• Tessa Reis

A Cura - A Garota na Rua - Versão EXPLICIT



Mudou de música tão rápido que quase passou o sinal vermelho! Que reação havia sido aquela? Era só uma música, não podia lhe fazer mal ou lhe tirar um pedaço, mas de maneira inconsciente, irracional e ridícula, no fundo ela achava que ouvindo aquela música, que costumava ser sua e dela, outro pedaço do seu coração poderia ser pinçado para fora.


E sentia que tinha ficado tão pouco dele depois do seu término…


Respirou fundo, parando no sinal e desligando o rádio. Três meses e nada melhorava, nem sua ansiedade, nem sua tristeza, havia parado suas atitudes desesperadas para tê-la de volta, mas não lhe ajudou em nada a sentir melhor. Tinha a bloqueado nas redes sociais, bloqueado o número dela, escondido tudo que ainda estava em seu apartamento que era dela ou podia lhe remeter a ela, porém não podia escondê-la em sua mente.


Nem de seus sentimentos.


O sinal abriu e Alisson foi em frente. Dirigindo mais devagar, tentando acalmar seu coração disparado pela inocente música que surgiu no rádio e enquanto respirava fundo e tentava se recompor, foi descomposta outra vez:


Por uma linda garota parada no ponto de ônibus.


E tudo foi muito rápido, teve seus olhos roubados por aquela beleza, sua atenção se perdeu por ela, foi doce, foi denso e então ficou amargo, uma enorme tensão desceu pela sua garganta e quando percebeu, lá estava, um poste havia aparecido do nada!

Pisou no freio, tentou desviar, não daria, então só prendeu a respiração e esperou pelos airbags.


A pancada foi seca. O cinto de segurança a segurou para trás, mas seu pescoço chicoteou para frente e sua testa bateu contra o volante.


E só então os airbags abriram.


— Alisson!


Ah, tinha este outro detalhe também. A garota bonita que lhe roubou a atenção era sua ex-namorada.


Foi uma confusão. Alisson ficou confusa, mas estava bem, na verdade estava mais chocada consigo mesma por ter visto Camila na rua e achado que era outra garota do que o fato de ter batido contra um poste, estava desnorteada por ela, perdida com o que tinha acontecido, alguém disse que ia ligar para a emergência, não queria, estava bem, queria ligar para o guincho e quando conseguiu sair do carro e ver o tamanho do estrago… Era tudo o que precisava, um prejuízo daquele tamanho, não faltava mais nada.


Ah, faltava também Camila não ter ido embora. Ela não podia só ter ido? Fingindo que não lhe conhecia ao invés de ficar para presenciar toda a sua desventura?


— Deixa isso pra depois, Alisson, o problema é que você está machucada, se você não quer chamar a emergência, vem comigo, tem uma farmácia logo ali…

— Eu vou chamar um Uber, só quero ir pra casa.

— Eu posso cuidar disso, eu sou paramédica, esqueceu? Vem aqui comigo.

Tirou seu braço do toque dela.

— Eu não quero que você faça isso!


Camila lhe olhou.


— Por que você está me odiando tanto? Eu não fiz nada pra você.


Havia terminado consigo! Um namoro de quase seis anos, como ela podia achar que não estava fazendo nada? Virou o rosto de lado e sentiu que ia chorar, mas se proibiu, não demonstraria nada perto dela, ela não merecia.

Mas acontecia que Camila costumava ser o amor da sua vida e ler sua alma era coisa que ela fazia todo dia. Pegou sua mão, porque sabia que Alisson não iria lhe afastar, a levou consigo, porque sabia que por dentro era a coisa que mais queria.


— Para, vem comigo.


Aceitou ir. Teria que esperar o guincho de qualquer forma, Camila lhe deixou sentada num banco da praça e foi até a farmácia. Comprou algumas coisas e sentou na sua frente para limpar o corte em sua testa. O susto havia sido maior do que os danos.


— O que aconteceu? Você perdeu a direção? — Ela começou a perguntar enquanto limpava o ferimento.

— Eu… Me distraí.

— Devia estar olhando para alguma garota, eu conheço você muito bem.

— E se eu estivesse olhando, o que você tem com isso?

— Nada, foi só uma observação — Ela respirou fundo — Alisson escuta, a gente não pode continuar assim, não faz o menor sentido. Não é justo com o que a gente viveu.

— Terminar não é justo com o que a gente viveu. Nós terminamos porque eu queria ir pra Austrália e você pra Islândia, olha como isso é ridículo, Camila.

— Nós não terminamos por isso, este foi apenas o último motivo. Eu tenho refletido muito neste tempo que você me cortou da sua vida. Nós passamos seis anos juntas, mas a verdade é que nós estamos juntas desde quando nascemos, nós somos primas, Alisson, a minha vida toda eu tive você por perto, você é todas as minhas primeiras vezes, é todos os meus momentos relevantes. E isto acabou nos tornando uma pessoa ao invés de duas.

— Mas não é isso que tanto se busca em relacionamentos? Se tornar um?

— É, mas não deveria ser. Nós somos duas pessoas, com desejos e vontades diferentes. Você não ter vontade de conhecer a Islândia não deveria me condicionar ao mesmo, porque eu tenho vontades, eu existo e quero realizar os meus sonhos, ainda que alguns deles você considere bobos ou desnecessários. São os meus sonhos, entende? Outra pessoa não deveria mudar o meu destino de férias apenas porque acha que escolheu destino melhor. E isso não é culpa sua, antes que você se defenda. Você agia assim por querer ficar comigo, é uma vontade sua, mas eu acho que em algum momento nossas vontades conflitaram.

— Conflitaram porque hoje eu amo mais você do que você a mim.

— E antes, eu sempre amei mais você do que você me amava. Nós desequilibramos, entende? E o que está desequilibrado, não tem como continuar de pé, é assim que nascem relacionamentos abusivos. Eu amo você demais para que a gente se torne abusiva uma com a outra. Eu quero você bem, quero que seja e que esteja feliz sempre, acaba comigo pensar que você pode não estar feliz por algum motivo. Você é parte de mim, se você não está completamente feliz eu nunca estarei completamente feliz.


Aquilo pegou Alisson de surpresa.


— Você não me odeia?

— É claro que não, você é minha melhor amiga, está me faltando um pedaço ficar sem você.


Alisson ficou quieta, sentindo estranhamente seu coração ficando mais leve. Ela tinha razão. Respirou fundo, perguntou se ela podia comprar um suco, estava meio tonta ainda, ela lhe perguntou se não podiam ir juntas na lanchonete e comer alguma coisa juntas. Achava que podiam sim. Ela a levou até uma lanchonete, pediram algo que costumavam pedir, o suco verde de sempre, o pão com manteiga e nada mais. Conversaram um pouco mais enquanto Alisson a desbloqueava de suas redes sociais, tirava o número dela da restrição, disse que ela podia pegar as coisas que ainda estavam no apartamento em que havia proibido Camila de entrar.


— Mesmo?

— Eu acho que pensar que você estava me odiando era todo o meu problema. Eu amo você, não tenho que me sentir culpada por amar, nós somos mais do que um namoro.

— Nós somos. Posso te levar em casa?


Ela podia. O guincho chegou, Camila pediu um Uber para seu antigo endereço, ainda estava salvo no aplicativo dela como “Casa”, ela lhe disse que era difícil para ela também, que romper não era simples, ela também sofria.


— Mas você está feliz? — Perguntou para ela no carro.

— Felicidade é algo muito relativo. Eu estou me encontrando ainda.


Quis perguntar se ela estava se encontrando sozinha, mas sabia que não deveria. Daí ela respondeu sem precisar de pergunta, abrindo um sorriso.


— Sozinha, está bem? Eu não te deixei por causa de ninguém, só por causa de mim mesma.


Alisson abriu um sorriso, havia sido bom ouvir isso. Subiram para o apartamento que era delas há tanto tempo e foi mesmo difícil para Camila. Voltar àquele lugar, boa parte da sua vida estava ali, não era apenas pegar suas coisas, tinham coisas que ela simplesmente não podia pegar, as lembranças, as risadas, os momentos de felicidade, o amor que elas costumavam fazer pelo apartamento inteiro. Como podia recolher este tipo de coisa?


— Como você consegue continuar aqui? Eu não conseguiria.


Alisson deu de ombros.


— Acho que vai ser mais fácil agora.


Esperava que fosse. Camila pegou suas coisas e se despediram com um longo abraço. E antes que ela se afastasse, no ouvido dela, Alisson confessou baixinho:


— A garota bonita que eu estava olhando era você.


Ela riu.


— Então eu fui a causa de você bater o carro?


— E a causa pela qual eu andava batendo a minha vida. Obrigada. Por todas as coisas.


E assim, ela finalmente partiu.


Foi uma noite atípica. Alisson não foi trabalhar, ficou em casa cuidando de seus machucados, uma das coisas que mais lhe incomodava era o silêncio naquele apartamento. Camila era tudo, menos silenciosa e a briga mais recorrentes delas era por causa disso, Alisson era jornalista e precisava de paz para escrever e Camila nunca lhe dava isso. Ela entrava em casa e já ligava alguma coisa, a tevê, o som, música no celular, qualquer coisa ou todas essas coisas ao mesmo tempo, Alisson ficava louca. E agora sentia falta extrema dessas coisas. Agora mesmo, a tevê estava ligada na sala sem ninguém assistindo, era apenas para fingir que não estava sozinha, que ela ainda estava por ali em algum lugar, estudando na sala ou fazendo o jantar na cozinha.


Mas ela não estava. E o alívio em ouvir que era ok continuar a amando do jeito que amava agora brigava em seu peito com a esperança que ouvir aquelas coisas dela havia acendido. Não era para ela só ir embora dado aquele cenário? Não era para ela elegantemente sair dos seus pensamentos agora que Alisson tinha deixado ela voltar para a sua vida?


Era. Mas como a maioria das coisas envolvendo Camila, aquela também não parecia que seria simples de se decifrar.


Foi dormir com dor de cabeça e com a tevê ligada. Abriu sua janela, morava em Ipanema e gostava da vista. Não tinha vista para o mar, mas gostava de ver as luzes acesas dos prédios e do céu, especialmente numa noite bonita como aquela. Era outra coisa que Camila fazia, a arrastava para as janelas sempre que o céu estava bonito, lhe mostrava o azul sem nuvens, e as nuvens branquinhas e também as obscuras, não eram bonitas também? E lhe fazia reparar nas estrelas e na lua, e na chuva e nos dias de sol. Alisson considerava uma perda total de tempo e lembrar dessas coisas cada dia só lhe mostrava mais que não merecia Camila, era um fato. Ainda que estivesse melhor agora, que seu rompimento tivesse lhe transformado, há como anular anos de descuido? Não tinha certeza que dava e pensar nisso lhe deu um esquisito alívio que lhe permitiu dormir.


Acordou cedo e era sábado. Pensou sobre o que fazer e era engraçado, não se sentia mais próxima dos seus amigos. Eram amigos seus e de Camila que majoritariamente tomaram o lado dela e na mente deles isso devia significar se afastar de Alisson. Era outra coisa que doía bastante. Ok, não precisava deles.


Vestiu um biquíni, preto, que lhe permitisse surfar um pouco, encontrou sua prancha, sua longboard, seu skate preferido empoeirado no quarto da bagunça, short jeans, um agasalho, deu uma olhada em seus longos cabelos loiros, em seus olhos castanhos, o machucado na testa estava seco, não parecia que seria um problema, escolheu uma playlist no celular e desceu ouvindo música. Morava apenas três quarteirões da praia e foi para lá de longboard, testando o equilíbrio do seu corpo, a aderência aos seus tênis brancos, fez uma nota mental sobre lavar aqueles tênis, há quanto tempo não cuidava deles? O dia estava bonito, mas estava esquisito. Claro, mas tinha nuvens, o sol tocava, mas estava gelado. Era seu mesmo estado de espírito, se perguntou se estava com poderes de manobrar o tempo. Alcançou a praia em alguns minutos e então não soube mais o que fazer.


O que tinha ido fazer ali?


Decidiu tirar a roupa para entrar no mar. Despiu-se, tirou os fones do ouvido e então… Bem, cravou sua longboard na areia e se sentou no calçadão, perdendo os olhos pelo mar azul. O primeiro beijo delas tinha sido no mar. Eram meninas ainda, Alisson era um pouquinho mais velha, meses de diferença, a família alugou uma casa de praia em Arraial do Cabo e elas com treze e quatorze anos, só queriam avançar limites, mas era impossível com tanta gente por perto. Então Camila havia a arrastado para o mar com uma prancha, apenas elas duas e quando estavam longe o suficiente, elas começaram a ficar mais perto e mais perto até que de repente, o beijo aconteceu. Pensava nisso e não tinha remédio que lhe fizesse não sentir saudade. De cada coisa pequena. De cada coisa que não podia ter mais.


Apertou as mãos em ansiedade sem sequer perceber. Estava arrepiando em sua própria pele, arranhando os próprios sentimentos, quando ela iria embora? Quando Alisson seria livre para simplesmente ir em frente?


— Alisson? Ei, Alisson?


Não ouviu. E então a moça se abaixou e tocou em seu ombro, suave, mas Alisson levou um susto enorme. Um susto enorme e engraçado pelo sorriso que ela deu.


— Calma, oi, está tudo bem com você?


Alisson respirou fundo, olhando para ela. Tinha sido arrancada de seus pensamentos e estava tão distante que seu coração acelerou quando foi puxada de volta.


— Bia?

— Ao menos você lembra o meu nome — Ela respondeu sorrindo, abaixada no calçadão para lhe olhar nos olhos. Morena, cabelos longos castanhos, o sorriso mais franco e bonito da vida, era assim na faculdade, ela distribuía sorrisos gratuitos por onde quer que passasse — Ei, faz muito tempo, eu não ganho nenhum abraço?


Ganhava. Alisson abriu um sorriso e a abraçou, muito apertado, bem demorado, eram os abraços de Bia, apertados e demorados.


— Faz tempo pra caramba mesmo, que bom rever você! Achei que não morava mais por aqui.

— Eu não morava, passei dois anos morando na Irlanda, mas já deu, estou aqui de volta — Sentou ao seu lado.


Ela era bonita… Era um pensamento recorrente que roubava a atenção de Alisson durante as aulas, o quanto Bia era bonita. E essas desatenções geralmente causavam discussões em casa, porque não sabia bem como Camila fazia, mas ela sabia de tudo. Ah sim, o poder de ler os seus pensamentos, ela tinha.


— Eu não sabia que tinha voltado.

— A gente perdeu contato pelo caminho, né? Coisas de faculdade, a gente jura que não vai deixar de estar na vida dos colegas, mas o afastamento acontece, é muito natural.

— Ainda mais quando a amiguinha muda para Belfast.

— É, ainda mais nesses casos — Ela respondeu sorrindo — Mas eu voltei tem pouco tempo, vai fazer duas semanas ainda. Eu perguntei de você para o pessoal da faculdade.

— Perguntou de mim?

— Você sabe da nossa relação diferente, não é? Eu não esqueço você, Alisson, a gente sempre foi tão… Próximas, em todas as coisas.


Era verdade. Bia era sua parceira de trabalho preferida, eram um dupla o tempo todo.


— Como você está? Como foi na Irlanda?

— Ah, foi tudo bem. Você sabe porque eu fui para lá, né?

— Breena, a irlandesa, eu me lembro. Deu certo?

— Deu o que tinha que dar, eu cheguei à conclusão. Ela é linda, é uma pessoa maravilhosa, a gente se divertiu demais nesses dois anos e fomos muito felizes. Mas de repente eu acordei um dia e… Não sei, não fazia mais sentido. Eu estava com saudades de casa, desse calçadão, dessa praia maravilhosa, saudade de falar português, de ouvir o nosso sotaque e ok, nós duas estávamos muito bem, mas… Faltava. Eu não sei, eu só sei que estar bem como ela não foi suficiente, aquela paixão toda do namoro virtual que toma forma na vida real esfriou, entramos na fase da amizade colorida e o sexo estava meio sem graça. É muita coisa para se abrir mão só para manter um relacionamento bom, mas que já é mais amizade do que paixão. Estou fazendo sentido ou só parecendo uma desalmada sem coração?


Alisson riu alto, há quanto tempo não ria assim? Só Bia mesmo.


— Está fazendo sentido. E também parece que seu coração é bem controlado, mas não parece desalmada. Pelo contrário, tem que ter muita alma e respeitá-la para tomar uma decisão assim baseada nos fatos que você me expôs.

— Então, mas ela não entendeu assim. Ficou extremamente magoada, disse que sabia que as coisas tinham mudado, mas que aquela nossa relação também era amorosa, que eu ia fazer falta. Ela me faz falta, mas há outras coisas que me fazem falta também e quando pesei todas essas coisas, o resultado foi egoísta e eu decidi voltar. Não tem fórmula mágica para relacionamentos, não é fada?


Alisson sorriu. Ela lhe chamava de fada, o que era bem engraçado porque Alisson se via sempre tão brusca com as coisas que o último substantivo que pensaria para si mesma era algo tão delicado quanto fada.


— É tudo bem complicado mesmo.

— Mas não para você, né. Como está a Camila? Vamos, me conta, já casaram? Vocês estavam quase casando quando eu viajei, não estavam?


Alisson respirou fundo.


— A gente estava — Tinha planejado pedir Camila em casamento na Austrália — Mas algumas coisas… Saíram do esperado.

Bia a olhou surpresa.

— Vocês…?

— Terminamos. Tem uns meses já.


Conversaram um pouco sobre isso. Alisson não sabia bem o porquê, só precisava falar um pouco do que tinha acontecido. Bia sempre foi uma amiga muito próxima delas duas, frequentava a casa, os mesmos churrascos, as mesmas baladas, era um espírito livre, sempre acompanhada de alguma menina bonita, mas só jurava amor a sua irlandesa. Ela veio ao Brasil uma vez para elas se conhecerem pessoalmente e no próximo passo, Bia se mudou para a Irlanda, era o tipo de coisa que ela fazia, impulsiva, não planejada, sem amarras. Ela era um ser humano livre e totalmente sem amarras. Estavam conversando sobre os relacionamentos das duas que tinham dado errado e de repente:


— Você ainda joga League of Legends?

— O quê? — Perguntou, sem entender muito.

— Você ainda joga? É que está passando o mundial ao vivo naquele quiosque ali da esquina, eu saí de casa para assistir, mas não quero deixar a nossa conversa também.


Alisson riu alto outra vez, ela não tinha mudado nada.


— A gente pode ir lá assistir, eu não sabia que estava tendo mundial.

— E ao vivo! Vem, vamos lá rapidinho, eu te pago um suco de maracujá, fada.


Era o preferido de Alisson. Se vestiu e foi com ela até o tal quiosque, pegaram um lanche e enquanto assistiam o mundial no telão, se perderam falando de milhares de coisas diferentes. Bia não existia. Ela conseguia assistir o mundial, vibrar, ouvir Alisson, lhe dar toda a atenção possível e ainda conseguia se aproximar. Quando ela tinha chegado tão perto? Alisson nunca sabia, ela vivia chegando perto demais, mesmo Alisson namorando sério. Daí ela percebia, se afastava, mas não se desculpava, não era preciso, Alisson não a via de qualquer maneira, que mal poderia fazer?


Bem, desta vez viu. Ela chegando muito perto, a ponto dela rir e dizer que tinha acabado de respirar pó de fada.


— Olha se faz mal.

— Pó de fada? Nada, eu vim da Irlanda, estou vacinada contra seres místicos…


O campeonato entrou pela tarde e elas seguiram naquele quiosque, pediram algo para almoçar, viram as fotos de Bia na Irlanda e do mochilão que ela tinha feito pela Europa antes de voltar, se seguiram nas redes sociais, trocaram telefones e quando o campeonato terminou, já era final de tarde.


— Posso te levar em casa? Eu lembro que é aqui perto.


Alisson olhou bem para ela. Tinha rido tanto que estava cansada.


— Eu te dou uma carona e você me leva em casa, o que você acha?


Ela gargalhou, sabia qual era a carona.


— Parece justo.


Ela pagou a conta e seguiram para o apartamento de Alisson, Alisson empurrando a longboard e Bia de carona na sua frente, ela sempre morria de rir e morria de medo, achava que iriam cair, se esfolar inteiras, mas nunca aconteceu. Ela era equilibrada e corajosa, era o que Alisson mais gostava nela. Pronto, chegaram em seu portão e o sol estava se pondo lindamente no final da rua, dentro do mar.


— Então, estou entregue.

— E eu estou inteira, deu tudo certo — Ela respondeu sorrindo e chegou muito perto de Alisson — Abre o portão, fada.

— O portão?

— Aham, entra um pouco.

— É o meu prédio e você está me convidando para entrar, veja bem — Abriu o portão e então a portaria com ela lhe seguindo de perto.


Tão perto que a porta mal fechou e ela lhe colocou contra a parede.


— Você sabe como eu sou intrometida.

— Eu me lembro.


Ela lhe olhou nos olhos.


— Você sabe o que eu vou fazer. Tem seis anos que eu quero fazer isso.

— Faz agora.

— E se você voar?

— Você não deixa.


Bia a beijou, muito, mas muito gostoso. A beijou pegando o rosto dela com ambas as mãos, a puxando para perto, densamente escorregando sua boca pela dela, sua língua pela dela e as mãos de Alisson ficaram paradas no ar, como que sem saber para onde deveriam ir, sentiu o beijo, seu coração acelerou, sentiu de novo, era gostoso e lentamente, suas mãos caminharam por ela, primeiro pelos seus braços e então, timidamente pela sua cintura, hum, estava gostoso mesmo. A puxou contra o seu corpo e Bia sorriu, era aquela pegada que sempre tinha imaginado que ela tinha, ela tinha, a pegada, o beijo gostoso, o efeito de fada.


Alisson lhe olhou nos olhos e a empurrou para dentro do elevador e então para dentro de seu apartamento, jogou as chaves pelo chão, a pegou no sofá, não deu tempo de chegar no quarto, não precisavam, podiam ficar pelo sofá mesmo.


Fizeram amor até o dia mudar de cor lá fora. Ficou extremamente dourado e então foi clareando e escurecendo ao mesmo tempo, a noite foi caindo e o amor intensificando, a vontade intensificando, foram parar na cama em algum momento e então no chuveiro e o apartamento era todo risadas, não era silêncio, mas também não era a vida que Camila costumava trazer para casa. Era outro tipo de vida.


Perto das dez, quando acabavam de sair do banho, o celular de Alisson estava tocando e era Camila. Ela olhou para o aparelho meio sem saber.


— Atende. Vocês estão de bem, não estão?


Estavam. Atendeu e era ela, num barulho enorme, lhe chamando para ir no barzinho tal, um que frequentavam quando estavam na faculdade, ah, ela estava com o pessoal da faculdade, que estavam com saudades de Alisson, por que ela não vinha?


Olhou para Bia.


— Vai, é claro que você vai.


Disse que ia, ela ficou feliz e Alisson desligou.


— O que foi?

— É que a gente só está de boa desde ontem. É esquisito pra mim. Você já encontrou com o pessoal da faculdade depois que você voltou?

— Ainda não.

— Então vem comigo.

— Alisson…

— De amiga, a gente deixou de ser amiga por que dormiu junto?


Não tinham deixado. Se trocaram, Bia vestiu algo de sua fada e quando os amigos viram que não apenas Alisson tinha vindo, mas que tinha trazido Bia, a festa foi enorme! Eles ficaram felizes mesmo, em revê-las, porque Alisson estava desaparecida também, tinha um tempo e Camila foi a última a cumprimentá-las. Abraçou Bia, feliz em revê-la e abraçou Alisson muito longamente. Elas se olharam, se abraçaram de novo e só então se sentaram na mesa, como as coisas costumavam ser antes, os quase quinze amigos, Bia, Camila e Alisson entre as duas, sempre foi assim.


A noite foi muito agradável, com um clima de reencontro, Alisson monitorou seu coração o tempo todo perto de Camila e Bia foi a Bia de sempre, pondo suas mãos em cima de Alisson, era algo que ela sempre fazia, porém Alisson nunca tinha sentido. Mesmo. Só sabia que as mãos dela estavam ali porque Camila reclamava às vezes. Mas desta vez estava sentindo e as mãos dela estavam lhe causando coisas diferentes. Vontade de também estar a tocando, mas não podia. Em respeito a Camila. E então chegou uma moça que elas não conheciam e Alisson percebeu do que se tratava. Era alguém que Camila estava acontecendo e foi esquisito. Ficou triste por dentro. Mas não durou muito. Na hora de ir embora pediu para Bia ir dormir consigo e ela respondeu dizendo que:


— A gente vai ter que jogar League, está bem?


Está bem, podia ser assim. Se despediram, longos abraços, longos olhares, Camila também a respeitou diante da moça do Tinder.


— Eu não acredito que você está arrumando encontros no Tinder — Disse para ela num tom descontraído enquanto Bia seguia conversando com os garotas e Alisson esperava pelo Uber delas.

— Então, a gente começou a beijar na infância ainda, depois começamos a namorar adolescentes, eu não sei bem como é que se flerta, como é que se conhece pessoas.

— Entendi, está perdoada. Ela parece ser bem legal ao menos.

— Parece, mas sei lá. Posso ser ex invasiva?

— O que foi?

— Por que a Bia está usando as suas roupas?

— Ah, a gente se cruzou na praia, passamos o dia vendo o mundial de LOL, ela estava no apartamento quando você ligou e precisou trocar de roupa.

— Você jura pra mim, de dedinho, que ela não pulou em cima de você assim que soube do nosso término?


Alisson abriu um sorriso entregador. E Camila procurou Bia com os olhos.


— Bia, você não vale um desconto do Uber, sabia?

— O que foi, doutora? — Ela perguntou sorrindo.

— Vem aqui pra gente conversar rapidinho.


Bia veio e Camila foi tudo, menos a ex neurótica, só queria dizer na cara das duas que sabia, que assim que desocupasse Alisson, lá estaria Bia pronta para o bote.


— Nem teve bote, foi um negócio que assim, sei lá, aconteceu.

— Sei, sei bem como essas coisas acontecem.

— Tudo bem pra você?

— Ao menos eu te conheço. Eu sempre morri de medo da Alisson cair nas mãos de quem eu não conheço, não gosto, não vou conseguir conviver…

— Ei, eu não caio nas mãos de ninguém, está bem?

— Eu sei que não, mas você é uma fada mesmo. Eu sei do que ela fala. Você é boa demais. Não pode se envolver com alguém que não merece você.


Alisson ficou olhando para ela.


— Você acha tudo isso mesmo? Porque hoje de manhã eu estava analisando o quanto eu fui ruim pra você.

— Se você fosse tão ruim, não teríamos dado certo tanto tempo. E nem eu teria passado quatro anos do nosso namoro defendendo você dessa Bia aí…


O Uber chegou, elas se despediram e Bia e Alisson começaram os beijos ainda no carro. Estava ficando tão gostoso e Alisson não via a hora. De chegar no apartamento, de ir pra cama outra vez, só tinha uma questão no meio do seu plano...


League of Legends.


Chegaram aos beijos e fizeram amor no sofá outra vez e depois do amor, lá pelas três da manhã, lá estavam, jogando League of Legends, só de lingerie e foi divertido demais! Há quanto tempo Alisson não se divertia assim? Fizeram pipoca, nachos, tacos, todo tipo de lanche e sequer viram a hora passar. Quando Alisson percebeu, já estava amanhecendo e elas indo para cama ainda, para fazer amor de novo, gostoso, intenso, sem complicações. Por que as coisas eram tão fáceis com Bia?


Eram, apenas eram.


A semana foi intensa. Passaram o domingo juntas mas no final da tarde, Alisson foi levá-la em casa. Tinha que trabalhar no dia seguinte e Bia precisava achar um emprego. Foi corrido, mas se viram todos os dias, fizeram algo todos os dias, dormiram juntas, namoraram no portão, caminharam na praia, jogaram online, saíram com os amigos novamente, mas então o sábado chegou e um storie de Camila com a garota do Tinder deixou Alisson extremamente triste. Ficou olhando para o celular, para o vídeo, o beijo, Bia tinha descido para comprar alguma coisa e quando entrou de volta, lá estava, a lágrima que Alisson não conseguiu ocultar.


— Fada? Ei, o que foi?

— Nada, eu só…


Ela deixou as compras sobre a mesa e se ajoelhou na frente de Alisson.


— Viu o storie da Camila de ontem à noite?


Não respondeu.


— Alisson, você não tem que mentir pra mim, está bem? Eu sei que você viu, sei que ficou triste com isso, qual é o problema? Vocês namoraram, sei lá, desde os treze anos, é normal.

— Não é normal, Bia. Quero dizer, eu estou tão bem com você, já estou até insegura sobre quando você vai me deixar, você sempre deixa todo mundo…


Bia riu e a beijou, muito carinhosa, muito deliciosa, por que ela tinha que ser deliciosa daquele jeito?


— Eu não estou pensando em te deixar, nem um pouquinho. Te esperei por seis anos, Alisson, não vai ser assim, está bem?


Olhou para ela. Deitou a cabeça dela em seu colo, cheirou seus cabelos com carinho.


— Eu gostei de ouvir isso.

— Então fada, qual o problema?

— Eu não devia mais sentir assim pela Camila.

— Alisson, presta atenção... Você e a Camila construíram uma vida juntas, uma vida mesmo, seis anos de namoro oficial, mais quatro de namoro adolescente não irão desparecer em meses, os sentimentos não funcionam assim. Não é porque a gente está ficando, não é porque está gostoso que a feiticeira da Camila será automaticamente eliminada do jogo — Disse, fazendo-a rir, Bia sempre chamava Camila de feiticeira — Você abriu uma janelinha no seu coração e eu passei para dentro, mas é só um espacinho mesmo, por enquanto. Eu voltei da Irlanda com um espaço maior, então você já está mais confortável dentro de mim, mas você… É todos os dias, meu bem. Todos os dias você vai deixar a Camila ir embora um pouquinho mais e eu vou ficar mais confortável dentro de você. O que você sente por mim terá mais espaço e as coisas negativas que ela te causa aos poucos irão reduzindo, até apenas ficarem as coisas boas, num cantinho onde caiba nós duas sem problema nenhum. A cura que você procura não sou eu, Alisson e também não é a Camila, não é ninguém. É você mesma.


Alisson pensou consigo, parecia fazer total sentido.


Abraçou Bia muito forte, não fazendo ideia de quando Camila iria embora, mas extremamente grata por Bia estar ficando. E foi quando finalmente algo mudou na sua mente e “ir embora” perdeu o peso, não podia ser mais importante, ir embora nunca seria mais importante do que ficar. Trocou o ir embora por permanência e o peso de tudo evaporou no ar feito pó de fada.


Não havia cura. E nem precisava dela.

Notas do Capítulo:

Olá moças!


"A Cura", versão sem cortes foi finalmente entregue!


Então, meninas, mais uma versão EXPLICIT dos contos postados no Desafio de 1.000 palavras no site Lettera e confesso que este conto em si é meio diferente dos outros 3 porque não sei bem o que ele é ou se podia se tornar algo mais. Para Bali e Mediterrâneo (que entra na fila para postagens com uma versão sem cortes que, olha, acho que é a minha versão preferida depois de Bali haha), eu vejo claramente a possibilidade de desenvolver dois bons livros com essas histórias, inclusive, Bali já está sendo escrito agora e está bem adiantado depois de um surto criativo que me atingiu no final de semana ♥


Para Amaranthine eu vejo algo diferente. Talvez seja uma história que pinte aqui pelo site mesmo, mais curta que as outras duas anteriores, mas para A Cura, eu realmente não sei bem.


É um texto que me agrada muito, com muito amor e carinho envolvido, mas que eu não sei se teria uma continuação ou se é apenas uma oneshot, uma história de um capítulo só. Então entrego este texto para vocês com muito amor e carinho e vocês me contam o que acham, tá?


Beijinhos e, amanhã tem "Água Salgada", tem capítulo novo de Sal!


Beijos!


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