6 AM - Capítulo 22 - A Ausência


Ívi dormiu respirando a ela. Ou respirando por ela.

E acordou sozinha.

Abriu os olhos e buscou por Laura, quase que como um alerta automático de seu instinto lhe dizendo para buscar por ela. Mas ela não estava no quarto e quando olhou para o travesseiro ao seu lado...

Havia um bilhete. Com a letra caprichada de Laura:

Perdona, mí amor.

Por estirar o fio um pouco mais, por esticar a distância, por dar sentido ao tempo e a circunstância. Perdona, mí amor. Perdona.

Laura tinha partido para Londres.

Levou um tempo para sair do quarto. Leu o bilhete diversas vezes e depois guardou na carteira. Daí abriu e fechou a carteira outras diversas vezes para ler novamente, sem saber bem o motivo já que era apenas uma única frase, três palavras, uma vírgula. Daí achou melhor levantar mesmo, com o bilhete na mão. Vestiu um short de algodão, um suéter pesado de Laura porque estava frio demais e quando chegou na sala, Thai e Karime estavam se preparando para sair.

— Ívi! A Laura dopou você, só pode. O que aconteceu? Eu nunca te vi dormir tanto! — Era Karime.

— É que... — Respirou fundo, sentando no sofá — Deve ter dopado, sei lá, eu até preferia. Ela embarcou mesmo?

— Faz umas duas horas — Thai respondeu — Ívi... — Respirou fundo — Foi uma confusão enorme. A Laura estava transtornada quando eu levantei, andando de um lado a outro feito um felino enjaulado. Ela brigou com a Julia, em uma língua que ninguém entende e saiu daqui do mesmo jeito, sem deixar que a gente se situasse em nada. E agora a Julia está chorando que nem uma Madalena lá no quarto, já expulsou todo mundo, não quer falar com ninguém e eu não faço ideia se...

Ívi sentou no sofá e... Respirou fundo, não estava acreditando.

— Ívi...?

— Eu não acredito que ela foi mesmo. Quero dizer, eu sei que ela tinha que ir, mas... Sem falar comigo?

— Ela tentou, você não acordou, então...

Ívi escorregou no sofá, se deixando deitar, cobrindo os olhos com o braço para que elas não lhe vissem reagindo.

— Meninas, vocês não têm ideia de como foi a minha noite...

— Nós ouvimos a sua noite, bebê — Karime sentou no braço do sofá, lhe fazendo um carinho nos cabelos — E vimos a trilha de roupas até o quarto e agora essas marcas aqui em você — Tocou o pescoço e o colo de Ívi, tinha coleção de chupões ali — Eu só não consegui entender o que deu em vocês para fazerem isso justamente agora, Ívi.

— Eu não ia ficar mais trinta dias sem beijar a Laura, Karime, eu ia ficar louca aqui — Respondeu, ainda cobrindo os olhos, sentindo um tanto enorme — Eu esperei demais. Ou de menos. Sinceramente eu nem sei.

— Ívi — Thai se abaixou pertinho — Está tudo bem?

— Está sim, eu estou bem, eu só estou... — Respirou fundo, e se sentou no sofá — Sentindo um pouco — Para dizer o mínimo — Olha, eu acho que ia ser muito pior se não tivesse acontecido nada, eu ia me sentir péssima só a deixando ir, sabe?

— Você está muito tranquila — Disse Karime.

— Vocês não querem duas desesperadas aqui dentro, vai. Eu sei que vocês já estão muito preocupadas só de ficarmos sem a Laura para eu surtar igual a Julia agora — Sentiu o bilhete queimando em seus dedos. Estava mais irritada do que magoada para dizer a verdade, mas disso ninguém precisava saber — Tudo bem, deixem a Julia comigo, eu cuido dela.

— Ela está chorando feito uma Madalena e está brava feito filhote de tigre, você tem certeza?

— Não se preocupem, podem deixar, aliás, não se preocupem com nada, a gente vai sobreviver sem a Laura, vai dar tudo certo até ela voltar — Levantou do sofá — Eu preciso tomar banho, tenho um monte de coisas para fazer e vocês têm que ir pra aula, não é? Tem alguma coisa na faculdade agora de manhã.

— Uma palestra com um futurista, mas com a Julia assim...

— Podem ir, eu cuido dela, não se preocupem — E partiu de volta para o quarto porque precisava mesmo de um banho, deixando Thai e Karime sozinhas na sala.

— Isso vai ser terrível, Karime… Julia vai ficar depressiva e a Ívi...

— Está puta. Furiosa com a Laura e eu preferia que ela tivesse tido uma crise, ao menos teria reagido ao invés de estar represando as coisas dentro dela.

— Elas são muito parecidas nisso, a Laura aguenta as pancadas calada e de pé, a Ívi faz a mesma coisa.

— E eu fico de coração partido pelas duas porque, você sabe também, você mora com elas duas e sabe.

— Que elas já estão juntas, todo mundo sabe.

— E você sabe também o motivo da Laura ter entrado naquele avião e ela vai se sentir péssima quando tiver certeza do que fez. Você já percebeu que todas as vezes que a Laura se envolve em um problema, a culpa é da Julia ou da María? Essas meninas são tóxicas para ela, ela só não percebe isso.

— É a família dela, como ela pode gerir essas coisas? Eu sei que existem relacionamentos familiares mais abusivos que qualquer relacionamento amoroso, mas ainda assim, é família.

— Eu não sei, Thai, só que me dá muita pena, porque a Laura é maravilhosa e merece ser feliz. Mas acha que não pode ser feliz enquanto a Julia y La Mari não estiverem felizes e ninguém pode gerir a felicidade de ninguém, é uma responsabilidade própria.

Thai alongou o olhar sobre ela.

— Karime, eu preciso comprar os seus remédios, essa de você não tem preço... — Disse, a fazendo rir demais.

— Minha mãe disse que vai me mandar algum dinheiro, eu não vou ficar surtada, prometo.

Thai parou novamente antes de saírem. Tinha aberto a porta, mas parou, fechou novamente, olhou para Karime.

— Karime...

— Quê?

Foi puxada pela nuca e beijada por Thai, muito gostoso e com muita, mas muita delicadeza. Thai quase nunca lhe beijava assim sem Julia por perto, mas andavam ficando mais frequentes estes beijos carinhosos que vinham do nada e Karime não podia negar que gostava. Thai beijava gostoso como morder stroopwafel quentinho no café da manhã.

— A gente precisa voltar ao médico...

— Eu sei, bebê, eu vou. Eu vou dar um jeito em tudo, eu prometo.

Thai a abraçou, cheirando os cabelos dela, muito carinhosa.

— Eu gosto de você pra caramba, Karime.

— Eu sei que é muito, eu também gosto muito de você, Thai e quero você bem. É por isso que eu não sei se não é o momento…

— Por favor, não me deixa. Eu preciso de você.

— Você precisa da Julia, Thai, é dela que você gosta.

— É irrelevante gostar ou não. Você viu, ela está destruída por causa da Laura. Como é que eu posso começar alguma coisa com alguém ainda tão envolvida em outra relação? É por isso que eu acho que no final das contas, deveríamos começar nós duas, você e eu, entendeu? Você anda escapando, não quer conversar comigo e eu não entendo...

Karime abriu um sorriso e beijou a mão dela com carinho. Ela estava insistindo nessa ideia há uns dias.

— Eu sou a pior pessoa para se começar qualquer coisa agora, Thai. Você não faz ideia da luta para eu me manter estável, para me manter segura de mim mesma e manter vocês em segurança perto de mim.

— Você gosta de mim?

— É claro que eu gosto, eu gosto de vocês duas.

— Eu também gosto de vocês duas.

— E ela provavelmente gosta de nós duas também, eu não sei por que estamos tentando arrumar um problema aqui.

— Ela continua apaixonada pela Laura! Eu não sei se gostar é suficiente…

— Thai, cariño, me escuta: — Tocou o rosto dela com as duas mãos — É suficiente entre você e eu, porque chegamos à conclusão de que nos quieremos mucho. Mas quando a mensuração é você em relação a Julia, gostar não é suficiente porque você está apaixonada e quer mais. Agora você precisa tomar uma decisão sobre isso. Porque você está paradinha esperando pela Julia, mas talvez não parta dela a tomada. Talvez precise partir de você tomá-la e não o contrário. Se esconder em mim não vai resolver o problema.

— Eu não quero que você se sinta usada por mim, isso não passa pela minha cabeça nem um segundo.

— Eu sei que não passa — O que não significava que ela não usasse inconscientemente — Escuta, bebê, vamos só nos manter equilibradas, está bem? Vai piorar sem a Laura, eu já me sinto desequilibrada e só faz duas horas...

Thai começou a rir.

— Eu acho que vou pra casa nesse final de semana.

— Pra casa ou pra Renata?

— Karime, você não faz ideia de como é difícil pra mim assistir a Julia agindo assim...

— Thai, para de buscar outras pessoas, para de se esconder, de fingir, enfrenta essa menina de uma vez, está bem?

Falar era mais fácil do que fazer. Thai respirou fundo.

— Karime, como é que o seu português é tão perfeito? Você fala palavras que nem eu conheço, faz conjugações perfeitas...

Karime começou a rir.

— Eu estudo português, cariño, eu não posso me ferrar porque não me comunico bem...

— A gente não estuda português.

— Como?

— Os brasileiros, a gente odeia português...

Karime a olhou, porque ela estava claramente escapando do assunto.

— Leva a Julia pra sua casa. Resolve assim, só vocês duas, em Arraial do Cabo, descobre o que vocês podem ser sozinhas.

Thai apertou os lábios.

— Eu... — Respirou fundo — Eu prometo que vou pensar. De verdade.

Ívi tomou um banho longo, vendo a noite passada voltando em flashes em sua mente o tempo todo. Fez questão de demorar um pouco mais, queria pensar, recapitular o que tinha acontecido, tentar se livrar do que estava sentindo. Ok, levaria um tempo mais. Se trocou, moletom, short de algodão, a tatuagem em sua coxa lhe lembrando “Inquebrável”. Pegou o bilhete outra vez, leu outra vez, foi para a cozinha, ligou a cafeteira e só, ficou a esperando preparar seu café. Não estava com fome, não estava pensando muito bem e o choro audível vindo do quarto de Karime lhe preocupou de verdade. Já fazia duas horas e ela seguia chorando daquele jeito? Entrou no quarto, Julia estava encolhida na cama, coberta dos pés à cabeça.

Dejame!

— Julia, sou eu, está bem?

Ela estava soluçando e devia estar confusa.

— Eu quem?

Ívi se sentou perto dela na cama, a acolhendo.

A outra Madalena. Vem, Julia, olha pra mim, sai daí debaixo, vai.

— Ívi, me deixa…

— Eu vou pegar um café pra gente.

— Ívi! — Saiu debaixo da coberta — Eu quero ficar sozinha.

Ívi a olhou.

— Eu não te dou o direito de me deixar sozinha hoje, entendeu?

Ela apertou os lábios. E Ívi foi pegar o café, pegou alguns pães também, o suco de laranja que Julia gostava e voltou para o quarto. Não estava com fome, mas iria tomar café com ela, do jeito que Julia estava trabalhando era até perigoso ela ficar sem comer nada. E o mesmo se aplicava a Ívi. Inteligência emocional, era isso. Ela já estava fora dos lençóis, o rosto todo molhado, os olhos vermelhos, era de apertar o coração.

— Eu não quero, Ívi…

— Está bem, pega só o café e se acalma — Colocou a xícara na mão dela.

Ela pegou o café. E tomou um gole, respirando fundo, olhando para Ívi plenamente pela primeira vez.

— Ela comeu você todinha e você não a prendeu aqui, Ívi, sinceramente.

— É pior para mim que fui comida, não acha?

— Se ela tivesse me pegado, ao menos teria algo palpável outra vez para me apegar. Eu perdi a Laura, Ívi, perdi há cinco anos quando a deixei sair de casa e mudar de país. Você entende isso? Entende que eu perdi ela assim e agora você pode ter deixado a mesma coisa acontecer?

— Julia, escuta, ela vai voltar, está bem? É diferente do que aconteceu antes — Pegou a mão dela, a sentindo muito gelada — Juls, quando você perceber que perder a Laura não é algo real, as coisas vão mudar completamente na sua cabeça. É impossível você perdê-la, está bem? Vocês têm um laço inquebrável, um fio indestrutível, você não tem que se preocupar com nada.

— Você está realmente calma desse jeito, Ívi?

— Eu estou calma, mas estou irritada também, eu só não sei bem com o que eu estou irritada. Se com o tempo que eu perdi, ou por estarmos atrasadas uma na vida da outra, por a gente só ter ficado ontem, ou por ter ficado ontem, por ela não ter mudado de ideia sobre ir pra Londres, eu não sei mesmo, são muitas questões. Eu entendo que ela precisava ir, que precisa de um tempo com a Kelsey, que precisa ver a María. Mas entender não me isenta de sentir muito por ela ter ido.

Julia olhou bem para ela.

— Vocês foram pra cama?

— Para o chuveiro, serve?

Julia quase sorriu.

— Me conta o que você sentiu.

— Ah, Julia, foi tão gostoso... — Abriu um sorriso só de lembrar — Eu fiquei louca com cada coisa que eu descobria nela, eu entendo a sua obsessão, fisicamente ela é... Meu Deus, linda demais e a melhor parte é que aconteceu a mesma coisa quando eu comecei a descobrir a mente dela. Ela é toda interessante, totalmente inesperada, uma coisa gostosa, densa, que gruda na gente e vicia de um jeito... Eu estou muito ferrada.

— Eu te disse que você ia se ferrar se ela colocasse as mãos em você — Outro quase sorriso.

— Você… — Ívi analisou a reação dela — Você não ficou louca igual ao dia que soube que a Laura estava indo ficar com a Kelsey.

— Ívi, a minha história com a Laura acabou mesmo. Eu sei que acabou, sei que nunca mais vamos voltar a ficar juntas como namoradas. Mas se ela tem que ficar com alguém diferente de mim, que seja alguém igual a mim. É uma loucura total, faz pouco tempo que a gente se conhece, mas eu te sinto como minha alma gêmea também, eu já falei disso com a Laura.

— Eu também já falei disso com ela — Respondeu sorrindo — Eu sinto que a gente é alma gêmea, nós duas, metades de alguma coisa. E eu não quero que você me odeie por causa da Laura, porque, Juls, ela vai voltar e eu vou ficar com ela, entendeu? Eu sei disso. Ela vai ser minha.

— Como você tem tanta certeza? — Tomou o resto do café.

— Eu só tenho. Porque… Cuenta la leyenda…

...Que todos nacemos atados a la persona que amaremos por toda la vida — Enroscou seu indicador no indicador de Ívi — Acho que eu vim atada a mais pessoas do que uma, Ívi.

— Bem, eu também vim. Eu estou atada em você, eu sei disso também, você entrou na minha vida para me ensinar, me dar confiança...

— Como se você precisasse mesmo de mim, Ívi...

— E eu preciso — Disse, abrindo um sorriso — Você é a minha cantora e eu quero escrever cem músicas para você cantar enquanto eu toco, porque eu amo a sua voz e ela já é parte de mim, a sua voz já é minha também. Eu estou atada em você, mas também estou atada a Laura e eu sei que ela é o meu fio vermelho, eu não tenho mais dúvidas disso. Então, Juls, eu quero te pedir uma coisa, de todo o meu coração.

— Madurar é para frutas e hortaliças — Ela deixou o café de lado e se enrodilhou no colo de Ívi, a fazendo rir ao perder os dedos pelos cabelos dela, que estava um embaraço só.

— Primeiro, é para pentear esses cabelos que as suas fãs tanto adoram, segundo, está na hora, Julia. Você é tão madura para algumas coisas e no que se refere a Laura é sempre uma bagunça. Você gosta das suas meninas?

— Eu quero namorar as duas de tanto que eu gosto delas — Disse, fazendo Ívi sorrir — E eu gosto da Thai, e... — Seus olhos se encheram, sua garganta fechou.

— E ela gosta de você, está apaixonada, ela tem que te provar mais alguma coisa? Se a única coisa entre vocês duas fosse só a Karime, tudo estaria bem, mas tem a Laura e esse relacionamento que você sabe que nunca mais vai existir, mas não desiste de tentar.

— Eu sei, eu sei, mas é que...

— Não diz nada, só pensa nisso. Ela me falou da primeira vez de vocês, do quanto foi mágica e linda, de como é algo que ela nunca vai esquecer nem por um segundo. Guarda essas coisas lindas do mesmo jeito que ela está guardando e vamos em frente, Juls. Com a Karime, com a Thai, com as duas ou sozinha, não importa, mas você tem que ir em frente.

Mais lágrimas de Julia.

— Eu preciso… — Respirou fundo — Mandar uma mensagem pra Kelsey. A Laura estava falando de ir sozinha pra Espanha, mas tenho medo do que o meu pai pode fazer com ela.

— Ela precisa que você seja essa versão sua mais vezes, está bem? Essa versão que a ama e se preocupa com ela, independente de com quem ela esteja.

— A versão irmã.

— Chame como quiser, ela precisa dessa de você. Escuta, respira, toma seu café, passa a mensagem que você precisa da Kelsey e vai lá fora que a gente tem que ensaiar.

— Ívi, não, não, por favor…

— Vamos sim, nós temos que tocar hoje à noite, lembra? Em um lugar que você nunca tocou, com a pickup, o launchpad, a guitarra ao vivo, um monte de coisas que você pode se confundir.

— Eu não quero ir, hoje não, por favor, eu só preciso ficar aqui hoje.

— Não precisa não. A gente precisa trabalhar, porque a Karime precisa dos remédios, a conta de luz vai vencer em cinco dias, não há almoço para amanhã.

— Você está falando igual a Laura…

— A gente vai ter que dar conta dessa casa aqui na ausência dela, está bem? Não vamos deixar nada desandar. E para que isso aconteça, a gente não pode escolher trabalho, Juls.

— Você está de coração partido e quer ir trabalhar?

— É necessário.

— Ívi, acho que existe um termo para o que você é e chama workaholic…

Ívi gargalhou.

— Eu não sou assim não.

— É sim, é viciada em trabalho — Ela se sentou, respirando fundo, limpando o rosto — Tudo bem, eu vou trabalhar hoje à noite.

— Vai também repensar os seus sentimentos?

— Vou, prometo que nesses dias sem a Laura aqui, eu vou cuidar de me entender e me refazer. Eu só tenho um problema comigo.

— Qual problema?

— Eu não quero ser amiga da Laura, parece pouco para o que eu sinto, sabe?

— Simples, vocês também são irmãs.

— Mas parece incestuoso quando eu penso assim…

Ívi começou a rir.

— Separa na sua mente. Laura foi sua namorada até ontem, a partir de hoje, você finalmente a aceita como sua irmã.

Outras lágrimas.

— Ívi, a Claudia morreu achando que eu a odiava, que odiava a Laura…

Ívi segurou a mão dela contra o seu peito.

— Vocês tem que falar de todas essas coisas, Julia.

— A história é tão feia que…

— Não importa, tem que ser dito. Vocês, como família, precisam se reconciliar com a Claudia.

— Ela ia nos detestar por ter deixado La Mari sozinha com o meu pai, eu quase consigo ouvir a voz dela gritando com a gente.

— Julia, você não confia no seu pai?

Ela lhe olhou nos olhos. E negou.

— Eu sempre tive medo que ele fizesse alguma coisa com a Laura. Não coisas do tipo abuso, não é isso, mas ele não ficou muito bem depois do desaparecimento da minha mãe e depois do assassinato da Claudia, ele não era mais ele. Ficou mais agressivo, menos paciente, eu não sei explicar. Comigo e a Laura foi afastamento. Com La Mari, ele colocou ela numa bolha com medo que alguém viesse a fazer alguma coisa com ela. A María não pode ficar com ele, ponto. Como a gente resolve isso?

— Sinceramente? Trabalhando. Arrumando seu visto no Brasil. Estudando. Se vocês querem brigar pela guarda dela, Julia, vocês precisam fazer mais. E a primeira coisa é se desfazer dessa culpa toda que você e a Laura sentem. Culpa não vai resolver nada — Disse, olhando mais uma vez para o bilhete de Laura que ainda estava entre os seus dedos.

— O que é isso?

Ívi mostrou a ela. Julia leu o bilhete.

— E você já perdoou?

— Eu já te disse, entender não significa que não me machuca — Beijou a testa de Julia — Levanta?

Julia lhe olhou nos olhos. E tal como na primeira vez que tocaram juntas, enroscou seus dedos pelos dedos de Ívi, pegando a mão dela na sua.

Y tu apareces... Como la luna nueva que crece... Y aquello que dormido parece hoy vuelve a despertar... — Lhe cantarolou dócil e sorrindo, arrancando um sorriso de Ívi também.

Tantas veces me he perdido...

— Y dentro de tus ojos me he vuelto a encontrar...

— Tanta veces me he caído...

E Julia lhe beijou a mão tomada.

— Y con tu mano yo me he vuelto a levantar...

Ívi lhe beijou a mão de volta.

— Então levanta, está bem? Vou te esperar.

Outro longo abraço trocado e Ívi saiu do quarto. Era estranho ter outra mão além da mão de Laura lhe ajudando a levantar, ela era tão boa nisso. Bastava olhar para a própria Ívi, de onde havia vindo e onde estava agora. Laura a colocou de pé, a ajudou a levantar, a empurrou até Ívi acreditar em si mesma e etava onde estava agora. Não era a mão de Laura, mas era a mão de Ívi e Julia estava extremamente grata por tê-la consigo.

Julia pôde ouvi-la arrumando as coisas lá fora, tinha certeza que era um espaço para ensaiar. Aquele era o melhor horário para ensaiar no prédio, eram apenas quatro apartamentos, um por andar que ficavam todos vazios naquele horário. Terminou seu café, comeu um pãozinho, tomou seu suco. E decidiu levantar. Penteou os cabelos, lavou o rosto na cozinha, respirou fundo outra vez.

Chegou na sala e lá estava ela, os sofás afastados, a pickup montada, os fones em volta do pescoço de Ívi, o sorriso dela aberto, porque...

— Essa música é muito boa, Julia!

O Arquipélago, eu particularmente adoro, mas sou suspeita.

— A gente devia tocar ela hoje, é uma boate, esta música tem clima de boate — A batida tinha ficado incrível! Ívi adorava o “rãntãtã” do reggaeton, e o tambor poderoso do funk que se misturava ao clima latino com gosto de eletrônico da coisa toda.

— Só tem uma coisa — Julia prendeu os cabelos no alto e arrumou seu microfone — É um dueto.

— É claro que não é!

— É claro que é! Tem uma coisa que acontece quando a gente canta junto, Ívi...

— A minha voz se perde pela sua.

— Eu acho que a sua voz doce lambuza a minha voz densa e fica a coisa mais sexy da vida. Niña, cuando tu me tocas, tocas tan bien... — Ela lhe cantou mostrando toda a densidade sexy de sua voz.

Que te quero agora e depois porque...

— Si me mira así, ya no sé qué cosa hacer, solo que quiero regresar, a donde te encontré...

Ívi abriu um sorriso, deixando a música fluir para a caixa de som.

E eu sei, sei bem aonde te achar... — Cantou buscando os olhos de Julia, era assim, era quando se conectavam, quando os olhos se encontravam e bastava, os olhos sabiam tudo.

E eu sei, sei bem como não te parar... — E Julia encostou em sua DJ, de costas para ela, sabendo que ela estava sorrindo naquele trechinho que levava ao refrão.

Nem teve beijo e já me imagino tua...

— No nosso arquipélago um par é mais que duas — Sorriso de Julia, se enroscando pelo pescoço de Ívi que empoderou o refrão mais do que já era poderoso.

— Você fez uma música muito safada, Julia, eu nem acredito em você!

— Baseada em fatos reais — Ela já estava sorrindo — Sentiu que é um dueto? Faz mais sentido como dueto.

— Ou como trisal, ou grupal, sei lá, essas suas contas...

— Reparou que hoje a gente vai inverter? Sou eu que sou sua convidada, o show é seu.

— Bem, eu não quero que seja assim, a Natalia não quer que seja assim. Ela conseguiu essa boate pra mim, mas pediu que eu te convencesse a ir comigo e eu acho que ela tem razão, eu quero que a gente suba no palco como Haíz, entendeu? Nós duas. Com a nossa coisa. Olha aqui — Mostrou o setlist para ela — Eu quero que a gente abra com Blaze of Glory, com a pickup, a guitarra e a sua voz.

— Você quer que eu abra?

— Exatamente, a gente faz mais essas duas músicas aqui e depois tem um set de música eletrônica com a guitarra, e o launchpad, ok, então a gente toca “O Arquipélago”, com todo esse arranjo aqui...

— Vai lambuzar a minha voz com a sua?

— Vou pensar seriamente no caso, prometo — Escapou sorrindo — Depois tem esse set rapidinho de funk e passo para o reggaeton eletrônico, “Aturdída” bem aqui e eu quero que você cante Corazón Partío...

E Julia começou a rir.

— Como?!

— Eu tenho uma ideia, de usar aquela batida do flamenco nesta base aqui... — Soltou uma base totalmente eletrônica e inesperada.

— Entendi, entendi — Julia não estava conseguindo parar de sorrir — Nós vamos fazer tudo isso?

— Não é um plano melhor do que ficar aqui sofrendo por uma menina que nos adora e vai voltar para nós duas?

Ela abriu um sorriso.

— As meninas vão com a gente?

— É claro que elas vão. Então, Haíz? — Ergueu a mão para ela.

E novamente, Julia enroscou seus dedos pelos dedos dela, pegando a mão dela no alto.

Haíz. Eu quero fazer dar certo, Ívi.

— Eu estou na sua mesma vibe — Beijou a mão dela com carinho — Então, ensaiar, cantora?

— Eu particularmente acho que a gente funciona melhor sem isso, mas já que você insiste, vamos lá!

E juntas, sabiam que a ausência de duas horas de Laura ainda estava doendo, mas melhorava quando tinham uma a outra e a sua música.

Iriam sobreviver sim. Começaram a ensaiar e Ívi sentiu uma profunda leveza em seu coração. Laura iria voltar, pronto. Não precisava se preocupar, precisava de tudo o que havia dito que Julia precisava, descansar, se reorganizar, clarear as coisas, no final das contas, a ausência de Laura poderia ser boa, era isso. A ausência dela podia ser positiva.

Pensou nisso e inconscientemente, tocou um determinado pingente em seu pescoço.

Notas do Capítulo:

Olá, moças!

Juro que quase pedi para a Ana escrever as notas deste capítulo aqui haha. Mas como provavelmente ela terá que escrever as notas das próximas semanas, decidi escrever eu mesma.

Eu sei, capítulo meio chato, de apertar o coração demais, pelo que eu li nos comentários anteriores, a partida da Laura não era a coisa mais inesperada que podia se passar. Laura partiu, partiu ausente no capítulo de hoje, partiu silenciada e calada e acho que foi necessário. Sem ela presente no capítulo pudemos ouvir melhor a dor da Julia e a dor disfarçada de Ívi, e também começar a nos dar conta do que tal ausência pode fazer com essas duas. Como percebemos, com a mão uma da outra por perto, é mais fácil levantar novamente e esta deve ser a principal essência do hilo que prende Julia e Ívi uma a outra 😊.

Próximo capítulo, “Coração Partido”, e sim, devem imaginar que é o de Laura, nossa galega está de volta, com voz no capítulo que segue. Já conhecem as regras, hein!

Bom domingo a todas!

Beijos!

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