6 AM - Capítulo 42 - O Coração de Laura


Abril

Londres em abril era um romance de JoJo Moyes.

O sol nasce por volta das cinco, nunca vai dormir antes das vinte e uma, é primavera e a cidade está cheia de flores por todos os lados, as temperaturas são amenas e, ideais para se tomar um sorvete. Kelsey adorava sorvetes, o único problema é que sorvetes e Londres não são as melhores das combinações, mas para quem cresceu com uma tradicional avó italiana sempre por perto fazendo os melhores gelattos possíveis, era bem complicado se resistir a um sorvete, ainda que estivesse nevando. Mas não em abril. Em abril Kelsey podia sair do treino ainda com a luz do sol, podia caminhar um pouco pela sua cidade, quentinha e agitada, podia ver as crianças ainda brincando nos parques e, aquela caminhada era especial. Princess Diana Walk. Escolheu um banco, os raios de sol brilhando naqueles olhos azuis. Olhou de um lado a outro, onde estava sua Viktoria?

Abriu um sorriso. Ela estava chegando de volta, com dois sorvetes lindos em copinhos.

— Onde você achou deste aqui?! — Era o preferido de Kelsey, puramente italiano.

— Do outro lado do parque, amor — Sentou-se ao seu lado, as duas recém-saídas do treino, de tênis branco e vestidinhos de verão. Os joelhos marcados, outros roxos e verdes por onde se podia ver, mas impecáveis demais, o rabo de cavalo de Kelsey, a trança bagunçada de Viktoria e, havia alguma coisa por ela.

— Tudo bem, meu amor? Você parece...

— O quê? — Ela abriu aquele sorriso luminoso, que sempre fazia Kelsey sorrir de volta, sempre, desde quando Viktoria era só uma alemãzinha esquisita de onze anos.

— Não sei — A beijou sorrindo na testa — Parece tensa, baby.

Ela respirou fundo, tomando um pouquinho do gelatto e se encostando em Kelsey para aquecer um tantinho mais, porque era primavera, mas era Londres de qualquer maneira.

— Eu estou um pouco tensa, amor.

— Eu notei você no treino, estava distraída, acordou distraída... Eu fiz alguma coisa, princesa?

Ela sorriu, agarrando a sua mão.

— Você foi a minha primeira garota. A minha primeira da vida. Você me tocou primeiro, estava nervosa comigo, lembra?

Kelsey abriu um sorriso beijando a mão dela com carinho. Ela havia trazido aquele assunto do nada.

— Queria fazer tudo certo. Estava louca por você, mas sabia que eu era a sua primeira, a primeira de tudo, incluindo, primeiro beijo... — Abriu outro sorriso só de lembrar — Olha que honra, amor. Seu primeiro beijo foi meu. E meu primeiro beijo numa menina foi seu. A minha primeira vez com uma menina foi sua e... — Kelsey sentiu sua garganta fechar. Abriu um sorriso, Vik sempre lhe tirava as mais genuínas das emoções, sempre havia assim — Eu queria fazer tudo certo.

Sorriso de Vik, mais afeto, mais proximidade.

— Você sempre faz tudo certo. Sempre é perfeita em tudo, até nas nossas separações. Você sempre teve tanta paciência, Kels...

— Você é um bebê, meu amor — Cheirou os cabelos dela sorrindo, Vik era dois anos mais nova e vez ou outra, isso acabou fazendo diferença na relação delas. As separações, cada uma delas, haviam sido por causa de Vik — Com direitos de provar mais coisas além de mim.

— Só para descobrir que não há nada melhor do que você. Eu sofri tanto com a Laura, achei que tinha te perdido mesmo, perdido sem volta porque aquela menina...

— Aquela menina preenche muitos requisitos, eu sei — Respondeu sorrindo — Eu achei mesmo que podia dar certo, sabia? Era... Tranquilo. Calmo. Tudo que não era com você... — Contou rindo e recebendo um tapinha leve de Vik.

— Mas ela não sou eu. Nenhuma outra menina além de mim vai preencher este requisito, está bem e nem aquele outro requisito, que você fica vermelha de contar...

Kelsey terminou o seu sorvete e beijou sua namorada. Andava treinando, beijá-la em público, ficar mais pertinho porque sabia que a única coisa que fazia Vik partir de vez em quando, era a sua distância britânica e a sua frieza pessoal. Era uma alemãzinha carente aquela sua, então quando voltaram depois do término com Laura, decidiu melhorar, para ela, para si mesma, por aquele requisito que lhe deixava vermelha...

— Eu sempre quis casar com meu primeiro namorado.

— Então, mas falhou, não foi?

Outro sorriso de Kelsey.

— Não condiz muito com a minha natureza, daí deu uma falhada sim.

Silêncio. Vik terminou seu sorvete, jogou os dois copinhos no lixo, retornou, não sentou-se ao seu lado, só se abaixou na sua frente.

— Vik...?

— Meu amor, é que... — Os olhos dela se encheram, a coisa mais linda, Vik parecia um anjo e Kelsey sempre ficaria perdida por ela, sempre. A beijou de novo, sorrindo, mantendo seus olhos perto dos dela.

— O que, meu anjo? Fala pra mim, estou ficando preocupada... — Será que ela queria terminar outra vez? Era esta tranquilidade que Viktoria não lhe dava.

— Não fica não — A cheirou no pescoço, os jardins brilhavam no final daquele corredor de árvores, flores amarelas, vermelhas, azuis, era o jardim preferido de Kelsey. Suas flores preferidas, seu sorvete preferido, sua estação preferida, não, não podia dar errado — Hoje eu acordei lembrando de quando tinha onze anos e morria de vontade de te roubar um beijo... — Disse, derretendo aquela britânica num sorriso lindo.

— Mas você era um bebê ainda...

— Eu sei, tive que esperar mais um ano para você não resistir e me beijar e depois mais dois anos morrendo de vontade de fazer amor com você e você...

— Morrendo de vontade também, mas sem saber se a gente devia, porque...

— Porque você não tinha certeza de mim. Este romance já tem muito tempo, amor, nós já passamos tantas coisas juntas, tantas coisas separadas, eu ainda não acredito que você foi campeã olímpica e não era eu quem estava do seu lado...

Kelsey a beijou de novo, sabia que ela tinha sofrido. Sabia que esconder emoções era a sua especialidade, mas não significava que não tinha sofrido por ver Vik com Ívi. Tinha sofrido, em especial no dia da travessia em que a viu desaparecer para dentro de um quarto com uma garota diferente de si mesma. Kelsey sentiu tanto que não conseguiu tocar em Laura e foi quando teve certeza que precisava investir mais nela, ou Vik jamais sairia da sua cabeça. Bobagem, ela não saiu de qualquer forma e no final das contas, estar com Laura havia sido maravilhoso por vários motivos, mas o principal foi provar para Kelsey que Vik era a sua menina e que nada conseguia mudar isso.

— Eu vou ser bicampeã em Tóquio... Ou você vai ser campeã em Tóquio, baby e eu vou estar do seu lado, te aplaudido.

Mais sorrisos.

— Ainda que eu te vença numa final?

— Só aceito perder se for pra você. Mas, vai ter guerra...

Vik sorriu mais, aquela competitividade, adorava demais.

— Eu não duvido disso. Kels, escuta, você não vai conseguir casar com o seu primeiro namorado...

Kelsey riu.

— Eu acho que consigo viver com isso, amor.

Ela lhe olhou nos olhos.

— Eu sei que consegue. E sabe o que mais você consegue se quiser? Casar com a sua primeira namorada...

E os olhos de Kelsey se encheram imediatamente. As emoções que só Vik era capaz. Tapou a boca, sentiu o coração travando no peito, as mãos começando a tremer.

— Vik...

— Eu morria de vontade de namorar sério, de viver com você e agora que nós já estamos vivendo juntas... — Aqueles olhos lindos lagrimaram quando Vik pegou o anel do bolso florido do seu vestido de margaridas — Casa comigo? Com a sua primeira namorada? — Sua voz embargou — Casa no inverno que é bonito e tem as luzes, ou casa na primavera que tem as suas flores. Eu quero casar, Kels e se for para morrer por algo daqui para frente, que seja de amor por você...

Kelsey a agarrou e a beijou, a puxando para perto, para junto, com o coração disparado e transbordando de tantas coisas lindas por aquela sua menina...

Kels...

— A gente casa no inverno, porque você ama o inverno e tem as luzes que te encantavam quando você era menina. A gente casa e eu quero uma casa, eu quero um jardim para...

Plantar margaridas — Vik já estava lagrimando e sorrindo — Eu sei, meu amor. Eu sei. Então você aceita?

Morrer de amor por você todos os dias, na nossa casa, sim, eu aceito...

O beijo longo iluminado por entre as copas das árvores do jardim. Casariam no inverno, ponto, e teriam um jardim de margaridas na próxima primavera.

Maio ⅏⸙⸎

Thai não sabia o que pensar!

Só sabia que era uma segunda-feira e que Julia lhe acordou dizendo que precisavam sair. Sair, colocar algumas roupas na mochila, levantar logo ou iriam perder o almoço!

— Almoço onde, Juls? — Perguntou enquanto desciam de elevador.

Na nossa casa — Ela respondeu sorrindo — Que nós vamos... — Elevador abriu as portas e Julia a puxou até o portão — No nosso carro, Nutella.

Tinha um Jeep estacionado na porta.

— Julia! Quer explicar onde você...? Julia!

Julia a abraçou por trás sorrindo.

— Não é nosso, esposinha, eu só aluguei, estava uma promoção na locadora e ficou pelo preço de um carro comum. Escuta, eu tenho três dias de folga, melhor dizendo, três dias que eu pedi porque não estou me sentindo bem mesmo, Thai...

— Você gripou, Juls e não está deixando seu corpo curar disso. Deixa eu dizer uma coisa que a Noah me disse uma vez? Ela me disse que eu não sou a Laura. Que é difícil ser ela e que não é para todo mundo. Vou te dizer o mesmo sobre a Ívi: você não é ela. Ela teve uma vida difícil que a fortaleceu, ela é forte, muscular, uma pedra, nunca fica doente, tem uma resistência enorme. Mas você teve uma vida difícil que te enfraqueceu, bebê. Não foi vacinada, passou por privação de comida, não ingeriu vitaminas suficiente, o seu desenvolvimento só aconteceu depois que uma mulher chamada Claudia Bueno decidir que seria sua mãe. Estou dizendo algum absurdo?

Julia negou, tinha sido assim mesmo.

— Então, Juls, você não é a Ívi, ela aguenta essa loucura melhor que você, e você necessita cuidados extras. Você pegou três dias para gente cuidar de você?

Julia derretia tanto que chegava a ser vergonhoso.

— Três dias pra você cuidar de mim, Nutella. Ívi vai para Goiânia sozinha e eu vou ficar, pra você cuidar de mim e... — Enroscou os braços no pescoço dela — Eu entrei no Airbnb e tinha um chalé, amor...

Thai abriu um sorriso lindo, toda enroscada em sua garota.

— Tinha um chalé, esposinha?

— Tinha, em Penedo, com piscina, com lareira e eu pensei de pegar para nós duas, só pra sentir como é, sabe?

— Ter uma casa só nossa, eu acho que estou entendendo os seus planos sim — Respondeu sorrindo demais porque Julia não parava de lhe surpreender! — Só nós duas?

— Só nós duas, bebê, só nós duas... — Encostou sua testa na dela com muito carinho — Estou sentindo sua falta, falta de nós duas, sabe?

— Sei, porque eu sinto a mesma coisa. Eu sei que tudo está caminhando para o que você e a Ívi querem, mas...

— Já tem um preço agora. E olha que nós temos mais tempo do que elas duas. Eu estou preocupada, com a Laura.

— Eu estou mais preocupada com a Ívi. Não sei se ela percebe as coisas como você percebe, aquela gata de rua é bem obstinada.

— Eu sei. Espero que use parte da obstinação com a Laura, ou eu vou ter que arrancar a pele dela. Então, esposinha, será que você pode...?

E Thai tirou Julia do chão, a fazendo rir demais enquanto a carregava para o carro.

— Dirigir até a nossa casa, no nosso carro? Agora, esposinha, agora... — A encostou contra o carro e a beijou, apaixonadamente... Era louca por Julia, absolutamente louca por ela — Eu não acredito que vamos ter três dias, amor.

— Eu também não acredito, estou até feliz por esta gripe alienígena que eu peguei... — Mais risos, mais beijos — Thai, acha que a gente consegue?

— Morar só nós duas, sem a supervisão de um adulto, deixa eu ver...

Outros beijos, muitos outros beijos e pegaram a estrada até aquele charmoso chalé nas montanhas que Julia tinha alugado para elas e Thai... Não acreditou. No chalé tão aconchegante, como piscina, um deck com vista, a lareira na sala, o jardim bonito e, sua esposa, é claro, fazendo manha, dizendo que achava que estava com febre, que tinha que ficar na cama um pouquinho. Thai a colocou na cama com carinhos e beijinhos e foi para a cozinha, ver o que conseguia fazer. Tinham passado num mercadinho, feito algumas compras, estava bem frio, decidiu fazer uma sopa para o almoço e ligou para Laura.

Sim, iria recorrer a um adulto só um pouquinho. Perguntou o que queria e Laura morreu de rir. Perguntou que chá podia fazer para sua Julia que adorava ser mimada, perguntou como fazer fondue salgado, também ajudou, o doce era mais simples e enquanto trabalhava em tudo isso, sua esposinha apareceu, veio ajudar, pedir atenção e carinho e foi um dia perfeito demais. Ficaram o dia todo na cama, almoçaram a sopa, assistiram série, fizeram amor, dormiram, acordaram, improvisaram um café da tarde, dividiram um chuveiro quentinho e assistiram ao pôr do sol em seu deck de madeira, curtindo o fondue salgado delicioso, rindo, conversando, fazendo amor de outras maneiras porque antes de qualquer coisa, sempre haviam sido grandes amigas e adoravam compartir momentos assim. A noite chegou, mais frio, acenderam a lareira da sala, curtiram o fondue doce desta vez, Julia tocou violão, cantou algo que estava compondo, fizeram amor outra vez, esquentando a sala, se carregando para o quarto mais uma vez. Depois disso já era meia-noite, dividiram o chuveiro mais uma vez e dormiram agarradinhas, até às quatro da manhã quando Thai levantou foi porque Julia estava com febre mesmo.

Não fazia mal, podia cuidar de sua menina, sabia o que ela precisava, como acalmá-la, sabia de tudo. Ficou com ela no colo até a tosse passar, até a febre baixar, até Julia pegar no sono de novo e quando acordaram, Julia já estava melhor. Fez questão de aquecer a piscina para o seu amor, questão de fazer o almoço, de baixar algum filme hétero que Thai quisesse assistir muito, sua menina era assim, ia fazer o quê? Assistiram a “Quem eu era antes de você” e foi tão bonito que até Julia deu uma emocionada. Deram uma olhada no Instagram, Heidi andava com Natalia, cada vez mais, andava com Natalia e isto não era um problema e nem achavam que Heidi seria a última a visitar aquela relação: Thai e Julia tinham uma habilidade, que era a de se manterem num relacionamento saudável ao mesmo que seguiam podendo se apaixonar por outras pessoas, ainda que momentaneamente. Heidi havia sido uma paixão conjunta, muito boa, muito gostosa que se converteu em amizade recentemente tal como Karime também havia sido.

— Se apaixonar e seguir amando outra pessoa é mais comum do que se pode imaginar — Havia sido algo que tinha saído da boca de Laura numa noite qualquer — Nós só fingimos que não é assim. Nos obrigamos a encaixar a natureza humana em costumes sociais. É o costume social que machuca no final das contas, a insinceridade.

Ela tinha uma grande razão. E Julia se sentia extremamente feliz por ter casado com alguém que entendia e sentia tudo muito parecido. Eram felizes em seu pequeno planeta esquisito, felizes na sua órbita fechada, ninguém precisava entender, elas se bastavam assim. E estavam felizes demais.

— Thai, eu quero isso — Julia lhe disse aquela noite, deitadinha no colo dela.

— O que, bebê?

Uma casa nossa. Morar sozinha com você. Eu quero.

— Você quer, Juls? Então nós vamos ter. Eu nunca pensei, sabia?

Julia abriu um sorriso vendo um sorriso lindo surgindo dela.

— Nunca pensou o quê?

— Que este casamento seria um casamento mesmo, de verdade. Eu não vejo a hora, amor, de evoluir cada vez mais com você, eu não vejo a hora.

Julia também não via.

Junho ⅏⸙⸎

Kelsey havia decidido de manhã cedo que pegaria o voo da noite direto para Madrid.

Vik lhe apoiou a ir, disse que até iria junto, mas o relacionamento de María consigo e com Ívi era de uma filha revoltada com o término do casamento dos pais. Ela não gostava de Vik, gostava menos ainda de Ívi, não aceitava que Laura e Kelsey tinham seguido caminhos diferentes e não aceitava que não tinha nada a ver com isso. Laura entendeu o que pode, tentou levar de maneira tranquila, mas agora já fazia meses e o comportamento de María apenas piorava. As cenas, as tentativas de chamar atenção, principalmente quando Laura endureceu com ela. Andava reconhecendo mais cenas do que doença mental e em virtude disso, quando María desapareceu da internet, não se preocupou de verdade. Devia ser outra cena, não podia apoiar as cenas de María, mas quando ela não respondeu no dia seguinte...

Era aniversário dela. María estava fazendo quatorze anos e Alejandro se deu conta de que não fazia ideia de onde sua filha estava. Acionaram a polícia, Laura e Julia desesperaram e Kelsey se viu no dever de ir até lá. E quando chegou, a polícia tinha acabado de localizar María.

Ela estava na casa do namorado, um garoto um pouco mais velho, houve uma enorme confusão de Alejandro com a mãe do garoto que permitiu que María ficasse ali sem a dignidade de ao menos avisar um pai desesperado. E no meio disso tudo, Kelsey apenas tirou María dali o mais rápido que podia.

Porque ela estava bêbada, confusa, talvez drogada, ainda não tinha certeza. Avisou Alejandro que estava com ela e a levou para casa, para sob um chuveiro gelado para ver se ela voltava a si antes do pai chegar em casa.

— Kelsey? — Ele tinha chegado em casa, nervoso demais, estava batendo do lado de fora da porta do antigo quarto de Laura, onde Kelsey tinha enfiado María no chuveiro.

— Ela está no banho — Respondeu com seu melhor espanhol — Eu... Eu posso ficar para o jantar?

Silêncio hesitante.

— Não há nada para jantar, Kelsey.

— Você podia cozinhar alguma coisa. Você precisa se acalmar.

Outro silêncio, uma longa respiração.

— Você fica esta noite?

— Fico, claro que fico.

— Vou fazer o jantar.

Ele não queria ficar sozinho com ela, ficou claro para Kelsey. María já parecia mais em si quando saiu do banho. Bonita demais, parecia que piorava todos os dias, o quanto ficava bonita, deixava de ser uma menina na aparência quando de fato ainda era mesmo. Pensou em Vik na mesma idade e sentiu um frio por dentro. Vik era um perigo, mas um perigo com meninas inofensivas como ela mesma, já María...

— María... O que você está fazendo?

— O que você está fazendo aqui? — Ela perguntou, agressivamente, ainda com um andar vacilante — Veio fazer o quê? Você está tão ocupada com as coisas do seu casamento...

— Casamento que você vai, María. Por que está se comportando desta maneira? É seu aniversário, olha o susto que você deu em todo mundo! O que você está pensando que está fazendo?

— Eu estou saindo daqui! — Ela respondeu, mordendo a resposta — É o que eu estou fazendo caso não tenha notado. Vou sair sozinha, já que a Laura decidiu se afundar naquela outra garota...

Kelsey ligou os pontos.

— María, está achando que ela não pode tomar conta de você por que nós terminamos?

— Adivinha qual é a única pessoa que consegue se mover de um país e vir me ver? Mas isso não importa, nada importa muito, eu vou fazer o que eu tenho que fazer sozinha — E se moveu para sair do quarto, mas Kelsey não deixou. A carregou pela cintura, de volta para dentro, a jogando na cama sem grandes dificuldades.

— Não vai fazer nada sozinha. Escuta La Marí, o meu compromisso é com você, Laura e eu terminamos, mas seguimos igual, tudo o que foi prometido segue igual. Você quer emancipar, eu vou te ajudar, mas pra isso, você precisa me ajudar também. Ajudar a mim e a sua irmã também.

— Kelsey, você não vai conseguir me enrolar, está bem?

— Você é muito inteligente para ser enrolada. E muito inteligente também para arriscar jogar a sua vida fora assim. Chega, está bem? Chega agora, já. Seu pai está fazendo o jantar lá fora e você por favor, se vista, fique apresentável e desça para jantar, com uma ótima justificativa por ter feito o que fez.

Ela pareceu pensar a respeito. E desceu para jantar. Do jeito que Kelsey havia pedido que ela descesse, bem vestida, invariante, passando confiança e com uma ótima desculpa que acalmasse aquele pai. Ela dormiu logo depois do jantar. Muito rapidamente, estava cansada, com ressaca e Kelsey não fazia ideia. Ligou para Laura.

— Laura, se a gente não tirar ela daqui, ela vai sair sozinha e eu não sei bem o que ela tem em mente para isso.

— Kelsey, eu não tenho como trazer ela para cá ainda, as coisas melhoraram, mas eu não sei se... — Laura estava aflita. Tinha pedido cinco minutinhos de intervalo na Starbucks para atender Kelsey e estava sentada numa escada do outro lado da rua.

— Ela fica comigo. Em Londres, tem escolas ótimas, integrais, ela fica na escola enquanto eu treino e a noite...

— Você vai casar, Kelsey, isso não faz sentido, eu preciso resolver isso sozinha.

— Não, você tem que resolver isso com a Ívi, com a Julia e comigo. Você não está sozinha com ela, Laura. Escuta, você vem para o meu casamento em dezembro?

— Kelsey, eu não sei se...

— Eu mando as passagens. Você vem, ela também, aqui nós conversamos sobre tudo.

Julho ⅏⸙⸎

Laura estava terminando seu turno quando viu uma garota linda entrando na sua Starbucks.

Era Ívi, linda demais de shortinho curto e suéter de Laura, era comecinho de inverno e estava começando a esfriar, os óculos escuros, aquele sorriso lindo aberto, parte das garotas na cafeteria olharam e Laura não podia culpá-las. Ívi era um tipo que chamava a atenção feminina, alta, estilosa, gentil, o sorriso capaz de roubar qualquer coração e Laura esqueceu até do que estava fazendo.

— Amor, você não dormiu nada...

— Dormi sim, duas horinhas, mi amor — Ela respondeu, beijando sua mão com carinho e deitando a cabeça sobre o balcão, olhando para Laura — Eu vim te buscar, acordei morrendo de falta. Será que...

— Eu vou tentar sair mais cedo, amor, é sua folga, eu quero ficar com você. Eu só preciso pegar as duas primeiras aulas porque...

— Eu vim pedir pra ir com você. Eu sei que você não pode faltar, a formatura já é mês que vem, mas é que... — Olhou para sua Laura, aquele seu amoriño perfeito, abriu outro sorriso lindo porque ela era linda demais — Saudades, amoriño.

— Eu também, meu amor — Sempre estava morrendo de saudades dela, sempre e tinha adorado ouvir aquela proposta inesperada! — Mas você vai assistir aula de anatomia...

Ívi abriu um sorriso enorme.

— Eu não vou assistir aula nenhuma, vou assistir você assistindo a aula. Vou pegar um chocolate quente e te espero, amor. Te amo, te amo.

Laura derretia inteira por dentro.

— Te amo, mi amor, muito. Eu vou fazer o seu chocolate!

Ívi beijou a mão dela e foi fazer o pedido, foi lhe esperar na sua mesa preferida, uma que ficava perto da vidraça e dava para ver a praia. Estava um dia nublado, de chuva e Ívi não conseguiu ficar dormindo porque estava morrendo de saudades e isso lhe acordou. A carreira ia muito bem, estavam fazendo cinco shows por semana, estava ganhando um bom dinheiro, bom suficiente para começar a mexer na casa de sua mãe e fazê-la ficar em casa mais tempo, tendo tempo para si mesma, descansando, relaxando, coisa que nunca tinha podido antes. E, havia conseguido uma outra determinada coisa também. Pronto, horário de Laura, a última coisa que ela fez foi dois chocolates quentes com muito creme e tirou o uniforme, vindo beijar sua garota linda.

— Eu não acredito que você preferiu vir me ver, Ívi.

— Laura, eu venho todo dia, meu bem, não consigo ficar longe de você não, esta Starbucks vê meu dinheiro todos os dias... — Disse, fazendo Laura morrer de rir. Era verdade, estava corrido, estavam correndo, mas Ívi sempre dava um jeito, sempre vinha lhe deixar no trabalho, ou lhe buscar, ou as duas coisas.

— Mas você chegou meio-dia, amor, estava cansada, você me ligou e estava morrendo de sono.

— Daí eu dormi e acordei morrendo de saudades. Escuta, eu vim te buscar, vamos em casa e depois vou ficar com você na faculdade e então...

— E então nós vamos pra casa, eu vou fazer um jantarzinho pra gente, a Juls e a Thai não estão, não é?

Amoriño, eu nem sei como te contar, mas...

— Minha irmã alugou um apartamento! Ívi, é sério essa história?! — Perguntou entre estar surpresa e desacreditada e estar achando hilária aquela história.

— Só por um mês, linda — Ívi riu e a puxou para pertinho — Laura, elas adoram estar casadas, adoram fazer coisas de casal juntas, elas estão se curtindo demais e, eu não julgo porque adoro fazer e sentir o mesmo com você, amor, só nós duas em casa, podendo fazer amor em qualquer lugar...

Laura a beijou sorrindo demais.

— Há vantagens...

— Muitas vantagens. Vem, meu amor, vamos tomar nosso chocolate indo para casa? Quero tomar banho com você...

Não era o tipo de convite que dava para resistir. Foram para casa, de VLT porque de carro estava impossível, não fazia mal, não fazia mal nenhum, estar com Ívi era sempre uma delícia, não importava o transporte, ou se estava caindo o mundo lá fora, nada importava. Apenas a companhia gostosa daquele amor da sua vida. Chegaram em casa, banho juntas, se trocaram e foram para UFRJ, de metrô, VLT, andando na chuva dividindo um guarda-chuva, agarradas, juntinhas demais. E lá foi Ívi para sala de aula de Laura, sentar ao lado dela, prestar atenção nela enquanto sua menina assistia aula tão compenetrada. Estava na reta final de seu trabalho de conclusão de curso, uma pesquisa cientifica envolvendo movimentos em água quente e o alívio de dor crônica em crianças com microcefalia, sua garota era brilhante e Ívi não conseguia conter o orgulho. Ela apresentou parte do trabalho no final da aula, Ívi aceitou como um presente e de fato saíram mais cedo, a chuva tinha cedido e só estava friozinho. Vieram para casa, jantarzinho feito a duas mãos, comeram na cozinha, fizeram amor, uma coisa deliciosa e quando a meia-noite as alcançou num banho mais do que gostoso, Laura sequer conseguia mensurar o quanto estava feliz.

— Eu vi seu vestido de formatura, amoriño... — Ívi lhe disse, mordiscando a sua nuca, pressionando Laura contra a parede do banheiro, tinham acabado de fazer amor.

— Está ficando bonito, não está?

— Eu vou ter uma coisa quando te vê nele...

Foi um mês muito complicado. Ívi e Julia correndo demais, as garotas também, Karime virou noites terminando sua monografia, Thai passou pelo mesmo e naquelas semanas, Laura dormiu ainda menos e andou durante o sono cada vez mais. Ívi se preocupava e se culpava, ela dizia que não era culpa de ninguém e que deveria melhorar quando recebesse suas notas e a aprovação de sua formatura.

Aconteceu. As três foram aprovadas e em meados de julho, Ívi, Julia e Noah ficaram lindas em seus melhores vestidos para assistir a formatura de suas garotas. Foi bonito demais, Thai, Karime e Laura estavam radiantes, lindas nas becas, Laura recebeu seu diploma empolgada demais, sorrindo, com os olhos brilhando, ela mesma estava brilhando, foi a primeira a receber, com honras citadas ao seu trabalho de conclusão, linda demais com Ívi a aplaudindo de pé, vendo aquela luz intensa espalhada pela sua namorada. Chamava “sonho realizado”, “objetivo alcançado”, a vida de Laura era extremamente bem planejada, com metas especificas e bem descritas, pequenos, médios e grandes objetivos, aquela formatura era um grande objetivo. O passo que antecedia o início de uma carreira que ela pretendia estar ascendendo em 2 anos, quando María estivesse com 16 e apta a viver no Brasil. O problema era o imprevisível, era María dando tanto trabalho e preocupando, e o inesperado também era ter cruzado com uma garota como Ívi Schelloto e ter se apaixonado tão perdidamente por ela...

Foi o que contou quando a beijou assim que pode, ainda de beca, depois das fotos, das alegrias, de ter comemorado demais com suas amigas-formandas.

— Ívi, eu sei tudo até aqui, meu amor, eu pensei em tudo, cada coisa, mas você...

— Eu sei, você não esperava por mim. Contava com Kelsey Harris perfeita te aplaudindo no meu lugar... — Disse fazendo graça e sendo beijada demais...

— Eu não esperava estar sentindo tanto assim, já, tão cedo.

— Você insiste em dizer que é cedo pra gente, amoriño.

Laura lhe olhou nos olhos.

— Não é cedo?

— Nenhum um pouco.

Foi uma noite inesquecível, em que festejaram demais, em oito porque para a festa Heidi e Natalia também apareceram, um pouquinho mais casal do que a última vez que tinham as visto (24 horas antes). Era engraçado como havia acontecido, porque não tinham se olhado imediatamente, não haviam se percebido, mas ao redor das duas girava a mesma energia, envolvendo força, foco e foda-se, havia um faro para o prosperar, uma sede para o sucesso e não sabiam bem ainda no que iria dar, mas estavam bem felizes no que já estava dando. A festa terminou na praia, em oito e mais quatro seguranças porque agora Heidi não era mais a única que demandava atenção. Cada vez mais pessoas seguiam Julia e Ívi por onde passavam, mais pessoas as reconheciam e pediam fotos e parecia um sonho. Tudo ainda parecia um sonho de tão especial que tudo estava se passando.

Voltaram para o apartamento, mas não o apartamento apertado da Barra e sim o apartamento espaçoso de Heidi no Leblon. Dormiram espalhadas, pelos quartos, pela sala, não importava, a única coisa que importou para Ívi foi acordar com sua menina agarrada em seu peito. Abriu os olhos e ficou a olhando dormir, em seu peito, no sofá confortável da sala, tão calma, tão serena e seu peito enchia de tantas coisas boas que nem sabia.

Heidi acordou também, de cabelos bagunçados, camiseta preta comprida, muito maior do que ela, estava indo para cozinha quando viu Ívi tão focada em Laura que teve que voltar. Se abaixou pertinho delas.

— Você ama esta espanholinha, não é?

— Heidi, eu nem sei te explicar... — Disse sorrindo, a arrumando em seu colo — Este meu estado não parece real. As coisas estão indo muito bem, estamos tocando nas rádios, fazendo shows, tendo reconhecimento, estou ganhando algum dinheiro e ainda por cima, essa menina aqui, que parou de andar dormindo — Ela tinha parado, estava dormindo bem, indo no médico, fazendo tudo certinho — Perfeita pra mim, linda, gentil, determinada, boa. Ela colocou na cabeça que ia formar logo e aqui estamos, com trabalho de conclusão estrelado que vai sair em revista cientifica. Eu morro de orgulho. De felicidade. De amor.

— E ela morre de amor por você. Me aquece o espírito saber que ainda existe amor assim, sabia?

— E você a Nat? Podem ser tornar algo assim, por que não?

— Porque aqui é força, foco e foda-se, você sabe, vamos nos tornar algo neste sentido de casal... — Respondeu fazendo Ívi morrer de rir. Não duvidava de nada.

A primeira semana de agosto chegou, trazendo uma paz inexplicável. O Rio de Janeiro no inverno tinha algo charmoso e bonito demais, que remetia Laura ao outono de Madrid e Barcelona e enchia seu coração de boas lembranças. María havia se acalmando com Kelsey mais presente, parecia que teria tempo, de ajustar a sua vida ao ponto de ter sua irmã por perto. Havia algo muito bom envolvendo um pouco mais de tempo com Ívi que o final da faculdade havia lhe dado, agora Ívi vinha lhe buscar para passar um tempo juntas em casa antes de ela sair para trabalhar. Horas maravilhosas, em que se divertiam tanto juntas, faziam coisas, faziam nada, apenas degustavam a companhia uma da outra.

Algumas coisas haviam mudado, Haíz andou fazendo shows em outros estados, São Paulo, Goiás, Espírito Santo, Distrito Federal, Santa Catarina e Laura sentia que a lista de estados tendia a aumentar cada vez mais. Isso lhe tirava Ívi um pouquinho, mas ao mesmo tempo, também nunca lhe tiraria sua Ívi se elas não quisessem.

E elas não queriam. E com o diploma na parede e um artigo científico publicado, três convites diferentes bateram na porta de Laura sem que ela precisasse se esforçar mais. Aceitou a Fio Cruz, para dar continuidade em seus estudos e seus dias de Starbucks se aproximaram do final naquela semana.

Foi ver Julia, que não, não morava mais consigo. Julia havia alugado um apartamento de maneira definitiva e isso era outra coisa gostosinha a curtir com Ívi, o apartamento lotado aos poucos se convertia num apartamento de casal, reorganizado e com um espaço inacreditável que era impossível de ser visto pelo simples fato de antes estar lotado demais. Tinha pegado a manhã de folga, ido buscar uma encomenda e na volta, decidiu visitar Julia. Era inverno, estava frio e o apartamento que ela dividia com Thai era uma graça. Tinha cozinha e sala divididos por um balcão americano e um quarto enorme. Ficava pertinho, cinco minutos andando de onde morava, subiu e já do corredor, ouviu aquela voz que tanto adorava.

A porta estava entreaberta e Julia estava sentada no chão da sala, tinham se mudado em definitivo recentemente e não tinham quase nenhum móvel. Levaram a cama que tinham no apartamento de Laura, compraram uma geladeira, fogão e o limite do cartão de crédito de Julia lotou, mas não fazia mal. Elas já tinham o que interessava e tinham uma a outra, o mais importante. Entrou e, lá estava ela, sua Julia, de shortinho de algodão e camiseta preta, sentada no meio da sala vazia e tocando se violão, porque eram onze da manhã e ela não conseguia dormir mais, porém Thai sempre conseguia. Ela estava ali, cantando e tocando e a canção era linda demais, era dela, toda em espanhol, os cabelos longos, desgrenhados caindo em parte pelo rosto, a voz rouca e cheia de alma, os olhos fechados porque quando ela cantava assim, ia para outro planeta, outro lugar e levava todo mundo consigo. Chama “Tu Alas”, Tuas Asas", e Thai podia se morder um pouquinho de ciúmes, porque aquela música linda, Julia tinha feito para Laura.

Entrou, tirou as botas, deixou as flores que trazia sobre o balcão americano e veio para perto de Julia, que já tinha lhe visto, já tinha aberto aquele sorriso lindo, mas seguia tocando e cantando. Aquela era sua Julia, aquela era a essência dela, quem ela era por dentro, a parte interior que refletia para fora. Julia e seu violão sempre, SEMPRE, teria mágica.

— Laura — Ela terminou a canção e puxou Laura para um abraço.

— Vim te trazer flores, aquela que você gosta.

Ela abriu um sorriso lindo vendo as flores sobre o balcão.

— Veio aqui só me trazer flores?

Sorriso de Laura.

— Vim te trazer flores e... — Sentou-se a frente dela no chão — Notícias. Eu fui fazer a entrevista na Fio Cruz e deu tudo certo.

— É claro que deu! Como é que não ia dar? Você é brilhante, Laura, a mãe sempre disse isso, que ia ser grande em qualquer coisa que você escolhesse. Vai trabalhar com pesquisa?

— Ao menos por enquanto. O trabalho é interessante, o salário é bom e é claro, eu vou ter que sair da Starbucks. Hoje a tarde é meu último dia e... — Abriu um sorriso, os olhos brilharam — Você sabe que a Ívi vai me buscar todos os dias, não sabe?

— Sei, passa correndo na academia, toma banho, se troca e vai buscar você. Pede um chocolate quente e fica te olhando morrendo de amor.

— É, é isso que geralmente acontece — Abriu outro sorriso — E Juls, o que eu queria te dizer é que hoje é meu último dia na Starbucks e quando a Ívi for me buscar, eu vou pedir ela em casamento.

Julia lhe abraçou muito forte, com o coração disparado e feliz demais. Feliz pela vida de Laura estar caminhando do jeito que ela queria, pelas coisas estarem dando certo e por aquela decisão. Nunca imaginou que ficaria tão feliz em ouvir que Laura queria casar com outra, mas é que não era qualquer outra, era com Ívi.

Almoçou com Julia e Thai, se trocou lá mesmo e foi para o trabalho, com o coração ansioso, mas calmo, feliz demais. Laura se despediu de sua equipe antes de pegar seu turno, haviam sido meses lindos, em que aprendeu demais, se reorganizou, se reconectou consigo mesma, achou seu caminho. “Arquipélago” tocou na rádio umas três vezes só durante a tarde, Laura entregou copos e copos lindos, cheios de flores e bons sentimentos, distribuindo energia positiva, arrancando sorrisos gratuitos para florear seu dia, aquele dia, que estava prestes a reivindicar para si e para Ívi.

Ela chegou até mais cedo aquela tarde, porque estava em São Paulo aquela noite tocando como DJ e pegou o primeiro voo da tarde para chegar e poder ficar com sua Laura um pouco mais. Chegou de mochila ainda nas costas, linda demais, toda de preto, calça jeans, camiseta, jaqueta de couro preta e óculos escuros, para fazer o coração de Laura quase parar no peito. Chegou e sua menina estava preparando vários cafés ao mesmo tempo, a cafeteria estava cheia, estava chovendo, era dia de frio e havia algo extremamente bonito no jeito que o mar se comportava aquela tarde. O azul no cinza, as folhas trazidas com o vento forte, não sabia dizer, só estava bonito demais. Abriu um sorriso para sua menina, linda de uniforme e usando seu pingente de pena no pescoço, nunca mais haviam se separado dos pingentes uma da outra, era assim desde Londres. Ívi pegou a fila para o caixa, pediu o de sempre, um chocolate quente tall com muito creme e sentou-se perto da janela, olhando o tempo lá fora, olhando sua menina sempre, o tempo todo, porque nunca se cansaria de olhar para ela.

Não via Laura há quarenta e oito horas e já parecia uma vida de tanto que doía. Aguardou seu nome ser chamado, levou um tempinho mais que o habitual, mas enfim, aquela voz que tanto conhecia chamou seu nome. Foi até o balcão, abrindo um sorriso só de chegar perto dela.

— Meu amor...

— Vem aqui, me abraça — Laura pediu e Ívi abraçou, rodeando o balcão, a apertando pela cintura enquanto sua menina ficava na ponta dos pés para lhe alcançar o pescoço naquele abraço tão cheio de saudades.

— Pode abraçar hoje, linda?

— Não podem mais me demitir, eu já estou indo embora mesmo — Ela respondeu sorrindo e deixando um beijinho rápido na boca de Ívi — Saudades, mi amor.

— Eu sei, amoriño, eu sei, eu sinto, foi tão difícil dormir hoje...

— Nem me fala — Laura respirou fundo, andava dormindo melhor, mas com Ívi em outro estado havia sido um tanto mais complicado — A gente dorme junto hoje?

Agarrada, amor, eu estou morrendo de falta, não tenho show hoje, eu só quero ir pra casa e ficar agarrada em você daquele nosso jeito, quase fundindo, sabe?

Laura abriu um sorriso, sabia, é claro que sabia sim. Respirou fundo.

— Acredita que é última vez que você veio me buscar aqui?

— Eu estava pensando nisso, foram meses nessa rotina gostosinha de vir te buscar toda tarde. Este lugar sempre vai ser especial pra gente, amoriño, vou adorar voltar aqui sempre.

— É especial, não é?

— Muito especial.

— Eu sei — Disse, de coração tranquilo e olhos brilhando — Eu amo você.

Ívi abriu um sorriso, ela havia dito do nada.

— Eu também amo, meu amor.

— Seu chocolate, vem — Laura voltou para trás do balcão e, entregou o chocolate de Ívi e quando ela virou o copo para ver o seu desenho que era sempre especial...

Seus olhos encheram, imediatamente.

— Laura...

— Oi, meu amor — Não conseguia parar de sorrir.

— Isso é sério...?

— Se isso aqui é sério? — Laura virou o copo, deixando ver os regadores, as estrelas, todas as flores do mundo volteando uma pergunta com sua melhor letra: “Quer casar comigo?” — É claro que é sério, mi vida. Vou deixar mais sério — E foi então que Laura Bueno saiu detrás do balcão e dobrou um dos joelhos a frente de Ívi, pegando sua mão, mostrando uma aliança numa gargantilha de prata, toda em ouro champagne — Ívi Schelloto, você aceita casar comigo?

E a essas alturas, a cafeteria já estava toda olhando numa vibe de amor transbordando e Ívi não conseguia parar de chorar.

— É claro que eu aceito, mi amor, é claro que eu aceito! — E puxou Laura pela mão, a pegando pela cintura, a tirando do chão enquanto a beijava, beijava e beijava demais.

Ninguém mais trabalhou! Houve um momento de comemoração junto aos colegas de Laura, ela tinha ficado próxima de cada pessoa naquela cafeteria, era muito querida e por tabela, Ívi tornou-se muito querida também. E ela estava muito emocionada, muito feliz, não conseguia parar de chorar e Laura estava achando a coisa mais linda, mais preciosa possível.

— Meu amor, você precisa parar de chorar, nós vamos jantar, sabia? — Disse agarrada no pescoço dela, sem conseguir parar de sorrir também.

— Nós vamos jantar?

— Vamos, amor, você escolhe onde!

— Tem que ser simbólico...

— Ívi, você não vai querer jantar hambúrguer, vai?

Pior que ela queria! Não tinha problema, a levou para casa onde fizeram amor no banho, amor antes de se trocarem, podiam ir comer hambúrguer de Hamburgo e dançar naquela casa de salsa onde tinham dançado muito uma vez antes do primeiro beijo trocado. Esta era Ívi, a sua Ívi que nunca ia mudar, que pediu para segurar a salsa em determinado momento da noite porque queria dançar uma música de amor com a sua noiva, a sua Laura, a que não lhe deixaria nunca, nunca...

Voltaram para a casa aos beijos e roupas ficando pelo caminho. Tiveram uma noite de amor linda, no tapete da sala, fazendo um amor intenso enquanto o pingente-aliança pesava no pescoço de Ívi de uma maneira linda. Tiveram outro dia lindo demais, muito juntas até a noite, porque Ívi tinha que trabalhar e não havia problema.

— Mas você vai me ver na boate?

— Vou, mi amor, é claro que eu vou, só que as meninas me chamaram para jantar antes...

— No nosso restaurante?

— Isso, tem algum problema?

— Claro que não, meu amor — Beijou Laura, muito gostoso — Vou indo, está bem? É um lugar novo, eu gosto de testar as coisas antes.

— Te vejo em breve.

— Muito em breve.

Laura terminou de se vestir, colocou o vestidinho que Ívi pediu, aquele pretinho básico com o qual tinham se conhecido no metrô, achou doce que ela pediu, era irresistível não dizer sim a um pedido de sua noiva, de sua Ívi. Perto das nove, Karime apareceu com Thai e Laura sentiu falta de Noah.

— Ela disse que o jantar é do trio original, encontra a gente mais tarde na boate.

— Entendi. Eu estou noiva! Vocês acreditam que eu estou noiva? — Porque a própria Laura ainda estava com dificuldades em acreditar!

Aconteceu algo na semana seguinte. A gravação de “La Cruz del Mapa” do começo do ano tinha de alguma maneira, ido parar num popular programa de tevê. Foram convidadas a participar de um ao vivo em um programa de música na mesma emissora no dia seguinte, dado o tanto de pedidos sobre quem eram aquelas garotas eles tinham recebido.

Era um programa no horário nobre da maior emissora de tevê do país.

E apenas quinze dias depois, estava feito.

— Heidi, você tem certeza, é isso mesmo?

Estavam num festival de música, no extremo sul do Brasil, no terceiro maior festival do Brasil.

— E isto. Setenta mil pessoas.

— Ívi, não são só para ver a gente, nem estávamos na programação, surgiu de última hora, relaxa — Julia estava extremamente calma.

— Então, digamos que setenta mil lá fora não vieram para ver vocês duas. Mas... — Houve uma gritaria enorme, era a introdução do show delas começando a rodar nos telões — Acho que ao menos quarenta mil sabem quem vocês são.

Ívi estava trêmula inteira. Mas Julia nunca permitiria.

— Ei, Schelloto. Lembra de quando tocamos numa arena pela primeira vez? Você ousou usar o sobrenome da Laura no seu.

Ívi abriu um sorriso.

— Você me disse para não desonrar o sobrenome dela.

— Não desonrou. E agora você está aqui, pronta para tocar para setenta mil pessoas e pronta pra casar com ela mês que vem. Então, Ívi Bueno, é melhor você continuar honrando. Pronta? — Julia estendeu a mão no alto na sua direção.

E Ívi sorriu ainda mais e pegou a mão dela, cruzando seus dedos pelos dela.

— Vamos fazer uma festa!

Laura estava em um dos camarotes com suas garotas. E quando aquela intro poderosa estrondou por todos os lugares, cada um dos pelos do seu corpo arrepiaram inteiro. Era funk, era pancada, era eletrônico pesado e inebriante, era Ívi Bueno surgindo sobre a sua pick-up, feita de luz, guitarra e energia extrema, la bruja, o poder, a sua garota, a intro tinha mudado um pouquinho, não era mais “Corazón Partío”, era “Arquipélago” e depois das batidas insanas, depois da guitarra sendo tocada no salto da pick-up e depois de Julia aparecer endossando toda a gritaria feminina, elas se arrepiaram no primeiro acorde.

Motivo? Setenta mil pessoas cantando a mesma canção.

Notas do Capítulo:

Olá, moças! Como estamos?

Aqui estamos, mais um capítulo de 6 AM trazendo de volta aquela minha personagem que deveria ter sido protagonista, mas teve o posto roubado haha, nossa Kelsey Harris ^^. Estamos nos aproximando do final da segunda parte da história e as peças retornam ao tabuleiro para o fechamento final. Lembro de ter prometido história com várias protagonistas e aqui estamos!

Sendo assim, temos Kelsey e Vik de volta para um ponto importante da história, La Mari mais presente, Julia e Thai se ajustando na vida de casadas e finalmente, nossa Laura deu o próximo passo com o seu amoriño e isso aparentemente, deu sorte para a nossa Ívi, não é?

Então, meninas, prontas para verem Haíz finalmente decolando?! Próximo capítulo, "A Nova Normalidade", a ser postado na próxima quarta-feira, não deixem de atingir a meta!

Beijos!

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