6 AM - Capítulo 41 - Otros Trens


Laura voltou a trabalhar na primeira segunda-feira do ano.

Voltou com Ívi indo lhe deixar, depois de terem chegado no dia anterior e se trancado no quarto sem saírem para quase nada. Chegaram de um voo longuíssimo morrendo de vontade, se arrastando mutualmente para o chuveiro, mas havia uma cama pelo meio onde não puderam passar sem fazer amor de jeito nenhum. Não conseguiram se mover da cama por um tempo, depois do amor feito, dos orgasmos gostosos demais, ficaram agarradas, se sentindo, se apertando, elas se encaixavam uma pelo corpo da outra sempre, fosse o 1,64 de Laura no 1,73 de Ívi ou o 1,73 de Ívi no 1,64 de Laura, elas sempre se encontravam. Ívi cabia no colo de Laura da mesma forma que sua espanholinha cabia pelo seu e elas não se soltavam, ficavam assim, conversando sobre qualquer coisa porque assunto era algo infinito, e quando se calavam, era porque estavam beijando, estavam esquentando tudo de novo e os olhos nos olhos... Elas sempre se olhavam nos olhos, era uma ponte indestrutível que havia sido construída aquele dia no metrô.

Foram para o banho em algum momento, mais risos, mais amor gostoso contra o box transparente e esfriou um tantinho. Foram para a cozinha, de lingerie e blusão, descalças, para cozinhar alguma coisa juntas, tinham macarrão e carne moída congelada sabe-se lá desde quando, molho de tomate, uma playlist tocando, o apartamento todo em meia-luz, as risadas, os olhares, o amor sobrando.

E era com esse amor que sobrava que sua Ívi tinha saído da cama cedo sem precisar, apenas para levar Laura para o trabalho. Um beijo muito longo ainda na porta, carinho demais, apego demais e Ívi entregou sua Laura de volta para Haila.

— Vai patinar, amor?

— Patinar, fazer um pouco de exercício, você sabe o que tem amanhã.

— Ensaio fotográfico de Haíz!

Ívi a puxou para perto pela cintura.

— Queria você comigo, amoriño, para fazer minhas runas, me acalmar...

Laura a beijou novamente.

— Eu vou fazer suas runas, la bruja necessita a mi, no? — Sorriu, a fazendo sorrir também — E Thai vai vestir vocês duas, maquiar, acompanhar o ensaio inteiro, Heidi estará lá também...

— Heidi me tranquiliza que você não faz ideia... — Respondeu, fazendo graça com fundo de verdade, sua especialidade — Eu venho te buscar, está bem?

— Está bem. Te quiero.

Ívi lhe beijou a boca e em seguida a testa.

Amo você, galega.

Laura derreteu inteira num suspiro mais do que longo. Precisava se habituar com esses “amo você” que nunca mais tinham partido dos lábios de Ívi. Beijo longo, quase cinco minutos de beijo até conseguirem se despedir. Ívi entrou rapidinho, falou com Haila, calçou os patins do lado de fora e partiu, patinando linda demais, deixando Laura...

Suspirou no balcão, ouvindo alguém ligando o som enquanto se preparava para a sua mise en place. Parou sorrindo, parou pensando longe demais e Haila percebeu.

— Galega, você está nas nuvens!

Laura riu, quase envergonhada.

— Está muito claro?

— Não é que está claro, é você que está brilhando! Olha essa pele, esse cabelo perfeito, você está brilhando, está linda demais!

— 24 horas de amor — Respondeu sorrindo, começando a arrumar sua bancada — Com essa garota linda que acabou de sair daqui, que acorda cedo para vir me deixar, que me cuida, me protege, compra bolos de pote pra mim e me faz feliz assim. Eu não sei nem... — Mordeu a boca sorrindo — Como mensurar — Mais sorrisos — Ou explicar o que a Ívi me causa.

— Não precisa explicar, basta te olhar, Laura, isso é brilho de mulher que está sendo amada e muito bem amada. Espera — Parou ouvindo o som, as duas sorriram — É ela — Que estava tocando no som.

— É ela! E a Julia é claro, o Ivan da T.I. pegou algumas músicas delas, viu um show outro dia...

Como quieres que te quieras... Si no estás aqui... — Eu adoro essa uma, sabia? Começa quase um bolero e de repente vira um reggaeton eletrônico!

— É uma das primeiras que elas fizeram juntas, antes do final do ano Heidi intensificou as plataformas digitais, subiu várias músicas, tudo está indo muito bem.

Haila olhou para Laura mais de perto.

— Laura, você voltou diferente em relação a Ívi.

— Eu acho que... Voltei com clareza, Haila. Clareza total de todos os meus sentimentos e do que realmente acontece entre Ívi e eu. Eu a conheci lá, no lugar dela, onde cresceu, onde começou a lutar, entender de onde ela veio clareou plenamente para mim a pessoa que ela é e... — Outro sorriso — Eu fui apaixonada. Agora estou de joelhos.

Sua gerente e amiga lhe sorriu.

— Está de joelhos? Aproveita e pede em casamento...

— Haila...

— Você quer, Laura. Quer casar, começar uma família, quer uma aliança no seu dedo, é seu sonho.

— Mas é tão cedo.

— Para a mulher certa não é. Você tem certeza, ela também, para que esperar mais?

— É que, não sei. Acabamos de fazer três meses de namoro, ela está no começo da carreira...

— Possibilidade de ela dizer não...?

Mais um sorriso.

— Acho que não são muitas, mas...

— Laura, a Ívi é a mãe que você quer para os seus filhos, esses que você sonha, você sabe que não haverá outra, já tem certeza. Eu tive o meu bebê antes de casar.

— Mas não é simples ter um bebê, ainda mais para um casal gay.

— Mais um motivo para casar logo e começar a amadurecer o próximo passo. Só pensa nisso, está bem?

Laura pensava, mais do que deveria, mas não podia ser refém dos seus sonhos assim. Ívi em si já era um sonho maravilhoso.

— Eu me formo em seis meses. E daí...

— Daí, você pede esta gata de rua em casamento e vai ser ainda mais feliz com ela — A playlist mudou — Ivan? Ivan, quer deixar Haíz tocando um pouco mais?

O técnico apareceu rapidinho.

— Não é playlist, não. É a rádio.

Laura olhou para sua gerente.

— É o quê?

— É a rádio, galega, suas garotas estão tocando nas rádios do Rio têm dias!

Estavam tocando! E Laura sentiu que tinham passado um tempo em Nárnia porque nenhuma das garotas tinha tal informação. Julia e Thai chegaram de tarde empolgadas demais! Natalia foi busca-las, comprou champanhe porque o momento merecia e deixaram para estourar depois que Laura estivesse em casa, depois que Karime e Noah chegassem. Se reuniram se apertando naquele apartamento e, esperaram Heidi para cozinhar, ela chegou, beijou Julia na testa, Thai na mão, mas os olhares entregavam tudo, o número ímpar imperando. Jantar italiano, uma delícia absoluta, um bem-estar absurdo invadido ao analisar o quanto estavam indo bem nas plataformas digitais, ao ver o número de execuções de cada música, no quanto a imagem Haíz crescia, além da imagem de Julia e Ívi individualmente, a agenda nova estava ainda mais lotada do que antes e...

— Fotos profissionais amanhã, Thai, você sabe, sobre a identidade visual bem definida... — Era Natalia, enquanto comiam todas no chão da sala porque a mesa não comportava a todas.

— Pode deixar, as duas místicas, porém Ívi mais agressiva, mais sexy, Julia mais sedutora, mais densa, como se não fosse o estado natural da minha esposinha... — Disse, fazendo Julia sorrir e lhe roubar um beijo mais do que apaixonado.

Elas tinham voltado ainda mais apaixonadas. Laura ainda estava de férias da faculdade e no meio da sobremesa, bastou um olhar com Ívi, eram o casal-apego, morrendo de vontade de se trancarem em seu quarto outra vez e foi o que fizeram. Se despediram das meninas, foram para o quarto cedo, conversar mais, namorar mais, amorzinho? Sim, claro, a todo momento, faziam amor o tempo inteiro e esporadicamente, se faziam gozar pelo caminho, era assim que era. 6 AM, acordaram cedinho, banho e Laura desenhou as runas por Ívi, meio celtas, meio indígenas, com tinta que só aparecia no escuro para que Thai pudesse pintar por cima na hora do ensaio, para o qual Ívi estava nervosa a ponto de deixar Laura preocupada.

Linda, é um ensaio. Você terá que fazer muitos, sabia? Porque você é linda deste jeitinho aqui, porque você é DJ e figura pública, é só um ensaio, mi amor.

— É que... — Respirou fundo — A Kelsey me odeia?

Laura riu.

— Claro que não, meu amor.

— É que ela faz isso o tempo todo...

— Quer falar com ela?

Inesperadamente queria. Ligaram para Kelsey, que atendeu a chamada de vídeo sorridente demais, estavam no intervalo de treino e ainda por cima, puderam ver Viktoria rapidinho. Elas estavam juntas, felizes e desta vez, parecia que era mais sério. Ívi fez questão de descobrir o quão sério quando falou com Kelsey.

— Nós já estamos morando juntas, Ívi, tem um tempo já. Aconteceu naturalmente e... Não sei te explicar. Estamos muito bem, ela está diferente, eu estou diferente, parece que... — Ela abriu um sorriso — Somos outras pessoas. Parece que nos conhecemos agora. Mas escuta, sobre a sessão, fica tranquila, é só abstrair que é a sua imagem. É a imagem que alguém está te pedindo, no caso o fotógrafo. Ouça o seu fotógrafo e tudo deve dar certo. E Ívi... Não pressiona assim.

— Eu não estou pressionando, Kelsey, só queria que ela fosse comigo hoje.

— Ela trabalha e é responsável, Schelotto.

— Eu sei, mas é que...

— Vou resumir pra você: eu sou campeã olímpica e ela não me deixava pagar uma passagem aérea. Te dei perspectiva?

Ívi caiu no riso, ela tinha razão, tinha dado perspectiva sim. Deixou Laura ir trabalhar e foi para o ensaio com Julia e Thai. Heidi chegou logo em seguida, era tudo muito novo, o estúdio branco-brilhante, era novo ter alguém fazendo o seu cabelo, alguém cuidando de sua maquiagem, Ívi ainda estava nervosa e sua necessidade de Laura era puramente sentimental, ela lhe dava segurança, lhe tranquilizava, era só por isso, não a queria parando nada por sua causa, era só... A segurança dela.

— Schelotto — Julia pegou sua mão — Está tudo bem?

Ívi respirou fundo.

— Está. É só fazer o que já fazemos no nosso apartamento, não é?

— Exatamente — Beijou a mão dela — Quero você sexy do meu lado, o que você faz sem sequer se esforçar, está tudo bem, eu preciso que você se acostume porque coisas maiores virão.

— Planos da Heidi?

— E da Natalia. Essas duas se encontraram, Ívi, nós duas somos apenas o começo.

Foi muito mais simples do que Ívi esperava na verdade. Deve ter vindo com o couro, suas botas de couro, a calça preta, suas lingeries Calvin Klein que já eram mais que uma e quando Thai repintou as marcas feitas por Laura... Cabelos perfeitos, olhos afiados, suas tatuagens, seu abdômen, bronzeado e definido e Julia... Julia lhe tirou um suspiro baixinho quando apareceu. Calça alta costura, o top também, toda de preto, as joias brilhando por ela, adorava o efeito, as correntinhas, os anéis, a gargantilha, os brincos, olha, se Ívi não fosse de Laura, era provável que acabaria sendo de Julia Torre mesmo, falou o pensamento em voz alta e Thai quase teve uma coisa rindo demais.

E tudo mudou no primeiro clique. Pronto, bastou um e Ívi se sentiu a vontade, bastou pegar sua guitarra e sua atitude veio, bastou ter Julia no seu pescoço, fazendo o que fazia de melhor e já não eram Julia e Ívi, eram Haíz, a química louca de uma dupla romântica que fazia música eletrônica. As fotos ficaram incríveis e Laura foi quem recebeu em casa o milhar de cartazes em A5, junto a prova de outdoor que...

Abriu um sorriso.

Suas garotas teriam um outdoor! E Julia estava a coisa mais sedutora, mais densa, os olhos de pôr do sol queimando, o braço envolto do pescoço de Ívi, e Ívi a frente, linda de guitarra escorregada de lado, toda de preto, toda Calvin Klein, sexy demais, o olhar cortante, os cabelos perfeitos.

— São lindas demais, não são? — Heidi estava tirando as coisas do carro, com apenas um segurança, Laura achou um upgrade de normalidade, gostava dela cada vez mais.

— É que... — Abriu um sorriso — Me deu uma coisa agora! Está muito profissional, Heidi...

— Elas são profissionais, galega, e olha pra isso, esse apelo todo, não sobra uma calcinha que não fique molhada... — Disse, fazendo Laura rir demais — Você está pronta pra isso, té de menta? Elas já são um sucesso, mas agora ainda é só o começo, Natalia está saindo da empresa em que trabalha e nós vamos abrir a nossa empresa, temos mais alguns outros cases, mas estas duas aqui, é onde nós vamos decolar.

— Eu quero que elas decolem, Heidi, você sabe disso.

— Soube no dia que nos conhecemos. Pela minha fama, você poderia só ter me embarreirado, mas viu uma oportunidade que não negou que elas tivessem.

Laura olhou nos olhos de Heidi:

— Heidi, apenas... Mantenha elas juntas. E não deixe Julia partir o seu coração. E se ela partir, não deixe isso partir você e Natalia. Fiz sentido?

Heidi abriu um sorriso. Tinha feito sentido sim.

— Tem a minha palavra.

Laura a abraçou muito forte.

— Bem-vinda a minha família. Cuida da minha irmã, cuida da minha Ívi, eu confio em você.

Heidi derreteu inteirinha. Mas Laura sentiu algo em seu coração, não sabia explicar, só sentiu.

Naquele dia, o Rio de Janeiro ganhou cartazes de Haíz e outdoors, anunciando uma temporada de shows em uma das casas noturnas que no ano anterior, tinha fechado as portas na cara de Ívi. Foi uma grata surpresa e sua garota chorando no seu ombro por causa disso apertou e alegrou o coração de Laura.

— Eu não sabia, amoriño, que era... Esse lugar. Doeram todas as portas fechadas, mas esta aqui...

— Era onde você achava que podia dar certo, eu lembro de você contando, mi amor. Vem, meu bem, vem ficar linda para a sua estreia, o que você quer que eu use?

Ívi abriu um sorriso, beijando sua galega demais.

— Aquele vermelho...

— Bem justinho?

— Com os saltos para dançar, você vai dançar comigo depois do show. Laura... — Olhou para ela, estavam na cama, Laura sentada e com Ívi entre suas pernas, lhe guardando nos braços, só de lingerie, recém-saída do banho — Isso parece sonho. De ter uma temporada de shows nessa boate a estar aqui, assim com você, isso... Amoriño, você é minha e parece sonho.

Shsssss — Laura a calou com um beijo — Você é minha e é o meu sonho. Só que concretizado. Eu vou ficar linda para ir do teu lado, você merece uma mulher linda e orgulhosa de você do seu lado o tempo todo, vou estar cheirosa quando você vier me beijar e louca de vontade de dançar no final da noite.

Ainda que ela tivesse que trabalhar as sete da manhã, foi exatamente o que Laura Bueno lhe deu aquela noite.

Aquele vinte e nove de janeiro de 2017 marcou a estreia de uma temporada surreal de Haíz.

As garotas voltaram para as aulas na segunda-feira seguinte e foi muito interessante porque, Thai e Julia não tinham voltado para casa depois do show, tinham ido para o apartamento de Heidi e com Karime morando com Noah, elas literalmente se encontraram na faculdade. Marcaram na cantina, para comer alguma coisa antes da aula. Laura chegou antes, foi direto do trabalho, estava falando com Ívi no celular porque se falavam o dia inteiro, não se soltavam nem um pouquinho, Thai chegou logo em seguida, relaxada, tranquila, ainda era demais para Laura a conversão de Thaila naquela garota tão segura de si e, Karime chegou saltitante em seguida!

Ei, La Eche! Qué pasou? — Laura perguntou quando recebeu aquele abraço empolgado demais.

Paso otro tren! Como deciste a mí que ia a pasar! Gente, eu passei para o estágio na Baixada Chilena!

— Mas...! Ei, Karime, ei! É sério?

— É sério, é muito sério — Ela disse, com os olhos cheios, sendo cercada de amor, carinho e abraços pelas suas meninas — Eu decidi fazer, lembra?

— Lembro! Mas você tinha decidido por outro trabalho com menos responsabilidades.

— Eu lembro disso também. Mas sabe de uma coisa? A Noah quer reformar o apartamento, deixar mais parecido com nós duas, eu estou indo na terapia, estou indo bem, nada saiu do lugar mais desde dezembro. Nenhum estagiário ganha o valor de um estágio numa embaixada e — Os olhos iluminados sempre — Minha mulher quer uma cozinha, meninas. Uma cozinha, só tem falado nisso, está juntando dinheiro há muito tempo e — Outro sorriso lindo, aquele sorriso lindo nunca mais tinha saído dos lábios de Karime, nunca mais — Eu vou fazer isso com ela. Eu quero ajudar no apartamento, quero ela nervosa me vendo sair para trabalhar de terninho e saia justa, quero ela mais orgulhosa ainda de mim. Escutem bem vocês duas, o que vocês acham que dá para fazer em cinco meses?

— No nosso caso? Dá para formar, estudando que nem loucas, dá para formar e formando...

— Eu peço aquela mulher em casamento — Karime decretou — E você Ferrer Bueno, pede a Ívi. Feito?

Laura tocou a mão dela e a agarrou num abraço infinito junto com Thai. Havia um complô para este pedido de casamento, Laura estava percebendo.

— Feito! Já que a Thai saiu na frente...

— Só nos resta correr atrás.

— Eu peguei minha esposinha antes de vocês, literalmente, antes de vocês! — Disse, fazendo graça e todo mundo rir — Melhor correr atrás mesmo, viu, porque a vida de casada é uma delícia, vocês não fazem ideia... — E foi quando começaram a ouvir uma música vinda da mesa ao lado — Arquipélago! Ei, é Arquipélago agora!

E o “agora” fazia sentido quando “Salva-vidas” já era música que estavam acostumadas a ouvir na rádio aquele mês e “Como quieres que te queiras” também, mas “Arquipélago” era novidade total!

— Ei! Ei! Aumenta este negócio que são as nossas garotas!

Era as garotas delas e a mesa ao lado aumentou o som enquanto as três subiram na mesa para cantar Arquipélago como se não houvesse amanhã! Foram acabar no Instagram de Karime, fazendo graça, fazendo show, num vídeo que Ívi não acreditou quando viu!

— Julia, você está vendo isso? — Gritou do seu quarto ouvindo Julia gargalhar no outro quarto.

— Que as Spice Girls voltaram e estão dando show no meio da UFRJ? Sim, estou vendo isso sim...

Que coisas podem se passar em cinco meses?

Bem, elas descobriram que muito trens podem passar em cinco meses.

Fevereiro ⅏⸙⸎

Começaram fevereiro com o pé baixo no acelerador porque desde que tinham estreado a temporada naquela boate em Copacabana, as coisas nunca mais voltaram ao normal. A exposição era insana. Não podiam fazer ideia do que era estar numa boate tão conceituada e menos ainda ideia do que era estar num perfil de Instagram seguido por quase 200 mil pessoas. Fez diferença imensa, literalmente da noite para o dia os seguidores de Julia e Ívi dobraram, os seguidores de Haíz dobraram e o assédio que Laura viu apenas uma semana depois da estreia...

O assédio feminino era de outro mundo. Havia assédio masculino natural em cima das garotas, mas o feminino...

Era direto demais, era atrevido e toda a calma, maturidade e confiança que Laura tinha, faltava em Thai de maneira preocupante.

— Como é que você fica bem com isso, Laura?!

— Eu confio na Ívi, Thai, a fórmula é velha e muito simples — Laura tinha praticamente a arrastado da boate até o carro para ver se ela se acalmava — Thaila, isso será constante e para pior, você tem que entender isso, está bem?

— Eu entendo o assédio, mas sem abusos!

— Vai dizer isso para cinquenta garotas ao mesmo tempo? — Heidi tinha seguido as duas e estava... Irritada. Laura precisou filtrar os motivos — Thaila, não vai funcionar assim.

— Você está furiosa com a situação, Heidi, acha que eu não te conheço?

— Eu estou, caramba! Mas vou fazer o quê?

— Sei lá, você trouxe elas até aqui!

— E vai levar para mais longe, chega vocês duas, está bem?

As duas olharam para Laura.

— De onde vem essa confiança inabalável, galega? É sério, eu preciso de umas aulas...

Laura começou a rir.

— Vocês se envolvem num relacionamento não catalogado e sou eu quem tem que falar de autoconfiança? Achei que estivesse sobrando aí.

— Eu confio na Thai e ela confia em mim, fim da linha de confiança — Heidi explicou muito diretamente.

— E nenhuma das duas confia na Julia, minha irmã tem problemas com vocês. Isso é um absurdo, só queria deixar claro que pela Julia, vocês têm que resolver. Ela está se comportando muito bem há tempo demais para sequer você confiar nela, Thai. Eu não vou admitir isso não. A Juls não merece. Não agora.

Ainda foi complicado no final de semana seguinte, e no próximo, mas com a chegada do Carnaval, as coisas deram uma acalmada. Foi uma insanidade, porque partiam para os blocos de rua sempre que conseguiam e as garotas não pararam de fazer shows nem por um segundo! Mas nas tardes que Laura teve folga, foi uma absoluta delícia. Saíram juntinhas, em bando de leoas mesmo, inclusive Heidi, fantasiada inteira para curtir em paz e Ívi se preocupava com isso. Não com Heidi, mas com o nível de exposição e então relaxava porque achava que nunca chegaria a isso. Estar na tevê por três meses tinha deixado Heidi neste nível de exposição, não seria assim consigo, sabia e assim relaxava mesmo. Ainda mais, com sua Laura por perto.

Vestida de pirata, ou de Quebra-Nozes estilizada, de shortinho e farda, fosse de Noiva-Cadáver, ou de La Llorona, aqueles dias de carnaval de rua do lado de sua Laura foram preciosos, ainda que Ívi só tivesse ido de si mesma, La Bruja nela agora existia quase em tempo integral e talvez por isso fosse cada vez mais especial chegarem em casa juntinhas e tirarem cada peça de roupa para fazer amor...

Era ter sua Ívi de volta, sua gata de rua, a personagem saia e só restavam elas duas e a magia das 6 da manhã que fazia Ívi sair correndo de Copacabana apenas para chegar no horário certo, naqueles 60 minutos entre as 6 e as 7 em que Laura podia ser sua antes de correr para o trabalho. Chegava e às vezes ela ainda estava na cama, quentinha e com preguiça, chegava e outras vezes ela estava no banho, ouvia a porta abrir e chamava por Ívi, aparecia na porta do banheiro nua em pele e Ívi ficava...

Louca por ela. Mais louca do que já era, tão louca quanto entrava e ela estava friazinha, cheirosa, pós banho, não havia dia em que Ívi não chegasse e não se apaixonasse mais um pouco, motivos não faltavam. Ívi se perdeu olhando para ela, dançando junto com as suas garotas, e as garotas de Laura sempre seriam Karime e Thai, era uma energia diferente entre elas e lá estavam, dançando juntas qualquer clássico em ritmo de carnaval. Naquela tarde Laura estava de Quebra-Nozes, de fardinha vermelha, maquiagem que brilhava, confetes e serpentinas pelos cabelos castanhos perfeitos, os olhos verdes demais, parecia que nunca mais tinham ficado castanhos novamente. Ívi estava de preto e apenas preto, nada de fantasias, e Laura adorava ainda que fosse assim, ainda que ela fosse mal-humorada e dissesse que detestava Carnaval, que jamais iria pôr uma fantasia e ainda assim, estivesse vindo lhe acompanhar de qualquer forma e, sorrindo. Sentiu os olhos dela em si, porque sempre queimavam e veio para perto, sorrindo, porque já estava longe dela tempo demais.

— Já quer casa, mi amor? — Perguntou se dependurando no pescoço dela enquanto Ívi enroscou os braços pela sua cintura e lhe roubou um beijo, longo, gostoso.

— Vamos para casa depois que o bloco passar, amoriño — Lhe apertou nos braços gostosamente — Eu só estava aqui te olhando e vendo o quanto você está linda, o quanto parece feliz...

— O quanto eu pareço? — A beijou outra vez, sem perder o sorriso — Eu ESTOU muito feliz, meu bem. Feliz pelas coisas estarem indo tão bem, feliz por ter você comigo — A agarrou, a abraçando muito forte, se davam esses abraços assim, em que Laura pedia para ser apertada até sentir o coração de Ívi batendo contra o seu, a apertou assim, do jeito que ela pediu e a felicidade se espalhava por dentro — Você é o meu amor. E eu te tenho, até aqui, no meio de um bloco de Carnaval que você detesta... — Disse rindo e ganhando outro beijo gostoso.

— Eu não detesto. Só não é muito a minha coisa, porém, é a sua coisa, linda e é claro que eu vou estar aqui me divertindo com você.

— Igual quando vai assistir aos jogos de hóquei que te deixam nervosa?

— E querendo agredir todo mundo que ousa tocar em você! — Mais risos, era verdade, era bem assim — Te quiero, amoriño, mucho.

Laura se agarrou nela um pouco mais, deitando a cabeça contra o seu peito, sentindo todo o cheiro dela.

Te quiero, mi amor. Ívi...

— O que, meu bem?

E sem afastar o ouvido do coração dela:

— Você é a mulher da minha vida.

E foi assim que Ívi terminou chorando no meio de um bloco de Carnaval.

Março ⅏⸙⸎

Março chegou suave e corrido. Thai, Karime e Laura colocaram na cabeça que iam formar no meio do ano e a corrida com as disciplinas e trabalho final de curso não estava sendo nada simples. Porém, Noah era maravilhosa e Karime não poderia estar melhor, tomando os remédios regularmente, praticando esportes, estudando, trabalhando e se destacando, ela não havia sido feita para coisas simples, mal tinha entrado na embaixada e pegou um projeto grande como apoio onde em poucos dias, virou protagonista. Era bom vê-la assim, enchia Laura de coisas boas demais, era ótimo ver Julia e Ívi correndo e com novidades, Ívi queria terminar a faculdade de engenharia, já tinha decidido, estava entrando um dinheiro mais e ela podia fazer isso, começaria no próximo semestre, o que deixou Laura morrendo de orgulho, que ela estivesse investindo na sua carreira musical, mas sem deixar de cogitar que poderia precisar de outra formação no futuro e Julia, bem, determinada manhã Julia lhe fez chorar.

— É sério?

— Música, é um bom curso, não é? É que não saberia fazer outra coisa, Laura...

Ela tinha prestado vestibular numa faculdade particular e ingressaria já, já tinha perdido um mês, mas não fazia mal, ela queria mesmo assim, queria estudar alguma coisa agora que podia, que era oficialmente cubana e brasileira, queria estudar porque sua irmã ia formar e sua esposinha também!

E Laura chorou agarrada nela feito uma garotinha.

— Ei, é pra você ficar feliz, eu quis fazer uma surpresa...

Sorriu, beijando o rosto dela, a abraçando bem forte.

— Eu estou feliz. É que são tantas felicidades que me dá uma coisa...

Julia a apertou nos braços.

— Você sabe que nunca vamos nos perder, não é? Que sempre vamos voltar uma para outra, que você sempre me terá.

— Era você quem não tinha certeza disso, eu sempre soube. Sabia que você ainda podia me fazer feliz assim, criatura... — Disse, a fazendo rir demais.

Era março e o outono começava a acenar. E foi numa tarde mais friazinha assim que Karime saiu da Embaixada Chilena muito bem vestida em suas roupas sociais, saia-lápis, camisa branca, jaqueta preta por cima, os saltos altos a deixando com quase 1,83, Noah ficava louca, sabia, entrou no carro e dirigiu até o estaleiro para buscar sua garota. Era outra conquista recente, tinha voltado a dirigir sem medo, aliás, tinha voltando a fazer várias coisas sem medo, estudar, se divertir, jogar hóquei, amar. Andava amando demais sem medo nenhum. Lá estava, lhe esperando sua garota conversando com...

— Mecânica de grife! — Era Ívi, um mulambo só.

— Isso é uma humilhação, sabia? Todo mundo vai achar aqui que a Noah fez um master upgrade na vida... — Disse, fazendo rir enquanto Noah não hesitou nem por segundo em beijá-la assim que ela desceu do carro.

Elas eram assim, este tipo de apego e atração, Ívi não lembrava de tê-las vistos se encontrar sem um beijo longo como aquele.

— Minha guapa — A cheirou, se agarrou no pescoço dela.

— Mulher da minha vida — Karime a cheirou, a apertou, nos cabelos, pela cintura.

— Viu quem veio me ajudar hoje?

— Estou vendo! Achei que não precisasse mais, Ívi.

— Ela não precisa, mas eu precisei de ajuda e aqui chegou, a DJ mais badalada do momento para me salvar.

Ívi beijou a mão dela.

— Que seja a mais badalada de Tomorrowland, se você precisar de mim, eu venho correndo. Nunca vou esquecer o que você fez por mim, viu?

— Só recrutei a pessoa certa.

— E salvou a sanidade dela quando a Laura foi para Londres — Karime abraçava Noah para perto carinhosamente — É uma habilidade sua, sabia? Salvar sanidades.

— É mais que uma habilidade, é um superpoder mesmo, Noah, porque eu achei que Veneza aí seguiria afundando sem a galega por perto.

— O que vocês duas seriam sem a Laura e eu? Só me pergunto, viu...

Mais risos e foram deixar Ívi em casa antes de seguirem para seu próximo compromisso.

O escritório que faria a reforma do apartamento!

Entraram muito animadas, de mãos dadas, Noah em um dos vestidinhos que tirava Karime de si, a jaqueta jeans por cima, mas estilosa impossível, era sua garota do ponto de ônibus, só que mais velha, mais elegante, em outra fase da vida. Aliás, foi isso que disseram ao designer de interiores, que estavam em outra fase da vida, que queriam isso refletido no apartamento em que moravam e enquanto diziam tudo se olhavam, se sorriam, os olhos brilhavam, os dedos que não se soltavam nem um instante, a gentileza de Karime indo pegar água para sua garota, chá, ela queria? A volta, para mais perto, cadeiras mais juntas ainda, as ideias que se completavam, o pensamento de uma que terminava na fala da outra e por um instante o designer apenas parou. Cruzou as pernas, abriu um sorriso.

— Recém-casadas?

Elas apenas se olharam e sorriram, com um leve rubor subindo pelo rosto das duas.

— Ainda não — Noah respondeu, meio incerta.

— Mas você quer casar, meu bem?

Outro rubor, agora mais forte, Noah abriu um sorriso.

— Você está me pedindo?

— Errado, não é? Só um segundo — Karime levantou, andou até sua bolsa e Noah tinha certeza que teria uma coisa!

Guapa? Qué pasa? — Ela não disse nada, Noah trocou um olhar com o designer que estava sorrindo demais sem fazer ideia também.

Pasa que... — Karime voltou para perto e, se abaixou a frente de Noah, sobre aqueles saltos altos e olhos que estavam... Fulgurando. Era a palavra, passou de brilho, agora fulguravam junto a aquele sorriso — Quiero que pase otro tren, mas entre nós duas agora — Ela mostrou as mãos e abriu uma caixinha preta, em que um anel brilhou a coisa mais delicada fazendo o coração de Noah disparar, os sentimentos derreterem, descerem pelos seus olhos.

— Karime...

— Eu ia esperar até a formatura, mas descobri que não ia conseguir esperar nada desde quando comprei este anel, então... — Sorriso, mão pegando a dela delicadamente, olhos nos olhos — Será que você quer casar comigo agora que sabe que eu não sou apenas maluca?

Noah desceu da cadeira para beijá-la, agarrá-la, cheirá-la, feliz demais, sorrindo demais e sem acreditar que aquilo estava mesmo acontecendo!

A agarrou, a beijou, olhou para ela novamente.

Guapa, é sério?

— Não sei, amor, você tem que aceitar primeiro... — Respondeu, fazendo graça.

— Eu aceito, é claro que eu aceito!

Aceitou, em outro beijo longo e molhado, com os olhos transbordando tantas coisas boas que Karime teve uma crise de choro de felicidade. O designer abriu uma garrafa de espumante por elas, espumante para dar sorte! Mais sorte ainda, uma sorte que Karime se sentia incapaz de pedir mais: não poderia ter mais sorte do que já havia tido, sorte por Noah, sorte pela sua segunda chance com ela, sorte pela sua segunda chance na vida.

Estava pronta. Para viver com sorte pelo resto dos seus dias. Estava mais do que pronta.

Notas do Capítulo:

Olá, meninas! Feliz 2020!

Como estão todas? Tiveram uma boa virada de ano? Voltamos com 6 AM e com um capítulo super romântico, porque nossas meninas merecem ^^. Existem algumas boas coincidências que a escrita traz e o começo de um novo ano na história ter coincidido com o começo do nosso ano real soltou uma energia diferente por aqui haha.

Capítulo com um pouquinho da evolução dos nossos casais, para percebemos onde e como estamos e confesso que minha parte preferida foi poder escrever coisas positivas da nossa Karime e acho que todas estão na mesma vibe, sinto o carinho de vocês por todas as personagens, mas há um carinho diferente pela nossa colombiana, espero que estejam curtido o levante de Karime!

Próximo capítulo "O Coração de Laura", a ser postado na próxima quarta-feira, caso a meta de comentários seja atingida!

Beijos! Feliz ano novo!

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