6 AM - Capítulo 27 - Noah


Será que sua doença tinha evoluído a ponto de lhe fazer ter alucinações?

Era uma pergunta séria, que Karime estava fazendo a si mesma enquanto sentada ao balcão da cozinha, tomava café junto com a menina que tinha lhe feito tremer há dois anos. Ela tinha trazido café para duas e sorrisos para bem mais, estava sendo simpática, dócil, puxando um assunto atrás do outro enquanto Karime só conseguia responder mais ou menos porque ainda estava... Aturdida, era a melhor definição. Se fosse ela mesmo, a menina do ponto de ônibus, ela não teria lhe reconhecido também? Apertou os lábios, querendo muito ter certeza do que estava acontecendo, tinha passado uns cinco dias dentro do seu quarto, no escuro, a luz parecia lhe incomodar, sua visão estava meio turva e tinha aquela menina linda, de sorriso luminoso e olhos verdes que… Era por isso que achava mesmo que podia estar alucinando, não podia confiar em si mesma.

— Eu acho que você não tem noção do quanto eu já ouvi falar de você e da Laura — Ela lhe dizia, muito sorridente — Mas já estava começando a achar que você era lenda urbana porque até a Laura lá na Europa eu já conheci e conversei, mas você nada, eu nunca te via…

Karime abriu outro sorriso.

— É que eu ando num momento não muito social, sabe? Estou tentando de verdade dar um jeito na minha própria frescura, mas juro que ainda não consegui — Respondeu com um sorriso triste.

Tão triste que, Noah teve que pegar a sua mão sobre a mesa.

— Ei, não me diz que o seu distúrbio é frescura que eu sou psicóloga, ok? É uma condição, você não pede por ela e menos ainda tem controle sobre, não é culpa sua que isso esteja acontecendo — Noah respirou fundo, ela parecia tão sentida e Noah nem percebeu que tinha sido um pouco invasiva — Desculpe, como eu te disse, as meninas falam muito de você e eu sei parte das coisas pelas quais você está passando e a última coisa que todo este estado é, Karime, é frescura. Não diz mais isso, tá?

Karime abriu outro sorriso, porque ela pediu da forma mais doce.

— Tudo bem, não digo mais, prometo — Outro sorriso para ela, outro sorriso dela de presente e, sentiu os dedos dela escorregando pela palma de sua mão. Mais especificamente, pelos seus calos. E algo diferente passou por aqueles olhos.

— Você...?

— É que eu jogo hóquei.

E os olhos dela lhe olharam diferente, pegando algo de imediato.

— Hóquei?

— É, hóquei sobre a grama, sabe? Eu não sei se você conhece, mas...

— Ei!

Era Ívi, ela tinha chegado. Abriu um sorriso quando viu Noah e outro mais bonito ainda quando viu que Karime estava com ela! Chegou e foi direto para elas, as mãos naturalmente se soltaram.

— Me desculpe, era um dia de matrícula promocional, acabou demorando mais do que imaginei — Beijou Noah rapidinho e veio beijar o rosto de Karime — Bom dia, cariño, obrigada por ter recebido a Noah.

— Acredita que eu acordei ela? Daí tive que pedir desculpas, né, trouxe café para nós duas…

Tinha trazido café e alguma coisa mais para Karime que Ívi não estava conseguindo decifrar. Mas apenas de ver aquela calma no rosto de sua amiga outra vez, só de ver aquele sorriso aberto, leve, seu coração já se encheu de coisas boas imediatamente. Karime parecia bem, parecia presente e isso... Ah, não, só de vê-la de pé já era uma coisa enorme.

As outras garotas chegaram! Natalia tinha levado Julia e Thai para a feira logo cedo, estavam planejando o almoço mais esquisito do mundo, mas que parecia muito que ia dar certo! Compraram salmão fresco para fazer sushi, este era o plano A para arrancar Karime do quarto aquela manhã, ela adorava sushi e Noah garantiu que sabia fazer, Ívi ficou de fazer o macarrão que elas adoravam, Julia ia cozinhar comida cubana e, Karime disse que faria a paisa, disse assim, do nada e Julia ficou tão feliz que desceu ela mesma para comprar o que ainda faltava.

Cozinharam juntas, ouvindo música, conversando, num clima muito bom e almoçaram perto das duas, planejando uma tarde na Praia Vermelha, podia ser? Podia, apenas Karime ficou meio assim sobre se iria ou não enquanto os olhares para Noah seguiam, a ponto de…

Acabaram ficando apenas elas três na mesa no final do almoço, Ívi terminando sua paisa enquanto Noah estava contando alguma história do trabalho e Karime, bem, Karime estava tão compenetrada em Noah que em determinado momento ficou apenas a olhando, com a colher dependurada entre os dedos, tão distraída por ela que levou um susto enorme quando a colher caiu de repente, fazendo um barulho estrondoso.

Noah perguntou se estava tudo bem, Ívi riu discretamente porque tinha sido uma bela patetice. Ok, final de almoço, algumas garotas assumiram a louça e Karime estava escovando os dentes no banheiro quando seu espaço pessoal foi invadido.

— Ívi!

La Eche, nós precisamos conversar! — Ívi a abraçou pelas costas sorrindo, a olhando pelo espelho na frente das duas — Você gostou dela?

— Dela? Dela quem?

— Dela que você não para de olhar! Karime, não subestime a minha inteligência...

Daí Karime riu, costumava ser uma mentirosa um pouco melhor, tinha sido péssima agora, sabia.

— Desculpe, Ívi, é que, está tão na cara assim?

— Que você está hipnotizada? Muito claro! Não precisa se desculpar não, é que eu cheguei e você era outra, Karime, estava bem, estava comendo, conversando e agora esses olhares longos… Parece eu olhando para a Laura — Ívi lhe disse sorrindo — Você não consegue não olhar para ela, está fora do seu alcance.

Karime respirou fundo. Terminou de escovar os dentes, lavou a boca e virou de frente para Ívi.

— Ívi... — Outra longa respiração e um sorriso luminoso surgindo logo em seguida, sorriso luminoso, olhos luminosos — É ela.

— Ela quem?

— A menina do ponto de ônibus, lembra? Eu acho que é a Noah...

— Espera, a garota que você salvou do assediador?

— Eu tenho quase certeza que é ela! Mas eu não tenho como ter certeza na verdade, porque a minha mente pode estar me enganando, ia ser coincidência demais, vai que eu estou surtando de uma maneira diferente…

— Karime, você está depressiva, não esquizofrênica — Disse, a fazendo rir demais — Você descreveu ela para mim, melhor, descreveu a Noah para mim! Você sabe muito bem como ela era, não esqueceu coisa nenhuma, nenhum detalhe — Ívi se recostou na parede, pensando naquilo — Caramba, Karime, ela apareceu na sua porta...

Outro sorriso de Karime.

— Com o meu café da manhã — Karime cruzou os braços — Mas Ívi... A garota tinha namorado, lembra?

— Lembro, a Noah tinha um namorado de três anos até um mês atrás mais ou menos, mas independente disso, você sabe melhor do que ninguém que essas coisas mudam bem rapidinho.

— Eu sei, mas é que... É muita coincidência! Quais as chances de algo assim acontecer?

— Quais as chances de eu cruzar com a Laura entre milhares de pessoas no metrô do Rio de Janeiro? Não há probabilidade para o extraordinário, Karime.

Karime sabia que não havia. Correu a língua pela boca, era algo que fazia quando estava nervosa.

— Mas Ívi, ela não teria me reconhecido também?

— Você reconheceu e disse alguma coisa?

— Vai que eu estou errada!

— Vai que ela está pensando a mesma coisa — Ívi abriu outro sorriso — Karime, você tem que falar com ela…

— Falar o que, Ívi? Lembra do efeito aturdida? Eu vou me enrolar e me fazer vergonha, menina...

Ívi estava rindo demais.

— Ela te achou linda.

— Ela disse isso?

— Acabou de me dizer. Que te acha linda e acha que vocês já se conhecem.

E os olhos de Karime se iluminaram imediatamente.

— Ívi, para, ela disse isso mesmo, de verdade?

— Disse, menina, eu não tenho por que mentir para você.

Ela mordeu um sorriso, os olhos ardendo de algo tão, mas tão bom.

— Ok, se eu quiser só conhecer ela um pouco melhor, é um problema…?

— É claro que não, Karime.

— Então devia ir você lá falar com ela! Tentar descobrir se ela é a menina do ponto, sabe, só para eu ter certeza.

— Independentemente que ela seja a menina que você salvou ou não aquele dia, Noah te salvou hoje. Ela te fez sorrir. Sei lá quanto tempo fazia que eu não te via sorrindo assim — Ívi a abraçou muito forte, sentindo o cheiro dela, o cheiro daquela Karime que era delas, mas andava tão diferente ultimamente.

— Eu acordei melhor, Ívi — Outro sorriso.

— Com uma gata carioca te trazendo café da manhã como pedido de desculpas, quem não acorda melhor assim, não é? — Mais um sorriso, estava tão feliz de ver Karime bem... Nem sabia explicar o quanto —Tudo bem, eu vou falar com ela.

— E eu vou ficar no meu quarto, está bem?

— Quê? Nada, você tem que ir para a praia com a gente!

— É perto da faculdade, Ívi, tem hóquei hoje, lembra?

Ívi olhou para ela.

— Quer ficar trancada no quarto de novo?

— Não fala assim que parece péssimo...

— É péssimo, não é você. Tudo bem, eu não vou te pressionar, a Laura quer falar com você, ela acabou de chegar em Madrid e quer te ver já que eu disse que você está de pé…

Ívi voltou pra sala atrás de Noah e Karime passou para o seu quarto, ligando para Laura imediatamente. A ligação chamou e quando ela atendeu…

Laura estava solar. Linda demais, com o sol de Madrid refletindo em seus cabelos castanhos, os deixando mais claros, o vestido branco, os óculos escuros, o sorriso fácil.

Por la virgen, como você está bonita, Laura…

Ela sorriu mais bonita ainda.

— Como você está bonita, Karime! E está… — Laura aproximou a tela para ver melhor — Usando as minhas roupas?

Karime riu.

— Saudades, galega.

A resposta lhe fez sorrir.

— Eu também estou, saudades de todas vocês, é a primeira vez que a gente se separa por tanto tempo — Nem sabia que podia doer tanto ficar longe de suas garotas como estava doendo — Ívi me disse que você acordou bem, eu precisava olhar para você bem assim, estava com o coração todo apertado aqui.

— Não aperta seu coração por mim não, bebê, eu quero você bem, feliz, cadê a Kelsey?

— Bem aqui — Ela apareceu na tela, trazendo dois cafés consigo e beijando o ombro de Laura — Fui pegar um café para essa mulher linda, que está ainda mais linda hoje, você notou a luz?

— Eu notei sim! E estou muito feliz por vocês, sabia? Feliz de verdade em ver que…

LAURA!

Karime viu a perda de foco do celular quando Laura olhou para trás de repente.

— Você ouviu? — Laura perguntou para Kelsey.

— O que, baby?

LAURA! — E desta vez veio tão claro que cravou bem no meio do coração de Laura.

— Kelsey, eu acho que… — Colocou o celular na mão dela, olhando em volta, andando de um lado para o outro no meio do estacionamento daquele aeroporto porque tinha certeza que alguém estava lhe chamando.

— Está tudo bem?

LAURA! LAURA!

Laura foi para um lado, para o outro, olhando no meio das pessoas, olhando, olhando, ouvindo aquela voz e sabendo que…

María — Seus olhos se encheram quando finalmente, acertaram a direção da voz — É a María, Kelsey, é a María!

Correndo pelo meio da multidão, de tão longe que Kelsey nem fazia ideia de como Laura tinha ouvido na primeira vez, tão distante que não sabia como tinha a visto, de como sabia que era María, de como tinha certeza, mas Laura tinha, é claro que tinha. Laura lhe apontou um braço no meio de dezenas de pessoas, um braço erguido a duzentos metros de distância, uma voz nervosa sobressaindo, os carros passando pelas diversas pistas e os olhos de Laura buscando nervosos, a perdendo e a encontrando no meio das pessoas, a voz dela lhe chamando, lhe exigindo e María aparecia e desaparecia, e na maior parte do tempo, Laura simplesmente andava para a voz dela, com os olhos cada vez mais cheios, buscando, procurando, o coração cada vez mais denso, acelerado, agitado e o tom desesperado na voz de María chamando seu nome contava a todos que apesar de ser uma bela moça loira vestida como uma mulher, aquela que passava correndo pelas pessoas, sob a superfície, ainda era apenas uma criança.

Morrendo de saudades da irmã.

LAURA! LAURA! LAURA!

Laura a viu. Há vinte metros de si. Laura finalmente a viu claramente.

E seu coração se liquefez dentro do peito. Tanto que escorreu para os seus olhos imediatamente.

Laura disparou na direção de María, desviando das pessoas, o mais rápido que conseguia enquanto María fazia o mesmo, desviava, corria, a chamava, chorando, com urgência, dizendo o nome de Laura sem parar.

LAURA! LAURA! LAURA!

— Princesa — Ela bateu contra o seu peito e se agarrou pelos seus braços, pela sua roupa, chorando, lhe chamando e Laura não podia acreditar.

Estava abraçando sua irmãzinha outra vez.

Seus olhos se encheram e transbordaram, a apertando em seus braços, a cheirando, a sentindo, a percebendo junto a si, se dividindo entre olhá-la, senti-la e acalmá-la porque quando María ficava nervosa, não conseguia falar, só conseguia repetir, chorar, pedir que lhe abraçassem, que lhe protegessem, havia feito o mesmo quando Laura teve que ir embora, tinha pedido seu abraço, sua proteção igualzinho, não soltando Laura, não a deixando se mover, foi a mesma cena, o mesmo ardor, o descompasso, tanta dor. Tanta que...

Laura a apertou ainda mais, afundando o rosto pelos cabelos de sua irmã enquanto as lágrimas e os sorrisos se misturavam sob aquele sol espanhol poético, cítrico e docemente dourado.

— Você está vendo isso? — Kelsey perguntou sorrindo para Karime.

— Eu estou e você só não está em lágrimas porque é europeia… — Porque a própria Karime já estava se derramando.

— Laura, Laura… — María seguia soluçando, tremendo e chorando.

— Aqui, amor de mi vida, bem aqui… — Laura respirou fundo, a abraçando muito forte, a cheirando só para ter certeza, era real? Era real, estava abraçando sua irmã outra vez? Buscou o rosto dela, a olhando direito, ergueu as mãos para tocá-la e Laura estava tremendo, estava transbordando, tocou o rosto dela, vendo a cópia perfeita de seus olhos de cores que se transformavam e o sorriso perfeito de Julia — Eu estou aqui, eu estou bem aqui…

Se derramando em lágrimas, tremendo de corpo inteiro, tão agarrada na irmã quanto María estava agarrada nela e nem Kelsey nem Karime nunca na vida haviam visto Laura tão aflorada assim. Laura era a que não chorava, não se desesperava, não se descontrolava por emoção nenhuma. Mas aparentemente isso não envolvia María. María era um tanto enorme de todo amor que Laura tinha no peito, María a maioria de suas exceções. Amava suas amigas, suas garotas, amava Julia, amava sua mãe. Mas sabia muito bem dentro de si que o amor que tinha por María era distinto e não estava disponível para qualquer outra pessoa. Se existiria tal ser humano, ainda não havia nascido, ainda era apenas energia em algum outro planeta perdido no universo.

— Ei, vocês duas estão bem? — Kelsey se aproximou sorrindo.

Elas riram, se soltando um pouquinho, se olhando outra vez.

— Nós estamos, espera, eu nem sei se estou, olha como você cresceu! Você ainda agarrava na minha perna da última vez!

— As coisas mudaram um pouquinho — Ela respondeu toda chorosa ainda, toda agarrada pelos braços da irmã — Você trouxe ela para me ver, obrigada por isso — María disse para Kelsey.

— Ver você de novo era o principal objetivo da vida da sua irmã, você sabe disso, não sabe? — Kelsey fez um carinho naquela criatura grudenta e carente que parecia tanto com Julia como com Laura.

— Ela me diz que é — Ela riu no meio das lágrimas e, no meio dos beijos e dos sorrisos, o coração de Laura de repente gelou.

Andar para trás foi natural tanto quanto buscar a mão de Kelsey como proteção.

Porque saído do meio das pessoas, de repente, lhe apareceu Alejandro.

Ele lhe olhou muito profundamente e María pareceu extremamente surpresa ao vê-lo, o que ele…?

— Ela estava esquisita e fugiu de casa hoje — Ele começou a dizer, sem parar de olhar para Laura — Eu achava que tinha alguma coisa acontecendo. Eu senti que talvez… — A voz dele embargou — Talvez uma outra filha minha estivesse voltando para casa.

Laura apertou a mão de Kelsey ao sentir que María veio para suas costas.

— A Julia… — Seu coração estava quase saindo pela boca agora — A Julia não tem como sair do país por que…

Ele andou em sua direção rapidamente fazendo o coração de Laura acelerar demais.

E então, parar.

Uma outra filha minha voltou para casa.

E sendo a coisa que Laura menos esperava de toda a sua viagem a Madrid, Alejandro a puxou contra o seu peito e a abraçou.

Ívi voltou para a sala procurando por Noah. E ela estava no quarto de Laura, sentada no banco da janela, olhando a rua lá embaixo.

— Ei, você — Puxou Ívi pela mão sorrindo e a beijou, a fazendo sentar na sua frente. Ívi desviou do beijo um pouquinho, porque era esquisito demais beijar outra pessoa no quarto de Laura. Mas abreviou o beijo com carinho e sentou-se à frente dela.

— Achei que tinha te perdido — Disse a ela sorrindo.

— Nada, me disseram que podia trocar de roupa aqui, nós vamos para a praia, lembra?

— Lembro sim, eu já vou me trocar também.

— A Karime não vai com a gente? Eu a ouvi dizer que não ia.

— Ela não anda muito na vibe de sair, por conta da situação que eu te falei.

— Ívi… — Ela apertou os lábios sorrindo — Eu queria conversar com ela um pouco mais...

— Eu sei que você quer — Mais sorrisos de Ívi — Você me disse que acha que vocês já se conhecem.

— Posso te contar uma coisa?

— Sou toda ouvidos, vamos, me conte o que você precisa — Se ajeitou na varanda não se cabendo de ansiedade.

— Então — Ela respirou fundo — Têm uns dois anos mais ou menos, eu estava saindo do apartamento de uma amiga e indo para a casa do meu ex quando um cara começou a me assediar num ponto de ônibus. Você já me conhece, sabe que eu não faço o tipo frágil nem nada, mas eu nunca tinha sido atacada daquele jeito e nem tinha ficado tão assustada. Ele encostou em mim, começou a me dizer um monte de besteiras e quando eu tentei me defender, ele disse que estava armado, que eu não deveria tentar nada estúpido e isso me cegou, eu fiquei paralisada, morrendo de medo e comecei a olhar para as pessoas tentando pedir ajuda. Ele disse que a gente entraria no primeiro ônibus para o Flamengo e eu entrei em pânico de verdade, parei de pensar a ponto de sequer checar se ele realmente estava armado.

— E ele estava?

Ela deu de ombros e abriu um sorriso.

— Eu não sei. A menina que me salvou nem tomou conhecimento disso.

— Ah, então você foi salva…?

— Eu fui. Por uma garota incrível, corajosa, que atacou o agressor e colocou ele para correr feito um garotinho. Você já sabe quem é, né?

— Eu desconfio de quem seja sim.

Outro sorriso dela.

— Foi ela mesmo, não foi? Você conhece essa história!

— Conheço! Mas ela achou que você não tivesse reconhecido ela agora.

— Eu demorei para ter certeza porque ela também não me disse nada! — Ela não parava de sorrir — Ívi, ela me salvou mesmo. Me entendeu olhando, foi muito corajosa em colocar aquele idiota para correr, muito gentil me levando até em casa, a gente passou, sei lá, uma hora juntas e foi a primeira vez que eu pensei em uma mulher de uma maneira diferente. Fiquei dias me questionando por que não tinha perguntado ao menos o nome dela, pedido o telefone, fosse com a desculpa de agradecer direito pelo que ela tinha feito por mim, mas eu fiquei tão afetada por ela que me pareceu muito esquisito fazer isso. Uma garota hétero teria só pedido, não é? Sem se importar no que a outra poderia pensar. Mas eu temi que ela pensasse que eu estava dando em cima dela, ou sei lá.

— E você acha que estaria?

Ela abriu outro sorriso.

— Olhando hoje, com a clareza que eu tenho agora, eu acho que estaria sim. Eu fiquei interessada, mas isso ficou meio embaçado na minha mente uma vez que ela tinha me salvado. Eu podia estar só deslumbrada, ou deslumbrada em vários sentidos, sei lá, ela é linda pra caramba, tem um corpaço, eu fiquei muito perdida — Mais sorrisos, ela olhando lá fora, mordendo a boca, olhando para Ívi novamente — Eu achei que nunca mais fosse vê-la, sabia?

— Ela achou a mesma coisa. Te procurou por vários dias, no mesmo horário, no mesmo ponto, mas como nunca mais te viu outra vez... Bem, o que vale é que vocês se encontraram agora. E a única pergunta que importa mesmo é: o que você quer fazer com isso? O que quer fazer agora?

— Tem um fio meu amarrado nela, não tem? — Já tinha contaminado Noah com a teoria dos fios.

— Para você ter vindo parar na porta dela, Noah, só pode ter — Outro sorriso de Ívi — Vamos, o que você quer fazer agora?

— Eu não sei, quero só… Conhecer a minha heroína melhor. Ela parece ser tão… Nem sei, Ívi — O efeito de não parar de sorrir atingia Noah também — A nossa conversa fluiu tão bem.

Ívi a olhou nos olhos sorrindo.

— Ela é bonita como você lembrava?

Noah riu.

— Ela é mais do que eu me lembrava — Ela confessou com aquele sorriso aberto demais — Você vai me achar uma cafajeste, mas eu a reconheci pelas coxas…

Daí foi Ívi quem caiu no riso.

— Noah, você sabe do quadro atual da Karime e não é por nada, mas eu adoraria que você fosse no quarto dela e conseguisse tirá-la de lá.

— Ela não quer ir com a gente?

— Não quer. Acho que ela ficou feliz e ansiosa por sua causa.

— Ela me reconheceu de cara?

— Assim que te viu parada na porta.

Notas do Capítulo:

Olá, moças!

Finalmente, o hilo rojo de Karime se apresenta! Lembro que prometi para vocês no comecinho desta jornada cinco protagonistas com histórias interessantes e apesar de termos Laura e Ívi como núcleo principal, ainda temos Karime, Julia e Thai com histórias transversais que valem a pena serem lidas.

Confesso que estava ansiosa pela Noah! 6 AM é uma história diferente justamente pelo número de personagens, tivemos 7 personagens na primeira fase, as 5 principais e mais Kelsey e Natalia como secundárias, na evolução tivemos Viktoria surgindo também como uma alternativa interessante, mas ainda faltava Noah surgir ♡. É uma personagem que eu tenho muito carinho, que estava guardadinha para aparecer aqui na hora certa e enfim, chegou o momento dela e junto com Noah, também chegou o momento de nos aprofundarmos em Karime um pouquinho mais.

Próximo capítulo, “Revival”, a ser postado no próximo domingo se batermos a meta! E semana que vem, como já contei aqui, estarei de férias e a primeira parada é Barcelona, onde dia 13, estarei de aniversário *.*

Entonces, espero que estejam curtindo este emaranhado de fios que finalmente, estão começando a se desenrolar!

P.s.: Falando em personagens, ainda temos uma moça para aparecer 😉.

Beijos!

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