Havana - Capítulo Degustação ♥


Kalk Bay, Cidade do Cabo, África do Sul

Tinha som de rebelião. Era o que mais gostava naquele carro, ele possuía linhas extremamente elegantes, mas quando ligava o motor, tinha som de rebelião. Talvez fosse apenas como ela gostava de se definir, como uma elegante rebelião, ou apenas… Apenas. Fechou os olhos e respirou fundo por um instante. E então fez o motor roncar alto outra vez e arrancou, deixando aquela casa noturna em que entrava sozinha.

Era a segunda daquela noite. Já havia estado em um bar que lhe fez sentir particularmente mais solitária do que realmente era e o mesmo se repetiu naquela boate, Havana não sabia explicar direito, se havia sido culpa da vibe meio último verão ou dos vinhos de safras imaturas, por que insistiam em lhe vender vinhos desequilibrados? Também não tinha resposta para isso, então deixou a taça na metade e decidiu descer toda a Simon Van Der Stel Fwy em direção a Boyes Drive, da montanha para a praia, a mudança de cenário costumava lhe fazer bem. Estacionou sua Maserati GranTurismo vermelha, abriu o cooler sobre o banco do carona e pegou de lá uma garrafa de seu próprio vinho, era seu aniversário de trinta anos, não fazia o menor sentido comemorar com um vinho ruim.

E menos ainda fazia sentido comemorar sozinha. Devia estar vindo daí a sua solidão incomum daquela noite.

Entrou com sua garrafa de vinho, de uma vinícola que ela confiava, a sua própria vinícola. Havana era enóloga de profissão e sommelier aos finais de semana, era apaixonada por todo o processo que envolvia a produção de vinhos e atualmente gerenciava uma vinícola secular, mas que havia sido repaginada e reinaugurada totalmente pelas suas mãos. Olhou para o letreiro do restaurante, que também era bar e clube noturno, Cape to Cuba. Havana gostava da arquitetura, da comida e da música do lugar. Não, não era cubana, apesar do nome. Era brasileira, mas que havia vindo parar na Cidade do Cabo há quase quatro anos por conta do projeto de reerguer aquela antiga vinícola nas tradicionais winelands da África do Sul.

Era uma oportunidade única e que ainda por cima, vinha com o bônus de ter que residir em um lugar tão particularmente bonito como a Cidade do Cabo.

Adorava aquela cidade. Havana já havia passado por muitos lugares, alguns apenas de passagem mesmo, outros em que se apaixonou, morou, ficou um pouquinho mais, porém a Cidade do Cabo tinha algo de especial. Sentia-se enraizada naquele lugar, como se sempre houvesse estado ali de alguma maneira. Foi uma conexão que sentiu assim que desceu no aeroporto pela primeira vez, um sentimento de propriedade sem explicação, era como se pertencesse àquele lugar ou aquele lugar pertencesse a algo que deveria ser seu.

Bem, se andava tão sozinha, deveria ser a primeira opção.

Sentou-se em sua mesa, havia reservado mais cedo, algo lhe dizia que ela não conseguiria ficar em um só lugar aquela noite, pediu uma taça ao garçom, deu uma olhada pelo cardápio, nada lhe atraiu. Estava tocando bachata aquela noite, sempre havia algum ritmo latino tocando e Havana adorava dançar. Era só ficar um pouco por ali que alguém viria lhe tirar para dançar, sempre havia alguém. Alguém sem nome, sem rosto, que ela provavelmente mal lembraria pela manhã. Esta era a vida que sempre havia lhe atraído, detestava compromissos, nunca ficava em um relacionamento por muito tempo, gostava de não ter raízes, de poder partir sempre que queria ou a oportunidade aparecia. Era parte da sua personalidade rebelde. O que não significava que não gostava ou não buscava por companhia, ela buscava e gostava de estar com alguém, mas temia relacionamentos. Havana preferia estar disponível para fazer o que gostava, quando gostava e sempre que o tédio a alcançava, ela queria ir em frente, não havia nada mais sedutor do que começar de novo, ir em frente, achar seu próximo destino. E foi assim, com todas as suas filosofias e reflexões sobre o que fazer da sua vida que acabou num restaurante latino em terras africanas, passando mais um aniversário sem ninguém.

Tomou outra taça de seu vinho e desconfiava que não seria seguro voltar dirigindo pela estrada cheia de curvas até a região de Constantia Valley, onde morava. Não seria a primeira vez. Olhou para o público daquela noite, muitos caras bonitos disponíveis, mas nada lhe interessou. Ultimamente andava se sentindo em uma daquelas feiras de artesanato de interior em que se vê as mesmas artes em todas as barracas, mais do mesmo, ninguém andava lhe interessando muito e aparentemente, também não andava interessando a ninguém. Fazia quarenta minutos que estava sentada e ninguém havia se aproximado e menos ainda lhe tirado para dançar.

Levantou e foi ao banheiro, seu celular estava cheio de mensagens que ela não queria ler, não queria agradecer desejos de feliz aniversário a distância, isto estava lhe deprimindo o dia inteiro, apesar de ela não admitir. Sempre havia curtido ficar sozinha, mas ultimamente andava sozinha demais. Devia ser alguma espécie de crise dos trinta anos, Havana costumava adormecer com a tevê ligada e ultimamente sempre que acordava para desligar e estava naquele estado entre sonho e estar acordada, era invadida por um questionamento persistente em sua mente: seria sempre assim? Quarto vazio, ninguém lhe esperando? Era o tipo de pensamento que achou que nunca teria.

Respirou fundo se olhando no espelho, retocou a maquiagem, os longos cabelos negros, os olhos verde-oliva que sua mãe costumava dizer que clareavam conforme o seu humor. Bem, coisa de sua mãe ou não, já algum tempo eles não clareavam. Arrumou seu vestido preto coladíssimo em seu corpo, com transparências que deixavam ver a tatuagem na lateral de seu abdômen, uma árvore quase fantasmagórica com suas grandes raízes expostas, havia um significado, um significado que ela andava querendo deixar voar. Outra tatuagem, na coxa “Il dolce far niente”, a doçura de fazer nada, estalou o pescoço, respirou fundo, chegava de melancolia, iria dançar! Dançar sempre lhe fazia esquecer de todas as coisas.

Não voltou para a sua mesa, foi direto até o balcão, os saltos altos a deixando mais alta, ela era uma moça de 1,68 que gostava de ser mais alta, pediu um drink no bar que ela recebeu quase que imediatamente, era cliente VIP, tinha suas vantagens. Tomou seu Bloody Mary e virou-se no balcão, dando uma outra olhada pela pista, já que ninguém havia lhe tirado para dançar, iria tirar alguém, não seria a primeira vez, muitas coisas faltavam para Havana, mas atitude não era uma delas. Mais do mesmo, mais do mesmo, virou-se no balcão outra vez e do outro lado encontrou algo diferente.

Era uma moça. Uma moça bonita e que parecia extremamente distraída em si mesma. Camiseta branca, calça jeans básica, ela parecia alta, apesar de estar sem saltos. Longos cabelos loiros, uma jaqueta marrom pendurada ao seu lado lhe dava um ar elegante ao mesmo que era cheio de atitude. Atitude, Havana gostava. Ela tomava alguma coisa, até olhava para o salão uma vez ou outra, mas não parecia estar ali de qualquer forma. Onde ela estaria? Havana não fazia ideia, mas algo nela lhe fez sentir extremamente tentada a descobrir. Por que uma moça bonita daquelas estava sozinha num lugar como aquele?

Bem, podia perguntar a si mesma também, mas suas respostas não lhe interessavam muito. Havana tomou seu drinque em um único gole e decidiu assaltar aqueles pensamentos.

— Nós deveríamos dançar — Disse, já pegando a mão dela que podia ter lhe afastado, negado, a chamado de louca, mas no final apenas abriu um sorriso.

— Oi?

— Só uma ou duas músicas, dança comigo? — Não esperou resposta, saiu a puxando pela mão já em direção ao salão.

— Eu danço, mas a gente já se conhece?

Havana se virou de frente e suas mãos meio que sem querer acabaram escorregando pela cintura dela. Não pela camiseta, mas sim pela pele de sua cintura que de alguma forma veio parar nos seus dedos e houve uma reação, as duas sentiram. Havana a tocou e as mãos de sua desconhecida lhe tocaram os pulsos instintivamente, as duas olharam para baixo, para as mãos, Havana sentiu um gelado vindo dos dedos dela, ela tinha anéis em cada um dos dedos e quando elas se olharam outra vez... Oww, ela era bonita mesmo, tinha um lindo e enorme sorriso e os olhos castanho-claros quase vermelhos de tão intensos, uma coisa... Linda. Foi um pensamento inesperado. Que lhe travou a resposta. Então ao invés de responder, Havana apenas subiu os dedos para o punho dela e ensaiando um sorriso a girou para dentro dos seus braços.

— Então você está mesmo me tirando para dançar? — Ela perguntou enrolada em seus braços de costas para si.

— Por que eu não estaria falando sério? — Havana a desenrolou dos seus braços e começou a dançar perto dela, observando as suas pernas, o jeito que ela se movia, a fluência de seus quadris e pronto, Havana já havia encontrado o ritmo daquela moça.

A puxou contra si, a pegando firme pela cintura, grudando-se contra ela, as pernas encontrando lugar pelas pernas dela e os olhos de Havana pegaram aquele sorriso aberto, o sorriso de quem finalmente havia se convencido de que havia sido tirada por outra mulher para dançar.

— Você sabe mesmo o que está fazendo.

— É claro que eu sei, não vou decepcionar — Havana a afastou e então a fez girar, uma, duas vezes e desceu a mão dela pelos seus cabelos, dançando com ela de lado, a pegando de volta pela cintura, pele na pele, aquele sorriso lindo aberto, os olhos dentro dos seus, o quanto ela ficou à vontade nos seus braços.

Ela estava muito à vontade nos braços de Havana.

A grudou contra o seu corpo, olhos nos olhos, sorriso fácil. Havana sempre havia gostado de dançar com mulheres, gostava do domínio, adorava a condução, a girou fazendo os cabelos dela dançarem no ar, passo para trás, as vibes se encontrando, Havana a girou, a girou de novo e a parou de costas para si, encaixando seu corpo contra o dela, a mão em seu abdômen, o queixo em seu ombro, os corpos movendo-se muito juntos, perfeitamente encaixados e já haviam ganhado espaço no salão, já havia gente parando para assistir a pegada daquela moça de vestido justo e salto alto conduzindo uma dama melhor que 90% daquele salão. Havana gostava da atenção e havia gostado demais do perfume gostoso que vinha de sua desconhecida.

A girou novamente e puxou para perto, a pegando pela cintura, a levando de um lado a outro, a mantendo junto de si, a mantendo sorrindo, ah, não, elas podiam ser duas moças bonitas solitárias num clube noturno, mas com toda certeza aquela moça não era como Havana, não com aquele sorriso fácil aberto, não com aquela conversa gostosa no ouvido, ah sim, porque elas estavam dançando, mas ela estava falando no seu ouvido o tempo todo, ela parecia doce, doce, doce e não se perdia. Havana se considerava uma dançarina muito boa, mas havia encontrado alguém que dançava tão bem quanto.

Mulheres, o que elas não fazem melhor que os homens?

Evoluiu com ela, com passos mais juntos, pegadas mais firmes, ela lhe seguia sem fazer nenhum esforço, sempre muito perto de Havana que vez ou outra sentia a mão dela escorregando pelo seu abdômen ou um toque em seus cabelos, sempre muito suave, os saltos de Havana riscando o chão, a mão que não soltava a mão dela, os quadris encaixados, uma cruzada de braços no ar e Havana a puxou pela camiseta quase por instinto, a trazendo para perto, girando por dentro dos braços dela por um instante e suas mãos nunca mais saíram da pele dela. Ela era tão agradável, tão boa de se pegar, a camiseta dançava pelos dedos de Havana, a fez rolar por um dos seus braços, pelo outro, a pegou novamente, sentindo o movimento dos quadris dela e devia ser o vinho fazendo efeito, mas de repente Havana perdeu o interesse de girá-la para longe.

Só a queria perto, muito perto de si.

O suor começou a escorrer pelo meio dos seus cabelos lá pela quarta música, o set foi ficando mais rápido, mais acelerado, os giros conjuntos, sem se afastarem um centímetro que fosse, as mãos que nunca soltavam os punhos dela e quando em um dos momentos a boca dela passou muito perto da sua, Havana realmente achou que havia tomado vinho demais. Estava quente, cada pedaço seu, mas deveria ser só isso.

Saíram da pista molhadas de suor, a moça quis ir em direção ao bar, Havana pegou a jaqueta dela que havia ficado na banqueta e a puxou consigo.

— Eu posso só saber para onde nós estamos indo agora?

— Eu te assaltei uma dança e vou te sequestrar até a minha mesa. Deixa eu te pagar um drinque pela dança.

— Por que eu não te pago um drinque e você me diz quem você é?

Havana olhou para ela. E abriu um sorriso.

— Havana. Meu nome é Havana.

— Havana? Tipo, Havana? — Mostrou o nome do restaurante.

— Você encontrou Havana em Cape to Cuba, acho apropriado — Respondeu enquanto ela puxava a sua cadeira educadamente. Sério? Ela havia puxado a sua cadeira? E estava lhe esperando sentar, tudo bem, aquela moça era mais cavalheira que todos os namorados que Havana já havia tido juntos. Sentou-se e ela sentou do seu lado, pedindo duas águas ao garçom.

— É mais do que apropriado — Pegou a mão de Havana se inclinando para lhe beijar o rosto — Eu sou Ryan, Ryan Scholtz.

— Ryan? — Tocou o rosto dela sorrindo depois do beijo, querendo mantê-la perto. A vontade de mantê-la perto persistia — É um nome de garoto — Encontrou lugar confortável dentro do braço dela.

— Eu já ouvi isso antes — Ela seguia com aquele sorrisão aberto.

Havana olhou para ela um pouco mais, para os seus detalhes.

— É um nome mais de garoto, mas que você veste muito bem. Você fisicamente combina com o nome, você tinha que ser Ryan mesmo.

— E você definitivamente deveria ser Havana, nada te cairia melhor — Olhou bem nos olhos de Havana — De onde você apareceu?

— Da minha mais profunda solidão. É meu aniversário e você estava ali sozinha, eu não sei, foi um impulso ir atrás de você...

E de repente ela abriu um sorriso diferente, um sorriso que Havana tentou decifrar.

— O que foi?

— É seu aniversário?

— Trinta anos, só não me dê parabéns que eu ando meio deprimida.

Ela balançou a cabeça como quem não acredita.

— Então somos duas.

— Duas deprimidas?

Ela ergueu a taça com água que o garçom lhe trouxe.

— Duas deprimidas completando trinta anos hoje. Seja bem-vinda a minha festa.

E Havana riu, riu muito alto.

— Não, você está brincando?

— É sério! — Ela mexeu no bolso da jaqueta buscando alguma coisa, achou sua carteira de motorista e mostrou para ela — Eu estou fazendo trinta anos hoje, praticamente fui obrigada a sair de casa.

— Ryan Alice Scholtz, nascida em 31 de outubro de 1987, em Cabo Ocidental, África do Sul. Ah, não, a gente tem que tirar uma foto disso ou ninguém vai acreditar! — Pegou sua identidade na bolsa e entregou para ela enquanto procurava o celular achando aquela ideia extremamente divertida! — Quais as chances de isso acontecer? Eu estou aqui curtindo o meu solitário aniversário, olho pra você, vou lá te buscar pra dançar e descubro que nós duas nascemos no mesmo dia, que hoje é nosso aniversário!

Ela sorriu, olhando a carteira de identidade.

— Brasileira? — Foi a primeira coisa que ela leu em sua identificação.

— De Porto Alegre.

Poort Alergra? — Ela tentou repetir.

Pooorto Alegre.

Pooorto Alegre — Ela repetiu sorrindo — Soa tão sexy. Eu trabalho com um moçambicano, eu adoro a sonoridade das línguas latinas, pena que é tão difícil.

— Nada, você foi muito bem, foi de longe o melhor Porto Alegre africano que eu já ouvi... — Achou seu celular e acessou seu Instagram.

— Sei, você nem tem sotaque! Como não tem sotaque? Eu achei que você era daqui mesmo.

— É uma das minhas habilidades — Fotografou as duas habilitações juntas, postando imediatamente, precisava contar aquilo para todo mundo.

— Zara Havana Eksyposto — Ela tentou ler seu nome desta vez.

Exxxxposto. O x soa como um s suave, Exposto.

Exxxxposto. Foi suave?

Havana olhou para ela sorrindo. Caramba, como ela era bonita, era como um pensamento obsessivo cada vez que olhava para ela, o quanto ela era bonita, os cabelos loiros sedosos, os olhos intensos, aquele sorriso perfeito...

— O que foi? — Ela lhe perguntou sorrindo.

— Você. Você é bonita pra caramba.

— Que? Eu sou bonita? Olha pra você.

— O que tem eu?

— Eu te olhei na hora que você entrou, todo mundo te olhou quando você entrou, você é... — Ela abriu outro sorriso.

Havana tomou outro gole de seu vinho. Ela havia... Lhe olhado?

— Você me viu no meio deste lugar lotado?

— Você me pegou no meio deste lugar lotado.

— Foi a energia.

— A energia?

A energia escorpiana — Pegou o punho de Ryan, já sentindo suas ideias começando a navegar em vinho branco... E essa navegação estava lhe apontando algumas direções inesperadas — Dança comigo de novo?

Ryan escorregou sua mão para dentro da dela.

— Não. Agora é você quem vai dançar comigo.

Ryan tomou sua água só de uma vez e a puxando pela mão a levou de volta para a pista. O set havia mudado, de música latina para a sedução de algo moderno, envolvendo batidas e violinos, ela olhou Havana nos olhos e a pegada, hum, o jeito que ela lhe pegou pela nuca e lhe puxou pela cintura fez alguma coisa acelerar em Havana, que pegada era aquela? Era a pegada de uma moça que sabia conduzir melhor do que Havana. Ryan a girou e a puxou de volta, para muito perto, grudando sua cintura contra a dela, o rosto contra o dela, passando a dançar bem juntinho, bem perto de si, a mão na parte baixa das costas de Havana, marcando o ritmo, a maneira que seus quadris deveriam se mover, no ritmo da música, no ritmo que ela queria, mais baixo, mais colado, voltando e aquele sorriso doce ainda estava na boca dela, mas casado com um olhar que... Os cabelos jogados de lado, o olhar profundo, intenso, o toque humano é um poderoso condutor de energia e ela tinha isso, no jeito que instigava, que pegava, ela olhava reto, dentro dos seus olhos, o ritmo gostoso da música, os corpos juntos, os braços agarrados e quando se soltavam era apenas para Ryan trazê-la de volta e Havana sentia que cada vez que voltava para os braços dela voltava para mais perto dela ainda.

Voltou novamente, o toque dela alcançando seu queixo, olhos nos olhos, os dedos escorregando pelos seus punhos, ela a girou de novo e abaixou, pondo as duas mãos na cintura de Havana e a olhando de cima para baixo, a girou outra vez, a cravando de volta em seus braços, abaixando com ela, voltando, pondo os braços dela em volta do seu pescoço e um rosto grudou no outro quase que por magnetismo, os olhos se encontraram, verde-oliva e castanho-avermelhado e a mão dela escorregou pelo seu rosto, foi para a sua garganta, ela lhe girou lhe pegando pela garganta e grudou Havana de costas contra o seu corpo, a mão pegando Havana pouco abaixo dos seios, lhe fazendo mover os quadris bem devagar, sussurrando a música bem perto do ouvido dela. Havana não conseguia mais compreender nada bem, mas ouvia a voz dela, sussurrada, sexy e então sentiu os lábios dela delicadamente lhe beijando o ombro, fazendo Havana...

“RYAN...” Não a chamou, foi apenas um suspiro mental com nome em maiúsculo. Ela lhe girou outra vez e quando Havana parou de frente para ela, Ryan pegou suas mãos e deslizou pelos seus próprios cabelos, descendo com ela um pouco mais, os quadris levemente balançando, de um lado a outro, os corpos se grudando, se tocando, naquela energia intensa que escapava pelas duas, uma energia que condensava em palpitações e arrepios de pele. Ryan a segurou pelos dedos e a enrolou de volta em seus braços, de costas para si e Havana olhou para a boca dela, foi outro instinto, olhar para a boca dela, apertou os próprios lábios, era culpa da melhor safra de vinho branco de 2015 de todo o Sweet Valley. Mordeu um sorriso.

— Eu costumo dizer para as garotas que eu tiro pra dançar que é mais seguro dançar comigo, mas não posso dizer o mesmo pra você agora...

Ela riu, seguindo dançando, passando os braços de Havana pelo seu pescoço, tocando sua testa na dela.

— Então eu estou em perigo?

— Eu não acho que você tema o meu perigo.

Ela estava tão certa.

Foi o beijo mais roubado.

Ryan foi a levando para trás, a testa tocando a dela, os quadris se movimentando no mesmo ritmo, os olhos dentro dos dela, a música se aproximando do final, Ryan mordeu a boca dela e então a beijou.

E Havana podia tê-la afastado, negado, a chamado de louca, mas no final...

Havana respirou na boca dela e a beijou de volta, sentindo a mão dela cravando em sua nuca, o braço a pegando firme pela curva das costas enquanto a mão de Havana se perdeu pelo meio dos cabelos dela, cravou naqueles braços firmes lhe puxando para mais perto ainda e Havana suspirou, sentindo a boca dela pelo seu pescoço, totalmente inebriada por ela e ela lhe beijou outra vez, lábios deslizando por lábios, os dedos subindo pela nuca de Havana e, sincopação, Havana sentiu-se aglutinando, abreviando sentimentos e então se rendendo em uma descoberta.

Não era o vinho, nunca havia sido o vinho, era Ryan o tempo inteiro.

Cinco minutos depois e Havana estava a empurrando contra um canto escuro, as mãos percorrendo o corpo dela, a boca grudada a dela num beijo firme, sem espaço para respirações, imagine para entendimentos. Ryan lhe segurou as mãos para trás, lhe prendendo os pulsos e então a girou, pondo Havana contra a parede, a grudando contra o seu corpo, os quadris dela contra a parte baixa de sua cintura e Havana sentiu os dedos dela correndo por dentro de seus cabelos, os suspendendo, descobrindo a sua nuca e então sentiu aqueles lábios lhe subindo a cervical de uma maneira...

Havana agarrou o quadril dela, a puxando para mais perto ainda, procurando qualquer pedaço dela para ter na sua boca, achou seu punho, sua mão, seus dedos, os pôs na boca e ela lhe deu um puxão gostoso nos cabelos imediatamente, num instinto, uma reação natural. Ryan se pressionou contra ela, fechando os olhos, a sentindo, seu corpo, seu cheiro, sua vontade. A vontade dela estava...

Ryan a virou de frente, cravando seu corpo contra o dela mais uma vez, as mãos pelo rosto de Havana, olhos dentro de olhos e havia um torpor, havia uma ofuscação, Ryan lambeu a boca dela e a beijou novamente, um beijo mordido, gostoso, intenso, as mãos de Havana lhe agarrando pela cintura, as pernas dela enroscando nas suas, Havana sentia seu coração batendo forte no peito, fora dele, na garganta, como seu coração havia ido parar na garganta? Agarrou Ryan pela camiseta, mordiscando sua mandíbula, sua orelha, a fazendo respirar mais forte, lhe pegar mais forte e então a sentiu lhe segurando, parando aquela densa euforia.

Beautiful, espera, quanto você bebeu?

— Ah, não, não me diz que você não gosta de gosto de vinho na boca?

— Me dá a sua língua.

Havana passou a língua para dentro da boca dela e ela chupou, gostoso, subindo aquela mão pela sua garganta, a pressionando plenamente, a beijando novamente com aquela pegada intensa que estava deixando Havana...

— Eu adoro vinho, mas estou preocupada com o seu discernimento.

E Havana se desmanchou num sorriso. Passou os braços pelo pescoço dela, chegou mais perto.

— Meu nome é Havana, o seu é Ryan, nós fazemos aniversário no mesmo dia, eu estava aqui solitária e meu olho pegou você no balcão do bar. Eu tive um instinto e fui te tirar para dançar e você me pegou. E eu quero estar pega, eu estou gostando de estar assim com você. O meu discernimento está aprovado?

Aquele sorriso lindo se abriu outra vez. Ela lhe beijou o punho que passava pelo seu rosto e lhe beijou a testa em seguida, docemente.

— Aprovado. Você já jantou?

— Não, ainda não.

— Então vem, vem jantar comigo.

Ela lhe levou para fazer o pedido no balcão e Havana sentia que alguma coisa diferente estava acontecendo. Sua visão estava diferente, a densidade do restaurante também e estar agarrada no pescoço de sua desconhecida era o melhor lugar onde poderia estar. Se agarrou no pescoço dela, o tempo inteiro.

— Tem batom meu na sua nuca.

— Eu quero seu batom na minha boca — Ela virou para lhe beijar, sorrindo daquela maneira linda — Gosta de paella?

— Adoro paella.

Paella para nós duas.

Paella para qual mesa?

— Para a minha mesa, Joe. Eu vou levar ela para a minha mesa também, não demora com o nosso jantar — A pegou pelo braço, a levando do balcão e ela lhe pegou pela mão.

Era a primeira vez que Havana pegava uma garota pela mão daquela maneira.

— Então você é cliente conhecida por aqui.

— Eu costumo vir algumas vezes — Respondeu enquanto sentavam na mesa de Havana e, Ryan abriu outro sorriso.

— Eu não consigo tirar as minhas mãos de cima de você.

— Não tira — Pediu, enroscando os braços pelo pescoço dela e a puxando para perto mais uma vez — Você pode me beijar aqui? — Havana não sabia bem como agir.

— Em qualquer lugar, pela noite inteira.

Se beijaram outra vez e Havana não tinha certeza se tinham passado ao menos um minuto sem se beijarem enquanto esperavam pela comida e a música desaparecia em algum túnel dentro da sua mente, as luzes paravam de piscar e a única coisa que conseguia sentir era ela, as mãos dela, o toque dela, a voz dela lhe dizendo coisas, ela tinha uma voz densa, sexy, Havana não cansava de ouvir. Conversaram, se descobriram um pouco mais, Ryan era diretora de operações numa multinacional de logística, trabalhava com transporte em enormes navios de carga, estava sozinha aquela noite? Havia vindo com umas amigas, mas havia se perdido delas, queria ficar sozinha, e agora? Ainda queria? Ela sorriu e respondeu beijando Havana mais uma vez. O jantar chegou, estavam famintas, comeram juntas, Havana pediu mais um vinho, Ryan não bebeu, disse que precisava cuidar de Havana e Havana achou doce a resposta. Um set de salsa começou e Ryan a tirou para dançar de novo, deram show outra vez, abriram um buraco na pista para serem observadas e terminaram aos beijos em outro beco escuro. As mãos de Ryan lhe prendendo no alto, a pondo contra a parede, abrindo as coxas de Havana com as suas e o suspiro desta vez foi em voz alta, claro e no ouvido dela, o que ela estava fazendo? Havana não fazia ideia, mas nem passava pela sua cabeça não se deixar descobrir.

Ela lhe segurou pela garganta, lhe olhando nos olhos, a mão lhe pegando o queixo e Havana pegou a boca dela na sua, a puxando pela cintura, um pouco mais embaixo, ela riu daquela mão boba em seus quadris e posicionou na altura que ela deveria ficar ao mesmo que perdeu os olhos pelo decote de Havana... Xingou em africâner e teve que deixar sua boca por aquele decote. Um beijo, dois beijos, lábios subindo pela garganta de Havana e a coxa dela subindo sensualmente pela perna de Ryan, roçando, pressionando, grudando contra a coxa dela enquanto aquele beijo culminou na sua boca, em sua língua, em seus sentidos. Era madrugada e ela disse que precisava ir embora.

— Por quê?

— Eu tenho que ir. Tenho um horário que não posso adiar amanhã. Espera, isso é a chave de um carro?

— O meu carro está lá fora...

— E você está sozinha? Não, não, você não pode dirigir assim. O que você prefere? Que eu te coloque num taxi ou te deixe em casa? Eu estou sem carro.

Havana se dependurou no pescoço dela, descendo a boca pelo seu pescoço.

— Um motorista qualquer ou você me levando para casa? Como é difícil essa decisão...

Ryan riu e vestindo a sua jaqueta marrom nela, pegou as chaves do carro e foi levá-la para casa.

— Tudo bem, você não pretendia dirigir este Transformer deste jeito que você está, pretendia?

— Não, não, eu juro que ia de Uber.

Ryan riu, tudo bem, iria acreditar nela. O caminho não foi tão longo, Havana gostaria que tivesse sido. Ela parou em uma conveniência, comprou um café forte e um doce para Havana, para melhorar o efeito do álcool, ela lhe disse e então voltou a dirigir, com a mão em sua coxa, mas sem avançar, com aquela voz doce lhe perguntando coisas, o sorriso aberto, com a boca nunca muito distante da sua. Dirigiu pelas curvas da rota do vinho, sempre subindo e disse que Havana era privilegiada por morar naquele paraíso. Sabia que era e depois daquela noite estava achando que aquele não era o seu único privilégio. Ela parou o carro do outro lado do portão de madeira, era uma casa de campo, de dois andares, muito aconchegante e Havana percebeu o quanto estava tonta quando não conseguiu abrir o portão sozinha. Ryan desceu rindo, lhe segurou, abriu o portão, guardou o carro e abriu a porta da frente, se Havana não havia conseguido abrir um portão, imagine acertar a fechadura de uma porta.

— Pronto, você está entregue.

— Estou — A empurrou para dentro e a agarrou contra a parede da sala escura, a beijando, subindo suas mãos por ela e sentindo aquelas mãos firmes pelo seu corpo, por sua garganta, pelos seus cabelos, hum...

Ryan estava pelo seu corpo inteiro.

Ryan a colocou contra um móvel da sala e afundou seu corpo contra o dela, a pegando firme, subindo seu vestido com as mãos, agarrando as coxas dela enquanto a beijava firmemente, sentindo a boca dela, a vontade dela e Havana suspirou quando sentiu o corpo dela muito dentro do seu e aqueles dedos sensualmente enroscando pelas laterais da sua calcinha...

Dava para sentir. O tesão dela, a vontade latejando, o jeito que ela estava pulsando pelo seu corpo, mas então ela parou.

— Ryan, por favor... — Se agarrou pelos punhos dela, a trazendo para perto, beijando o pescoço dela a fazendo...

Arrepiar inteira, Havana sabia que estava mordiscando o tesão dela, mas ela se controlou.

— Eu não tenho todo o seu consentimento, eu não posso fazer isso, é abuso, beautiful.

— Eu quero, não é abuso... — A provocou, a mordiscando pela boca, lambendo o lábio dela.

— Você... — Ryan agarrou o queixo dela e a beijou outra vez, suspirando na boca dela, ela estava tão quente, a vontade estava tão forte que era quase palpável — Escuta, você bebeu duas garrafas de vinho, alguns drinques, as chances de você acordar amanhã e nem lembrar de mim são imensas, sabia? — Ela disse sorrindo.

— Eu não tenho como não lembrar de você — Disse, olhando naquele rosto bonito — Fica aqui, dorme comigo.

— Eu não posso, não sem o seu total consentimento — E ela beijou Havana novamente, delicadamente, a acalmando de alguma forma. Lhe beijou a boca e então lhe beijou a testa — Eu vou chamar o meu táxi, tudo bem?

Havana olhava para ela. A beijou outra vez.

— Ryan, você é tão boa moça que eu tenho que te passar o meu número certo...

Ela gargalhou.

— Como assim você me passou o seu número errado? — Perguntou chamando o táxi pelo aplicativo enquanto ela se dependurava em sua nuca outra vez.

— Eu nunca fiquei com nenhuma mulher, eu estava meio assustada, eu podia gostar.

Ryan olhou para ela.

— Como assim você nunca...?

— Nunca.

— Você me tirou para dançar, eu achei que... Você sabe o que eu achei, nós estamos ficando — Ryan tocou o rosto dela, olhando em seus olhos — Eu assustei você?

— O melhor tipo de susto — Respondeu, lhe tocando a nuca — E, não, eu não estou com medo.

Ryan a puxou para perto até a testa dela tocar na sua.

— Você não imagina o quanto me fez bem hoje.

Elas não se disseram mais nada, apenas se beijaram muito gostoso até o táxi de Ryan chegar. Levou o número dela anotado na mão, levou o último beijo dela marcando em seu pescoço e Havana lembraria de ter fechado a porta e de alguma maneira ter encontrado a sua cama.

***

Havana acordou muito lentamente... Acordou com o sol entrando pela janela, com os passarinhos anunciando que já era dia, com as belíssimas montanhas da Cidade do Cabo lhe observando a distância. Adorava aquelas montanhas. Como podia acordar mal com uma vista daquelas lhe dando bom dia? Respirou fundo, se virando na cama, estava com uma leve dor de cabeça e com um cheiro tão gostoso pelo seu corpo... Se esticou e então se percebeu nua, mas agarrada numa determinada jaqueta marrom.

Ryan.

Foi seu primeiro pensamento depois da beleza das montanhas. Oww, a jaqueta estava ali, Ryan havia acontecido mesmo.

Se colocou de pé e tentou colocar suas ideias em ordem, se vestiu num roupão e tentou recapitular a noite anterior, tentando fazer sentido com qualquer coisa. Olhou, seu carro estava lá fora, olhou sua casa inteira e estava sozinha, se checou no espelho, a marca de boca em seu colo estava muito nítida e junto com a marca de boca, aquele perfume. A noite passada surgiu em sua mente como uma visão que clareia dentro do túnel escuro.

Precisou de alguns segundos e uma boa xícara de café puro para juntar tudo o que havia acontecido. Ryan havia acontecido, havia sido maravilhoso e de alguma forma Havana havia conseguido perder seu celular. Havia buscado pela casa inteira enquanto lembrava de cada detalhe daquela noite, correu no carro apenas de roupão achando que ele poderia estar lá, mas nada, havia evaporado.

Olhou pela janela, falou com as montanhas. Ela falava com as montanhas de vez em quando.

— Talvez seja melhor assim. Eu nem sei se ela me ligaria. Eu ficaria muito mal se ela não me ligasse.

E foi quando seu computador começou a chamar. Será que...?

Havana correu para a sala, achando seu computador no sofá e o atendeu rapidamente. Mas era apenas sua irmã Caribe.

— Seu celular está desligado, sabia? Primeiro você some no seu aniversário, depois posta uma foto com um tal de Ryan e desaparece? Eu já te liguei umas vinte vezes, Havana!

— Eu estava dormindo e acho que perdi o meu celular. E é ela, Ryan, é uma moça que eu conheci ontem.

— Ryan é uma garota?

— Uma garota linda, que eu não sei de onde apareceu.

Caribe a olhou com mais cuidado.

— Que olhar é esse, irmã? A noite de ontem foi ruim?

Havana olhou para as montanhas mais uma vez. Levantou com o notebook e subiu até o banheiro, ligando a torneira para encher a banheira de água quente.

— A noite foi maravilhosa.

— E por que você está preocupada assim?

— É que a noite foi maravilhosa, eu perdi o celular e provavelmente nunca mais vou ver essa garota linda outra vez.

— Garota linda? Havana, você está muito esquisita...

Havana riu, deixando o roupão cair, revelando seu corpo delicadamente definido. Ela tinha pernas torneadas, braços firmes, abdômen forte, entrou na banheira.

— Lembra quando eu dizia que queria ficar com uma mulher antes de morrer?

— Não me diz que... Sério? É sério isso?! — Ela perguntou toda empolgada do outro lado. Caribe era sua irmã mais nova, tinha vinte anos, ela se empolgava com tudo que era diferente, ilegal ou ilícito.

Ryan deveria ser ilícita se toda a pegada que Havana estava lembrando fosse mesmo real.

— É sério, eu a tirei pra dançar lá no Cape to Cuba e as coisas... Aconteceram. Ela é linda mesmo, Cari, eu bebi um pouco demais, ela dirigiu o meu carro, me trouxe para casa, não quis abusar de mim mesmo eu querendo ser abusada, foi uma delícia, a gente se conectou imediatamente, mas agora...

— Calma, pode ir com calma aí que eu preciso saber exatamente tudo o que aconteceu!

Havana sorriu e teve todo o prazer do mundo em contar tudo para ela, exatamente como havia acontecido e cada vez que dizia como havia sido, as sensações voltavam para o seu corpo e para a sua mente, mais detalhes surgiam ainda mais claros. Havana costumava beber, mas sua memória nunca se apagava, borrava um pouco, mas sempre voltava. Até o final do dia sabia que teria a sua noite mágica em detalhes diretamente na sua mente.

— Havana, quais as chances de você ir num restaurante e você hétero tirar uma moça para dançar, ela ser gay, vocês ficarem e ainda por cima, ser aniversário de vocês duas no mesmo dia? Não há estatística para isso.

— Eu sei, isso foi uma loucura total e a noite foi muito boa, eu dancei muito, beijei a noite inteira, foi gostoso demais.

— Ainda pode ser de novo, Havana. Confie no destino, se ele atou toda esta teia para fazer você esbarrar nela, vai fazer de novo.

Havana respirou fundo, Cari tinha essa veia espiritual, acreditava em destino, mas Havana não tinha muito disto.

— Ela me falou dela, eu acho que vou lembrar de alguma coisa relevante e quem sabe.

— Quem sabe. O que você vai fazer hoje?

— Não sei, acho que vou dirigir até Hermanus, mergulhar um pouco, pensar nas coisas.

— Quer companhia?

— Não, irmãzinha, hoje é um daqueles dias.

Em que ela precisava ficar sozinha, Caribe sabia bem desses dias.

Saiu do banho, pôs um biquíni, arrumou uma bolsa, sem vinho aquele dia, pegou seu equipamento de mergulho na garagem, cilindro carregado, máscara, snorkel, pés de pato, tudo certo, checou o horário, era quase meio-dia, comeu alguma coisa e entrou em sua Maserati, seria uma hora e meia até Hermanus. Colocou sua playlist preferida, abriu os vidros do carro, seus óculos escuros, o som da rebelião e pronto, pegou a estrada. Cantando todas as suas músicas preferidas, observando aquela paisagem maravilhosa, a estrada no meio das montanhas, então a Princess Ann Avenue lhe trazendo para a zona urbana da cidade, era um belo dia de sol, era primavera na Cidade do Cabo, a cidade estava mais colorida, as flores estavam por todos os lados.

Pegou a estrada em direção a Hermanus e a noite passada voltou para a sua mente naturalmente. Os óculos escuros, os cabelos soltos, a marca de boca em seu colo e suas memórias ficando cada vez mais claras e definidas, o cheiro dela, o jeito que ela lhe tocava, o sorriso bonito. Não é que ainda havia como ser pega de surpresa aos trinta anos de idade? Havia sido pega de surpresa, havia paralisado e havia gostado. Deixou um sorriso escapar, havia gostado, mas a verdade é que não sabia bem o que faria se estivesse com seu celular. Não sabia se ligaria para ela, se iria querer vê-la novamente, Havana era uma aventureira que não gostava de não estar no controle e Ryan havia conseguido lhe tirar todos os controles.

Talvez as coisas simplesmente tivessem tomado o rumo que precisava tomar.

Pronto, havia chegado em Hermanus, uma cidadezinha praiana com cara de Miami Beach. O mar surgia por trás das belíssimas casas de praia e era um hotspot do safári marítimo: podia se avistar as baleias da praia, ver os golfinhos saltitando, mergulhar com os tubarões em alto mar. Havana já tinha tido uma experiência dessas e havia ficado tão paralisada quanto maravilhada, para a sorte dela, o tubarão não havia demonstrado nenhum interesse em si. A cidade tinha um clima salino, de verão, o mar era azul intenso e as praias surgiam no meio das pedras e da natureza pura, Havana adorava aquele lugar. Lhe lembrava de Torres, uma cidadezinha de interior, onde passava as férias quando era pequena, talvez fosse esse o encantamento seu por aquela cidade. Checou o relógio, eram quase duas da tarde, reduziu a velocidade para passar pelos bairros, adorava aqueles bairros, a arquitetura das casas, casas grandes, refinadas, o sol brilhando, as montanhas de um lado e o mar do outro, muros de pedra, poucos prédios. Dirigiu em direção a sua praia preferida, ficava na reserva de Cliff Path, dirigiu pela rua cheia de casas bonitas e muros de pedra e para ficar melhor sua música preferida no mundo começou a tocar.

Clara como a luz do sol, clareira luminosa nessa escuridão — Ela começou a cantarolar seguindo a música, tamborilando os dedos contra o volante — Bela como a luz da lua, estrela do oriente nesses mares do Sul, clareira azul no céu... Na paisagem, será magia, miragem, milagre, será... Mas o quê?! — E Havana soltou um enorme palavrão ao ver pela sua visão periférica uma determinada moça descendo de um carro na frente de uma das casas bonitas.

E foi quando descobriu o que faria caso visse Ryan outra vez.

Havana pisou no freio e fez a curva imediatamente, era mão inglesa, ops, ops! Era mão inglesa, ainda se enrolava na tal mão inglesa, consertou sua barbaridade e fez a volta por cima do canteiro central, era Ryan? Era...?

Foi parando devagar. Era ela mesmo.

Havana estacionou e ela não lhe notou, estava do lado de fora, mas o corpo estava dentro do carro, como se tivesse arrumando alguma coisa, Havana havia parado alguns metros para trás e a sua caminhada até onde ela estava foi um intenso frio na barriga. Podia não ser ela. Havia bebido demais, podia apenas ser uma moça parecida com ela, disse a si mesma, e então se deu conta de que estava apenas tentando se acalmar: era Ryan, não tinha como confundi-la. Chegou perto e:

— Boa tarde, moça bonita.

Ela olhou para fora imediatamente e, abriu aquele sorrisão lindo que Havana tinha flutuando na sua mente desde quando acordou.

— Havana?

— Desculpa interromper, mas eu acho que você me colocou na cama noite passada.

Ela sorriu bonito daquele jeito e quando tirou os braços de dentro do carro ela tinha um bebê no colo.

Um lindo bebê loiro que tinha o mesmo sorriso que ela. Havana tentou fazer algumas contas na sua mente, mas nada, nenhuma conta fazia sentido.

— Este bebê lindo...?

— Então, este bebê lindo...

Ela não conseguiu explicar, mas também nem precisou. Quando ia começar a falar, duas garotinhas saíram correndo de dentro da casa e agarraram nas pernas dela.

— Mãe, mãe, a Parker, mãe, a Parker! — A maior das meninas se agarrou na cintura dela rindo, tentando explicar alguma coisa enquanto a outra apenas ria sem parar. Outras duas pequenas versões de Ryan e foi quando que por último Havana olhou para os anéis nos dedos dela...

E um deles, na verdade, era uma aliança.

Notas da Postagem:

Olá meninas!

Aqui estou eu para apresentar "Havana" para quem ainda não leu :)

Havana é o meu primeiro trabalho publicado em e-book e está disponível na Amazon, quem quiser conhecer melhor ou ler mais alguns capítulos, basta clicar na miniatura aqui em baixo que será direcionado para a estante virtual onde poderá folhear um pouco mais desta história gratuitamente.

Este livro foi um desafio, moças. Por diversos ângulos, foi algo muito diferente de se escrever. Quem me acompanhou em Delirium sabe que eu gosto muito de ter personagens secundárias de impacto, que ajudam no desenvolvimento da história e em "Havana" eu não abri mão desta fórmula, porém minhas personagens secundárias ao invés de serem algum outro casal para balancear a história, eram coisinhas pequeninas, três bebês cujo dois passam boa parte da história sem dizer uma palavra que seja :) Eu não tinha ideia de como o público iria aceitar esta ideia, se uma história com amor familiar envolvido não teria uma boa aceitação e a lição que tirei com todo o carinho que Havana tem recebido é: há público para toda e qualquer história, desde que tenha muito amor envolvido ♥

E sim, Havana é uma história que transborda amor em várias e diferentes formas.

Convite reforçado para a leitura!

Beijos!

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