6 AM - Capítulo 32 - Hazte Sentir


Manhã do dia anterior.

Deixar Ívi teve um efeito inesperado.

Não que Noah tivesse alguma esperança em relação a ela, Ívi tinha sido clara desde o começo, estava livre, mas era apenas o corpo, porque a mente e o coração pertenciam a tal espanholinha que namorava uma campeã olímpica e estava em Londres com a tal namorada. Só não contava mesmo que a espanhola voltaria, para alguém tão pés no chão como lhe descreveram Laura Ferrer Bueno como sendo, a decisão de voltar para o Brasil direto para os braços de uma gata de rua não fazia o menor sentido. E ao mesmo, era tudo o que fazia sentido. Para o tanto que Ívi acreditava em Laura e se entregava para ela, era o que fazia sentido. Ívi sabia que Laura era essa menina, acreditava que ela iria voltar sem nenhuma dúvida porque a paixão era forte demais, e no fim, a espanholinha voltou e no fim, Noah tinha ganhado um presente que ainda não acreditava que estava em suas mãos.

Olhou para a direita, porque enquanto dirigia naquele sol suave em direção à Região dos Lagos, Karime ia curtindo a brisa de uma maneira linda ao seu lado. Julia dormia no colo de Thai no banco de trás, Thai estava toda sonolenta também, mas Karime não. Nada de sono, nada de energia baixa, ela ia sorridente, agradável, atraente sim, era o que ela fazia sem nenhum esforço. Tinha pedido para baixar os vidros, porque queria sentir o vento, a natureza, aquele dia. As pernas dobradas no banco, os óculos escuros, uma serenidade no rosto enquanto ela curtia o som, o sol, o momento. Foi o que ela havia dito a Noah quando entraram no carro aquela manhã, que independentemente de qualquer coisa, aquele momento já era um presente e da maneira mais doce, lhe agradeceu por ter batido em sua porta, por ter surgido do nada, por ter lhe tirado da cama todos aqueles dias e Noah…

Noah só queria parar de perder tempo. Era tudo o que queria.

Uma hora de estrada e pararam para tomar café e abastecer. Thai acordou Julia com beijos nas pálpebras, a fazendo sorrir antes mesmo de abrir os olhos porque como já sabemos, havia dias em que aquelas duas eram puro apego e isso andava se intensificando nos últimos dias. Elas desceram juntas, para adiantar os pedidos de café na lanchonete enquanto Noah abastecia e Karime ficou de pé por ali, perto do carro, olhando algo no celular e com um pirulito na boca. De cereja provavelmente, estava deixando os lábios dela ainda mais vermelhos do que já eram naturalmente. Aquela garota linda tinha lhe salvado um dia. E cada segundo que passava perto dela, Noah se dava conta de que não havia sido apenas do assédio que Karime tinha acabado lhe salvando.

Sempre havia sido entediada por dentro. Se entediava facilmente nos almoços de família que sempre lhe exigiram tanto, amava sua família, mas sempre sentiu um muro entre si e o resto do mundo, o mesmo acontecia com mais de noventa por cento dos amigos que tinha, o mesmo acontecia com seus namorados que nunca lhe interessavam de verdade. E de repente, Karime e uma minissaia. De repente aquela garota roubando seus pensamentos nos momentos menos esperados. Karime abriu uma porta em sua mente. Ter tido coragem para investir em Ívi havia sido fruto de dois anos de vontade passadas por Karime e com Ívi, todas as coisas mudaram. Seu tédio constante melhorou, ficou quase amigável, Noah adorava passar tempo com ela, adorava as garotas que ela lhe apresentou, amava sair com elas, nunca era chato, nunca era menos do que extremamente agradável, muito divertido, prazeroso demais. Porém, ter aberto aquela porta física num domingo e dado de frente com Karime...

Isso elevou o game para outra realidade. Apertou os lábios olhando para ela, sentindo sua respiração trepidando no peito. Ela lhe causava isso, por nada, apenas por estar existindo perto de si e Noah se perguntava a gravidade.

Bem, não iria esperar mais uma hora e quarenta para descobrir.

Se aproximou de Karime devagar, enquanto o frentista completava o tanque.

— Alguém interessante? — Perguntou, como quem não quer nada e Karime sorriu. Tinha sentido o perfume dela se aproximando.

— É a minha mãe, há uma boa possibilidade de você achá-la interessante quando se conhecerem, ela é uma figura.

— Ah, então tenho chances reais de conhecer a senhora Echevarría?

Karime tirou os olhos do celular e os colocou dentro daqueles olhos verdes. Que delícia que eram, nem sabia explicar.

— Depende.

— Depende do quê?

— De algumas coisinhas, tipo, sei lá, a sua conversa com a Ívi por exemplo... — Respondeu sorrindo e a fazendo sorrir. Karime não queria pressioná-la, mas a proximidade com Noah não andava sendo fácil, andava passando vontade demais — Foi tudo bem?

— Foi do jeito que eu imaginei que seria. A Ívi não me queria, Karime, não havia nada sério com ela, eu só achei que deveríamos conversar por que… — Apertou os lábios, olhando bem nos olhos de Karime, ela era bonita demais, como podia?

— Por que o quê?

Noah apertou os lábios respirando fundo. E a pegando pela nuca, e puxando-a por baixo dos cabelos, fez o que deveria ter feito há dois anos.

Por isso aqui — A puxou contra si e a beijou.

Beijou gostoso demais, profundo demais, pegando lábios e língua imediatamente, só de uma vez, descobrindo que o pirulito era de morango, que aquela boca era tão deliciosa quanto achava que era. Beijou de surpresa, roubando beijo e sorrisos dela, ganhando uma mão firme na cintura, um coração acelerado por que…

— Você roubou a Ívi igualzinho, não foi? — Karime perguntou depois do beijo enquanto Noah estava sorrindo demais.

— Vocês levam anos para me beijar, gente…

— Sua hétero paraguaia — A colocou contra o carro e a beijou novamente, do seu jeito agora, a pegando pela cintura, pela garganta, descobrindo todo o gosto que tinha aquela boca enquanto seu coração acelerava e suas mãos lhe traíam um pouquinho ao agarrá-la, ao puxá-la para perto, porque a queria perto, precisava, do beijo, da pele dela, precisava logo, com urgência e...

Era sério que estava tremendo?

Era sério, Karime estava tremendo e Noah lhe abraçando longa e carinhosamente ao perceber seu nervosismo foi a coisa mais apegada que podia pedir. Ela era uma coisa, gostosa, cheirosa, dócil e toda atrevida, e ao se repetir essas qualidades mentalmente, Karime se deu conta de que Noah era extremamente parecida com Laura e este deveria ser o seu tipo. O tipo que lhe fazia tremer e lhe deixava totalmente aturdida.

— Eu não acredito que a gente se beijou... — Disse no ouvido dela, lhe tocando a nuca por baixo dos cabelos, a abraçando muito forte enquanto seu coração disparava no peito por causa dela. Ela estava sentindo, contra o seu peito e no seu peito, Noah estava sentindo tudo igualzinho, tão forte que tudo o que queria era se fundir contra a pele dela naquele abraço tão apertado, tão apegado.

— Eu não acredito que a gente se beijou! — Noah respondeu sorrindo, toda agarrada em sua camiseta, sentindo o cheiro de Karime em seu ombro, em seu pescoço — Eu acho que você não faz ideia do quanto eu quis isso...

Guapa, esse tipo de coisa não acontece... — Suas mãos ainda tremiam, a respiração também e o coração de Noah batendo tão rápido que estava escapando pelo seu pulso acelerado.

— Acontece quando tem significância — Noah respondeu, enroscando os braços pelo pescoço de Karime, tocando sua testa na dela, a mantendo pertinho assim — E eu espero que você esteja bem convencida de que você tem muita significância para mim.

Karime fechou os olhos, a sentindo perto, o perfume dela, os cabelos suaves, a pele quente lhe inebriando.

— Menina, você não existe... Era só uma fantasia da minha cabeça e de repente...

— Eu estou aqui, te dizendo que você tem significância, dizendo que eu pensei em você todo esse tempo e agora... — A beijou novamente, deslizando a boca pela dela porque beijá-la era uma delícia total. Beijou outra vez, mais um beijo, longo, denso, ansioso demais.

E agora eu estou aqui, para te dizer que você também tem significância para mim, linda — Karime encostou sua testa na dela novamente, era mais alta, uns oito deliciosos centímetros — Achei que desta vez eu não tinha volta, Noah — Disse, num tom de dor, porque era verdade — E de repente você aparece, e de repente...

— Eu vou ficar aqui hazte sentir — Ela disse, sorrindo de olhos fechados e fazendo Karime sorrir. Hazte sentir, Noah tinha ouvido da boca de Laura outro dia e significava algo do tipo “te fazer sentir”, ou “até você sentir”.

Karime a beijou, a abraçou, a guardou contra o seu corpo e o seu coração, que já sentia demais, já sentia um tanto enorme por aquela menina que povoou os seus sonhos por tanto tempo. Não se soltaram enquanto o frentista terminava de abastecer, aconteceu outro abraço longo, outros cheiros necessários, a urgência pela pele uma da outra, pelos braços enroscados, mais beijos, mais carinho, mais das duas se convencendo de que estavam mesmo acontecendo. O abastecimento terminou, foram para a lanchonete de mãos dadas, ouviram enormes gracinhas assim que entraram.

Viva las novias! — Era Julia, é claro.

— Estavam nos espionando!

— Vocês estavam se beijando no meio do posto de gasolina, gente — Era Thai, sorrindo demais — Noah, você superou a Laura!

— Superei? Em quê?

— Ela beijou a Ívi na fila da pizza, mas você beijou a Karime no meio do posto de gasolina, tipo, no meio do posto!

Mais risos, mais sorrisos, mais mãos agarradas, braços agarrados porque agora que tinham beijado é que Noah e Karime não se soltavam mesmo. O grude intenso bem do jeito que Julia e Thai também estavam porque, não dava para descrever o quanto aquela cubana ficou feliz quando Thai lhe pediu para ir consigo para Arraial… Geralmente, Thai ia sozinha, esfriar a cabeça, passar um tempo com Renata, nunca tinha convidado Julia assim, para ir do seu lado e Karime estava chegando à conclusão de que Julia, apesar de todo o poder que tinha sobre as mulheres, ainda era uma menina mesmo, insegura porque estava gostando de alguém diferente de quem havia gostado a vida inteira. Era distinto, a dependência de Laura e o que a independência de Laura estava fazendo com Julia. Todas esperaram por uma crise de Julia quando Laura pediu para que Ívi fosse buscá-la sozinha no aeroporto, mas a grande verdade é que Julia apenas olhou para Thai, pedindo colo e carinho como andava fazendo todos os dias. E ela não só lhe colocou no colo como disse que iriam para Arraial, de namoriño, bem agarradas, ela queria? Então que Julia sussurrou sorrindo se fariam amor se fossem e a resposta de Thai foi...

Bem, a resposta dela foi “nós já estamos fazendo” e Julia andava aterrissando na realidade de que, entonces, es verdad, estava enamorada de ella.

Julia tinha um enorme domínio físico sobre as garotas com quem ficava, mas tal domínio aparentemente não se estendia para o campo sentimental e talvez fosse aí que Karime e Julia não tivessem dado certo. Depender de Julia sentimentalmente era de fato, se colocar em posição de perigo e agora que a bachelor tinha encontrado um colo seguro…

Thai lhe beijou a testa, cheirando os cabelos dela enquanto recebiam o café com pão na chapa, os pães de queijo que Thai adorava, a mão dela na sua o tempo todo.

Juls, o que você acha que vai acontecer? — Thai perguntou enquanto Noah e Karime estavam tão agarradas uma na outra que sequer estavam presentes de fato — Quando a Laura chegar, o que você acha que vai acontecer?

— Thai, olha pra mim — Ela lhe olhou e Julia tocou sua testa na dela, com muito carinho, achando aqueles olhos felinos bem de pertinho — A partir daquele dia em Madrid para cá, Laura é minha irmã. Apenas minha irmã. Eu não sei o que vai acontecer quando ela chegar, mas seja lá o que aconteça, eu espero que caminhe para a felicidade dela, porque eu a amo e a quero feliz. E a felicidade dela agora, eu desconfio que se chama Ívi Schelotto e se por algum motivo ela não fizer a minha irmã feliz, eu vou arrancar a pele dela. À parte disso, a única coisa que eu consigo pensar é nesses nossos dias, juntas, estoy flipando por estar junto a ti — Disse, agora olhando para baixo e a fazendo sorrir, porque Julia tímida era a coisa que Thai mais adorava ver — Flipando por que, me vas a llevar a tu casa y... — Respirou fundo, Julia falava espanhol sempre que ficava nervosa ou tímida — Nunca has hecho esto, entonces...

— Você nunca pediu o meu colo antes.

Julia beijou a mão dela com carinho.

Si yo supiera que era solo pedir...

— Era só pedir. E acho que eu também só tinha que te pedir para vir comigo, de namoriño, para um tempo nosso em que a gente possa... Eu não sei — Abriu um sorriso — Eu não sei o que esperar da gente. Mas eu estou disposta a esperar alguma coisa, Juls.

Julia abriu um sorriso enorme, afundando o rosto no pescoço de Thai.

¿Puedo robarte un beso o...?

Sorriso de Thai, todo derretido. Respondeu em sussurro, quase segredo:

— Para de me perguntar, só rouba...

Julia roubou. Um beijo delicado, carinhoso, roubado, ainda que tivesse anunciado o assalto. Seu coração estava um pouquinho apertado porque não iria ver Laura de imediato, mas a grande verdade é que Julia estava nas nuvens por estar com Thai... Indo para a casa dela, passar um tempo juntas, para esperar qualquer coisa que pudessem ser. Já servia, ser qualquer coisa além do que já eram, já servia, tal como também servia muito o tanto que Laura, subitamente, havia desocupado a sua cabeça.

E mudado de lugar em seu coração.

Dia atual.

Laura respirou fundo e antes de abrir os olhos, abriu um enorme sorriso porque, era o cheiro de Ívi. Era o peito dela contra o seu rosto, eram os braços fortes que ela tinha envolta do seu corpo, eram aqueles olhos puxadinhos lhe observando dormir...

Era sério? Ela estava lhe olhando dormir?

— Às vezes eu sou romântica que envergonho até você... — Respondeu, fazendo Laura sorrir demais, fazendo-a subir pelo seu peito para lhe deixar na boca o primeiro beijo do dia.

Beijou gostoso, beijou doce, beijou ainda não acreditando que estava acordando assim, beijando a sua Ívi, a sua garota, pela qual era tão, mas tão apaixonada...

Buen día, mi amor.

— Bom dia, amor da minha vida — Ívi a cheirou, a guardando nos braços muito gostoso, a apertando, a sentindo, Laura estava nua, estava quentinha, a coisa mais deliciosa da vida — Dormiu bem?

— Muito bem — Respirou bem fundo — E acordei na cama, fazia dias que isso não acontecia.

— Eu já disse que você não tem crise nenhuma quando dorme nos meus braços...

Laura sorriu, a beijando novamente.

— Eu devo admitir que há algum fundamento nisso que você diz...

— Tem que admitir, não é? — Abriu um sorriso, a enchendo de carinhos.

— Eu tenho e... — Beijou o peito de Ívi, mordiscando um pouquinho, deixando um tanto de língua pela sua pele e Ívi...

— Laura, você estava dormindo nua em mim, amoriño...

— Está com tesão? — Perguntou, já tocando a intimidade de Ívi que... — Usa em mim...

Laura iria lhe matar. Pensamento aleatório antes de Ívi descer a mão para entre as coxas dela e, fazerem amor antes de qualquer coisa.

Fizeram muito gostoso, entre risadas e gemidos, e mãos atrevidas, com Laura puxando Ívi para sobre o seu corpo, mordiscando cada musculatura sua, lhe arranhando deliciosamente como a gata manhosa que era, deixando sua boca estrategicamente pela pele de Ívi, porque aquela menina além de linda era uma delícia, era um tesão fora do comum, aquela pele cheirosa, aquela boca atrevida e Ívi a pondo naquela pressão gostosa sob o seu corpo, sob os seus beijos, sob o seu tesão intenso que fez Laura estremecer as pernas antes mesmo de sair da cama.

Ela estremeceu as pernas, tremeu inteira e se vingou de Ívi a arrastando para o chuveiro, a pondo contra a parede e se pondo de joelhos à frente dela, a amou exatamente como queria ter amado na noite anterior. Ívi encostada contra a parede, as pernas abertas, os olhos fechados, a mão empurrando contra a parede, a outra puxando Laura pela nuca, a respiração acelerada, a boca se mordendo enquanto o abdômen começava a comprimir e comprimir por que...

Acordar na boca de Laura Bueno era a melhor coisa que Ívi podia pedir na vida.

Estremeceu na boca dela, tanto e tão sensível que Laura teve que lhe abraçar, lhe acalmar, dizer para respirar fundo enquanto ela lhe dava banho, lavava seus cabelos, deixava a boca pela sua pele porque soltarem uma da outra por um centímetro que fosse, pelo menor segundo que fosse, parecia impossível naquele momento. Olhos nos olhos, a calma chegando, aquela cumplicidade que já era tão delas, que tanto havia nos olhos uma da outra. Sorrisos. Estavam juntas! Ainda era meio irreal. Terminaram o banho juntas, fizeram mochilas para a praia rapidinho e Ívi não conseguia soltá-la, não conseguia não a beijar, manter suas mãos fora do corpo dela e esperava que Laura entendesse o seu apego. E é claro que ela entendia, porque estava tão apegada quanto, queria estar a 0 centímetros de Ívi o tempo inteiro e ainda não parecia real, de jeito nenhum parecia real.

— Vocês compraram uma cama mesmo? — Laura tinha acabado de notar a cama quase que por acaso, estava ali o tempo inteiro? Ívi sorriu, é claro que estava.

— Nós compramos, você não disse pra gente comprar? Aliás, compramos a cama, eu comecei o meu curso de inglês, acho que surpreendentemente estou indo bem...

Laura a beijou, toda agarrada no pescoço dela, estava de bermuda jeans curtinha, um elegante maiô preto, a coisa mais linda e gostosa da vida inteira de Ívi.

— Eu te disse que você ia se sair bem, aliás, podemos pensar mais para frente em uma prova de proficiência em italiano e em espanhol também, é importante pra sua carreira saber se comunicar bem, amor.

— Proficiência em espanhol também?

— Você já está falando espanhol, meu bem, só não percebeu ainda — Respondeu sorrindo — Escuta, vamos nos permitir um café da manhã diferente?

— Um café diferente?

— Eu vou te levar para tomar café na Starbucks aqui perto — Ela pegou uma jaqueta curtinha e vestiu por cima — Eu mandei o meu curriculum antes de viajar e recebi um e-mail há uns três dias, eu expliquei que estava viajando, eles não me retornaram nada, mas — Beijou a boca de Ívi de novo porque ela estava a coisa mais linda, de short curto, camiseta branca, camisa florida de botões, um tanto maior do que ela porque sua garota era cheia de estilo e Laura ficava toda perdida — Vai que se eu for lá e demonstrar interesse eles repensem, não é?

Ívi tocou o cabelo dela, tinha adorado o visual novo, o cabelo mais curto, castanho claro, era a cor original.

— Já quer trabalhar assim, de imediato, linda? Não precisa ser tão imediato...

— Trabalhar, voltar para a faculdade, salvar o que puder do semestre, nós temos um monte de coisas para fazer, mi amor.

Nós temos? — Amou a frase na boca dela, sorriu que nem boba.

— É claro que é nós que temos. Nós estamos juntas, amor, e eu quero ser o melhor que posso ser para você, meu bem.

— Mas Laura... Eu posso cuidar de você um pouquinho... — Queria ao menos um pouco da atenção plena de Laura, só um pouco.

— Eu estou dizendo que você não pode, Ívi? — Laura a enlaçou pela cintura, a mantendo perto — Eu sei que você pode, mas eu também quero te cuidar. Lembra de quando você me perguntou no dia seguinte que a gente se conheceu, o que aconteceria se nós não fossemos um “geralmente”?

Ívi cheirou os cabelos dela. Lhe beijou a testa.

— Você disse que ainda estaria aqui por tempo suficiente para a gente descobrir.

E está aqui. E eu só quero cuidar dessa nossa coisa bonita o melhor que eu posso cuidar. Então, mi amor — Agarrou no pescoço dela sorrindo, ficando na ponta dos pés, se grudando inteira pelo corpo dela — Me deixa começar a cuidar de você te levando para tomar um café?

Como se Ívi pudesse resistir a ela pedindo assim.

Saíram já com as mochilas e a mala de Ívi, Natalia tinha conseguido uma boate em Arraial do Cabo para o dia seguinte e como Julia tinha levado seu violão, já dava para fazer um show interessante. Foi gostoso demais descer de mãos dadas com Laura, uma delícia encontrar Dona Eleonora na entrada do prédio e ela perguntar a Laura se já estava com a menina certa. Sorriso, abraço longo, resposta de Laura: já estava sim. E então caminharam para a Starbucks, ficava pertinho, deu para ir a pé enquanto conversavam muito, Laura contando da viagem, contando de Tiziana, mostrando as fotos no celular, Ívi ficou tão emocionada, nem sabia. Sua irmã tinha lhe enviado camisas, inclusive aquela que estava usando aquele dia, mandado alguns doces, massa fresca italiana, seu perfume, tantas coisas que só aumentou mais ainda a vontade de Ívi de poder ir vê-la pessoalmente.

— Ela é maravilhosa, Ívi, a nossa conversa foi incrível — Laura lhe dizia quando sentaram na mesa depois de pegarem seus pedidos — Acho que nós falamos as dez horas inteiras que ficamos juntas e nem é que eu não estivesse toda inclinada para você já aquele dia, mas ela me empurrou de vez, me fez ver algumas coisas que eu não tinha notado ainda.

— É claro que ela ficaria do meu lado, né, não havia imparcialidade nessa conversa não — Ívi lhe disse sorrindo e fazendo Laura sorrir.

— Eu sei que não havia mesmo, mas foi muito importante de qualquer forma. As coisas que ela me fez ver, sabe, tão claramente. Me fez fazer sentido mesmo, fatti sentire ancora! — Sorriu lembrando — Foi assim, ela gritando “italianamente” comigo.

Mais sorrisos de Ívi, provando seu chocolate delicioso.

— Ela ficou inconformada da Kelsey deixar uma gata que nem você ir passear sozinha com, veja bem, palavras dela, uma gata como ela... — Contou, fazendo Laura rir demais.

— Ela fica com garotas também?

— Provou de tanto eu pegar no pé dela, mas depois disso, ela ficou bem bi, nunca mais voltou do vale. Ela adorou você, se você não fosse minha, teria sido dela, palavras dela também... — Mais risos enquanto Laura mordia sua medialuna.

— Isso é de família, né? Essa uber confiança — Que particularmente, Laura adorava. Ficar caidinha por mulheres confiantes, se tinha um tipo, este era o seu — Mas ela foi linda comigo, se eu já não fosse de duas no dia, acho que teria sido dela... — Respondeu, fazendo graça, Ívi adorava aquela Laura que fazia graça!

A puxou rindo demais e beijou aquela sua espanholinha, muito gostoso, não cansava de beijá-la o tempo todo.

— Você é um perigo, Laura Bueno! — E então, ficou um pouquinho mais séria enquanto Laura se abaixou para pegar algo na bolsa — Laura... — Respirou fundo — Como foi a conversa final com a Kelsey?

Laura achou que ela perguntaria sobre isso.

— Na verdade, nós começamos conversando aqui — Era uma caneta hidrográfica que ela tinha se abaixado para pegar, com a qual ela começou a fazer algo no seu próprio copo — Eu tentei dizer para ela o que tinha acontecido entre você e eu, Ívi, nós brigamos feio, ela não quis ouvir e eu quase não embarquei. Mas acabei embarcando por que...

— Era seu compromisso.

— Era meu compromisso. Eu fui de qualquer forma, tivemos uma primeira noite complicada, eu pensei em você, bebi, perdi o controle e depois disso, decidi que tinha que ser mulher e assumir a confusão na qual me meti. Foi bom, Ívi, a Kelsey é ótima e não há nenhum motivo para eu não estar loucamente apaixonada por ela. Eu só não estava, não conseguia parar de pensar em você e na última noite em Londres, terminamos a conversa que começamos no aeroporto. Foi a nossa despedida, foi da forma que o nosso relacionamento merecia que fosse, ela foi me deixar no aeroporto e desejou as melhores coisas para nós duas — Contou, enquanto continuava usando a caneta no seu copo.

— Ela é muito educada, moderna, civilizada. Sinceramente, Laura, Kelsey Harris Giuliani não existe não.

— Ela é maravilhosa, foi linda com a María, mas...

— Mas o quê?

Laura lhe olhou.

— Tem esse problema de eu estar louca por você, mi amor, essa situação irritante de eu não parar de pensar em você...

Ívi a beijou novamente, sorrindo demais e, vendo o que ela tinha acabado de fazer no copo.

— Mas... Que lindo, amoriño...

Era lindo mesmo, ela tinha desenhado flores pelo copo, com caule, folhas, um desenho anatomicamente perfeito para botânica, uma coisa linda demais que ela tinha feito em segundos.

— Agora eu vou lá falar da vaga de barista, solo un segundo, mi amor...

Ela foi lá no balcão, com seu copo e um jardim em volta do seu nome, com o sorriso mais lindo possível aberto, pedindo para falar com o gerente. Era a gerente, ela veio lá de dentro, Laura se apresentou mais simpática impossível, mostrou o copo, olhos maravilhados, com o copo, com Laura que era perfeita, Ívi sabia que era e aquela conversa terminou com Laura desenhando em outro copo que a gerente foi buscar, seguiram conversando enquanto sua espanhola terminava outro jardim em volta do nome da moça: “Haila”, um girassol, algumas margaridas, um regador, um sorriso arrancado quando o copo foi entregue e Laura voltou para a mesa.

— Você terá que me treinar para eu não ficar enciumada quando você estiver distribuindo charme em cima de meninas bonitas, amoriño, porque eu não sou evoluída igual a Kelsey, Laura Bueno...

Laura a beijou sorrindo demais.

— Ela me pediu para vir para as entrevistas, serão na sexta agora.

— Sério?

— Aham! Vai que eu consigo o emprego, mi amor — Sentou-se à sua frente novamente — Já terminou, meu bem?

— Já sim. Impressão minha ou tem alguém morrendo de saudades de certas pessoas?

Laura sorriu, estava sim, morrendo de saudades de suas garotas... Partiram para o terminal de ônibus, chegaram bem no momento em que o próximo sairia e Laura morreu de rir quando Ívi disse que compraria ao menos o executivo.

— Ívi...

— Você veio de primeira classe de Londres, Laura, de Londres! De jeito nenhum eu vou te dar este choque de realidade, pode até fazer mal...

Laura apenas morreu de rir e embarcaram no ônibus, em que deitou no colo de Ívi, onde pôde ir agarrada em seus braços, sentindo o cheiro dela, conversando mais e mais porque ainda tinham um monte para falar.

— Por que quis que eu fosse te buscar sozinha?

— Não queria te dividir, é claro. Mas eu falei com a Noah primeiro, tentei suavemente descobrir se vocês estavam namorando ou não e ela morreu de rir, e foi muito direta, foi tipo — Estava deitada no colo de Ívi, ela lhe acariciava os cabelos — “Galega, vem pegar a sua garota de uma vez”, e eu fiquei aliviada por vocês não estarem namorando, mas eu ainda não sabia se... Você ia me querer e eu fiquei doze horas de tempo nervosa e ansiosa demais, e...

— Laura, você pulou no meu pescoço!

— Eu sei! — Ela respondeu rindo demais — Foi um impulso, mas eu estava nervosa o tempo todo. Eu pedi para a Karime dar um jeito de te enviar sozinha, porque eu queria conversar com você, pensei até em pegar um hotel onde a gente pudesse conversar, mas ela disse que era um absurdo, porque o apartamento é meu e a Thai anunciou que ia levar todo mundo para Arraial, porque, ela e a Julia estão finalmente caminhando para algo e a Noah...

— É a garota da Karime, a do ponto de ônibus!

— Eu ainda não acredito nessa história, sabia? Tipo, ela bateu na porta...

— E era a garota, Karime cogitou diversas coisas sobre um declínio ainda maior da sua saúde mental... — Disse sorrindo e fazendo Laura rir demais.

— Sabe se elas ficaram?

— Ontem mesmo, se beijaram num posto de gasolina, não se soltaram o dia inteiro, e eu fico muito feliz de não estar indo sozinha para aquela casa cheia de casalzinhos...

Laura a puxou e a beijou novamente, sorrindo. E então ficou mais séria um pouquinho.

— Ívi, o que você acha da Julia? Ela está bem, está tranquila?

— Ela ficou mal por uns dias depois que você terminou de novo com ela, mas isso inesperadamente serviu para trazer a Thai de volta para perto, porque...

— Ela detesta ver a Julia triste e quando ela chora, Thai rosna pra mim, me morde, me detesta...

— Exatamente. Isso as aproximou demais e elas voltaram a ficar naquele dia. Não foram para a cama ainda, estão fazendo as coisas devagar e está a coisa mais linda, Laura. Eu tinha dúvidas sobre como a Julia funcionava, mas ela me convenceu esses dias de que, o que ela sente por você é totalmente independente do que ela sente pela Thai. Ela é mesmo apaixonada por aquela menina, apesar dos sentimentos por você. E assim, ela evoluiu. Acho que já a ouvi te chamando de irmã umas trinta vezes desde o término, é como se ela quisesse se habituar com o título, falar com naturalidade da mesma forma que você a chama de irmã sem problema nenhum.

— Ela é minha irmã. Nunca deixou de ser, este é um dos motivos pelos quais eu fui parar na reabilitação. Julia se dividiu na minha cabeça, era minha irmã e minha namorada em personas distintas e eu não fazia ideia de como resolver isso. Mas eu consegui achar uma escapatória e resolvi isso na minha cabeça, mas ela...

— Ela me disse que vocês nunca mais ficaram depois do término e isso a deixou louca aqui.

— Na minha cabeça, quando ela apareceu aqui, a namorada tinha desaparecido e ela se tornara apenas minha irmã.

— Bem, eu acho que este efeito aconteceu pra ela também agora.

— Eu espero, porque, eu estou muito feliz com a minha namorada nova e, estou morrendo de saudades dela, você não faz ideia...

Ívi a beijou muito carinhosa porque achava que fazia sim.

Sequer perceberam o tempo passando, conversaram muito, Laura contou toda a sua viagem, contou do encontro com María e Alejandro, dos dias na Itália, em Londres e Ívi a atualizou de tudo o que tinha se passado na sua ausência. Contou dos shows que estavam evoluindo, que estavam trabalhando demais, o canal de Julia ia cada vez melhor, cheio de vídeos dela com Ívi, os seguidores de Ívi tinham triplicado e ela estava muito feliz com os rumos de sua carreira.

— Tudo isso porque, durante uma crise de choro no meio de um bando de argentinos, você pegou uma gata de rua e levou para casa, amoriño.

— Você ia dar certo de qualquer maneira, mi amor.

— Você me deu sorte. Você apareceu e mudou todas as coisas.

Tinha sido assim, sim.

Chegaram a Arraial e Ívi começou a surtar ainda na entrada! Era lindo, era azul demais, místico e parecia demais com a sua cidade, com Maragogi e o aperto que sentiu no peito lhe contou o quanto estava com saudades de casa. Desceram do ônibus, pegaram suas coisas e quando Laura olhou para frente...

Lá estava, a sua Julia descendo do carro e, enchendo os olhos de felicidade assim que lhe viu...

E então que Laura largou tudo e correu para Julia.

Saltou no pescoço dela e Julia a segurou contra o seu corpo, a segurou no alto, a tirando do chão, tocando Laura por baixo dos cabelos e brilhando aqueles olhos de pôr do sol intensamente. Um abraço muito longo, tão bonito, Ívi sabia o quanto a sua Julia estava morrendo de saudades de Laura e vê-las juntas naquele bem-querer tão bonito...

— Você veio dirigindo!

— Noah me emprestou o carro, porque aparentemente ela teme que a Karime se desintegre caso tire as mãos de cima dela... — Disse, fazendo graça e fazendo Laura rir demais.

— Ela está bem?

— Ela está ótima, as três ficaram lá na praia esperando a gente e... — Brilhou os olhos um pouco mais, abraçou Laura novamente, como estava morrendo de saudades — Como é bom ter você de volta, Laura, Díos mio...

— Eu sempre vou voltar para você, mi vida, lembra? Desde aquele trem?

— Você voltou para mim outra vez.

— E eu sempre vou voltar. Te amo, mi vida, te quiero mucho.

Yo lo sé. Ahora lo sé — Respondeu, ainda a olhando muito, com os olhos brilhando demais. Laura a abraçou outra vez, a cheirou, a beijou, a sentindo mais perto.

— Como está com a Thai, conta pra mim!

— Eu percebi que... — Ívi chegou perto e Julia a abraçou, muito carinhosa, muito feliz por Ívi estar por perto, e agarrada nela, continuou o que estava dizendo, sem soltar da mão de Laura — Percebi que eu quero que você seja feliz de qualquer forma, Laura, ainda que não seja comigo, eu sempre quis que você fosse feliz. Mas a Thai... — Respirou muito fundo, Julia andava emotiva demais — Percebi que eu também quero que ela seja feliz, mas eu vou ficar furiosa demais se não for comigo... — Confessou, sorrindo e as fazendo rir.

— Já disse isso para ela, Torre del Mar? — Ívi lhe perguntou.

— Ainda não, mas pretendo dizer em breve, muito em breve. Mas me fala você, Schelotto! Não deixou a minha irmã escapar de novo, não é?

— É claro que não! — Ívi abraçou Laura por trás, lhe beijando o ombro, queria só ver se o movimento queimaria os olhos de Julia, mas nada, ela apenas sorriu — Nada de escape, só a deixei ir ao banheiro sozinha hoje de manhã porque foi muito necessário...

E Laura estava muito emocionada por uma única palavra que Julia tinha usado:

— Está me aceitando de volta como sua irmã?

Con todo amor que siempre tuve por ti — Disse, fazendo Laura sorrir demais.

Daí Ívi quebrou o momento emotivo.

— Julia, eu juro que se você virar a psicopata que você foi com a Natalia...

Julia não deixou Ívi terminar, a abraçou carinhosa demais, sorrindo demais.

— Você vai transar, não se preocupe que você vai! Então, vamos para a praia? O mar está incrível, aquelas meninas estão flipando porque você voltou, Noah quer conhecer a tal espanholinha da Ívi e eu... — Olhou nos olhos de Laura — Só preciso passar um tempo com você. Eu senti a sua falta demais...

Laura a abraçou longamente, sorrindo demais, sentindo algo tão bom por dentro que sequer sabia explicar. Não sabia, mas sabia, olhando para Ívi por cima dos ombros de Julia, se deu conta que sabia sim. Esticou a mão para Ívi, esticou seu amor até ela também.

Estava feliz, pura e livremente feliz, amor e felicidade plena era tudo o que lhe acometia.

Notas do Capítulo:

Olá, meninas!

Aqui estamos com mais um capítulo para a conta dos capítulos românticos porque, sim, eu já sei, já sofremos demais no decorrer desta história. haha.

Acho que já comentei com vocês que até o capítulo 42 mais ou menos teremos o tempo passando diferente, o momento em que os fios se conectam e se acertam e então, elas entram na última fase da história, em que as coisas ganham um peso diferente e alcançaremos o momento do nosso capítulo 0.

Mas por enquanto, vamos curtindo estes fios se fortalecendo e se tornando algo juntas! Próximo capítulo "Arraial", praia, sol, mar, nossas garotas juntas. Ansiosas? Basta comentar! Aliás, preciso agradecer pela chuva de comentários nos capítulos anteriores! Ando em débito com vocês nas respostas, mas acho que a vida está voltando ao normal por aqui aos poucos, adaptação ao cargo novo do emprego regular, minha rotina de escrita restabelecida, vou respondendo aos poucos, mas vou!

Outra coisa, obrigada pela incrível pré-venda de Bali! Vendemos 60% mais do que na pré-venda de Havana e, o capítulo extra está tão apegado quanto merecem nossas garotas. Não vejo a hora de tudo isso estar chegando para todo mundo que comprou. Muito obrigada! De verdade!

Abraços!

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