SAL - Capítulo extra: QUATRO

11/10/2018      Tessa Reis

Sal |Tessa Reis

Ainda parecia irreal para Arantxa. Era a segunda vez que acordava nos braços de Manu, com ela dormindo muito agarrada em si na sua cama, na sua casa, a segunda vez que a primeira coisa que via ao abrir os olhos era aquele sorriso lindo, que a primeira coisa que sentia era a boca dela na sua e que a primeira coisa que ouvia era “dorme mais que eu vou fazer o seu café, amor” e ainda assim, levava minutos inteiros para se convencer de que não era sonho, era tudo real mesmo.

Aconteceu de novo.

Abriu os olhos e sentiu os braços dela pelo seu corpo, o rosto dela bem diante do seu, ela era tão bonita, a cor de pele única, o amendoado que existia por ela inteira e era como se ela sentisse quando Arantxa acordava, porque era abrir os olhos e segundo depois ela fazia o mesmo. E então, fez novamente, abriu os olhos, olhou para Arantxa, abriu um sorriso e a beijou, muito carinhosa, muito gostoso.

— Fica quietinha que eu vou fazer o seu café, está bem?

Arantxa ficava. Quietinha naquela sensação de sonho, sorrindo sem conseguir evitar enquanto a via caminhando em uma de suas camisetas em direção à cozinha. Respirou fundo outra vez, sentindo a luz rala de sol tentando entrar pela janela, já era inverno, já estava frio o suficiente para fazer Arantxa não querer sair da cama e tendo Manu do seu lado…

Soltou o ar dos pulmões sentindo suas costelas doendo imensamente.  Ainda estava toda dolorida pelo acontecido no seu último porre, dolorida fisicamente e mentalmente, Arantxa não fazia ideia do motivo pelo qual continuava se enfiando em situações das quais se arrependia e morria de vergonha depois. Porém Manu ter aceitado ficar, tinha lhe dado um ultimato em relação a isso: sentia que era sua última chance, era melhor arrumar uma maneira de se colocar em ordem ou perderia Manu em definitivo. E não, não podia perdê-la de jeito nenhum, não com os sentimentos tão claros que via dentro de si e desenhados à sua frente. Manu era diferente de todas as outras, diferente inclusive do que sentia por Sofia, que havia sido o ápice de todo o seu bem-querer por alguém. Quando se separaram em definitivo, ouviu ela dizendo que Arantxa iria sofrer, mas sofreria menos, porque o cenário era que Sofia estava perdendo o amor da sua vida, mas Arantxa estava indo em busca do seu.

Na época, achou um absurdo, principalmente porque haviam acabado de ter Isabela e a explosão de amor que Arantxa sofreu dentro do seu peito quando ela nasceu lhe causou mudanças enormes, mas agora… Agora fazia sentido.

Manu surgiu e passou por cima de tudo sem precisar de muita coisa. Destruiu sua convicção de que não iria namorar mais nenhuma mulher na vida, detonou sua certeza de que o amor da sua vida era Sofia e se tinha perdido, não fazia sentido continuar buscando e agora colocava em dúvida sua posição sobre poder viver pela metade sem sofrimento.

Não sabia mais se podia mesmo fazer isso. Se viver pela metade incluía não ter manhãs com Manu acordando ao seu lado, na sua cama e vindo trazer seu café tão linda do jeito que ela estava voltando ao quarto agora, não, isso não podia mesmo fazer.

— Não tem mais geleia, a gente tem que ir ao mercado ou pedir para Sofia fazer mais — Ela lhe disse trazendo uma bela bandeja de café da manhã, com café, pães, torradas, algumas frutas.

— Ah, estão próximas a este ponto, é?

— Prestes a nos tornamos grandes amigas, olha como somos evoluídas — Ela respondeu sorrindo ao lhe beijar gostoso e lhe entregar a sua xícara de café.

— Você não existe, sabia?

— Ela também não parece existir, por mais boa vontade que eu apresente, se ela fosse maluca igual a determinadas ex-namoradas de determinadas pessoas…

Arantxa a beijou rindo muito!

— Determinadas ex-namoradas de determinadas pessoas não vêm ao caso mais, está bem? — Mordeu um pedaço do pão e ficou um tanto pensativa.

— O que foi, Aran?

— Eu sinto tanta culpa por causa dela, você não faz ideia — Era Lavínia, é claro — Eu não pedi nada, mas ela largou tudo e veio atrás de mim, perdeu boas oportunidades para no final o nosso relacionamento terminar em nada.

— Você causa isso nas pessoas, essa vontade súbita da gente mandar nossa vida para o espaço só pra ficar perto de você. Acabamos tomando cada tipo de decisão… — Disse, extremamente bem-humorada, fazendo Arantxa sorrir outra vez. Era uma mágica que Manu tinha, essa de lhe fazer sorrir sempre.

— Tipo, escolher a mim ao invés da perfeita Lara Iglesias, estou entendendo o seu ponto…

Ela lhe beijou outra vez sorrindo, estavam aos beijos o tempo inteiro, não conseguiam evitar.

— Tipo isso. Mas se você não pediu para ela largar tudo e te seguir, você não precisa sentir culpa.

— Eu já tentei de tudo, ela não aceita nada, já quis manda-la para Paris, para Barcelona, para onde ela quisesse e ainda assim, nada.

— Ela não quer ir em frente para lugar nenhum, ela quer você. Mas infelizmente nisso eu não posso ajudá-la.

Arantxa olhava para ela. A beijou outra vez.

— Eu nem acredito que a gente está namorando.

— Estamos, mas em regime de pequenas concessões, só para você me mostrar que não está acomodada na situação.

— Por que me deu um nervoso agora?

— Porque... — Manu tirou a bandeja de café da manhã da cama e sensualmente subiu em seu colo, fazendo determinadas partes suas dispararem imediatamente…

— Ai, Manu… — Arantxa mordeu a boca e fechou os olhos.

— Eu nem disse nada, e você já está sofrendo… — Enroscou os braços em volta do pescoço dela e lhe mordiscou a orelha, extremamente deliciosa. Arantxa a pegou pela garganta e a beijou, a puxando contra o seu corpo, fazendo toda a pressão que Manu adorava. Ela sentiu suas mãos pela sua cintura, pegando gostosamente seus quadris e um gemido inevitavelmente escapou de Manu. Arantxa adorava os gemidos na boca dela, dava vontade de comê-los feito alfajores no meio da tarde.

— Diz pra mim, o que você precisa?

Ela respondeu de olhos fechados, apertando as mãos pelo corpo de Arantxa, morrendo de vontade.

— Primeiro de você.

Fizeram amor antes de qualquer coisa. Um amor que estavam desacostumadas a fazer, mais calmo, mais delicado porque Arantxa estava muito machucada, mas isso em nem uma vírgula significava que ela estava menos gostosa do que o habitual. Ela deitou Manu na cama a pegando pela curva das costas e fez tudo bem devagar, os beijos em degustação, os dedos correndo pela pele, pressionando do jeito que fazia Manu gemer, pedir por mais, querer se enroscar em Arantxa e só soltar quando as duas chegassem a um prazer extremo. Mas não estava podendo fazer isso, então apenas sofria, com os toques firmes, mas delicados, com a boca dela lhe provando devagar, com os lábios lhe tomando parceladamente, fazendo caminhos sinuosos pelo seu corpo inteiro, pescoço, colo, abdômen, pernas, coxas, até gentilmente culminarem em…

Hum.

— Arantxa…

— Me segura, me aperta, me marca.

Manu não deveria fazer nada daquilo, mas quando ela baixou os lábios e lhe tocou intimamente, Manu não conseguiu. Nem não se agarrar por ela, nem afundar as mãos pelos cabelos dela, menos ainda controlar seu corpo, os espasmos que ela lhe causava, o arrepio de pele, de mente, de alma. Como Arantxa conseguia? Como ela…

— Olha pra mim, meu bem, olha pra mim…

Manu olhou naqueles olhos verdes e sempre que a olhava assim, era remetida imediatamente para a primeira vez que fizeram amor. E além de estremecer de prazer de corpo inteiro na boca dela, estremecia também seu coração.

Se apaixonava por ela de novo cada vez que faziam amor.

— Aran…

Arantxa subiu e a beijou firme na boca, espalhando seu corpo sobre o dela e Manu lhe arrancou a camiseta com a qual dormia, apertando os dedos por aqueles músculos pelos quais era tão louca.

— O que foi, meu bem? — Arantxa lhe perguntou docemente.

Você — Sim, era ela o tempo todo.

Manu virou para cima dela e a fez sua, da sua maneira preferida, descendo seus dedos por ela e beijando aquela boca sem parar, olhando naqueles olhos verdes, a sentindo apertar seus braços, apertar os olhos de prazer, cada vez que Manu a tocava de uma determinada maneira, ela reagia diferente, não estava habituada a fazer amor assim, aquela sua namorada tão ativa, mas com Manu, ela estava se acostumando e aquelas expressões naqueles olhos lindos não deixavam dúvidas que ela adorava aquelas novas sensações. Manu sentiu o prazer se aproximando do seu toque e então a segurou pela cintura, agora sim baixando a boca, a pegando naquela curva final em que o orgasmo corria por dentro dela, Manu adorava tocá-la, mas amava senti-la derretendo inteira na sua boca.

Arantxa derreteu. Estremecendo muito, mas com a mão de Manu lhe apoiando no abdômen para que não sentisse muita dor.

— Calma, respira, respira, isso, meu Deus, como você é linda… — Manu subiu para a boca dela e a beijou, delicadamente. O sol entrava tímido pela janela, mas a manhã era totalmente invernal — Machucou muito?

— Não machucou nada — Ela respondeu sorrindo, lhe tocando o rosto, ainda ofegante — Ninguém nunca me disse essas coisas, sabia?

— Que coisas? Que você é linda demais?

— Nunca ninguém disse. Eu acho que nenhuma namorada minha alguma vez me viu desse jeito que você vê.

— Como uma mulher que precisa desse tipo de elogio. Na verdade, eu acho que você condicionava elas a este comportamento, você não parece precisar dessas coisas, ou ter paciência para essas coisas.

— Mas você faz tudo isso comigo de qualquer jeito.

— Faço. Pode negar o quanto quiser, toda mulher precisa desse tipo de carinho, desse tipo de elogio, e até de… — Sussurrou algo safado sobre o jeito que ela lhe tomava e Arantxa quase ficou vermelha. Era outra coisa inesperada daquela Iglesias, o quanto ela ficava tímida em certas situações.

— Sei, aham, sei — Ela respondeu sorrindo lhe tocando o rosto — Agora me fala o que a gente vai fazer hoje — Andavam em regime mesmo de concessões, Manu lhe pedia pequenas provas de que estava trabalhando para mudar, para parar de se esconder e ser mais aberta.

— Então, o que acha da gente ir num encontro a quatro?

Arantxa ficou pensativa sobre.

— Encontro a quatro? — Mil coisas lhe passaram imediatamente pela cabeça, incluindo gang bang em algum motel, o que lhe deixou toda trêmula e Manu percebeu na hora! Abriu um sorriso.

— Sair para jantar com duas amigas minhas que estão ficando, é só isso.

— Ah, tá! Esse tipo de encontro a quatro… Eu achei que, enfim... Eu sou um ser humano muito conservador, você não faz ideia. Se você tivesse com ideias grupais eu teria que te transferir para a Lara, que é adepta dessas coisas…

Manu riu alto desta vez.

— Claro que não é nada disso, Arantxa. Eu também não sou adepta desse tipo de coisa, não sou tão evoluída assim. Eu só quero que a gente saia para jantar com outro casal.

— Manu…

— Elas são super discretas, não precisa se preocupar.

— Mesmo?

— Aham. Eu pensei de pegarmos um restaurante fora do centro, conversar um pouco, vai ser legal.

Arantxa automaticamente queria dizer não. Era sempre a sua resposta para coisas desse tipo, mas, não estava em condições de dizer não para a maioria das coisas que Manu pedia, então…

— Está bem, tudo bem, do jeito que você quiser. Mas elas não vão gostar de mim — Disse, fazendo Manu rir outra vez.

— Por que acha que elas não vão?

— As pessoas nunca gostam muito de mim, eu sou chata, sou difícil, não sou divertida…

Manu a calou com um beijo.

— Para, eu tenho certeza que elas vão te adorar. Outra coisa, precisamos rever essa maneira que você enxerga a si mesma, Arantxa. Você é tão inteligente, sabe falar sobre qualquer assunto, nunca te vi contando uma piada, mas você me faz rir o tempo todo, tem uns probleminhas de TOC, mas quem não tem? Você tem essa mania de achar que as suas irmãs ficaram com todas as qualidades das Iglesias.

— E não ficaram?

— Você é fiel de uma maneira que a Lara nunca vai conseguir ser por personalidade, ama numa intensidade que eu não sei se a Rafaela é capaz, ama em excesso, por você mesma e pela outra pessoa se for necessário. É leal ainda quando os compromissos não estão selados, se você sente, a sua lealdade já está condicionada. É forte demais. Mais forte que a sua mãe, porque mesmo tão pequena, foi você quem manteve essa família unida no momento da depressão pós-parto. Essa é você, está bem? Arantxa Iglesias, a mulher maravilhosa pela qual eu estou apaixonada.

Arantxa a abraçou forte e lagrimou. Era outra coisa, andava chorando por tudo.

— Ei meu amor, não chora não, não é pra você chorar.

— Eu sei, é que… — Respirou fundo, olhando para ela — Eu não mereço você.

— Eu também não mereço você, mas já concordamos que vamos ficar juntas.

Arantxa caiu no riso, os poderes de Manu não paravam de crescer.

— Tudo bem, vamos lá: o que você acha de irmos almoçar com uma amiga minha? — Lhe perguntou Arantxa totalmente de surpresa.

— Com uma amiga sua?

— Uma que eu tenho certeza que vai adorar você.

— É claro que a gente vai! Já tem horário? — Ela checou o celular ao lado da cama — Já são quase dez da manhã.

— Ela só tem horário ao meio-dia, a agenda dela é bem cheia. Vamos pegá-la, então levá-la para almoçar e ela tem compromisso marcado de estar em casa às duas da tarde, com uma boa mamadeira de leite, deitadinha em algum colo que lhe faça dormir.

E Manu derreteu num sorriso, brilhando aqueles olhos.

— Eu vou conhecer a Bela?

Arantxa lhe beijou a testa.

— Vai sim.

Tomaram um banho gostoso juntas e no horário certinho foram buscar Bela na escola. Arantxa ia pegá-la quando não estava de plantão e todas as vezes a reação do seu bebê era a mesma. Ela ficava muito, muito empolgada e saía correndo em direção a Arantxa, que desta vez não conseguiu pegá-la no colo. Havia a pegado no colo quase que no dia seguinte ao seu acidente enquanto a levava para escola e isso tinha resultado numa costela fora do lugar que Lara teve que consertar sob muita dor. Então se abaixou, recebendo aquele abraço caloroso, mas Bela sentiu falta.

— O colo, Aran, colo, me segura, me segura…

— Eu sei bebê, mas é que… — Estava com o braço em carne viva, com as costelas doendo cada vez que respirava e lhe dava uma vergonha…

— Aran não está podendo pegar você no colo, princesa, mas se você quiser — Manu tinha se abaixado ao lado de Arantxa e abriu seus braços e um lindo sorriso para aquela coisinha linda. Era um bebê lindo demais — Tem esse colo aqui, o que você acha?

Ela abriu um sorriso lindo, os olhos azuis brilhando, toda bem empacotada num casaco de inverno. Ela olhou para Arantxa, como quem pergunta se está tudo bem.

— Pode, filha, você quer o colo dela? O nome dela é Manu, ela vai almoçar com a gente hoje.

Ela ficou pensando um pouquinho... E então saltou para os braços de Manu, que a pegou no colo sorrindo, a cheirando, a beijando.

— Aran, ela é linda!

— Igualzinha a Rafaela quando era pequena, conta pra ela o seu nome basco, bebê.

— Garaitz! Igual a Aran — Ela abriu um sorriso empolgado no colo de Manu enquanto caminhavam para o carro.

— Isso, igual a mim.

— Seu cabelo tão bonito… — Ela disse, mexendo nos cabelos de Manu da maneira mais doce.

— Muito obrigada pelo elogio! Mas o seu cabelo é muito mais bonito, olha esses cachos — Bela tinha longos cabelos loiros que cacheavam suavemente para as pontas.

— Mas não é escuro!

Elas caíram no riso.

— Ela adora cabelo escuro, Manu, todo mundo é loiro por aqui, daí ela quer ser diferente.

— É mais bonito! Eu queria tanto, Aran, tanto, tanto…

Mais risos.

— Eu sei, meu amor, mas o seu cabelo é lindo de qualquer maneira…

Nada, ela não aceitava, se revoltava por não ter cabelo castanho e foi nesse clima muito leve que levaram Bela para almoçar num restaurante que ela gostava e ver o jeito que Arantxa cuidava daquela criança deixou Manu um tantinho mais apaixonada. Ela era paciente com Isabela e tinha cuidados de mãe mesmo, sabia exatamente tudo o que era necessário fazer, a levou no banheiro, cortou a comida dela, a ajudou a comer. Cuidava de Bela o tempo todo, se ela estava aquecida, o horário das vitaminas e vê-la tão bem nesse papel de mãe, lhe fez pensar no quanto ela cuidou das irmãs quando eram crianças. Ela não era mãe de primeira viagem, de jeito nenhum.

— A Sofia já estava separada quando a Isabela nasceu. Tinha percebido o erro do casamento, entendido que não havia como dar certo, o pai da Isabela é ausente desde o começo e de uma maneira esquisita eu tive que voltar para a vida da Sofia. Ele se tornou um perseguidor, tivemos que entrar na justiça, protegê-la mesmo, nos últimos meses da gravidez ela ficou em casa comigo e foi quando o meu relacionamento com a Lavínia ruiu de vez. Não é todo mundo que fica bem com algo assim, não é?

— Não é. E nem é todo mundo também que faz isso que você fez, agora eu entendo ainda mais o seu laço tão especial com essa coisa linda aqui — Tocou os cabelos de Bela sorrindo enquanto ela coloria um desenho e Arantxa terminava de dar o almoço dela. Sofia vivia lhe dizendo que Bela já sabia comer sozinha muito bem, mas aonde que Arantxa deixava?

— A Sofia é extraordinária, Manu, diante do nosso histórico complicado ela poderia não me querer perto da Bela. Mas foi o contrário.

Manu quis segurar a mão dela e beijá-la, só para ela entender o quanto ela mesma era extraordinária. Mas teve que ficar para casa. Terminaram o almoço e Bela dormiu ainda no carro, não a chamavam de Bela Adormecida à toa, se havia algo que Bela amava era dormir. Manu entrou em casa a carregando no colo e então Arantxa a acordou porque ela precisava tomar banho. Deu banho nela, um banho divertido que as risadas podiam ser ouvidas na sala onde Manu estava. Depois ela veio fazer o leite de Bela, colocar na mamadeira e a garotinha bebeu o leite deitada no colo de Arantxa enquanto assistiam um desenho animado na tevê. Daí a beijou, quando Bela dormiu, enquanto estavam sozinhas e Manu estava caidinha por aquela versão de Arantxa que ela ainda não conhecia. Ficaram com Isabela a tarde toda e no finalzinho do dia, foram devolvê-la para Sofia. E foi Manu quem desceu com Bela no colo porque Arantxa de fato não podia mesmo carregá-la, ela e Sofia conversaram um pouco animadamente, riram juntas e se despediram com um abraço. Ok, as coisas iam bem demais para Arantxa Iglesias.

Voltaram para casa e foram se arrumar para o tal jantar. Manu fez um pedido a Arantxa, que ela relutou e relutou, mas acabou cedendo. Manu queria vê-la vestida em algo parecido com a primeira vez que se viram, lá no evento em Florianópolis. A queria num vestido justo, preto, que fizesse o seu coração parar. Ela suspirou e disse que tudo bem e quando ela ficou pronta, Manu ficou sem ar.

Como ela era linda. Não cansava de contestar. Ela estava machucada, com o braço ainda muito ralado e ainda assim, estava linda demais naquele vestidinho preto e aquelas botas cano alto. Ela pegou uma jaqueta e então puxou Manu para perto, perguntando se estava bom assim.

— Tá linda, princesa. Mas você também estava linda naquele outro jantar que tivemos de calça jeans e camiseta, então eu nem sei.

— É você quem fica linda de qualquer maneira. E que me faz aceitar qualquer coisa. Manu, esse tipo de encontro me deixa nervosa…

Manu a beijou muito gostoso.

— Não precisa ficar, você vai adorar as minhas amigas.

Foram para o restaurante, Arantxa foi dirigindo e Manu lhe guiando, era um restaurante que não conhecia, ficava numa área mais afastada da cidade, mais tranquila, porém assim que Arantxa começou a estacionar…

— Manu, olha isso! Você não me disse que elas eram discretas?

As tais amigas estavam namorando num canto do estacionamento, em um beijo muito longo, feito de mãos estrategicamente posicionadas e apertões de dedos pela pele. E Manu começou a rir. Abriu a porta, desceu e:

— Ei, vocês querem se comportar, por favor?

E foram dois sustos, o primeiro de Lara que não tinha notado que um Rolls Royce vermelho tinha acabado de entrar no estacionamento e o segundo de Arantxa que não fazia ideia, espera, não fazia ideia mesmo!

Eram Lara e Lauren, e elas estavam rindo tanto que Arantxa nem acreditava. Desceu, trancou o carro, caminhou até elas não acreditando.

— Mas o quê…? Lara!

— Calma, fica calma, está bem? — Manu a abraçou pela cintura — Meu bem, essas são as amigas que vão jantar com a gente, você lembra da Lauren, não lembra?

— Lembro. Eu só não sabia que ela e a Lara… Espera, que coisa está acontecendo afinal?

— A gente é amiga, Aran — Ela respondeu, agarrada no pescoço de Lauren, ela sequer tinha vergonha, Arantxa não conseguia acreditar.

— Amiga? Saiu uma nova categoria de amizade e eu perdi?

— Somos amigas, mas quando estamos juntas a gente namora, não é anjo? — Era Lauren, sem conseguir tirar suas mãos de cima de Lara.

— Ok, a Lara não tem vergonha, você também não, vocês se merecem… — Disse e todo mundo começou a rir. Inclusive a própria Arantxa, Lara era impossível mesmo.

Entraram no elegante restaurante e Lara ainda não estava acreditando na reação de Arantxa.

— Eu achei que você fosse me matar! — Ela dizia sorrindo.

— E adianta? Eu sabia que você estava saindo com alguém e você me disse que era uma garota, eu só não sabia que estava assim.

— Assim como?

Assim tão agarrada em Lauren como estava. Foi uma reflexão para Arantxa que aconteceu o jantar inteiro. Primeiro, o quanto aquela noite foi divertida, porque Lara era a melhor pessoa para se levar em um jantar, Arantxa já sabia, ela era leve, divertida e sabia contar piadas e histórias como ninguém, mas descobrir que Lauren era tão leve e divertida como ela foi um bônus extremamente agradável. Elas não ficaram se agarrando como Arantxa tanto temia, mas de qualquer maneira, não se soltaram nem por um minuto. As mãos de uma estavam sempre sobre a outra, pelos pulsos, pelos joelhos, pelos cabelos, não importava, elas estavam sempre agarradas e piorava quando se olhavam, porque daí ficavam agarradas uma no olhar da outra. E Arantxa ali, a noite inteira sem tocar na sua namorada maravilhosa. Vontade tinha, morria de vontade, mas então coragem? Onde encontrava coragem? Onde tirava da sua cabeça que alguém conhecido poderia aparecer?

— Como você faz isso? — Perguntou para Lara num momento em que ficaram sozinhas. Lauren foi resolver algo da conta e Manu ao banheiro.

— Aran, eu já te expliquei que eu queria muito e…

— Não, não: como consegue ficar com ela em público? Quero dizer, e se alguém do seu trabalho aparecer?

Lara abriu um sorriso, era isso.

— Bem, eu vou sorrir, cumprimentar e apresentar todo mundo normalmente. Arantxa, as pessoas não tem nada a ver com a nossa vida, ninguém tem mesmo, nem as pessoas com que trabalhamos, ou os nossos amigos, nem a nossa família. Se eu vou sair daqui e ir contar pra mãe que estou ficando com a Lauren, não, não tem necessidade, mas se ela visse, a resposta seria a mesma que Lauren e eu demos pra você lá fora. A reação dela é problema dela.

Arantxa olhava para sua irmã.

— Está falando igualzinho à Rafaela.

Lara abriu outro sorriso.

— Acho que nossa irmãzinha tem muito a ensinar a nós duas. Eu não quero me esconder, Aran, eu nem sei fazer isso direito, você viu lá no estacionamento, eu não queria que você me pegasse agarrada na Lauren e deu certo? Eu nem notei o carro chegando. Ou seja, não adianta, eu não vou conseguir, só vou me atrapalhar se tentar fazer isso. Acho que você precisa começar a pesar as coisas para fazer ideia real. O que dói mais, sofrer com o que pensam de você ou passar um jantar inteiro sem tocar na Manu que está uma coisa de linda aí do seu lado?

Não sabia a resposta. Por pior que fosse não saber a resposta, era a sua verdade atual.

— Espera, aquela não é a Sofia?

Entrando no restaurante muito agarrada numa moça!

— Mas… — Arantxa apertou os olhos — Ela está namorando?

— Ela me disse que está ficando com alguém, espera, eu quero ver essa francesa de perto… — Lara pegou o celular e ligou para ela — Estamos atrás de você! Vem aqui que eu quero te dar um abraço.

Ela veio toda sorridente trazendo a tal ficante pela mão, uma moça caucasiana, de altura média, cabelos escuros e belos olhos castanhos, bonita como toda francesa costumava ser.

— Eu não acredito que vocês estão aqui! — Sofia abraçou Lara carinhosamente.

— Nós viemos jantar com as meninas, não acreditei quando vi você entrando.

— Então — Sofia beijou Arantxa que já estava alongando os olhos para cima de sua acompanhante. Arantxa costumava ser ciumenta, ainda que não estivessem mais juntas, mas agora ela tinha Manu e… Um olhar diferente. Sofia não conseguiu decifrar, mas não era de ciúmes não — Eu estava procurando um restaurante discreto e encontrei esse aqui. Esta moça aqui também prefere lugares discretos — Disse, puxando sua acompanhante sorridente pela cintura.

— Você tem um tipo, Sofia.

— Eu acho que tenho. Natalie, essa aqui é a Lara, já falei dela pra você e esta daqui é a Arantxa.

— A outra mãe da Bela — Ela disse simpaticamente estendendo a mão para Arantxa.

Levou um longo segundo de tensão. Arantxa olhando para Natalie e ela olhando de volta com a mão estendida em sua direção. Arantxa pegou a mão dela.

— Tudo bem?

— Tudo bem sim — Ela respondeu sorridente, com quase zero de sotaque.

Tiveram uma conversa de alguns minutos e então Lauren começou a caminhar de volta em direção a mesa delas.

— Sofia, será que nós podemos…? — Ela perguntou no ouvido de Sofia. Manu também havia acabado de voltar ao salão e caminhava em direção à mesa.

— Ah, claro que sim. Meninas, nós já vamos pegar a nossa mesa, foi ótimo encontrar vocês por aqui!

Elas se afastaram da mesa no exato momento em que Lauren voltou à mesa, sentando ao lado de Lara e olhando as duas se afastando de costas.

— Quem são?

— A ex-mulher da Arantxa e a namorada nova, sinta o encontro.

— Quer não colocar títulos na Sofia? Eu odeio títulos.

— Sei e aparentemente odiou a moça com quem ela está, não é justo este comportamento, Arantxa.

— Eu odiei a moça, você tem toda razão, mas não é pelo o que você está pensando não. Ela é esquisita, Lara.

— Esquisita como?

— Eu não sei, é uma intuição esquisita, eu só não gostei dela — Continuava as seguindo com o olhar, elas sentaram do outro lado do restaurante, muito distante de onde estavam — Ela não me olhou no olho.

— Você é intimidadora, sabia?

Manu chegou na mesa.

— Quem estava com a Sofia? — Foi a primeira coisa que ela perguntou.

— Ela parece com alguém que conhecemos, Manu, eu tentei vir mais rápido para olhar de perto, mas não deu tempo — Lhe disse Lauren.

— Eu achei que a conhecia de costas também, enfim, é a namorada nova?

— É a namorada nova — Arantxa respondeu, ainda as caçando com os olhos.

— Está com ciúmes, Arantxa Iglesias? — Manu perguntou de um jeito que fez Arantxa gelar a espinha.

E se encher de uma coragem súbita.

— Lara, olha lá.

— Lá aonde? — Ela olhou para trás e Lauren teve uma crise de risos. Porque assim que ela olhou, Arantxa beijou Manu muito carinhosamente.

— Ah, olha que lindo!

— O que foi lindo? Arantxa!

— Eu ainda não estou pronta para beijar ela na sua frente, mas Manu Méndiz precisa entender que não cabe mais ciúmes aqui por outra pessoa que não seja ela mesma, ou seja, você está ferrada, amor.

Ferrada e toda derretida.

Nem lembraram mais da acompanhante de Sofia. Partiram nos carros para a casa de Arantxa, foi dirigindo atrás das duas e não entendia como Lauren não batia o carro com Lara tão agarrada em seu pescoço o tempo todo. Bem, também não perdia a direção com a boca de Manu lhe marcando por onde era possível, então entendia sim. Daí percebeu que foi péssima a ideia de deixar Lara dormir com Lauren no quarto de Rafaela, elas entraram agarradas e não havia dúvidas do que estavam prestes a fazer.

— Manu, como é que eu vou fazer alguma coisa com essas duas no quarto da minha irmãzinha? Este quarto é puro, sabia? Rafaela nunca trouxe ninguém para dormir aqui.

— Eu sinto muito informar, meu bem, mas Ali Zamora já dormiu aqui… — Manu respondeu, fazendo Arantxa inesperadamente rir. Não lembrava disso!

— Ela dormiu, na mesma noite que a gente fez amor pela primeira vez.

— Exatamente. É muito presunçoso afirmar que vocês duas se apaixonaram no mesmo dia?

— Acho que nós três nos apaixonamos no mesmo dia. Rafaela pela Ali, e Lara e eu por você. Você sabe que ela se apaixonou, não sabe?

— Lara se apaixona por todo mundo, Aran.

— Eu sei — Respondeu sorrindo enquanto tocava o rosto dela. Estavam deitadas na cama, uma de frente para a outra, bem juntinhas que era como sempre estavam — Mas você está na lista das paixões que ela teve e talvez se não fosse por aquele beijo roubado, ela não estaria nos braços da Lauren agora. Você tem a mágica de causar coragem na gente, sabia?

Manu brilhava os olhos, muito agarrada naquela coisa linda que era a dona de todos os seus melhores sentimentos.

— Eu amei o beijo no restaurante. Eu fiquei tão feliz.

— É o que você causa em mim. Coragem e felicidade. Eu não sei como a gente vai fazer, meu bem, mas eu sei que eu vou ter que dar um jeito de resolver isso.

— Resolver a gente? — Cristalizou os olhos.

— Resolver o mundo em volta da gente. Nós duas não tem o que resolver, meu bem, é amor, é paixão, é bem-querer, eu vou fazer o quê? Apenas agradecer e fazer de tudo para que você nunca mais me deixe.

Manu se agarrou nela muito forte, sorrindo, brilhando os olhos, a beijando sem conseguir parar!

— Aran, eu quero fazer igualzinho a Bela…

— O que você quer igual a Bela, amor?

— Pedir pelo seu colo e que você me segure. Eu preciso que você me segure, meu bem, porque eu acho que eu não sei mais como ficar sem você.

Arantxa a beijou muito longamente, lhe tocando o rosto, os lábios, pondo a mão por dentro e alcançando seu coração.

Como podia ficar sem ela? Manu se perguntava. A verdade surgia por dentro cada vez mais forte e mais clara. Já a amava, ponto. Não tinha mais o que fazer. Amava Arantxa Iglesias e já não fazia ideia de como podia viver sem ela.

Notas Finais:

E não é que enfim, o tal extra #Marantxa saiu? Hahaha, já tinha gente achando que este extra tinha virado lenda urbana, mas enfim, consegui terminar de escrever e revisar e graças ao comprometimento e empenho de todas vocês comentando no último capítulo de Sal, decidi antecipar o extra para mostrar o quanto eu fico grata pelo apoio de vocês sempre ♥

Reta final de Sal e é o momento da gente curtir os momentos de Manu e Arantxa antes do acidente, de ver como elas estavam se acertando e amadurecendo o relacionamento delas e de quebra, tivemos também um vislumbre da Lara e do seu romance exótico com Lauren ^^

Tem capítulo novo de Sal no sábado e só tenho algo a dizer a respeito: aguardem por Rafaela Iglesias ;)

Conto com todas vocês na reta final de Sal!

Obrigada por todo o apoio e a enxurrada de comentários!

Beijos!