6 AM - Capítulo 48 - Bússola

Atualizado: Mar 22


— Eu acho que preciso admitir que estou sendo egoísta — Foi o que Laura disse para Karime quando se encontraram para almoçar no dia seguinte.

— Laura, Laura, espera aí, vou te falar uma coisa que acho que você não notou: você foi abandonada. Duas vezes. Acabou de ser abandonada duplamente, pela Julia e pela Ívi caso você não tenha percebido.

— Karime... Eu não vejo assim. É terrível estar aqui sozinha, melhor dizendo, seria terrível se eu estivesse sozinha mesmo...

— Sim, porque sem a Renata aqui eu nem sei como você estaria fazendo as coisas. Eu voltaria pra casa, Laura, eu nem sei se não devo voltar agora...

— Karime, por favor, você ainda está recém-casada, eu nunca permitiria, interferir mais na sua vida do que já tenho interferido...

— Laura, eu vou cuidar da María com você, eu não me importo de ir buscá-la no colégio todo dia se for preciso...

— É que ela tem te ligado e...

— Porque tem dó de você e medo de sair sozinha da escola. Você sabe que estão sendo bem hostis com ela, eu conversei na coordenação pedagógica e eles me informaram do bullying constante e de como ela tem lidado bem com isso. Ela é feroz, Laura, é inteligente, brava, corajosa. E eu acho que acabei de descrever uma mãe solteira para você. Ela vai saber como se virar, agora ela quer aquele bebê, quer cuidar dele, ela vai dar um jeito nessa bagunça toda. Mas ainda tem quatorze anos e precisa de você. É estrangeira, estudando numa periferia, eu sei exatamente como é, e é por isso que se ela me ligar trezentas vezes pedindo ajuda, eu vou estar lá, porque sei lidar com bullying muito bem. Eu só não achei que... Sinceramente, eu achei que a Ívi tiraria um tempo depois do fim do contrato de Haíz, mas ela é imparável, ou não quer parar aqui e a Julia eu prefiro não me pronunciar, ela é crescida, mas segue adolescente em algumas coisas. Ela apenas se isentou da María, se isentou por trás de um cheque mensal e acha que é suficiente. Então não, eu não vou deixar você se sentir egoísta, você está fazendo o que pode e o que não pode, e só o fato de você sequer balançar pela Renata é a prova cabal de que você é louca por aquela gata de rua workaholic mesmo...

E Laura acabou rindo, mágica de Karime.

— Eu sou louca por ela. E acho que... Nos meus mapas, tão bem desenhados e planejados, eu esqueci de fazer uma rota que me colocasse no caminho dela caso ela virasse uma estrela do rock. Ou da pickup. Como seja. Eu tenho essa culpa.

— Vocês terminaram?

Outro sorriso.

Nunca. Eu não deixo aquela garota por nada. Eu só preciso... Acho que abandonar os mapas e pegar a bússola. Eu sei onde vou chegar com a Ívi, eu só não sei... O caminho.

Karime a olhou. Saiu da sua cadeira e a abraçou muito forte.

Laura terminou seu almoço e retornou ao trabalho, onde seguia tentando desatrasar as coisas, os prazos quase perdidos, Laura sabia o quanto seu projeto era importante, não podia deixar as coisas escaparem do seu domínio e quando enfim chegou em casa aquela noite, já era quase dia seguinte. Renata estava dormindo na sala com a tevê ligada e achou María dormindo em seu quarto. E agora o quarto de Laura já contava com uma nova rede de proteção instalada em sua janela.

Chegou perto de sua cama, olhou sua irmã dormindo, a barriga que não parava de crescer.

La Mari?

— Eu usei seu cartão de crédito de novo. Não tinha rede na sua janela. É um absurdo. Não fique brava.

Abriu um sorriso.

— Não fico. Você quer cuidar de mim.

— Como você cuida de mim. Laura... — María sentou-se na cama — A Ívi foi embora?

— Não, claro que não. Ela encerrou com Haíz, mas entrou em uma nova turnê, como DJ, voou para Montevideo de madrugada.

— Eu estou complicando a sua vida, não é? Ela não quer estar aqui porque eu estou aqui, ela não quer este problema, ter que lidar com uma adolescente grávida. A Julia não quer lidar. Só você quer — Ela disse, e os olhos se encheram.

— Ei, tem mais gente que está lidando. Não seja injusta.

— A Renata, a Karime, eu sei, a Noah, ela me trouxe hoje, sabia?

— A escola continua difícil?

— Continua. E eu vou continuar lá. Não sei como vou fazer para não perder o ano, mas não vou perder. Laura, eu não quero acabar com o seu relacionamento. Sei que não parece, mas eu não quero mesmo.

— María, a minha relação não está complicada por sua causa. Está complicada porque Ívi e eu não fizemos planos para depois, nenhum plano otimista demais que pudesse prever que ela entraria em turnê internacional por exemplo. Eu não sei como... Encaixar a minha vida na dela. Ela também não sabe como resolver esta parte.

— Mas vão resolver. Aquela gata de rua não é louca de perder você.

Não era.

E o primeiro show tinha sido incrível.

Em Punta del Leste, na praia, não eram as vinte mil pessoas para quais estavam acostumadas a tocar com Haíz, mas eram cinco mil pessoas, numa rave cheia de energia, que só terminou com o nascer do sol. E finalmente, Ívi pôde chegar em seu hotel.

Ótimo, confortável, tinha feito um acordo com Natalia, nada de casas de luxo alugadas, nada de festas desenfreadas, na verdade, antes mesmo de Laura reclamar, já era algo que estava lhe incomodando. Não gostava de não poder descansar, e nem de fazer sala para pessoas que não conhecia, era coisa de Natalia e Heidi, de Julia e Thai, as super sociáveis, mas não coisa de Ívi. Se sentia esquisita por estar naquelas festinhas sem Laura. Com ela, até que gostaria, mas sem, perdia completamente o sentido. Tomou um banho, se trocou, olhou pela janela. La Mano de Punta del Leste lhe acenou da praia e Ívi...

Queria chorar.

Se deu o direito. Deitou na cama e chorou até se sentir exausta, até conseguir se acalmar, checou o horário, mais duas horas para poder ligar pra Laura, ela estava no trabalho, sabia, tinham se escrito pouco depois que Ívi partiu e sabia que as coisas estavam fora do lugar. Estavam tristes, desconectadas, não podiam ficar assim, não podia perder Laura daquele jeito. Dane-se o trabalho dela, ligou mesmo assim, ligou três vezes, sem resposta e então, quando largou o celular, ela lhe retornou por vídeo.

— Oi, meu amor...

E Ívi desabou chorando de novo.

— Amoriño, eu achei que você não ia me atender...

— Eu sempre vou te atender, Ívi, o que é isso, mi amor?

— Eu não posso perder você.

— Você não consegue me perder, eu não consigo te deixar. Escuta, amoriño, está tudo bem, nós estamos bem, nós vamos dar um jeito de resolver tudo isso se você quiser...

Conversaram por quase uma hora, ainda que Laura estivesse trabalhando, que tivesse tido que se esconder no carro para conversar, mas estavam desconectadas e não podiam ficar assim, precisavam se acertar. E se acertaram, não sabiam bem como seriam aqueles meses longe, mas confiariam na bússola, no coração uma da outra, dariam um jeito em tudo, sabiam o final, só precisavam confiar.

E assim começaram os meses mais difíceis da vida de Laura.

María precisava de ajuda.

Melhor, Laura precisava de ajuda com ela

Primeiro achou que estava vendo coisas demais. Não podia ser verdade, deveria estar enganada, era como girar a roleta das doenças mentais dividida em milhares de chances negativas e ganhar em todas elas. Claudia, Karime e agora María. O que estava presenciando com María era muito mais que os hormônios da gravidez, eram crises muito claras de distúrbio bipolar e quando se deu conta, Laura quis estar errada como nunca em nada na vida.

Mas o diagnóstico veio, de maneira muito fácil e muito clara, e conforme a gravidez avançava, mais complicadas se tornavam aquelas crises.

Havia dias que María estava em si, estava calma, tranquila, no controle da situação, mas havia dias em que não a reconheciam. Dias em que ela chorava, fazia cenas, tirava Laura do trabalho, parava a embaixada chilena ou a Starbucks, era como um furacão de estimação cheio de sentimentos, despejando caos e apego para todos os lados, varrendo a cidade, sacudindo o mundo e Laura não fazia ideia do que fazer! María não podia ser medicada por causa da gravidez, a orientação era tentar contê-la e não deixar que ela se machucasse, porque havia esta questão também e na quarta semana sem Ívi por perto, foi Laura quem quase desistiu. Mais um dia de crise, outra tarde que saiu correndo do seu trabalho, mas não foi por causa da crise de La Mari, foi por causa de sua própria crise.

Laura acordou nos braços de Ívi e na calçada de seu prédio.

Chorou tanto que Ívi teve que carregá-la para dentro, porque Laura não pôde mais se mover, não pôde se explicar e era completamente avesso tentar explicar como havia ido parar de calcinha e moletom na calçada do seu prédio, às quatro da manhã.

— Ívi, Ívi...

— Shssss, meu amor, calma, calma...

— Você está aqui mesmo? Ívi! Responde se está aqui!

Ívi a colocou na cama e a beijou, longamente, cravando os dedos em Laura numa aflição tão grande que deixou marca. Apertou Laura mais, a beijou, a cheirou, não deixou que ela escapasse dos seus braços nem por um centímetro, nem por um segundo e Laura agradeceu por isso. Simplesmente agradeceu.

— Laura, você não é esquizofrênica, só é sonâmbula, eu estou aqui, amor, vim te fazer uma surpresa, mas... — Respirou fundo, ainda sem soltá-la, o coração de Ívi estava tão disparado que ela estava suando em plena madrugada — Laura, você ia atravessar a rua.

— Eu não ia, eu... Como eu cheguei lá embaixo? Eu sou incapaz de destrancar fechaduras dormindo.

— Destrancou três. Abriu a porta do apartamento, pegou o elevador, abriu a porta do prédio, destravou o portão e...

E foi Ívi quem teve uma crise. Chorou muito, ficou nervosa, não quis soltar Laura nem um pouquinho e foi Laura quem teve que acalmá-la.

— Ívi, para, não pensa nisso, pensa que você chegou na hora certa, pensa que eu deveria estar te sentindo e por isso...

— Eu deveria estar aqui. Laura, eu deveria estar aqui...

E ela estava triste e culpada, depois do voo de 8 horas que havia pegado para passar três dias perto de Laura. E então, pegar outro voo de 10 horas até Santa Marta na Colômbia, a ilha de Karime. Laura a levou para o banho, onde ficaram agarradas e juntinhas até aquele ponto em que enlouqueciam pela pele uma da outra e terminaram fazendo amor, do jeito delas, aquele amor que queima, que gruda, de um corpo descontrolado pelo outro, da maneira que não tinham feito da última vez. E sim, elas voltaram uma para a outra.

Por sorte, era sábado e Laura não tinha que trabalhar, e às 6am as encontrou agarradinhas, juntinhas na cama, buscando sono para dormirem uma nos braços da outra. E Laura enfim, dormiu de verdade. Dormiu como há muito não acontecia, ela andava dormindo no máximo quatro horas por noite e acordava, preocupada, com qualquer coisa fervendo em sua mente, acordava e ia atrás de María, ia ver se ela estava bem, se estava dormindo porque os episódios de insônia andavam constantes nela também. Ívi despertou por volta das dez e decidiu não mexer com Laura, ela seguia dormindo, tranquila, segura e...

Calma. Porque você está aqui — María lhe disse quando se levantou para buscar café — Ívi, ela não dorme sem você aqui. Eu não sei como ajudar. Olha pra ela agora. Ela precisa dormir assim todo dia ou eu não sei o que vai acontecer com ela.

— La Mari... — Ívi perdeu o que ia dizer. Havia sapatinhos azuis abertos numa caixa sobre o balcão — É um menino?

Ela abriu um sorriso.

Nomeia ele.

— Como? — Abriu um sorriso.

— Nomeia ele. Nomeia você, pelos estragos que eu ando fazendo, no seu apartamento, na vida da Laura, na sua. Nomeia ele.

— La Mari, eu queria pôr a culpa toda em você, aliás, eu adoraria, mas nem posso. A Laura não pode se desfazer de você e nem eu posso querer isso dela.

— Na verdade, eu queria estar viajando com você pela América, de fato, quem está atrapalhando são aquelas crianças adoráveis de quem ela está cuidando...

Sorriso de Ívi, era verdade.

Matteo. O bebê. Ele não deve ter nome de ursinho.

Sorriso de María. Seria Matteo.

Matteo. Filho de um furacão apelidado de La Mari.

A calma só durou até o final da tarde e pela primeira vez, Ívi pôde presenciar pelo que Laura andava passando. María se enfureceu por causa de mensagens em seu Instagram, tinha postado uma foto e a chuva de haters era maior do que aquela que se via pelos posts de Heidi, Heidi era amada e odiada na mesma proporção e María parecia ir pelo mesmo caminho. Tinha Instagram de celebridade, com inscritos em milhares, era uma menina bonita, inteligente e talentosa, Ívi não duvidava que ela era popular, mas surpreendeu-se ainda assim. E também não fazia ideia que uma crise de nervos dela fosse daquela forma.

María ficava agressiva e era uma metralhadora de coisas ruins. Laura não deu atenção a crise e a mira se voltou contra ela, disparando onde doía, todas as mágoas, afiadas e sem dó nenhuma, da morte da mãe a manhã em que Laura foi pega com Julia na cama e foi tão constrangedor que Ívi preferiu se retirar. Fechou a porta do quarto no exato momento em que Renata voltava do trabalho. Ficou surpresa em ver Ívi, lhe abraçou sorrindo e perguntou o que estava acontecendo.

— Algo que eu não faço ideia do que seja. A María só... Começou a ofender, a chorar, a gritar, Renata, isso...?

— Anda sendo todo dia.

E Ívi viu no rosto dela que estava sendo difícil. Complicado. E que podia ficar pior. Renata contou que não estava conseguindo pagar a faculdade e que tinha pedido demissão. Iria ficar até o final do mês e então provavelmente...

Quis implorar que ela ficasse. Foi sua primeira reação. Depois quis fazer uma proposta mais indecente ainda e percebeu que a questão não era apenas financeira. Renata estava mais madura, mas ainda era si mesma. Tinha conseguido terminar o namoro e agora só queria ir pra casa, retomar seu curso técnico, trabalhar com petróleo. Era isso. Ela acalmou María de um jeito que Ívi nunca seria capaz e então, a noite percorreu, Renata saiu para encontrar umas amigas, La Mari dormiu de cansaço e Laura entrou em ação enquanto Ívi dedilhava seu piano.

O apartamento estava todo revirado, o que deixou Ívi particularmente irritada. Detestava bagunça, gostava das coisas em ordem e mais especificamente ainda, gostava que estivessem na sua ordem e depois da crise de María, acabaram tendo um estresse por causa disso e tal estresse havia resultado naquilo: atirado Ívi em seu piano e Laura para pôr as coisas em ordem em absoluto silêncio. Esperou que ela pedisse ajuda, mas Laura tinha esta arrogância, a de não pedir ajuda ou admitir que estava com problemas, nem com aquele apartamento em lotação máxima haviam tido este tipo de bagunça de agora, se Renata não ajudava, não fazia mesmo sentido ela permanecer ali e quando disse isso em voz alta, pareceu que o coração de Laura se quebrara bem à sua frente.

— Ela te disse que vai embora?

— Está cumprindo aviso prévio, ela não te disse nada?

Não havia dito, e a reação emotiva de Laura deixou Ívi louca.

Então ela estava sentida porque Renata ia embora, sentida daquele jeito e elas duas não tinham nada mesmo, é claro, nunca tinham passado daqueles flertes que Ívi conhecia tão bem e isso deixou Laura furiosa.

— Ívi, é sério isso? É sério mesmo?!

— Laura, você fez a mesma coisa com a Kelsey! Fez comigo, esqueceu? Quem me garante que não está acontecendo a mesma coisa aqui? Você naquela situação comigo, me tocando, ficando perto, tomando banho juntas, fazendo tudo menos beijar em respeito à sua namorada! Quem me garante, Laura, responde, quem me garante?!

Eu garanto para você! Eu estou dizendo que não há nada aqui além de eu estar perdendo a pessoa para quem eu posso correr quando a María entra em crise! Sabe o que é engraçado, Ívi? Suas festinhas desenfreadas, em que você aparece cercada de mulheres, mas não fica com nenhuma, não dorme com nenhuma, você chegou arranhada aqui! Acha que eu não vi?

— Eu já te disse que foi uma fã louca que me segurou enquanto eu estava passando!

— E eu acredito em você! Eu sempre acredito em você e este deve ser o meu problema! Ívi, você sabe qual foi a última vez que a Julia ligou para mim? Faz uma semana! Ela está com medo da La Mari como se ela tivesse se tornando infecciosa!

— Eu estou com medo dela como se ela fosse infecciosa! Olha o show que ela armou com você, Laura! E você lá, calma, quieta, aceitando este comportamento inaceitável!

— Ela está grávida! Está entrando no sétimo mês e você espera que eu faça o quê? Eu estou tentando tudo o que posso, Ívi, inclusive com você! Tentando estar perto, tentando entender, compreender, apoiar a sua carreira, mas está difícil! Você não me apoia de volta!

— O que mais você quer que eu faça? Eu voei oito horas de tempo só para passar uns dias com você e olha isso! A casa está uma bagunça, sua irmã não sabe se controlar e eu encontro você, tendo crises porque sua Renata decidiu voltar pra casa, Laura, por favor!

E foi Laura quem pediu por favor.

Não, não aguentava mais, de jeito nenhum aguentava, não dava, não conseguia, não via saída que lhe fizesse se acalmar.

— Você entende por que eu não quero mais voltar pra casa ultimamente? Agora você entende?!

E aquilo partiu o coração de Laura em vários pedacinhos.

— Então por que está aqui, Ívi? Se é mais divertido estar nas suas viagens, com pessoas que eu não conheço, sem compromisso algum?! Aqui está a vida real, Ívi! A vida que você não quer ter que lidar! Aqui o apartamento suja, não tem serviço de quarto, aqui tem um problema que não sei como resolver, minha irmã está grávida antes dos 15 anos, o que você espera que eu faça? Que eu finja que o problema não é comigo como a Julia fez? Mas sabe, Ívi, eu namoro você, é pra você que eu costumava correr quando tinha medo, quando tinha problemas e você sempre estava aqui. E não, não era fisicamente, nós sempre tivemos tempo físico reduzido juntas e isso nunca foi um problema. O problema agora não é você não estar aqui, o problema agora é que estamos vivendo vidas diferentes demais...

— O problema é que você deixou o gene obscuro ocupar você! O que você tem feito por você, me fala? Tem jogado hóquei, tem desenhado, o que você tem feito por você?!

— O que você tem feito por você? Além de trabalhar feito louca, o que tem feito por você? Qual a última vez que andou de patins? Ou que leu um livro que curte? A última vez que estudou inglês, que checou sua faculdade, a última vez que você viu a sua mãe agora que você pode? A última vez que você me viu foi há 63 dias. E a gente nem tinha feito amor direito — Lagrimou — Eu suportaria isso se você estivesse sentindo falta de mim como eu sinto falta de você. Eu suportaria se seu coração estivesse doendo a ponto de você escrever uma daquelas músicas românticas das quais sempre se envergonha no final de tão bonitas que são. Eu suportaria se parasse para me escrever um bilhete, ou para finalizar as frases no WhatsApp com um “linda”, com um “meu amor”, um “amoriño”. Você corre tanto que sequer consegue mais fazer isso. Corre tanto que responde de qualquer jeito, que mal me lê. Eu te conto coisas que escapam da sua visão seletiva. Eu entendo um dia corrido, dois, três. Mas não tenho como entender que todo dia seja corrido. Porque me dói. Porque eu sinto a sua falta, falta... — Mais lágrimas, mais choro tremido — Da minha Ívi. Falta daquela atenção a cada pequena coisa. Falta de você entrando aqui com os seus presentes inesperados, simples e lindos, falta de você ajustando sua agenda para que possamos ficar juntas. Falta de... — Tocou seu pingente, aquele de pena no pescoço — De você usando o meu pingente.

— Laura, é que... Eu saí correndo e...

— Algo sempre é esquecido quando você sai correndo.

— Laura...

— Eu acho que não consigo mais fazer isso. Não consigo... Me dividir assim. Não consigo ficar aqui, tendo esperança de você aparecer do nada para ficar comigo, você não me dá mais sequer datas de retorno, isso me causa uma ansiedade que...

— Ei, amoriño, escuta, por favor, me escuta, eu fico com medo de te dar datas e não conseguir cumprir, mas sempre que consigo eu corro pra cá, eu corro para você...

— Ívi, está tudo errado. Minha vida está errada, meu trabalho só anda atropelado, eu não consigo desenhar, andar de patins, não consigo parar numa Starbucks para tomar um café que eu adoro. Isso me consome, a casa me consome, essa situação da María que... Todo mundo partiu. Kelsey nunca mais ligou, Julia eu já te disse e você... Você não está aqui, amor. Você está em outras coisas, está em sua turnê, nos problemas de lá, correndo para a academia, para produzir suas músicas, para comparecer onde tem que estar e isso também me deixa ansiosa, ficar imaginando onde você está, com quem está e... — Ívi andou pela sala e foi pegar sua jaqueta — Ívi?

— Eu não vim aqui para isso, eu vim aqui para relaxar três dias que fosse e não está sendo possível.

— Ívi, você não vai...?

— Sair? É claro que eu vou, aparentemente você não acredita que eu canso, que eu também trabalho duro, que a minha vida também está difícil, aliás, você tem ficado com a parte simples, tá? Seu apartamento está reformado, você vai para o trabalho de Audi, não faz ideia de quanto custa a conta de luz ou o convênio para a María, mas isso são coisas fúteis, sem importância...

Laura não estava acreditando no que estava ouvido.

— Quem é você?

— A idiota que ama você — Pegou a chave do carro e caminhou para a porta.

— Ívi, nós estamos conversando! Se você sair agora...!

— Não preciso voltar? Não é o que você vive dizendo? Que eu não quero voltar? Então — Simplesmente saiu batendo a porta.

Laura não tentou segui-la, mas teve certeza de que ela voltaria logo. Que estava nervosa, mas iria se acalmar, a própria Laura estava à flor da pele e este estado não era o melhor para se conversar. Era isso, Ívi tinha feito o certo, tinha saído para que se acalmassem e voltaria logo, com algo que Laura gostava, voltaria para fazerem as pazes. Então se acalmou. Terminou de arrumar o apartamento, deixou como Ívi gostava, foi para a cozinha fazer um jantarzinho e então entrou em um banho longo, se trocou, usou algo que ela gostaria e, esperou. Ficou no sofá vendo uma série, desenhando à mão livre, passou uma hora, decidiu escrever para ela e... Risco único. Escreveu de novo, mesma coisa, então tentou ligar e foi apenas para descobrir que, o celular estava desligado. Olhou para a mesa arrumada na cozinha, romanticamente arrumada, tinha posto flores, escrito um bilhete de desculpas e, o celular estava desligado?

Tudo bem, ela ainda estava com raiva. Esperou um pouco mais, assistiu mais um episódio, outro, quando deu por si, tinha terminado uma temporada e nada. Daí ficou com fome, tinha acordado fora de hora e não tinha almoçado, decidiu jantar, quando Ívi chegasse faria companhia para ela, mas então deu duas da manhã e Laura se deu conta de que talvez ela não fosse voltar.

Não sabia bem como tinha sido, mas quando acordou, estava no sofá e María estava gritando em desespero.

Ívi tinha ido dormir com Karime. Estava nervosa, furiosa demais, estava cansada de estar sempre na posição de errada, de quem não acerta nada, Laura não entendia o quanto estava se esforçando para ter as coisas que tanto sonharam e parecia também ter esquecido o quanto Ívi a amava. E ainda tinha a história com Renata, que Ívi não conseguia entender de jeito nenhum, mas tudo bem, tudo bem! Laura estava sensível, estava cansada, Ívi também entendia que não estava fácil, estavam sensíveis as duas, estressadas, mas a grande verdade é que não podiam desperdiçar outra noite. Ívi não havia vindo terminar, muito pelo contrário. Agradeceu a Karime e Noah, inclusive pelas broncas que tinha ouvido das duas, lhe abrindo os olhos, precisava de um chacoalhão e quando foi pra casa cedinho, foi decidida a desfazer a bagunça toda.

Chegou em casa, com flores e bolo de pote, porém...

Viu primeiro a mesa arrumada para o jantar e apenas um prato sujo e aquilo quebrou seu coração inteirinho. Era sério? Era, Laura tinha feito o jantar, o filet au poivre que Ívi adorava, tinha arrumado uma mesa bonita, colocado flores e Ívi...

Por qual raio de motivos não tinha vindo mais cedo?

Correu para o quarto, para ver se ela ainda estava dormindo, iria acordá-la com um café da manhã bonito, mas Laura não estava lá. E quando abriu o quarto de María, o coração de Ívi disparou.

Havia uma poça vermelha na cama.

Ligou seu celular imediatamente, tinha milhares de chamadas de Laura perdidas e quando tentou retornar, não tinha sinal, estava desligado e quando o desespero já estava lhe tomando, Renata ligou.

— O bebê nasceu!

— Como assim nasceu? Faltam dois meses!

— Ele se adiantou. Vem pra cá, Ívi, a Laura precisa de você...

Foi pra lá, dirigindo tão rápido que tinha certeza de que sua caixa de correio encheria só de multas aquele mês, e Laura imaginou milhares de coisas, milhares, menos ver Ívi chegando com flores, ursinhos de pelúcia e bolos de pote.

— Ívi...

A puxou pela cintura e a beijou, carinhosamente, cheia de apego.

— Me desculpa, amor, por favor, me desculpa... O que aconteceu? Cadê o bebê?

— Ela... Ela passou mal a noite, entrou em trabalho de parto fora de hora e parto normal, ele... Ele nasceu em casa.

— Em casa? Como...?

— Em casa, quando eu cheguei no quarto o bebê estava nascendo, eu entrei em pânico, mas consegui chamar a ambulância. Alguma coisa induziu o parto e... — Os olhos dela se encheram — Ela estava drogada, Ívi...

— Drogada? Drogada de quê?

— Eles não sabem bem, estão fazendo exames para descobrir, isso deve ter induzido ao parto e...

Teve uma crise de nervos intensa que Ívi não sabia bem como ajudar. Mas acabou sabendo, conseguiu acalmar Laura e depois que Karime e Noah chegaram, elas puderam entrar. E María estava incrível. Acordada, não havia dormido nem por um instante porque queria...

Ver seu bebê. E se desculpar com ele.

— Ele... — Não parecia um pré-maturo.

— Ele não é. Errei a data, os exames mostraram a data certa, mas não mostrei pra Laura por que... — Seguia olhando para o bebê, de cabelos escuros, espessos, que estava dormindo no colo dela.

— Eu saberia que você mentiu para mim.

— Eu sinto muito. Por ter mentido, sobre quando eu disse que só havia sido uma vez, só um cara...

— O que você usou ontem?

— Remédios da Karime. Eu queria dormir. Ainda quero, você pode... — Passou o bebê para os braços de Laura — Segurar o Matteo, eu preciso dormir, Laura, eu preciso...

E foi assim que Matteo foi parar nos braços de Laura e, nos braços de Ívi.

De repente, tudo se desfez. O parto traumático, a irresponsabilidade de María, a briga de antes, tudo simplesmente se desfez com Matteo dormindo nos braços de Ívi e Laura. María apagou mesmo, cansada, exausta e as horas passaram diferente com aquele príncipe dormindo, respirando, vivendo, do lado de fora do corpo de sua mãe. Ívi e Laura se olharam, os olhos das duas molhados, a garganta fechada, porque Matteo parecia um milagre. Aquela coisinha pequena, ronronando tão baixinho que até parecia um bichinho, meio assustado por estar naquele lugar diferente, tão mais barulhento e menos aconchegante. As horas partiram, numa outra velocidade, achavam que María tinha dormido por umas dez horas, acordando apenas para dar de mamar e ainda assim, não parecia tão acordada. Matteo mamava e voltava para os braços de Laura, ou para os braços de Ívi e o silêncio imperou durante aquele dia.

Mas nada de silêncio constrangedor, era um silêncio feliz, um silêncio aconchegante, uma vontade de não perturbar aquele menino lindo que parecia ter decidido vir ao mundo com a assinatura de sua mãe: teimoso, impetuoso, dentro do seu próprio tempo.

— Laura... — Ívi estava abaixada à frente dela, a observando dar mamadeira para o pequeno príncipe e, ela sorria, brilhante, cancelando todo o cansaço do mundo por causa daquela criatura pequena — A gente precisa resolver tudo isso. A gente precisa de um bebê nosso.

— Eu sei que precisa — Ela respondeu com os olhos brilhando — Ívi, eu achava que ainda teríamos tempo, não tem berço, não há roupas, eu não consegui pensar em nada disso...

— Renata foi resolver. O berço, as roupas, todos... Os equipamentos. Que o bebê precisa.

Laura riu baixinho.

— Os equipamentos?

— É, todos eles — Sorriso também — Você vai ficar bem?

E ao ouvir aquilo, o sorriso de Laura partiu.

— Se eu vou ficar bem?

— Eu tenho o voo, amoriño, esta madrugada, lembra?

— Ívi, você... Você vai?

— Para a Colômbia. Lembra que o final da turnê é na Colômbia, Bahamas, México e Estados Unidos?

— É que... — Sua garganta secou. Tinha achado que talvez... — Ívi...

— Laura, está tudo bem, não está?

— Ívi, tem um bebê no meu colo e uma adolescente bem ali!

— Eu sei, mas é que... Amor, você sabe que eu não posso...

— Cancelar nada, eu sei — Lagrimou, sentindo Matteo se aninhar no seu peito — Ívi... Eu acho que não consigo mais.

— Laura, não diz isso...

— Então não me deixa aqui. Nesta situação em que eu nunca estive.

— Eu não estou te deixando, amor, por favor, eu vou ficar com você o tempo inteiro...

Duas lágrimas grossas caíram dos olhos de Laura.

90 minutos. A Kelsey desistiu da gente porque 90 minutos não são suficientes. E hoje é o que nós temos, 90 minutos por dia, às vezes menos e... Eu rasguei os mapas, tentei ser apenas bússola, confiando que meu coração saberia para onde levaria nós duas. Mas agora...

— Laura, escuta: — Ívi agarrou as mãos dela — Não faz isso agora, eu vim aqui para te fazer uma surpresa, para dizer que comprei um apartamento onde você tanto queria morar, nós vamos para a Urca, amoriño, eu queria te mostrar, levar você lá...

— Ívi, eu sinto muito, mas o que eu queria de verdade é que você me desse dez dias com você, só para eu entender como... Como este bebê funciona, só para eu não me sentir sozinha nisso tudo. Me dá dez dias com você, por favor.

Houve muitas lágrimas, de Laura, de Ívi, do bebê que acordou agitado.

— Não faz isso, Laura.

— Não faz isso você. Não me deixa aqui, eu estou sozinha, estou com medo, eu preciso de você.

Ívi deixou mais lágrimas grossas caírem porque aquilo doía de um jeito...

— Eu tenho um contrato.

Laura afirmou, tudo bem, tudo bem. E então lentamente, se moveu e quando Ívi se deu conta do que ela iria fazer...

— Laura!

Tirou o pingente e, o anel de noivado.

— Eu não vou te devolver, eu só não vou usar mais. Eu estou ansiosa, eu estou sofrendo, eu não aguento mais isso. Eu não aguento ficar sem você em casa, acho que sou este tipo de mulher, o tipo que eu mais temia que é o que precisa de alguém. Eu preciso de você. Mas se você me deixar aqui agora, eu não quero mais precisar.

— Está me pondo contra a parede.

Laura negou.

— Não — Respirou fundo — Você pode ir. Livre, sem peso, sem ter que se preocupar com voltar para casa ou não.

— Laura, você é a minha casa... — Mais lágrimas.

— Você comprou uma nova. E agora precisa pagar por ela. E é por isso que você não pode ficar, eu conheço você. Ívi, eu estou aqui, sentada, segurando este bebê. Não me deixa. Eu estou assustada, estou com medo, estou constrangida de estar tendo que te pedir isso. Não me deixa. Eu preciso de você.

Ívi a beijou, longamente, puxando Laura pela nuca, a cheirando, a apertando em seguida, depois daquele beijo longo.

— Eu vou buscar algo para você comer.

Buscou, trouxe sopa para elas duas, conversaram mais um pouco, cuidaram do bebê um pouco mais, Ívi o carregou, ficou com ele, aquele corpinho deitado sobre a sua tatuagem de onça-parda olhando os filhotes. Queria tanto aquilo, queria muito um bebê de Laura, com os traços dela, um bebê para criarem perto do Pão de Açúcar, no apartamento novo que queria mobiliar, reformar do jeito delas, com piscina interna, no canto da sala, do jeito que María gostava.

Laura pegou no sono na poltrona.

E quando acordou, Ívi havia partido.

Notas do Capítulo:

Olá, moças! Como vocês estão?

Por aqui as coisas continuam insanas. Dessa vez me encontro no interior do Amapá, em divisa com o Pará. Definitivamente, muitíssimo longe! Correndo para finalizar 6AM, para terminar a revisão de Delirium, criando uma nova história que não para de brotar em minha mente e ainda organizando a pré-venda de Sal. Ufa, eu consigo! hahaha

Então, estamos próximas do capítulo 0. Laura é tudo, né?! Quando comecei a história, confesso que Torre Bueno foi um grande desafio para mim. Trabalhei nela por muito tempo, e acredito que consegui trazer em uma personagem aquilo que queria. Laura é a personificação da mulher imbatível, da garra, da força, porém ela está cansada, precisa ser cuidada, precisa de atenção e muito carinho, mas aquela que poderia dar tudo isso a ela, está vivendo um outro momento, está conseguindo conquistar os seus sonhos, mas um segredo: Ívi ainda vai ver que isso não é tudo e que as consequências serão maiores do que ela jamais imaginou. Aguardemos!

E garotas, as mesmas regras de sempre! Nos vemos na próxima semana!

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