6 AM - Capítulo 45 - Víveme Ahora

Atualizado: Mar 22


O inverno em Londres parecia um filme de Julia Roberts.

Era como um sonho e esta sensação perpetuou em Ívi o tempo inteiro naquele primeiro dia em que mal chegaram e já saíram, muito bem agasalhadas para o frio intenso lá fora! O passeio por Greenwich foi maravilhoso, as seis juntinhas, em números pares caminhando por aquele bairro de cinema com seus apartamentos de portas coloridas, suas construções antigas. O mercado foi um presente! Cheio de decorações natalinas, arte, música para todos os lados, comeram mini-panquecas com chocolate quente enquanto caminhavam por ruazinhas clássicas que as levaram até o parque onde estava ancorado o Cutty Sark, um navio histórico de 1869, construído sob a ideia de se chegar mais rápido à China e que agora descansava ancorado no coração de Greenwich. Estava lá, com um parquinho de diversões o antecedendo, congelado, cheio de neve.

Laura abraçou Ívi por trás, os olhos dela no imenso navio enquanto as outras meninas tinham corrido para o parque de diversões feito crianças.

— Gostou, amor? Achei que fosse gostar de ver.

— Ele é... Incrível, linda, incrível. Eu nunca vi nada assim, amoriño.

— Vamos ver muitas coisas que nunca vimos. Essa cidade é mágica, e... — Laura se virou de frente e se derreteu olhando para Ívi um pouquinho mais. Andava assim desde cedo, ela estava linda demais e mais irresistível do que já era todo dia, não sabia dizer o que se passava. Se abraçou contra o peito dela, sentindo aqueles braços fortes enroscando em seu corpo, como adorava aquela sensação, adorava — Tem um museu marítimo aqui perto e eu pensei de a gente ir nele, é cheio de peças históricas e depois — Mostrou o rio Tâmisa brilhando ao sol — A gente pode fazer um cruzeiro, só nós duas, o que você acha?

Ívi beijou e cheirou os cabelos dela, com um sorriso no rosto que nunca mais tinha ido embora.

— Eu acho que você é perfeita.

Fizeram assim, Laura deixou as meninas com a outra empolgada guia que era Julia e foram fazer algo apenas as duas. O museu marítimo que fez Ívi tão feliz, o passeio pelo rio em seguida, gelado e lindo! A vista era maravilhosa, a embarcação também, passearam se esquentando com chocolate quente e uma na outra, e foi um romance, era um romance, Laura e Ívi sempre eram um romance e era uma delícia estarem se reencontrando assim, em sua natureza primordial. Tinham um jantar para ir, um jantar com Kelsey naquele restaurante-jardim onde ela e Laura tinham se despedido da vida uma da outra como namoradas, para iniciar uma outra vida juntas também. Términos não precisam ser términos, podem ser mudanças, Ívi agora via e entendia isso com uma enorme clareza.

Voltaram pra casa, um clima gostoso, cheio de muitas risadas depois de mais um passeio por lojinhas de presentes, Ívi dizendo que iria voltar a estudar inglês agora, já, porque havia descoberto que sequer conseguia comprar um café sem Laura. Se trocaram, Ívi ficou linda toda de preto, vestida nas camadas que Laura lhe mostrou como fazer, gorro nos cabelos e Laura ficava toda perdida. Ficou linda também, num belíssimo casaco vermelho que lhe alcançava as coxas, botas salto alto, aquele cabelo perfeito, o sorriso também e Julia apareceu, tão bonita quanto, elegante como sempre era, os cabelos desgrenhados e charmosos, os olhos de pôr de sol brilhando, ela estava muito feliz e Ívi sabia porquê.

Parecia a vida delas de antes. Parecia muito a vida delas de antes.

Foram de trem, conversando muito, rindo demais e quando desceram na Canary Wharf para pegar a linha de metrô...

Tinha um piano. No meio da estação, tinha um piano vazio enquanto violinos tocavam em algum lugar. Ívi olhou para Laura, abriu um sorriso.

— Que foi, amor?

— Temos cinco minutos? — Ívi perguntou, já se sentando ao piano e causando um alvoroço entre as garotas!

— Mas veja bem, Ívi Schelotto que tinha medo do público!

— Então — Abriu outro sorriso enquanto tirou as luvas e começou a dedilhar alguma coisa, apenas para sentir o instrumento. Daí olhou para Laura e: — No necesito más de nada ahora que... Me iluminó tu amor inmenso fuera y dentro... — Arrancou e cantou os primeiros acordes e sua garota se derreteu imediatamente. Laura sabia que tinha se apaixonado por Ívi no metrô, mas achava que tinha começado a amá-la naquela manhã em que ela lhe cantou Vívime de lingerie — Créeme esta vez, créeme porque, créeme y verás no acabará, más...

E neste momento, os celulares já estavam apontados em sua direção, Thai, Noah e Karime enquanto Laura não podia ter sua visão roubada de jeito nenhum. Os olhos brilhando, sorriso aberto, sua garota tocando e cantando, a voz doce como sempre, suave como Laura amava, arrepiava.

Tengo un deseo escrito en alto que vuela ya... — Buscou os olhos de Laura, sorrindo demais — Mi pensamiento no depende de... Mi cuerpo... — Alongou a nota, firulando por ela, confiante, sim, extremamente confiante — Créeme esta vez, créeme porque me haría daño ahora, ya lo sé... — Esticou a mão, o destino da mão encontrou seus dedos, estava puxando Julia e não era como se ela já não estivesse pronta para cantar consigo como sempre esteve.

Hay, gran espacio y tú y yo — A voz poderosa de Julia causando impacto por aquele metrô, o vai e vem das pessoas sendo interrompido porque uma voz incrível havia surgido do nada, os dedos da mão direita enroscados nos dedos da mão esquerda de Ívi que seguia tocando com uma mão só porque Julia havia tomado o outro lado do piano com a mão que estava solta, e elas pareciam uma só — Cielo abierto que ya, no se cierra a las dos! — Sentou-se ao lado de Ívi, identicamente àquela primeira vez, a música tomando mais corpo, mais agressividade, crescendo na garganta de Julia, que olhou nos olhos de Ívi sorrindo para cantar a próxima nota junto com ela:

Pues sabemos lo que es necesidad...

Víveme sin miedo ahora! — A voz de Julia rompeu o lugar, numa acústica incrível, arrepiando quem estava ao redor, parando as pessoas, mais câmeras, mais gente assistindo e quando ela atacou o próximo verso — Que sea una vida o sea una hora! — Sorriso dela e de Ívi, violinos, violinos tinham entrado tocando junto com elas e só então perceberam o quarteto de cordas se aproximando, crescendo a melodia — No me dejes libre aquí desnudo, mi nuevo espacio que ahora es tuyo, te ruego...!

Víveme sin más vergüenza! — Ívi seguiu no tom, alto, pertinho dela, mas nunca no tom dela, era impossível, agora as quatro mãos atacando o piano, deixando o som ainda mais poderoso — Aunque esté todo el mundo en contra! — Os olhos de Ívi em Julia e em Laura, sempre em Laura, os olhos das duas.

Deja la apariencia y toma el sentido y siente lo que llevo dentro...

— Y te transformas en un cuadro dentro de mí... — Ívi retomou, ouvindo as cordas do quarteto, trazendo para o seu tom — Que cubre mis paredes blancas y cansadas...

Créeme esta vez... — A voz rouca de Julia melodiando todas as coisas, o sorriso aberto, os olhos fechados.

Créeme porque... — A voz doce de Ívi.

Me haría daño una y otra vez... — Julia trocou um olhar com Laura, assistindo as duas com os olhos brilhando demais.

Sí, entre mi realidad... — Elas iam e vinham nas notas quase como se fossem uma só, e havia quem tivesse dúvidas se de fato não eram.

Hoy yo tengo algo más... — E agora Julia olhou para Thai, para aquele amor da sua vida, sua esposinha que tanto amava.

Que jamás tuve ayer...

E então o encontro mágico entre as duas vozes:

Necesitas vivirme un poco más...

Solo um poco más...! — Julia alongou a nota fazendo a nuca de Ívi se arrepiar junto a nuca de todas aquelas pessoas agora assistindo.

Alongou a nota, brilhou demais, linda, luminosa, invadiu o refrão que Ívi pegou no meio da nota dela.

— Víveme sin miedo ahora...!

E o próximo verso Julia entrou com Ívi, casando as vozes perfeitamente, numa nota mágica que apenas Julia Torre era capaz de pegar.

— Que sea una vida o sea una hora! No me dejes libre aqui, desnudo...

Mi nuevo espacio que ahora es tuyo, te ruego...! — Ívi seguiu por baixo da voz dela

Víveme sin más vergüenza! — Julia cresceu, mordendo a nota, luminosa demais — Aunque esté todo el mundo en contra! — Cantaram juntas, perfeitas, uma só — Deja la apariencia y toma el sentido y siente lo que llevo dentro...

Has abierto en mí... — A doçura de Ívi, os olhos em Laura — La fantasia... Me esperan días de una ilimitada dicha... Es tu guión, la vida mía — Notas diretas para Laura, brilho, sorriso, amor, sim, todo mundo podia ver — Me enfocas, me diriges, pones las ideas...

Víveme sin miedo ahora, aunque esté todo el mundo en contra... — Julia tirou os dedos do piano, cantando no ouvido de Ívi, Noah contou mais de quarenta celulares só onde podia ver, porque tinha tanta gente que perdeu as contas quando chegou em cem rapidinho — Deja la apariencia, toma el sentido y siente lo que llevo dentro...

Ela parou de cantar, vendo o público, ouvindo Ívi alongando as notas do piano, aplausos, aplausos, aplausos por onde se podia ouvir. Julia sorriu, levantou, abraçou Ívi carinhosamente por trás, lhe cheirando os cabelos e agradecendo, só para ela ouvir, quase um segredo e assim, finalizou a canção:

— Deja la apariencia, toma el sentido y... Vívime...

Mais e mais aplausos, Ívi finalizou o piano e levantou, para aplaudir Julia, aquela cantora que ela era, talentosa, única, inacreditável. O abraço longo entre elas duas, muito longo, emocionado demais. E o abraço duplo se tornou triplo com Laura abraçando as duas, e então quádruplo quando Thai se juntou a elas, quíntuplo com Karime, sêxtuplo, puxaram Noah para o meio, ela era parte importante também, parte de tudo o que Ívi e Julia tinham se tornado. Agradeceram ao quarteto de cordas que gentilmente se juntou a elas, agradeceram a todas as pessoas que pararam para ouvir e que não eram poucas, de jeito nenhum. Foi um momento mágico, absolutamente mágico.

E Ívi tinha plena consciência de quem tinha aquela magia.

— Ela é maravilhosa — Ívi disse a Laura quando pegaram o próximo metrô.

— Você também é, Ívi.

— Não como ela. Eu tenho luz, Laura, eu sei, mas aquela sua menina ali... Ela tem magia. Ela é mágica por si só, ela tem todo aquele poder dentro dela e... Ela não precisa de mim para nada. Nem uma coisa que seja. Ela pode ser sozinha.

Laura olhou para Ívi.

— Ela quer estar com você.

— Ela não precisa estar. Você sabe disso. Eu estou afogando a Julia na minha intensidade, eu não quero isso.

Laura respirou fundo. Entendia cada coisa que Ívi estava dizendo, porém...

A separação parecia muito clara e já sabemos que separações não precisam serem términos, porém, quem Ívi se tornaria sem Julia para lhe frear? Era o que lhe preocupava. Mas não pensaria nisso agora.

Chegaram no restaurante-jardim e foi maravilhoso encontrar as futuras senhora e senhora Khöler-Harris! Elas estavam radiantes, felizes demais por estarem se reencontrando, uniram três mesas e o assunto não parava, tinham muito a falar, muita felicidade escapando por todos os lados, Julia fez upload imediato do vídeo em seu canal e os comentários choveram, nostálgicos, empolgados, dizendo que aquela apresentação era mais que Haíz, era Julia e Ívi, a coisa delas.

— Está lendo isto aqui? — Ívi mostrou o celular a Julia — “Estava com saudades desta Julia”. Eu também estava, Juls.

Julia abriu um sorriso. Também estava, não podia negar.

O jantar foi agradável demais e elas decidiram terminar dando uma volta ao redor de algumas pontes importantes, a Millennium Bridge, a London Bridge, Tower Bridge, o The Shard acenando, ainda parecia um sonho. As meninas correram para tirar algumas fotos e Laura ficou para trás com Kelsey por um instante.

— Ela chega semana que vem, seu pai liberou, mas foi esquisito, Laura.

— Por quê?

— Ele liberou a María rápido demais. Parecia... Não sei. Tem alguma coisa acontecendo, Laura.

Laura também achava. María estava esquisita tinha um mês e Alejandro também estava, de qualquer forma, teria tempo para descobrir do que se tratava e não via a hora de estar com sua irmã outra vez. E nem a hora de voltar pra casa, agarrada em sua Ívi do jeito que voltou, num romance só, que mal entrou em casa e já encontrou o caminho do quarto delas aos beijos, agarradas, tão uma da outra.

Começaram o dia seguinte em Notting Hill, em que Laura foi guiada por Ívi porque ela tinha decorado todos os passeios que sempre sonhou em fazer, foram de metrô e quando desceram na estação, a beleza não conseguia ser descrita. O clima natalino, o frio, a camada fina de neve, as barraquinhas de Notting Hill, seu mercado encantado onde um dia, Ívi tinha levado Laura num encontro perfeito à distância. E aquele dia, ela fez questão de refazer tudo. Comprou flores de inverno para sua Laura, um lindo ramalhete campestre, lhe comprou um livro antigo no lugar do chaveiro, um clássico de Charlotte Brontë, um cupcake perfeito para ser devorado com um chocolate belga quente e Laura quis refazer aquela foto, aquela que Ívi tinha mantido como wallpaper do seu celular e que apenas foi substituída pela primeira foto que tiraram juntas como casal.

Bem, que seria substituída agora quando refizeram a foto na mesma esquina, mas agora com Ívi abraçando Laura por trás enquanto ela sorria com aqueles olhos lindos mais esverdeados do que nunca.

Outro dia, mais um dia. Foram na London Eye e em seguida, London Dungeon e era inacreditável que Laura realmente estivesse ali de volta e com Ívi ao seu lado. Se divertiram demais, levaram sustos, riram muito juntas, reencontraram as meninas para o almoço, mas seguiram sozinhas na turnê assombrada que terminou em Camden Town. Foi gostoso demais aquela tarde no bairro punk, com Laura obviamente vestida a caráter outra vez para deixar Ívi louca e toda dividida entre querer estar naquela cidade e simplesmente voltar pra casa porque não estava aguentando a vontade de fazer amor com ela... Terminaram a noite num ringue de patinação, as seis, caindo e rindo demais porque Ívi tinha certeza que era a mesma coisa que patinar in line! Não era, mas só levou uns dez minutos para se adaptar e vê-la patinando daquele jeito, tão feliz sob todas aquelas luzes da noite...

Aqueceu Laura inteira por dentro. Patinando e cantando a plenos pulmões “Il Mondo” tocando em algum lugar, a letra inteira, cada palavra, naquele italiano perfeito que Laura amava na boca dela. Ela lhe cantou “No C’è” no caminho de volta e a noite não puderam dormir, fizeram amor e fizeram novamente, dormiram, acordaram com saudade, não se soltaram nem um instante. Às três da manhã estavam na cozinha, na ponta dos pés para não acordar ninguém fazendo um jantarzinho improvisado porque estavam famintas. Perderam a saída com as meninas de manhã, sem problemas, acordaram fora de hora, almoçaram sozinhas pela Piccadilly Street, passaram a tarde lendo seus livros novos e tomando café no Sky Garden, agarradas, muito juntas, muito felizes.

Tão felizes que no dia seguinte, quando foram assistir ao pôr do sol no The Shard, Laura ficou esquisita.

— O que foi, meu amor? — Ívi perguntou a abraçando por trás carinhosamente enquanto admiravam a vista de tirar o fôlego.

Laura abraçou os braços dela em si.

— Uma sensação... Um medo, não sei bem — Abriu um sorriso — Deve ser porque eu estou muito feliz.

— Eu sei. Eu ando sentindo igual. Promete que vamos passar juntas por qualquer coisa?

Laura beijou a mão dela.

— Prometo, mi amor. Me promete a mesma coisa.

Ívi prometeu. E os dias passaram voando direto para a véspera do casamento de Kelsey e Viktoria.

Amanheceu uma perfeita manhã de inverno. Caía uma neve leve, o sol estava brilhando muito bonito por trás das nuvens de neve, o casamento aconteceria pouco antes do pôr do sol, bem mais cedo no inverno e o dia começou com uma longa viagem até o aeroporto, onde Laura, Julia e Ívi foram buscar María.

Impacto. Ívi estava esperando uma menina de quatorze anos, mas quem surgiu pelas portas do aeroporto foi um mulherão, mais alta que as duas irmãs mais velhas, loira em dégradé, de vestidinho curto, meias, botas cano longo e salto alto, casaco por cima e alguma coisa não parecia certa por ela. Ívi sentiu imediatamente.

Mas daí que o tal mulherão avistou as irmãs no saguão e virou uma menininha outra vez.

Correu para Julia e Laura, abandonando a mala pelo caminho, se agarrando nelas, sentindo os abraços, os beijos, o desespero de saudade que pegou as três. Julia não parava de chorar, de cheirar a irmã, María não soltava Laura, não largava Julia, Laura não parava de buscá-la com os olhos, de parecer conferir se tudo estava bem, muitos beijos, muitos abraços, sua Laura se derretendo em lágrimas, ela sempre tão contida, mas não com María, nunca funcionava com María.

E então, caminharam para perto de Ívi. Ninguém disse nada, Laura e Julia estavam discutindo alguma coisa em catalão que Ívi jamais entenderia e nisso, María chegou perto sozinha. Em sua versão mulher.

— Ívi — Ela lhe abriu um sorriso intimidador. Era bonita demais, Ívi não se intimidava por mulheres bonitas, não era isso, mas se intimidou pela... A vibe daquela menina.

— María — Era intimidadora a bichinha, mas era só uma menina também. Ívi a puxou para perto e a abraçou — Você é igualzinha as suas irmãs.

— Cabelo da Laura, e olhos e sorriso da Juls, eu tenho muita sorte.

— Você fala português!

— E mais cinco idiomas, é outra sorte, sou inteligente como a Laura — Ela se quebrou num sorriso — Eu vi um vídeo outro dia! Eu não sabia que você tocava piano...

— Você não me deixa falar da Ívi para você — Laura a puxou para seus braços outra vez.

— Eu fico enciumada — Ela admitiu.

— É filha da Kelsey, eu sei, está bem? Que temos este problema — Ívi admitiu e María...

María sorriu.

— Você é gata de rua.

Era seu apelido, mas Ívi sentiu uma pontinha de provocação. Deixou para lá, foram pra casa em Greenwich de metrô, falando muito, rindo demais, María estava morrendo de saudade de Julia, com saudade de Laura, e, Laura fez questão que falassem em português, apesar de em casa sempre terem falado catalão, era para incluir Ívi, sua coisa doce, sempre cuidadosa.

Porém, a dinâmica da casa mudou completamente com a presença de María.

Ívi tinha certeza que seria um desastre. Não era segredo a preferência de María por Kelsey, menos ainda que ela não gostava muito de Ívi, mas nem era este o problema, o problema é que Ívi também tinha uma resistência a ela. María era mimada e usava a culpa das irmãs contra elas mesmas, Julia até tinha uma resistência maior a cair no que ela queria, mas Laura não contava com a mesma habilidade e isso sempre causava discussão, discórdia entre os pontos de vista. Ívi tinha certeza de que seria infernal e então que, na primeira noite...

— Espera, você ficou com a inteligência e o talento?

María estava tirando seu violino do estojo.

— Eu tenho muita sorte, disse para você. Toco violino, violão e, violoncelo, eu acho até que toco qualquer coisa que tenha cordas.

— E deve jogar hóquei.

Ela lhe olhou, empáfia em pessoa, sorriu.

— Melhor que a Laura.

Ívi abriu um sorriso, aquela criatura metida.

— Me mostra o que você sabe fazer, pivete.

Ela foi mostrar, tocando junto com Julia, enquanto uma festa desorganizada seguia pela casa, risadas, conversas, a voz rouca de Julia e de repente, uma outra voz tomou lugar inundando a sala de uma maneira totalmente inesperada.

Era A que No me Dejas numa voz densa, rouca e muito grave.

— A pivete canta também... — E Ívi estava boquiaberta e o comentário fez Laura morrer de rir.

— Ela é uma coletânea de dons e habilidades.

— Que perigo, Laura, que perigo!

Era um perigo e a coisa mais doce cantando daquele jeito, enquanto tocava violino, os olhos fechados, o sorriso aberto e ela já não parecia detestável e ameaçadora, de jeito nenhum. Ah, sim, depois de A que no me Dejas dócil e no violino, ela começou a fazer um rap. Feroz, em inglês, agressivo, na batida, malandro demais, assustando Julia com a velocidade e a precisão, e dando um susto enorme em Ívi quando de repente, do rap, ela engatou numa melodia e alcançou uma nota impensável. Aquele tipo de nota que Julia alcançava brincando.

— Isso é um absurdo! — E desta vez tinha sido Julia — Que agudo foi esse?! Criminal!

Tinha sido, criminal de tão perfeito. María riu como se tivesse sido nada e pediu para ver a pickup de Ívi, de novo, pela enésima vez, ela estava apaixonada pelo equipamento. Tudo bem, tudo bem! Ívi foi lá para o canto da sala onde tinha montado sua mesa de trabalho, a pickup, sua caixa de som, seus fones de ouvido e a festa mudou de tom de repente, virou música eletrônica, e...

— María ama música eletrônica, ama — Julia comentou com Laura vendo os olhos atentos de María enquanto Ívi fazia rolar a melhor festa do mundo naquela sala.

— Eu sei! E eu também sabia que a implicância ia passar logo, quando ela visse o que a Ívi é capaz de fazer e o quanto ela é maravilhosa.

— Laura, você... Você não a achou diferente?

— Ela é adolescente, Juls, muda toda hora.

— Não, Laura, fisicamente, não acha que tem algo fisicamente diferente nela?

Laura olhou para ela, mixando com Ívi.

— Ela está mais alta do que da última vez.

— Tem a altura da Ívi, eu notei isso também. Na verdade, eu acho que estou estranhando... Essa doçura.

Laura caiu no riso outra vez. E o que estava preocupando Julia caiu por terra logo na manhã seguinte.

Na manhã do casamento de Kelsey, Ívi e Laura acordaram sob gritos em catalão de duas vozes muito alteradas. Julia e María discutindo por que...

— Como que você faz isso? Você não pode só sair sozinha num país estrangeiro!

— Eu sou europeia! Europeia! Entendeu? Não sou igual a você, eu posso ir para onde eu quiser sem me preocupar com nada!

— Sua filha da mãe...! — E Julia ia literalmente pulando no pescoço dela quando Laura apareceu para se colocar entre as duas.

E foi outra confusão enorme, naquele idioma que ninguém mais compreendia, as meninas foram sendo acordadas pelo volume enorme da discussão e Ívi foi a última a se colocar de pé. Se colocou de pé, ficou ali parada, tentando entender o que estava acontecendo, mas não conseguiu muito também. Pronto, Laura tinha conseguido apaziguar as coisas, Julia foi para o banho, María para o quarto e enfim, Laura lhe explicou o que estava acontecendo.

— Ela saiu sozinha de manhã e sem avisar.

— Laura... — Os olhos de Ívi tinham batido nas botas de María recém tiradas — E se ela não saiu de manhã?

— Como assim?

— Ela não está vestida como quem saiu de manhã.

— Ah, Ívi, a María é adolescente, se veste esquisita o tempo todo...

E o olhar que Ívi lhe deu deixou Laura sem jeito.

— Ívi?

— Nada, amoriño, eu não tenho que me intrometer na maneira que vocês cuidam da La Mari. Vamos nos arrumar?

Outro olhar silencioso.

— Você não gosta dela.

— Não tem a ver com gostar ou não, Laura, eu só acho que ela... Não sei, é sua irmã, você a conhece melhor do que eu.

Laura sentou-se na cama.

— Eu espero que sim.

Ívi a olhou. Apertou seu coração a expressão triste no rosto de Laura. Foi até ela, se abaixou à sua frente, beijou suas mãos.

— Vamos cuidar dela, está bem? Eu vou domar aquela pivete. Agora fica linda pra mim? Estou louca para te ver pronta naquele vestido...

Laura abriu um sorriso, aquele sorriso lindo capaz de curar o mundo, e foi ficar bonita do jeito que sua noiva queria. O clima mudou na casa, passou a ser o clima delas novamente, fizeram um ótimo café da manhã juntas, mais para um pequeno almoço do que para um café, o casamento de Kelsey começaria às 15, deveria pegar o pôr do sol e o acender das luzes, comeram juntas, María mais calada, mas deveria ser o óbvio: ela estava claramente com sono, com toda certeza tinha saído à noite e Ívi se perguntava sobre Laura. Se ela também sabia. La Mari era um assunto delicado que naquele momento, Ívi preferia não tocar.

Ficaram prontas e foram em seus lindos vestidos até a estação de trem, porque o casamento aconteceria numa cidade vizinha, a uma hora e meia. Não viram o tempo passar, os dias haviam se passado e o deslumbre de Ívi com Londres seguia o mesmo. Chegaram ao local na hora certinha, o casamento aconteceria em frente a uma capela medieval do século 16, em seu jardim repleto de flores e árvores para todos os lados. As noivas entraram juntas, felizes demais e o rito iniciou no exato momento do pôr do sol dourado que parecia ter aparecido apenas para fazer Viktoria ainda mais feliz. O céu sisudo se abriu, raios dourados se espalharam e para Ívi, Laura de vestido e casaco vermelho estava ofuscando até a inegável beleza das noivas. Ou do sol brilhando na neve fina. Ela olhava para a cerimônia, Ívi não conseguia parar de olhar para ela.

O casamento foi lindo, com as duas noivas de branco, um casamento de inverno, que as presenteou com uma fina camada de neve que decidiu cair juntamente com o sol e com o sim das noivas. As inúmeras luzes espalhadas pelo jardim se acenderam no momento do primeiro beijo de casadas, e um filtro de magia foi adicionado àquele casamento tão especial.

O jantar foi lindo! Em formato de banquete, numa longuíssima mesa de madeira que comportou todos os 100 presentes devidamente e carinhosamente convidados. Estava frio demais! Mas pouco se sofreu de frio, o jardim ficou todo iluminado com chamas aquecedoras e a alegria imperou o tempo inteiro. Kelsey e Vik estavam... Luminosas, espalhando luz em sorrisos incansavelmente, era uma história linda, nascida lá na adolescência das duas e retomada agora, naquela concretização doce e bonita demais. Laura consumiu cada pedacinho daquele sonho e os olhos de Ívi não conseguiam desgrudar do quanto ela estava linda aquela noite. Todas estavam vestindo um Domenèch, Thai tinha trabalhado meses para vestir a si mesma e suas cinco garotas, mas Ívi tinha certeza absoluta de que ela sempre caprichava mais em Laura. Ela estava linda em absurdo, elegante, refinada, todas aquelas coisas que Ívi tinha visto de imediato num vagão de metrô e pelas quais tinha se apaixonado imediatamente.

Adorou ouvi-la falando em inglês, quando discursou para as noivas e lembrou do quanto achava que tinha apanhado em um determinado jogo entre Brasil e Alemanha, num evento teste, apenas porque tinha aceitado um presente de Kelsey Harris no dia anterior, fazendo Vik morrer de rir. Tinha sido real, tinha ficado enciumada mesmo, mas se justificava agora.

Pessoas devem casar-se com seus grandes amores, ponto. E Ívi foi pra casa com essa certeza plena em mente.

Foram dormir quase ao amanhecer. Kelsey tinha reservado quartos para suas convidadas especiais, sempre muito delicada, muito educada e muito responsável com María. Ívi entendia a predileção da garota, Kelsey lhe tinha como cunhada, como irmã, como filha, separou um quarto especial para ela, com suas primas italianas a quem María tinha ficado apegada, não era uma cena de ex, era amor mesmo, cuidado, um apego que tinha surgido espontaneamente e com isso, Ívi nunca poderia competir. E nem queria. Foram para o hotel-fazenda disponibilizado por Kelsey e ver María correndo e brincando com as garotas italianas pelo jardim pouco antes do amanhecer, lhe fez entender que ela era só uma menina mesmo.

— Ela é... Adorável, Laura. Metida, mas adorável — Disse, fazendo Laura rir demais.

— Ela é difícil, eu sei, mas é que o crescimento dela não foi muito simples e eu sempre vou me culpar. Entende a minha culpa?

— Entendo, amoriño — Ívi a abraçou por trás, lhe beijando o ombro enquanto ouviam os risos das meninas mais novas correndo pela neve ainda de vestidos de festa — Pronta para ir pra Itália comigo?

Laura abriu um sorriso. Noah e Karime iriam para Amsterdam, Julia e Thai iriam para Madrid e Barcelona, e Laura e Ívi iriam encontrar Tiziana em Siena.

— Mais do que pronta! Me sinto privilegiada, sabia? De estar perto quando você e a Tiziana finalmente se abraçarem.

— Kelsey tem planos para a María aqui ou...?

— Então. María? La Mari, vai ficar aqui quanto tempo?

— Até depois de amanhã! — Ela respondeu, rindo e correndo do pega-pega na neve — Eu vou voltar pra casa, você não vai estar aqui mesmo! — Ela respondeu, sorrindo e provocando, era a tendência naquela menina, mas Ívi estava disposta a... Dar o primeiro passo. Para a paz e a compreensão.

— Quer ficar com a sua irmã um pouco mais? — Partiu de Ívi a pergunta, tão inesperadamente que fez María parar de correr, e prestar atenção.

— Ela me disse que você tem uma irmã também. Que precisa encontrar.

— Eu tenho, ela mora em Siena, vamos encontrar com ela lá e depois, passar três dias em Roma. Gosta de Roma? Ou de Siena?

Os olhos de María brilharam.

— Eu acho que adoro a Itália inteira.

— Então, você vem com a gente.

E foi tão de surpresa que até Laura levou um susto.

— Ívi...?

— Você quer, La Mari? Seu pai deixa?

— Ívi, ele deixa, ele vai ter que deixar! Sério que você vai me levar? — Ela correu para perto muito empolgada.

— Muito sério. Vamos nos conhecer melhor, você e eu, tudo bem?

Tudo bem, tudo estava muito bem! María abraçou Ívi de verdade pela primeira vez, se agarrou nela, agradeceu, por ir pra Itália e por ter mais tempo com sua irmã. E quando disse isso, lagrimou, nada de cena, ela só tinha ficado bem feliz e por consequência, Ívi e Laura também ficaram. Entraram para o quarto no amanhecer, muito agarradas, num beijo que não parava nem por um segundo.

— Ela ficou feliz? — Ívi perguntou levando sua garota para a cama.

— Eu fiquei feliz! Tudo bem com isso, meu bem? Financeiramente, emocionalmente...?

Ívi sorriu, a beijando de novo.

— Tudo bem, até mesmo porque... — Apertou a mão pelo bumbum de Laura, a fazendo se arrepiar inteira — Ela vai morar com a gente, temos que nos habituar com ela por perto — Disse, sentindo uma vibração bem característica contra a sua coxa, Laura suspirou.

— Está com fome, amor?

Fome de você.

E que seguisse assim, por tempo ilimitado.

Voltaram para Londres, curtiram o último dia na cidade num clima muito gostoso e no dia seguinte, a estação de St. Pancras enviou Noah e Karime para Amsterdam e o Aeroporto de Heathrow mandou Julia e Thai para Madrid, enquanto o voo mais longo estava reservado para Ívi e Laura direto para Siena. Com María ao lado.

Mas Ívi sequer estava sentindo tanto, porque assim que pisou na Itália, seu coração disparou, seu sorriso não parava de iluminar, os olhos estavam fulgurando e ela ficou nervosa. Sabia que Tiziana estaria lhe esperando e seu coração não estava cabendo dentro do peito!

— Ívi, olha para você! — Laura a agarrou um pouquinho, vendo sua garota fulgurando demais!

— É que eu quero encontrá-la logo! Quero ver o meu pai, mas encontrar a Tiziana...

— Eu sei, mi amor. Eu sei. Vem, chegamos em Florença, mas Tiziana ainda está a um trem de distância.

Estava, ainda estava. Almoçaram juntas e foi muito divertido, comeram num ótimo restaurante, tomaram gellato italiano e María estava a coisa mais agradável de se ter como companhia. Era uma menina de fato muito inteligente, que acompanhava Laura em assuntos científicos sem nenhuma dificuldade e conversava com Ívi sobre música da mesma forma. Pegaram o trem para Siena, uma horinha e meia de uma vista encantadora, estava muito frio, mas apesar disso, não costumava nevar na cidade e a natureza da Toscana resplandecia, presenteava. Tomaram um chocolate quente pelo caminho e finalmente, a estação, finalmente, quando Ívi atravessou metade da estação, viu um rosto que jamais confundiria.

Sua Tiziana. Ali, paradinha no meio do caos italiano, de calça de montaria, camisa social azul, um pesado casaco por cima, ah, sim, se Ívi era fuzileira naval, Tiziana era arquiteta e membro da cavalaria oficial de Siena. E deveria estar saindo de um treino. Dois sorrisos brilharam e elas correram em direção uma à outra, Tiziana formal, Ivi de camisa branca, jaqueta, botas, não importava, quando aqueles dois seres humanos se encontraram, elas pareceram uma só.

Ívi abriu espaço por entre aquele caos de pessoas e quando seu corpo encontrou aqueles braços...

Houve uma respiração conjunta, um ar acumulado que escapou dos pulmões das duas quando o corpo de Ívi bateu contra o corpo de Tiziana e ela lhe tirou do chão, sem nenhuma dificuldade, pegando sua irmãzinha mais nova pela cintura e girando com ela, mordendo um sorriso empolgado demais porque enfim, estavam finalmente juntas!

— Ívi, Ívi!

— Como você é forte! — Ívi saltou no colo dela, tinha enroscado suas coxas nela, se agarrado naqueles braços fortes e Tiziana parecia uma pedra de tão firme — E alta! Espera, a gente tem mesmo a mesma altura.

— Não parecia, não é? Apesar de ser, você sempre disse que eu parecia mais alta — Ela respondeu sorrindo demais — Eu não acredito que você está aqui! E que você é bonita assim! — Tiziana agarrou Ívi para perto, sorrisos iluminados demais — Como é que você estava resistindo a essa gata de rua aqui, galega? Minha irmã é linda demais!

— Você que é linda demais — Ívi a agarrou pelo casaco e sentiu o perfume dela! Uma vontade antiga e tão simples, que cheiro sua irmã tinha, só queria saber isso.

— E você está me cheirando — Tiziana beijou os cabelos dela sorrindo — A gente queria saber tanto, não era?

— O cheiro, a cor de perto, seu abraço...

Tiziana a apertou nos braços um tanto mais.

— Eu te amo, sabia?

— Eu também amo, amo muito.

— Eu sei que ama, eu sinto. E ainda não acredito que você está aqui!

Ívi também não acreditava, não, ainda estava parecendo surreal! Saíram da estação de trem, Tiziana tinha acabado de comprar um carro, pequeno, mas enfatizou dizendo que podia ter vindo de cavalo, que era para Ívi não reclamar e foi muito interessante ver a intimidade da internet simplesmente sendo transferida para a vida real. Tiziana adorou rever Laura, adorou conhecer María e disse a elas que iriam almoçar em um lugar especial.

— Meu apartamento, é claro! Eu cozinhei para vocês!

Tinha cozinhado. Macarrão muito italiano, com brusquetas de entrada, almôndegas caseiras, um peixe ao forno muito gostoso em um apartamento que não parecia real. Era um loft na verdade, sem paredes divisórias, muito rústico, muito elegante, com flores e plantas parecendo brotar de todos os lados. Foi um jantar perfeito, num lugar perfeito que quando anoiteceu, se acendeu numa iluminação maravilhosa, delicada, quase artística, Tiziana era arquiteta e era artista, Ívi sabia. A noite chegou com Laura dizendo que faria um desenho especial para Tiziana e María pegando no sono no sofá. E, Tiziana quis tomar uma taça de vinho com sua irmã na sua varandinha que também era uma graça.

— Como você conseguiu este lugar? É tão...

— Eu sei, aconchegante, não é? Juntei todo o dinheiro que tinha, dei uma entrada, parcelei para a vida — Ela contou rindo — Não é todo mundo que pode fazer o que você pode, sabia Ívi?

Sorriso de Ívi.

— Isso me assusta, sabia?

— A velocidade que tudo está acontecendo. No começo do ano isso aqui era impensável! Você estar aqui, ou tirando férias em Londres, um lugar que você quis estar, adquirindo coisas grandes, reformando o apartamento, comprando uma casa, um carrão. Impensável, Ívi, e eu não poderia estar mais orgulhosa.

Ívi pegou a mão dela e beijou.

— Eu não poderia estar mais orgulhosa de você também. Das coisas que tem conquistado, sozinha, na garra.

— Somos irmãs, ainda bem que herdei esta parte de você. Amanhã vamos na padaria do papai, ele vai ter uma coisa quando ver você! Mas você disse que queria a minha ajuda...

— Em italiano — Estavam falando em português e Ívi mudou o idioma — Eu quero fazer uma surpresa pra Laura — Chegou mais perto, Laura não falava italiano, mas era melhor não arriscar — Um casamento improvisado, acha que seria possível?

Tiziana abriu um sorriso. Seria, claro que era possível! Mas Ívi teria que abrir mão de algumas coisas, que quando Tiziana começou a falar, foram parando de fazer o sentido que ela queria.

— Eu quero que seja especial, perfeito.

— Ívi, não é porque não terá todas essas coisas que você quer que não será perfeito, ou especial. Especial é surpreender sua noiva num casamento nesse inverno lindo da Toscana. Perfeito é finalmente se casar com ela.

Mas não era bem assim que Ívi achava que deveria ser.

— Fora que, as nossas amigas não estão aqui, eu não pensei nesta parte.

— Ívi, você pode se casar quantas vezes quiser, com a festa perfeita que você tem aí na sua cabeça, não custa se casar aqui assim, com o que tem agora que já é bem romântico, diga-se de passagem.

— E lua de mel com a María?

Olharam para a sala, Laura terminava o desenho, ouvia música, via a tevê, olhava o celular, Laura era dinâmica e criativa assim, e María seguia dormindo.

— Ela dormiu mesmo? É muito cedo.

— Eu sei, mas ela anda dormindo assim, do nada...

Ficaram no apartamento de Tiziana aquela noite, terminando o dia numa conversa gostosa com Laura depois que o desenho orgânico de várias plantas crescendo em uma ruína ficou pronto, uma coisa linda, que combinava completamente com o apartamento inteiro. Deixaram María dormir em paz e ficaram na cozinha, degustando um vinho com uma tábua de frios, conversando, se curtindo, algo bom, que aqueceu por dentro, aquelas duas Schelottos juntas, tão apegadas que mal se soltavam. Dormiram juntas as três, pela sala mesmo e pela manhã, foram tomar café na padaria do senhor Schelotto.

Que não fazia ideia de que Ívi estava na Itália! Tiziana não tinha contado, e quando ele viu as duas filhas entrando na padaria, ele foi às lágrimas. Chorou muito, abraçou sua filha, a tirou do chão a carregando porque ele era padeiro e super em forma. Era um homem extremamente atraente, Laura entendeu de onde vinha o charme das duas garotas e foi bastante gentil com elas. Fez questão de servir um café especial, de passar um tempo com elas, de conversar, conhecer Laura, admirar sua Ívi de perto. Foi um dia muito especial, que María não pôde curtir porque tinha acordado vomitando. Ficou em casa, para não atrapalhar o dia de ninguém, mas a reencontraram para jantar, numa trattoria florida e de comida gostosa. Foram para um bom hotel aquela noite, Tiziana havia sido hospitaleira, mas não havia privacidade no loft e se havia algo que Ívi e Laura não sabiam muito bem, era não aproveitar o tempo juntas para fazer amor...

Fizeram aquela noite, tinham deixado María num quarto só para ela e tiveram uma noite mais do que gostosa, juntinhas, se amando numa jacuzzi aquecida da qual não queriam mais sair.

— Precisamos de mais disso aqui — Laura disse, ainda ofegante pelo último orgasmo, recostada em Ívi.

— Precisamos disso aqui sempre, amoriño, sempre — A beijou, a cheirou, mordeu de leve, o tesão na pele, as duas estremecidas — Eu já estou pensando que em cinco dias, começa tudo de novo...

Laura virou o rosto e a beijou, longamente.

— Não pensa nisso. Você precisa aprender a estar presente, Ívi, não só fisicamente, mas mentalmente. Estamos aqui, esteja aqui, está bem?

Ívi a olhou.

— Até mesmo porque não há outro lugar no mundo que eu gostaria de estar.

— Então esteja aqui, amor, completa.

Estaria. Ívi decidiu que estaria.

Siena foi tão bom que declinaram de Roma. Decidiu ficar por perto, pela Toscana, conhecer tudo do estado de onde Ívi descendia, da sua culinária única, seus sorvetes incríveis, os cafés mais gostosos e a paixão pelo Palio di Siena, onde reza a lenda ser a maior festa do mundo e de onde vinha a paixão de Tiziana pelos cavalos. Foi muito bom andar pela cidade, entendê-la, ver seus pontos turísticos, ir as compras e inesperadamente, estar com María naqueles dias também foi muito bom. Ela pareceu gostar da privacidade, apesar de ter pedido por Laura umas duas vezes para esperá-la dormir. Não fazia mal, era uma menina ainda mesmo, entedia-se a carência e o apego a Laura. Quem Ívi conhecia que conhecia Laura e não tinha apego nela? Até Tiziana já estava apegada. Porém os dias voaram e quando perceberam, já estavam no trem para Florença, na companhia de Tiziana, que fez questão de passar aqueles dois últimos dias com elas.

E o final de tarde em Florença não poderia ter sido mais romântico.

Foram para o alto de uma montanha, para um restaurante maravilhoso, que servia comida italiana, vinho, uma vista maravilhosa. Era naquele lugar que Tiziana tinha idealizado que o casamento de Ívi podia acontecer, com aquela vista das montanhas, com o vinhedo, aquele sol de inverno brilhando demais. Contaram pra Laura a pretensão, sobre o casamento surpresa e ela não acreditou que Ívi tinha declinado! A ponto de ficar chateada de verdade. Fez essa confissão a Tiziana, num momento em que Ívi se afastou com María para ver o vinhedo.

— Tiziana, parece que... Nada nunca está bom. Nada nunca está à altura — Disse, enquanto tomavam um cappuccino.

— “Não é que os sapateiros italianos são os melhores do mundo; são as mulheres italianas que são as mais exigentes do mundo”. São as mulheres exigentes que fazem os sapatos italianos serem os melhores, é da nossa natureza, somos exigentes, porém a Ívi... Ela veio com essa característica em excesso. Por sorte, você é espanhola, somos exigentes as italianas, mas vocês espanholas... Vocês não desistem. Não baixam a cabeça. São as que param o touro dançando. Você tem um touro italiano, galega.

E Laura sentia que era toda sua responsabilidade pará-lo.

Só não fazia ideia de que até o final daquela noite, seus problemas teriam dobrado.

Não puderam voltar para o hotel, porque María passou muito mal e precisou ser atendida. Foi levada até a emergência de um hospital e assim que recebeu o primeiro atendimento, Laura recebeu um olhar da enfermeira. Quis decifrar na hora, não conseguiu. Não precisou. Uma hora depois voltaram com sua irmã.

Uma hora depois, Laura descobriu que María estava grávida.

Notas do Capítulo:

Olá, moças!

Tudo bem?

Escrevendo notas mais curtas hoje por motivos de, estou numa correria intensa e acabei de chegar do trabalho e minha cabeça não está processando as coisas direito. Sinto falta de ter mais um pouquinho de tempo, falta de conseguir responder os comentários, mas enquanto escrever não for meu trabalho fulltime, é o que temos. Vou adaptando e lutando por aqui para manter a rotina certinho e quero aproveitar que esta é a semana da gratidão no meu planner mensal para agradecer a todas vocês ❣.

Agradecer pela companhia fiel a esta história, por seguirem comigo este caminho inteiro, agradecer pela presença no site, por cada um dos comentários carinhosos comigo e com 6 AM 🖤.

Falando um pouquinho do capítulo rapidamente, em que vibe acham que terminamos? Como têm curtido a jornada da Ívi e da Laura também?

Boa semana a todas!

Abraços!

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