6 AM - Capítulo 47 - Mapas

Atualizado: Mar 22


Retornar sozinha foi mais difícil do que Laura avaliou que seria.

Retornou no dia seguinte, já estava com duas faltas no trabalho e com milhares de e-mails e tarefas a resolver. Ligou para seu chefe assim que chegou, se desculpou, falou que havia passado por imprevistos e recebeu apoio de volta: Laura era exemplar. Tão que lhe foi adiantado que seu período de experiência tinha passado e um novo contrato já esperava por ela.

Voltou a trabalhar no dia seguinte e foi um tumulto só. Laura não conhecia María, esta era uma grande verdade, tinha perdido um tempo considerável na vida da irmã e não fazia ideia de quem ela havia se tornado neste período. Bem, havia se tornado alguém incapaz até de acionar uma cafeteira expressa.

María passou aquele dia inteiro perturbando Laura por causa de comida, que não tinha nada em casa, então que não sabia cozinhar o que tinha e aparentemente, também não sabia descer e ir até o outro lado da rua comer fora. Quando Laura sugeriu, ela disse que não sairia sozinha naquela cidade perigosa, que não ia se arriscar andando nas ruas, quando perfeitamente era capaz de fugir de madrugada em Londres para pegar uma balada proibida qualquer sem medo nenhum. Laura chegou em casa exausta e teve que aturar uma crise de alguém que havia feito greve de fome propositalmente, apenas para lhe ferir.

— María, você quis fazer isso! Quis fazer essa cena! Aqui nesta casa as pessoas se viram sozinhas, entendeu? Não há ninguém para te servir!

— Se fosse a Kelsey, haveria! Alguém para me ajudar, para cuidar de mim, tem um bebê aqui dentro caso você tenha se esquecido! É isso que vamos ter? Vou ficar aqui sozinha o tempo inteiro? Você não vê a sua namorada? Não foi por isso que você deixou a Kelsey?!

Laura não iria perder a paciência no primeiro dia. Parou de responder e foi para o banho, deixou María falando sozinha e foi falar com Ívi, por chamada de vídeo, precisava olhar para ela um pouco, um pouquinho que fosse.

E ela estava em Santa Marta, não a de Karime, Santa Marta em Santa Catarina. Numa cobertura, com piscina infinita, vista para o mar, onde estava acontecendo uma festinha de sunset pelo que pôde perceber. Havia... Pessoas. Que Laura não conhecia. Além do grupo normal, que parecia estar em lua de mel depois da crise de Julia, havia mais pessoas, e também um churrasco vegano na churrasqueira, pão de alho que Ívi fazia e, muitas risadas.

Muitas risadas mesmo.

— Olha esta vista, amoriño! — Ela lhe mostrou a praia, o sol caindo no mar.

Laura estava... Lenta para reagir. Particularmente lenta. Mas sorriu.

— O show aí foi ontem? Não lembro bem qual era o seu itinerário.

— Na verdade, é hoje à noite, estamos relaxando um pouco antes, curtindo os últimos dias de turnê com a Julia.

— Entendi. E essas meninas todas...?

— Ah, Heidi tem muitas amigas, você não faz ideia — Ela respondeu sorrindo — Queria que você estivesse aqui. Queria muito, Laura.

Acreditava que ela queria. Acabou desligando mais rápido do que o normal, não queria atrapalhar Ívi em seu momento de descontração, sabia que ela estava trabalhando demais e que a separação de Julia ainda estava tentando ser executada de maneira suave. Julia tinha a confiança necessária para estar em qualquer palco, com Ívi ainda era um pouco incerto, Laura se preocupava com isso, de verdade se preocupava. Desligou e se deu conta de que não havia falado nada. Nem do seu dia, nem de María, mas se Julia não havia perguntado nada sobre María, o que cobrar de Ívi? Não fazia sentido. Entrou no banho, demorou um pouco, precisava se reorganizar e se acalmar, e quando saiu, fez o natural, buscou o celular por uma mensagem de Ívi, mas nada. O visto por último contava que ela esteve online no último minuto, mas não tinha lhe escrito.

Que esquisito. Mas podia ser apenas coisas da sua cabeça, também sabia disso.

Se trocou, saiu do quarto e, ouviu sua irmã rindo. E um cheiro bom vindo da cozinha.

E foi tão bom vê-la que Laura sabia, tinha praticamente corrido para ela.

— Ei, chá de menta — Renata lhe apertou nos braços muito gostoso — Que falta que eu estava de você!

— Você não estava aqui... — Laura nem tinha se dado conta.

Renata sorriu.

— Eu estava de férias ainda, fui pra casa em Arraial, mas já estou de volta aqui. Acabei de saber que você tem companhia agora, companhia espanhola! Eu não sabia que você tinha ido buscá-la — Respondeu, voltando-se para o seu molho no fogão outra vez.

— Eu não fui, é que...

— Ela já sabe do imprevisto. Eu contei e disse que estava com fome — Claro que María tinha contado — Daí ela é linda e decidiu me fazer um jantar... — Respondeu, sorrindo demais.

— Eu decidi! Pra você, para o Gianne, para a Laura, que trabalha muito e merece um jantar aconchegante. Vai ali, vai, deita nas almofadas, pega seu livro para ler, eu vou cuidar de vocês duas hoje.

Foi quase uma frase mágica.

Podia ser sim, podiam fazer assim. Laura foi se deitar nas almofadas, foi pegar seu livro em leitura enquanto ouvia María extremamente feliz por ter feito uma amiga que estava fazendo o jantar. E fez um jantar completo, macarrão com molho, fez almôndegas, um filé ao forno e inclusive, convenceu María a descer para comprar pão. Ela foi e voltou maravilhada com o entorno, disse que viu o metrô perto, que conseguia ir até Ipanema sozinha, até o Museu do Amanhã, ao Boulevard Olímpico, ao aquário! María sempre adorou aquários e agora, ela tinha companhia.

Renata prometeu que a levaria nos finais de tarde para todos os lugares que ela quisesse ir. O jantar acabou sendo extremamente agradável e o dia seguinte já não parecia tão ameaçador.

— Me ensina, Laura. Eu posso aprender — María lhe pediu.

Ensinou depois do jantar, uma refeição simples para o dia seguinte, ensinou a usar a cafeteria e mostrou onde ficavam as coisas, na dispensa e no bairro. Disse que María podia andar no bairro sozinha, que era seguro, mas que ela era muito gringa para andar sozinha para mais longe, que fosse com Renata ou com a própria Laura, que jurou que iriam ao Pão de Açúcar no final de semana.

Agradeceu a Renata, já realocada no sofá da sala.

— Pelo jantar? É o mínimo que posso fazer, Laura...

Por estar aqui. Obrigada.

Renata abriu um sorriso lhe olhando. E lhe abraçou muito longamente antes de dormir.

Laura voltou para o seu celular e agora sim, tinha muitas mensagens de Ívi. Reclamando pela ausência e lhe contando coisas que tinha acontecido no tal jantar pré-trabalho. E pela primeira vez na vida, Laura não quis responder.

Não era não responder para ela, era não responder para as coisas que ela estava dizendo. Laura queria contar do seu dia e do quanto tinha sido complicado, mas contrastava tanto com o dia de Ívi que... Nem tinha coragem.

Respondeu algo no automático e ligou para Karime.

— Laura, conta pra ela mesmo assim. Não contar as coisas pode afastar vocês duas.

— Eu não quero ser chata, Karime, chatice também afasta.

E isso era uma verdade.

— Você vai achar uma saída, você sempre acha. Quando ela vem pra casa?

E desta vez, Laura sequer fazia ideia. Estavam em turnê pelo Sul, fariam shows em Santa Catariana, no Rio Grande do Sul e em Buenos Aires, o que alongou o contrato de Julia com Haíz até depois do carnaval. Nossa, logo seria carnaval novamente e Laura não podia acreditar no quanto as coisas tinham andado. E tinha que resolver María.

— Na verdade, você tem que se resolver com ela, não resolver ela, galega — Renata lhe disse no café da manhã — Se resolve com ela, decide juntas o que vocês vão fazer, ela está em um estágio tenso, está caindo a ficha da gravidez, é complicado e assustador, você deve imaginar o quanto.

Laura sabia que era. Decidiu não exigir tanto dela naqueles primeiros dias, e a verdade é que com Renata por perto, os próximos dias tiveram um ritmo diferente. Era um ponto de equilíbrio entre duas pessoas em claro desequilíbrio, Laura não sabia lidar bem com coisas que não conseguia resolver, ainda não sabia como resolveria María e isso a incomodava e já María...

Ela parecia crescer e regredir todos os dias.

Teve crises por causa do pai. Odiava que ele não retornasse suas ligações, que tivesse colocado a namorada para dentro de casa no dia seguinte à sua expulsão, se sentia traída e tudo piorou bastante quando ela entrou em contato com o pai do bebê. Laura teve que sair correndo do trabalho no meio da tarde, porque María estava tendo uma crise nervosa e quando descobriu o motivo, não teve fúria, pelo contrário, quase teve pena. Se recusava a ter pena de qualquer pessoa, menos ainda de sua irmã, mas ela havia sido sumariamente rejeitada pelo namorado e estava se sentindo a pessoa mais dispensável do mundo.

E ela tinha um bebê. Crescendo claramente dentro de si, estavam caminhando para o quarto mês e o tempo parecia estar correndo, o corpo de María mudava todos os dias e isso a desesperava. Foi isso, naquela tarde, em que completaram três semanas no Rio, entre crises infantis, ondas de maturidade e diversos outros sentimentos, María pareceu cair em si. Cair de verdade e parecia incapaz de sair daquele chão sozinha.

Laura nunca esqueceria. De ter chegado em casa, aberto a porta e visto sua irmã deitada no chão da sala, chorando com os joelhos apertados contra o abdômen, que pela primeira vez, em virtude do calor do Rio de Janeiro, Laura estava claramente vendo habitado. A barriga estava clara, à mostra e Laura...

Queria desabar. Mas não podia. De jeito nenhum podia.

— Tem um bebê crescendo aqui, Laura, um bebê que não para de crescer! Ele nasce o quê? Em cinco meses? O que é que eu vou fazer? Eu não quero mais doar ele. Eu quero ficar com ele, mas como vou fazer?

— María, escuta — Se abaixou junto dela, a fazendo sentar, segurando suas mãos — Nós vamos fazer juntas.

— Só se for, porque, olha em volta, não tem mais ninguém aqui, sabe por que Ívi não vem pra casa??

— María...

— Ela não quer lidar comigo! Nem a Julia quer, elas não sabem como isso vai ser, ela prorrogou o contrato, Laura, prorrogou! Estamos aqui sozinhas esse tempo todo!

— Renata está aqui. Me ajudando a cuidar de você, a tentar achar um caminho válido...

— E quem cuida de você? Por que namorar uma garota que nunca está aqui? Eu queria estar em Londres, queria que você tivesse se casado com a Kelsey, queria estar na vida dela agora, ela ia cuidar, ela ia saber o que fazer...

Foi difícil acalmá-la, aliás, ela só se acalmou quando Renata chegou e isso dizia algumas coisas sobre María. Ela necessitava de atenção feminina, sentia falta da mãe, das irmãs e nada parecia suficiente agora. A chuva sentimental passou e Laura jurou que iriam sair no dia seguinte. Ainda não tinha conseguido levar María para passear, eram muitas coisas, o trabalho, a pesquisa, a casa para cuidar, o pré-natal, sua terapia, seu acompanhamento médico e as crises.

María tinha uma crise diferente quase todo dia, que Laura precisava gerir, cuidar, havia as refeições, María era limitada e tinha as nuances de humor e disposição. E havia Ívi. Exigindo atenção, reclamando da distância que surgiu mesmo pelo celular, não conseguiam mais se falar no almoço e o antes de dormir de Laura estava caótico. Sabia que existia uma guerra pela sua atenção, María de um lado, Ívi do outro e no final das contas, nenhuma das duas estava interessada em seu dia, em seus medos e agora os happy hours de Ívi só cresciam de escala.

Ela explicava que era parte de alguns contratos, que ia nos lugares e recebia por isso, que fazia stories o dia inteiro pelo mesmo motivo, divulgação, propagandas pagas e quando fevereiro chegou, Laura descobriu que só a veria quase no final do mês. E nunca tinha sido tanto tempo assim.

Decidiu ligar e conversar a respeito.

— Ívi, por que isso agora? Por que não está voltando para casa?

— Laura, não é que eu não estou voltando, é a agenda... — Ela estava numa cobertura em Buenos Aires.

— Você terá quatro dias livres e eu entendo, de verdade eu entendo que você não precisa gastar todo seu tempo livre comigo, mas já são quarenta dias, Ívi. E você decide ir para Santiago.

E ela pareceu ter sido pega totalmente de surpresa. Saiu da cobertura, onde outra festinha de final de tarde estava acontecendo, agora parecia rotina.

— Laura, eu ia conversar com você sobre isso...

— Quando estivesse lá provavelmente — Laura detestava chorar, mas seus olhos se encheram sozinhos — Escuta, tudo bem, você anda trabalhando muito, merece uns dias de descanso, mas é que...

— Está precisando de ajuda com a María, eu sei, e sei também que não tenho ajudado em muita coisa, sempre escapo quando você toca no assunto, mas é que eu não sei bem o que fazer, Laura, não sei como agir em relação ao que está acontecendo e por isso, prefiro não falar neste assunto...

— Eu estou com saudades, Ívi — A lágrima escapou — Se a Julia não quer saber do problema com a María, imagina você, eu não tenho nada que exigir, mas eu gostaria de ao menos te ver, de te ter em casa uns dias...

E então foi Ívi quem chorou, muito, sem conseguir controlar. E então que Laura teve que se acalmar e acalmá-la, cuidar de ambas as coisas e não tinha ligado para isso. Tinha ligado para... Ter um pouco de atenção. Achava que era isso, porém, Ívi tinha uma imagem contrária disso.

— Foi você quem mudou. Você que não passa mais tanto tempo comigo, porque está sempre ocupada.

E tinha vontade de perguntar como deveria fazer. Como podia ter mais tempo com Ívi.

Ívi terminou dizendo que voltaria logo, na semana do Carnaval, era final do contrato com Julia e Ívi teria uns dias em casa. Mas o Carnaval era em março, estava a vinte dias de distância e...

Laura respirou fundo depois que conseguiu parar de chorar aquela noite. Pegou uma caderneta, e começou a planejar outra vez. Olhar para o papel, calcular as horas, descobrir como podia dar mais atenção para Ívi, reduzir aquela distância causada pela presença inesperada de María em sua vida. Chegou à conclusão de que podia dormir mais tarde, andava apagando às 22 todas as noites, podia ir dormir à meia-noite, quando Ívi costumava entrar para maquiagem antes de subir num palco. Colocou em prática no dia seguinte, o dormir mais tarde, o dar mais atenção, a não demorar tanto para responder as mensagens de Ívi, também fez questão de fazer algo com María todos os dias e inesperadamente, durante uma volta na Lagoa Rodrigo de Freitas na companhia de Renata, María surpreendeu as duas, dizendo que, queria acompanhar o ano letivo.

— Eu vou enlouquecer se não fizer nada. Preciso estar ocupada, ao menos com rebater bullying que seja, eu preciso. E preciso ir para faculdade a logo também, não posso perder tempo.

E foi outra correria, para ver os papéis, o teste de proficiência que María tirou de letra, o relacionamento com Ívi melhorou quando Laura se esforçou mais para estar mais perto, porém acompanhar as noitadas de Ívi em Santiago foi algo muito complicado. Sentia que estava se esforçando, mas não sentia o mesmo esforço vindo dela.

Mais crises de sonambulismo, mais Laura andando sozinha, mais dias em que corria direto, sem descansar nem um segundo, mais finais de tarde invadindo seu Instagram, mais Ívi cercada de garotas, mais cobranças no trabalho, andava perdendo prazos, se atrasando, outra crise de María, iria começar na escola no dia seguinte, a luz sendo cortada porque Laura esqueceu de pagar, correria para solucionar, não conseguiu resolver no mesmo dia, tiveram que dormir sem energia elétrica e Laura não fazia a mínima ideia de como havia acontecido, mas acordou com sua mão sangrando e, braços envolta de si.

— Laura! Laura! Laura, acorda!

Acordou.

Acordou, quase sem respirar! E com braços muito apertados, lhe prendendo muito forte enquanto a janela de vidro da sala estava quebrada bem à sua frente e o sol nascia. Laura caiu de joelhos ao perceber o que estava fazendo e percebeu que não era apenas dois braços lhe segurando, eram quatro. Era Renata e era María.

Foi um caos. Laura nunca havia acordado durante um ataque e nem nunca tinha tentado sair por uma janela como sua mãe temia. Mas tinha tentado aquela vez. Tinha quebrado o vidro com as mãos e Renata acordou com o barulho, e quando ela se deu conta do quanto era difícil parar uma jogadora de hóquei muito em forma, seus gritos de desespero acordaram María. As duas lhe seguraram, enquanto Laura avançava decididamente a transpassar a janela. E agora estava ali, sangrando e com Renata desesperada, tremendo e chorando sem parar enquanto Laura só tentava se acalmar, sem dar atenção para o seu corte profundo na mão e no final das contas, foi María quem agiu. Foi ela quem correu para estancar o sangue, que pegou água para as duas, que se colocou em ordem primeiro, quem respirou, quem... Tomou conta.

— Laura, meu Deus...

— Renata, tudo bem, está tudo bem agora, está... — María respirou fundo, olhando em volta — Tudo bem, é só um corte, mas precisa de pontos.

— La Mari...

— Precisa, Laura e precisamos de muito mais coisas. Nós vamos nos levantar agora, Renata vai para o trabalho, você vai para o trabalho, Laura, tem uma reunião importante e eu vou para a escola.

— Alguém... Alguém dormiu no calor?

— Ninguém, mas não importa. A gente precisa... Sair daqui do chão.

Laura olhou para sua irmã.

— Está assustada.

Y el miedo se puede romper con un solo portazo. Ninguém vai ficar no chão, foi assustador, mas se a gente ficar aqui vai ser pior. A gente tem que...

— Enfrentar o dia — Era o que Claudia dizia depois de uma crise de nervos. Ela nunca ficava no chão, sempre se levantava, não importava o que tinha acontecido.

— Isso. Está bem, eu te ajudo no banho, Laura, vem...

María lhe ajudou no banho e lhe ajudou com todas as coisas. A estancar o sangramento do jeito que conseguia, lhe ajudou a se vestir, a ficar mais apresentável e María colocou o uniforme da escola. Pública, apesar de Kelsey ter insistido que não precisava ser, mas María era esperta a este ponto de julgamento: seria um alienígena numa escola particular, onde frequenta uma classe de garotas que não costumam engravidar na adolescência. Fizeram como ela havia proposto, saíram juntas, Renata dirigiu, foram até uma clínica e Laura precisou de pontos, sete ao todo, e depois de feitos, uma paz esquisita tomou conta. Foi melhor terem saído, terem seguido com o dia, soube disso assim que deixou María na escola. Ela entrou impávida e sem medo, com aqueles olhos que diziam não precisar de ninguém, ela era suficiente e Laura bebeu um pouco daquela sensação. Deixou Renata no trabalho, agradeceu muito, a ideia do que poderia ter acontecido estava apavorando as três, mas ninguém se permitiu.

Porém, o dia foi tão complexo que Laura terminou chorando dentro do banheiro do trabalho. Seus chefes andavam sendo duros e com razão, Laura estava desfocada e as crianças não podiam esperar, estava trabalhando com recursos federais, com prazos e procedimentos, com entregas que não podiam atrasar. Levou tudo para casa, decidiu que não dormiria aquela noite, iria dormir algumas horas e viraria a noite trabalhando, porque tinha coisas a entregar no dia seguinte. No caminho, lembrou que não tinha energia elétrica e chorou tudo de novo, enquanto dirigia e sua mão doía demais, latejava e, mal podia segurar o celular. Não conseguiu falar com Ívi, e quando ligou, por duas vezes ela não atendeu.

Desligou o celular por raiva. Queria ter agido diferente, mas não deu.

Porém, quando chegou em casa...

Tinha energia elétrica. E a janela estava sendo trocada ao mesmo que uma rede de proteção estava sendo instalada.

— María...?

— Eu liguei na companhia elétrica, eles vieram, achei o cartão de crédito e contratei o serviço.

Laura a abraçou muito forte e teve a terceira crise de choro do dia. Manteve o celular desligado a noite inteira e trabalhou, forte, focada, ajustou tudo o que precisava e, ainda conseguiu dormir, terminou às quatro da manhã e conseguiu dormir até as sete.

Levantou, tomou café, ouviu o clima tranquilo entre María e Renata, todas tinham se acalmado no final das contas. Trocou seu curativo, checou seu horário, sua reunião seria às nove, e seu celular seguia desligado.

Estava ansiosa em ligar. E nunca pensou que passaria por isso, não com Ívi. Ela não sabia de nada, Laura tentou falar por ligação, mas não tinha conseguido e tinha outra coisa. O Instagram estava lhe causando ansiedade. Cada postagem de Ívi lhe deixava ansiosa, nervosa, com ciúmes e não ficava nada tranquila com isso. Não externalizava, sentia que era egoísmo seu não querer que ela se divertisse, mas por outro lado...

Era duro. Era muito duro.

Desceu, tinha decidido ir de Uber, não estava se sentindo bem para dirigir, Renata iria levar María na escola de táxi, aliás, María tinha sobrevivido ao primeiro dia, havia sido bem hardcore, Laura sabia, mas ela estava de pé. Muito grávida e de pé. Pronto, um carro preto parou em frente ao prédio, achou que era seu Uber, mas...

Alguém desceu. Era um Uber, mas de outra pessoa, era de Ívi.

— Ívi? O que você...?

— Você desligou o celular! Como assim você desligou o celular, Laura?!

Ela estava furiosa.

— Eu já ia ligar novamente, é que ontem o dia foi...

— Eu não faço ideia! Você não me fala mais sobre como estão sendo os seus dias, decidiu me excluir da sua vida sem sequer me informar!

— Ívi...! — Laura ficou nervosa — Você tem certeza de que sou eu que está excluindo alguém aqui? Certeza Ívi? Você nunca mais voltou pra casa!

— Então era isso? Desligou o telefone pra ver se eu vinha pra casa? Por favor, Laura, eu nunca te imaginei agindo igual a uma adolescente! Mas claro que deve ser influência da sua irmãzinha mais nova sobre você, é a única explicação!

A discussão seguiu, assim, em público, na calçada do prédio, com Ívi extremamente alterada, muito fora de si. O Uber chegou e Laura disse que precisava ir e Ívi enlouqueceu, dizendo que tinha pego um voo caríssimo de madrugada para estar ali, que tinha voado de Buenos Aires para onde inclusive precisava voltar em 24 horas e foi Laura quem se enfureceu. A discussão ferveu ainda mais, com o Uber parado e sem saber o que fazer, quando o motorista informou que cancelaria a corrida, Laura entrou no carro, disse que precisava ir, não tinha tempo para esperar outro e Ívi entrou junto com ela, e assim, elas seguiram discutindo até a entrada do trabalho de Laura, onde as duas desceram.

— Ívi, por favor, eu tenho uma reunião muito importante agora... — Disse, quebrada em vários pedaços e enfim, Ívi olhou para ela direito.

Parecia que não a via fazia um ano. Laura estava descuidada, cabelo com pontas duplas, sem corte, unhas por fazer, sobrancelha também. Estava com olheiras, olhos inchados e, com algo na mão.

— Laura, o que...?

— Eu explico. Eu só preciso... Apresentar os resultados da minha pesquisa agora. O Ministro da Saúde está aqui.

— O Ministro da Saúde...?

— Isso. É uma apresentação de renovação dos recursos para a pesquisa e...

E sua noiva estava desgrenhada demais.

— Você tem quanto tempo?

— Uns vinte minutos, eu acho.

Em vinte minutos, Ívi a ajudou a melhorar sua aparência. Nem mesmo Laura tinha notado que tinha saído tão desgrenhada, se maquiou, passou base nas unhas, arrumou as sobrancelhas como podia, Ívi andava com tudo isso na mochila desde que sua aparência passou a ser tão notada. Andava com roupas também, fez Laura trocar tudo, manter apenas o terninho que ganhou outro ar com a saia correta e os saltos certos. Prendeu os cabelos no alto, pronto, tudo estava bem melhor.

— Laura, é numa sala?

— No auditório.

— Eu posso...?

Laura olhou para ela. E a beijou, profundamente, sentindo os braços de Ívi lhe apertando muito forte, lhe tirando do chão, lhe abraçando, lhe cheirando, apegando demais, demais. Como estavam com saudades, as duas, como estavam com saudades.

— Você quer assistir?

— Laura, eu não vou largar você nessas vinte e quatro horas, só o impossível de ficar junto, amor.

Mais beijos, mais abraços longos e Ívi a acompanhou, muito orgulhosa de sua menina até o auditório lotado de acadêmicos e autoridades. Casal inesperado, Laura elegante em sua essência natural e Ívi de preto, de jeans, camiseta, chinelo de dedo, não fazia mal, de jeito nenhum. Sentou-se no fundo e assistiu toda defesa, Laura sozinha num palco imenso, defendendo seu trabalho brilhantemente, sem gaguejar, ou falhar, ela nunca falhava, não fazia parte dela e no final daquela uma hora, os aplausos soaram e Ívi estava orgulhosa demais.

Laura teve que entrar em uma reunião restrita com secretários e o ministro, e Ívi se viu naquela situação complicada de ter que pegar um táxi sozinha no meio de uma faculdade em que todo mundo lhe conhecia. Tudo bem, deu alguns autógrafos, tirou muitas fotos e enfim, conseguiu entrar num táxi. Iria pra casa, precisava de um banho, trocar de roupa e voltaria para buscar Laura para almoçar.

Entrou no apartamento e, teve uma crise de choro. Estava morrendo de saudades de casa, morrendo de saudades de Laura e morrendo de medo, da forma que as coisas tinham tomado desde que María entrou na vida delas de vez. Tomou seu banho, dormiu por pouquíssimo tempo, foi buscar Laura de carro para almoçar em um restaurante especial.

Paris 6, que Laura adorava.

Estavam mais calmas e muito apegadas, sem conseguir se soltar nem um pouquinho. Laura explicou o que tinha acontecido no dia anterior e explicou também, muito claramente e sem nenhum filtro, que andava ficando ansiosa com Ívi, enumerando os motivos, dizendo tudo o que estava lhe tirando a calma.

— Laura, por que não me disse nada disso antes? Que estava te incomodando tanto?

— Te ver em festas sem parar? Ívi, eu não preciso dizer. Não é confortável para mim e eu tento, me viro, tento não sentir as coisas e se sentir, tento não atrapalhar as suas coisas.

— Laura, você sabe que eu nunca...

— Isso é o de menos, Ívi. Se você acha que a coisa mais importante pra mim é se você está dormindo com outra pessoa ou não...

— Laura, eu não estou! Você tem meu tesão inteiro, você sabe disso, eu não consigo nem cogitar estar com outra garota e espero que você também não. Eu sei que a Renata segue com você, acha que é confortável para mim? Estar longe sabendo que sua irmã já tem uma nova garota preferida perto de você?

— Ívi, por favor, não. Não implica com a Renata porque eu preciso dela, as coisas estão tão difíceis por aqui, se você pudesse... Ver — Seus olhos se encheram — Se pudesse só... — Estar por perto — Está difícil, Ívi.

Sabia que estava, Ívi sabia.

— Amor, eu... Eu sinto muito.

E sentia mais ainda pela notícia seguinte. Julia tinha vindo também, mas apenas para se despedir. Estava de partida para Barcelona, onde trabalharia no álbum solo, Thai iria com ela, o projeto já estava todo rascunhado e elas estavam animadas demais. E aquilo... Quebrou o coração de Laura.

— Ela veio se despedir então?

— Ela quer ver você e a María antes de ir.

Laura deu de ombros.

— Faz tempo que eu virei conexão.

Aquilo quebrou o coração de Ívi também. Laura voltou para o trabalho, Ívi para o apartamento, onde María já tinha chegado da escola.

Bonita, como sempre era, e muito mais grávida do que Ívi lembrava.

— Enfim em casa — Ela disse, deixando Ívi sem ter ideia do que responder. Era perturbador, vê-la grávida com aquele rosto de menina, era desconfortável e muito perturbador. Então preferiu só ir para o quarto e esperar a hora de ir buscar Laura.

Tomou outro banho, notou mudanças em seu quarto, trocou de roupa, fez outra tentativa com María. Conseguiu. Sugeriu que elas fizessem um lanche, podia pedir alguma coisa para elas e María disse que podiam fazer alguma coisa. Tinha algumas coisas em casa e ela andava cozinhando mais e vê-la assim, também surpreendeu Ívi. Ela explicou como andavam as coisas, da escola, de como Renata ajudava e que andavam tentando normalizar as coisas. Principalmente depois do quase acidente de Laura. E só então Ívi se deu conta da gravidade do que tinha ocorrido, Laura lhe contou em linhas menores, mas María não lhe poupou de nada.

E Ívi entendeu. Ela estava agradável, mas apenas para poder contar algo que fizesse Ívi se sentir extremamente culpada pela sua ausência. E mais, queria que ela sentisse que não fazia mais tanta falta para Laura.

Saiu para buscá-la mais cedo do que deveria, tentou relaxar, respirar fundo, não se intoxicar pelo veneno lançado por María, porém, porém...

Laura sequer conseguiu beijá-la ao entrar no carro.

— Laura, eu vou ter uma turnê de três meses, dias muito intensos, muito corridos. Esses shows na Argentina abriram uma porta ótima pela América, eu tenho datas para estar no Chile, na Colômbia, no Equador, nas Bahamas, no México, terminando em dois shows na Califórnia. Eu quero muito fazer isso, mas não quero ficar longe de você mais.

— Ívi, já falamos disso milhares de vezes, eu não posso largar o meu emprego aqui, é a minha carreira, menos ainda posso abandonar a María...

— Não abandonaria, Renata fica com ela, La Mari disse o quanto elas estão se dando bem. Fora que gravidez não é doença, você sabe disso e nesses meses a gente poderia se reconectar. Estamos desconectas, você está sentindo?

— Claro que eu estou sentindo, é obvio. Mas Ívi...

— Traz ela com a gente! Pronto, traz a María com a gente, acho que ela vai adorar...

— Grávida? Voando a cada dois dias? Ívi, eu apoio a sua carreira. Se é isso que você quer, eu apoio, eu vou dar um jeito por aqui, de arrumar meus sentimentos, arrumar a minha saudade, vou tentar me comportar melhor, mas eu não posso simplesmente...

— Pode! É claro que você pode! Laura, eu sei que seu trabalho é importante, mas você já tem uma equipe, eles vão seguir com o seu projeto, agora ninguém vai seguir o seu projeto comigo! Ninguém pode fazer isso por você. Eu tomo conta de você, você tem acesso as minhas contas, sabe bem que eu já consigo fazer isso tranquilamente, mas você insiste em não dar uma chance real para nós duas!

— Ívi, você ainda não entendeu até agora que nós temos duas vidas! Que eu tenho uma carreira também!

— Que você não precisa! Caramba, você não precisa!

— Ah, eu não preciso? Não preciso por que você vai cuidar de mim? Não, Ívi, eu não vou edificar a minha vida sobre um relacionamento! Eu não vou abandonar a minha carreira pela sua porque amanhã você pode simplesmente cansar de mim, cansar da gente e eu vou fazer o quê? Com o tempo passado? Minha irmã está grávida! Vai ter um bebê em breve, se você sequer consegue olhar pra ela agora, imagina com um bebê. Eu amo você. Amo você demais, sou louca por você, fico aqui contando as horas para você aparecer, aliás, ficava contando as horas, porque logo estava contando dias, hoje conto semanas e amanhã vou contar meses. O que eu faço com isso? — A primeira lágrima caiu — Diz pra mim. Você quer que eu te siga.

— Pra gente ter uma chance! Laura, eu nunca vou te deixar, você sabe disso...

— Eu também achei que você nunca fosse me negligenciar — Seguiu, falando baixo porque estava chorando — Que nunca fosse me deixar sozinha numa situação difícil, jurava que a Julia também não deixaria. Mas olha agora. Eu ainda não sei o que fazer e não tenho a quem perguntar. Eu choro toda noite de medo e só posso recorrer à María. Tenho dormido com ela porque se dormir na minha cama, eu me levanto e vou andar. Eu vou atrás de você. Que eu me perco sobre onde está. Antes, eu acordava no meio da noite e checava a hora. Se era quatro da manhã, eu sabia que podia voltar a dormir porque você já estava em seu hotel, já estava na cama, segura. Hoje eu não sei. Porque você pode estar numa festa after show. E tem as festas pré-show também. E festas quando deveria estar descansando.

— Eu só estou tentando não enlouquecer de tanto pensar em você — Ívi já estava chorando também — Em todas essas festas eu penso como seria ter você ali comigo.

— Eu acredito em você. Mas não faz muita diferença, porque... Eu não estou para festas, Ívi. Eu estou triste. Tão triste quanto fiquei quando perdi minha mãe — Outra lágrima — Não sei o que fazer com isso, então só... Estou seguindo. Fazendo o que tenho que fazer. É o que você me diz sempre. Que está fazendo o que tem que fazer. Eu não quero contaminar você com a minha tristeza, então... Estou tentando manter as coisas normais.

Mas nada estava normal. As duas sabiam. Houve mais choro e mais conversas difíceis, foram jantar fora, falar mais, talvez se falassem tudo, iriam conseguir achar o meio termo, mas no final das contas, Laura seguia na mesma posição e Ívi sequer cogitava a não fazer a turnê de três meses.

— Eu preciso do dinheiro, Laura, você sabe, mi amor.

Laura mordeu a boca, abrindo um sorriso enigmático.

— Você já fez um ponto final sobre onde quer chegar? Porque eu sempre te vejo querendo ir mais longe. Você já pensou sobre isso, Ívi? Sobre o objetivo final e sobre... Nós duas. Há casais que funcionam bem separados, mas não sei sobre a gente, se somos este tipo.

Ívi a olhou com os olhos trêmulos.

— Você vai terminar comigo?

— Meu amor, claro que não — Laura a abraçou para perto — Eu só quero... Vislumbrar. O nosso futuro. Quero acreditar nele, depois dessa situação com a María e essa sua nova carreira. Eu acho que... Estava pensando em outra coisa.

— Que a gente fosse ter mais tempo?

— Eu achei. Mas não quero torcer contra o seu sucesso, claro que não, eu não sou este tipo de pessoa.

— Você gosta de poder ver. Olhar para o futuro e ter certeza. Mais mapa do que bússola, Karime me disse isso. Você tem que confiar mais, Laura, confiar no nosso futuro.

— Eu confio. Mas confesso que gostaria de ter o mapa sobre como chegaremos até lá.

Este mapa, Ívi não tinha.

— Laura, eu... Eu aceitei a turnê.

Os olhos de Laura se encheram. Ela olhou para cima para ver se controlava.

— Então este voo da madrugada... Já é para Montevideo.

— Laura, eu vou dar um jeito, da gente se falar mais, ter mais tempo juntas. Eu juro que vou parar com tantas festas, eu nem gosto de estar nelas, só... Acredita. Depois desta turnê, eu vou repensar a carreira...

— Eu não quero que você repense nada, Ívi, eu só... Não sei de nós duas. São três meses. Três meses sem sequer uma conexão aqui, é isso?

— Eu vou dar um jeito, eu juro que vou, de a gente se ver ao menos uma vez no mês neste período.

Uma vez a cada 30 dias.

Foram pra casa em silêncio. Não se disseram muito, mas fizeram amor de qualquer forma, porque havia uma saudade física que não se calava e nem entendia de coisas mentais, de problemas de sentimentos, menos ainda de crises de relacionamento. Laura não foi deixar Ívi no aeroporto, não teve condições físicas, estava muito tempo sem dormir e sem condições de dirigir com a mão machucada. Sem problemas, se beijaram por minutos inteiros e Ívi partiu sozinha.

Chorou assim que entrou no táxi. Laura chorou o tempo acordada e só parou quando o sono a derrubou.

Notas do Capítulo:

Olá, moças!

Todas inteiras em plena quarta-feira de Cinzas?

Capítulo denso e cheio de emoções entrecortadas, não é?

Acho que a cada capítulo agora o caminho para o capítulo 0 vai ficando mais claro e a melhor parte para mim neste tipo de arco de tempo é perceber que a construção das personagens aos poucos vai fazendo mais sentido. Laura foi uma personagem que deu trabalho no início, nas primeiras leituras tive que lutar contra uma frieza excessiva que escapava dela e sombreava o bom coração e a extrema sensibilidade que ela tem e vendo o desenrolar dos capítulos de agora, acho que justifica o meu errar de mão no comecinho: desde lá, esta parte da história aqui já estava construída e sabendo disso, acho que inconscientemente eu tentei superproteger esta personagem e corri o risco de deixá-la mais fria do que deveria 😬

Olhando para toda a carga de tensão que está sobre Laura Bueno agora, eu justifico a frieza dela no comecinho e acho que vocês me absolvem também, não é?

Próximo capítulo, "Bússola", estamos nos aproximando do final, favor não esquecer de comentar!

Abraços!


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