilo em resposta a uma foto de um ensaio de beleza que Ace havia feito naquela semana. Na imagem, o rosto estava em destaque, com uma maquiagem muito natural, algo angelical, muita luz e os cabelos longos e soltos. Ace havia adorado particularmente aquela foto. E a resposta de @deltasinistmo dizia: “A que preço você me expõe do nada assim na internet, menina? E se ela vir isso?” Logo abaixo, @followthisriver respondeu: “Com 300k de alcance e umas 4 mil respostas? Ela só lê se o destino quiser que ela leia! Modelos famosas não leem contas irrelevantes, garota. 😛”


Agora, o coração de Ace batia com tanta força que o som a ensurdecia.


— Ela...?

— Te acompanha! Ela vê o seu trabalho e, aparentemente, mesmo tantos anos depois, ainda sonha com você. Há quanto tempo vocês terminaram?

— Faz... — Ace respirou muito fundo, agora realmente nervosa — August, eu preciso de água.

— Espera, eu pego pra você — August se levantou para buscar a água, e Ace tomou o celular de volta para ler tudo outra vez.

August retornou com a água.

— Convencida de que é ela mesmo?


Ace abriu a garrafinha e tomou longos goles, sentindo a pressão afrouxar um pouco em sua garganta.


— É ela. Eu só não achei que... ela me acompanhasse. Ela não me segue, acabei de olhar.

— Segue, mas à distância. Quer apostar quanto que ela tem um perfil fake, Ace? O tipo de perfil que ninguém sabe quem está por trás. Ela deve seguir você por outro perfil.

— É que... o nosso término...

— Foi muito ruim?

— Na verdade, foi quase inexpressivo. Ela é muito fria quando quer, AG. Não esboçou grande reação, apenas me deixou ir embora.

— Mas foi você quem terminou, não foi?

— Foi, porque ela sempre deixou claro que não queria um relacionamento à distância. Mas eu esperava que, sei lá, ao menos tentasse. Nós não estávamos no nosso melhor momento, mas, ainda assim... — Ace não conseguia parar de olhar para aquela foto de perfil.


August tomou outro gole do café. Conhecia a amiga havia três anos, e tudo o que sabia sobre Delta foi arrancado após muita insistência. Era como se Ace guardasse aquela parte de sua vida apenas para si. Mas agora ela estava falando.


— Vocês eram muito jovens, não eram?

— Sim, isso foi no final do ensino médio.

— No final do ensino médio, Ace?!

— Sim, por quê?

— Porque você sempre me disse que não a procurava porque, primeiro: ela é low profile, e você nunca encontrava nada sobre ela. E, segundo: porque achava que ela ainda estava chateada com você pelo término.

— Mas ela deve estar, AG.

— Ace, isso faz pelo menos uns sete anos!


Ace riu um pouco.


— Você não sabe como a Delta é.

— Inexpressiva é diferente de rancorosa. Amiga, vocês nunca mais se falaram mesmo?

— Nunca mais. Depois que saí de Londres, ela desapareceu. Nós ainda nos falamos por mensagem por algum tempo, mas depois ela simplesmente... me afastou. Explicou que não era o momento de continuarmos nos falando, pediu tempo, espaço, disse que poderíamos voltar a conversar depois. Mas o tempo passou, eu dei o espaço e esperei que ela voltasse, que me mandasse uma mensagem, que me ligasse. Quando tentei fazer tudo isso, descobri que ela havia trocado de número.

— Mas que filha da mãe!

— O pior é que ela é justamente o contrário disso. Pode ter vestido a máscara da inexpressão, mas sei que a magoei demais. Sei que ela queria que continuássemos juntas. Eu havia prometido que seria assim. Mas, no fundo, só estava ganhando tempo para ver se conseguia fazê-la mudar de ideia sobre vir pra cá comigo. Sei que aquilo doeu nela, porque doeu em mim também.

— Ainda dói, você quer dizer.

— Também não é bem assim, AG.

— Ah, claro que não! Ace, nós duas não conseguimos dar certo porque existe essa ex-fantasma pairando sobre você — August disse, sem irritação, apenas apresentando um fato. Ace e August haviam terminado dois anos antes — Cada pessoa que se aproxima de você acaba sendo submetida a uma comparação injusta com essa ex-vitalícia, com quem você mede todas as outras. Não dá para competir com ela quando a mulher é um fantasma. Agora entendi isso melhor. É uma relação que não terminou.

— Terminamos há quase oito anos.

— Então, adivinha quem está agora aqui nesta mesa, entre nós duas, mais uma vez?


Ace respirou fundo e fechou o fichário transparente.


— Ela ficaria INSUPORTÁVEL se soubesse disso — Abriu um sorriso, porque era a mais pura verdade.

— Ela ficaria? A menina ainda sonha com você, e a amiga entregou tudo aqui. Ela é cheia de si?

— Você nem faz ideia — O rosto de Ace se abriu num sorriso.

— Achei que ela fosse uma nerd low profile.

— É uma nerd low profile cheia de si — Continuava correndo os olhos pelos tweets de Delta.

— Ace?

— O quê?

— Manda uma mensagem para ela.

— Eu?!

— Não, eu, por acaso. Você! Amiga, você não disse que tentou falar com ela depois?

— Disse. Tentei mesmo.

— Pois agora você tem como falar. Ace, já parou para pensar que ter essa história mal resolvida pode não fazer bem a você?

— AG, eu já estou muito ferrada sem contar com a Delta — O olhar permanecia preso ao celular — Será que... ela voltou pra Quito?

— Quito? Onde fica Quito?

— Quando dizem que estadunidense não estuda geografia, a situação é séria.

— Ace! Onde fica...?

— Fica no Equador.

— O Equador fica perto da sua cidade?


O que eles ensinavam nas aulas de geografia, afinal?


— O Equador fica na América do Sul, e a minha “cidade” é um país chamado Singapura, que fica na Ásia, August!

— Ah! E o que vocês duas faziam em Londres? Porque Londres fica em outro lugar, não é?

— Ai, meu Deus! — Ace respirou fundo, se divertindo um pouco — Cresci em Londres, e a Delta era intercambista.

— Nesse colégio importante que você frequentava.

— Isso — Continuou correndo os olhos pelos tweets dela e então... — August, ela está morando aqui!

— Como?

— Ela está morando em Nova York! Olha este tweet — Mostrou a tela para ela.


“Um mês nesta cidade e ninguém para me levar para conhecer as Cataratas do Niágara. Preciso fazer amigos...”


— Ok, isso é alguma coisa — August decretou.

— Como assim, isso é alguma coisa?

— Um sinal, Ace! Do nada, eu encontro o perfil da sua ex e, depois, a gente descobre que ela está morando bem aqui, em Nova York?

— E nunca me procurou — A tristeza se espalhou pelo rosto de Ace.

— Como não? Ela comentou na sua foto.


Ace respirou fundo. Será que...?


— Isso... isso é coisa demais. Deve estar errado.

— É ela aqui? — August apontou para o fichário.

— Como...?

— Tem uma foto escapando do seu fichário, amiga.


Ace olhou. Tinha mesmo.


— Ah, essa foto deve... deve ter se soltado.


Delicadamente, August puxou a foto para fora. Era claramente uma fotografia de anuário, daquelas tiradas para os livros de fim de ano, e uma garota de traços nitidamente andinos posava com aura de modelo. O uniforme tradicional, os cabelos perfeitamente penteados, o olhar reto, quase químico de tão intenso.


— Meu Deus, é ela?


Ace riu.


— Ela tem presença, né? E só tinha dezessete anos aqui.

— Você anda com a foto de anuário dela no seu fichário?

— Eu só não sei por que faço essas coisas — Respondeu, guardando a foto de volta cuidadosamente. A mantinha dentro de um sleeve e não sabia como havia escapado de lá.

— Você guarda a foto dela como se fosse um dos seus photocards do V ou da Rosé.

— Eu sei, eu só... não quero perder essa foto. Perdi todas as outras — Os olhos se encheram e Ace apertou os lábios — O que pode acontecer se eu escrever para ela?

— Eu não sei. Mas olha quantas coincidências. Se você conseguir matar essa culpa, talvez ainda dê para salvar alguma coisa mais valiosa.

— Tipo...?


August apontou através da capa transparente do fichário, onde se lia, na letra nervosa de Ace:


Ligação de alma não se desfaz.


Começou a chover do lado de fora.


Ace apertou os lábios com força, mantendo a respiração linear. Sabia bem que, naquele momento, era uma mulher desmontada em muitas peças por dentro, mas era possível que a primeira ruptura tivesse acontecido justamente quando Delta havia ido embora.


Ou quando foi embora de Delta.


Por que saía dos lugares que amava?


Ao mesmo tempo, Ace podia estar quebrada, fragilizada, mas covarde não era.


Pegou o celular.


“Oi, lover.”






Notas da Autora: Tessa Reis


Como estamos por aqui?


Voltamos com o nosso conteúdo de terça-feira e com uma história que já foi muito pedida e muito bem recebida por vocês. ❤️


“Macchiato” está de volta! Uma história muito querida pelas leitoras que estão aqui há mais tempo e bastante pedida por quem chegou mais recentemente.


Tenho percebido que a melhor parte de revisitar esses textos, escritos durante a minha fase de transição literária, é que todos eles ainda têm muito espaço para crescer. São quase como textos experimentais, que comportam muitas melhorias e, ao mesmo tempo, revelam detalhes da minha escrita que talvez eu tenha deixado de lado, mas que são ótimos de retomar. 💘


Nosso horário de terça volta a ser habitado! Retornamos na próxima terça-feira, dia 4/8!

1 comentário


Yaseulrene
Yaseulrene
há 2 dias

Não acredito que finalmente vou conseguir ler essa história 🥺🫶🏽

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