6 AM - Capítulo 29 - Fios Cruzados


Foram para a praia em um único veículo, se apertando no banco de trás do carro de Noah ao qual deixaram Natalia dirigir por motivos de: as pernas dela eram longas e era melhor que ela fosse na frente mesmo. Chegaram perto das três e a praia estava tranquila para um final de semana, o dia estava bonito, o sol brilhando e imediatamente, toda agarrada nela, Julia disse para Thai que deveriam dividir um stand-up. Os olhos de pôr do sol estavam ainda inchados de tanto que ela havia chorado e Thai estava ainda extremamente preocupada, veio com Julia no colo, perguntando se estava tudo bem agora e o que Ívi não entendia, é porque não ficavam logo num namorinho bem apegado e carente que parecia ser o estilo delas duas. Foram alugar uma prancha enquanto Noah sequer deixou Karime pensar, agarrou na mão dela e a arrastou para fazer uma trilha ali perto, podiam fazer, não podiam? Karime olhou para Ívi quase pedindo autorização.

— Some daqui com ela, vai — Disse somente para ela ouvir, a fazendo rir demais enquanto Noah pegava algumas direções com o salva-vidas.

— Já voltamos, está bem?

— Não se preocupe com o tempo.

Elas partiram para a trilha lado a lado enquanto Ívi montou sua ilha de cangas na areia. Tirou a camiseta, colocou os óculos escuros, pensou e pensou. Seu celular tocou, ela olhou quem era, ignorou a ligação mais uma vez. E Natalia sentou ao lado dela, com dois copos enormes de mate gelado. Entregou um para Ívi.

— Pergunta à toa: eu posso saber por que você está ignorando a mulher da sua vida há uma hora?

Ívi começou a rir.

— Você notou?

— Eu nunca te vi ignorando a Laura! Estou muito surpresa, sério, é mais surpresa isso pra mim do que você deixando a Karime sozinha com a Noah...

Mais sorrisos e Ívi tomou um pouco do seu mate. Estava perfeito para aquela tarde quente.

— É que... A Laura ligou para a Julia tem um tempinho, ligou para terminar em definitivo a história delas e... Você sabe que a Laura aproveitou o tempo sozinha em Londres para se reencontrar, pensar nas coisas, nos sentimentos dela e o retorno para Madrid está fechando um ciclo que ela tinha deixado aberto e sei lá, Nat, e se ela estiver ligando para terminar a história dela comigo porque já tem certeza da Kelsey?

Daí que Natalia quase cuspiu seu mate no ar e então quase se afogou rindo demais.

— É sério isso, Schelotto?

— É muito sério! Se for isso, eu não quero ouvir, eu não estou pronta, que ela guarde para ela as coisas que tem que me dizer, eu não tenho o menor interesse... — E então respirou fundo, ficando mais séria — Eu estou com muita saudade agora, Nat, muita saudade, tem me afetado.

— Você estava bem porque estava interessada na Noah, mas de repente... Fazia uns três dias que vocês não se viam. Ela até me escreveu brincando dizendo que achava que ia ter que arrumar alguma coisa para você na empresa só para te ver de novo.

Ívi sorriu, ela tinha lhe dito a mesma coisa.

— É o que costuma acontecer comigo, eu conheço alguém, me empolgo, a primeira semana é incrível, mas depois eu começo a gradativamente me distanciar, é o meu padrão, sabe? Noah e eu entramos neste padrão e, não sei. Têm uns dois dias que eu estou sentindo muita falta da Laura. Uma falta, um medo de perder, uma angústia que ela volte decidida a ficar com a Kelsey. Eu acho que não vou conseguir continuar morando com ela nesse cenário, então envolve muita coisa e...

O celular de Natalia começou a tocar.

— Segura a sua fossa por um minutinho, espera — Atendeu — Ela está temendo que você esteja ligando para terminar com ela também, daí se for o caso, eu vou ter que desligar porque ela não está disposta hoje...

E ouviu Laura rindo do outro lado.

— Nat, eu não acredito nessa garota!

— É sério, Laura, se for para isso vou ter que desligar, está bem?

— Não é para isso, que coisa — Laura estava morrendo de rir — Eu só preciso falar com ela, pode fazê-la falar comigo?

— Sendo assim sim, espera — Passou o celular para Ívi que agora também estava rindo demais — A galega disse que não é para terminar não, Schelotto.

— Eu não acredito que você contou isso pra ela! — Ívi estava rindo muito.

— Atende a sua galega, deixa de ser boba.

Ívi atendeu sorrindo.

— Oi, amoriño.

— Ívi, você é muito boba… — Laura ainda estava rindo.

— Me permite um segundo de insegurança? Eu não tenho toda essa sua confiança não, Laura Bueno…

— Sei, sei que você não tem. Enfim, eu só queria te contar uma coisa!

— Que coisa você quer me contar? Eu já sei que tudo foi muito bem com o Alejandro!

— De uma forma que eu sequer esperava. Kelsey conversou com ele, ele gostou muito dela, se entenderam bem, eu me entendi com ele também e ele acabou deixando a María com a gente essa semana, e também deixou que ela vá conosco para a Itália por uns dias…

— Você vai para a Itália?

— Eu vou!

— Não acredito! Vai para a Itália e vai para perto da Tiziana? Será que...?

— Eu não vou para muito perto, mas acabei de falar com a Tiziana e, adivinha? Ela vai me encontrar em Milão!

E a empolgação se mostrou pelo rosto de Ívi, a empolgação e a emoção.

— Laura, eu não acredito que você vai conhecer a minha irmã.

— Eu também não, eu falei com ela e nem precisei dizer claramente, ela me perguntou se podíamos nos encontrar. Já que vocês ainda não podem fazer isso, ao menos vão conhecer alguém que já esteve com vocês duas. Ela quer te mandar alguns presentes, falar com alguém próxima a você, ela é muito fofa, Ívi.

— Ela é. E você também é, você nem precisava pensar nisso e... Eu não acredito que vocês vão se encontrar! Ela é parte de mim, você sabe disso, não é?

— Eu sei, mi amor, é claro que sei. Estou sentindo saudade, vai ser bom estar perto de você de alguma forma, é uma história sua, sabe? Eu só pensei que, não sei, ia ser legal...

Falaram por mais um tempinho e ouviu Kelsey a chamando para jantar, ouviu a voz empolgada de María, o clima maravilhoso em que elas pareciam estar. E então desligaram, e Ívi estava...

Sorrindo, perdida. Perdida mesmo.

— Ela não precisa fazer isso no meio da viagem dela, mas quis fazer algo que pudesse ser especial para você. Ívi, eu posso estar muito enganada, mas eu não apostaria em você para receber a segunda conversa de término que a Laura precisa ter. Fica tranquila, não pensa nisso, pensa que ela está voltando e que o fio de vocês continua conectado.

— E se ainda assim não for o tempo certo?

— Quer ter paciência? Tem gente que sequer achou o seu fio por aí, sabia? — Perguntou, a fazendo rir — Se não for o tempo, ao menos já tem o fio, o meu sei lá por onde anda. Eu sei o que você teme, ela acha que você tem trinta namoradas diferentes, que é uma boémia louca, muito parecida com a outra boémia louca que ela namorou, porém, é você que ela leva para comer doces no meio da noite, é você quem tem feito ela feliz. Que ótimo seria se ela se sentisse igual pela campeã olímpica...

— Você está me ajudando mesmo?

— Desculpa — Ela pediu rindo — Mas seria ótimo para ela, você sabe que seria. O que eu quero te dizer que se a Laura for apenas um pouquinho coerente e nós sabemos que ela é coerente, está claro o que se pode esperar dela. Ela vai ver a sua irmã, só porque isso faria você feliz. Então fica feliz?

Ívi a olhou, sorriu, com o coração leve e feliz sim, Natalia tinha toda razão. Olhou para Julia e Thai na prancha, remando, rindo, naqueles toques intermináveis e naquele flerte que não parecia ter fim enquanto pensava sobre o que Karime e Noah estariam fazendo no meio da tal trilha.

— Não é engraçado? Términos são para colocar pessoas em direções diferentes, mas olha pra Julia. Olha pra Karime.

— Todas agora parecem estar na mesma direção.

— É o que eu acho também.

Fizeram a trilha curtinha sem parar de conversar nem por um segundo. A verdade é que aquele encontro inesperado no ponto de ônibus tinha deixado as duas vitimadas de maneira parecida. Tanto Karime quanto Noah passaram muito tempo se fazendo perguntas em suas mentes que gostariam de ter feito uma a outra e que não foi possível pelo aturdido da situação. Ou seja, eram dois anos de perguntas não feitas, de coisas que pensaram e fizeram, Noah confessou que voltou no mesmo ponto no dia seguinte, esperando rever Karime, mas era uma segunda-feira e aquele era um ônibus que Karime só pegava aos domingos depois do hóquei e então, La Eche confessou que aos domingos sempre buscava por Noah no mesmo lugar. Porém, Noah comprou um carro logo em seguida pelo trauma e meio que se aposentou dos ônibus.

— Eu não acredito até hoje que eu sequer perguntei o teu nome — Noah lhe dizia sorrindo enquanto faziam a trilha.

— Eu nem me dei conta! Você estava conversando comigo, mas eu estava bem perdida, nem sei se consegui manter uma conversa decente com você.

— Eu falo muito quando fico nervosa. Viu o quanto eu falei de manhã?

Sorriso de Karime.

— E eu estava toda perdida de novo, achando que estava evoluindo para alucinações...

— O seu quadro não contempla alucinações, tá, tire isso da sua mente — Mais sorrisos. Saíram da trilha, terminando de volta à praia.

— Se coloca no meu lugar! Você está dormindo em depressão profunda, daí te acordam, você vai atender a porta e sou eu, assim, do nada!

Ela estava rindo demais.

— É, talvez eu também considerasse alucinações, você está certa. Sabe o que está logo ali?

— Noah...

— Vem, eu tenho que te pagar um sorvete no nosso ponto de ônibus...

Ela lhe arrastou para lá de qualquer maneira, lhe comprou um sorvete de creme em frente ao Bondinho, fazendo Karime morrer de rir porque não achou que ela estava falando sério. Mas ela estava, com o sorvete, a conversa cheia de perguntas, de tantas coisas que ela quis saber sobre Karime e Karime ainda não descartava a alucinação. Coisas assim não acontecem. Dias assim não acontecem. Especialmente na fase que andava tendo.

— Olha o nosso ponto!

— É sério que você quer ir até lá?

— Quer coisa mais bonita do que este ponto velho e destelhado onde você me salvou de um assediador?

Mais sorrisos de Karime.

— Você tem razão, é simbólico, este ponto nunca mais foi só um ponto para mim — Respondeu, comendo a casquinha do seu sorvete — Sempre que saio da faculdade eu olho pra cá.

— Você estuda ali? Estuda o quê?

— Relações Internacionais.

— Hum, planos de ser chefe de consulado?

— Não vou negar que tenho — Terminou a casquinha, sentando-se no ponto por um instante — Nós somos imigrantes, Julia, Laura e eu, e a questão não é nem ser ou não bem tratada no Brasil, porque nem os brasileiros são, mas é que as coisas são mais complicadas para nós e esses chefes de consulado não fazem ideia nem da metade.

— O seu português é mais perfeito que o meu, eu não fazia ideia de que você poderia ser estrangeira.

Outro sorriso de Karime, adorava quando elogiavam o seu português, nem seu espanhol era tão bonito quanto seu português, adorava cuidar bem dele.

— Eu achei que você não fosse do Rio, eu não lembrava se você tinha sotaque.

— Karime... — Noah sentou do seu lado — Por que você decidiu me ajudar aquele dia? Como percebeu que eu precisava de ajuda?

Karime apertou os lábios.

— Resposta sincera?

— Toda sincera, por favor.

— Eu te achei linda demais quando cheguei, não conseguia parar de te olhar… — Respondeu, a fazendo rir demais.

— Karime...

— Você me pediu sinceridade — Ergueu as mãos, se isentando de culpa — Eu achava que você e aquele cara estavam juntos, estava me preparando para ele vir tirar satisfações comigo porque eu não parava de te olhar… — Confessou sorrindo, olhando naqueles olhos lindos.

Noah olhava para ela.

— Você me perdoa por não ter te notado chegando?

— É claro que eu perdoo, você estava sendo assediada, lembra?

Mais risos.

— Eu sei, eu não conseguia ver nada, nem ninguém. Mas eu te percebi depois da sua ação heroica com aquele taco de hóquei. Notei que você era bonita pra caramba e isso me deixou, meio... Tipo, hum, você está achando-a bonita...

— Você julgando você mesma.

— Foi isso, a minha parte hétero estava muito surpresa por eu estar te achando tão atraente. Mas podia ser só, como você disse mesmo?

— Você podia estar aturdida pela ação toda.

— Isso, aturdida. Mas o tempo passou e, eu segui pensando nisso, me arrependi de não ter perguntado teu nome, pedido teu telefone e, o meu namoro foi só afundando e afundando, e eu nem sei por que levei tanto tempo para terminar. Acho que ficou meio no tanto faz, sabe? Já que não estava interessada em ninguém que... Eu pudesse encontrar — Ela sorriu, ficando um tantinho tímida — Por causa de você, eu investi na Ívi porque, se você não tivesse me causado essa curiosidade acho que ainda seguiria não percebendo que podia haver um outro lado de mim.

Karime sorriu novamente, morrendo de vontade de tocar nela sem saber se podia.

— Você me chamou de príncipe.

— E te abracei por um tempo longo, eu me lembro — Mais sorrisos — Obrigada, príncipe. Por ter me salvado, me acompanhado e, por estar usando aquela minissaia...

Karime caiu no riso.

— Foi épico, você colocando aquele cara para correr naquela minissaia, sério.

— Não posso negar que foi no mínimo divertido.

Tinha sido. E a sessão de memórias foi interrompida por duas meninas que jogavam hóquei com Karime.

Elas desceram do ônibus e ficaram muito felizes por vê-la! A abraçaram, perguntaram como ela estava, contaram da preocupação de todos por Karime não ter voltado à universidade e insistiram que ela tinha que voltar a jogar, tipo, naquele momento!

— Meninas, é que... — Ainda estava bem sem jeito e envergonhada.

— Vamos, príncipe — Noah pegou a sua mão.

— Você não sabe o que eu fiz, Noah...

— Claro que sei, já sei de tudo sobre você, não se engane, suas amigas me contam tudo...

Acabou caindo no riso e na rede dela. Foram para o hóquei e Karime não podia mensurar o quanto foi bom estar ali, ser tão bem recebida por cada uma que lhe via, que corria, vinha lhe abraçar, dizer que estavam preocupadas, que a queriam de volta. Foi ótimo receber tanto carinho, ótimo rever as garotas, se desculpar e, voltar a jogar. Ainda que não tivesse com seus equipamentos, as garotas arrumaram o que ela precisava, emprestaram um uniforme e Karime ainda estava incerta. Mas Noah pegou sua mão.

— Vai, lá, vai, eu preciso te ver jogar.

E acabou indo, no final das contas, apenas porque ela precisava e nada poderia ter sido melhor. Laura tinha razão, a pressão do hóquei fazia qualquer um se sentir mais vivo, mais presente neste mundo, fora da mente, jogou, marcou dois gols, adorou ver o sorriso de Noah e amou ver suas garotas chegando, vindo lhe encontrar na quadra, Thai correu empolgada, saltou em seu pescoço, feliz demais de vê-la numa quadra de novo! Pediu para jogar, Julia, Ívi e Natalia fazendo companhia a Noah na arquibancada e pouco antes do final da tarde, correram de volta à Praia Vermelha para um mergulho rápido, o verão se aproximava, a água não estava mais tão gelada. Assistiram ao pôr do sol todas juntas na areia, Karime se sentindo incrível, sem afastar seus olhos de Noah porque ainda não parecia real. Aquela garota linda, Julia e Thai agarradas sem culpa, Natalia empolgada com os rumos que Haíz estava tomando, Ívi pensando longe, pensando em Laura, não tinha dúvidas.

A gata de rua sequer escondia o tanto que já era de sua dona.

Voltaram para o apartamento e Noah tinha que ir. O abraço em Karime foi bem longo e Ívi foi deixá-la no carro. Ficaram um pouco juntas, conversaram, beijaram, Noah queria que Ívi fosse dormir com ela e...

Não dava para resistir muito. Aceitou. Subiu, pegou uma mochila e partiram para o apartamento de Noah em Jacarepaguá. Jantaram, assistiram um filme, falaram de Karime. Aliás, Ívi desconfiou rapidinho que o apego súbito na verdade, era para poderem falar de Karime. Noah parecia preocupada de verdade com ela.

— Ívi, você sabe que eu sou psicóloga e algumas coisas a gente pega mesmo sem querer.

— Você está preocupada com ela, não é?

— Muito preocupada. Vocês já notaram as marcas?

— Ela brigou outro dia, Noah.

— Não as marcas do rosto, as marcas dos pulsos, marcas no calcanhar, vocês já notaram essas marcas?

— Já, mas ela me disse que são do hóquei.

— São marcas circulares, Ívi, não são pancadas, são fricções. E eu posso estar errada, mas por via das dúvidas, é melhor vocês verem isso de perto. Um dos problemas do transtorno borderline é que, ou se sente muito, ou não se sente nada e quando não se sente nada, há pacientes que chegam a se machucar fisicamente em busca de sentir alguma coisa, qualquer coisa, ainda que essa coisa seja dor.

— Noah, você acha que... Ela está se machucando?

— Com uma corda. Pra mim, parecem marcas de corda. Não pergunte nada a ela, só deem uma olhada pelo quarto, é para a segurança dela.

Jantaram na piscina do apartamento, num clima muito agradável, María tinha adorado Kelsey e isso foi antes dela milagrosamente ter feito Alejandro aceitar que ela ficasse com Laura aqueles dias e quando disseram a ela que iriam até Milão, ela mal se conteve de felicidade. Era uma menina linda, carente demais de atenção, carente da irmã mais velha que sempre havia sido meio sua mãe também e ainda parecia irreal para Laura. Irreal estar em Madrid novamente, com María por perto, rindo, lhe contando coisas, agarrada em seus braços como sempre havia sido e, com Kelsey por perto. Sendo linda, dócil, perfeita. María acabou indo dormir mais cedo e ficaram sozinhas, perto da piscina, conversando uma infinidade. As coisas seriam diferentes aqueles dias, as duas sentiam. Foram para a cama, fizeram amor, rapidinho porque Kelsey ainda estava muito cansada. Ela pegou no sono rápido e Laura não sabia bem onde estava o seu sono.

O dia havia sido totalmente inacreditável. Sua irmã estava dormindo no quarto ao lado e iria levá-la na aula pela manhã. Tinha Kelsey dormindo e ela não teria nenhum compromisso no dia seguinte além de ficar ao seu lado. Kelsey era maravilhosa. Mas a falta que sentia de Ívi estava cada dia mais pesada de se carregar.

Não pensou nisso. Ainda não era hora de pensar nisso.

A semana passou voando para todas elas. Laura fez questão de levar María no colégio todos os dias e foi muito bom, ter este tempo com ela, almoçarem juntas, passearem por aquelas ruas tão familiares a Laura. Foi muito bom conhecer outro lado de Kelsey também, María simplesmente a adorava, a conversa sempre fluía entre elas e esta proximidade permitiu que Laura observasse María um pouco mais.

Ela não teve crises de nervos na sua presença. As crises de choro e descontrole que costumavam deixar Laura tão preocupada. Mas por outro lado, ela parecia muito distante do pai, o culpava por Laura ter ido embora, por Julia ter partido e detestava que ele estivesse indo em frente. Detestava a namorada nova especificamente.

— Ela só fala em ter um filho, Laura, você imagina? Eu ter um bebê invadindo a minha vida?

Laura caiu no riso.

— Imagino, eu tive você invadindo a minha vida, olha que coisa terrível que me passou por ter tido uma irmãzinha. María, as pessoas precisam ir em frente.

— Por que ele só não começa outra família e me deixa ir com você?

— Simples assim, não é?

— É simples, Laura!

Laura sorriu, pensando em sua própria situação. Nada era muito simples quando se envolve sentimentos.

Mas às vezes, simplesmente é. A aproximação de Julia e Thai era uma prova de simplicidade, duas conversas, dois rompimentos e ali estavam elas, de volta aos três meses de quando se conheceram, indo jantar, passear na praia, pegando um cinema entre um beijo inesperadamente roubado e outro. Ainda não estavam prontas, o romance ainda não estava pronto, o fio estava cada vez mais retraído e era tão bonito de se ver que enchia o coração de qualquer um.

Os rompimentos apenas fizeram bem. Inclusive, para Karime.

Ela voltou para as aulas na segunda-feira, voltou para o hóquei, para sua vida normal e Ívi se encarregou com Julia de dar uma olhada pelo quarto dela e o que acharam, deixou as duas preocupadas. Várias cordas, não apenas uma, Julia disse que sabia que ela costumava usar cordas e estudar algumas técnicas de bondage, coisa da ex-namorada que morava no Morro da Babilônia, mas não achava que ela poderia estar usando essas mesmas cordas para se machucar de verdade. Acharam velas pela metade, isqueiros, algumas lâminas e nem quiseram se perguntar se ela estava usando aquelas coisas de maneira nociva ou não. Recolheram tudo, incluindo as chaves do quarto dela, ela nunca fechava as portas, mas andava fechando naqueles dias negros e a semana de Ívi e Julia foi uma loucura total.

Tiveram agenda para todos os dias, bares, restaurantes, duas boates diferentes e além de tudo isso, Ívi trabalhou por três dias na semana no estaleiro, começou suas aulas de inglês, levou Noah para almoçar duas vezes e ouviu que ela tinha conseguido um especialista para ver Karime gratuitamente.

— Você mesma não pode ajudá-la?

— Nós já temos uma relação, isso inviabiliza, sabe? Além de eu não ter muita experiência clinicando, eu quero que ela fique bem e eu conheço este terapeuta aqui, eu sei que ele pode ajudá-la mais do que eu.

— Você vai com a gente hoje?

— Claro que vou! Karime vai também, estávamos nos falando mais cedo...

Elas andavam se falando sempre, Ívi sabia, Noah tinha ido assistir a um jogo de Karime, outro dia foram andar na praia, conversar, Karime andava melhor, ficando menos no quarto, socializando mais, era como se ela finalmente, estivesse saindo daquela crise que parecia eterna e todas tinham uma desconfiança que a presença de Noah andava ajudando um pouquinho, coisa pouca e encaravam esta realidade sorrindo. E foi incrível ter Karime de volta aquela noite! Em uma boate que nunca tinham tocado, assistindo um outro tipo de show que estava cada vez mais profissional e surpreendente, Julia se adaptava como ninguém, mas para Ívi era um impacto como ela podia ir de voz e violão ao funk como foi aquela noite com tanta verdade e genuinidade. Foi um showzaço, em que Thai e Noah se esbaldaram no funk, eram cariocas, aquele era o ritmo que fazia parte delas e o tanto que Karime também dançou mostrou que ela também já era um monte carioca no meio de toda a sua vibe colombiana. E Ívi como DJ...

Não dava para explicar a energia e a força daquela garota quando ela colocava os fones de ouvido e assumia a sua pickup. E nem na gritaria das garotas toda vez que ela saía de trás da pickup e vinha dançar pertinho do público.

E a melhor parte para Laura, era poder assistir aquele showzaço enquanto tomava café da manhã. Natalia estava transmitindo tudo ao vivo pela internet e Laura morria de orgulho. De Julia, de Ívi, daquele trabalho incrível que elas andavam fazendo.

Kelsey lhe beijou a nuca com carinho.

— Babando nas suas garotas?

Laura sorriu, virando o rosto para beijá-la. Estava um dia lindo, Laura estava tomando café no terraço da cobertura, o sol iluminava o jardim deixando tudo mais bonito ainda.

— Só um pouquinho, olha para elas, essa energia toda.

— Elas são incríveis, são talentosas demais, eu não tenho dúvidas de que vão decolar. Eu apressei a María, o nosso voo sai daqui a pouquinho. Gostou dos nossos dias aqui, meu bem?

Laura agarrou a mão dela.

— Eu adorei. Nunca vou conseguir te agradecer por nada disso, Kels, não só pela viagem, mas por ter me apoiado, por ter conseguido que a María ficasse aqui e viajasse com a gente. Nos prometemos lua de mel e...

Estamos em lua de mel. Tivemos noites lindas aqui e eu sei que você precisava deste tempo com a María. O que você acha? Aquela sua preocupação...

— Eu acho que ela não é como a minha mãe — E aliás, até isso Kelsey tinha feito consigo, tinha ido visitar o túmulo de sua mãe, Laura e seus encontros românticos, tinha que melhorar, sabia — Mas está infeliz, não quer ficar aqui, não quer morar com o Alejandro e está o infernizando por isso. E ela é inteligente, sabe o que tem que fazer para ir embora e eu não sei como ajudar. Eu não sei o que pode acontecer se ela passar dos limites porque, quando Julia e eu passamos, aconteceram coisas muito desagradáveis.

— Bem, ao menos o canal de comunicação com o Alejandro foi aberto, você terá para quem perguntar, a visão de outra pessoa sobre as crises e os descontroles dela. Laura, ela me falou ontem sobre emancipação.

— Falou?

— Me disse que está pesquisando sobre e já sabe que pode solicitar aos quatorze anos. Ela sabe que a Espanha tende a proteger os espanhóis, que há esta política forte nacionalista e ela é espanhola, o pai é cubano, ela sabe da fragilidade dele perante o judiciário espanhol. Eu sei que você está feliz de ter se entendido com o seu padrasto, mas sei também que não confia totalmente nele. Qualquer coisa, é algo que podemos pensar.

Podiam pensar. Laura fez uma anotação mental tanto sobre emancipação como por María ter mencionado isso de maneira tão coesa. Logo ela apareceu, linda para tomar café, vestida como uma mulher adulta e Laura não sabia bem o que pensar a respeito. Não esperava chegar e encontrar María usando camisetas de desenhos animados (até mesmo porque ela sequer gostava de usar quando era menor), mas também não estava pronta para vestidos e botas cano longo. Partiram para o aeroporto, para as duas horas e pouquinho de voo até o Aeroporto Milano-Malpensa e os ares eram diferentes na Itália. Como podia mudar tanto de um país a outro? Tinha sensação de que a Espanha era toda feita de tons pastéis antigos enquanto a Itália se mostrava mais cinza e envelhecida, e Milão era, uau. Os monumentos, os prédios históricos, a arquitetura gótica das igrejas, a moda por todos os lados. María se deslumbrou com as vitrines e Laura nem podia culpá-la, estava um pouco deslumbrada também com tantas coisas bonitas, os vestidos, as botas, uau, tudo era “uau” demais.

E ver Kelsey se virando tão perfeitamente em italiano também foi lindo de se apreciar. Almoçaram uma comida maravilhosa antes de chegarem no hotel, um gelato delicioso de sobremesa, outra voltinha por aquela cidade cheia de aspirantes a modelos e estilistas, e então, hotel. María surtou ao ver que teria um quarto só para si, ao lado do quarto de Laura e Kelsey, mas era só seu e o jantar foi na casa da bisavó de Kelsey.

Outra experiência maravilhosa. Uma casa enorme com quintal, cheia de tios, primos, tias, meninas da idade de María com quem ela adorou interagir, em inglês, italiano, espanhol, estava uma bagunça só, não importava, só que estava se dando bem com elas e por fim, Laura conheceu Hanna, a irmã de Kelsey.

Muito polida, muito educada, era dois anos mais nova e estava estudando moda e italiano na cidade. Fazia mesmo três anos que não se viam, as duas concordaram porque ambas não se lembravam direito. E apesar da veia italiana, aquelas duas eram de fato britânicas. Ficaram felizes em se ver, mas não pareceu grande coisa assim, a saudade física não parecia existir ou se existia, não fazia muita diferença. O resto da família, puramente italiana era uma festa só, viu os homens cozinhando, as mulheres fazendo massa, todos juntos, falando alto, rindo demais, foi um ótimo jantar, uma linda experiência e quando voltaram para o hotel, María veio dormindo no carro.

As primas de Kelsey eram todas longboarders e ela tinha trocado as botas de salto por tênis para aprender a andar de skate. Foi algo bom de presenciar, sua irmã agindo como uma adolescente comum, não como uma mulher adulta. A colocaram na cama e foram fazer amor no quarto ao lado. Laura pediu a força de Kelsey, os dedos dela mais firmes pela sua pele, implorou por um toque mais forte e Kelsey fez tudo o que ela queria, mas terminou com uma sensação estranha que ainda assim, não tinha sido suficiente. Não sabia o que Laura queria, mas achava que era parecido com o que tinha acontecido na primeira vez que foram pra cama. Havia feito tudo certo, mas não parecia suficiente. E não é que Laura fosse desistir, ela não desistia, ela seguia tentando, buscando em Kelsey aquilo que precisava e ainda assim...

Os dias estavam sendo lindos, memórias ternas estavam acontecendo, mas havia um pedaço de Laura perdido e Kelsey desconfiava de onde poderia estar. Queria ter refletido um pouco mais sobre, mas estava tão cansada que só conseguiu dormir.

O fio parecia estar esticando por puro cansaço.

Notas do Capítulo:

Olá, meninas!

Como estão todas vocês?! Não tivemos capítulo semana passada por falta do alcance da meta e eu juro que fiquei extremamente sentida porque estou ansiosa para que a história ande logo! Hahaha. Há capítulos bonitos e importantes por vir, e fico ansiosa mesmo para descobrir como será que o rumo da história será recebido. Eu tinha escrito notas direto de Barcelona para este capítulo que por algum motivo desapareceram daqui, então vou tentar resumir que: a viagem está sendo por lugares incríveis! Viemos de Barcelona, já estivemos em Porto, hoje escrevo de Lisboa e neste momento em que estão lendo as notas, devo estar chegando em Viena. Histórias virão, já há personagens povoando a minha mente!

Para liberar o próximo capítulo, já sabem, 25 comentários de pessoas diferentes até o meio-dia do sábado e "Fatti Sentire" na mesa de vocês no domingo de manhã!

Beijos!

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