• Ana Reis

6 AM - Capítulo 39 - O Coração de Ívi


O choro de Ívi começou na fila de embarque.

E Laura achou a coisa mais preciosa que ela estivesse sentindo tanto, então a guardou nos braços, a cheirando, a enchendo de carinhos.

— Ei, mi amor…

— É que… Foi aqui que eu cheguei, amoriño. Cheia de esperanças e depois que tudo desmoronou e eu fugi do hostel, foi lá fora que eu vim parar também, e agora…

Laura a beijou com carinho.

— Agora você está voltando pra casa. Com passagens que você mesma comprou, como resultado do seu trabalho e ainda por cima, decidiu me levar junto. Eu ainda estou… — Laura não conseguia parar de sorrir — Assim. Sem conseguir acreditar.

Ívi a abraçou pela cintura.

— Não é para Londres, mas…

Laura a beijou sorrindo outra vez.

— É especial igual! Vou conhecer sua família, conhecer o seu lugar, vamos ter tempo…

— Para fazer amor, pra gente se curtir, fazer coisas normais, sabe? Pegar uma praia, ficar juntas, ficar na cama sem fazer nada, são todos os meus planos, meu bem.

— E como sempre, eu amo todos os seus planos…

Não puderam dormir durante o voo, apesar de ele não ter sido curto. Ívi estava ansiosa demais, Laura tinha seus probleminhas com avião e estavam com tanta saudade uma da outra que não queriam perder nenhum segundo de tempo. Tinham muito para conversar, assistiram a um filminho juntas, A Pequena Sereia, em espanhol porque assim Laura sabia todas as letras, curtiram algumas fotos no celular e Ívi cuidou muito do machucado de Laura, que não estava reagindo muito bem a pressurização.

Amoriño, eu ainda não esqueci do seu apagão, viu?

— Ívi, não foi exatamente um apagão…

— Laura, é sério: quando a gente voltar, vamos fazer um plano de saúde e você vai ver um médico com regularidade para acompanhar o traumatismo na sua cabeça.

— Ívi, é um exagero, o trauma já está curado tem tempo.

— E você explica o seu sonambulismo agudo como? O seu sonambulismo aconteceu por causa do traumatismo, Laura, tem que haver uma maneira de melhorarmos isso.

— Nós não temos como pagar um plano de saúde agora, Ívi...

— Bem, nós temos — Terminou o curativo no joelho dela — Será o presente de natal da minha mãe, será seu presente de natal também, está bem? A sua segurança médica é a minha prioridade, Laura. Já falei com a Julia e ela concordou, nós duas podemos pagar um plano de saúde, não é um absurdo.

Laura apertou os lábios.

— Acha mesmo que… Eu posso ter um problema?

— Nós já temos um problema, Laura. Eu não quero ter que ir trabalhar pensando sobre onde eu vou te encontrar, amoriño, eu quero você dormindo na cama, linda, porque não deve haver ninguém que durma com tanta beleza como você, bebê, quero você dormindo com conforto e segurança.

Laura se agarrou nela um pouquinho, sabia que ela tinha razão, porque seu sonambulismo era algo que sentia que estava saindo do seu controle e de jeito nenhum iria se dar a bronca que tinha dado em Karime. Tudo bem, se Ívi insistia que podia pagar com Juls, decidiu aceitar, era sua Julia, sua Ívi, sabia que as duas estavam bem preocupadas e decidiu colaborar. E Ívi ficou em êxtase por Laura ter aceitado! Nunca achou que ela ficaria tão feliz por algo tão simples e cuja principal interessada deveria ser a própria Laura. Foi gostoso demais passar o voo longo agarradinha nela e quando desceram em Recife e viram o aviãozinho que tinham que continuar a viagem...

— Ívi...!

— Você vai ficar bem, amoriño — Ívi respondeu rindo e a abraçando com carinho, a conduzindo para aquele aviãozinho em que meses atrás, tinha voado para o Rio de Janeiro em busca de um sonho.

Bem, agora iria lhe levar de volta pra casa agarradinha em um sonho diferente.

O voo foi rápido, avião muito pequeninho fez o espaço quase inexistente entre Laura e Ívi encurtar ainda mais. Chegaram agarradas, tão empolgadas que o amor transbordava, aparecia, ficava claro, não podia ser negado.

— Eu adorei esse nome! Me explica?

Era o nome do Aeroporto Zumbi dos Palmares que Laura tinha tanto adorado e queria saber quem era, qual a história e foi quando Ívi se deu conta de que sua Laura era bem brasileira, mas também não era, não havia estudado o ensino regular no Brasil e o jeito que ela se empolgou ao ouvir sobre Zumbi, um dos grandes líderes natos do Brasil foi a coisa mais linda de se apreciar. E Ívi contou que tinha alugado um carro.

— Ívi...

— Eu não pretendo te pôr num ônibus nunca mais, meu bem.

— Mas pode pôr se precisar.

— Posso, mas como não preciso... — A beijou sorrindo chegando no guichê de atendimento e uma meia hora depois, já estava dirigindo por Maceió e Laura estava fora de si!

— Ívi, que azul é esse?! — Ela estava praticamente para fora do carro surtando com Ponta Verde.

— É lindo demais, não é? Laura, você não faz ideia de como eu estava com saudade deste meu estado abençoado!

Tanta saudade que parou para almoçar numa praia, era uma segunda-feira e parecia feriado, tanta gente na areia, tanta gente em roupas de banho e não, não era apenas porque já era quase Natal, é porque as coisas são assim mesmo em Ponta Verde. Sempre é dia de praia, sempre há um ar de férias por todos os lados, pediram um camarão regional que Laura simplesmente não acreditou quando colocou na boca. Estava uma delícia, o camarão, a praia, aquele tom verde-esmeralda de tirar o fôlego, Ívi linda de óculos escuros muito perto de si. Ainda não acreditava nos dias que teriam, nos dias em que seriam apenas uma da outra.

— Laura, olha isso! Olha esse mar, esse tom de esmeralda, e a água é quentinha, viu? — E pela primeira vez na vida, Laura ouviu um sotaque escapando daquela boca.

— Ívi, você tem sotaque!

— Não tenho não! Eu tenho só aqui, é a influência... — Disse, fazendo Laura morrer de rir.

— É tipo eu quando volto pra Galícia, viro galega, do jeito de vestir ao jeito de falar, o nosso lugar tem influências inexplicáveis sobre nós mesmas — E viu Ívi tirando os óculos para namorar o esmeralda do mar mais uma vez — Quer nadar um pouco, linda?

Ívi lhe olhou surpresa.

— A gente está sem biquíni!

— Eu sei, mas você está namorando aquele mar ali. Você quer?

Ívi ainda tinha muito a conhecer daquela sua espanholinha linda demais.

Terminaram o almoço e, Laura só não correu para o mar porque não conseguia correr, mas andar rápido ela conseguia. Andou sorrindo demais, na frente de Ívi, deixou a jaquetinha na areia, os chinelos e pronto, mergulhou de jeans e tudo, igualzinho tinha feito em Arraial do Cabo e Ívi só podia segui-la. Deixou a jaqueta pela areia, a camiseta também e mergulhou atrás de sua menina linda, a encontrando em uma onda quente ou outra, a resgatando, a apertando contra o seu corpo, a beijando salgada e quentinha, a coisa mais gostosa da sua vida inteira e Ívi...

Ívi ainda não acreditava também.

— Eu não esperava que fosse tão quente! Nem Ibiza é tão quente assim!

— Eu te disse que era quente e gostosa, igual a você... — A beijou novamente, a apertando pela cintura contra o seu corpo — Laura, caramba...

— Eu senti a sua vontade na minha coxa... — Ela confessou, no ouvido para fazer Ívi se arrepiar.

— Você não pode entrar no mar e achar que eu não vou sentir tesão, Laura...

Laura gargalhou, sabia que não podia mesmo. Ficaram no mar um pouquinho, namorando, beijando, se divertindo, estavam cansadinhas, mas felizes demais, nem conseguiam se soltar. E então que, tinham perdido a chave do cadeado da mala!

— Ívi, eu não acredito! Você tem que conseguir abrir, você é engenheira, bebê...

Ívi estava rindo demais.

— Amor, ainda falta um ano para eu ser engenheira, neste último ano é onde devem ensinar truques de Houdini, né...

Laura a agarrou a beijando outra vez.

— Graciosa. Tudo bem, tudo bem! Eu vou de lingerie até Maragogi...

— Laura, você quer me matar? Matar nós duas? Eu não vou conseguir dirigir...

Laura a beijou novamente, sorrindo sempre.

— Tira a roupa, mi amor, eu não vou conhecer a sua mãe toda molhada...

Bem, Ívi achava que ia chegar em casa molhada de qualquer forma, mas ok. Tiraram as roupas molhadas, estenderam na parte de trás do carro e partiram, mais duas horinhas deslumbrantes até a Maragogi caribenha de Ívi, que arrancou todo o fôlego de Laura mais uma vez.

— Você tem um pé no caribe, não tem?

— Julia, Karime e você, estou entendendo a sua lógica...

Era bem isso mesmo. Laura se deslumbrou com as praias, com a cor transparente da água, o céu muito azul, sem uma nuvem, mas o que Ívi precisava com urgência mesmo era...

— A gente tem que se vestir antes, mi amor...

Era verdade, é que Ívi não estava acreditando que estava de volta a sua cidade! Que estava dirigindo, vendo suas praias, as pessoas que conhecia! Parou para se vestirem e cruzou com uma amiga, depois com um dos seus primos, com colegas de trabalho, do curso técnico e quando elas começaram a pegar o caminho de casa...

Ívi chorou novamente. Começou a lagrimar e Laura se agarrou no braço dela, pediu para ela parar, podia dirigir por ela.

— Você tirou a carteira agora, amoriño...

— Eu dirijo, bebê, só precisa me dizer as direções, está bem?

Ívi sorriu, tentando controlar o choro, respirando fundo. Laura tinha acabado de tirar a CNH, ainda estava insegura, mas Ívi estava chorando e ela tinha que cuidá-la. Trocaram de lugar e Ívi foi lhe guiando por ruas de duas mãos e então ruas de uma mão só, então ruas de paralelepípedos, ruas de areia, apertadas, que justificavam a escolha de um off-road por Ívi. Ela seguiu chorando, seguiu agarrando a mão de Laura, o glamour da zona praiana ficando para trás, as casas ficando mais e mais humildes, até que, numa casinha de madeira muito, mas muito humilde, Ívi lhe contou que aquela mulher bonita parada na porta, era sua mãe.

Só deu tempo de Laura parar e Ívi já estava descendo, já estava correndo para sua mãe feito uma garotinha, aquela mãe bonita, jovem demais! Com uma etnia linda pelo rosto, índia mesmo, de pele, de cabelo, de olhos, índia de sorriso bonito e olhos emocionados, e um amor enorme pela sua menina que estava voltando pra casa.

— Filha, filha...

— Eu amo você, mamãe, eu amo você...

Laura se aproximou devagar, vendo aquele carinho todo, aquele amor sobrando, não podia ser assim? Aqueles dezesseis anos que passou com sua mãe, não poderiam ter sido assim? Bloqueou o pensamento. Seu relacionamento com sua mãe era do jeito que havia sido, ponto, não podia sofrer por isso, de forma nenhuma. Tinha se perdoado com Claudia, se perdoado com sua família, tudo estava bem e Ívi estava feliz demais.

— Laura, vem cá, amoriño, desculpa, eu te deixei no carro...

— Eu entendo completamente os seus motivos, meu bem.

— Ívi, que moça linda!

— Eu não disse que ela era linda, mãe? — Puxou Laura para pertinho — Laura, esta é Taemã, minha mãe, o amor da minha vida, e mãe, esta é a minha espanhola, a minha galega linda, a futura mãe do Enzo e da Nicola... — Disse, fazendo Laura sorrir demais.

— Está nomeando as nossas crianças, já? Serão espanhóis e indígenas, e italianos também, são muitas etnias aqui...

— É verdade, precisamos de mais umas três crianças para ser justo... — Beijou a testa de Laura, a derretendo um pouquinho mais — Mãe, é ela, tá?

— Eu não tenho dúvidas. Laura, é um prazer imenso ter você aqui!

Trocaram um abraço longo, e essa receptividade deixou Laura... Se sentindo em casa. O abraço forte, o “bem-vinda” tão implícito, as palavras indígenas que Taemã lhe disse tão gentilmente e que Laura respondeu em galego, palavras de energia, que sequer precisavam ser traduzidas.

— Eu fiz um lanche para vocês! Eu não sei se você já percebeu, mas estar com fome é o estado natural da minha Ívi...

Laura gargalhou, era de sua percepção sim. Foram para dentro, daquela casa humilde de três cômodos, onde sala e cozinha se misturavam e o cheiro de bolo de rolo quentinho e tapiocas se misturavam ao ar! Laura nem estava com fome, mas comeu igualzinho a Ívi, provando cada coisa, bolo de tapioca, suco de taperebá, cupuaçu, Taemã explicou que eram frutas do norte, que plantava no quintal porque adorava Maragogi, mas às vezes sentia falta da aldeia em que cresceu, olhos de mãe e filha brilhando, mãos agarradas o tempo inteiro e quando Marcelo chegou, Ívi saltou nele igualzinha a garotinha do papai que ela ainda era. Seu pai nordestino, que lhe criou, lhe amou, lhe cuidou sem fazer nenhuma diferença entre ela e Rubinho, que chegou logo em seguida! Um rapaz bonito, todo tatuado, louco pela irmã a ponto de chorar quando a viu. Ele chorou, tocou o rosto dela, cobrou porque ela não lhe ligou quando estava em perigo, porque agora que estava tudo bem e com sua família toda reunida em volta da mesa da cozinha, Ívi contou o que tinha acontecido, toda a sua história, até o momento que conheceu Laura.

— Você salvou a nossa Ívi — A mãe lhe disse, agarrando sua mão.

— Ela já me salvou também — Respondeu sorrindo.

— O suficiente para agradecer esse gesto tão grandioso, filha? — O pai emocionado lhe perguntou.

Laura sorriu, olhando para Ívi.

— Eu preciso dela da mesma forma que ela já precisou de mim.

Ívi brilhou os olhos a olhando.

Te quiero — Beijou a mão de Laura com carinho.

Yo también. Te quiero mucho.

Se queriam demais. E outra coisa que queriam muito era um banho! Depois que Ívi conseguiu abrir a mala, levou Laura para o seu antigo quarto, bem pequenino, aos beijos, mãos ansiosas pela cintura, boca pela sua boca, pelo seu pescoço, a vontade tão forte, os sorrisos que não sanavam. O quarto era minúsculo, mas tinha uma cama de solteiro e, um piano.

— É sério?

— Tinha dias que eu acordava batendo o pé nas teclas, mas foi presente, um presente muito caro, não dava para dispensar não.

— Da sua maestrina.

— Isso. Ela sempre acreditou muito em mim. Você vai conhecê-la! Quero mostrar pra ela o trabalho que estou fazendo...

— A música eletrônica?

— Pensei em começar mostrando as canções de amor que andam brotando, sabe...

Mais beijos, mais alguns agarrões e Ívi foi levar Laura para o banheiro, deu preferência para ela uma vez que Laura se recusou a ir para o banho juntas na casa dos pais de Ívi!

— Você sabe que a gente vai fazer amor, não é? A cada duas horas mais ou menos... — Disse, a fazendo rir demais antes de vê-la desaparecer para dentro do banheiro. E, sua mãe se aproximou.

— Vem cá, filha — A puxou para os seus braços, cheirando Ívi, a apertando um pouquinho.

— Mãe, eu estava com tanta saudade, mas tanta...

— Nem me fala, meu amor. Filha, você sabe que eu estou adorando ter você de volta em casa, mas eu estou um pouquinho preocupada.

— Preocupada? Com o quê?

— Ívi... A Laura é um amor, estamos todos apaixonados por ela, mas essa menina tão fina hospedada aqui na nossa casa? Ela não ficará confortável.

Ívi abriu um sorriso.

— Mãe, a nossa casa no Rio não é gigantesca não, tá? Vivemos tropeçando umas pelas outras e a Laura... Eu sei que a classe está pelo rosto dela, ela é educada, elegante demais e a pessoa mais simples que você possa imaginar. A gente dorme numa cama do tamanho da minha daqui todo dia. Escuta, mãe, eu estou de lua de mel. Tenho trabalhado muito, ela também, desde quando começamos a namorar, só tivemos uns quatro dias livres juntas e, eu também estou morrendo de saudade de vocês, então pensei de ficarmos aqui até o Natal e depois eu preparei uma surpresa para ela.

— Uma surpresa?

— Eu tenho uma amiga e ela tem um iate pequeno — Foi só o que contou, o suficiente para fazer sua mãe sorrir.

Jantaram com casa cheia! A família de Ívi toda reunida, chegaram primos, tias, as primas todas apegadas demais e era impossível jantarem dentro de casa! Levaram o jantar para o quintal, para uma mesa de madeira enorme que ficava sob uma jabuticabeira, Ívi e o pai improvisaram luminárias, estava ventando, a cidade tinha cheiro de praia, era quente o tempo inteiro, era gostoso demais. Laura jantou uma caldeirada deliciosa de frutos do mar, no colo de sua namorada, carinho natural, apego natural, foi uma surpresa descobrir que os problemas de aceitação de Ívi era apenas dela, que sua família sempre soube, que sempre apoiou, que ela fosse o que quisesse ser e em determinado momento, ela quis ser funileira naval ao invés de fuzileira naval.

— Você era marinheira!

— Eu estudei em escola militar o ensino regular inteiro, Laura, terminei como marinheira e com dezoito anos, me tornei fuzileira, só que... — Abriu um sorriso — A escola é em Maceió, duas horas para ir e duas para voltar todos os dias.

— Por onze anos de ensino regular?

Outro sorriso.

— Por onze anos. Eu acordava às quatro, pegava ônibus às cinco, chegava às sete e tinha que correr dez minutinhos ou ficava do lado de fora do portão — Contou sorrindo agora que estavam sentadas juntinhas na frente de casa, sentindo areia nos pés enquanto Laura comia o terceiro pedaço de pudim. Sua mãe cozinhava um absurdo de tão bem, nunca conseguia parar.

— Ívi, você... — Era impressionante como Ívi ainda lhe surpreendia — Que força.

— Eu tinha que fazer, amoriño. Queria ser alguém, queria sair daqui, ajudar minha mãe. Depois que o pai chegou na nossa família, deu uma melhorada, ele não podia ir me levar pra escola, mas ia me buscar duas vezes na semana, então eu conseguia chegar mais cedo e foi nesses dias em que eu chegava ainda de dia, que eu comecei a aprender com ele — Beijou os cabelos de Laura com carinho.

— Você usava aqueles uniformes...?

Ívi a beijou rindo demais!

— Quer fotos, bebê?

Como que não ia querer?! Foram para dentro, olhar a caixa de fotos de Taemã, um registro minucioso de todas as fases de Ívi, das suas subidas dente de leite de patente até a formação de fuzileira, linda, impecável, uniforme branco, cap, cabelo preso em coque e Laura só pôde suspirar e suspirar. Entraram para o quarto cedo, aos beijos e mãos ansiosas, Ívi lhe despindo muito rápido, lhe pegando muito firme, muito apegada, querendo seu cheiro, sua pele, a urgência em seu sexo e o quase fetiche que enchia a mente de Laura apenas por terem uma noite de amor em que dormiriam juntas em seguida.

Noite de amor, Ívi gostosa demais, lhe pegando inteira, tantas vezes e de tantas formas que Laura nem sabia bem como tinha conseguido se comportar com os gemidos, e para Ívi, a delícia que Laura era, a feminilidade de seu corpo, os seus movimentos sempre tão sensuais, tão densa, Ívi terminou a noite marcada, arranhada e queria mais, porque Laura sempre queria mais. Dormiram muito agarradas e pela manhã, Laura foi desperta por Ívi tocando uma clássica canção de amor no piano do quarto.

Ah, sim, ainda não parecia real. De jeito nenhum parecia.

Respirou fundo, vendo o sol entrando pela janela, dourando todas as coisas, incluindo sua bronzeada garota de lingerie tocando ao piano. Daí que Laura levantou devagar, veio abraçá-la por trás, lhe cheirar os cabelos, lhe beijar o pescoço.

— Canta pra mim, mi amor.

— Linda, sabe que, vai parecer o maior absurdo, mas esta letra eu não sei.

— Mas é um clássico!

— Eu sei, não faço ideia de como aconteceu... — Respondeu sorrindo, enquanto seguia tocando.

Te regalo una rosa... La encontré en el camino... — Laura de repente começou a lhe cantar no ouvido da maneira mais afinada e delicada — No sé si está desnuda, o tiene un solo vestido, no, no lo sé...

— Você canta! — E Ívi quase teve um ataque.

— Um pouquinho, Julia e eu começamos aulas de música juntas, mas daí ela é talentosa mesmo, não é? Eu só aprendi o suficiente para não passar vergonha.

— E como eu não sabia disso?

— E eu lá sabia que você era marinheira? Tenemos que hablar más, mi amor... — Mais sorrisos, mais carinhos.

— Segue? Continua cantando, por favor.

Laura sentou-se em seu colo, entre os seus braços, agarrando em seu pescoço para não a atrapalhar tocar.

Si la riega el verano... O se embriaga de olvido... — Ela seguiu, com aquela voz rouca que Ívi ainda não entendia como nunca havia a feito cantar antes — Si alguna vez fue amada... O tiene amores escondidos... Ay, ayayay, amor... — Ela subiu as notas um pouquinho, muito delicada, muita à vontade, Ívi estava toda perdida — Eres la rosa que me da calor... Eres el sueño de mi soledad, un letargo de azul, un eclipse de mar, pero...

— Ay, ayayay, amor... — Esta parte Ívi sabia e cabia em Laura tão perfeitinha — Yo soy satélite y tú eres mi sol... — Cantou para sua galega, sabendo que ela estava sorrindo — Un universo de agua mineral, un espacio de luz, que sólo llenas tú, ay amor...

— Ayayayay, amor, amor, amor...

Ívi dedilhou terminando a canção e estava... Sorriu, apertando Laura em seus braços, a cheirando, a sentindo demais.

Mi sol, eu não acredito que você canta assim!

— É bonitinho, não é?

— Muito bonitinho! A coisa mais linda, mais gostosa — Mais apertões, mais cheiros e beijos, e sorrisos — Você não faz ideia de como será o nosso dia de hoje...

Não fazia mesmo, estava toda a mercê de Ívi. Levantaram e já não tinha ninguém em casa, todos trabalhando, então o banho pôde ser em conjunto, pôde ser gostoso, coloram biquíni, fizeram uma mochila extra, tomaram um café simples, mas delicioso e com pão fresquinho que alguém tinha comprado e, bolo de rolo com o nome de Laura.

— Está vendo? Minha mãe te mimando demais...

Ela estava e Laura achou uma graça aquele cuidado! Pegaram o carro e partiram para a praia, foram pegando algumas amigas de Ívi pelo caminho, todas animadas por tê-la de volta, felizes por vê-la tão apegada a alguém e as Galés de Maragogi deixaram Laura sem fôlego! Fizeram aquele passeio, mar, sol, uma festa dentro do catamarã onde puderam dançar demais, sentindo todo aquele calor, muito agarradas uma na outra. Os pés rápidos, os corpos que se entendiam tão bem, havia uma afinidade de dar inveja, um apego, um amor, um carinho que transpassava, afetava quem estava por perto, o ritmo muito fácil de Laura pelo forró, era como se ela sempre tivesse dançando aquele ritmo, não havia quem pudesse desconfiar que não era nordestina, que não pertencia àquele lugar. Dançaram demais, riram demais, Ívi tinha amigas muito divertidas!

Laura adorou todas elas, foi adorada por elas na mesma proporção e o mergulho foi de outro planeta. A água transparente, os peixes, os corais, tanta vida, tanta cor e fazer tudo aquilo ao lado de Ívi foi um verdadeiro presente. O meio-dia as encontrou em areias branquinhas, comendo lula a dorê porque sua espanhola adorava, pegando sol, conversando em grupo, a pele de Laura ficando cada vez mais dourada, as marquinhas do biquíni já enlouquecendo só pelo pouco que Ívi conseguia ver, uma fuga e outra para namorar, para beijar em paz, perderem as mãos uma pela outra e em uma dessas fugas, não deu, foram parar dentro do carro e quando tudo esquentou demais...

— Ívi, é sério? — Laura lhe mordeu o pescoço enquanto Ívi dirigia ao ver para onde ela estava lhe levando.

Era sério e foi assim que terminaram em um motel no meio da tarde, fazendo amor gostoso demais, na cama, fora dela, no chuveiro, na hidromassagem. Dormiram fora de hora, nuas, agarradas uma à outra, na pele quente e salgada de praia, acordaram perto das oito da noite e Ívi disse que ia levá-la para jantar e para dançar. Se trocaram e foram jantar em um restaurante, onde os pais de Ívi chegaram logo em seguida, ela queria Laura e queria curtir sua família, e foi muito agradável, muito bom, pais jovens, conversa boa, ligaram para Tiziana, para Julia e Thai também, tinham visto atualizações nos perfis das duas, muita praia também, muito amor sobrando, elas estavam cada vez mais casal, cada vez mais casadas, apegadas, felizes juntas e um vídeo de Julia tocando violão na praia num final de tarde... Cabelos desgrenhados, olhos de pôr do sol, o sorriso destruidor de sanidades.

— É bonita demais, não é? — Ívi morria de orgulho de Julia.

— Nem precisava ser tão talentosa como ela é, essa voz...

— Ela é demais para mim, Laura.

— De jeito nenhum, vocês são perfeitas uma para outra. Vai tocar mesmo hoje? — Tinha aparecido um convite para uma rave na praia.

Amoriño, só se você permitir, eu ainda não respondi nada...

— Pode tocar, mi amor, quarenta e cinco minutos não é problema.

E era por essas e outras que Laura era perfeita.

Foram tocar na praia, de improviso mesmo, Ívi numa pickup que não era sua, mas com seu show perfeito no celular, linda demais, toda cheia de energia, feliz demais de voltar para sua cidade e já para um palco importante, um luau maravilhoso. Ívi tocou pesado, trance forte demais, de batidas poderosas e mágicas, justificando com perfeição o apelido de La Bruja, aliás, foi o jeitinho que ela foi anunciada, La Bruja, Ívi Bueno! Laura estava no cantinho do palco a olhando, sua mujer bruja poderosa, mística, fora deste planeta, uma energia incrível, um set de tirar o fôlego com músicas de agora, músicas de ontem, músicas dela com Julia que grudavam feito chiclete.

Laura pôde ver a luz de Ívi novamente, haviam pessoas na pista quando ela assumiu a festa, mas assim que ela começou a tocar, pronto, o público dobrou, triplicou, quem estava longe se aproximou, quem não estava prestando atenção foi tomando, quem estava chegando correu para curtir e quando Laura se deu conta, quinhentas, seiscentas pessoas? A segurança lhe informou que devia haver mais de mil, o público mais do que esperado para o evento. É claro que ninguém deixou ela descer em quarenta e cinco minutos, é claro que Laura não se importou, estava divertido demais, amava ver Ívi tocando e quando ela vinha e lhe tirava para dançar era a coisa mais perfeita. Dançaram juntas, curtiram demais e Ívi não deixou Laura se afastar mais porque, o que podia estar mais perfeito?

Estava tocando, as pessoas estavam curtindo sua música, estava na sua cidade, na sua praia preferida, com a garota que amava agarrada em seu pescoço. Foi maravilhoso, foi uma noite ímpar em que terminaram aos beijos, namorando, apegadas. Fizeram amor no carro porque não deu para esperar mais e, Laura dormiu no carro. Ívi não pôde se mover por um tempinho. Ainda estavam na praia, era lua cheia, céu com estrelas, o mar ronronando, o sal no ar, o tesão ainda pulsando na pele nervosa, sua menina linda dormindo em seu colo.

Seu coração gritava, lhe aprisionava, na melhor sensação da vida, sem querer.

Dirigiu pra casa, estacionou, abriu as portas e veio buscá-la, a pegou no colo com cuidado para não a acordar e quando estava entrando no quarto, seu irmão chegou.

— Ei, tudo bem? Quer ajuda?

— Não, está tudo bem — A colocou na cama com cuidado e a beijou, a ajeitando com carinho — Que horas são?

— Quatro e pouquinho. Certeza que está tudo bem?

— Certeza sim, é que... — O levou para fora, fechando a porta para não perturbar o sono de Laura — Ela tem um probleminha de sono, ela dorme fácil, mas desperta, anda, dorme em qualquer lugar e acorda cansada. Ela estava numa crise intensa esse mês, mas ela está mais relaxada e tem dormido muito melhor.

— Ívi, ela é muito massa, essa menina sua! É linda, educada, toda fina, mas fala com todo mundo, sorri para todo mundo, o pai e a mãe estão encantados. E eu também estou. Eu nem sabia que você podia se enrolar com alguém, de verdade mesmo, pra valer!

— Eu também não sabia, Rubinho — Respondeu sorrindo demais — Mas ela apareceu e tudo mudou, a minha vida, a minha sorte, eu nem sei te explicar. Escuta, tatuagem amanhã?

— Claro que sim! Vou te esperar lá no estúdio!

Abraçou seu irmão e voltou para o quarto, tomou um banho rápido e deitou agarradinha em sua galega que seguia cheirosa, Ívi gostaria de saber como. Mais uma noite sem Laura acordar, mais uma manhã que ela acordou luminosa demais, tomaram café e foram cedinho fazer a tatuagem que queriam! Tatuaram algo que tinham certeza que jamais iriam querer destatuar, não era cedo para uma tatuagem conjunta quando tinham certeza que o que já sentiam, não podia ser desfeito. Ívi saiu do estúdio com um árbol de la vida no dedo anelar da mão esquerda enquanto Laura saiu de lá com uma pena tatuada no mesmo dedo.

— Vou pôr um anel aqui muito em breve — Ívi lhe prometeu olhando em seus olhos, lhe puxando pela cintura.

— E Nicola será providenciada quando...?

Ívi a beijou sorrindo demais!

— Laura, você sabe que eu quero muito, não sabe? Essa tatuagem aqui... — A onça-parda olhando os filhotes.

— Eu sei, mi amor, mas acho que ainda não deixei claro para você o que eu preciso. A minha família são as minhas irmãs e as amigas-hermanas que eu ganhei da vida. A minha família é você agora. Nós estamos começando, eu sei, namoro recente, trabalhos recentes, mas eu me formo ano que vem e assim que subir ao menos dois degraus de carreira segura... — Olhou nos olhos de Ívi — Eu quero o nosso bebê. O nosso Enzo, a nossa Nicola, os dois de uma vez — Outro sorriso lindo — Eu quero uma família de novo, Ívi.

Os olhos de Ívi brilharam num sorriso lindo.

— E eu quero um filho seu, uma menina linda igual a você, ou um príncipe com os seus olhos. Eu quero, Laura, e se a gente quer a mesma coisa...

Laura a beijou novamente.

— É tudo o que importa. Que nos queremos e queremos as mesmas coisas.

Ah, sim, mais uma vez, lá vinha seu coração aprisionado por algo que tanto, tanto queria. Um bebê de Laura, uma vida ao lado dela, tranquila, equilibrada. Era véspera de Natal e voltaram pra casa para ajudar na ceia e o tempo inteiro, Ívi mal sentia que estava tocando no chão. Como podia? Estava feliz, empolgada, ver Laura e sua mãe trabalhando juntas, conversando, ver seu pai cuidadoso com Laura, feliz de tê-la como namorada de sua filha, simplesmente ver como tudo se encaixara a ela. Ívi sabia que Laura era para ser sua desde a primeira noite. Sabia que ela era a sua garota, a futura mãe dos filhos que tanto queria e sabia dessas coisas porque desde o primeiro segundo com Laura, já estava despida diante dela.

Despida no sentido de não haver como esconder nenhuma verdade dela, despida no mais difícil na vida que já havia estado, sem teto, suja, com fome, vulnerável, desprotegida. Diante disso, o que era trazer Laura pra sua casa em Alagoas? Uma cabana de pescador aumentada ano após ano com o trabalho duro dos seus pais, para o seu quarto apertado, para a cama que não era a mais confortável, mas tinha piano e flores nascendo em vasos na janela de madeira. Esta era a mulher com quem queria se casar. A que ia de um apartamento em Westminster em Londres, dormindo nos braços de uma campeã olímpica, para os braços de uma gata de rua em um quartinho apertado no interior do nordeste brasileiro. E, devia estar olhando para ela feito uma boba, porque de repente, ela parou de cortar as ervas e lhe sorriu.

— O que foi, meu amor?

Estava com os olhos transbordados de coisas, sabia.

— Eu já amo você demais.

Ela veio para perto e lhe beijou o rosto com carinho.

— Como se eu não amasse demais, não é? — Abriu um sorriso — Me fala o que você quer jantar, amoriño, algo que você goste que eu faça, quer churros?

— Você faz se eu pedir?

— Claro que eu faço, amor, você adora esses churros espanhóis! Vou ver se temos tudo aqui ou se preciso comprar alguma coisa...

Ívi a beijou, delicadamente, sua mãe estava bem ali, mas precisava beijar Laura sim. Tinha tudo o que precisava, deixou os churros prontos para fritar mais tarde, foram mergulhar no finalzinho da tarde e à noite as pegou muito agarradas na areia, namorando, se sentindo, curtindo suas tatuagens e suas promessas novas.

— Não vai me contar nem um pouquinho sobre para onde vamos amanhã?

— De jeito nenhum! É uma surpresa, uma surpresa de natal ainda por cima...

Mas Laura não desistia, estava curiosa demais sobre para onde iriam, curiosa naquele mistério todo de Ívi, mas adorando cada coisa, adorando a cidade, a sensação de família, adorando ver Ívi tão feliz o tempo todo. Foram pra casa, banho juntinhas, mas comportado, Laura de vestidinho vermelho, assinado por Thai, uma coisa gostosinha que derreteu Ívi inteira, e Ívi no melhor do seu estilo, toda de preto em pleno Natal apenas para fazer o coração de Laura acelerar um pouco mais. Foram pra ceia na casa de uma das tias de Ívi, tias por parte de pai, que a adoravam e ficaram felizes demais em vê-la de novo! E vê-la tão bem, tão bonita, tão feliz. Foi uma noite deliciosa e muito divertida, uma festa daquelas, família enorme toda reunida, música para todos os lados, o violão que veio parar na mão de Ívi pouco depois da meia-noite, a ligação conjunta que fizeram para suas outras garotas que foi absolutamente uma delícia.

Thai e Julia estavam numa ceia na praia oferecida pelo hotel, muito felizes, muito agarradas, com gosto e cara de lua de mel, mas a curiosidade estava mesmo por ligarem para Karime e Noah. Motivo? Noah tinha decidido apresentar oficialmente Karime como namorada para sua família, se assumir durante o Natal não soou uma ideia muito boa, mas ligaram e as duas estavam estonteantes de felizes! Tudo havia dado certo, sua família estava adorando Karime, elas estavam em Angra dos Reis há alguns dias, onde morava a família de Noah, a estratégia de fazer com que Karime fosse conhecida antes de ser assumida foi melhor do que simplesmente falar na noite de Natal e ali estavam, sua família apaixonada por aquela colombiana que, estava ótima, estava feliz, parecia tranquila e disposta a não perder Noah de jeito nenhum. Voltaram para casa perto das três e Laura foi fritar os churros porque seu amor queria, estava pedindo e é claro que Laura não tinha levado todos, tinha guardado para ela, sabia que ela ia pedir e ver sua menina linda de vestido vermelho, descalça e fritando massa de madrugada...

Ah, não, tinha que se casar com ela. A arrastou para o quarto e só comeram depois de fazerem amor.

Notas do Capítulo:

Olá, meninas!

Tudo bem por aí? 2019 passou voando! Acordei hoje me dando conta de que o ano termina em menos de 20 dias e parece que começou outro dia. Meu ano começou no Rio de Janeiro, com Havana em livro físico e com 6 AM nascendo num quarto de hotel em Botafogo e aqui estamos, no final do ano, com 6 AM em seus capítulos finais e com muitos projetos para o próximo ano. Nunca temos ideia do que nos espera quando um ano começa e o meu 2019 me reservou algumas coisas que eu não fazia ideia de que poderiam acontecer. O que será que 2020 reserva? Uma coisa posso adiantar, não sei muito, mas sei que reserva Delirium, tá? ^^.

Falando um pouco do capítulo de hoje, é um capítulo que eu particularmente adoro! Adoro porque mostra a profundidade do amor de Ívi e Laura, mostra a Ívi se despindo de tudo diante da Laura e Laura abraçando o seu todo, se orgulhando de quem Ívi era e de quem se tornou. Capítulo romance, com amor escapando por todos os lados e, informo que temos mais amor chegando no próximo capítulo.

Capítulo 40 chegando! "La Cruz del mapa", a ser postado no próximo domingo!

Abraços!

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