SAL - Capítulo extra: quinze

18/07/2018      Tessa Reis

Sal |Tessa Reis

Apertava tanto que ela sentia vontade de pedir ajuda. Rafaela se olhava no espelho, provando a roupa que usaria mais tarde, sua mãe estava lhe pressionando a usar os vestidos que ela queria e podia custar a sua vida, mas Rafaela se recusava, de jeito nenhum, se não tinha conseguido evitar a festa, ao menos vestiria o que queria. Mas esta certeza não invalidava o fato de estar morrendo de medo de estar contrariando sua mãe.

Sempre morria de medo.

Se olhou, a saia curta, cintura alta, elegante, o top delicado, algumas nesgas de pele aparecendo, não era o que mais gostava em si, mas era o que mais irritaria sua mãe. Rafaela queria que ela se irritasse. O som no quarto altíssimo, The Ramones tocando I Wanna Be Sedated no último volume, sua mãe odiava punk rock, naquela altura então nem se fala. Ela já tinha vindo agredir sua porta algumas vezes, não tinha chave, mas Rafaela segurava, empurrava um móvel contra a porta e costumava funcionar. Funcionou aquela tarde. Seu notebook deu sinal e um sorriso lhe escapou. O nome dela era Louise e tudo com ela era tão diferente que Rafaela nem conseguia chamá-la de amiga. Ela não era sua amiga, ela era outra coisa. Uma coisa que lhe ansiava e lhe apavorava descobrir o que, na mesma intensidade. Respirou fundo, respondendo a mensagem dela, sentindo o coração tremendo dentro do peito, outro sorriso, por que isso acontecia? E pronto, as pancadas voltaram para a sua porta.

— Será que dá pra você me deixar em paz?!

— Rafaela, abre, sou eu.

Baixou o som e foi abrir a porta. Empurrou o móvel de lado e deixando só um espacinho para passar, checou se era Lara mesmo.

— Rafa… — Ela riu, sua irmãzinha estava cada dia pior — Deixa eu entrar, vamos, eu trouxe uma coisa pra você.

 

Empurrou mais um pouquinho e deixou sua irmã do meio entrar. Ela tinha uma sacola elegante nas mãos.

— Escuta, Arantxa e eu passamos horas e horas naquele shopping, mas eu acho que finalmente — Tirou um vestido da sacola e colocou em cima da cama — Encontramos algo que você vai gostar.

Era lindo, deslumbrante! Vermelho, justo, mais curto, do jeito que Rafaela gostava e, que agradaria a Nora Iglesias também. Era uma combinação quase impossível de acontecer, mas Lara tinha quase certeza que tinham conseguido. Rafaela gostou, se escreveu pelo seu rosto.

— Lara…

— Coloca pra eu ver, vamos, vamos!

Rafaela brilhou aqueles olhos turquesa sem conseguir controlar. Correu e foi colocar o vestido e ficou perfeito! Era do seu exato tamanho, ficou lindo, combinou com tudo e ela ficou empolgada contra a própria vontade.

— Arantxa tinha razão, ela disse que não ia precisar de nenhum ajuste que fosse! O que você achou, princesa? Este não está perfeito para amanhã?

— A mãe também deve ter achado perfeito pela sua empolgação, não foi?

— Rafa, senta aqui um pouco, vamos conversar.

— Lara, eu não quero conversar…

— Mas você precisa — A puxou pela mão e a colocou sentada na sua frente — Porque se não quiser conversar comigo, a Arantxa vai te obrigar a conversar com ela e você sempre fica magoada quando ela briga com você.

Rafaela olhou para ela. Era a adolescente mais linda do mundo, Lara tinha certeza que ela era, aqueles cabelos longos loiros in natura, aqueles olhos azuis tão intensos, não, não, sua irmãzinha era a adolescente rebelde mais linda do mundo inteiro.

— Rafa, olha pra mim, amanhã é seu aniversário. É seu primeiro aniversário sozinha, a idade é especial, você não vai ter que dividir sua festa nem comigo e nem com a Aran, não era o que você sempre pedia pra mãe?

— E ela me dá justamente quando não importa mais pra mim. Eu não queria festa nenhuma, vai ser constrangedor.

— Quem disse que vai, Rafa? Para com isso. Vem todo mundo que você gosta, você chamou os seus amigos, os nossos primos estão vindo da Argentina também, o que pode dar errado?

— Um monte de coisas... E se a Nora ficar feliz, será a pior das coisas que podia dar errado...

Lara caiu no riso, às vezes não acreditava!

— Você é ruim, igualzinho a ela!

— Sou nada, Lara!

— É sim, mais parecidas impossível. Rafa, este não é o objetivo aqui, tudo bem? E não pode ser o objetivo em nenhum momento da sua vida, odiar é coisa para desocupados, entendeu? Igual esses que criam grupinho de haters por aí. Você se encaixar numa comunidade que odeia determinada coisa, não faz nenhum sentido pra mim. Então não, eu não vou admitir esse comportamento em você. Já que teremos uma festa, contra a sua vontade ou não, o foco será se divertir ao máximo, tirar o melhor proveito possível, está bem? Você fica bonita de qualquer jeito, princesa, mas será que você não quer estar deslumbrante amanhã? Eu sei que tem alguém que você deve querer impressionar...

Rafaela olhava para ela. Deixou escapar um sorriso.

— Está vendo como tem? Sempre tem — A puxou para os seus braços, a enchendo de carinho — Quer falar disso comigo? Dessa pessoa de quem você está gostando?

Não, ela negou enrubescendo.

— Tudo bem, mas você fala quando se sentir à vontade, está bem? Olha pra mim, Rafinha — A fez olhar nos seus olhos — Eu amo você, não há nada que você me conte que possa mudar isso, tudo bem?

Rafaela abriu um sorriso. E a abraçou, bem forte.

— Eu amo você.

— Eu também amo. Então, vai ficar só bonita ou vai optar por estar deslumbrante?

Ela sorriu mais bonito ainda.

— A gente tem que escolher um sapato agora, você acha que eu tenho algo que fique bonito? — E já correu para o guarda-roupa.

— Tenho certeza que tem.

— Cadê a Aran? Ela tem que me ajudar a escolher também.

— Então, ela disse que ia fazer alguma coisa no campo e já voltava. Rafa, você não acha que ela voltou estranha?

— Estranha…?

— Eu não sei, eu sei que ela sempre foi nervosa, mas anda extremo. O nervosismo, a ansiedade.

— Ela não para quieta. Ontem o pé dela ficou batendo o jantar inteiro.

— Então. Daí a gente estava lá no shopping e eram onze da manhã e ela me perguntou se teria problema se ela pegasse uma cerveja.

Rafaela olhou para ela.

— O que você disse?

— Que eu não sabia. E eu não sei mesmo. Tem problema ela querer uma cerveja antes do almoço?

Se Lara era muito jovem aos vinte anos completos no dia anterior para responder tal pergunta, Rafaela prestes a completar quinze no dia seguinte não fazia ideia.

Parecia grave para Arantxa.

Estava acontecendo há umas semanas, ela não sabia bem quantas. Tinha perdido o seu primeiro ano inteiro em Buenos Aires com coisas que não deveria estar fazendo e agora que precisava recuperar seus estudos, não parecia haver tempo suficiente. Então tinha começado a estudar de madrugada também, mas as madrugadas em Buenos Aires são frias e sempre pedem um acompanhamento. As garrafas vazias de vinho começaram a se acumular em seu apartamento e ela não sabia bem. Não parecia prejudicial, mas agora sentia falta de sempre estar bebendo alguma coisa. Dava uma aflição. Que piorou quando estava próxima de voltar para casa nas férias.

Respirou fundo, olhando os canaviais de cima. As mãos apertando em si mesmas. A boca secando. Tinha bebido três cervejas. A quarta estava sentada ao seu lado e Arantxa não queria abri-la. A ansiedade não era por voltar para casa em si. Era que em casa tinha Sofia. Era que perto dela, Arantxa se sentia desprotegida e protegida numa intensidade impossível. Era muito difícil ficar longe dela. Pensou nisso e seus olhos se encheram. Era quase tão difícil quanto ficar longe de suas irmãs, longe de Rafaela. E sabia que o aceite de sua mãe sobre sua faculdade em Buenos Aires havia sido baseado em afastá-la de Sofia.

A sua decisão de querer estudar em Buenos Aires havia sido também baseada em se afastar de Sofia.

Mas como podia afastar seus sentimentos dela? Porque o afastamento físico não ajudou nada nisso. Arantxa estava longe, estava em Buenos Aires, saindo todas as noites, livre como nunca havia sido, mas quando deitava em sua cama sozinha, sentia tanta falta de Sofia que chorava até dormir. Agora tinha voltado há quatro dias e estava fugindo de olhar para ela desde então. Adiantava? Não adiantava. Só estava doendo mais ainda. Olhou para a cerveja ao seu lado. Talvez se não tivesse de estudar tanto, não precisasse dos vinhos. Talvez se pudesse só ficar com Sofia não precisasse de cerveja às onze da manhã.

Deixou a cerveja onde estava e correu. Descendo o morro, correu em direção aos canaviais, cortando por dentro deles, a cana alta, o verde se misturando ao azul do céu, as botas de Arantxa correndo mais rápido e mais rápido, os olhos procurando, procurando, mas no fundo ela sabia para onde precisava ir. Sempre sabia onde ela estava. Sempre sabia. Passou pelos canaviais, cortou um pequeno bosque de maçãs e saiu na estufa de flores e ervas. Parou. Olhou. Estava suada, os olhos vermelhos, as mãos tremendo. De ansiedade ou pelo quanto Sofia era bonita, naqueles vestidos curtos de verão, com as botas cano curto nos pés, os cabelos loiros, os olhos verdes, atentos a poda de uma planta qualquer. Sofia era a coisa mais bonita que Arantxa já lembrava de ter visto de perto. E quando ela notou que não estava sozinha e lhe olhou, isso ganhou mais alguns níveis de beleza.

— Arantxa — A pazinha caiu da mão dela.

Arantxa deu três passos em direção a ela e a beijou.

Intensamente, densamente, sem deixar escapatória. Ela tirou as luvas que usava e imediatamente cravou os dedos em sua pele, pelos braços do amor da sua vida, porque com todos os erros, as raivas e os absurdos que Arantxa lhe fazia, Sofia sabia que era ela, a sua pessoa, que iria lhe devastar, capaz de lhe fazer sofrer e lhe fazer feliz na mesma proporção.

— Arantxa…

— Não diz nada — A trouxe para o chão da estufa, os lábios percorrendo o pescoço dela, os dedos baixando as alças do seu vestido, a boca pegando pele, batimentos, coração, nada escapava de Arantxa, nada.

Sofia arrancou a camiseta do corpo dela, enroscando suas pernas pelas coxas dela, a puxando contra o seu corpo, a urgência das mãos, as peças sendo arrancadas do corpo, os beijos com prazo máximo de seis meses de saudade, a estufa tinha teto de vidro e paredes nenhuma, o que isso importava? Elas nunca pensavam quando estavam juntas e Sofia não achava, de forma nenhuma achava, que alguma vez na vida pensaria enquanto as mãos de Arantxa estivessem sobre si.

Fizeram amor pela tarde inteira, sem parar, sem descansar, pelo chão de madeira da estufa, pelo paiol do lado de fora quando começou a machucar, tiveram que tomar banho depois de tudo, por causa do amor, por causa da terra, tomaram banho de balde, agarradinhas e quando começou a ficar muito escuro, acenderam uma fogueira. Costumavam fazer isso desde crianças. Iam para a estufa, ficavam juntas cuidando das plantas, acendiam uma fogueira e o pai de Arantxa era obrigado a vir buscá-las quando perdiam a hora. Perderam a hora de novo. Ficaram juntas perto da fogueira, comendo o que Sofia tinha colhido mais cedo, algumas maçãs, pedaços de cana, bananas, enquanto assavam uma abóbora direto na fogueira.

— Por que você faz isso comigo?

— Desculpa. Eu nunca sei o que fazer.

— Você sabe sim, Arantxa. Você só tem medo de fazer.

— Você não tem medo, não?

— Eu durmo com a filha da minha patroa, megera e homofóbica, desde quando tinha quatorze anos. Você acha mesmo que eu tenho medo?

Arantxa riu.

— Não é. É a menina mais corajosa que eu conheço. O que você tem feito por aqui?

— Estou na faculdade de agronomia, sigo trabalhando aqui, estou tentando viver direito. E você?

— Estou sendo um desastre. Um depois do outro. Eu não sei o que fazer para melhorar, Sofia, não sei mesmo.

— Você já é melhor, Aran — Respondeu, se cobrindo com os braços dela, adorava os braços dela — Só não deixa esse melhor ativo a maior parte do tempo.

— Você conhece a minha mãe.

— Conheço. E você conhece o seu pai e eu já falei com ele sobre essa minha outra parte.

— Espera, você falou de mim?

— Claro que não. Aliás, eu quase apanhei de graça, porque ele achou que eu estava enrolada com a Rafaela, imagina, a sua irmã é um bebê ainda. Depois ele achou que pudesse ser a Lara, você sabe como a sua irmã é.

— Fica atirando charme para todos os lados. Você não caiu na dela, né?

— Eu conheço bem a Lara. Ela brinca, agarra as meninas, seduz e depois escapa e não, eu nunca tocaria em nenhuma das duas, eu infelizmente gosto de você.

Arantxa riu e a beijou.

— Para de dizer isso.

— É verdade. Enfim, ninguém imagina nada sobre você. Você finge como ninguém. Tanto que eu até acredito que você se importa comigo.

— Para, é claro que eu me importo com você, que história é essa?

— Eu sei bem o que você anda fazendo em Buenos Aires. Sei bem porque aceitou ir estudar lá, eu sei, Arantxa.

— Vem comigo então. Eu cuido de você.

— Arantxa, a nossa vida é aqui. Meus pais estão aqui, sua família está aqui, é aqui que nós vamos nos firmar no futuro. Eu vou fazer vinte e dois anos no final do ano, você vai fazer vinte e dois amanhã, acabou a adolescência. Nós já estamos na vida adulta e precisamos começar a pintar um futuro. Eu comecei a fazer isso e pelo tanto de amor que eu sinto por você, nesses oito anos que a gente fica, você deveria ser o meu futuro. Mas por mais afinco que eu tente, te colocar lá, nessa imagem de futuro, simplesmente não acontece. Eu não sou o seu futuro.

— Sofia…

— Eu não sou. E isso me magoa. Me machuca. Eu esperava diminuir a paixão por você com você longe, mas não aconteceu ainda.

— Eu não quero que aconteça.

Sofia saiu dos braços dela para lhe olhar nos olhos.

— Eu não posso continuar amando loucamente uma pessoa que volta de viagem seis meses depois que me viu pela última vez e só decide olhar pra mim no quinto dia em que está de volta.

— Ei, espera, você sabe dos meus motivos, a minha mãe fica em cima, tem a festa da Rafa, muita coisa acontecendo. Meu bem, você lembra? Lembra da gente? Um dia de cada vez?

— Não me serve mais esse plano, Aran. Não cabe mais. Eu preciso de planos para frente, para onde eu quero estar daqui um ano e não será escondida com você em Buenos Aires, eu não posso aceitar isso.

— Você não quer ficar comigo, é isso?

— Não. É você quem não quer ficar comigo. Arantxa, tem outra coisa… — Não fazia ideia de como dizer pra ela.

— Se você vier me dizer que está namorando, não diga.

— Você me deixou aqui o ano passado inteiro, me deixou por mais seis meses, o que você espera?

— Que você espere! — Agora tinha se irritado. Se pôs de pé — Eu não estou esperando você? Por qual raio de motivos você não pode me esperar?

— Eu tenho necessidades, Arantxa!

— Dorme com quem você quiser, mas não namora ninguém!

— Necessidades sentimentais! Eu preciso de carinho, de atenção, de companheirismo, preciso de alguém que segure a minha mão em público, entende?

— Ela faz tudo isso por você?

Ele faz.

E agora sim, Arantxa sentiu-se traída. Avançou em direção a Sofia, ela assustou, deu um passo para trás.

— Você sai da minha frente.

— Foi você quem veio aqui.

— Sai da minha frente permanentemente. Sofia, se você passar na minha frente de namorinho com um idiota qualquer…

— Arantxa, eu não posso terminar um namoro de cinco meses porque você está aqui. Ele não está substituindo você temporariamente, não basta você voltar e tudo se realinha!

Arantxa olhou longamente dentro dos olhos dela. Não disse mais nada. Pegou suas coisas e a deixou sozinha.

A ouviu lhe chamando, lhe seguindo, mas quando alcançava os canaviais, não havia quem conseguisse lhe encontrar. Achou um churrasco de peão pelo caminho, tomou dois copos de cachaça com eles, andou pelo canavial um pouco mais, mas para perder o efeito da bebida e achou o caminho de casa. Entrou imunda, botas enterradas na lama, camiseta suja de poeira e batom, calça cheia de barro e só Lara estava na sala. Já era mais que meia-noite.

Notou o batom, não quis puxar aquela briga.

— Onde você se meteu? O que aconteceu?

— Nada, eu só… Me distraí no campo. Rafaela vai usar o vestido? Porque se ela não for…

— Ela vai, calminha, ela vai. Por que você está tão furiosa?

— Eu não estou. Lara, você tem a lista dos convidados?

— Tenho, está no escritório, por quê?

— Tem uma Louise nessa lista?

— Tem e você vai deixar isso quieto.

— Eu não quero essa menina aqui.

— Ela não é sua convidada, você não tem jurisprudência sobre ela. Arantxa, deixa.

— Você já pensou se acontece alguma coisa? Já pensou em como a mãe vai reagir? Pensou no escândalo?

— A Rafaela é muito bem-comportada, comportada até demais. Se acontecer alguma coisa, a mãe não vai sequer ver. E eu espero que aconteça.

— Olha as coisas que você diz…

— Arantxa, você não pode impedir a natureza dela, deixa a menina, vai nos poupar meses de terapia se a gente só deixar ela ser ela mesma.

— Eu prefiro pagar a terapia.

— Bem, essa decisão também não é sua. Você viu a Sofia por aí? Ela ficou de vir aqui pra gente fazer uma massa de pizza.

Arantxa olhou para ela.

— Já é mais de meia-noite.

— O que é que tem? Eu estou estudando em Florianópolis, lembra? Não fico com ela mais o tempo todo, ela me faz falta.

Arantxa andou para cima de Lara.

— Ei, ei, ei! Calma, fica aí, para, sai de perto de mim, Arantxa? — Tentou segurá-la com seu olhar, às vezes funcionava, funcionou — Para, fica aí.

— Deixa a Sofia em paz. Você fica brincando, jogando charme em cima de todo mundo, mas tem algumas garotas que vão se afetar.

— Quem disse que eu estou jogando charme? — Abriu um sorriso — Me deixa, menina...

— Você joga charme em cima das garotas e depois corre.

— Corro nada — Respondeu rindo, esta era Lara, ria de tudo.

— É esse exemplo que você dá pra Rafaela…

— Me deixa ser livre, por favor, sim, dá para ser? E sim, se eu quiser uma garota, eu vou agarrar ela pra mim, mas ultimamente eu ando muito apaixonada para pensar em outra pessoa…

Ela estava namorando há três meses um rapaz maravilhoso chamado Bernardo.

— Ele vem?

— Chega amanhã, vai passar a semana aqui. Arantxa?

— O que foi?

— A gente deve agarrar em quem quer agarrar e ponto. É assim que a gente vive direito.

Ela simplesmente subiu, não disse mais nada.

O dia seguinte passou muito rápido e quando perceberam, já estavam no quarto ajudando Rafaela a se arrumar. Ela tinha aceitado o vestido, escolhido um belo par de sapatos e tinha deixado Arantxa fazer a sua mágica. Ela era ótima maquiadora, ótima arrumando cabelos, tinha alguma coisa que ela não era tão boa?

Em sua própria vida, mas isso não dizia em voz alta, de jeito nenhum.

— Rafa, está tudo tão bonito, você não faz ideia! Acabei de vir do salão — Lara entrou no quarto, muito animada.

— Você ficou animada assim na sua festa de quinze anos? Eu não me lembro — Rafaela ainda estava mal-humorada.

— Eu devo ter ficado, eu fico animada com qualquer festa, você sabe, ei, olha, é o meu príncipe, ele chegou!

E ela saiu correndo do quarto e deve ter chegado lá embaixo em segundos. Quando Rafaela olhou pela sua janela, lá estava, ela saltando no pescoço do seu príncipe e recebendo um beijo mais do que apaixonado. Rafaela ficou silenciosa.

— O que foi, Rafa?

— Por que eu não posso ser como ela?

Arantxa parou o que estava fazendo nos cabelos dela, veio para sua frente.

— No que você quer ser igual a ela?

Boy crazy desse jeito. Por que eu não consigo me sentir assim por garoto nenhum?

Arantxa respirou fundo.

— Ela é meio exagerada... — Disse, fazendo Rafaela rir.

— Sabe o que me faz bem? Ter você aqui. Você também não é como ela, eu não te vejo empolgada desse jeito. Daí eu me sinto melhor, por parecer com você.

— Rafa, não se preocupa, princesa. Nós somos diferentes, não tem nada de errado com a gente, nós não temos que parecer com ela ou com qualquer pessoa. Entende o que eu estou tentando dizer?

Rafaela a abraçou muito forte. Achava que entendia.

— Eu sinto a sua falta.

— Eu também. Você é o melhor presente de aniversário que eu já ganhei, você sabe disso, não sabe?

Sorriu. Disso sabia sim.

— Arantxa, eu não queria ir mesmo, pra essa festa, eu não quero.

— Rafa, para, é só uma festa, amanhã pronto, já passou.

— Mas eu estou com um sentimento ruim, não é nada, é esse sentimento ruim...

Arantxa lhe beijou a testa.

— Não vai acontecer nada, está bem? Eu estou aqui.

E assim, Rafaela terminou de se arrumar mais tranquila.

Não acreditou quando chegou no salão! Como assim? Sua mãe havia feito tudo aquilo? A decoração em preto e neon, o clima de balada, de boate mesmo, nada do tradicional quinze anos que tinha sido o de Lara, era algo completamente diferente.

— Mãe, é tudo ideia sua?

— Te conheço melhor que qualquer pessoa, Rafaela. Se tivesse aceitado fazer isso comigo, teríamos feito juntas. Tem outra coisa, espera — Sua mãe estava lindíssima também, era a mãe mais linda da escola sempre, ela era muito jovem, teve Arantxa com dezesseis anos, ela andou um pouco e então voltou com algo que sequer tinha como ser embrulhado.

 

Rafaela abriu um enorme sorriso, sem conseguir evitar.

— Mesmo?!

— Um vale bom comportamento, ? — Entregou a belíssima guitarra para ela, estilosa, chamativa, da marca que Rafaela queria — Temos regras, som baixo, porta desbloqueada e se você quiser tocar este instrumento, precisa ser fora de casa ou quando eu não estiver presente. O piano está sempre disponível para você tocar quando quiser, mas já que prefere esses outros instrumentos...

Rafaela a abraçou. Sua mãe nunca lhe abraçava, mas de vez em quando, Rafaela a atacava desta forma. Ela sorriu.

— Tudo bem, tudo bem. Vá se divertir.

E Rafaela se divertiu muito, seus amigos vieram e estavam adorando a festa, seus primos também, os convidados de Lara apareceram, os de Arantxa, era aniversário dela também. Mas ela não parecia muito bem de qualquer forma. Começou a beber antes do DJ começar a tocar (sim, Nora contratou um DJ, Rafaela não estava acreditando) e a sempre sociável Arantxa, rainha da festa, estava quieta. E bem, chegou quem Rafaela estava esperando.

Louise apareceu. Com uns dez amigos diferentes e o coração de Rafaela deu uma acelerada no peito. Adorava tudo sobre ela. Os cabelos muito compridos, jogados de lado, o piercing no lábio, as roupas estilosas, ela estava de jeans, camiseta branca, jaqueta preta, um clássico que fazia Rafaela passar muito mal. Só não mais do que Louise passou mal ao ver Rafaela naquele vestido vermelho. Ela que era tão cheia de confiança ficou nervosa, sem saber o que fazer com as mãos, com os olhos, com a vontade de ficar perto dela. Veio até ela, o abraço foi longo, os olhos buscaram olhos, Louise lhe disse o quanto ela estava linda e nunca mais saiu de perto dela.

A festa estava incrível! Lara estava agarrada em seu namorado-príncipe, que era um príncipe mesmo, educado, bonito, apaixonado por ela, era lindo ver os dois tão conectados, tão juntos e Rafaela lembrava de ter algumas horas de claridade a respeito disso, porque aquela conexão que estava vendo entre Lara e Bernardo era algo parecido com aquilo que tinha com Louise. Sentiu-se assim quando disse que queria estrear sua guitarra e ela lhe disse que deveria subir no palco e estrear, Rafaela tocava cinco instrumentos diferentes, aprendeu os clássicos que sua mãe apoiava, piano e violão, depois foi aprender o que queria, baixo, bateria e por último, a guitarra. E Louise só não a incentivou a subir e tocar, como a levou lá em cima, chamou atenção, roubou o cabo de som do DJ e aquele ato de tocar em sua festa de quinze anos por muito tempo, foi o ato mais corajoso de sua vida. Era uma conexão poderosa também.

E Rafaela queria beijá-la antes do final daquela festa.

Foi quando sua mãe decidiu colaborar. Disse que não estava se sentindo bem e deixou Lara tomando conta da festa.

— Mãe, a Arantxa está aqui — E na família Iglesias, a hierarquia de responsabilidades era sempre respeitada por idade.

— Eu quero que você faça isso. A Rafaela está sob a sua responsabilidade e a Arantxa também, então desgruda desse seu namorado e vá prestar atenção nelas, você entendeu?

Tudo bem, entendia, o que podia dar tão errado numa festa às duas da manhã?

Lara não desgrudou de Bernardo e nem Sofia do seu namorado. Era um dos rapazes que trabalhava com seu pai no escritório, Arantxa tinha certeza que ela não viria, mas ela apareceu perto das onze e quando Arantxa a viu...

Mordeu a boca e Sofia congelou. Se arrependeu no mesmo instante, quis ir embora, mas Lara não deixou, a festa nem tinha começado ainda, ela não podia ir assim! Não tinha começado, para Arantxa a festa começou naquele momento. Virou um copo de cerveja só de uma vez e foi para a pista de dança e Rafaela abriu um sorriso, pronto, lá estava, a rainha da festa de volta onde ela deveria estar. Arantxa engrenou, começou a fazer o que ela fazia de melhor, falar com as pessoas, acender a festa, ela era magnética, quando estava naquele seu modo atraía todas as atenções, os rapazes brigavam pela atenção dela, as garotas eram seduzidas sem sequer perceberem e era o que mais irritava Sofia. É claro que Arantxa sabia que era a coisa que mais a irritava, quando ela demonstrava o seu poder, o quanto podia ter quem quisesse porque em algum lugar dentro de si, Sofia ainda tinha esta sensação, de que era apenas a filha do empregado, usada pela filha do patrão e para Arantxa isso não fazia o menor sentido, mas quando estava furiosa com Sofia, o sentido pouco importava, só queria machucá-la.

Machucá-la, porque ela estava lhe machucando cruelmente sem sequer se importar.

Ela saiu do salão quando Arantxa começou a ficar com um cara qualquer. Saiu e então subitamente voltou, deixando seu namorado sem entender nada, voltou e elas discutiram por alguns minutos, melhor, Sofia discutiu, Arantxa fingiu que ela era louca e no meio de tudo isso, Rafaela aproveitou para simplesmente escapar com Louise. Escapou, achou um canto escuro para elas, Louise lhe pediu para que dançassem juntas, se era festa de quinze anos, Rafaela merecia uma dança. Foram dançar, se alongou, foi bem mais que uma música, dançaram, se disseram coisas, as duas eram tímidas demais para falar de sentimentos, mas falaram sobre qualquer outra coisa para que ninguém ficasse envergonhada ou o clima ficasse esquisito. Sofia foi embora praticamente arrastada pelo namorado, Arantxa deixou ela sair e empurrou o cara com quem estava ficando de lado, acabou, não queria mais, queria só beber, queria vinho! Cadê o vinho daquela festa? O garçom encontrou uma garrafa, ela dispensou o copo, bebeu direto da garrafa, foi para o meio da pista, dançar, fingir que estava ótima, que não estava aos pedaços por dentro, era sério, Sofia estava namorando, havia lhe enfrentado e dito que tinha acabado de ficar noiva.

Noiva. O amor da sua adolescência estava noiva e ia casar.

Arantxa subiu no palco, foi até o DJ, ele era bonitinho, era, não era? Se agarrou nele, porque precisava de carinho, de qualquer carinho, chamou todo mundo para subir no palco, todo mundo, queria dançar! Agora queria dançar e Rafaela só queria ficar mais perto de Louise ainda.

Ela parou a dança determinado momento. Aquele em que tinha tido coragem. Com o braço enlaçado na cintura de Rafaela, os olhos dentro dos dela, os dedos desceram pelo rosto de Rafaela delicadamente e Rafa lembraria do seu coração disparado, das suas mãos trêmulas, do seu corpo inteiro em movimento por dentro e era assim? Era assim que deveria ter se sentido em seu primeiro beijo?

Devia ser. Louise lhe disse que ela era linda e...

A música parou de repente.

Rafaela olhou para o salão, procurando entender o que havia acontecido e encontrou sua irmã desmaiada no palco sobre uma enorme poça de vômito.

— Arantxa!

Tanta coisa aconteceu que Rafaela nem sabia. Arantxa apagou, afogou, Lara teve que trazê-la de volta numa demonstração franca de amor, respiração boca a boca, porque ela tinha parado de respirar mesmo e a confusão foi enorme. Quando Rafaela notou que estavam filmando, que tinham pessoas se divertindo com a cena, expulsou todo mundo, furiosa, xingando muito e não havia um adulto na festa, nenhum, já tinham ido todos embora, elas tiveram que se virar sozinha com tudo. Terminaram a festa, aqueles que Rafaela não expulsou, Bernardo convidou a se retirarem, Arantxa voltou completamente desnorteada e foi Rafaela quem teve que contê-la enquanto Lara lidava com o final da festa, os pagamentos, o andamento de todas as coisas, os convidados bêbados que não queriam ir embora e lá foi Rafaela novamente, Lara era educada demais para essas coisas.

Estava amanhecendo quando enfim, conseguiram colocar Arantxa sob o chuveiro e só então Rafaela se deu conta que não tinha se despedido de Louise. Aliás, sequer viu quando ela foi embora. Mandou uma mensagem que nunca teve resposta. Não podia culpá-la de nada. Colocaram Arantxa na cama e ambas estavam destruídas. E Lara estava se sentindo culpada.

— Eu devia ter visto isso.

— Mas estava distraída sendo feliz. Eu estava distraída da mesma forma, eu vou me recusar a me sentir culpada, Lara. Ela não vai se sentir nem um pouco culpada por eu acordar infeliz amanhã, ela vai?

Não iria, Lara sabia. Mas a possibilidade de que Arantxa sequer soubesse como era ser feliz de verdade, a fez chorar até pegar no sono.

Ah sim, o choro escondido de Rafaela no banheiro também lhe causou o mesmo sentimento.

Notas Finais:

Olá moças! Tudo bem?

Como o prometido, capítulo extra de Sal, passado dez anos antes, na festa de 15 anos da Rafa. O objetivo geral deste extra era abrir uma janelinha no passado para podermos ver quem nossas garotas eram há 10 anos, entender o começo do problema da Arantxa, a personalidade empolgada da Lara, ver um pouquinho da rebeldia da Rafaela e entender melhor o relacionamento dela com a mãe. Espero que esta visita ao passado tenha agradado!

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"Sal" volta dia 21/07, próximo sábado, espero por vocês!

Beijos!