Projeto Escrita Criativa Planejada - Capítulo 1 - Inspiração

9/6/2018

 

 

Mas, afinal de contas, de onde nascem as histórias?

Pergunta simples, gente, é claro que toda história nasce de uma inspiração!

Só um segundo: que coisa é inspiração?

Inspiração. Segundo gramática, inspiração é:

 

Segundo Elizabeth Gilbert (Autora de "Comer, Rezar e Amar" e de "Grande Magia – Vida Criativa sem Medo"), inspiração, de fato, é a mistura da penúltima com a última linha da definição: inspiração é o sopro dos deuses, é uma ideia súbita, um lampejo, uma iluminação. Aliás, para qualquer pessoa que escreva, ou que esteja pretendendo escrever, assistir este TED com Elizabeth Gilbert falando sobre processo criativo é praticamente uma obrigação.

 

Neste vídeo, ela fala sobre as pressões naturais na vida de um escritor, o medo de escrever e nunca alcançar o sucesso, o medo de escrever algo depois do sucesso e fracassar, além de apresentar alguns relatos muito interessantes sobre a forma que a inspiração funciona para ela e outros artistas que ela chegou a entrevistar. Esta palestra me fez refletir muito sobre meus próprios processos e mais do que isso, me convenceu de que eu sou uma escritora normal. 😉

Como iremos ver nos próximos capítulos, na construção de uma história há milhares de métodos diferentes, que divergem bastante entre si, mas acho que em todos eles se há algo que se concorda é que o passo zero para a construção de qualquer ideia é a inspiração. Que ninguém sabe de onde vem, como acontece, se existe fórmula mágica, pior, às vezes a inspiração vem e é algo tão complicado de se definir que acaba passando completamente despercebida.

 

Eu sempre escrevi. Desde quando tinha uns doze, treze anos, quando eu olho para trás e me lembro, eu sempre estive escrevendo alguma coisa. Porém, escrevia, escrevia e nunca terminava nada, abandonava as ideias no meio e acabava nunca retornando para concluir. Dos treze aos vinte três, minha vida escrevendo foi assim, cheia de histórias pela metade, até que algumas chaves viraram na minha mente e as coisas começaram a mudar. Acho que a primeira aconteceu quando eu voltei de uma viagem quase espiritual para o Peru. Vi coisas inacreditáveis, me conectei com energias que eu não sabia que existiam e voltei determinada a terminar coisas, pendências pessoais, no trabalho e principalmente, terminar algo com o qual eu sentia que tinha um compromisso ao qual nunca havia honrado: a minha própria escrita.

 

Voltei escrevendo o meu primeiro livro de contos ainda no avião e desta vez fui até o final.

 

A segunda chave que virou na minha mente foi o poder do planejamento. Eu precisaria criar pontos de checagem se quisesse levar as minhas histórias até o final. Eu sou uma pessoa que planeja tudo, que gosta de ver as coisas no papel, de ter pontos para ir depois de pontos finalizados e esses pontos de checagem é o que em suma, veremos neste projeto aqui.

 

Mas então, a terceira chave é a que eu julgo a mais importante: eu consegui abrir a minha mente para a inspiração.

 

É simples: dificilmente você terá uma inspiração completa. Inspirações são como faíscas de uma fogueira, vem aos poucos, em pedaços pequenos e às vezes só brilha por um segundo e quando você volta para anotar o que pensou, já era, a faísca já se apagou e é provável que aquela ideia não volte tão cedo. Ou não volte nunca mais. Acho que todos aqueles que escrevem já passaram por isso, a ideia vem inteirinha, brilhante, deixamos para anotar em casa e quando chegamos lá, nada, ela já se foi. É um lampejo mesmo, enviado por algum tipo de energia que surge e de repente some. Deve ser por isso que inspiração ganhou contornos místicos na história e isso se mantém forte até os dias de hoje. Ok, inspiração também é mística, mas com alguns cuidados podemos mapeá-la a ponto de reduzir os desperdícios de ideias de maneira significativa.

 

Sim, eu sou este tipo de administradora. Eu tento administrar ideias também. Deixe-me tentar explicar como:

 

Antes de qualquer coisa, abra a sua mente, vire a sua chave, porque inspiração pode vir de qualquer lugar.

 

É tipo: de qualquer lugar mesmo!

 

Por exemplo. Eu estava passeando por Hermanus, uma cidadezinha praiana de Cape Town, quando de repente vi uma cena muito simples do outro lado da rua: uma moça loira descendo de um carro com três crianças. Nada demais, certo? Bem, desta cena me veio a ideia para criar Ryan Scholtz, coprotagonista de “Havana”. Desde quando eu cheguei em Cape Town, eu tinha decidido que aquele cenário maravilhoso merecia uma história, a Ana me disse a mesma coisa e durante os meus dias lá, mais e mais pedaços de inspiração eu fui encontrando pelo caminho, que me ajudaram a compor o cenário principal da história. Eu tinha uma coprotagonista, um cenário, mas ainda não tinha uma protagonista, ela apenas surgiu na minha mente no último dia de viagem, ao conhecer as winelands de Cape Town. Este foi um caso raro de encontrar protagonista, coprotagonista e cenário no mesmo lugar, porém com “Delirium” a situação foi bem diferente.

 

Delirium surgiu do nada. Eu estava aqui na minha cidade, andando pelo shopping quando entrei em uma loja de games e começou a tocar uma determinada música que não tem nada a ver com a história. A música era Man Down, da Rihanna e esta música me deu a ideia de escrever algo relacionado a um crime, em algum lugar tropical. Eu me lembrei que já tinha visto o clipe da música que foi gravado na Jamaica, ok, eu tinha uma faísca, romance policial em algum lugar tropical e não tinha mais nada. Então em um feriado prolongado, eu viajei para Alto Paraíso de Goiás e foi maravilhoso. Outro lugar místico que me deu uma ideia esquisita: eu poderia escrever algo sobre uma policial, muito racional, mas que tinha sido criada ali, naquela atmosfera. Daí eu tinha um cenário, um enredo, uma protagonista, faltava uma coprotagonista e é quando tudo fica engraçado... Eu estava no Youtube ouvindo música, e de repente comecei a ouvir o álbum novo da Ellie Goulding na época, denominado “Delirium”. E eu pensei que delirium era um estado mental diferente de delírio, mas não lembrava o porquê. Tinha assistido um episódio de uma série sobre relatos médicos reais que falava sobre delirium, mas era uma vaga lembrança. Fui pesquisar, lembrei e pensei que a minha protagonista podia sofrer de delirium. Ou seja, a ideia principal surgiu mais do nada ainda, de algo completamente alheio ao rumo que a história tomou, mas surgiu assim.

 

Anotei na minha caderneta e segui a vida. Até que em um belo dia, no Tumblr, me apareceram cenas de uma série filipina chamada The Rich Man's Daughter, cujo uma das atrizes protagonistas se chama Rhian Ramos. Ok, eu tinha que usar este nome em alguma história. Ahhh, eu tenho Diana Ferraz e ela não tem uma coprotagonista. Pronto, a coprotagonista será Rhian, Diana é policial, preciso de uma bandida, uma bandida boazinha, um cenário tropical, as Bahamas, mais tropical impossível, e de repente o capítulo 1 surgiu na minha cabeça quase que completo. Sim, quase, porque apenas no último parágrafo que eu defini que Rhian e Diana não seriam desconhecidas e sim, namoradas de muito tempo.

 

Percebe a colcha de retalhos? Pequenas inspirações, desconexas entre elas, que surgiram com espaçamento de meses, e que de repente se juntam e formam uma história. E pode acontecer também de você achar que tem duas histórias, duas ideias diferentes, que estão incompletas e então um belo dia revisa suas anotações e percebe que na verdade, as ideias se completam. “Sal” surgiu assim, duas ideias diferentes que se tornaram uma. Ali Zamora veio de uma crossover mental de uma outra história, denominada “Stamina” que acabou não vingando. Não que “Stamina” tenha morrido na minha mente, nada disso. Esses dias revisando mais anotações vi que na verdade, o cenário de “Stamina” era o que eu precisava para “A Coroa do Inverno”, outra história que pode começar a ser escrita em breve.

 

Então, a chave mental. Inspiração de fato pode vir de qualquer lugar, mas ficar atento e não descartar ideias, é a melhor maneira de colecioná-las. Vou listar abaixo cinco coisinhas que passei a prestar atenção para nunca mais ficar sem inspiração:

 

1. Ouça as pessoas. Gente, nada melhor do que ouvir histórias interessantes e anotá-las e não, não precisa ser uma baita história de superação, pode ser, sei lá, a história da sua amiga que bateu o carro ao olhar uma menina bonita na rua e perceber que na verdade, a tal menina bonita era sua ex-namorada. haha Para quem me lê, isso deve ter soado familiar, e é familiar, foi dessa anotação que surgiu a one-shot “A Cura”, postada no site Lettera. Ou seja, aconteceu com uma amiga minha e virou escrito. Então ouça a sua amiga que merece virar livro (todo mundo tem ao menos uma amiga assim), porque coisas muito interessantes podem surgir daí.

 

2. Preste atenção nas características humanas. Aliás, esta é uma boa dica, não apenas para inspiração, mas para “humanização” de personagens. A parte humana da Rhian (sim, porque Rhian é uma fantasia a maior parte do tempo) foi toda inspirada na minha namorada, às vezes há algo de muito único em quem está do nosso lado e por falta de atenção, não percebemos o quanto pode ser interessante;

 

3. Olhe para as pessoas. Qualquer pessoa que te chame atenção, ainda que não haja nem um segundo de conversa, apenas olhe para pessoas e imagine a história por trás delas. Ou imagine a história que você quiser. Eu lembro de uma reunião em que de repente a estagiária entrou para fazer alguma coisa e ela era tão, mas tão incomum que eu imaginei mil coisas sobre ela. E no final acabei me dando conta que ela podia ser o rosto de uma das minhas três protagonistas de um projeto chamado “Arena”. Uma história medieval, que de repente eu consegui enxergar numa sala de reuniões em Brasília (eu ainda não sei bem como ainda me mandam para reuniões haha);

 

4. Anote tudo e qualquer coisa. Anote mesmo, da maneira tradicional, com caneta e papel, e eu vou te explicar porque não anotar no celular ou no computador: é muito mais fácil você apagar algo que digitou, mas apagar algo que escreveu dá muito mais trabalho. Você precisa pegar um corretivo, uma borracha e este trabalho todo protege as suas ideias. Às vezes você olha, anota e pensa “que ideia estúpida” e vai lá e acaba deletando. O que você escreve à mão com toda certeza será mais difícil de “deletar”. Não pode as suas ideias, as deixem brotar livremente, se ela é boa ou não, é irrelevante, anote, guarde, releia, repense, tenha outras ideias, abandone, retome, crie a partir daquela ideia, é o exercício;

 

5. Consuma arte e informação. Ouça músicas, veja videoclipes, assista filmes, documentários e até programas de reputação duvidosa: sim, a inspiração pode vir de qualquer lugar mesmo! Anote qualquer coisa que chame atenção, seja um cenário, um nome diferente (vamos ver nos próximos capítulos, o poder de nomear personagens), uma situação, ouça as letras das músicas, imagine a história, anote, anote, exercite.

 

Às vezes a história chega antes da personagem, às vezes o background aparece sozinho e pede uma personalidade para acompanha-lo. Às vezes você tem um cenário maravilhoso e as personagens surgem mais tarde, às vezes você tem as personagens e todo o resto surge depois. Às vezes você só tem uma inspiração, uma coisa à toa que surge na sua cabeça. Tão à toa que você manda o pensamento embora e reclama que não está tendo inspiração. Ter inspiração, sim, tem um lado místico, há ideias que de fato simplesmente aparecem na sua cabeça (E já sabemos, surgiu? Anota, agarra a ideia, não a deixe escapar.) e há ideias que vem em pedaços, em pequenas parcelas, às vezes sem qualquer conectivo ou ordenadamente, às vezes a ideia 1 irá se relacionar apenas com a ideia 15, ou a 7 irá evoluir para alguma outra ideia completamente diferente que irá se relacionar com a 6, o importante é não matar ideias, é deixá-las livres para evoluírem e ser o que quiserem. A inspiração apenas é. O que podemos fazer é ficar atentos e livres de preconceitos para abraçar qualquer lampejo, qualquer pequena faísca e organizar em nosso próprio dashboard criativo, porque de fato, quando a inspiração decidir não aparecer, ainda assim teremos para onde olhar e algum ponto inicial para partir. 😊

 

Inspiração capturada, vamos em frente!

 

No próximo capítulo, veremos como transformar a inspiração em um projeto criativo utilizando métodos de multiplicação de ideias. Vamos pegar as faíscas e fazer a fogueira da imaginação acender!

 

Para aumentar seu mindset:

 

1. Clean Bandid feat Demi Lovato: Solo.

 

Assistam a este videoclipe e se perguntem: como Grace Chatto, a mente criativa por trás de Clean Bandit, pensou em algo assim. Que elementos visuais há no clipe, quantas ideias sem conectivos, mas que no arremate final, fazem sentido. São 3:44 segundos de inspiração e criatividade. E loucura. Porque as melhores ideias são as mais malucas é claro.

 

2. Vale a pena ler “Grande Magia: Vida Criativa sem Medo”, de Elizabeth Gilbert. É uma obra que fala muito sobre inspiração, sobre o oficio de ser escritor e de como dar liberdade para as próprias ideias, além de como conseguir se perdoar pelas ideias perdidas.

 

É isto, pessoas, se tiverem dúvidas, sugestões ou simplesmente quiserem debater sobre, basta deixarem nos comentários. Nos vemos no próximo capítulo!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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