6 AM - Capítulo 49 - Laura e Ívi

Atualizado: Mar 22


Laura passou três horas inteiras trancada dentro do seu banheiro chorando quando percebeu que Ívi havia embarcado.

Tinha saído do hospital meio ainda sem entender bem o que havia acontecido, não pôde compreender na hora, mas então enquanto dirigia pra casa, se deu conta: havia acontecido que tinha implorado para Ívi ficar e ela foi embora da mesma maneira. E sem se despedir. Nem um bilhete que fosse, uma mensagem de texto, nada. E foi quando se deu conta de que aquela atitude, nada mais era do que uma volta ao dia que Laura tinha partido para Londres, mesmo depois de terem ficado juntas na noite anterior.

Foi por isso que desabou. Foi assim que desmoronou entendendo que era uma volta da vida, o retorno negativo de uma atitude sua, uma lei do universo, era assim. Então chegou em casa e quando percebeu que não estava sozinha, se trancou no chuveiro, chorando sem conseguir parar, deixando uma aflita Karime do lado de fora sem ter ideia do que poderia fazer.

— Laura! Você não é a Thai! Por favor, não faz isso comigo não...

— Eu só preciso... — Respirou fundo, estava molhada, ainda de roupa, sentada sob o chuveiro frio, abraçando os joelhos contra o abdômen — Chorar. Eu juro que só vou chorar aqui, até eu me acalmar.

Karime entendeu que não poderia tirá-la de lá. Então apenas esperou, cuidando da bagunça que um parto em casa causava, correndo com Renata para arrumar minimamente o espaço para o bebê e nisso perceberam o quanto Laura não estava em si.Ela jamais deixaria algo importante como o quarto de um bebê para os últimos dois meses e isso lhe fez refletir o quanto a ausência de Ívi a atingia, a bagunçava, a tirava do domínio pleno da situação. E não era apenas a ausência de Ívi, mas a presença de María, a ausência de tempo para Laura se organizar em sua vida nova, em suas responsabilidades novas. Ela estava agindo parecido com quando Karime a conheceu, aquela espanholinha expulsa de casa pelo pai, em busca do pai biológico e de alguma segurança no Rio. Laura levou um tempo, mas ajustou todas as coisas, conseguiu se reorganizar, encontrar seu ritmo novamente. Mas desta vez, sem tempo. Desta vez, sem pai fada-madrinha para aparecer, desta vez, sem tempo de solução, desta vez, havia um bebê chorando no colo de uma mãe adolescente e isso não podia esperar.

E como da primeira vez, ninguém viria resolver.

Laura se levantou enfim. Ainda iria chorar a noite, sabia bem e iria chorar pela manhã e provavelmente, por todos os dias daquela semana, todos os dias daquele mês, todos os dias em que lembrasse que estava sozinha como da primeira vez. Porém, havia ficado de pé por si mesma da primeira vez, de pé sozinha enquanto Julia se divertia em Madrid e Ívi sequer existia. Ficaria de pé novamente. Sabia que ficaria.

— Laura...? — Ela enfim havia saído do banheiro.

Seis horas depois de quando havia entrado.

O sofrimento ainda no rosto, nos olhos inchados, na voz rouca de tanto chorar. Mas estava de pé. De banho tomado, cabelos molhados, de toalha ainda, mas de pé e com o choro estancado.

— Karime, eu vou passar por tudo isso.

— Oh, Laura, é claro que vai, você duvida disso, té de menta? Nós vamos dar um jeito, a Ívi foi intempestiva, mas...

— Eu vou passar por tudo isso em relação a Ívi, Karime. Eu vou conseguir, eu vou aprender a ficar sem ela, vou abandonar essa bússola e voltar para os meus mapas, vou desenhar o meu presente e o meu futuro outra vez e vou conseguir. Se eu não morri quando perdi a Julia, se eu não morri quando perdi minha mãe, eu não vou morrer desta vez também.

— Laura, Laura, espera aí: você está me dizendo que vai terminar com a Ívi?

Ela terminou comigo. A princípio, eu achei que ela estava me devolvendo o que eu fiz com ela quando fui para Londres, mas eu me dei conta de uma coisa: eu não namorava com ela naquela época; eu namorava a Kelsey. Eu só fui para Londres para honrar o meu relacionamento, a minha namorada, que confiava em mim, que tinha investido na nossa relação, foi por isso que eu fui, foi pela Kelsey e pela lealdade que ainda que maculada, eu devia sim a ela. A Ívi honrou o contrato dela quando pegou aquele voo. E eu não vou julgá-la por isso de jeito nenhum, Karime, é uma atitude honrada, da mulher responsável e trabalhadora que eu sei que ela é. Eu me apaixonei por ela assim, ela é brava, tem garra, honra, responsabilidade. Porém, ela fez uma escolha e eu preciso aceitar que não é a primeira vez que ela faz esta mesma escolha, e que também não será a última e mais do que qualquer coisa, eu preciso aceitar que eu não consigo fazer assim...

— Laura, espera...

— Eu não consigo ficar sem ela aqui por tanto tempo, é a verdade. Eu quis me enganar, quis acreditar que as coisas iriam amenizar, que eu ia conseguir me comportar melhor a respeito disso, mas eu não consigo, Karime. Não consigo e ela não me deixou sozinha aqui, ela me deixou sozinha com uma adolescente e um bebê recém-nascido, que não são responsabilidades dela, mas eu sou. Não foi com eles que ela não pôde se importar, foi comigo. Eu não posso fugir desta responsabilidade e não estou sendo egoísta, é que eu não posso mesmo. Você sabe que eu não posso.

— Laura, todo mundo sabe que você não pode. Aliás, até pode, a Julia está fugindo desta responsabilidade há meses, e ela é tão irmã da La Mari quanto você. Você pode, mas nunca fugiria. Laura, espera, senta aqui, a Ívi deve estar pousando em uma hora e sei que ela vai ligar para você, sei que ela tem como explicar...

Laura agarrou os punhos de Karime, delicadamente, buscando seus olhos. E aqueles olhos agora apenas castanhos se encheram de lágrimas outra vez.

— Eu não quero outra explicação. Eu não preciso que ela explique, Karime. Eu amo a Ívi, mas ela não está disponível para mim, você entende? Não é culpa dela, e isso me dói muito. É culpa de não haver jeito da minha vida encontrar a dela e se eu não me mover, ela também não vai. Ela está tendo tudo o que quer, menos eu. Porque ela não me tem, você percebe? A gente mal se vê. E se a gente se libertar disto aqui — Retirou a gargantilha, sentindo demais por aquele gesto. Tanto que as lágrimas caíram outra vez — Ela pode encontrar alguém que a siga, como ela precisa, como a Kelsey encontrou também. E eu vou poder focar em terminar de criar a La Mari e descobrir como criar aquele bebê.

— Laura, pensa bem...

— Eu já pensei. Vai ser bom para ela, vai ser bom para mim também. Ela sabe que me deixou, Karime, ela sabe. Eu não vou passar por isso novamente. Eu vou sofrer tudo agora, vou sofrer de uma vez, inclusive...

Chamou Renata. Ela pretendia ir embora e Laura a liberou para ir quando quisesse. Quanto antes tivesse o cenário final, mais rápido seria começar a arrumar as coisas que precisava. Iria conseguir. O celular tocou assim que se acertou com Renata, elas se entenderam, terminaram a conversa com um sorriso, Renata tinha sido maravilhosa, mas parecia muito feliz de poder voltar pra casa, Laura não a culpava, também iria embora se pudesse, mas como não podia...

Como não podia, ficava. O celular seguia tocando. Karime lhe olhou vendo quem era.

— Você vai...?

— Atender, claro que vou. Ela me atendeu, ainda quando eu fui para Londres, ela me atendeu.

Atendeu.

— Laura! Eu achei que...

— Eu não fosse te atender, eu sei, mas você me atendeu, não atendeu?

— De Londres, eu atendi — Os olhos de Ívi estavam cheios quando aterrissou e não tinha nenhuma mensagem furiosa de Laura no celular, ficou muito preocupada. Mal desceu do avião e já estava ligando para ela, mas algo estava errado.

Ívi estava sentindo um medo enorme no seu coração.

— Laura, escuta...

— Você não precisa me explicar nada, Ívi, as coisas se explicam muito bem sozinhas. E eu preciso que você entenda que apesar de eu parecer tranquila agora, é só porque eu já me desesperei muito quando percebi que você tinha viajado mesmo, e...

E que Ívi entrou em desespero. Era isso, o medo no coração, era o pressentimento de que tinha feito uma escolha ao entrar naquele avião que talvez não pudesse ser desfeita. E era isso que Laura estava tentando lhe explicar no celular, calma, tranquila, fazendo sentido em tudo o que dizia, Ívi não estava errada, nem a própria Laura estava, mas havia problemas e o principal deles era que Laura não conseguia mais fazer aquilo. Não conseguia mais ficar sem Ívi e Ívi não podia mudar o ritmo de trabalho. Eram duas coisas que não se podia abrir mão e essa sensação...

— Laura, eu não vou aceitar! Se você insistir em romper comigo, vai ter que fazer isso olhando para mim, não por telefone, isso é um absurdo! Você foi a Londres fazer isso com a Kelsey!

— Ívi, eu não estou negando isso, é claro que não! Nós vamos conversar, não se pode terminar assim, nós já temos contas em comum, coisas em comum...

— A gente se ama! É a coisa em comum mais importante que nós duas temos!

— Eu sei. Eu sei disso — Falou apenas isso e se calou. E aquele silêncio significava muita coisa.

Se o amor era mais importante, por que Ívi precisava correr tanto atrás de coisas? Se desesperou outra vez, porque não tinha essa resposta. E nem tinha como sustentar sua decisão de ter deixado Laura sozinha, com um bebê.

— Laura, eu volto agora se você me pedir. Volto pra gente conversar pessoalmente...

— Ívi, Ívi, não precisa voltar. Fica calma, você saiu daqui por um propósito, cumpra ele. Faça os shows que precisar e quando tiver uma folga, você vem, a gente conversa, acerta o que precisar.

— E enquanto isso...?

Laura lagrimou.

— Enquanto isso... Ívi, eu pedi para você não ir.

— E você não está me deixando voltar!

— Eu não queria que voltasse, queria que não tivesse ido! Não quero que volte ameaçada, não é este tipo de relacionamento que eu gostaria que a gente se tornasse. Vamos deixar as coisas assim, eu não me sinto bem para conversar mais agora, mas quando me sentir melhor, eu vou atrás de você...

— Eu não vou conseguir fazer isso. Se você se afastar de mim, eu não vou aguentar ficar olhando por este aplicativo, a minha ansiedade vai acabar comigo. Se você decidir por isso, eu vou desconectar o número — Elas se falavam por um número exclusivo — E só vou poder reativar no Brasil. O chip está em casa.

Silêncio. Laura pensou e pela primeira vez em muito tempo, só pensou em si. Se não falasse com Ívi, ela não poderia lhe convencer de que tudo estava bem, se não falasse com ela, as duas poderiam começar a entender como seria aquela vida que as duas tentaram evitar: a de ficarem separadas.

— Ívi, talvez seja melhor.

Foi outra crise, que culminou numa discussão que Laura não queria ter. Não queria falar mais, não queria que se ferissem mais, não queria ficar buscando por coisas que Ívi não poderia lhe dar e se continuassem com o canal aberto, sabia que iria ficar. Laura amava Ívi, com cada célula do seu corpo, a amava assim, amava visualmente, fisicamente, sentimentalmente, mentalmente, amava de todas as formas que podia se amar alguém e ficar com ela era sua natureza principal. Querê-la era seu instinto. Explicou isso para ela, que não estava saudável, que estava sofrendo e duas horas depois, com Ívi já em seu hotel, concordaram com o tempo. E concordaram também que só conseguiriam este tempo se Ívi desconectasse seu aplicativo. Fizeram juntas, Ívi saiu da conta e a perda de informações na tela de Laura partiu seu coração demais, partiu o de Ívi também.

— Pode ser que isso nos ajude — Laura lhe disse.

E o desespero de Ívi foi imaginar que talvez ajudasse Laura a descobrir que não precisava de Ívi tanto assim. Mal desligou e encontrou a mensagem de Natalia, se estava pronta, se já podia sair, estavam atrasadas, Ívi tinha que se maquiar, afinal...

Tinha um show aquela noite.

— Natalia...

— Ficar chorando no quarto não vai resolver nada de qualquer forma, Ívi.

E assim, Ívi foi para o seu show enquanto Laura voltou para o hospital.

Os três primeiros dias foram os piores. Era difícil não olhar no celular, ainda que soubesse que não haveria mensagens, Laura olhava quase que por recorrência. Olhava, doía, chorava, mas não podia parar. Conseguiu um dia de folga do trabalho para ajustar as coisas do bebê, o quarto básico, as coisas que nem sabia que precisaria, Renata lhe ajudou com tudo e então partiu no final da tarde, deixando Laura com aquela noite inteira a enfrentar ao lado de María.

Matteo era um bebê comum, que não dormia como a maioria dos recém-nascidos e que chorava, como qualquer bebê também chorava. Já não havia dormido a noite anterior e também não puderam dormir na noite que seguiu. Matteo não dormiu, La Mari estava esgotada pelo dia e foi uma noite extremamente complicada, fria e assustadora demais. O bebê não parava de chorar, María mal conseguia se manter acordada, teve febre, estava fraca e na vigésima sexta hora acordada, Laura só queria ligar para Ívi. Chorou no banho, de medo, cansaço e saudade, chorou porque estava com medo de seus sentimentos, com medo de não conseguir superá-la nunca, com medo de ter tomado a decisão errada.

Porém, enquanto tomava café da manhã para ir trabalhar, porque teria que ir de qualquer forma, uma foto no Instagram quebrou seu coração de vez.

Ívi numa balada, cercada de pessoas. Ela estava bem, aparentemente não estava se importando, ou se estava, estava curando e aquilo foi tão difícil de processar que Laura não pôde entrar no carro. O carro era Ívi, aliás, seu guarda-roupa também era ela, tinha camisas dela espalhadas por cada canto da casa porque sentia falta e precisava sentir o cheiro dela. Já estava sem a gargantilha, sem a aliança, se recusou a usar o carro ou choraria o caminho inteiro. Foi de Uber. Chorou no intervalo do seu almoço e chegou chorando no hospital, tanto que teve que parar, respirar, se recompor e quando entrou no quarto de María e a viu amamentando, o sorriso surgiu, de algum lugar claro dentro da sua alma, depois de todas aquelas horas de choro, Laura conseguiu sorrir.

Sorriu, chegou perto de sua irmã, ela estava com os olhos brilhando, olhando para aquela criaturinha tão pequena que precisava tanto delas duas.

— Vem aqui, deita aqui comigo.

La Mari...

— Vem, Laura, vem — Lhe puxou pela mão, lhe fez subir na cama, encostar a cabeça em seu ombro — Ele parece com você, está vendo? Vi esses olhos só hoje.

— Ainda vão mudar de cor — Respondeu sorrindo, fazendo um carinho no bebê.

— Eu não quero que mude, quero que siga parecendo com você, quero que ele seja bonito e que seja bom, que seja inteligente, forte, lutador, desse jeitinho que você é. Escuta, eu quero que você durma, está bem? Quero que jante, eu vou cuidar do Matteo hoje e cuidar de você.

— María... — Desabou chorando pela décima vez só aquele dia.

María lhe apertou muito firme, lhe beijando a testa afetuosamente, tentando lhe manter segura, protegida, Laura sabia que era isso e de alguma forma, funcionou. Funcionou chorar, falar o que tinha acontecido, María não lhe julgou, na verdade, não estava acreditando que Laura tinha terminado com Ívi.

— Laura, ela também não deve estar acreditando.

— Eu fui clara, María.

— Laura, ela não está acreditando, é por isso que está tranquila desta forma.

— Eu não acredito nisso, La Mari.

— Acredite, é isso o que está acontecendo. A Ívi é louca por você, Laura, eu tenho milhares de reclamações sobre ela, mas esta não é uma.

E de alguma forma, María tinha razão.

Ívi havia voltado arrasada do Brasil, mas enquanto fazia maquiagem e falava com Natalia, a conversa com ela realmente lhe acalmou. Laura estava nervosa, Ívi sabia que tinha agido errado, sabia que Laura estava frágil e que precisava de proteção. Porém, tinha um contrato a cumprir, tinha mais de trezentos mil ainda a pagar no apartamento que havia acabado de comprar, não podia abrir mão de seus shows, era pelo futuro delas, Laura iria entender e iria lhe perdoar. Quando voltasse para ela em uma semana, ela iria lhe perdoar e esta certeza, de alguma maneira, lhe fez relaxar.

Doía muito ficar sem falar com ela, mais do que qualquer coisa, então achou uma maneira de lidar com isso que foi se mantendo ocupada o máximo que podia. Então disse sim para todos os convites que apareceram, sim para as presenças VIP, sim para as inaugurações e para as festas extras para fazer contatos, sim para tudo o que lhe mantivesse ocupada a ponto de só retornar para o quarto de hotel para dormir. Ou ligaria para ela. Daria um jeito. Sabia todos os números de cabeça e lá pelo terceiro dia, isso começou a lhe sufocar de verdade.

Ligou para Karime, precisava saber de Laura, saber do bebê, saber de María, se tudo estava bem, Karime lhe respondeu tudo, mas de uma maneira tão fria que Ívi teve que ligar para Noah para entender. Daí entendeu. Estavam todas chateadas com Ívi, julgando sua atitude, mas não importava, se Laura entendesse, era tudo o que importava e Ívi tinha certeza de que ela entenderia.

María saiu do hospital três dias depois do parto, estava bem, saudável, o bebê também e em casa, Laura teve certeza de que as coisas melhorariam um pouco. Ao menos estariam no apartamento, era mais confortável para descansar, a única coisa que não previu foi a parte de, sem as enfermeiras por perto, as coisas ficariam mais intensas.

Não tinham ideia de tudo o que as enfermeiras faziam e assumir as funções delas foi algo quase de outro mundo. Matteo exigia demais, precisava demais daquelas duas mães de primeira viagem que não faziam ideia de como proceder. Seguiam à risca toda a rotina que trouxeram, mas o bebê parecia extremamente criativo em precisar de coisas que as enfermeiras não tinham previsto ou dito como resolver. O apartamento se tornou uma bolha de estresse e choro contínuo, Laura seguia tendo crises de choro por causa de Ívi, María seguia chorando de desespero mesmo, e Matteo, bem, era super compreensivo que o bebê chorasse uma vez que não deveria estar se sentindo muito seguro naquela situação toda.

A primeira semana em casa deve ter sido a pior da vida de Laura inteira. O sono cobrava um preço muito alto, lhe cobrava atenção, destreza para dirigir, clareza nas suas decisões e nem diria nada sobre seus estudos. Sua pesquisa não estava conseguindo evoluir, Laura mal conseguia ler os dados novos que recebia, mal conseguia estar presente na fisioterapia das crianças e lá pela quinta-feira, algo muito inusitado aconteceu:

Laura foi dada como desaparecida por algumas horas.

Então, quando se atrasou demais na volta pra casa, María se desesperou, ligou para Karime que foi até a Fio Cruz e nada de Laura, ninguém sabia dela, mas aparentemente ela não tinha saído do prédio e um grupo saiu em busca dela, até que, perto das onze da noite, Laura foi descoberta dormindo em um dos banheiros. Agradeceu que foi Karime. A todos os deuses, agradeceu que tivesse sido Karime.

Karime a levou pra casa aquela noite, cuidou dela, disse que ela precisava dormir, tomaria conta de María e do bebê aquela noite. Porém, só durou até uma da manhã. Matteo acordou, chorando, exigindo e nem María e nem Karime conseguiram acalmá-lo. Porém, já era a sétima noite de Laura com aquele bebê. Sete dias para Laura Bueno era suficiente para um bom aprendizado. Levantou-se, sendo acordada pelos gritos do bebê, o pegou no colo e ele a buscava como todas as pessoas apaixonadas por Laura buscavam: com apego e carinho, se agarrando em sua proteção. Ele se acalmou. Com ela andando com ele pela sala, cantando para ele, conversando baixinho num tom tão bom que até María e Karime se acalmaram.

— Você podia dormir comigo, Matteo, eu preciso trabalhar de manhã, o que você acha? — Deitou-se com ele no sofá, o pondo sobre o seu peito onde ele se acalmava mesmo — Podemos fazer um acordo: dormimos por três horas, até a hora de você comer novamente, tudo bem? Parece um bom plano, não parece?

Tão bom que María dormiu, Karime dormiu e quando Matteo fechou os olhos, Laura pegou no sono também.

E foi acordada por um beijo na boca.

— Ívi...

Shssssss, meu amor, quietinha, fica quietinha aqui porque — Tirou Matteo do peito dela, o pegando nos braços porque ele já estava reclamando — Ele está com fome, amor...

— Ívi, você está aqui mesmo?

Ívi riu, acalmando o bebê.

— Não é esquizofrenia, já falei para você, meu amor — A beijou novamente, com todo o amor, carinho e devoção do mundo... — Laura, me perdoa, você não pode terminar comigo assim, de jeito nenhum, não é permitido...

Laura chorou de madrugada, mas de uma felicidade imensa que nem sabia que podia sentir. Ívi lhe colocou para dormir um pouco mais e assumiu o bebê, tinha experiência com bebês, sabia como funcionavam, sua mãe trabalhara como babá nas horas vagas e Ívi perdeu as contas de quantos bebês olhou quando era pequena. Alimentou Matteo, cuidou dele, o acalmou, o fez dormir e quando Laura acordou para ir para o trabalho, a casa parecia outra.

Tudo estava arrumado, Matteo estava dormindo no berço, seu café da manhã estava na mesa e ela não tinha ideia de como podia não perdoar Ívi. Perdoou, esqueceu que tinha sido deixada para trás, o efeito de Ívi seguia o mesmo, ela voltava e o mundo ficava muito mais leve, o dia parecia bem mais bonito do lado de fora e mais do que isso, com ela por perto, Laura se sentia imensamente mais segura. Segura de qualquer coisa. Foi trabalhar, sabendo que tudo estava bem, sabendo que Matteo estava seguro, que María comeria certinho, que iria voltar e a casa não estaria revirada, que sua vida não estaria revirada. Não era que quisesse que Ívi fizesse aquilo sempre, é claro que não e nem era apenas por isso que precisava dela por perto, mas se sentiu tão estúpida tendo que explicar a si mesma os motivos que queria Ívi perto que se deteve. Não tinha que explicar os motivos, a precisava perto porque ela era sua, sua namorada, sua noiva, precisava dela porque precisava, ponto, não precisava se justificar, era parte sua, seu instinto, era isso.

Ívi veio lhe buscar no horário, em companhia especial, Matteo e María estavam dando seu primeiro passeio desde o hospital e foi uma noite extremamente tranquila. Deram uma volta, jantaram em casa e María cuidou de Matteo a noite inteira, porque tinha dormido bem na noite anterior, o que significou que Ívi e Laura puderam ter lua de mel. E estava tudo tão bom que sequer tocaram no assunto da separação, não falaram sobre Ívi ter ido embora do jeito que foi, Laura não falou do seu coração partido e nem Ívi fez questão: estavam juntas, era isso que importava, optaram por aproveitar aqueles dias, ainda que o coração de Laura tivesse ficado acelerado boa parte do tempo. Tentou entender do que aquilo se tratava e entendeu quando Ívi foi embora outra vez.

Mais precisamente no terceiro dia, ela disse que precisava ir embora e acabaram tendo a briga mais longa e exaustiva da vida. E não era da vida entre elas, era da vida delas com qualquer outra pessoa. Foi mais longo e exaustivo do que a briga com o pai por causa de Julia, mais dolorosa do que aquela última que precedeu o nascimento de Matteo, tão triste e tão dolorida que Julia estava em casa na noite seguinte.

E Ívi havia partido outra vez.

— Eu vou atrás daquela gata de rua...!

— Julia, não — Laura estava exausta de tanto chorar, por sorte, era domingo — Fica aqui, me ajuda, o bebê está doente e a María também. Só fica aqui e me ajuda.

Decidiu ficar. Até para entender o que estava acontecendo, porque aquela garota que abriu a porta nem de longe parecia com sua Laura, aquela Laura forte, imbatível e inquebrável que estava acostumada. Julia veio de Barcelona e passou uma semana em casa, terminando de escrever seu álbum, fazendo companhia para María, de Matteo servia para distrair o bebê, mas não para cuidar, Juls definitivamente não havia sido feita para isso. Passou aqueles dias tentando entender Laura e entender Ívi também, elas não se falaram mais depois da discussão, Laura não queria saber e Julia estava preocupada com Ívi não estar entendendo exatamente a gravidade do que estava se passando. Ela estava nos Estados Unidos, estava empolgada com tudo, deslumbrada com a Califórnia e muito envolvida para querer acreditar que tinha um problema mais sério com Laura desta vez. E Laura, bem, tinha aberto mão de quase tudo por conta da velocidade das coisas.

Ela estava lutando para encontrar uma rotina que não tinha se estabilizado ainda, estava tentando equilibrar várias coisas ao mesmo tempo e assim, também estava envolvida em coisas demais para acompanhar o deslumbre de Ívi pela Califórnia. E Julia... Julia estava muito incomodada com aquilo tudo.

— Laura, tem paciência...

— Eu tenho toda a paciência, Juls, toda — Respondeu, dando a mamadeira para Matteo enquanto andava pela sala.

— Ela não entendeu ainda que é sério.

— Eu não a quero desesperada por isso, eu só... — Lagrimou — Não posso mais. Está me fazendo muito mal.

— Você está certa sobre tudo isso?

Mais lágrimas, um beijo na testa de Matteo.

— Eu só... Não quero sofrer mais.

E foi assim que quando Ívi voltou da turnê internacional no final do mês, encontrou suas coisas todas transferidas para o apartamento da Urca.

— La Mari, como é que ela fez isso?! Ela só pode estar brincando comigo...

— Ívi, escuta, ela está te esperando lá na Urca, vai, ela quer conversar...

— Me dá o Matteo — Pediu, já muito nervosa.

— O quê?

— Me deixa ficar com ele um pouco.

María deixou e aquilo acabou levando muito tempo. Fazia mais de um mês que ela e Laura não se viam e Ívi estava com medo, é claro que estava com medo. Mas quando enfim se acalmou, ela pegou o carro e dirigiu para a Urca, alternando em dirigir muito rápido e muito devagar porque não sabia se queria chegar logo ou não. De qualquer maneira, chegou.

E o apartamento ficava num lugar maravilhoso. Subiu de elevador, até o décimo andar e assim que entrou, já avistou Laura, sentada no chão, perto da parede de vidro que percorria toda a sala espaçosa. Tudo havia ficado pronto, do jeito que Ívi queria.

— Laura...

— Eu consegui apressar todas as coisas, para que ficasse pronto logo. Não tem tudo, mas tem o básico e...

— Você trouxe o meu piano para cá — Ele estava ali, posicionado na sala, que contava com um sofá, uma tevê, a piscina interna brilhava, a cozinha básica com geladeira, fogão, micro-ondas, qualquer coisa que... Ívi pudesse precisar — Laura, o que está acontecendo?

— Vem cá — Esticou a mão na direção dela — Senta aqui comigo.

Ívi foi, já molhando o rosto e quando se abaixou perto dela, Laura lhe puxou e lhe abraçou muito longamente, aqueles abraços apertados em que se agarravam, se cheiravam, a pele vibrava, o coração disparava, era assim sempre. Aconteceu tudo igual outra vez, mas quando Ívi tentou beijá-la, Laura a interrompeu. Tocou os lábios dela com os dedos, tocando sua testa na dela.

— Senta, amoriño.

— Não termina comigo.

Laura lagrimou.

— Nós já estamos terminadas, Ívi, eu sei que você já percebeu isso tanto quanto eu. E não é apenas por causa da distância, é por causa que não estamos conseguindo manter contato mais, simples assim. A gente não conversa mais, não consegue lidar com a distância e eu lembro que a Tiziana me disse uma vez que quando duas pessoas querem estar juntas, elas ficam juntas. E nós éramos muito boas nisso, eu não sei o quê... — Respirou fundo, Laura não queria chorar mais — Eu não sei onde começamos a perder isso, a nos separar desta forma, mas isso aconteceu e segue acontecendo, segue... Desarrumando a minha cabeça. Eu não queria depender de você assim.

— Laura, não tem dependência aqui, tem que eu amo você e tem você que me ama, nada de dependência, amor...

— Eu dependo, Ívi e isso me consome demais, ficar aqui, te esperar voltar, ter você e então não ter mais, perder muito rápido. As coisas são muito mais simples com você aqui, tudo é mais simples, eu consigo trabalhar, consigo cuidar da casa, consigo cuidar de mim, da minha vida, consigo tudo isso, mas sem você aqui... Tudo está desorganizado, tudo está... Doendo — Perdeu outra lágrima contra a vontade — Eu pensei demais em largar tudo e seguir com você, mas enquanto a María estiver comigo com o bebê, dependendo de mim, eu não sei como seria possível. E tem as crianças do meu projeto também, eu sinto uma responsabilidade com eles e você não conseguiu tudo o que precisa ainda, tem coisas a pagar, coisas que você quer, países para ir, eu conheço os seus sonhos, Ívi.

Lágrimas de Ívi.

— E eu conheço os seus, mi amor.

E isso significava muitas coisas. Choraram muito as duas e por alguns minutos apenas ficaram assim, chorando de mãos dadas, enquanto o sol estava se pondo lá fora.

— Sabe o que é trágico e engraçado? É que esta vida estaria aceitável se não fosse você. Se fosse a Kelsey, se fosse a Julia, eu conseguiria lidar, conseguiria te ver a cada trinta, quarenta dias, conseguiria, Ívi, e estaria bem com isso. Mas de você, eu preciso de mais — Mais lágrimas — De você, eu exijo mais, eu peço mais e eu sinto muito por não conseguir contornar isso. Eu não quero fechar nenhuma janela para um futuro, mas agora...

— Laura, se você fizer isso agora, vai estar fechando todas as janelas pra gente. Eu não vou aceitar.

Laura olhou bem para ela. Coração disparado, quebrado, pulsando pedaços de vidro que lhe cortavam por dentro.

— Quando você viaja novamente?

Lágrimas de Ívi.

— Em dois dias.

— O que eu sinto por você não se contenta em durar só dois dias. Está tudo muito difícil, mas tudo fica muito pior sempre que você vai embora. Não deveria ser este sentimento. Não deveria. Me perdoa.

Não, não perdoaria. Ívi não perdoaria nunca.

Notas do Capítulo:

Olá, meninas!

Contagem regressiva para os últimos capítulos! Agora só faltam três capítulos e sim, eu sei, esta autora tem um monte de coisas para arrumar, mas prometo que tudo ficará bem, que todas as peças irão para o lugar ^^.

Estava pensando em Havana hoje, sobre como tudo veio rápido e quase exaustivamente. Escrevi tudo em 5 meses enquanto 6 AM está me levando 13 meses. A história é maior, tem capítulos maiores e mais complexos e foi a primeira história que escrevi depois de ter mudado de cargo na empresa por duas vezes. 2019 foi uma provação em vários aspectos, foi um ano muito bom para mim, incrivelmente surpreendente e extremamente desafiador: talvez não consiga mais escrever uma história em 5 meses, mas me sinto muito feliz por ter encontrado uma forma de encaixar a escrita na minha vida apesar desta guinada toda :).

Meninas, última semana da pré-venda de Sal! Vamos aproveitar o kit que está lindo e, com capítulo extra, que esta autora que vos fala vai arrumar jeito de escrever ainda. Estou muito feliz com Sal lançado, com o movimentar de Delirium que sim, teremos em breve e também com a história nova que está surgindo e se consolidando aos poucos aqui em minha mente: "Angra" vem e vem com tudo, promessa!

Abraços!

Tess


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