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Vulnerável 2



Gabruna


Não havia mais ninguém acordado quando foram para a cozinha.


Foram abrindo armários, procurando utensílios. Acharam uma frigideira para ovos, uma chapa para esquentar os pães, xícaras para café.


— Tem pão, ovos, manteiga... — Gabriela foi colocando sobre o balcão tudo o que encontrava — Você fez mais tatuagens, não é?

— Fiz algumas — Bruna estava colocando água para ferver — Você está forte. Continua no Muay Thai ou é alguma coisa nova?


Daquele ponto em diante, uma música foi delicadamente subindo ao fundo.


Foi o primeiro edit a ir ao ar naquela temporada.


Começava com alguns diálogos desconexos entre as duas logo na entrada do dia anterior. Então, Bruna encarando o botão de desistência e Gabriela acordando em seguida, olhando para a cama de Bruna e não a encontrando. A conversa esquisita na sala, as duas sussurrando trechos da música, o violão acústico surgindo baixinho, a voz de Dido entrando quando elas começaram a conversar na cozinha.


Thank You foi a escolha natural.


Tomavam café na mesa da cozinha quando a música alcançou o refrão. Um close nos olhos verde-bahamas de Gabriela, outro no sorriso perfeito de Bruna. Uma chamada no confessionário. Elas receberam um celular e voltaram para o café, agora preparando xícaras de chá com hortelã.


O edit terminava com Gabriela distraída do outro lado da mesa, olhando o jardim com uma xícara de chá nas mãos, e Bruna abrindo a câmera do celular, enquadrando-a. A foto foi capturada na parte da música: 


Push the door, I'm home at last, and I'm soaking through and through

Then you handed me a towel and all I see is you...


Gabriela percebeu que estava sendo fotografada e, em vez de se deslocar, encarou a câmera, ajustando-se para outra foto. Primeiro, um sorriso, olhando meio de lado; depois, o olhar ferino, verde superclaro pela luz natural.


Bruna sorriu, os olhos presos no que a câmera captava.


Um único edit — e a internet explodiu.

Em menos de quarenta e oito horas de confinamento, doze horas após o segundo programa, um alvoroço enorme se estabeleceu naquela rede social.


Gabriela Habren e seu emoji de coral; Bruna Ribeiro e seu emoji de boca mordida. Coral saindo de 37 mil seguidores no Twitter para 100 mil, boca mordida de 49 mil para 120 mil e um emoji novo surgindo no nickname dos seguidores: o de xícara de chá. E uma hashtag acontecendo entre as trends do dia:



Foi o suficiente para causar um caos no escritório pessoal de Bruna Ribeiro.


Não haviam dormido. O Twitter virou uma loucura, a DM do Instagram também. Dara andava de um lado a outro no QG de guerra, que ficava na sala de jantar da cobertura de Bruna em São Paulo, usada para reuniões sempre que algo saía do controle.


Dara era assistente pessoal e melhor amiga de Bruna. As duas se conheciam desde o colégio. O sol estava nascendo pela enorme janela de vidro da cobertura, notebooks abertos sobre a mesa, celulares que não paravam de dar sinal. Mauricio, amigo e também assistente pessoal, estava sentado à mesa, servindo-se de uma xícara de café, e Júlia estava concentrada em seus próprios pensamentos.


O olhar focado, os braços cruzados. Júlia Bittencourt era diretora de operações da Fierce e chefe oficial do comitê de crise. Era publicitária e formada em Direito também, uma mulher bonita, interessante, o tipo que emanava poder. E esta mulher estava em silêncio havia tempo suficiente para deixar todo mundo nervoso.


— Aqui, os views continuam subindo — Mauricio comentou.

— Vocês já viram isso acontecer? Alguém ganhar um minuto e cinquenta de VT no segundo dia de confinamento? — Dara veio se servir de café também.

— Eu não lembro de ter acontecido algo assim. E a comunidade sáfica é incrível; elas não vão parar de subir essas visualizações. Ô, Bittencourt, isso é visibilidade. Eu ainda não entendi o que pode estar dando tão errado.

— O problema não é a visibilidade, Mauricio. O problema se chama Gabriela Habren e o público conservador que ela tem. E tem alguma coisa que não fecha nessa história — Júlia seguia tentando entender — Dara, você tem certeza de que não existe nenhuma relação entre a Bruna e a Gabriela?

— Eu já disse tudo o que sei, Bittencourt. Elas se conheceram há alguns anos, antes de as duas serem grandes.

— E publicamente se desentenderam umas três vezes. Eu já estava aqui na última. A briga na festa da Marcela Richter. Dara, essa briga foi por motivo de...? — Júlia tentava montar uma situação que fizesse sentido.

— Eu não sei, criatura!

— Você é a melhor amiga dela. Se você não sabe, quem vai saber?!

— Mas eu não sei mesmo! Mauricio, você sabe de alguma coisa?

— De Gabriela Habren? Só o que a internet sabe: que essas duas são desafetos. E ah! Sei também que Gabriela Habren é um nome proibido nesta casa.

— Tá vendo? Tem alguma coisa aí que a gente não está sabendo! A Bruna surtou na festa da Marcela e, aparentemente, foi só com a presença da Gabriela. E agora ela vai ter que morar por três meses com ela. Elas se estranharam na entrada, mas amanheceram o segundo dia feito velhas amigas — Bittencourt apertou os olhos pelas portas de vidro da sala, que davam para a varanda. Mais especificamente, para a varanda de um prédio do outro lado da rua do condomínio — Dara, aquele apartamento é da Gabriela!

— Eu sei, mas ela não mora mais aí. E, quando morava, elas não eram boas vizinhas. Agora ela deixa o apartamento para ser QG da empresa dela.

— E a equipe dela está... bem ali — Uma equipe enorme. E Júlia conhecia exatamente a pessoa com quem trocou um olhar pelas varandas — Dara, manda DM, pede pra falar com a Demerara, convida pra tomar café da manhã aqui.

— Com a Flávia Demerara, aquela...?

— A fodona da empresária da Habren, essa mesma! Chama a Flávia aqui. Tenho certeza de que ela quer tanto entender o que está acontecendo quanto a gente, ou até mais. O público da Bruna é igualzinho a ela, mas o da Gabriela...

— Os crentes não devem estar entendendo nada. Bittencourt, é pra chamar mesmo...?

— Pro café da manhã, menina. Chama aí!

— Vocês também não se gostam, você e a Demerara. Esqueceu? — Era Mauricio.

— E o que é que tem? Tem um negócio em comum pra resolver agora. Chamou, Dara?

— Chamei. Deixa eu ver se ela responde.


Três segundos. Respondeu.


— Ela vem com a equipe em uma hora.

— Ela...? — Aquilo pegou Mauricio de surpresa — Ok, então é melhor eu ir providenciar um café da manhã decente para a equipe da poderosa Habren.


Mauricio foi providenciar o café da manhã, enquanto Dara e Júlia arrumavam a mesa para a reunião.


— Bittencourt, certeza de que vocês nunca se pegaram? Você e a fodona?

— Por que você tá me perguntando isso?

— É tanto ódio envolvido. E vocês já foram amigas antes. A maior prova de que uma amizade não era exatamente uma amizade é o ódio pós-término.


Bittencourt parou um instante. Repetiu aquela frase mentalmente.


— Dara, e se a Bruna e a Habren...?

— Se elas...? Não, garota! A Habren é hétero, é da igreja e tudo. E eu ia saber se algo assim tivesse acontecido — Dara parou, pensando também — Será? Ah, mas a Bruna ia ser uma filha da puta muito grande, viu?!

— Entendeu? Pode não ser tão absurdo assim.

— Não, ela me diria, Júlia.

— Bem, vamos descobrir se tem algo mais em alguns minutos — Júlia se virou para a TV, aumentando o volume. Estavam assistindo ao pay-per-view e Bruna estava falando, o que imediatamente fez a golden retriever dela surgir escadas abaixo.


Chiara surgiu feliz da vida, foi pra frente da TV e apoiou as patas no móvel. Ela era apaixonada por Bruna, reconhecia a voz dela em qualquer lugar e estava assim agora, cada vez que a ouvia falar na televisão. Arrumaram uma mesa de café da manhã digna de hotel cinco estrelas e, no horário marcado, a equipe de Gabriela chegou.


Flávia Demerara apareceu toda de preto, de terninho e óculos escuros. E, com ela, veio Rebeca Habren também, prima e assistente pessoal de Gabriela.


— Achei que você fosse trazer toda a sua equipe para a reunião — Júlia falou assim que abriu a porta para elas.

— Não, ainda não. Tenho que entender algumas coisas antes de discutir estratégias com eles. Vocês realmente... montaram um café — Ela disse, dando de cara com a belíssima mesa.

— Chamamos vocês para tomar café. A noite foi intensa aqui; imagino que tenha sido intensa para vocês também — Júlia apontou o caminho da mesa — Vocês já devem se conhecer, não? Esta é a Dara, assistente pessoal da Bruna, e este é o Mauricio, supervisor das nossas redes sociais. Pessoal, esta é Flávia Demerara, empresária da Gabriela, e a Rebeca, assistente pessoal. Vamos sentar e comer alguma coisa?


Tomaram lugar à mesa e, práticas do jeito que eram, Júlia e Flávia foram direto ao ponto. Demerara explicou suas preocupações, a parcela conservadora do público de Gabriela que não recebeu bem o edit e estava cobrando algumas respostas que elas também não tinham.


— Eles querem entender o que está acontecendo. Elas parecem tão íntimas no vídeo; difere do histórico que a gente tem aqui de fora — Flávia explicava — Rebeca, diz o que você sabe, por favor.

— Bem, sei que a Bruna foi a primeira profissional com quem a Gab teve contato. No primeiro trabalho dela como modelo, a Bruna era a maquiadora e elas se conheceram assim. Daí elas começaram a crescer como influenciadoras, se encontravam em alguns eventos, se davam bem. Então tem um espaço em branco entre esse momento e a fase em que elas começaram a se desentender.

— Elas se desentenderem é o que todo mundo estava esperando, não essa proximidade toda. Olha ali na piscina, maior papo de novo — Flávia apontou a TV, que seguia ligada.

— Acho que vocês duas ainda não se deram conta do problema real que pode acontecer aí — Mauricio passou os dedos pelo cabelo escuro, levemente comprido — Eu nunca vi ninguém tirar a Bruna do sério do jeito que a Gabriela tira. Ela se desestrutura, surta, e a Gabriela não fica muito atrás.

— A Gabriela é supertranquila, Mauricio — Rebeca defendeu.

— Pergunta pra Gio como ela estava tranquila na última vez que elas se cruzaram — Ele respondeu.

— Gio é...? — Flávia perguntou.

— A namorada da Bruna. Tem uma thread aqui no Twitter citando essa briga que o Mauricio está falando, na festa da Marcela Richter. Estão dizendo aqui que a confusão foi Habren x Gio, que a Bruna só ficou no meio — Dara informou.

— Não foi o que a Gabriela falou — Flávia defendeu.

— Nem o que a Bruna falou — Júlia cruzou os braços, respirando fundo — Mauricio, cadê a Gio?

— Dormindo, lá em cima.

— Ah, mas você traz essa garota aqui. Ela tem que responder algumas coisas! Como ninguém a acordou antes? — Foi a reação de Flávia.


Mauricio cruzou os braços.


— Mas você gosta de dar uma ordem mesmo!

— Mauricio, vai acordar a Giovana, vamos! Eu havia esquecido completamente que ela está aqui — Júlia reforçou o pedido.

— Eu vou, porque sou bom em obedecer, mas não sei se a Gio vai ser tão boa assim — Ele subiu, e Rebeca parecia incomodada com alguma coisa.


Dara se aproximou dela.


— Beca, sério que você não sabe de mais nada sobre isso?

— Não sei mesmo. Estou aqui tentando lembrar de alguma coisa, mas... você não sabe como é a Gabriela. Ela se fecha, só conta o que quer. Eu não vou dizer que ela e a Bruna eram amigas, mas já foram próximas. E como esse caldo entornou...

— Vou te falar, viu, esse povo ama um enemies to lovers. Já estão aqui na maior fanfic da vida, só com os trechinhos de ontem — Júlia seguia olhando o Twitter.

— Elas dariam um belo enemies to lovers. No caso, um lovers to enemies e to lovers depois, sei lá — Rebeca complementou.

— A minha principal preocupação é como a Gabriela encararia isso aqui fora, se esse tipo de associação iria incomodar — Flávia explicou.

— Com o público LGBTQIA+? — Júlia questionou.

— É. Nós nunca falamos sobre esse público antes.

— É um público maravilhoso, que abraçou a Bruna de maneira incrível, Flávia.

— A gente viu a força desse público de ontem pra hoje. Foi incrível o que aconteceu, literalmente, do dia para a noite. Eu só realmente não sei como ela veria isso — Era nisso que Flávia estava pensando o tempo todo.

— Acho que ela não se importaria, sabia? — Rebeca interveio — A Gabriela já ficou muito desconfortável com o assunto, mas vejo que a gente trouxe isso de casa, sabe? Ela ficava desconfortável quando alguém perguntava sobre, mas a vejo cada vez mais relaxada com essa questão. Ela tem fãs LGBT que, aliás, estão no céu desde ontem com essa aproximação inesperada com a Bruna.

— Alguma chance de ela estar deliberadamente usando esse público? Porque, assim, possível casal ganhando VT em menos de 48 horas é porque a emissora já conhece o poder deste viés e está usando — Era Júlia.

— Não, acho que não. Por mais fria que digam que a Gabriela é, eu não acho que ela seja capaz de algo assim.

— De manipular? — Gio desceu as escadas. De moletom, cara de recém-acordada, cabelos curtos pouco abaixo dos ombros, piercing no nariz — Eu já vi a sonsa da Gabriela manipulando, e ontem nem foi a primeira vez!


Rebeca se levantou imediatamente.


— Que manipulando ontem? Do que você está falando, garota?

— Do quê? A Bruna na frente do botão de desistência e a sonsa da Gabriela chega lá com aquela conversa baixinha, íntima, sussurrando uma música que ela sabe que é importante pra Bruna. Ah, por favor! Ela não me engana com aquele papo barato, não — Chegou à mesa, pegou um pão de queijo e enfiou na boca.

— A Gabriela fala assim com todo mundo, é o jeito dela! Ela fala assim comigo, que sou da família! — Rebeca retrucou.

— Hum, além de tudo, ela manipula a família.

— Gio, calma, está bem? Para de atacar, respira — Júlia atalhou para acalmar a conversa — Foi você quem discutiu com a Gabriela na festa da Marcela?

— Aquela homofóbica! Você tinha que ver os olhares que ela estava jogando em cima de mim e da Bruna. Fiquei puta com isso! — Ela mordeu outro pão de queijo e se serviu de uma grande xícara de café — Então que... — parou pensando um segundo, tomando um gole de café preto — eu havia bebido.

— O que não me surpreende. Ok, siga em frente — Flávia a ouvia de braços cruzados.

Fiquei com ciúmes. Do jeito que a Bruna estava falando com ela, dialogando baixo, sei lá, olho no olho. E a Gabriela a segurando pertinho pelos punhos — Parou outro instante, como quem tentava recuperar uma memória — Quem briga segurando a outra pela mão? Acabei explodindo.

— Você está dizendo que ficou com ciúmes da Gabriela? — Flávia se aproximou mais dela.

— Fiquei. Mas não é bem ciúmes, é mais... por que a Bruna a escuta? Fica puta com ela, mas escuta? Eu não consigo entender isso. Caramba! — Ela cruzou os braços, em pose de derrota — Vocês têm noção de que vou acabar sendo traída em rede nacional?

— Ah, mas não vai mesmo, não com a Gabriela — Rebeca refutou a ideia imediatamente.

— Com a homofóbica? Claro que não, né?! Estou falando daquela fulana ali!


Olharam para a TV. Bruna estava no maior papo com Monique na piscina.


— Ela... ela tem um ímã, as mulheres a adoram — Foi um comentário de Rebeca.

— Isso tenho que concordar com você — Gio tomou outro gole de café e respirou fundo — Eu não faço ideia do que existe entre a Gabriela e a Bruna. Mas vou falar uma coisa... Elas brigam como um casal.

— Gio...

— Sei que parece que não faz sentido; pra mim também não faz. Estou em festas pelo menos cinco dias por semana. Afters, eventos fechados, lugar em que não entra nem celular. Conheço essas meninas. E ninguém nunca disse uma vírgula sobre a Gabriela. Nunca. E olha que tem sempre alguma mulher dando em cima dela. Então... eu não sei.


Um silêncio se instaurou na sala por alguns instantes. Quebrado por Flávia:


— Gio, ela não é homofóbica.

— Não é, pior que não. Ela dá atenção para todas as interessadas nela. Acho que ela pode ser um outro tipo de homofóbica. Na verdade, o tipo “torturadora”, que sai de casa e pensa assim: “vou ali fazer umas gays sofrerem”. E a gay da vez aparentemente sou eu.


Todos riram, suavizando o clima. A reunião terminou assim.

O dia passou por cima de Júlia Bittencourt e, quando percebeu, já estava de noite, já era hora do jantar e da primeira festa da edição.


Também não notou que havia acabado ficando sozinha em casa. Dara e Mauricio estavam liderando equipes diferentes e disseram que Júlia deveria tentar dormir. Ela não havia dormido nada na última noite e passou o dia todo correndo. Então tomou um banho, vestiu um roupão confortável e foi se sentar na varanda, onde tinha uma TV enorme que seguia ligada no pay-per-view.


Abriu um vinho e a comida japonesa que havia pedido. E recebeu uma mensagem. Viu de quem era, deu uma olhadinha para a varanda do outro lado. Flávia estava lá.


“Estou preocupada com essa festa.”


“Eu também estou. Já jantou? Tem sushi aqui.”


Dez minutos depois, Flávia estava de volta ao apartamento de Bruna Ribeiro.


— A sua equipe te deixou também? — Júlia abriu a porta para ela.

— Me mandaram dormir, mas como é que dorme? Eu não vou conseguir sem entender direito o que está acontecendo, Júlia.

— Estou assim também, odeio não ter respostas — Ela abriu a porta de correr da varanda, convidando Flávia para entrar — E, mesmo sem respostas, tem uma coisa que sei que acontece, que existe, que é a capacidade da Gabriela de tirar a Bruna do sério.

— A Bruna também tem essa capacidade, acredite em mim. A Habren reage ao nome Bruna Ribeiro — Flávia respondeu, sentando-se na frente da TV — Teve um momento em que a Bruna foi cogitada para o reality e ela ficou muito agitada, pensando até em desistir. Perguntei a respeito, mas ela escapou de responder.

— Ela é bonita mesmo, sem exageros — A câmera havia cortado para Gabriela, que estava se arrumando e conversando com Nuna. O áudio entrou com atraso. E, assim que a voz de Gabriela Habren ressoou...


Lá veio Chiara, escadas abaixo, correndo na direção da TV. Invadiu a varanda, foi até o aparelho, colocou as patinhas, abanou o rabo como se...


Flávia apertou a expressão.


— Ela faz isso com todos os participantes...?


Júlia negou.


— Só... para a Bruna.

— Só para quem ela conhece.


Trocaram um olhar. E viram o amor com o qual Chiara estava olhando para Gabriela.


— Não, Júlia, troca de câmera, vamos! Manda para aquele grupinho ali.


Júlia pegou o controle e trocou de câmera. Acabou o interesse. Chiara deu uma volta, cheirou o sushi e foi para a sala. Então, Júlia devolveu a câmera para Gabriela conversando no quarto e, bingo.


Chiara voltou imediatamente. Júlia respirou fundo.


— Você conhece Gabriela Habren, Chiara? — Ela abanava o rabo, colocava as patinhas, corria e voltava, como se esperasse que Gabriela a seguisse — Gabriela Habren que já deve ter vindo aqui, quando só você e a Bruna estavam em casa — Ela latiu, voltando para a TV, tentando chamar a atenção de Gabriela. E Flávia estava morrendo de rir — Você está rindo, Demerara...?

— É que, assim, qual a probabilidade de Bruna Ribeiro enfiar uma mulher aqui dentro e nada acontecer? Aquela mulher é uma devoradora! — Ela seguia rindo, porque era muito absurdo pra ser verdade.

— Nem a poderosa Habren?

— Júlia, a Chiara conhece a Gabriela! O que ela viria fazer aqui dentro com a Bruna? Eu não entraria aqui no sigilo com Bruna Ribeiro e não faria nada. A mulher é um evento de tão bonita!

— Sei como é, eu moro com essa criatura. Mas é que... parece tão absurdo!

— Não para a Chiara, olha pra ela! — Flávia seguia sorrindo — Você a conhece melhor do que eu; é assim com todo mundo?

— Ela é uma golden tímida. Não é assim com todo mundo, não. Eu não acredito, eu... não acredito mesmo.


Chiara se balançou de novo, deu uma volta em si mesma, apoiou as patas para ver Gabriela mais de perto.


— Pois acredite. E Chiara é a única que sabe.




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