Amaranthine - A Garota na Nuvem - Versão EXPLICIT


Amaranthine | Tessa Reis

Havia algo de diferente. Não no quarto ou no jeito que amanhecia pela janela, aquele era o hotel de sua família, não era a primeira noite que acordava naquela cama desarrumada ou que acordava sem ter conseguido dormir direito. Bem, mas era a primeira vez que dormia com alguém depois de um primeiro encontro. E também era a primeira vez que tinha um encontro durante um casamento. E sim, era a primeira vez que acordava ao lado de outra garota.

Uma linda garota que dormia como se estivesse deitada numa nuvem.

Nic olhou para ela novamente e as coisas ainda estavam confusas na sua cabeça. Vamos lá, do começo do dia anterior...

Começou o dia não dormindo. Havia passado a noite em claro e não conseguia parar de pensar no tal casamento que aconteceria no final da tarde. Pensava em Marina casando e sua garganta fechava, seu coração disparava, era como se finalmente estivesse cara a cara com sua deadline definitiva e só restasse algumas horas para decidir. Mas decidir exatamente o quê?

Ela não sabia o que decidir. Tudo o que sabia é que era uma mulher de vinte e quatro anos, que tinha uma paixão irremediável por sua melhor amiga desde o jardim de infância. Era assim, nunca havia sido diferente, desde quando se lembrava, Marina sempre havia estado ao seu lado. Suas famílias eram amigas, elas brincavam juntas desde pequenas, foram para a escola juntas, nunca estudaram um ano que fossem em turmas separadas, era parte de sua vida. A escola com Marina, os finais de semana juntas, as atividades extras que faziam sem se separar, se uma recebia um convite, a outra já estava automaticamente inclusa, era assim, ninguém contestava, eram tão uma da outra que quando uma delas aparecia sozinha em algum lugar, era como se algo estivesse faltando.

E este algo começou a faltar mais forte na adolescência. Deveriam ter doze, treze anos quando começaram a se sentir diferentes uma perto da outra. Marina queria estar cada vez mais perto e Nic não sabia... Não sabia que sentimentos ela causava quando chegava tão perto, não sabia de suas reações, sabia que ficava desconfortável, mas por que ficava? Por que ter uma garota tão perto de si não parecia natural, ou correto. Nic sempre havia sido tão correta, quarto arrumado, tarefas no lugar, ela agendava até suas horas de leitura para não deixar de fazer nada, ter algo fora do planejado lhe causava imensa ansiedade e Marina naquele momento, tornou-se a sua coisa mais fora do lugar.

Ou seja, sua maior ansiedade.

Se afastaram por um tempo e o sofrimento foi enorme. Ao menos para Nic, uma vez que enquanto decaía sozinha, teve que assistir Marina florescendo em sua ausência. Ela cresceu, ficou mais alta, mais bonita, mais independente, naqueles meses distante ela se tornou outra pessoa e Nic só queria entender. Primeiro, entender porque se separaram, depois entender porque ela estava tão diferente. Tomou coragem e a chamou para ir no cinema determinada tarde, ela atendeu no primeiro toque, aceitou imediatamente e, coisas aconteceram. As mãos se pegaram, os corpos se aproximaram e Nic sentia seu coração batendo tão forte que parecia que ia escapar de dentro do peito. Marina lhe olhou direto nos olhos o tempo inteiro e ela era a coisa mais linda que Nic já havia visto de perto, a coisa mais linda que já havia visto por dentro e ainda assim, ela não parecia estar vendo Marina de qualquer maneira.

Foi o que ela lhe disse quando se olharam assim de perto quando foram para o hotel. Lembrava de terem ficado muito juntas no terraço, se olhando nos olhos, de mãos agarradas.

— Você me olha, mas não consegue me ver.

— O que eu não estou vendo? — Perguntou, tão perto que conseguia sentir o calor da pele dela.

— Me olha mais de perto.

— Mais perto?

— Aqui, me olha desta distância — Ela chegou tão perto que os seus cílios longos tocaram nos cílios loiros de Nic e o coração de Nic… Agora seu coração estava em sua garganta e tão suave quanto o vento soprava no terraço, Marina a beijou. Um beijo doce, curto, cheio de beleza — Você consegue ver agora?

Nic tinha visto.

E se apavorou. Saiu correndo do terraço, tão nervosa que sequer olhou para trás. Depois, Marina lhe disse que tinha lhe seguido, mas que Nic parecia tão atordoada que achou melhor deixá-la sozinha consigo mesma. Nic passou uma semana sem ir para a escola, sem responder as mensagens de Marina, sem querer sair do seu quarto. Disse aos seus pais que estava doente, mas quando a levaram no médico, não havia nada, apenas uma suspeita de depressão juvenil. Mas ela não se sentia deprimida, ela simplesmente não entendia o que sentia e para alguém tão organizada quanto Nic, isto era algo terrível.

Ficou sozinha, se pensando, se analisando, escrevendo tudo o que já havia acontecido entre ela e Marina e no final daquela semana, enfim, chegou a algumas conclusões...

O problema de Marina ficar tão perto de si, não era que não parecia natural, era que não parecia suficiente. Nic queria mais, gostava da sensação, mas ao mesmo a sensação lhe apavorava tanto que ela preferia se afastar a descobrir até onde poderia ir. Outra conclusão foi que, de fato, Marina estava diferente, mas era apenas porquê ela havia decidido dar vasão ao que ela estava descobrindo em si mesma. Nic ouvia os ruídos de que ela estava beijando uma menina aqui, outra ali e isso a irritava tanto que precisava de uma explicação. Era mais fácil dizer que não conhecia mais sua amiga do que admitir que estava com ciúmes dela. Nic estava com quatorze anos e nunca tinha beijado ninguém. Dizia que ninguém lhe interessava, mas também não era verdade. Achava que alguém lhe interessava.

E este alguém, podia ser Marina.

Ligou para ela e pediu que ela fosse lhe visitar. Ela veio, linda de morrer, Nic nunca esqueceu como ela estava linda aquela tarde. Ela entrou no quarto e a primeira pergunta que lhe fez foi:

— Você consegue ver agora?

Conseguia. Marina estava apaixonada por Nic, e segurando suas mãos e olhando em seus olhos ela lhe disse tudo, que já acontecia um tempo, que estava sim ficando com outras meninas, mas era apenas porque sentia que não havia esperanças com Nic. Ela lhe perguntou se podia ter esperanças. Nic respondeu que… Que… Não sabia.

Lembraria sempre do quanto Marina saiu arrasada de seu quarto. E lembraria sempre do quanto foi esquisita a sensação dentro de si. Havia sido ótimo ouvir que ela estava apaixonada, que preferia Nic a todas as outras que beijava pela escola, mas de alguma maneira, ainda não tinha certeza. E não era por nada, é que não tinha certeza mesmo, nunca tinha ficado nem com um garoto, não se conhecia bem, não sabia o que queria, enquanto Marina já parecia ter certeza de todas as coisas. Não parecia certo atrapalhar a certeza dela com a sua indecisão. Podia ser que estivesse apaixonada por ela, ou podia ser apenas amor de amiga, quem poderia lhe explicar? Ninguém pôde. Diante da sua decisão, melhor, de sua indecisão, Marina decidiu manter distância, ao menos por um tempo, seria bom para elas duas separar os sentimentos e Nic concordou.

Quando mudaram de escola no ensino médio, foram para salas diferentes. E enquanto Marina era um fenômeno de popularidade, Nic preferia a discrição, preferia ficar sozinha consigo mesma e apesar de ter feito novos amigos, seus olhos ainda procuravam por Marina em todos os intervalos. Foi quando decidiu falar com ela e pedi-la de volta. Podiam ser amigas outra vez? Sentia falta, sentia saudade e Marina a abraçou forte e disse que a amava, que também sentia falta, que estava na hora de se reconectarem.

E foi assim que elas seguiram, com quinze anos Nic teve seu primeiro namorado, enquanto Marina desfilava com sua segunda namorada, tudo parecia controlado e no lugar, a parte algumas crises de ciúmes que era difícil para os pares entenderem. Nic era possessiva com Marina, tinha ciúmes das amigas, da namorada, ciúmes até da irmã de Marina e ela parecia se divertir com as cenas. Quem olhava de fora tinha certeza que elas eram o casal entre os quatro, as mãos dadas involuntárias condenavam, os olhos nos olhos durante as conversas, isso nunca tinha mudado, as mãos de Nic viviam em cima de Marina. Ela era a sua morena, a sua metade e ninguém tinha mais território dentro delas do que elas mesmas uma pela outra. Isso gerou brigas e separações para ambos os lados durante a adolescência inteira, até que, quando entraram na faculdade, algo mexeu nesta equação.

Valentina, uma das primas de Nic que havia chegado da Itália. Ela era dois anos mais velha, mais experiente e cafajeste a um ponto que Nic jamais achou que uma mulher poderia ser e assim que ela colocou os olhos em Marina, decidiu que iria ficar com ela. E ficou, na festa de aniversário de Nic, depois ficou num final de semana na praia, ficou numa festa de faculdade, não era nada sério, mas era algo que deixava Nic extremamente irritada. E deveria ser, porque desde o começo, apesar da placa de nada sério e da visível ninfomania de Valentina, Nic sabia que seria ela quem tiraria Marina de suas mãos definitivamente. Ela lhe irritava, ria da sua heteronormalidade, saíam juntas e ela ficava com tantas garotas conseguia e provocava Nic, perguntava se ela tinha certeza que não gostava. E então, havia essa coisa da certeza, talvez se irritasse tanto com Valentina porque no fundo, ela tinha razão, Nic não tinha certeza se de fato não gostava de mulheres e quanto mais lhe pressionavam a respeito disso, menos ela se abria a provar, era uma situação sufocante e muito desagradável.

Se fechou totalmente neste período e quando Valentina e Marina começaram a namorar sério, Nic ficou depressiva de verdade. Eram vários fatores, não queria Marina namorando com uma cafajeste, sabia muito bem da reputação de Valentina, não queria ela se afastando de si, não queria ser excluída dos programas, não queria… Marina namorando. Outra pessoa que não fosse si mesma. Foi quando enfim, quase dez anos depois, Nic entendeu que estava de fato, apaixonada por Marina. Que queria ficar com ela, namorar com ela, fazer tudo direitinho, mas então, parecia tarde demais. Seria tarde demais? As coisas agora eram mais complicadas, porque não era tirar Marina de alguma menina que ela estava beijando na escola, era tirá-la de uma namorada, firme e que parecia ter mudado. Nic teve certeza, mas ainda tinha dúvidas e apesar de todo mundo de sua empresa, de seu hotel, de sua família, todo mundo que conhecia Marina e Nic dizerem que elas precisavam ficar juntas, que se perte