Angra: Capítulo 2 - Abrolhos

Atualizado: Abr 27




Abrolhos, janeiro de 2015

A perspectiva sempre mudava quando a praia era olhada do mar para a areia.


Sofía estava sentada em sua prancha de stand-up, dividindo sua atenção entre olhar as ondas no mar azul-cristalino-inacreditável de Abrolhos e observar as formações rochosas que protegiam a faixa de areia. Abrolhos, “abra os olhos”.


“Abra os olhos”. Repetiu mentalmente, “abra os olhos”.


Respirou fundo, conversou um pouco mais com o mar, Sofía havia começado a surfar depois de seu primeiro coração partido. Era uma menina ainda, de quatorze anos, que tinha se apaixonado por uma amiga e terminado assim, magoada, machucada, com o coração danificado. Lembrava de ter ido chorar na praia e de como o mar lhe acolheu, lhe fez companhia, lhe acalmou. Lhe fez lembrar que nenhuma onda era igual a outra, que nasciam, morriam e ressurgiam, mais altas, mais fortes, mexidas ou tubulares, elas sempre ressurgiam e ainda em um mar superglass como no qual estava naquele momento, elas ainda existiam. Sofía estava superglass, sem ondas, mas não significava que elas não existiam.


Ou que iam levar uma vida para levantarem outra vez.


Remou de volta para a praia, ainda era bem cedinho, tinha acordado de madrugada e saído no primeiro raio de sol. Devolveu a prancha e voltou para o hotel, tomou um banho demorado, sentindo a água gelada beijando sua pele quente de sol, era seu terceiro dia de praia e a cor já estava ardendo pelo seu corpo. Estava bem morena, com o biquini marcando, fechou os olhos, sentindo aquele bem estar pós-praia invadindo por dentro, lavou os cabelos longos, castanhos, duas vezes para vencer o sal do mar e em seguida, tirou mais um tempinho para si.


Colocou uma música e escolheu um biquini bonito, preto, justinho, hidratante na pele, secou os cabelos de praia, muito sem pressa, muito tranquilamente, checou-se no espelho, o corpo cheio de curvas, os seios bonitos sobressaindo ao biquini, as linhas musculares suaves em suas pernas que reafirmavam seu trabalho duro com o ioga e o surfe. Era o que estava precisando, solitude, não solidão, tempo para si, surfe pela manhã, ioga no final da tarde, meditação, autocuidado, era isso. Se vestiu, short curtinho, camiseta de botões aberta, óculos escuros, pegou seu livro e decidiu ir ler na piscina.


O dia estava lindo, sem sequer uma nuvem no céu, bem ensolarado e a piscina estava do jeito que gostava, vazia. Pegou uma espreguiçadeira, abriu seu livro, pediu um suco de maracujá com gelo raspado, se acomodou, colocou seus fones de ouvido e quando ia começar a ler...


Lá veio ela outra vez.


Devia ter o quê? 1,74, 1,75? Ela era alta e atraente demais.


Não era como se Sofía pudesse não notá-la, ou qualquer outra pessoa daquela pousada pudesse não notá-la. Bonita, alta, vivia circulando em biquinis minúsculos e com um sorriso lindo aberto o tempo inteiro. Ela passou na frente de Sofía mais uma vez, agarrada em seu livro de sempre, óculos-aviador, a pele delicada dourada pelo sol, num tom lindo, particular e as linhas...


Então as linhas daquela moça. Tudo combinava com a altura que tinha, os seios lhe correspondiam, os quadris então, passou e levou os olhos de Sofía pela enésima vez em três dias.


Havia a visto ainda no check-in. Tinham chegado ao mesmo tempo, mas enquanto Sofía estava sozinha, a moça estava com sete pessoas, o que atrasou seu próprio check-in e lhe fez checá-la em detalhes por quinze minutos inteiros. Foi automático, a viu e seus olhos se recusaram a abandoná-la, era bonita e tinha uma imposição física atraente demais, Sofía nem sabia explicar bem, só sabia que quando a viu de short jeans e numa camiseta branca...

Não conseguiu tirar os olhos de cima dela. Menos ainda depois que ela começou a passar de biquíni pela sua frente. Havia a achado interessante logo de cara, mas quando a encontrou no café da manhã no dia seguinte e viu o livro que ela estava lendo... Passou de interessante para intrigante em sua mente.


O motivo era bem simples: ali estava, aquela loira que chamava atenção de quem quer que passasse, com um namorado-galã ao lado e, lendo um dos romances lésbicos de Frederíca.

Não acreditou quando reconheceu o livro! De jeito nenhum acreditou, estava de boa fazendo a sua leitura numa espreguiçadeira quando olhou para frente e a capa de “Santorini” lhe encarou de volta. Primeiro, ficou revoltada, tinha bloqueado Frederíca até dos seus pensamentos para ela brotar num arquipélago isolado na Bahia e fazer questão de lhe lembrar de sua existência, mas então percebeu quem estava com o livro e...


Era sério? Era sério, sua garota-presença que roubava olhares gerais estava lendo um livro lésbico. E lá estava ela, com o livro novamente, cercada de gente, do galã, de um casal mais velho, outros dois mais jovens, garotas que riam alto, uma festa ambulante e que parecia ininterrupta. Sofía já tinha notado que aparentemente, eles viviam celebrando, seja lá o que fosse, era um grupo em festa constante. Sofía levantou-se, foi até o bar checar seu suco que não tinha sido servido, esperou alguns minutos e pronto, suco de maracujá gelado para acalmar um pouco aquele calor. Estava muito calor. Muito mesmo. E quando olhou para parte da causa do calor naquele horário na piscina...


De repente, a loira tinha ficado sozinha.


Em uma das espreguiçadeiras, com seus óculos escuros e toda atenção do mundo prestada naquela leitura.


Sofía pensou um pouco, sentou-se em sua espreguiçadeira. Era a primeira vez que a via sozinha em três dias.


Ok, por qual raio de motivo ela estava lendo um livro de Frederíca?


Pegou suas coisas e foi sentar-se ao lado dela.


— A história é boa? — Brotou a pergunta absolutamente do nada e a moça...


Ela lhe olhou imediatamente, por cima dos óculos escuros deixando Sofía ver pela primeira vez, aqueles olhos degradê numa paleta cor de mel. E, ela lhe sorriu. Lhe olhou e abriu aquele sorriso absurdamente bonito.


— Só li oito vezes, é um dos meus preferidos.

— Oito vezes? Ele é quase um calhamaço!


Ela riu, uma risada densa, gostosa.


— Não chama de calhamaço. É um romance... Perfeito. E o livro nem é sobre romance.

— Não é sobre romance, mas é romance?

— É que tem um romance lindo no meio, mas na verdade é a história de uma mulher incrível, muito bem sucedida, que vai para Santorini e... É que lá, em Santorini, ela conhece uma... Uma pessoa, e essa pessoa surpreendentemente tem crianças... E a protagonista, a mulher incrível acaba descobrindo em si um instinto materno impressionante e ela... Ela, a pessoa por quem ela se apaixona... — Outro sorriso dela, ela tinha ficado vermelha e Sofía não estava conseguindo parar de sorrir — Olha, eu sei que está parecendo que a história é chata e confusa, mas eu juro que é o romance mais bonito que eu já li na minha vida, é muito delicado, muito profundo e...

— É, eu imagino que seja. Eu conheço a autora.


A moça lhe olhou absolutamente surpresa. Ou assustada. Não conseguiu decidir.


— Você... Conhece? Conhece Frederíca Gonzalez?


Sofía tomou outro gole do seu suco e não segurou o sorriso. A cara da moça estava ótima.


— Conheço. Ela é minha namorada.


E ela começou a rir. A rir alto, gostoso, incontrolável.


— Então é claro que você sabe que...

— Que o livro é gay, é, eu sei.

— E daí você me viu com o livro e me viu com o...

— O galã, eu vi — Sofía não conseguia parar de sorrir também — Isso... Isso não tem importância. Eu só achei muita coincidência você estar lendo um livro da Frederíca. “Santorini” é um best-seller, mas um best-seller de um... Determinado público. É uma bobagem, né? O livro é ótimo, todo mundo deveria ler, independentemente de qualquer coisa — Esticou a mão para ela — Sofía Gonzalez, prazer.

— Gonzalez? Então nem é namoro, vocês são casadas!

— Somos, mas o Gonzalez é meu, eu só emprestei para ela porque soava melhor que “Brito Moreira”...

— Entendi — Ela tinha fechado o livro e se sentado na espreguiçadeira — Você... Você pode...? — Não deu sentido a frase, seguia sorrindo — Eu acho que preciso beber alguma coisa...


Sofía riu mais.


— Eu pego para você, espera aqui.


Foi até o bar, pediu um suco para ela também, retornou e ela ainda estava rindo sozinha. Entregou o suco, e os dedos se tocaram por um instante. Algo breve, mas que levou os olhos das duas. Um toque, e olhos nos olhos. E Sofía se sentou na espreguiçadeira perto dela, quebrando o momento no tempo naquele toque.


— Eu ainda não acredito que... Não acredito. Ela vai encontrar você aqui, alguma coisa assim? Você está sozinha, não está? Ainda não te vi com ninguém...


Sofía olhou naqueles olhos de mel. Se ela ainda não tinha lhe visto com ninguém, significava que tinha lhe visto de alguma forma.


— Ela... Ela ficou em Cartagena, onde moramos. Eu estou sozinha mesmo.


A moça lhe olhou. E, apertou os lábios. Esticou a mão para Sofía.


— Angra Fernandes — As mãos se tocaram e incorreram em energia.

Angra precisou de um tempo para se recompor. Melhor, um tempo para decidir se tinha ficado mais constrangida por ter sido pega lendo um livro gay ou por ter tentando contar outra história sobre o livro que não fosse gay, era de se estudar a respeito. Então pediu alguma coisa para comer, alguns salgados, queijo, Sofía gostava de queijo? Ela sorriu, disse que gostava sim, então pediu queijos, torradas, alguns canapés e doces, sim, precisava se recompor e preferia fazer isso comendo.


Hors d'oeuvres — Sofía disse ao pegar uns dos canapés.

— Como?

Hors d'oeuvres, são... Essas pequenas porções servidas antes de uma refeição, é uma tradição francesa antiga que acabou se espalhando pela Europa, como... — Pegou um dos amanteigados — Petit four, outra tradição que popularizou porque... — Olhou para Angra, ela estava sorrindo e lhe olhando engraçado, abriu um sorriso — Eu sou muito esquisita, não é? Tenho muita cultura inútil...

— Não tem nada de inútil! Eu nunca dividi comida com alguém que soubesse tanto a respeito do que estava sendo servido. Espera, isso tem nos livros da Frederíca!

— Tem, ela adora inserir culinária nas histórias, nós nos divertimos muito viajando e provando coisas, estudando a respeito, inclusive — Pegou o livro que estava lendo “Cozinha Vegetariana do Mediterrâneo” — Eu adoro o assunto.

— É a parte que eu mais curto nos livros dela, sabia? Essas informações extras que vão além da história.

— Já leu quantos livros dela?

— Os quatro, umas cinco vezes ao menos cada um — Respondeu sorrindo, provando um dos canapés — Mas o meu preferido é “Santorini”, foi o primeiro que eu li e me tocou tanto que... Eu nem consigo explicar a minha relação com esse livro aqui.

— Bem, é meu preferido também. Ela costuma dizer que nós escrevemos ele juntas porque eu precisava curar de uma coisa, foi um momento muito pessoal, acabou se tornando muito terapêutico, sabe.


Angra lhe olhou.


— Posso saber do que precisava curar ou estou indo rápido demais?


O capcioso na perguntar fez Sofía sorrir.


— Nós havíamos acabado de casar e eu queria um bebê. Mas Frederíca julgava que éramos muito jovens ainda, que queríamos conhecer o mundo e que diante disso, minhas ideias não correspondiam aos fatos — Explicou sorrindo — E ela tinha razão, não dava para juntar as duas coisas de modo harmônico, daí nós fomos para Santorini e ela me deu bebês fictícios, nessa história linda.


Angra não conseguia parar de olhar para ela.


— Desculpa, mas você ainda me parece extremamente jovem...


Sofía riu.


— Nem tanto, acabei de fazer 28 e quando casamos, tinha 25, e Frederíca é ainda mais nova, eu entendo.

— Três anos de relacionamento, igual a mim e ao Guilherme. Só que eu sou um pouquinho mais velha que você, senti que deveria casar aos trinta, sabe, um tipo diferente de crise.

— Então você é casada...


Angra abriu outro sorriso.


— Na verdade, eu estou em lua de mel.


E Sofía a olhou muito desacreditada.


— Você...? Mas tem galera com você!

— Eu sei — Angra estava rindo também — Nós tivemos uns dias a sós em Noronha e depois combinamos de encontrar com eles aqui, estamos com o irmão dele e a esposa, minha melhor amiga que acabou de casar também e o marido dela, meu irmão, a namorada e, os meus pais.


Sofía começou a rir alto!


— É sério?

— É sério — Angra estava rindo também — Como eu te disse, tivemos uns dias a sós e depois, por que não? Está todo mundo de férias...

— Entendi — Tinha entendido, mas ainda estava achando demais.

— É que... A gente namora há um tempo já, o casamento foi só... Um marco maior, sabe?

— Já moravam juntos então.

— Ainda não, vamos morar a partir de agora, compramos um apartamento e... É isso. Tem uma vida nova nos aguardando e acho que os dois quiseram passar mais um último tempinho com as nossas famílias.


Sofía olhou para ela. De óculos escuros, pele dourada, uma raiz loiro-avelã se mostrava por meio das luzes mais claras.


— Eu vou ser indelicada se eu perguntar...? — Olhou para o livro — Eu sei que é até preconceito meu, mas é que... É no mínimo interessante, você deve concordar comigo.


Ela seguia sorrindo.


— Concordo sim. Então, é que... Tem umas questões em mim. Que vão e retornam em momentos diferentes meus. Eu nunca tive nenhuma garota, nunca beijei nenhuma menina, mas... Sempre teve alguma coisa. Um interesse, uma atração, um flerte aqui ou ali, com meninas diferentes, nunca nada muito específico. Mas acabou que nada muito significativo aconteceu, eu namorei rapazes sempre, encontrei aquele príncipe com quem eu acabei de me casar e, é isso. Eu leio esses romances porque... Realizo uma parte minha assim? Acho que é isso — Abriu outro sorriso lindo, meio envergonhado, mas muito sincero — Eu vou ser indelicada se perguntar por que você está aqui sozinha?


Sofía tomou outro gole do seu suco. Desconfiava que Angra não seria indelicada nem se tentasse muito.


— Eu estava precisando de um tempo para mim, sabe? Um tempo para arrumar a minha cabeça, fazer as coisas que eu gosto, pegar uma praia, no meu país, falar o meu idioma, ler meus livros, escrever um pouco, essas coisas.

— Tão independente. Eu nunca viajei sozinha na minha vida, assim, para tão longe. E nem tive... Um momento para mim assim — Mas por algum motivo, Sofía tinha ficado triste ao lhe dizer aquilo que Angra julgava tão poderoso, uma mulher sozinha viajando por um arquipélago — Posso saber o que você faz?

— Ah, eu sou jornalista, especialista em tecnologia, mas que acabou escrevendo blogs de viagem, veja bem... — Disse, fazendo Angra rir.

— Então você escreve também! Espera, espera... — Pegou o livro de volta — Os bilhetes do livro — O livro contava com 42 capítulos e todos eles, tinham bilhetes muito pessoais escritos — Você é essa Sofía! Que a Frederíca fala aqui no epílogo, que escreveu os bilhetes...

— Isso, os bilhetes são meus — Abriu um sorriso — Foi uma terapia mesmo, sabia? Eu acordava naquela ilha incrível e escrevia um bilhete todos os dias, para mim mesma, eu só não sabia que... Ela estava guardando os bilhetes e que iria incorporá-los ao livro. Você... Você tem os bilhetes marcados?


Tinha. O livro estava cheio de flags.


— São as minhas partes preferidas. Esses bilhetes... — Olhou nos olhos dela, da mulher que tinha escrito os bilhetes que Angra trazia consigo há um ano, sempre que se sentia sozinha, sem saída ou, sem coragem. Mudou o rumo de seus pensamentos — Pode me dizer qual é a sua cozinha preferida? — Perguntou, tão de repente que fez Sofía rir imediatamente.

— Cozinha preferida?

— É, eu sei que estamos com poucas opções de cozinha, mas eu quero saber o que posso pedir pra gente almoçar...


Sofía manteve seus olhos dentro dos dela. Ela estava lhe chamando para almoçar?


Cozinha italiana. Mas aceito feliz da vida qualquer comida baiana, é uma cozinha deliciosa demais.


Outros sorrisos, outros olhares. Angra perguntou se elas podiam almoçar no hotel mesmo, o restaurante era muito bom, podiam, é claro que podiam e o almoço com ela foi extremamente agradável. Conversaram muito, riram demais, tanto que sequer perceberam a hora passando. Sofía descobriu que Angra era administradora, especialista em FP&A, Planejamento e Análise Financeira, tinha uma startup especializada em intermediar negócios internacionais e Sofía riu dias que a especialista internacional morria de medo de avião.


— Os negócios hoje são digitais, gente, quem precisa voar?


Terminaram o almoço, ir para a praia foi automático, mergulharam, ficaram pela areia e enquanto estavam pegando sol e olhando em direção à Abrolhos, Sofía contou os planos dos próximos dias.


— Eu não acredito que você vai fazer um live on board!

— Eu vou, vou no sábado — Contou sorrindo, sentindo o sol secando sua pele no sal — Ficar três dias no mar, remando, mergulhando, tendo a visão das ilhas todos os dias...

— Escrevendo bilhetes para você mesma?


Sofía cruzou os olhos dela sorrindo. Eram lindos, ficavam clarinhos no sol a ponto de reverter a cor de mel para um verde-oliva.


— Ando precisando fazer isso outra vez.

— Você gosta de ilhas — Ela lhe disse com um tom diferente na voz.


Sofía gostava de ilhas. Angra tinha nome de ilha.


E o marido sentiu falta de sua ilha.


Ele ligou, perguntando onde Angra estava, haviam voltado ao hotel e ninguém havia a encontrado, era hora de voltar, as duas sabiam.


— Você vai voltar para o hotel, ou...?

— Acho que vou andar um pouco e depois vou para o hotel.

— Você... — Ela estava com o celular na mão — Pode me dar seu número? A gente pode marcar alguma coisa, eu adorei meu dia.


Sofía também tinha adorado. Anotou seu número para ela e a observou voltando para o hotel, até sumir do seu campo de visão.


Angra voltou para o hotel caminhando muito devagar. O livro em suas mãos, seu companheiro inseparável há tanto tempo, o livro com os bilhetes aos quais tanto tinha apego e de repente, assim, do nada, no sul da Bahia aleatoriamente havia acabado de passar um tempo com quem havia escrito aqueles bilhetes. Era mais surreal do que se tivesse encontrado Frederíca Gonzalez pessoalmente. Entrou em seu quarto, Guilherme estava assistindo futebol. Deu a volta na cama e o beijou.


— Ei, como foi seu dia?

— Foi muito legal! Você devia ter ido, o passeio foi muito bacana — Eles tinham ido até uma cidade vizinha passar o dia — Você melhorou?

— Melhorei sim — Tinha acordada muito cansada, mas dito que estava com dor de cabeça para ver se conseguia ficar algumas horas sozinha.

— E fez o quê por aqui?

— Fiquei na piscina, lendo um pouco e, lembra da garota que todo mundo comentou?

— Aquela que até a sua mãe achou bonita?

— Essa mesma — Afirmou sorrindo — Eu conheci ela hoje, chama Sofía, é blogueira de viagem, mora na Colômbia.

— Colombiana?

— Carioca, mas os pais são colombianos. Ela é muito interessante, muito bacana de se conversar, está indo fazer o live on board que eu tanto queria...

— A gente já falou sobre isso, Angra, a nossa galera não vai ficar três dias sem internet de jeito nenhum.

— E se fossemos só nós dois? Ainda estamos de lua de mel.

— Eu sei, mas... — Ele sorriu — Eu acho que eu não fico três dias sem internet também, a mergulhadora aqui é você, eu ficaria sem fazer absolutamente nada.


Angra apertou os lábios. O beijou rapidinho e foi para o banho. Na verdade, foi primeiro para o seu celular, trancou a porta, sentou-se no chão mesmo e foi fazer algo que nunca tinha feito antes: pesquisar Frederíca Gonzalez no Instagram.


Nem era por nada, é que suas leituras dos livros de Frederíca eram tão especiais que nunca quis saber mais sobre a autora. Podia descobrir coisas que viriam a lhe decepcionar se não correspondessem a imagem que tinha feito dela sozinha. Mas agora que tinha conhecido Sofía...


Encontrou Frederíca e só lhe fez sentido mais tarde ter ido primeiro atrás de Frederíca para então encontrar Sofía. Deslizou pelas fotos de Frederíca, sabia como ela era fisicamente, estava estampado em todos os livros, era o tipo de imagem que vendia por si só, uma garota talentosa, bonita, tatuada, mas entrar numa rede social dela nunca tinha feito. Não queria detalhes pessoais que pudessem poluir sua fantasia a respeito dela, mas agora que estava ali, vendo as fotos dela... Podia ter ido antes, se tivesse ido antes, já saberia que Sofía existia.


Ela estava em várias fotos ao lado de Frederíca, casal jovem, bonito, viajando por ilhas do mundo, sorrindo em restaurantes diferentes, felizes numa praia qualquer. Elas combinavam e aparentemente, não eram apenas livros que Frederíca vendia, era aquele relacionamento também. Clicou na conta pessoal de Sofía e, era bloqueada.


Filha da mãe.


Pediu para seguir e foi aceita em segundos. Nem deu tempo de ficar muito chateada. E abriu um sorriso ao ver as fotos dela...


Eram fotos diferentes das fotos de Frederíca. Havia poucas fotos de Sofía e muitas fotos do mundo, de pratos diferentes, culturas, livros, meditação, ioga, surfe, tinha tudo isso por lá. Abriu todas as raras fotos em que podia vê-la, uma a uma e quando curtiu uma foto antiga sem querer, descurtiu o mais rápido que conseguia, sem saber que já era tarde. Sofía tinha visto, sabia que ela estava na sua conta, sabia que ela estava lhe vendo.


A única coisa que não sabia bem, era o que Angra podia estar querendo.


Se encontraram no café na manhã seguinte e Angra fez questão de lhe apresentar para todo mundo que estava com ela, ela era simpática demais e tinha a quem puxar, os pais foram super simpáticos e o entendimento de Sofía com Carolina foi imediato. Porém apesar dos convites para passar o dia com eles, agradeceu e preferiu seguir sozinha. Olhares, muitos olhares. Mel em castanha-do-Pará, Angra tinha lhe dito que seus olhos tinham o mesmo marrom das castanhas paraenses e que brilhavam como tal. Acabaram se reencontrando na praia a tarde e puderam conversar mais um pouquinho, rir mais um pouco e quando Sofía cruzou com Angra num restaurante a noite, achou que estava sendo seguida.


— Não posso te garantir que não estou... — Ela disse, fazendo Sofía rir.


No dia seguinte, se perderam no café, mas se encontraram no almoço, além deterem passado a manhã inteira conversando por WhatsApp. Era como se sempre tivessem assunto, sempre tivessem algo para se contarem, se mostrarem, Sofía acabou almoçando com o grupo e passando outro tempinho com Angra na piscina, numa conversa infinita e animada sobre personagens escritas por Frederíca e quando aquele dia acabou, Angra se deu conta de que teria só mais um dia com Sofía por perto no hotel. E foi justamente o dia em que tinha um passeio marcado e acabou passando o dia inteiro fora. O último passeio do dia, fizeram de barco e ao pôr do sol Angra ficou tão pensativa que até Guilherme notou. E não, ele quase nunca notava as coisas, não era por nada, era apenas por distração mesmo.


— Você quer mergulhar, não quer? — Ele perguntou.

— E você quer ir pra Prado — Respondeu sorrindo.

— Temos um impasse — Ele a guardou nos braços com carinho — E este pôr do sol que você está perdendo.

— Eu ando meio... Não sei, distraída.

— Acho que é o contrário: está pensativa. Focada em alguma coisa. Eu prometi pra você, só casamos, não será uma prisão. Você segue sendo você, eu sigo sendo eu e só vai fazer sentido se seguirmos sendo nós dois, entende?


Angra entendia.


Chamou Sofía para jantar aquela noite, ela partiria de manhã cedinho e queria passar mais um tempo com ela. Jantaram em nove pessoas e ainda assim, parecia que elas estavam jantando sozinhas, porque o assunto seguia, sempre seguia. A sensação que Sofía teve quando Angra foi deixá-la em seu quarto foi muito distinta: primeiro, sentiu de verdade que tinham jantado sozinhas numa mesa com nove, segundo, podia estar louca, mas achou que ela não queria lhe deixar entrar.


Ficaram conversando, num clima muito agradável, na porta do quarto de Sofía e lembrava de ter pensando que se fosse apenas uma amizade, não teria hesitado em convidá-la para entrar. Mas não convidou e isso lhe disse algumas coisas sobre si mesma. Angra era linda, gentil, divertida. Sofía queria poder passar mais um tempo com ela.


— Tudo pronto para amanhã? Para o live on board?

— Eu... Não sei bem. Eu não desisti, mas...

— Não desista — Ela disse, com veemência — Você tem que ir, veio aqui para isso.

— Na verdade, eu vim aqui para uma outra coisa.


Olhos nos olhos. Angra estava perto demais, Sofía conseguia sentir o perfume dela, o calor da pele dourada pós-sol.


— Vai me dizer por que está aqui de verdade?


Sofía sorriu. E desviou os olhos.


— A gente faz assim: se por acaso a gente se encontrar pessoalmente de novo, eu te conto.


Ela esticou a mão na sua direção imediatamente.


— Feito.


Se despediram enfim, já era quase uma da manhã. Então, Sofía decidiu arrumar sua mochila, minimalista, apenas com as coisas que realmente precisaria nos seus dias a bordo. Angra tinha razão, precisava daquele isolamento, daquele tempo privilegiado em alto mar, o mar sempre lhe acolheu, não seria diferente agora.


Acordou antes do sol nascer e quando ele estava subindo de dentro do mar, já estava embarcando no iate que seria sua casa pelos próximos dias. Teria companhia, mais vinte pessoas, a tripulação e no exato momento em que terminou de escrever uma mensagem de despedida e agradecimento para Angra...


— Você está brincando comigo...


Ela gargalhou. Ela estava ali, de short jeans e camiseta preta, boné sobre os cabelos, sorriso aberto às cinco da manhã, vendo o sol nascer da proa! Ela veio para perto e o abraço foi muito longo, um tanto apegado, tanto que as duas notaram. Se soltaram, devagar, mas soltaram.


— Agora vai ter que contar. O motivo de verdade.



Abrolhos, “abra os olhos”. O arquipélago recebera tal nome em virtude dos inúmeros naufrágios acontecidos na região por conta da rica bancada de corais que estava em todos os lugares e dificultavam a navegação, causando os naufrágios. Abrolhos, “abra os olhos para navegar”, era isso. O mar azul-deslumbrante, brilhando contra a luz do sol, deslumbrante e perigoso, o mar era traiçoeiro por ali, às vezes era rasinho e de repente, ficava profundo, “abra os olhos, abra os olhos”, era exatamente como estar casada com Frederíca Gonzalez.


— Eu acho que o pior, é nem ser a primeira vez. Eu já passei por isso antes, mas de outras maneiras. Peguei mensagens que não deveria, vi olhares que não deveria, mas eu sempre relevei porque, ela tem visibilidade, trabalha com público, se você acha que existe uma quantidade significativa de meninas que caem em cima dela, você está certa, e a quantidade que automaticamente não caí, ela faz questão de conquistar. Eu... — Abriu um sorriso, estavam tomando café na parte de trás do iate, afastadas do grupo, sozinhas — Me sinto péssima, você devia ter uma imagem linda dela, não é?


Angra sorriu.


— Na verdade eu tinha, uma mulher que escreve esses romances deveria... — Outro sorriso — Deveria ser perfeita.

— Então — Abraçou os joelhos contra o abdômen — Não existe pessoa perfeita. Não se a gente...

“Abrir os olhos”. Não tem ninguém perfeito, mas sei que existe alguém perfeito para cada um sempre, em algum lugar.


Sofía olhou para ela.


— Você achou a sua pessoa perfeita?

— Ah, Sofía... Não é porque eu nunca passei por uma traição que o Guilherme é perfeito. Nem porque a Frederíca traiu que ela é completamente imperfeita. Eu só não entendo como... — Angra olhou para frente, estava de óculos escuros e boné — Ela traiu você. Tipo... Essa mulher que você é.

— Eu sou chata, Angra, muito chata, não gosto de sair, prefiro ficar sozinha em alguns momentos, eu sei que falho como esposa com ela, mas eu tento. Tento agradar, fazer as coisas que ela curte...

— Ela tenta ficar com você? Nos seus momentos que quer ficar em casa por exemplo? Ela se esforça igual?


Sofía pensou consigo. Sabia que não. Olhou para Angra outra vez.


— Como você...? Como você está aqui? Em plena sua lua de mel? Como está aqui sozinha?

— Primeiro, eu não estou sozinha, estou aqui com você, que vai me fazer companhia e...

— Passar um pedaço da sua lua de mel com você, não para de ficar esquisito.


Angra riu.


— Segundo, Guilherme queria ir para Prado, a maioria queria ir também, mas eu queria fazer o live on board. Eu sou mergulhadora...

— Espera, você é mergulhadora?


Outro sorriso.


— Com certificado e tudo. Fiz o meu batismo em Angra dos Reis...

— Não sei por que não me surpreende...

— Eu tinha que ir lá, né? O lugar onde fui feita, que originou meu nome...

— E foi de carro, provavelmente.

— De ônibus, estava com preguiça de dirigir...


Ela lhe fazia rir. Com uma facilidade que Sofía sequer acreditava.


Tiveram um passeio absolutamente deslumbrante! Aquelas águas eram inacreditáveis, cristalinas demais, fizeram o primeiro mergulho de snorkel, porque estava rasinho, ao redor de uma das ilhas do arquipélago, os corais e uma quantidade inacreditável de peixes faziam a festa ao redor de si. O biquini preto de Angra combinando com o branco de Sofía, o cabelo loiro-avelã formando ondas no fundo, o rosto terno de Sofía lhe sorrindo naquela máscara de mergulho, Angra voltou para o barco aquela tarde sabendo que sonharia com isso, com Sofía nadando no fundo, sorrindo na máscara de mergulho, com os cabelos longos sereiando na sua direção...


Foi para o banho em sua cabine pensando nisso. E talvez por isso, tenha levado muito mais tempo do que costumava se arrumando antes de ir jantar. Escolheu um short jeans e passou um tempo engraçado decidido entre uma camisa de botões branca e outra. Adorava suas camisas brancas, sabia que ficava bem nelas e só então, foi jantar. E descobriu que Sofía tinha vinhos! Vinhos chilenos que ela não pretendia dividir com ninguém além de Angra. Estavam num grupo relativamente grande e elas escaparam do convívio em grupo que era uma das coisas propostas pelo live on board para irem jantar sozinhas, na popa que já era delas, com o vinho, alguns hors d'oeuvres que Angra havia dado um jeito de preparar na cozinha. Ela lhe disse que não cozinhava muito, mas que sabia fazer algumas coisas e pelo capricho que os canapés ficaram, Sofía entendeu que aquilo refletia a personalidade dela.


— É impressão minha ou você tem uma coleção de camisas brancas?


Angra estava rindo.


— Metade do meu guarda-roupa é branco, você já deve ter notado que... — Fez um gesto que Sofía traduziu por...

— Fica muito bem de branco, digamos que eu tenha notado. Como é que você certificou em FP&A?

— Fui para Florida. Fiquei lá até formar, nada de ficar indo e voltando. Você sabe que lá, eu conheci uma menina que me chamou atenção. Todos os dias eu ia para a aula pensando que alguma coisa podia acontecer, mas como ela não se moveu e eu não me movi... Deu em nada. Eu costumava ser muito tímida.

— E muita menina já deve ter se interessado por você sem você perceber. Você é um tipo interessante, que prende atenção feminina...


Angra olhou bem para ela. Estava uma noite linda, estrelada, o mar glass todo suave.


— Conte-me mais sobre isso...


Mais risadas de Sofía, as taças de vinho secando.


— Ah, você é alta, é bonita, tem esse estilo todo, as camisas masculinas mescladas com coisas bem femininas, o sorriso bonito, os olhos bonitos, mulheres olham muito para isso, é... Atraente. Para olhos femininos.


Angra apertou os lábios. Estavam muito perto uma da outra, a noite estava linda, aquele vinho era delicioso e não sabia bem o quanto tudo isso tinha influência em... Em como estava sentindo.


— Olha, se eu atraí alguma menina na vida, elas disfarçaram muito bem porque eu já quis muito uma menina e nunca consegui nenhuma... — Disse, fazendo Sofía rir mais ainda.

A primeira garrafa de vinho secou, a segunda também e Sofía se recusou a abrir mais uma. Disse que era melhor irem dormir, o dia começava cedinho amanhã, iriam mergulhar de cilindro, em alguns dos diversos naufrágios do arquipélago e Angra fez questão de primeiro deixar Sofía em seu quarto.

— Vai que você despenca para o mar, deve ter bebido uma garrafa inteira e mais metade da outra... — Disse, quando chegaram na porta de Sofía e... Aquele corredor era estreito, muito estreito. Ficou de costas para sua porta e de frente para Angra e ela estava tão perto que...


Reagiu entre suas coxas. Aquela imposição física, o jeito que ela estava perto, lhe cercando com os braços.


— Você bebeu metade, exatamente metade...

— Você bebeu metade de todas as minhas taças — Ela abriu aquele sorriso lindo e Sofía não tinha certeza se ela de fato não estava dizendo a verdade...

Eu vi você — Disse, por motivo nenhum — Assim que cheguei no hotel, eu vi você.

— Eu sei, eu também te vi. Estava bonita, de kimono boho florido, eu vi você, falando espanhol no celular — Ela confessou, com o rosto muito perto do seu, lhe olhando nos olhos com aquele mel fervendo na íris.

— Por que me viu?

— Porque era impossível não ver. Tem um bilhete seu, em “Santorini”, que diz que... Você olhou para aquela ilha e seu coração deu sinal dentro do peito. Diz que você vibrou por dentro, em gratidão e beatitude — Angra abriu outro sorriso, chegando ainda mais perto. As pernas se recostaram, inevitavelmente — Eu não conhecia esta palavra, beatitude.

— É um estado de...

— Perfeita satisfação e plenitude, agora eu sei. Mas você também diz que, no meio da beatitude, havia um vazio, onde você caia nele sem perceber, por estar andando tão tranquilamente feliz que não o via surgir.

— Angra não é uma ilha — Disse, novamente por motivo nenhum além do álcool fazendo efeito.


Angra gargalhou.


— Não é. Mas é composta de algumas ilhas. Sofía?

— O quê?


Angra abriu a porta da cabine dela e a segurou pela cintura.


— Eu descobri o que você sentiu olhando para Santorini quando eu olhei pra você naquele check-in.


E assim, Angra a colocou na cama e foi dormir em sua cabine.


Acordaram com a energia renovada! Tomaram café com o grupo e ver Angra socializando lhe lembrava e não lhe lembrava de Frederíca. Ela socializava diferente, sem flertes, socializava sorrindo, querendo fazer amigos, deixar todos a vontade com a presença dela, era assim. Mergulharam de cilindro logo pela manhã, fazendo aquele passeio diferente pelos naufrágios, nadando pertinho uma da outra, com Angra lhe levando pela mão porque havia algo de incomum por aquela surfista-mergulhadora que era Sofía Gonzalez: ela não sabia nadar.


Angra não conseguia acreditar naquilo quando subiram em Siriba, a única ilha do arquipélago que permite desembargue. Deixaram suas roupas de mergulhadoras no barco e foram andar por aquela ilha.


— Como é que você não sabe nadar? Que história é essa?

— É sério, eu não sei nadar — Ela contou sorrindo — Mas aprendi a surfar, surfo de colete salva-vidas...


Mais risadas de Angra.


— Eu não acredito nisso...

— Eu não aprendi, é verdade. E também tenho medo de mergulhar, dei uma surtadinha, você viu?

— Vi, mas se acalmou e seguiu o mergulho, sem pedir para subir. Me ajuda a entender, por qual raio de motivos vocês faz tanta coisa na água se não aprendeu a nadar?

— Ah, Angra, eu tenho medo e preciso fazer as coisas que tenho medo para tentar perdê-lo. Eu surfo porque tenho medo de me afogar, eu mergulho porque tenho medo de parar de respirar. E então, são as mesmas respirações de ioga, já notou? A respiração certa para mergulhar exige a mesma disciplina das respirações de ioga...


Angra olhava para ela.


— Você faz as coisas que tem medo porque exigem coragem. Eu faço exatamente o contrário. Se não tenho coragem, não me movo. Se parece incerto, eu não faço.

— Você pula do teto do iate... — Disse, arrancando aquela gargalhada gostosa — Isso exige coragem...

— É diferente.

— Não ter medo também é uma forma de coragem.


Era o tipo de coisa que ela dizia e que fazia Angra pensar.


Terminaram a tarde assistindo ao pôr do sol dividindo uma prancha de stand-up numa proximidade cada vez mais intensa. Quando viu, Sofía estava sentada entre as pernas de Angra, quando percebeu, estava com os braços dela envolta de si e era bom, era gostoso, não podia negar.


Por isso, decidiu jantar com todo o grupo aquela noite, mas o vinho seguia só sendo delas. Era um grupo bem diferente aquele que estavam, tinha mergulhadores, turistas em busca de paz, outros só em busca da experiência em alto-mar ou na experiência sem celulares. Eram obrigados a interagir desta forma, obrigados a conversar mais, a se conheceram, como as pessoas normais faziam há tempos. E, tudo evoluiu para uma festa improvisada, havia dois casais em lua de mel a bordo e quando a primeira música romântica surgiu, o vinho os convidou a dançar.


E o vinho chileno convidou Angra a fazer o mesmo.


Ela bebeu um último gole, atravessou o convés e tirou Sofía para dançar.


— Angra...


A puxou de qualquer forma, a fazendo dar um giro antes de trazê-la para os seus braços, passando a balançar com ela de um lado a outro. Era mais uma noite estrelada, bonita, de mar ronronando suavemente.


Go play your video game... — Ela sussurrou a letra no seu ouvido sem se importar com o tom de bronca de Sofía que, relaxou. Passou os braços pelo pescoço dela e simplesmente relaxou, encostando o rosto em seu ombro, esquecendo da vida por um instante — It's you, it's you, it's all for you... Everything I do...

I tell you all the time... — Sussurrou junto com ela, porque adorava aquela música.

Heaven is a place on earth where you... Tell me all the things you want to do... I heard that you like the bad girls honey, is that true? — Cantou aquela parte perguntando, brincando, sorrindo “eu ouvi que você gosta de bad girls, querida, isso é verdade?”.

— Será que eu gosto?

— Eu acho que explica algumas coisas... — Angra a manteve em seus braços, confortavelmente, como se sempre tivesse conduzido garotas em danças — A minha proximidade incomoda? Fisicamente?

— Angra, não é um incomodo...


Ela lhe olhou nos olhos. E voltou a mantê-la pertinho, dançando consigo.


They say that the world was built for two, only worth living if somebody is loving you... Baby now you do...


Foi dormir com esta parte grudada na sua cabeça e Angra não fazia ideia do que estava acontecendo consigo.


O último dia em alto-mar chegou e elas não quiseram fazer muita coisa. Acordaram cedo, tomaram café juntas, se descobriram mais algumas coisas, Angra era apaixonada por música, adorava tocar como DJ de vez em quando, Sofía era blogueira e trabalhava em um roseiral!


— Como é que você não me conta uma coisa dessas?!

— É que... Não sei, a gente fala de tanta coisa, faltou isso eu acho. Eu trabalho num roseiral em Cartagena, foi minha primeira formação técnica, ainda no Rio, em botânica. Não é nada fixo, sou botânica freelancer por assim dizer, é mais... Pelo tanto que é bonito. Desde a plantação ao tempo certo que os botões abrem, às milhares de combinações possíveis, nos arranjos, nas fotos. Isso... Me acalma. Me faz pensar.


Angra a olhava.


— Você tão sofisticada, muito delicada.

— Você é sofisticada! Não sabe nada simples...

— Pode ser simples, mas tem que ficar bonito, vai — Respondeu sorrindo.

— Eu gosto disso.

— A gente combina nisso também.


E o também fazia muito sentido. Muito sentido mesmo.


Almoçaram com o grupo, mais conversas, mais clima bom, elas adoravam ficar com o grupo, mas nada superava o quanto adoravam ficar juntas. Ficaram no mar a tarde inteira, com Angra mergulhando do teto do iate, fazendo o coração de Sofía disparar todas as vezes, mais risadas, mais conversas infinitas e absolutamente aleatórias. Voltaram para o barco e a cor na pele das duas estava incrível, Sofía muito morena, Angra muito dourada, tomaram um banho rápido e quando Angra saiu da sua cabine, Sofía estava na popa, de bermudinha curta, top, camisa xadrez preta e amarela por cima, amarelo era a cor dela, definitivamente era. Angra tocou a cintura dela por trás, Sofía fechou os olhos e apertou os lábios. Estava demais, precisava acalmar.


— Vem pra rede.


A rede eram duas, vazadas, formavam uma cama que flutuava onde dava para ver o azul perfeito do mar abaixo de onde se deitava. Angra a pegou pela mão, pegou um cobertor, um travesseiro e a levou para a rede, o sol iria se pôr em breve, queria assistir dali com ela. Arrumou tudo, de maneira confortável, o sol já estava amenizando, um vento friozinho existia, deitaram-se perto uma da outra porque era inevitável, a rede não era tão espaçosa assim, mas a verdade é que tinha algum espaço, a verdade é que enquanto o sol descia no mar, elas foram ficando mais próximas e mais próximas, até que, o peito de Angra pareceu o lugar mais confortável do mundo...


Deitou-se no peito dela e a pele queimou contra a dela, naquela camisa branca que ela estava usando que acabaria manchada de batom inevitavelmente. Pegaram no sono assim, Sofía no peito de Angra, com a perna passando por cima da dela, um corpo muito encaixado no outro, os braços de Angra a cobrindo, a protegendo, as mãos de Sofía no colo dela, agarradas na sua camisa, adormeceram assim e quando Angra acordou, estavam ainda mais agarradas.


Sofía tinha virado e Angra tinha a seguido, estava dormindo colada nela, com a parte baixa de sua cintura contra os quadris dela o que lhe causou... Um arrepio. Assim que percebeu. Ela estava sobre o seu braço esquerdo, agarrada em seu outro braço, estava cheirosa, geladinha e Angra não fazia ideia...


Do que estava se passando. Do que estava sentindo. Tanto não fazia ideia que esperou que ela acordasse sozinha, queria que aquele momento durasse mais, que senti-la tão perto durasse mais. Ela despertou um tempinho depois, jantaram ali, com vinho e espaguete ao pesto, feito por Sofía. Demorou para entrarem, ficaram lá um pouco mais, perto mais um pouco e Angra...


Foi levá-la na porta da cabine mais uma vez e uma vez mais, ficaram perto demais, mais uma vez Angra a cercou com os seus braços e Sofía...


Sofía não aguentava mais seu corpo reagindo daquele jeito. Fazia muito tempo que não acontecia, aliás, nem tinha certeza se... Já tinha sentido assim. Esse tipo de atração, que ia além do físico, que ia... Para dentro da mente. Era isso, Angra estava mexendo com a sua mente.


— Eu quero dormir com você...

— Angra, não diz isso...

— Eu quero, você sabe que eu quero. Sofía, você pode ter outras intenções comigo e deve estar me achando maluca por estar dizendo isso pra você, mas...

— Angra, não diz mais nada — Colocou os dedos suavemente na boca dela — Não diz mais nada sobre isso. Eu tenho que cuidar de você, entendeu? Você não vai se perdoar se... Não vai.


Angra apertou os lábios olhando pra ela. Suavemente, abriu a porta da cabine e Sofía...


Sofía a encostou na parede. De repente, a encostou do outro lado do corredor e os pensamentos de Angra deram uma travada, uma confundida, toda a atitude que teve antes desapareceu quando percebeu os dedos de Sofía, delicadamente, abrindo sua camisa branca de botões...


— Sofía... — Sussurrou, com o coração atordoado e disparado demais. Devia estar vermelha e trêmula, sentiu seus músculos todos começando a tremer.

— A gente vai desembarcar de manhã e, você vai para Prado, eu vou para Porto Seguro e então vou pra casa... — Deslizou a camisa pelos seus braços, deixando Angra apenas de top, arrepiando em pele contra a pele dela...

— Vai voltar para o seu casamento?

Nós vamos — Tirou a camisa do corpo dela e, cheirou, se afastando lentamente — Eu fico com isso. Com tudo isso — Se referiu a elas duas.

— Sofía...

Sofía a puxou pela nuca e lhe beijou no rosto, apegado e longamente.

— Vai dormir, Angra. Por favor. Vai.


E assim, ela de fato, lhe protegeu.


Se despediram no dia seguinte num café da manhã de volta à Caravelas. Outro assunto longo, outra vontade de não separar, mas era inevitável, e as duas sabiam disso. Antes do meio-dia, partiram de ônibus e em direções diferentes, Sofía vestida na camisa branca de Angra, Angra com a camisa amarelo-xadrez amarrada em sua cintura.


Chegou assim, na pousada onde estavam as suas pessoas e agradeceu muito quando a única presente assim que chegou tenha sido Carolina.


Chegou tão agitada que Carolina fez questão de tirá-la do hotel, de irem para outro lugar, tomar um café, voltar a si, entender o que tinha acontecido.


— Angra, vocês...

— Não, claro que não, quero dizer, não tão claro assim, já que...

— Você queria algo.


Angra lhe olhou nos olhos:


— Algo que eu nem sei o que é direito. Só sei que... Talvez eu quisesse. Essa alguma coisa que... Eu não sei, Carol.

— Eu sei, Angra. Ela abalou você.

Abrolhos, abra os olhos.

— O quê?

— Não sei. Eu acho que abri os olhos.


E Sofía voltou para a Colômbia com a sensação de que havia aberto os olhos e que talvez, nunca mais pudesse fechá-los novamente.

Notas da Autora:


Olá, meninas!


Tudo bem?


Capítulo 2 de Angra postadinho com 2 objetivos:


1. Pedir perdão por estar atrasando 6 AM;

2. Descobrir o que vocês acharam deste capítulo 2!


Como vocês já sabem, "Angra" é a história atual em construção por aqui e história novas sempre precisam de um selo de vocês, leitoras, afinal, o meu trabalho só existe porque têm vocês do outro lado da linha para consumir ^^. Ou seja, me contem tudo o que acharam deste capítulo!


Para a próxima semana, promessa de que teremos 6 AM de volta, a história está sendo finalizada com muito carinho e espero contar com vocês nos capítulos finais apesar desses atrasados.


Ademais, habemos um fórum no WhatsApp! Quem quiser participar, basta clicar!


https://chat.whatsapp.com/DsK5Y6DNQpjL1N7XQBfWYC.


P.s.: e o capítulo adiantado foi só outro mimo pelos atrasos, tá?


Namastê!

707 visualizações29 comentários