6 AM: CAPÍTULO 50 - CAPÍTULO ZERO

Atualizado: Mar 29



Ívi enlouqueceu.


Foi a mensagem que Julia recebeu, enquanto tentava acalmar Laura que havia chegado chorando, trêmula, nervosa de uma forma que Julia nunca havia visto. Ela chegou e passou direto para a cozinha, estava tentando se acalmar, tentando levantar, Julia sabia, tentou ir fazer as coisas do bebê que estava chorando, atender María que queria tomar banho, mas no quinto minuto, ela apenas desabou chorando na cozinha. Se abaixou, ainda de saltos, nem tinha se desarrumado, se abaixou atrás do balcão e caiu num choro enorme, sentido, segurando a aliança já fora do dedo e Julia não soube o que fazer, não soube mesmo. Soube menos ainda quando recebeu aquela mensagem dizendo que aparentemente, Ívi havia enlouquecido.


E foi quando algo muito inesperado aconteceu: La Mari.


María saiu do banho, apenas de toalha e já veio pegando o bebê, o fazendo se acalmar e quando viu que Julia não estava fazendo absolutamente nada para acalmar Laura, ela ficou furiosa.


Julia...! — A puxou pelo braço enquanto tentava acalmar Matteo — Se você não vai fazer nada para acalmar a Laura, sai daqui e vai impedir que eu mate a Ívi quando tiver oportunidade porque aquela idiota está arriscando a vida dela!

— La Mari...

— Vai! Para aquela gata de rua, eu cuido da Laura que não merece nada disso! Ela não merece a Ívi, não me merece, não merece você, ela merece muito mais do que a gente consegue dar! Então só vai, faz alguma coisa aqui, eu já sei cuidar dela.


Dito isso, Julia foi. Beijou a testa de Laura e só foi, tentando chegar o mais rápido que podia aonde Ívi estava e não, ela não estava em nenhuma boate badalada, ela tinha decidido inaugurar o apartamento da Urca em uma festa própria, cheia de “amigos” duvidosos e de garotas mais duvidosas ainda. E, ela estava bêbada, pela primeira vez na vida, Ívi estava bêbada e Julia não tinha ideia de onde tudo aquilo iria parar. Melhor, não tinha ideia de como iria parar aquela situação, porque quando entrou no apartamento, viu Ívi muito fora de si, pegando e se deixando pegar, com garotas que fariam questão de contar sobre tudo aquilo e foi tão aterrador que nem soube por onde começar.


O que estava acontecendo consigo? Alguns meses em Barcelona e tinha se tornado uma incapaz aparentemente. Foi lá, tirou Ívi do meio daquela festa insana e ela levou um tempo para lhe reconhecer e então outro tempo para ter certeza que Julia estava mesmo ali, e Julia tentou contê-la e então tentou desligar o som, mas alguém religou, tentou pedir para todo mundo sair, não deu muito certo e foi então que para algumas situações, sangue latino e 1,78 de altura funcionam melhor do que qualquer coisa.


Karime Echevarría apareceu. Furiosa.


— Fora, fora, todo mundo fora! — Ela desligou a música e veio um idiota ligar novamente, então que ela...

— Karime! — Ívi não acreditou!

Fo-da-se— Ela tinha enfiado o pé na pickup que caiu no chão se desfazendo em pedacinhos e causando um susto generalizado — Você trabalha igual a uma condenada, é melhor ao menos poder comprar outra dessas. Fora daqui todo mundo!

— Quem você pensa que é, hein? — Uma corajosa convidada perguntou.

A mulher dela — Encarou a garota que tinha lhe perguntado e aquele olhar...


Ok, foi assim que La Eche conseguiu expulsar quase cinquenta pessoas em menos de dois minutos. Ela colocou as mãos na cintura, vendo a última garota sair.


— Ninguém nem... Questionou, você viu só?

— Quem é louca de questionar você? Ninguém, você é muito boa nisso e a Ívi está muito bêbada...


Estava, Ívi nunca havia bebido na vida, nem sabia bem por que tinha decidido beber naquele momento, e na verdade, sabia sim. Era a dor que levava para todas as drogas. A dor que não consegue ser contida, nem parada, que não ameniza, não fica melhor. Foi uma noite extremamente longa, longa para Ívi, longa para Laura, uma noite de muito choro, dor e medo. Estavam com medo as duas, morrendo de medo, mas no final das contas, este medo começou a fazer algum sentido.


— Eu sei que dá um medo de terminar, Ívi, eu já senti este medo — Era Julia, abraçando Ívi para ver se ela enfim, conseguia dormir.

— Ela vai seguir sem mim — Ela seguia chorando, agarrada nas mãos de Julia que lhe guardavam e continuava chorando — Ela não precisa de mim para seguir. Olha tudo o que ela fez aqui, enquanto eu estava viajando, enquanto eu estava...

— Vivendo o seu sonho.

— Foda-se o meu sonho. O meu sonho é me casar com ela. E eu deixei isso escapar, eu deixei isso... Ser secundário. E ainda que eu fique aqui agora, que eu rasgue os meus contratos, ela não vai voltar atrás.

— Isso ela não vai. Quando Laura Bueno decide que é não, é não. Quando ela decide que não precisa da gente, ela segue em frente e Ívi, eu não acredito que você foi burra do mesmo jeito que eu fui burra.

— Julia, você não está ajudando, sabia? — Karime voltou para o quarto, com chá para todas elas.

— Se a pretensão é me consolar, não está funcionando mesmo!

— Eu sei, mas é que... Eu não acredito que você deixou isso acontecer, Ívi. E que ia piorar as coisas ainda mais dormindo com garotas qualquer aqui, nesse apartamento que ela deixou pronto para você, porque ela podia só te expulsar de casa e foda-se você, mas não, ela fez tudo isso aqui, ela reformou seu apartamento enquanto cuidava de uma adolescente instável e de um bebê de três meses. E, daquelas crianças com microcefalia, e, conseguindo manter o emprego dela, conversando com doutores e ministros, lutando pelo que ela acredita. A Laura é foda, cara. É foda.

— E eu perdi essa mulher foda. Eu sou muito idiota.

— Você é.

— La Eche?

— Foi burra mesmo, Ívi e a gente apostou tudo em você.

— Nenhuma de vocês vai dizer que eu consigo conquistá-la de volta?

— Ela cansou de jogar a toalha, minha amiga e da última vez que ela cansou, ela largou Julia Torre e achou Kelsey Harris. E então, desistiu da campeã olímpica e achou você.

— Estão me dizendo que outra mulher está vindo?

— Ívi, para a sua sorte, ela já tem uma mulher foda ao lado dela outra vez.


Era uma grande verdade.


O dia amanheceu muito diferente para Laura e María. Nenhuma das duas havia dormido durante a noite, Matteo não permitia, mas naquela noite, ele perdeu para a dor de Laura que a manteve desperta mais do que qualquer outra coisa. Havia chorado a noite inteira, havia tido medo, se desesperado, se arrependido e quisto voltar atrás umas dez vezes. Mas María não lhe deixou chegar na porta e não era por nada, não era por ciúmes, não era porque não gostava de Ívi, era simplesmente porque Ívi não merecia sua irmã. Ninguém merecia sua irmã, ninguém merecia a mulher que ela era, a força que tinha e não iria desistir até conseguir lembrar Laura de uma vez por todas dessa mulher incrível que ela realmente era.


— Nada pode te fazer dano. Nada pode me fazer dano. Eu não vou abrir mão que você recupere a sua vida. Matteo e eu estamos aqui porque não temos mesmo para onde ir. Eu poderia voltar para Barcelona com a Julia como ela propôs, ou ir para Londres e ficar com a Kelsey, mas na opção um eu teria que fazer tudo sozinha, Julia deixou isso claro e na opção dois, é provável que eu não ficaria com o meu filho. E dado a como tudo é difícil agora, Laura, eu sou capaz de ceder se alguém quiser ficar com ele, eu sei disso, mas acho que vou me arrepender demais no futuro se deixar isso acontecer. É por isso que eu tenho que ficar aqui, você não vai tirar ele de mim e nem me abandonar.


Laura respirou fundo, terminando de se arrumar. Não tinha dormido nada, mas também não estava cansada, muito pelo contrário.


— É claro que eu não vou, La Mari. E o Matteo é seu, eu não pretendo nunca na minha vida que ele deixe de ser seu. É seu bebê, é seu filho.

— Eu sei disso. Escuta, ter a Ívi aqui é maravilhoso até para mim e quando ela vai embora é tão ruim que me atinge também. O Matteo é louco por ela, tem uma mágica que ela faz com ele e você a ama muito, eu sei. Mas está ruim agora, muito ruim. E eu sei que parte disso é culpa minha, e eu não sei se vou conseguir consertar esta parte que me toca, mas eu vou tentar. Eu quero que você saiba que hoje vou sair com o bebê e vou dar um jeito de voltar a estudar, eu não vou perder este ano e nem os próximos anos, eu vou fazer de tudo para alcançar a faculdade logo e idade mínima para trabalhar também e, eu sou bonita, sou brilhante, eu vou resolver tudo isso em que me envolvi e este carinha aqui, vai ter tudo o que ele precisa provido por mim.


Laura sentiu um orgulho lindo de sua irmã. Não sabia até onde ela conseguiria chegar com o que queria, mas apenas dela estar querendo essas coisas, já era um grande começo. Pegou a mão dela na sua.


— Você sabe que não precisa correr com nada disso, La Mari, a Julia tem como cuidar de você financeiramente, eu também tenho, o nosso problema não é financeiro. Mas, eu adorei ouvir tudo isso vindo de você e eu sei que você vai conseguir tudo o que você quiser. Você sempre consegue.

— E você também sempre consegue. Laura, eu sei que amar Ívi te assusta. Sei que você não sabe como não sofrer com o assédio que ela sofre, mas sei que sabe muito bem como disfarçar, como não atacá-la por isso, sei que sofre com a falta dela... E sei que tentou de todas as formas que isso não prejudicasse vocês duas. Isso se tornou maior que você, mas não maior que a sua força. Então, Laura, só para checar, você tem certeza de que tomou a melhor decisão rompendo o relacionamento?

— Estou muito apavorada. Mas sei que acabaram as minhas saídas.


María lhe apertou a mão pegada na sua.


— Sabe o que eu acho? Vai ser bom para ela. E vai ser ótimo para você.


Laura beijou a mão dela lhe olhando nos olhos.


— Eu preciso de você.

— Nós vamos sobreviver, você vai ver. Nada pode nos fazer dano.


Nada podia, nada podia.


Foram quatro meses muito distintos.


Ívi abandonou os próximos contratos, foi verdade, ninguém a convenceu a não tentar se acertar com Laura, melhor dizendo, ninguém além da própria Laura foi capaz. Fugiu dela por uma semana, precisava se fortalecer, fortalecer sua mente, sua força de vontade, não estava dando certo, estava sofrendo muito, não podia continuar com Ívi, permitir que as coisas seguissem daquela forma, não estava sendo bom para nenhuma das duas e no final daquela semana, em outra conversa muito séria, Ívi entendeu que ela estava mesmo decidida. E aceitou que não tinha nada que fizesse que pudesse surtir efeito na decisão que Laura já tinha tomado.


E foi assim, que uma semana depois, Ívi fechou o apartamento na Urca e decidiu abraçar todos os contratos possíveis. Julia voltou para Barcelona, para a vida que estava tendo lá, andava fazendo shows, três por semana, tinha voltado para os barzinhos, para as casas de shows menores e andava muito feliz com tudo isso. Ívi a via passeando pela Passeig de Gracia, jantando cada dia numa restaurante de tapas diferentes, a via indo na Casa Batlló só por diversão, para apreciar a arquitetura, a via pegando praia ao lado de Thai quase todo final de semana e nunca imaginou que aquilo pudesse fazer tão bem para Julia. E nem que sua ausência pudesse fazer tão bem para Laura.


Haviam feito um acordo, terminariam, ok, mas podiam seguir se vendo normalmente pela internet, ainda que não conversassem diretamente e era muito, mas muito engraçado que agora que tinha a perdido, Ívi se encontrasse com tempo de sobra para falar com ela. Não conseguia evitar, mandava mensagens para Laura todos os dias, mas ao invés das respostas rápidas que ela sempre fez questão de lhe dar, agora Ívi recebia respostas educadas ao invés de carinhosas, respostas que levavam horas ao invés de segundos e isso passou de causar ansiedade em Ívi. Agora apenas causavam tristeza e arrependimento. E pior ainda ficava quando percebia que Laura estava indo muito bem sozinha.


Pior, estava indo muito bem com María ao seu lado.


María tinha voltado a estudar sozinha. Tinha conseguido uma vaga a noite, num colégio público e quando Laura chegava do trabalho, ela partia para a escola onde tentava salvar seu ano e Ívi só sabia que ela salvaria porque, ela era como Laura e as duas juntas andavam conseguindo organizar a vida numa nova ordem. Ívi sabia das coisas pelas redes sociais, via os posts de María e tentava fazer uma leitura, via Matteo em stories e lia as dificuldades enfrentadas, La Mari tinha transformado seu perfil num verdadeiro diário e ela não escondia o quanto tudo seguia difícil. Mas também deixava claro que todos os dias, vencia uma batalha diferente ao lado de Laura. Que enfim, aparentemente, estava conseguindo ficar mais parecida com ela mesma.


Laura levantou. Tendo um bebê para cuidar, uma adolescente ao seu lado e tendo que se desprender de Ívi ao mesmo tempo, não faziam ideia do quanto de coisa que já partilhavam e o que Ívi não queria de jeito nenhum, era ter os cartões de crédito de volta. Mas ela lhe devolveu, os cartões de crédito, encerrou a conta conjunta, os cartões de débito vieram logo em seguida, o carro foi deixado na Urca e isso doeu em Ívi de maneira muito particular.


— Eu estava trabalhando para deixá-la confortável e agora ela simplesmente devolve tudo pra mim — Disse para Natalia no dia que recebeu a notícia de seu gerente, que Laura tinha cancelado todos os cartões, incluindo o cartão da conta conjunta.

— Isso diz algumas coisas, Ívi, ela nunca precisou dessas coisas.

— Eu achei que ela precisava. Ela namorava a Kelsey.

— A Kelsey, não o dinheiro dela. Você fez uma leitura errada da sua mulher, ou...

Estava me justificando. Eu queria a Laura, sigo querendo, mas também quero isso aqui. Quero os shows, as viagens. Ela me disse que... A culpa também é dela, por ela querer as coisas dela, querer o projeto científico, querer cuidar da La Mari, me disse que também não consegue abrir mão e que a culpa era de nós duas. Mas eu não sinto que é. Eu sinto que a culpa é minha e sem ela, de repente, as coisas só... Pararam de fazer sentido.

— Eu tenho te visto, você não está mais curtindo como antes.

— Não consigo. Só não consigo mais.

— E tem passado tempo demais limpando quartos de hotéis, alguém da equipe notou isso, achou relevante, eu estou tentando entender.

— É que... — Abriu um sorriso de olhos molhados — Eu me sinto bem fazendo isso. Me sinto mais perto da minha mãe, eu arrumava quartos com ela e pôr tudo no lugar, me ajuda a pensar, a entender as coisas.

— Mas fazer isso por horas antes de dormir?

— Eu não consigo dormir — Quebrou chorando — Eu sonho com ela, acordo sem ela comigo, isso me mata.


Ouviram o relógio de Ívi vibrando. Era hora de ir para o palco.


— Ívi, por que você não tira esta noite para você? Eu dou uma desculpa, a gente paga a multa...


Ela se levantou da cama.


— Eu não tenho nada melhor a fazer mesmo — Ívi checou seu WhatsApp, o visto por último contava mais de quatro horas e Laura não a havia respondido ainda.


Foi para o palco.


E foi assim que quatro meses se passaram sem que elas voltassem a se falar.


Laura se redescobriu naqueles quatro meses. Seguiu com sua pesquisa, seguiu contando cada vez mais com María e descobriu uma mulher nela que jamais imaginaria. Uma mulher que acordava cedo para fazer seu café e deixar o almoço pronto para que Laura pudesse levar para o trabalho, uma mulher forte, que estava fazendo o que tinha que fazer e isso não significava fim de sofrimento, de jeito nenhum significava. María ainda chorava muito e tinha noites que se desesperava, que desejava que Kelsey ficasse com o bebê ou que qualquer outra pessoa pudesse ficar com ele. Amava aquele carinha, mas a sinceridade da adolescência permitia que ela não tivesse filtros para falar de maternidade, falar que era insano, que era uma privação de direitos básicos atrás da outra, que só não era pior porque tinha com quem dividir aquela conta.


Seguia sendo extremamente pesado para Laura, o trabalho era pesado, a rotina de casa também, as noites mal dormidas lhe cobravam um preço altíssimo e por muitos dias, sabia que era apenas piloto automático, passando pelo mundo, fazendo o que tinha que fazer, mas sem estar viva naquele momento de verdade. Foi pega dormindo no seu intervalo mais algumas vezes e teve um dia em que estava tão, mas tão cansada que se sentou na arquibancada do hóquei e assistindo Karime jogar, acabou pegando no sono. E não acordou nem com a chuva que caiu. Laura se sentia muito mal, ainda se sentia terrivelmente mal, mas nada ganhava a crise que teve quando respondeu para Ívi e ela nunca mais lhe escreveu de volta.


Descobriu mais tarde que tinha recebido unfollow e sido bloqueada em todas as redes sociais de Ívi e isso também doeu. Tentou entender, mas doía mesmo assim e não sabia bem o que tinha sido pior, se era o sono infinito que nunca passava, ou quando uma insônia cruel decidiu morar em si.


Laura simplesmente não dormia. Passava a noite inteira acordada, com a tevê ligada e nas noites que o sono aparecia, era Matteo quem não permitia que dormisse, era quase como um plano grande do universo para que não dormisse e não dormindo, pensava em Ívi de maneira quase obsessiva. Pensava nela, em como era bom quando ficavam juntas, lembrava dos beijos, dos banhos juntas, da hora delas e quando amanhecia e o relógio mostrava 6 AM, era quando mais chorava. Achava que chorava pela hora inteira e só então reagia, ia para o banho, ia batalhar pelo seu dia.


Não podia seguir assim, sabia que não, seu corpo não estava dando conta, Laura já tinha perdido peso, perdido músculos e não podia perder sua sanidade. Então buscou ajuda, com medicinas alternativas para tratar do seu distúrbio de sono, procurou a meditação para acalmar a sua mente cada vez que sentia aquela vontade de chorar desenfreada, se comprometeu a jogar hóquei ao menos uma vez na semana e aprendeu a curtir Matteo um pouco mais.


Era muito trabalho, era, mas havia coisas lindas também sobre aquele pequeno ser humano que lhe sorria todos os dias. Foi com ele no colo uma noite que se deu conta de algo que lhe deixou um pouco inquieta: viu um clipe de Ívi passando na MTV e depois, o anúncio dos Jogos Olímpicos de Tóquio no próximo ano onde Kelsey e Viktoria jogariam. Primeiro, sentiu uma coisa, que três anos tinham se passado e que tinha perdido Ívi em tão pouco tempo. Fizeram dois anos juntas, mas na soma dos tempos, nem devem ter passado dois meses juntas. Depois que se deu conta disso, se deu conta também de como suas ex-namoradas tinham seguido em frente, como estavam fazendo coisas grandes enquanto Laura...


Estava no sofá, com um bebê e uma adolescente chorando de dor. María andava sentindo dores no corpo, mas Laura achava que era reação ao estresse, ela psicossomatizava tudo, estava sentindo em seu corpo. Não era como se estivesse parada, Laura andava evoluindo, na sua pesquisa, no seu trabalho, em si mesma, se sentia mais no controle de suas emoções, menos dependente de Ívi, mas ainda assim...


Nem queria tanta coisa também. Abrir mão de Ívi havia sido um abrir mão de muitas coisas, havia sido um atropelo, sofrer por ela lhe destruiu, mas também lhe refez e Laura se sentia relativamente refeita agora. Apesar de ainda chorar, apesar de ter noites que acordava chorando de saudade e de dor, por ela ter lhe privado de sua vida assim. A via no Youtube, na tevê e isso fazia com que a imagem da sua Ívi cada vez se tornasse mais distante. Tinha dias que achava que não era a mesma pessoa, que aquela que via não era a mesma que tinha encontrado no metrô e que o romance que tinham vivido não era exatamente do jeito que lembrava. Chorou mais uma noite, não conseguiu dormir mais uma noite, Matteo não deixou, María também não, mas quando se levantou pela manhã, se sentia forte, inteira, capaz de sacudir o mundo se bem quisesse porque não dependia de ninguém para isso.


Foi bom se sentir suficiente, bom encontrar o controle de suas emoções, foi bom parar de esperar Ívi voltar, até mesmo porque ela não iria mesmo retornar, soube que ela tinha comprado um flat em Santiago e pretendia morar lá por um tempo. Levantava todos os dias e dormindo ou não, querendo ou não, se agarrava no seu último melhor sorriso que havia tido e ia em frente. Karime e Noah eram extremamente importantes na sua vida, se aproximaram mais, sempre apareciam para ajudar na casa ou com Matteo, para animar María e ajudá-la na escola. Karime era a melhor professora de português que Laura conhecia e sua irmã andava indo muito bem.


Renata era quase a melhor não-namorada que Laura já havia tido na vida, só perdia para Ívi mesmo. Ela sempre aparecia, sempre vinha passar feriados e isso ajudava Laura demais. Renata lhe dava outro ritmo, lhe obrigava a fazer outras coisas, tinha muito jeito com Matteo, adorava cozinhar pra Laura, lhe tirava de casa, para andar de patins, para jogar hóquei, lhe acompanhava, levava Matteo para tomar sol de manhã no calçadão e meditavam juntas, conversavam muito e, Renata tinha um talento muito especial para fazer Laura rir. Mas rir muito, sempre havia tido, nos momentos menos esperados, ela lhe conseguia fazer rir.


Fez de novo aquela manhã, enquanto Matteo curtia o sol das sete da manhã e o mar formava ondas no horizonte.


— Isso não aconteceu — Disse sorrindo depois de rir muito da história que Renata estava contando.

— É claro que não, mas sabia que você ia rir.

— Aliás, como anda o seu curso? — Renata andava fazendo um curso de comissária de bordo — Decidiu que é isso mesmo que quer?

— Laura... — Ela abriu um sorriso, estavam as duas sentadas na areia com Matteo relaxando em seu bebê-conforto — O meu curso já terminou. Tem mais de um mês. Eu peguei o certificado e vou tentar a seleção da Emirates.


Laura olhou para ela.


— Mas... Você segue vindo. Todo final de semana está aqui.


Renata apertou os lábios, devolvendo o olhar.


— O curso já acabou, Laura, mas sigo vindo por quê... Porque eu gosto de estar com você.Eu gosto... — Outro sorriso — Das coisas que fazemos juntas. Eu gosto da María, eu gosto de cuidar deste rapaz aqui e eu gosto de fazer tudo isso ao seu lado. Karime me alertou uma vez que você tinha uma especialidade...


Laura riu de nervoso. É sério que estavam tendo aquela conversa?


— Renata...

— Você tem. E talvez tenha feito mais uma vítima mesmo, talvez Karime esteja certa, talvez Ívi estivesse certa quando me confrontou aquela vez, mas eu juro para você que naquele momento, eu não sabia. Não sabia mesmo, eu não achava que estava sentindo paixão, mas então que, o tempo passou, este bebê nasceu, você e a Ívi terminaram e... Ela vai morar no Chile, não é?

— Ela... Ela vai.

— E vocês não se falaram mais mesmo?


Laura negou. Aquele dia especificamente fazia três meses que não. E Renata lhe olhou bem nos olhos, aquela menina linda contra aquela luz da manhã:


Eu estou apaixonada por você. E você pode fazer o que bem entender com isso.



O flat em Santiago era um presente. Ficava em Providencia, um bairro muito aconchegante, cercado de árvores que amendoavam a paisagem no outono e perto do Sky Costanera, onde podia caminhar e ir curtir a Cordilheira dos Andes em um final de tarde qualquer. Pensou que fosse se animar com isso. Em estar num bairro que tinha adorado, numa paisagem linda, mas a grande verdade é que passar o ano novo naquele lugar sozinha não teve nada de mágico. Estava separada de Laura há exatos cinco meses, há três não se falavam e por um tempo, Ívi acreditou que isso pudesse lhe ajudar a superar o que precisava de vez. Mas não havia sido bem assim. Havia estado em Barcelona aquela semana, Julia estava em estúdio gravando seu álbum e tinha uma música específica que não conseguia, que não estava rolando, era um dueto, claramente um dueto e ela não podia gravar sem Ívi. Era uma música de Ívi, para Laura, e gravar aquela canção com Julia...


Ívi achou que não ficar mais em hotéis poderia lhe ajudar. Achou que ter um tempo sozinha podia ajudar, mas quando nada ajudou...


— Eu acho que preciso de uma temporada no Rio, Nat. Rio-São Paulo, ouvir meu idioma, estar com as minhas pessoas, acho que pode ser bom para mim.

— Ívi... A Laura está bem. Está dormindo de novo, com a vida mais ou menos arrumada, você a bloqueou de tudo, lembra? Ela sofreu pra caramba.

— Eu não vou atrás dela, Natalia, se ela não quer, eu não vou. Mas eu ainda moro no Rio.

— E eu acho mesmo que você precisa voltar pra casa, que é uma loucura não voltar nunca mais do jeito que você dizia.

— Então, é isso. Eu só preciso voltar, superar as coisas de verdade, deve estar faltando isso.


E foi assim, que no próximo final de semana, Ívi Schelotto enfim pousou novamente no Rio de Janeiro.


Pousou e foi bem distinto porque finalmente, sentiu aquele tão esperado sentimento de voltar para casa outra vez. Já era quase meio ano sem voltar ao Rio, não dava, não conseguia mesmo, e a grande verdade é que tinha postergado tanto o seu retorno porque tinha certeza de que assim que pousasse, sua primeira ação seria ir atrás de Laura.


Talvez por isso não tenha se surpreendido tanto quando assim que chegou no seu apartamento da Urca, pegou o carro e dirigiu direto para a Barra.


E nem pretendia ir direto para o apartamento, eram oito da manhã de um sábado, não era isso que ia fazer, só queria ir à Starbucks que Laura lhe tinha pedido em namoro, só queria se sentir um pouquinho mais perto de casa. Só houve um problema neste plano todo:

Laura estava na Starbucks. Sentada em uma mesa do lado de fora, com Matteo pegando sol no carrinho e aos risos com Renata.


E não era apenas os risos, não era apenas elas estarem tomando o café da manhã preferido de Laura, não era Matteo estar buscando por Renata com os olhos ou a proximidade que elas estavam demonstrando. Era Laura... Estar bem. Com uma menina bonita lhe fazendo bem, era aquele carinho com o qual Renata olhava e a facilidade com a qual fazia Laura rir. Não sabia bem quanto tempo havia ficado ali, parada do outro lado da rua, vendo o amor da sua vida rindo com outra. Ficou inclusive depois que elas saíram, caminhando muito perto uma da outra, empurrando o carrinho. Ficou ali tão triste que sequer conseguiu chorar. Voltou pra casa depois disso, não pra casa, para aquele apartamento na Urca que também não tinha cheiro de casa, jeito de casa, que não tinha lembrança nenhuma ou traços de Laura em lugar nenhum. Agradeceu por conseguir dormir e por somente acordar com Natalia batendo em sua porta.


Não contou o que tinha acontecido. Por vergonha provavelmente. Apenas se aprontou e foi para a boate na qual tocaria aquela noite.


Ívi havia aprendido a virar a chave assim que pisava no palco. Recebia toda aquela energia, a vibração que vinha da plateia e simplesmente entrava na onda, se contagiava e por aquela uma hora, uma hora e meia, tudo apagava e Ívi podia provar de um bem-estar tão raro aqueles dias. E era isto que estava fazendo, dando seu show como La Bruja quando de repente, lá no meio de sua plateia, uma moça começou a chamar sua atenção.


Estava bebendo muito, subindo pelas mesas, atraindo quase tanta atenção quanto Ívi.


— Filha da mãe.


Era María. Dentro de um ambiente proibido para menores, bebendo, fazendo stories, num vestidinho minúsculo e, às duas da manhã.


Duas de uma manhã em que Laura deveria estar em casa cuidando do bebê dela.


Ívi mal chegou no meio do seu show e não conseguiu mais, disse para Natalia assumir porque não estava acreditando que...


Era María. É claro que era María mesmo.


E foi uma enorme confusão. Porque Ívi era a DJ badalada que tinha descido para o meio do público, porque María estava se recusando a ir com ela, se recusando a responder as coisas que Ívi estava perguntando e a paciência de Ívi deve ter durado só uns dois minutos.


— Ívi!

— Você vai pra casa! — Respondeu a levando pela cintura sem dificuldade nenhuma — De onde não deveria ter saído.


Ela reclamou, xingou, esperneou, mas depois que Ívi a colocou no carro e travou as portas, ela não tinha muito para onde ir.


— Ívi, você sabe há quanto tempo que eu não saio? Você sabe o quanto foi difícil sair?!

— Eu devo imaginar e você deve imaginar também que eu não estou nem um pouco interessada! Você foge de casa e deixa a Laura cuidando do seu bebê, é isso mesmo?

— Você saiu de casa e deixou eu cuidando da Laura, veja bem!


E foram nesta discussão até o apartamento na Barra, onde mais uma vez, Ívi não conseguiu estacionar o maldito carro na garagem, o que fez María ter uma crise de risos interminável.


— Desce do carro e sobe de uma vez.

— Para eu subir? Você acha que eu consigo subir? — Ela estava rindo e bêbada demais — Você vai ter que me levar lá em cima, não mandei me tirar da boate...

— María, eu não vou subir...

— Por que não? Pretende ignorar a Laura pessoalmente também?


Não, só não queria encontrar Renata dormindo na sua cama, não precisava daquilo mesmo.


— Eu não tenho que te dar explicação nenhuma...

— Mas quer que eu te dê explicações, as suas concepções são distorcidas. Sobe, me deixa em casa direito, minha cabeça está doendo...


Ívi não queria subir. Mas também queria, tinha uma parte sua que queria e outra parte sua que estava morrendo de medo de...


Respirou fundo, decidiu levar María de uma vez e só de pegar aquele elevador... Quase chorou. Até o elevador barulhento tinha jeito de casa, da sua casa, tinha cheiro de dia-a-dia, de lembranças felizes e María realmente estava alterada. A ponto de... Dormir no elevador.


Era sério? Era sério. Ela pegou no sono e Ívi teve que arrastá-la para fora do elevador e então buscar a chave na bolsa dela até perceber que, seu chaveiro ainda tinha a chave daquela porta. Nunca tinha se desfeito, nem Laura pediu de volta. Então, abriu a porta com sua chave, puxou María para dentro e a levou direto para o quarto, ela tinha dormido mesmo e, Matteo estava dormindo também. Abriu um sorriso, porque ele tinha crescido tanto naquele tempo todo, estava um bebê grandão, lindo, parecido com... Com sua Laura. Tirou os sapatos de María, abriu o vestido apertado que ela usava, a cobriu direitinho e foi pegar Matteo no colo, porque estava morrendo de saudades daquele serzinho...


O pegou no colo, ainda que estivesse com roupas de show e suas pinturas étnicas, pegou devagar, com cuidado para ele não acordar, só queria sentir como ele estava mais pesado, só queria ver aquele rostinho mais de perto e então, enquanto fazia tudo isso...


— Ívi?


Virou para a porta e, Laura estava ali. Linda, de cabelos amassados pela cama, de calcinha, moletom e só.


E o coração de Ívi quase parou no peito.


— Minha nossa, Laura...


E ela riu. Ela apenas riu da sua reação.


— Minha nossa? “Minha nossa” eu que acabei de achar que estava tendo uma alucinação, que tinha visto você entrando arrastando a María com você! Mas você está aqui. E estava arrastando a María...

— É que... — Devolveu o bebê para o berço, ele seguiu dormindo tranquilamente — Eu estava fazendo um show e achei que tinha visto ela no meio do público...

— Ela saiu? — Laura entrou no quarto e checou María — Eu não acredito que ela saiu! E deixou o Matteo sozinho...

— Ela é adolescente, irresponsável e... Não importa — Ívi perdeu o que estava dizendo, não importava muito. Respirou fundo e veio para mais perto de Laura um pouquinho. Só um pouquinho e já sentiu uma reação, uma química na pele, quem explicava? Cinco meses longe uma da outra e aquela reação... Respirou fundo, se conteve, a vontade de tocar, de cheirá-la, de encostar nela fosse um pouco — Eu... Eu vi você hoje de manhã.

— Você me viu? — Laura sentiu uma descarga no coração, uma batida descompassada só porque Ívi tinha chegado mais perto. Ela estava ali, era real, sonhos ainda não tinham reações químicas, era Ívi — Ívi... — Deu um passo para trás, respirando fundo — Ok, eu preciso acordar, não sei bem o que está acontecendo ainda...


Ívi abriu um sorriso.


— Eu voltei para o Rio, fui tocar numa boate, achei a La Mari se divertindo enquanto você devia estar aqui, cuidando do bebê. Daí eu a arrastei até aqui. Daí que eu te vi hoje de manhã.


Laura a olhou, apertando os lábios.


— Ívi...


Ívi chegou um passo mais perto e respirou bem fundo. O calor do corpo de Laura, ela estava quentinha, cheirosa demais, dava para sentir, estava linda, de cabelos mais curtos, desgrenhados e... Olhos nos olhos. Os traços brilhando no escuro pelo rosto de Ívi, os batimentos acelerando tanto que... As duas sabiam, as duas sentiam.


— Eu... Eu já estou indo, eu não quero te aborrecer. Eu só vim trazer a María porque...


Laura a puxou pela camisa e, a abraçou.


Apertando muito, sentindo o cheiro dela, a ouvindo lhe respirar pela sua pele, pelo seu cabelo e, Ívi a apertou pela cintura e delicadamente, a tirou do chão, sentindo as pernas dela se enroscando pelas suas coxas, sentindo o calor dela lhe encontrando, aquele coração batendo tão forte quanto o seu. Não acreditava, estava abraçando a sua mulher, a sua Laura outra vez e ela seguia sendo a coisa mais gostosa e mais cheirosa que Ívi conseguia se lembrar...


— Quer chocolate quente? — Ela lhe perguntou, toda agarrada em seu pescoço.


E Ívi sorriu.


— São duas da manhã, amoriño.

— Quer ou não?


Ívi a devolveu para o chão e lhe beijou a testa com uma saudade enorme demais se derretendo pelo seu peito.


— Quero.


Laura a olhou nos olhos.


— Vou fazer. Vai ficar igual ao da Starbucks.


E teria cheiro de casa. Da casa de Ívi. Queria beijá-la, mas um chocolate quente para começar já estava muito bom.


Notas do Autor:


Olá, meninas!


Todas de quarentena? Aqui as coisas andam um pouco estranhas, tipo, vivendo literalmente um filme de terror, mas esses filmes hollywoodianos acabam todos com um final super feliz, né!? hahaha Acredito que o nosso não será diferente. Vcs lembram um fato importante que ocorreu no mundo logo quando iniciamos a postagem de 6AM? A data mais específica foi 26/05/2019. Vamos tentar relembrar coisas boas dessa época? Desse mês, dessa semana. Devemos fazer um exercício, pensar só em coisas boas, assim sentimentos positivos nos ajudarão a vencer esse momento conturbado.


Bom, estamos chegando ao fim de 6AM, e muito próximas do início da história, aquele ponto inicial onde tudo começou. Passou rápido, hein?!


Então, que a meta seja batida, sendo assim, dia 29/03 teremos o penúltimo capitulo da história, intitulado "A Canção Mais Bonita".


Namastê!




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