Amaranthine - A Garota na Nuvem - Versão EXPLICIT

19/6/2018

  

Havia algo de diferente. Não no quarto ou no jeito que amanhecia pela janela, aquele era o hotel de sua família, não era a primeira noite que acordava naquela cama desarrumada ou que acordava sem ter conseguido dormir direito. Bem, mas era a primeira vez que dormia com alguém depois de um primeiro encontro. E também era a primeira vez que tinha um encontro durante um casamento. E sim, era a primeira vez que acordava ao lado de outra garota.

Uma linda garota que dormia como se estivesse deitada numa nuvem.

Nic olhou para ela novamente e as coisas ainda estavam confusas na sua cabeça. Vamos lá, do começo do dia anterior...

Começou o dia não dormindo. Havia passado a noite em claro e não conseguia parar de pensar no tal casamento que aconteceria no final da tarde. Pensava em Marina casando e sua garganta fechava, seu coração disparava, era como se finalmente estivesse cara a cara com sua deadline definitiva e só restasse algumas horas para decidir. Mas decidir exatamente o quê?

Ela não sabia o que decidir. Tudo o que sabia é que era uma mulher de vinte e quatro anos, que tinha uma paixão irremediável por sua melhor amiga desde o jardim de infância. Era assim, nunca havia sido diferente, desde quando se lembrava, Marina sempre havia estado ao seu lado. Suas famílias eram amigas, elas brincavam juntas desde pequenas, foram para a escola juntas, nunca estudaram um ano que fossem em turmas separadas, era parte de sua vida. A escola com Marina, os finais de semana juntas, as atividades extras que faziam sem se separar, se uma recebia um convite, a outra já estava automaticamente inclusa, era assim, ninguém contestava, eram tão uma da outra que quando uma delas aparecia sozinha em algum lugar, era como se algo estivesse faltando.

E este algo começou a faltar mais forte na adolescência. Deveriam ter doze, treze anos quando começaram a se sentir diferentes uma perto da outra. Marina queria estar cada vez mais perto e Nic não sabia... Não sabia que sentimentos ela causava quando chegava tão perto, não sabia de suas reações, sabia que ficava desconfortável, mas por que ficava? Por que ter uma garota tão perto de si não parecia natural, ou correto. Nic sempre havia sido tão correta, quarto arrumado, tarefas no lugar, ela agendava até suas horas de leitura para não deixar de fazer nada, ter algo fora do planejado lhe causava imensa ansiedade e Marina naquele momento, tornou-se a sua coisa mais fora do lugar.

Ou seja, sua maior ansiedade.

Se afastaram por um tempo e o sofrimento foi enorme. Ao menos para Nic, uma vez que enquanto decaía sozinha, teve que assistir Marina florescendo em sua ausência. Ela cresceu, ficou mais alta, mais bonita, mais independente, naqueles meses distante ela se tornou outra pessoa e Nic só queria entender. Primeiro, entender porque se separaram, depois entender porque ela estava tão diferente. Tomou coragem e a chamou para ir no cinema determinada tarde, ela atendeu no primeiro toque, aceitou imediatamente e, coisas aconteceram. As mãos se pegaram, os corpos se aproximaram e Nic sentia seu coração batendo tão forte que parecia que ia escapar de dentro do peito. Marina lhe olhou direto nos olhos o tempo inteiro e ela era a coisa mais linda que Nic já havia visto de perto, a coisa mais linda que já havia visto por dentro e ainda assim, ela não parecia estar vendo Marina de qualquer maneira.

Foi o que ela lhe disse quando se olharam assim de perto quando foram para o hotel. Lembrava de terem ficado muito juntas no terraço, se olhando nos olhos, de mãos agarradas.

— Você me olha, mas não consegue me ver.

— O que eu não estou vendo? — Perguntou, tão perto que conseguia sentir o calor da pele dela.

— Me olha mais de perto.

— Mais perto?

— Aqui, me olha desta distância — Ela chegou tão perto que os seus cílios longos tocaram nos cílios loiros de Nic e o coração de Nic… Agora seu coração estava em sua garganta e tão suave quanto o vento soprava no terraço, Marina a beijou. Um beijo doce, curto, cheio de beleza — Você consegue ver agora?

Nic tinha visto.

E se apavorou. Saiu correndo do terraço, tão nervosa que sequer olhou para trás. Depois, Marina lhe disse que tinha lhe seguido, mas que Nic parecia tão atordoada que achou melhor deixá-la sozinha consigo mesma. Nic passou uma semana sem ir para a escola, sem responder as mensagens de Marina, sem querer sair do seu quarto. Disse aos seus pais que estava doente, mas quando a levaram no médico, não havia nada, apenas uma suspeita de depressão juvenil. Mas ela não se sentia deprimida, ela simplesmente não entendia o que sentia e para alguém tão organizada quanto Nic, isto era algo terrível.

Ficou sozinha, se pensando, se analisando, escrevendo tudo o que já havia acontecido entre ela e Marina e no final daquela semana, enfim, chegou a algumas conclusões...

O problema de Marina ficar tão perto de si, não era que não parecia natural, era que não parecia suficiente. Nic queria mais, gostava da sensação, mas ao mesmo a sensação lhe apavorava tanto que ela preferia se afastar a descobrir até onde poderia ir. Outra conclusão foi que, de fato, Marina estava diferente, mas era apenas porquê ela havia decidido dar vasão ao que ela estava descobrindo em si mesma. Nic ouvia os ruídos de que ela estava beijando uma menina aqui, outra ali e isso a irritava tanto que precisava de uma explicação. Era mais fácil dizer que não conhecia mais sua amiga do que admitir que estava com ciúmes dela. Nic estava com quatorze anos e nunca tinha beijado ninguém. Dizia que ninguém lhe interessava, mas também não era verdade. Achava que alguém lhe interessava.

E este alguém, podia ser Marina.

Ligou para ela e pediu que ela fosse lhe visitar. Ela veio, linda de morrer, Nic nunca esqueceu como ela estava linda aquela tarde. Ela entrou no quarto e a primeira pergunta que lhe fez foi:

— Você consegue ver agora?

Conseguia. Marina estava apaixonada por Nic, e segurando suas mãos e olhando em seus olhos ela lhe disse tudo, que já acontecia um tempo, que estava sim ficando com outras meninas, mas era apenas porque sentia que não havia esperanças com Nic. Ela lhe perguntou se podia ter esperanças. Nic respondeu que… Que… Não sabia.

Lembraria sempre do quanto Marina saiu arrasada de seu quarto. E lembraria sempre do quanto foi esquisita a sensação dentro de si. Havia sido ótimo ouvir que ela estava apaixonada, que preferia Nic a todas as outras que beijava pela escola, mas de alguma maneira, ainda não tinha certeza. E não era por nada, é que não tinha certeza mesmo, nunca tinha ficado nem com um garoto, não se conhecia bem, não sabia o que queria, enquanto Marina já parecia ter certeza de todas as coisas. Não parecia certo atrapalhar a certeza dela com a sua indecisão. Podia ser que estivesse apaixonada por ela, ou podia ser apenas amor de amiga, quem poderia lhe explicar? Ninguém pôde. Diante da sua decisão, melhor, de sua indecisão, Marina decidiu manter distância, ao menos por um tempo, seria bom para elas duas separar os sentimentos e Nic concordou.

Quando mudaram de escola no ensino médio, foram para salas diferentes. E enquanto Marina era um fenômeno de popularidade, Nic preferia a discrição, preferia ficar sozinha consigo mesma e apesar de ter feito novos amigos, seus olhos ainda procuravam por Marina em todos os intervalos. Foi quando decidiu falar com ela e pedi-la de volta. Podiam ser amigas outra vez? Sentia falta, sentia saudade e Marina a abraçou forte e disse que a amava, que também sentia falta, que estava na hora de se reconectarem.

E foi assim que elas seguiram, com quinze anos Nic teve seu primeiro namorado, enquanto Marina desfilava com sua segunda namorada, tudo parecia controlado e no lugar, a parte algumas crises de ciúmes que era difícil para os pares entenderem. Nic era possessiva com Marina, tinha ciúmes das amigas, da namorada, ciúmes até da irmã de Marina e ela parecia se divertir com as cenas. Quem olhava de fora tinha certeza que elas eram o casal entre os quatro, as mãos dadas involuntárias condenavam, os olhos nos olhos durante as conversas, isso nunca tinha mudado, as mãos de Nic viviam em cima de Marina. Ela era a sua morena, a sua metade e ninguém tinha mais território dentro delas do que elas mesmas uma pela outra. Isso gerou brigas e separações para ambos os lados durante a adolescência inteira, até que, quando entraram na faculdade, algo mexeu nesta equação.

Valentina, uma das primas de Nic que havia chegado da Itália. Ela era dois anos mais velha, mais experiente e cafajeste a um ponto que Nic jamais achou que uma mulher poderia ser e assim que ela colocou os olhos em Marina, decidiu que iria ficar com ela. E ficou, na festa de aniversário de Nic, depois ficou num final de semana na praia, ficou numa festa de faculdade, não era nada sério, mas era algo que deixava Nic extremamente irritada. E deveria ser, porque desde o começo, apesar da placa de nada sério e da visível ninfomania de Valentina, Nic sabia que seria ela quem tiraria Marina de suas mãos definitivamente. Ela lhe irritava, ria da sua heteronormalidade, saíam juntas e ela ficava com tantas garotas conseguia e provocava Nic, perguntava se ela tinha certeza que não gostava. E então, havia essa coisa da certeza, talvez se irritasse tanto com Valentina porque no fundo, ela tinha razão, Nic não tinha certeza se de fato não gostava de mulheres e quanto mais lhe pressionavam a respeito disso, menos ela se abria a provar, era uma situação sufocante e muito desagradável.

Se fechou totalmente neste período e quando Valentina e Marina começaram a namorar sério, Nic ficou depressiva de verdade. Eram vários fatores, não queria Marina namorando com uma cafajeste, sabia muito bem da reputação de Valentina, não queria ela se afastando de si, não queria ser excluída dos programas, não queria… Marina namorando. Outra pessoa que não fosse si mesma. Foi quando enfim, quase dez anos depois, Nic entendeu que estava de fato, apaixonada por Marina. Que queria ficar com ela, namorar com ela, fazer tudo direitinho, mas então, parecia tarde demais. Seria tarde demais? As coisas agora eram mais complicadas, porque não era tirar Marina de alguma menina que ela estava beijando na escola, era tirá-la de uma namorada, firme e que parecia ter mudado. Nic teve certeza, mas ainda tinha dúvidas e apesar de todo mundo de sua empresa, de seu hotel, de sua família, todo mundo que conhecia Marina e Nic dizerem que elas precisavam ficar juntas, que se pertenciam, Nic ainda não sabia.

E lá se foram dez anos inteiros e era a manhã do casamento de Marina, e Nic ainda não tinha certeza.

Se recusou a ser madrinha, nada disso, se Marina queria casar com Valentina, que fosse por sua própria conta, não iria apoiar aquela loucura.

— E roubar a noiva, o que você acha? — Seu irmão mais velho lhe perguntou umas semanas antes sorrindo.

— Você quer parar com isso? Não me ajuda em nada!

— Eu só estou dizendo que se você não se mexer agora, Nic, vai ter que roubar a Marina no altar! Qual é, ela só quer uma atitude sua, eu tenho certeza que se você pedir, ela desiste desse casamento e fica com você. É o que ela quer há anos.

Era o que ela queria, mas será que ainda queria? Mais dúvidas, mais questões e enquanto Nic se debatia em seus próprios sentimentos e quereres, de repente, já era o dia do casamento. E sim, ela ainda não sabia.

Foi para o casamento de qualquer forma. Com o coração na garganta, as mãos tremendo, estava bebendo desde cedo, um gole de vinho para cada crise de ansiedade e o tempo parecia estar lhe trapaceando, porque quando deu por si, Marina já estava entrando em direção ao altar, linda de morrer e assistir o amor da sua vida trocando alianças com outra pessoa, lhe partiu o coração em mil pedaços diferentes.

Nic ficou arrasada. Por sua inércia, por sua incapacidade de conseguir o que queria, porque agora queria, tinha toda a certeza do mundo dentro de si. A capacidade humana de só se perceber o que se precisa quando o domínio sai das suas mãos é impressionante.

Marina não estava mais em suas mãos. Mas ao invés de demonstrar tristeza, Nic decidiu mostrar o contrário. Esta era toda a sua personalidade.

Foi para a festa, foi abrir champanhes, alavancar o nível daquele lugar, o abraço em Marina foi longo demais e vê-la tão feliz lhe partiu mais alguns pedaços por dentro.

— Podia ser a gente — Ela sussurrou em seu ouvido antes de soltá-la.

Podia. Será que ainda podia?

Nic bebeu mais alguns drinques e foi para a pista de dança, se havia algo que Valentina fazia melhor do que levar mulheres para cama, era fazer festas inesquecíveis. Nic bebeu muito, dançou muito e ela não lembraria exatamente de como tudo havia acontecido, mas quando deu por si, estava empurrando quem não devia contra uma parede escura do terraço do seu hotel.

E a boca dela não podia ter gosto melhor, aquelas curvas pareciam atrair os seus dedos, as suas mãos, elas estavam quentes, ferventes, a coxa de Nic entre as coxas dela e aqueles lábios pelo seu pescoço, as mãos pelos seus seios, ela queria ir para outro lugar, “me leva para outro lugar” e elas não podiam ser vistas, Nic sabia que não podiam, mas não teve certeza se não haviam sido. A festa de casamento de repente pareceu ser em outro lugar, estar em outro lugar, talvez flutuando em uma nuvem, lembrava de ter tido aquele pensamento enquanto a pegando pela mão, correu com ela até o elevador.

Não houve conversa, ninguém se disse nada que fizesse sentido, tudo o que Nic sabia era que a arrastou para a sua suíte, era que começou a tirar a roupa dela antes mesmo de fechar a porta, era que quando a jogou na cama, ela lhe pediu para não apagar a luz, queria ver seus olhos verdes, queria ver seus dedos marcando sua pele clarinha, queria ter certeza de que o que estava acontecendo era real.

— Por que não seria? — Nic perguntou, ao suavemente baixar a alça do vestido dela com beijos delicados.

— Eu já sonhei com isso algumas vezes — Ela confessou sorrindo, quase tímida.

Nic buscou os olhos dela.

— Eu… Eu nunca fiz isso antes.

— Você acha o caminho.

Nic achou o caminho e nunca, em sua vida inteira, havia tido uma noite mais quente, sexy, mais gostosa do que aquela. Elas fizeram pela noite inteira, se provando, se buscando, se descobrindo e parecia pouco, sempre que mordiam o prazer ainda parecia pouco. Alguém bateu na porta em algum momento, bateram de novo, foram duas, três vezes? Nic não fazia ideia. Tudo o que sabia era que havia trancado todo o resto do mundo do lado de fora e tudo o que importava naquele momento, eram elas duas.

Então, o casamento. Havia sido horas antes e olhando para a cama desarrumada, ainda não acreditava no que havia feito.

A controlada e planejada Nic Ferragni havia cometido uma loucura.

E de sua nuvem, suavemente, sua loucura começou a despertar. Se despreguiçou, suspirou, abriu um sorriso assim que colocou aqueles olhos em cima de Nic e Nic não sabia direito o porquê, mas sorrir de volta para ela foi quase um reflexo natural. Era um sorriso lindo demais, mais doce impossível.

— Você realmente está aqui — Ela disse, navegando pelos lençóis desarrumados direto para o colo de Nic. Outro sorriso de Nic e ela sentiu seus dedos sendo naturalmente atraídos por aqueles cabelos castanhos-solares. Era assim que eram, castanhos, mas coloridos pelo sol.

— Por que eu não estaria aqui?

— Eu ainda não estava nem acreditando que a nossa noite aconteceu mesmo, antes de abrir os olhos eu me fiz essa pergunta, se tinha acontecido, se era verdade. Eu sempre tive certeza que você me olhava, mas nunca me via.

E a mão gelada que agarrou o coração de Nic ao ouvir aquilo foi tão palpável que até sua garota na nuvem sentiu. Sua bela nuvem branquinha havia subitamente escurecido em uma nuvem de chuva.

Ela saiu de seu colo, sentando na cama, cobrindo os seios com o lençol.

— Espera, espera: quem eu sou, Nic?

— Calma, espera um pouco, eu sou italiana, eu costumo beber demais então a minha cabeça pode estar um pouco...

Ela passou a mão pelo rosto, mais do que chateada, magoada. E ver aqueles olhos magoados deixou Nic numa profunda agonia.

— Ei, o que foi? Por que você está me olhando assim?

— Você não lembra de mim? — Ela perguntou, extremamente ferida.

Como assim Nic não lembrava dela?

— Claro que eu lembro, nós ficamos juntas noite passada e…

— Antes de ontem, você não lembra?

— A gente já tinha se visto antes?

Ela abriu um sorriso de quem não acredita no que está ouvindo. Olhou para Nic outra vez.

— O meu nome, você sabe ao menos o meu nome?

— Kaila, com k, é havaiano, a sua mãe é havaiana — Tinha certeza que sua resposta estava correta, mas de qualquer maneira ela começou a sair da cama, buscando suas roupas pelo quarto — Kaila, espera, espera um pouco!

— Espera o que, Nic? Esperar você lembrar que ocasionalmente você já me viu uma vez na vida? Eu sou muito boba mesmo...

E para o desespero de Nic, ela começou a lagrimar, sentidamente, contra a própria vontade. De onde se conheciam? Onde já haviam se visto? Nic tinha quase certeza que a primeira vez que colocou seus olhos sobre ela foi naquela pista de dança.

— Ei, bella, espera, muita coisa aconteceu, espera um pouco…

— Todo mundo sempre disse a mesma coisa, que você é tão cega pela Marina que não conseguia ver ninguém pela frente, eu só não achei que fosse tão literal — Subiu o vestido e quando tentou alcançar o fecho nas costas, não conseguiu. E sentiu as mãos dela sobre as suas logo em seguida.

— Kaila, por favor — Respirou muito perto dela, tentando fazer com que ela relaxasse enquanto sua cabeça ainda estava girando em milhares de possibilidade — Se acalma.

— Você acha que o seu irmão está aí fora? Eu nem pensei nisso, ele não pode me ver — Ou além de tudo, ia ficar sem emprego também.

— Dane-se o meu irmão, o que ele tem a ver com a gente? — Nic fechou o vestido dela e a virou de frente. Ela era linda, linda, olhos havaianos, suavemente puxados, toda pequenina, Nic tinha 1,67 e Kaila conseguia ser mais baixa.

— O que ele vai pensar de mim agora? Você é uma das donas da empresa...

E foi quando, e apenas quando, um raio invadiu a mente de Nic e ela lembrou, subitamente, como quem agarra uma lembrança flutuante perdida pela mente, não identificada, catalogada, separada.

— Você é a assistente do meu irmão — E Nic passava por ela todos os dias antes de entrar na sua sala.

— E você nunca me viu. Nunca me notou. Eu sei que nunca tinha notado, mas ontem, quando você me chamou para dançar... — Ela tinha parado na pista de dança e olhado diretamente para Kaila. Olhado, sorrido, vindo para perto, segurou suas mãos e lhe chamou para dançar. E a conversa foi pouca, o barulho estava alto, sua expectativa também e de repente, ela lhe arrastou para um canto e a beijou, o beijo mais roubado e cheio de tesão da vida. E aparentemente havia sido apenas isso mesmo, um beijo roubado, um momento roubado, Kaila já deveria saber — Tudo bem, será que você pode só ir lá fora saber se eu posso sair sem ninguém me ver?

Nic pensou seriamente em beijá-la, levá-la para cama, fazer amor outra vez, porque era exatamente tudo o que estava com vontade de fazer, mas...

Não tinha certeza. Se vestiu, procurou seus óculos escuros, era a sua suíte, tinha levado suas coisas para lá já prevendo uma manhã seguinte difícil. Deixou Kaila no quarto e saiu, dando uma olhada pelo corredor, sabia que sua família também estava no hotel, falou com uma prima pelo caminho, só para confirmar, Marina e Valentina tinham partido para a lua de mel no Caribe, mais clichê impossível. Subiu para o terraço, ainda fechado para os hóspedes aquela manhã e só havia Giovana, sua irmã mais nova, tomando um suco enquanto molhava os pés na piscina.

— Nicola — Ela lhe olhou e abriu um sorriso imediato — O que você fez?

— Eu só me lembro metade — Respondeu, sentando-se ao lado dela.

— Você sabe quem ela é?

Nic negou.

— Enquanto ela estava falando, de repente, eu lembrei de ter visto ela na empresa, mas foi apenas quando ela disse que a gente já se conhecia.

— Ela trabalha conosco, tem quase um ano e ela é minha amiga também, Nic. Fui eu quem conseguiu o emprego pra ela. E ela gosta de você. Não é de hoje, é do dia que ela te viu. Eu mencionei ela pra você algumas vezes, mas como você nunca está disposta a ouvir sobre mulheres...

Nic respirou muito fundo.

— É por isso que ela está tão preocupada em ser vista saindo do meu quarto, ela é próxima da nossa família.

— É uma situação delicada para ela, não pra você. O pai te adora, ficou preocupado por você ter bebido demais, mas não ligou de você ter subido com uma garota, ele inclusive se divertiu com a ideia. Mas ela... É desconfortável ser a garota esporádica que Nicola Ferragni arrastou para o quarto.

— Ei, eu não arrastei ela para o quarto e menos ainda ela é essa garota qualquer que você está descrevendo aí.

— Ela não é, Nic?

— É claro que não. Gio, eu posso ter bebido, posso ter me excedido, mas ela subiu comigo de comum acordo, se eu não me importasse com ela teria deixado ela dormindo e teria ido embora. Ela ficou comigo numa noite extremamente difícil, eu nunca faria isso, eu posso não me lembrar de quem ela era, mas isso é antes de ontem, ok?

Giovana olhou para ela. Sua irmã podia ser confusa, mas nunca cafajeste.

— Vocês ficaram juntas pra valer? Quero dizer...

— Eu sei o que você quer dizer — Nic abriu um sorriso — Nós ficamos. E foi tão bom... Tudo foi muito bom, os beijos, os toques, o sexo, foi tudo muito doce, muito delicado.

— Eu achei que você detestasse delicadeza.

— Detesto. Mas não com ela. Ela é linda demais, Gio, não merece menos que delicadeza. Eu estou um pouco envergonhada, porque não faço ideia se foi bom para ela também.

— Pergunta pra ela.

— Ela está me odiando agora.

— Não se apegue nisso, porque Kaila é incapaz de odiar alguém.

— O café já está sendo servido?

— Nossos pais estão no restaurante, todo mundo está começando a acordar só agora.

— Então — Checou o relógio Calvin Klein no pulso — Eu vou lá buscar a Kaila.

— Para levar ela para casa?

— Também vou, mas só no final da tarde. Agora eu só quero tomar café.

— Com ela? Quero dizer, você...?

— Ela dormiu comigo, ela desce comigo. Gio, eu posso ter acordado confusa, mas as coisas estão clareando agora. Eu tive um apagão quando saí do quarto, você sabe que eu tenho esses apagões de vez em quando, mas é o correto a fazer.

— E vai fazer só porque é correto?

Ainda não sabia. Mas soube assim que entrou de volta no quarto. Ela já tinha parado de chorar, havia tomado um banho e olhando-a assim, sem maquiagem de festa, Nic teve outras lembranças de já tê-la visto. No escritório, no aniversário de Giovana, em um jantar na casa de Valentina. Ela estava sentada na cama, pensando em alguma coisa a qual Nic ficou curiosa para saber o que era.

Se abaixou à frente dela e o coração de Kaila disparou muito forte.

— Nic...

— Eu quero que a gente desça para o café, juntas.

— Eu trabalho para o seu irmão.

— Durante a semana, dentro do escritório, não aqui. Aqui você está comigo, nós dormimos juntas, ficamos na festa e isso em nada tem a ver com o seu profissionalismo.

— Nic, você não precisa fazer isso, aconteceu, nós vamos em frente.

— Você está com pressa?

— Não é isso, é só... Foi apenas uma noite, eu já sei.

— E pode ser uma manhã, uma tarde, por que temos que correr com as coisas? Escuta, eu sinto muito. Por não ter me lembrado de você, de ter te visto no escritório antes ou nas festas que nós já nos esbarramos, mas depois que você falou, a minha mente abriu e eu recebi uma enxurrada de memórias...

— Porque eu não fui algo que prendeu sua atenção antes, não é culpa sua.

— Você é linda, é doce, gentil, foi muito paciente comigo, eu não sei como não te vi antes. Mas o que importa é que eu vi ontem, que a gente se viu e eu não sei você, mas eu estou livre hoje e queria muito que a gente pudesse usar esse domingo para conversar um pouco. Fica. Tem roupas no armário, acho que nós temos o mesmo tamanho, a gente desce, toma café, dá uma volta na praia.

— Por que você está fazendo isso?

— Porque nós ficamos juntas e eu adorei. Eu não sei se foi bom para você, porque eu estava muito bêbada, mas eu espero que tenha conseguido ao menos tratar você com carinho e respeito.

E pela segunda vez naquela manhã, ela abriu um sorriso.

— Você foi linda, gentil, carinhosa.

— E eu me lembro, ok? Não me lembro de tudo, mas me lembro do que importa.

— Mas você ficou comigo por causa...

De mim mesma — Disse, pegando a mão dela entre as suas — Eu precisava fazer algo pensando em mim, seguir uma vontade minha, sem me julgar ou pensar no que os outros iam pensar. Eu só te peço a mesma coisa agora. Pensa no que você quer, sem pensar em mais ninguém. Se você não quiser descer comigo porque não quer mesmo, por não ter gostado da noite ou de mim, tudo bem, eu levo você em casa sem ninguém te ver. Mas se for apenas por causa dos outros... Não, Kaila. Não mesmo.

Kaila olhou para ela. Ela lhe beijou a mão, Kaila lhe beijou a testa.

E decidiu descer com ela.

Trocou de roupa enquanto Nic tomou um banho rápido, se vestiu outra vez, camiseta branca, bermuda elegante, óculos escuros, chave do carro, celular e, sua linda havaiana que finalmente, havia descido da nuvem. A pegou pela mão e viu o sorriso que tirou dela com aquele simples gesto, abriu a porta, pegaram o elevador e enquanto subiam até o restaurante, Nic sentiu uma enorme vontade de beijá-la outra vez. A puxou pela cintura, mas antes de beijá-la:

— Eu posso?

E era exatamente assim que Kaila havia passado a sua noite. Com a sua crush de meses lhe perguntando se podia fazer isso ou aquilo, se estava bom, se não estava machucando. A felicidade é que Nic era exatamente tudo o que ela sonhava, e um pouco mais. E a infelicidade é que ela era tudo aquilo loucamente apaixonada por outra. Deixou para pensar nisso depois. Se esticou pelo corpo dela e a beijou, sentindo aquelas mãos pelos seus cabelos, o braço a enlaçando pela cintura, o suspiro escapou sem sequer ser anunciado.

Bom dia. Por que a gente só não começou o dia assim? — Nic perguntou sorrindo, a abraçando contra o seu corpo.

— A gente pensa demais, nós duas.

— Vamos parar com isso, está bem? Ao menos por hoje. Promete que não vamos pensar em nada? Que vamos deixar todos os pensamentos irem embora?

Kaila mordeu a boca de olhos fechados a sentindo tão perto.

Como em uma nuvem.

Nic a beijou outra vez, intensamente, acreditando nela, estava beijando uma garota, estava gostando de beijar uma garota, por um instante pensou em Marina, mas logo em seguida cumpriu sua promessa e deixou o pensamento ir embora, feito uma nuvem no céu.

Notas da História:

 

Meninas, Amaranthine foi postada no Desafio Lettera: Uma Imagem Vale Mais que 1.000 palavras, e como vocês devem ter percebido, este capítulo tinha bem mais que 1.000 palavras. haha

 

Amaranthine acabou sendo preterida na votação sobre qual conto eu deveria continuar a escrever, mas de qualquer maneira, achei interessante compartilhar o capítulo original, sem cortes com vocês. Espero que a leitura tenha agradado!

Quem curtir, favor clicar no botãozinho de Like ♥ e quem curtir demais e quiser dar opinião sobre o capítulo ou o rumo que pode vir a acontecer com essa história, favor comente! Os comentários são essenciais sempre, mas neste momento em que estamos tentando consolidar o site são mais ainda!

 

Beijos!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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