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Trilha Nude

há 7 dias
5 min de leitura


Por Bianca Tagliatelle


Quando eu tinha dezesseis anos, absolutamente do nada, apareceu uma menina nova na minha escola.


Eu digo que foi do nada porque, onde eu morava, isso não costumava acontecer. Estudei praticamente a minha vida toda com as mesmas pessoas e, de repente, chegou essa menina de nome esquisito. Duna. E ela parecia bem habituada a pessoas pegando no pé dela por causa do nome. Meus amigos fizeram isso e acho que ela pensou que eu faria o mesmo, porque, assim que tentei me aproximar, ela me repeliu totalmente.


Mas, como o destino é um adolescente metido a engraçadão, de alguma maneira, nossos pais se apaixonaram e, quando me dei conta, estávamos morando juntas. Eu e a Excel, apelido que carinhosamente acabei dando a ela quando percebi que Duna era uma maluca por organização.


Ela era organizada num nível preocupante. As roupas tinham ordem, os livros tinham ordem, os temperos tinham ordem... Tenho quase certeza de que, se pudesse, ela organizaria as nuvens do céu por tamanho. Eu tentava deixar a vida dela um pouco mais divertida, mas ela insiste em dizer que eu tentava mesmo era acabar com a sanidade dela. Acho que a verdade está em algum lugar no meio.


O casamento dos nossos pais durou caóticos dois anos em que aquela casa não teve paz porque Duna e eu estávamos sempre brigando. Mas, quando eles se separaram e ela e a mãe foram embora, eu me senti tão vazia que dava até medo de olhar para dentro.


Nunca mais nos vimos. Dez anos se passaram. 


O destino segue sendo um adolescente engraçadão. 


Após ser despejada, voltei para a casa em Ilhabela achando que encontraria um lugar vazio onde pudesse colocar a vida nos trilhos outra vez. Em vez disso, encontrei Duna me olhando como se eu fosse a própria definição de “problema”. E, sinceramente? Talvez eu seja.


Agora dividimos a mesma casa outra vez. Ela continua guardando tudo no lugar exato. Eu continuo espalhando farinha pela cozinha inteira. Ela diz que sou um desastre doméstico. Eu prefiro pensar que sou uma pessoa criativa.


Nossa vida de brigas seguia exatamente como há dez anos. Mas isso foi só até o dia em que, no meio de uma discussão que continuou por mensagem, Duna me enviou um nude.


Não era para mim. Eu sei. Ela sabe.


Mas, porra...! Agora eu não consigo parar de pensar no maldito nude. Nem na mensagem carinhosa que acompanhava a foto. E você nem sabe! A outra menina também se chama Bianca. Tipo, quem é essa outra Bianca para quem Duna estava mandando nudes e sendo carinhosa, hein?


Você já deve ter percebido que estou com problemas. Desde o nude, eu nem consigo mais brigar direito. Só fico olhando para ela feito uma idiota e surtando internamente por causa da outra Bianca. O que será que está acontecendo comigo? E por que eu não consigo mais infernizar Duna como sempre fiz?


Não sei o que fazer. Eu só posso estar maluca.


Mas, estando maluca ou só desregulada, nada disso explica o fato de eu não conseguir parar de pensar nela. E talvez isso nem seja uma coisa atual.

Por Duna Medeiros


Aos dezesseis anos, fui obrigada a dividir uma casa com a garota mais insuportável que já conheci.


Ela era barulhenta, impulsiva, caótica e parecia existir com o único objetivo de testar a minha paciência. Bianca era o nome dela. Eu estava longe da minha cidade, numa casa nova, vivendo uma vida nova, e ela parecia existir apenas para me atormentar, totalmente determinada a não facilitar a minha vida nem um pouquinho. Quando achei que já era ruim o suficiente ter que lidar com ela pelos corredores do colégio, nossos pais se apaixonaram, e eu acabei presa no pesadelo de morar com ela.


Dois anos depois, nossos pais se separaram, fui embora com a minha mãe e achei que nunca mais a veria. Parecia o plano mais do que perfeito. A vida voltou a fazer sentido, e eu estava convencida de que nunca mais precisaria olhar para a cara dela.


Mas isso durou até eu voltar para aquela mesma casa. Meu apartamento está passando por uma reforma, e eu só precisava de um lugar onde pudesse trabalhar em home office em paz. Então, voltei para a casa em Ilhabela, que não estava sendo habitada por ninguém.


Ao menos, era o que eu pensava até chegar lá.


Logo na primeira noite, durante uma chuva intensa, Bianca apareceu à minha porta dizendo que havia sido despejada e que, infelizmente, aquela casa também era dela.


Agora, dividimos o mesmo teto outra vez. Ela continua deixando tudo fora do lugar, e eu continuo tentando organizar. A insuportável segue me chamando de Excel. Ou Pacote Office. Ou tantos outros apelidos que sempre me deixavam furiosa na adolescência.


E estou convencida de que sobreviver a essa convivência será o maior desafio da minha vida, mesmo agora que somos adultas.


Numa noite de briga, que continuou até por mensagem de texto, acabei enviando um nude para a pessoa errada. Era para ter ido para a garota com quem estou conversando, mas acabou indo para... Bianca. E, depois disso, algumas coisas estranhas começaram a acontecer. Inclusive, talvez eu esteja começando a perceber que a garota que passei anos tentando manter do lado de fora pode ser justamente a única capaz de entrar onde ninguém jamais conseguiu.



Duna Medeiros


Data de nascimento: 15/9/1999

Signo: Virgem

Altura: 1,67 m

Olhos: Castanhos claros, levemente alongados

Cabelos: Castanhos escuros

Etnia: Indígena e branca

Estilo: Casual chic. Gosta de roupas de marca, mas também ama o conforto de um bom moletom.

Profissão: Arquiteta


Mini biografia: Organizo projetos, planilhas e, quando necessário, as pessoas ao meu redor. Gosto de café forte, casas silenciosas e de quem avisa quando vai se atrasar.


Acredito que quase tudo pode ser resolvido com planejamento. O resto costuma dar trabalho.


Há dez anos, saí de uma casa que amava e nunca mais voltei. Nem para ela, nem para as histórias que ficaram lá.


Quando finalmente retornei, após planejar cada detalhe, a maior pendência do meu passado também apareceu sem aviso.


Bianca é uma onda caótica, filha do meu padrasto e alguém que nunca entendeu o significado da palavra planejamento.


E sim, ela dá muito trabalho.

E, sim, vou ter que morar com ela por pelo menos seis meses.



Bianca Tagliatelle


Data de nascimento: 29/11/1999

Signo: Sagitário

Altura: 1,64 m

Olhos: Castanhos brilhantes

Cabelos: Castanhos

Etnia: Negra

Estilo: Imprevisível. Pode aparecer linda, bem-vestida e estilosa ou completamente bagunçada, como se tivesse acabado de sobreviver a um pequeno desastre.

Profissão: Chef confeiteira, instrutora de surfe e o que mais aparecer para fazer


Mini biografia: Meu nome é Bianca Tagliatelle. Sim, exatamente como o macarrão. Estava bastante claro que o meu futuro seria dentro de uma cozinha.


Hoje, preparo sobremesas sofisticadas e deixo para trás uma bagunça que parece cena de crime. Também acredito que manteiga resolve mais problemas do que terapia.


Na adolescência, ganhei uma irmã da minha idade e nunca consegui aceitá-la. Agora, acho que finalmente entendo por que a palavra “irmã” sempre me causava calafrios quando era usada para falar da Duna.


Minha vida deu tão errado que fiquei até sem ter onde morar. E, de repente, estou de volta à casa onde passamos a adolescência.


Ela também está aqui.

No meio do meu caos.

Uma duna no caos.


Como vamos sobreviver uma à outra por tanto tempo?






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