6 AM: CAPÍTULO 53 - Um sonho coroado



Ela tinha ficado tão nervosa que Kelsey estranhou completamente.


Não era como se Viktoria Köhler pudesse não ser convocada para a sua seleção, não voando como estava pelo campeonato inglês, no seu melhor condicionamento físico da vida e então, quando a convocação chegou para os eventos antes do Pré-Olímpico, ela ficou nervosa.


Nervosa, ou triste, Kelsey não estava conseguindo definir, a lista saiu e Viktoria começou a andar pela casinha delas que aliás, havia ficado exatamente da forma que elas tinham sonhado juntas.


Haviam conseguido uma casa em Blackheath, em um lado muito verde do bairro. A casa era simples e funcional, uma cabana na verdade, feita de dois quartos, uma cozinha, sala, varandas por todos os lados, um jardim na frente, onde Kelsey fez questão de plantar todas as suas flores, plantas e ervas preferidas e no quintal, havia um lago. Um lago lindo, esverdeado, que brilhava em dourado quando o sol nascia e em alaranjado quando ia dormir. Tinham um deck para relaxar, um lugar para nadar e remar e nas manhãs em que acordavam sendo tocadas pelo sol por uma das enormes janelas de vidro, não era raro esquilos virem desejar bom dia na primeira luz da manhã. Aquela casinha era um sonho.


Foi para o deck durante o pôr do sol que Viktoria acabou correndo depois de ter lido a sua convocação.


— Ei, meu amor, ei! — Kelsey a capturou para os seus braços, porque ali era o lugarzinho de Vik sempre, desde o dia em que se conheceram, não o deck, seus braços — Espera, fala aqui comigo, o que aconteceu? Você acabou de ser convocada!

— Eu sei — Respirou fundo, se agarrando nos braços de Kelsey — E você também, é a capitã da coroa olímpica, como é que não iam convocar você?


Kelsey buscou aqueles olhos, ela estava chorosa.


— Qual é o problema, meu amor?

— É que... — Respirou muito fundo novamente, respiração de quem está evitando chorar — Eu preciso ir para Munique. E você vai ter que ficar aqui. E... São 3 meses. E a gente está aqui, finalmente na nossa casa não tem nem 6 meses, e...


Kelsey a olhava bem de perto, tentando entender.


— Vik, você... Você não quer ir?

— Eu acho que... — A lágrima despencou — Eu... Eu não queria ir.

— Vik...

— Eu acho que não quero ir, Kelsey, acho que não quero ir para Munique, que não quero... Passar três meses focada. E então mais dois meses em um Pré-Olímpico e então toda aquela tensão do Torneio Olímpico... Kelsey, eu já vivi tudo isso uma vez.

— E não quer viver de novo? Vik, eu achei que esse fosse seu sonho!

— E era, era o meu sonho, eu treino para isso desde quando tinha dez anos, passei todos esses anos focada plenamente nisso, mas depois do Rio, depois de nós duas... Kes, eu acho que não quero ir. Eu acho que prefiro ficar aqui, acompanhando a sua preparação com a equipe britânica, voltando pra nossa casa todos os dias com você, assistindo este sol aqui, nadando, cozinhando, treinando, mas sem... Aquele peso todo. Você sabe que... Machucar me assustou.

— E libertou você, eu notei sim. Vik, você sempre foi focada, mas...

— Não obstinada, você sabe — Ela abriu um sorriso — Eu amo jogar hóquei, amo, mais que qualquer coisa. Amo a adrenalina dos torneios, amo a festa, amo ganhar, sou competitiva demais. Porém, tudo isso tem um preço. Um preço alto, você sabe.

— Sei sim. A dedicação, os horários, o regramento, eu sei bem de tudo isso. E não é porque eu sou obstinada que não sofro, você sabe disso também.

— Kes, você está feliz? Aqui comigo, na nossa casa, com o nosso lago e os nossos esquilos?


Kelsey riu alto demais.


— É claro que estou, meu amor. Eu sonhei com isso aqui também, com uma vida tranquila, com apoio no meu trabalho, com um lago no quintal e videogame antes de dormir com a mulher que eu amo desde menina...


Ela apertou os lábios lhe olhando nos olhos.


— Kes, eu acho que... Eu mudei de sonho.


E Kelsey abriu um sorriso lindo pelo jeito doce que ela havia dito aquilo.


— Mudou de sonho, meu amor?

— Um que concorre com a minha bem sucedida carreira de atleta. Eu sou fisioterapeuta também, você tem uma queda por fisioterapeutas... — Disse, fazendo Kelsey rir mais, aquela sua menina tinha poderes — Eu amo jogar, amo estar em movimento, sei que nunca antes eu estive tão bem fisicamente e isso se deve simplesmente a eu estar morando com você. A boa atleta, a pessoa focada. Eu nunca vou ser talentosa como você, Kes. Nem focada, nem persistente.

— Você é talentosa o suficiente para ter uma medalha olímpica, amor, aquela, olha aqui — A virou na direção da cabana e as janelas de vidro do quarto eram grandes o suficiente para que vissem as medalhas na sala — Olha que linda a sua medalha, olha que coisa linda o significado. Você é boa assim.

— Mas uma menina malvada quebrou o meu punho...


Kelsey riu, a beijando outra vez.


— Eu sei. E sei que houve outras quebras até você chegar nela. Eu sei que você amou a sensação de conquistar aquela medalha, sendo titular da sua seleção, apesar do punho quebrado. Sei que ama todas aquelas outras medalhas ali, está vendo quantas elas são? Você é maravilhosa. É uma atleta incrível. Boa o suficiente para fazer muita falta na sua seleção. Você sabe disso também, não sabe?

— Eu sei. Fora que uma seleção é feita não apenas de habilidades.

— Não é mesmo. A fórmula de sucesso inclui despressurização, algo que você faz como ninguém. Você faz as pessoas rirem, deixa o clima muito mais leve, uma função que eu jamais conseguiria desempenhar. Você é um outro tipo de líder, Vik.

— E eu posso seguir sendo esse tipo de líder. Mas de maneira... Menos intensa. Kes, eu tenho um outro sonho agora, um do qual já falamos, o mesmo que concordamos que na nossa carreira, neste momento, seria impossível de ser alcançado. Olha, Ellen Hoog descansou depois do bi olímpico. Abriu uma janela para outro sonho.

— Amor, você quer...?

Um filho nosso, eu quero sim. E quero continuar jogando profissionalmente, mas sem a pressão de campeonatos internacionais, sem precisar ter que sair de casa e meu amor, isso é para mim, para você a situação é outra. Eu quero seguir te apoiando, quero ir torcer para você em Tóquio, seguir apoiando a minha equipe, mas de outra maneira. Da maneira que deu certo lá no Rio, elas jogaram muito bem, ainda que sem mim em campo. Me apoia nisso?


E os olhos de Kelsey estavam cheios.


— Em ter um filho comigo? Meu amor...


Kelsey a agarrou, a beijou, viu o sorriso dela brilhar mais do que aquele pôr do sol contra o lago ao entardecer.


Foram cozinhar juntas! Com ervas frescas colhidas no quintal, limão colhido de lá também, laranjas, maçãs da enorme macieira que fazia sombra sobre a cabana delas, as músicas que amavam tocando na sala, as risadas, a mesa romântica bem posta porque sempre era romance entre elas, fosse um jantar à luz de velas, ou um jantarzinho de fast-food no sofá enquanto assistiam alguma série. Podiam fast-food, ao menos uma vez ao mês eram liberadas, mas cada dia que passava, mais Kelsey entendia à revelia de Vik com os grandes eventos, as grandes conquistas. Ela seria feliz sendo campeã estadual da mesma maneira que havia sido feliz com aquela medalha olímpica. Achou corajosa demais a decisão de não disputar os Jogos Olímpicos de Tóquio, foi algo que lhe encheu de orgulho e, de inspiração também.


— Ela teve coragem de trocar de sonho, Kels — Estava falando com Laura no dia seguinte.

— Ela teve.

— Trocou um sonho ousado por outro.

— Pois então, Vik tem dessas situações inesperadas, faz parte demais da personalidade dela e eu acho que isso, no final das contas...

— Fez você se apaixonar por ela. Você sempre tão centrada, tão focada, tão disciplinada e ela...

— Só fazendo o que quer, desde sempre — Kelsey respondeu sorrindo — Eu precisava de alguém assim. Da mesma maneira que você precisava dessa gata de rua sua aí, não podia ser gata de raça cheia de frescuras...


Laura riu. Era verdade.


— Nossa vida seria cronometrada juntas.

— Eu tenho certeza, achamos nosso hilo rojo sem dúvida nenhuma — Kelsey seguia sorrindo.

— E como resolveram afinal, sobre a Olimpíada e bebês?

— Eu vou disputar a Olimpíada, mas ela só vai me acompanhar. E depois que os jogos terminarem, iremos trabalhar neste sonho de ter uma criança para nadar neste lago aqui junto com a gente. Estamos pensando em adotar, talvez uma criança mais velha, para poder seguir nossa agitação. Crianças mais velhas também são difíceis de serem adotadas e quem sabe, daqui a dois anos, com um ritmo mais tranquilo, a gente pense em adotar um segundo filho. Por hora, esses são todos os planos. Agora me fala de você, porque manter um sonho também requer um esforço e uma coragem enorme.


Laura abriu um sorriso. Estava falando com Kelsey no celular enquanto Ívi escrevia uma música sentada no tapete da sala, empossada de seu violão, com Matteo dormindo muito pertinho dela.


— Eu estou muito feliz com o meu sonho, Kels. Estamos nos ajustando aqui, casa nova, vida completamente nova, Ívi ainda está de férias, mas está estruturando a vida que quer quando as férias acabarem, e... Eu estou muito feliz. Com os planos, e...

— Com o casamento! Eu sei o quanto você quis esse casamento.

— O casamento é só uma bobagem na verdade...

— Claro que não. Ter sonhos bobos também está liberado, Laura Bueno. E, ai dessa gata de rua em não te dar o casamento dos seus sonhos, eu pego essa menina...


Mas nem precisaria tanto. Ívi estava focada, em seus próximos sonhos e naquele sonho tão pertinho. Iria se casar com seu amoriño sim e cuidaria para que ela não pudesse esquecer.


Sobre Kelsey e Viktoria, a retirada de Vik da seleção alemã de hóquei foi recebida com muitas lágrimas e muitos sorrisos, porque era o tipo de reação que Vik causava. Foi para Munique de qualquer forma, explicar seus motivos e mais tarde retornou com Kelsey para motivar sua equipe no Pré-Olímpico, vencido pelas holandesas, o que só fez crescer dentro de Kelsey a vontade do bi olímpico. Em agosto, tiveram Jogos Olímpicos, um dos mais disputados que os comentaristas se lembravam. E a final daquele torneio, fez Vik agradecer por ter declinado de sua seleção. Não queria enfrentar Kelsey. Não queria ter que ficar no caminho dela entre o sonho de sua seleção e o sonho de ser bicampeã.


A final foi Grã-Bretanha e Alemanha. Vik assistiu em partes, porque na maioria dos momentos, esteve de olhos fechados. Mas não estava sozinha, teve uma companhia de peso, Julia e Ívi queriam estar em outro Torneio Olímpico e haviam ido muito bem acompanhadas. O bi veio, 1x1 no tempo regular, 2x1 na prorrogação, gol de Kelsey Harris que praticamente desmaiou em campo depois de marcar de tão exausta que estava. E quando ela olhou para a arquibancada, sem ciúmes nenhum, Vik sabia que ela tinha buscado Laura com os olhos e que tinha ficado feliz de vê-la tão perto.


Laura sempre seria importante, era quase como um talismã.


Kelsey Harris foi bicampeã olímpica em Tóquio, e no final daquele ano, um garotinho de cinco anos estava aprendendo a nadar com suas mães felizes e dedicadas naquele lago no quintal.

Notas da Autora:


Meninas, tudo bem com todas? Aqui quem vos fala é a Ana!ˆˆ

E vamos de surpresa do dia 01/05 hahaha


Lancei a surpresa que prometi no nosso grupo de WhatsApp. Como digo lá para vcs, sou uma ariana que cumpre as promessas hahahaha


Me digam o que acharam de Kelsey e Viktoria... Curtinho, mas veio com muito carinho para dar o ar das graças e dizer que em 6AM tivemos as Olimpíadas, e que Kels foi bicampeã olímpica. Ou seja, Tess já está prevendo que esse momento de quarentena vai passar e voltaremos logo logo a nossa tão amada rotina.


Beijos de luz para todas! Vcs são incríveis. Definitivamente sou fã de vcs! ˆˆ


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