Capítulo Extra Delirium: A Refém

31/3/2019

 

Era uma tarde muito quente. Diana estava tentando se lembrar da última vez que tinha passado tanto calor na vida, mas nem conseguia. Estava de vidros fechados, ar-condicionado no máximo, os óculos escuros refletiam o calor subindo pelo asfalto do Rio de Janeiro e ela estava suando. Suando muito, sentia sua camiseta úmida, o jeans criando calor contra o banco do carro, queimando a sua pele, sua cabeça estava reclamando desde quando acordou e agora a dor estava se convertendo em pontadas agudas cada vez mais fortes. Deveria ser o estresse, a correria, não estava conseguindo dormir bem fazia uns dias e aparentemente seu corpo havia decidido reclamar.

 

— Mamãe, o filme é hoje, lembra? A gente pode ir hoje? Você disse que podia!

 

Daí abriu um sorriso. Estava quente, estava com dor, mas não tinha como não sorrir para sua princesa tão empolgada no banco de trás. Os cabelos cacheados, o sorriso banguela mais lindo do mundo, os olhos verdes iguaizinhos os de Rhian, isso ainda lhe deixava sem ar, os olhos de sua Behati foram um presente, ela ter nascido tão parecida com Rhian não podia ser encarado de outra forma, seu bebê seguia sendo o seu grande presente na vida.

 

— Nós vamos, bebê, só preciso confirmar o horário que a sua mãe vai sair e… — Diana parou de falar, tinha subido um viaduto, mas agora…

 

Tudo estava parado.

 

Estranhamente parado.

 

— Mamãe?

A sua mãe. Só vou confirmar a agenda dela e nós vamos no cinema sim. Você colocou a roupa de banho na mochila, filha? Você tem… — E uma pontada intensa estremeceu a sua mente! Tão forte que lhe fez fechar os olhos e segurar a respiração por uns segundos até aquele nó se desfazer e aliviar a bolha de dor. Que coisa estava acontecendo? Era na sua cabeça?

— Mamãe? — Behati soltou-se do cinto do booster e se aproximou dela — Mamãe, você está bem?

— O cinto, Behati. Você não pode…

 

Aconteceu em um segundo.

 

E antes de terminar aquela frase, Diana já estava soltando o seu próprio cinto e deitando sobre sua filha no banco de trás, a protegendo com o seu corpo enquanto sua mente apertava, apertava e parecia que ia parar!

 

— Mamãe!

— Fica calma, filha, fica calma, fecha estes olhos lindos pra mamãe, só vai levar um instante…

 

E outra rajada de tiros passou por cima delas, estilhaçando o vidro da frente, destruindo o vidro de trás e os sons de tiros pareceram se multiplicar em segundos, de repente estavam por todos os lados e quando Diana conseguiu levar Behati para o espaço entre os bancos, um som de explosão fez o carro vibrar! Diana ergueu os olhos, tentando entender o que estava acontecendo, mas tudo o que viu foi o carro da frente se incendiando bem diante dos seus olhos.

 

— Mamãe! Eu estou com medo, eu estou com medo!

 

Diana sentiu outra fisgada na sua mente e já sabia o que estava acontecendo. Apertou os dentes, se recusando a apagar, arrancou os óculos escuros e buscou algo embaixo do banco.

 

— Você já fechou os olhos, meu amor?

— Já, mamãe, mas medo, eu estou com medo!

— Não precisa ter medo — Diana olhou de um lado, olhou do outro, entendeu. Estavam na linha vermelha. Que coisa estava fazendo na linha vermelha? Estava indo levar sua filha para a escola, como é que tinha ido parar ali?

 

Tinha ido parar na linha vermelha e bem no meio de um tiroteio confuso que estava tentando entender. E enquanto entendia, deixou seu instinto lhe proteger. Pegou sua arma, porque precisavam sair daquele carro imediatamente.

 

— Filha, eu preciso que você segure em mim e não me solte, tudo bem?

Aham — Ela se agarrou em Diana, chorando, com o coração todo disparado.

 

Outra fisgada e Diana apertou a arma em sua mão, gritando com o monstro na sua mente! Sua cabeça estava apertando em marteladas profundas e Diana sabia que não podia apagar. Sua filha. Precisava tirar sua filha daquele lugar antes que o carro explodisse. Olhou novamente, sentindo sua cabeça criando milhares de bolhas de dor sem dó nenhuma, ouviu os carros de polícia, estavam vindo da entrada do viaduto enquanto homens armados atiravam da saída e, o fogo e o pânico se espalhavam pelos carros e pelas pessoas.

 

A polícia estava na entrada. Era para lá que precisava ir.

 

Abriu a porta e desceu com sua filha, a protegendo com o seu próprio corpo, se mantendo abaixada junto ao veículo, usando a porta como escudo contra os atiradores, ajudava, mas o fogo era cruzado, vinte metros. Era o que a separava da entrada do viaduto.

 

Mamãe!

— Calma, Behati, fica calma, filha e não abra os olhos, ok?

— Não vou abrir!

 

Eram quatorze homens, contou visualmente, cinco policiais, nove atiradores, vinte metros em exposição, ouviu que o reforço estava chegando, mas não tinha este tempo de espera, não com sua filha em seus braços, precisaria dar um jeito naquela conta.

Diana destravou sua arma e com sua filha no colo, protegida pelo seu corpo, olhou pela lateral da porta, eram três homens no corredor entre a terceira linha de carros e a contenção do viaduto, os homens estavam atrás de uma cortina de fogo e fumaça atirando e... Buscando reféns?

 

Eles estavam buscando reféns.

 

Um dos homens atravessou a cortina de fogo e abriu a porta de um dos carros, tentando violentamente arrancar a moça do volante, Diana engatilhou e, atirou, dez metros de distância, a bala viajou e atingiu o homem no joelho sem que ele sequer fizesse ideia. O homem gritou e caiu, perdendo a arma, segurando o joelho.

 

— Ei! Fora do carro, agora, agora!

 

A moça que estava no carro saiu, chorando trêmula, desesperada.

 

— Abaixa! Abaixa e vem pra cá, agora, agora! — Gritou enquanto sua filha chorava.

— Mamãe, mamãe…

— Calma, meu bem, está tudo bem, fique de olhos fechados — A garota do outro carro chegou até ela e Diana a mandou para trás do seu carro, a seguindo com Behati nos braços, se afastando do ponto de explosão porque iria explodir, o cheiro era inconfundível, as pessoas estavam descendo de seus veículos, apavoradas, mas Diana não podia se dar ao luxo. Outro apertão em sua mente, outra mordida voraz, sua visão ficando turva, apertando, querendo lhe apagar! Não podia apagar, não podia…!

 

— Mamãe, pra casa, pra casa…

 

A voz de sua filha outra vez.

 

Voltou, não apagou, oito homens, dezoito metros e, balas e balas atingiram o carro que estava usando como escudo enquanto segurou firmemente sua filha contra o peito.

 

Meu Deus, Meu Deus! — A moça estava gritando mais do que Behati.

— Shsssssss, isso não adianta! — Diana se posicionou, olhou para o lado novamente e, haviam mais dois em sua linha de fuga, ajustou sua mira, sua mente e, homem ao chão novamente! A bala entrou na parte de trás do joelho derrubando-o imediatamente — Agora, vai, vai! — Carregou sua filha outra vez, buscando proteção no próximo carro, a moça a seguiu, chorando sem parar, Diana bateu na porta do carro — Abre, vamos, vamos!

 

Alguém abriu a porta, era um homem.

 

— Desce, estão buscando reféns, você tem que sair! — E enquanto dizia isso, outro tremor atingiu o solo seguido por um barulho estrondoso. Olhou para trás para ver o que era e... — Isis vai me matar.

 

Porque o carro dela tinha acabado de explodir. Diana olhou por fora da porta, fogo e calor se misturavam no ar, respirou fundo e, atirou novamente, mais certeira impossível, o tiro pegou na coxa e outro homem desmontou.

 

— Alguém mais está atirando! — Era um dos policiais do outro lado do cerco.

— Agente Ferraz, Polícia Federal do Brasil!

— Identificação!

— É um fogo cruzado e você me pede identificação? Eu estou com a minha filha aqui!

— Mamãe, mamãe!

— Identificação!

— Aqui está a minha identificação! — Diana pôs o corpo para fora e sem soltar sua filha, atirou novamente, acertando a linha dos joelhos duplamente com um único tiro, outro homem ao chão — Agora eu preciso que alguém proteja a minha filha!

 

Mas ninguém veio, estavam bem no meio de um tiroteio, não havia um policial querendo bancar o herói, ainda mais quando estavam em desvantagem. Incluindo Diana. Outro aperto em sua mente e o viaduto desapareceu por um instante, tudo ficou negro e embaçado, precisava segurar, não podia apagar, deixar vencer...! Tudo de volta, o som dos tiros, os gritos de desespero, o som do fogo, sua filha, sua filha estava chorando em seus braços. Diana voltou. O suor escorrendo pelo seu corpo, molhando seus cabelos, o asfalto tão quente que estava queimando a sua pele, mudou de lado, tinha mais três balas, sem soltar sua filha, olhou, olhou e atirou novamente, bala na coxa, outro homem a menos.

 

— Direita livre para avançar! — Alguém gritou muito distantemente.

 

Quinze metros, dez metros, pegou sua menina no colo e avançou se escondendo no canto da ponte e vendo rajadas de metralhadora passando a centímetros de si!

 

— Olhos fechados, bebê, olhos fechados pra mamãe, está bem?

— Olhos fechados, olhos fechados — Ela repetia, chorando e com o coração disparado.

— Não podemos ver por causa do fogo!

— A visão não é o único sentido a ser usado, sabia?

 

Diana também ouvia muito bem. O problema era o barulho dentro da sua própria mente. Respirou fundo, duas balas, dez metros, cinco homens.

 

Mandou os outros correrem, se esconderem onde ela estava enquanto batia em outro carro e dizia para descerem, achou outra mulher desesperada, a protegeu com a porta do carro e disse para ela avançar, para trás do próximo veículo, as portas abertas formavam um escudo, estavam segurando as balas naquele corredor, Diana correu para o próximo carro e rajadas passaram do seu lado, havia um outro homem obstruindo a passagem que tinha aberto. Virou-se, se posicionou, atirou, mas desta vez ninguém caiu com o seu tiro, uma bala, correu, avançou, oito metros e mais rajadas de tiros passando ao seu lado, rajadas atingindo o carro, as pessoas correndo, sua filha chorando, o monstro gritando e doeu mais forte, mordeu mais fundo, atirou novamente, mas a bala atingiu o carro que lhe protegia e a dor foi intensa, foi imensa, os gritos, os tiros, a voz de sua filha.

 

A voz de sua filha foi tudo o que importou.

 

Diana avançou mais dois metros e então mais dois metros, só faltavam quatro, disse para a sua mente, só faltavam quatro, encontrou outro ponto de proteção natural e sabia que precisava avançar. Sabia porque ia desmaiar e jamais se perdoaria em deixar sua filha sozinha durante um tiroteio aos cinco anos de idade.

 

Apenas quatro metros.

 

Diana podia correr quatro metros. Ainda que não tivesse proteção, seu corpo seria a proteção de sua filha.

 

Saiu de trás da proteção da ponte e alcançou a barreira policial em segundos.

 

Passou para trás das viaturas, o som das sirenes, os gritos, os tiros, as pessoas que tinha tirado dos carros em segurança. Diana caiu, exausta, sem energia, ainda com a filha nos braços e com a mente explodindo em várias partes diferentes. Explodindo tal como o carro que tinha ido pelos ares.

 

— Mamãe? Mamãe!

— Feche os olhos, filha, por favor, feche os olhos pra mamãe…

 

Foi a última coisa que ela disse.

 

— Mulher ferida! Mulher ferida! — E foi a última coisa que ela ouviu.

 

***

 

Acordou, mas era como se sequer tivesse dormido. Rhian sentou-se na cama, na sala de descanso do hospital em que trabalhava e com uma longa respiração, decidiu que era melhor se colocar de pé. Checou o horário, a próxima plantonista já deveria ter chegado, ela sempre chegava antes. Foi até a cafeteira, se serviu um café, olhou pela janela vendo a cidade começando a anoitecer. Era inverno, anoitecia mais cedo.

 

E sua alma parecia estar muito bem ajustada às mudanças sazonais.

 

Não havia como mensurar o quanto estava sendo difícil desde o tiroteio, onde por motivo nenhum, Diana e sua filha haviam ido parar durante um dia de semana comum no Rio de Janeiro. Os jornais tinham sido particularmente cruéis sobre a sorte de Rhian e seguiram a linha de “sobrevivente de sequestro tem família atingida por tiroteio” e todos os detalhes de seu sequestro e as acusações que sofreu voltaram à tona em reportagens extras detalhadas sobre tudo o que havia acontecido há sete anos. Ficou dias sem acessar a internet, dias sem que a tevê fosse ligada porque não queria ver, não queria ler, não queria ter a sua vida vasculhada e exposta novamente enquanto sua família sofria tanto por tudo o que havia acontecido.

 

O tiroteio havia acontecido há 6 meses. Diana estava indo levar Behati para a escola, quando errou o caminho e acabou indo parar na linha vermelha, no exato momento em que traficantes de um morro próximo tinham iniciado uma retaliação. Sete membros da facção tinham sido executados pela polícia uma semana antes e eles pretendiam executar sete pessoas aleatórias como resposta. No final, haviam conseguido assassinar duas pessoas em meio ao caos, sendo que uma dessas pessoas havia sido atingida pela própria polícia. Os feridos foram muitos e presos foram poucos, inclusive, presos mesmo apenas quatro dos homens, os quatro atingidos por Diana Ferraz.

 

Apostas que isso poderia gerar retaliações? Todas, principalmente quando a imprensa não perdoava e apenas falava e falava o nome de Diana repetidamente em todas as reportagens. Principalmente quando a Polícia Federal decidia condecorá-la por bravura e por ter salvado diretamente sete pessoas e mais vinte e uma de maneira indireta por sua intervenção. Principalmente quando ela não achava que merecia qualquer condecoração porque no final, só tinha colocado sua filha em risco por uma distração.

 

Rhian não acreditava na distração e menos ainda a culpava por qualquer coisa que fosse, a parte todo e qualquer motivo, Diana tinha salvado Behati, ponto, nada mudaria sua cabeça sobre isso. E lhe doía muito porque o principal discurso de culpa vinha da própria Diana.

 

Pegou sua bolsa e quando colocou o pé para fora da sala, a outra plantonista.

 

— Juro que não vim te fazer mudar de ideia — Ela lhe disse sorrindo, lhe abraçando toda carinhosa porque era a Doutora Ferraz.

 

Ariana Ferraz.

 

— Ainda bem que não veio — Rhian sorriu de volta, com aqueles olhos verdes cansados, os cabelos enrolados presos num rabo de cavalo.

— Não vim não. Só cheguei mais cedo para levar a minha melhor amiga para um café, será que dá tempo? Behati sai em quarenta minutos.

— Eu sempre tenho tempo para você.

 

Sempre teria tempo para Ariana, sempre.

 

Foram para uma cantina em frente ao hospital, comer alguma coisa, já era inverno no Rio e estava frio, estava um clima que Rhian não gostava, para o qual não havia sido moldada, que não lhe fazia sentir-se em casa. Adorava o Rio de Janeiro, mas odiava os seus invernos.

 

— Isis está preocupada, Rhian.

— Eu estou preocupada, Ariana. Mas não faço ideia do que fazer, eu estou perdendo a minha esposa todos os dias e não consigo fazer nada. Aquele tiroteio acabou, mas ela segue nele. Aquela bala bateu no carro, voltou para ela e não pegou apenas no abdômen, cravou na alma também, no ego dela e eu não faço ideia de como extrair essa bala, Ariana. Eu não faço ideia de como fechar essa ferida.

 

— Rhian... — Ariana pegou a mão dela sobre a mesa.

 

— Ela é minha mulher, é o amor da minha vida, ela precisa de mim, você entende que ela precisa de mim? Que eu preciso fazer alguma coisa para tentar trazer a minha esposa de volta? Eu tenho que tentar, Ariana. Eu não sei ainda o que fazer, mas eu sei que preciso tentar.

— Você tem que tentar. Mas eu quero que você tenha em mente que esta aqui é a sua cidade, que este aqui é o seu hospital, você é a nossa melhor diagnosticadora, Rhian, você tem um diferencial e ter um diferencial em um hospital, é sinônimo de esperança aos pacientes. Você é importante aqui!

— Ariana, eu adotei o Rio de Janeiro como minha cidade, mas nunca vai ser a cidade da Diana. Ela está aqui, mas não quer mais estar aqui e eu não posso culpá-la. Ela saiu para deixar a nossa filha na escola e acabou no meio de um tiroteio, acontece todo dia? Não é bem assim, eu sei, mas às vezes também é e nós ficamos assim, sem saber direito o que pode acontecer cada vez que andamos na rua. Olha para este país, para este estado, este governo. Eu também não me sinto bem-vinda aqui ultimamente, mas eu ainda quero estar aqui. Coisa que ela não quer mais e eu sinceramente, não sei o que fazer. Eu estou pensando, em sei lá, eu peguei férias, eu pensei em passar um tempo com ela e a Behati em Búzios, pode ser que isso ajude, que ela volte a ser ela mesma e entenda que eu compreendo que esta cidade não é o melhor lugar, mas é onde nós moramos, é onde a nossa filha nasceu.

— Búzios, Rhian? Tipo, apenas Búzios?

— O que tem de errado com Búzios? Eu adoro aquele lugar.

— Eu também adoro, mas você já tentou isso uns dois finais de semana atrás. Talvez ela precise... Sei lá. Vocês duas não parecem mais com vocês mesmas.

 

Rhian pensou um pouco consigo mesma. Fazia sentido. Tinha um tempo que também não se sentia ela mesma.

 

— Como estão as coisas com a Isis?

— Bem, Isis é irredutível. Depois da última tentativa, ela me proibiu de tentar de novo, acha que estamos colocando a minha saúde em risco, que se o bebê não aconteceu antes, não será agora que vai acontecer. Ela desistiu por nós duas.

— E você vai aceitar assim?

— Tanto quanto você está aceitando a depressão da Diana. Ela vai ter que aceitar, Rhian.

 

Rhian apertou os olhos.

 

— Ela vai ter que aceitar...?

 

Ariana apenas sorriu, não era hora de falar daquele assunto.

 

— Ela vai ter que aceitar, a decisão não é apenas dela. Escuta, Rhian, você tem que resolver tudo, está bem?

 

Rhian agarrou a mão dela.

 

— Eu amo a minha esposa, Ariana, não sei como vamos resolver, só sei que vou resolver e que vou ter a minha mulher de volta. Eu não vou desistir da Diana.

 

Não iria mesmo. Se despediu de sua melhor amiga e partiu para buscar sua filha na escola.

 

Chegou e era sempre um desafio encontrar Behati na hora da saída, ela estava sempre correndo, brincando, aprontando, era sua filha, não lhe surpreendia que ela fosse tão elétrica. Pronto, achou, ali estava sua coisa linda que correu em sua direção e saltou no seu pescoço toda sorridente.

 

— Eu achei que a outra mamãe vinha — Ela confessou com uma dorzinha — Mas eu estou feliz que veio você, mamãe!

 

Rhian a cheirou, sorrindo, a ajustando em seu colo.

 

— A mamãe não pôde vir, mas — Buscou aqueles olhos lindos — Nós vamos fazer uma surpresa pra ela! O que você acha? Podemos fazer o jantar nós duas.

— Eu faço, mamãe! A gente pode comprar flores? Mamãe adora flores, ela vai ficar feliz...

 

Rhian beijou os cabelos dela, enrolados, iguais ao seu. Behati sempre queria o seu cabelo igual ao da mamãe Rhian enquanto preferia se vestir igual à mamãe Diana, era a coisa mais linda. A colocou no carro e foram para o supermercado, comprou algumas coisinhas, as habilidades na cozinha de Rhian Kier tinham aumentado nos últimos anos, mas o prato preferido de sua esposa nunca mudava. Comprou mais algumas coisas, olhou seu celular, tinha enviado uma mensagem para Diana há dez horas e ela sequer tinha visualizado, ou ativado a internet. Sua ansiedade andava a fazendo de refém tanto quanto a culpa que sentia por ter colocado Behati em perigo. Então diante da banca de flores, olhando para aquele status de visto por último enquanto sua filha escolhia as flores para a mãe, Rhian chorou. Inevitavelmente, o choro apenas veio porque tudo o que queria era ir para casa, fazer o jantar, pôr sua filha para dormir e ter uma noite de amor com a mulher que amava, mas já fazia tanto tempo que nem sabia. Não fazer amor, isso faziam sempre, apenas... Fazer amor com a sua Diana. Aquela Diana voraz, mordaz, louca de tesão e que deixava Rhian totalmente fora de si.

 

Essa Diana era a que estava ferida, a sua parte mais vivaz. Essa Diana, Rhian não tinha mais.

 

— Mamãe, são essas, olha, estão bonitas não estão?

 

Rhian limpou o rosto e abriu um sorriso.

 

— Estão lindas, bebê, sua mãe vai adorar!

 

Foram pra casa, com o que precisavam para o jantar, com as flores e Rhian sabia que Behati lhe amava e era todinha sua miniatura, mas o quanto aquela criaturinha amava Diana era um absurdo. Para Behati, sua mãe era uma super-heroína, daquelas de cinema, ela amava as mães por igual, Rhian sabia, mas era tão parecida consigo que o tanto que Behati era apaixonada por Diana, era inacreditável. Rhian sempre comparava o amor de Behati por Diana com o que Diana tinha pelo pai, amava pai e mãe igual, mas era apaixonada pelo pai, da mesma forma que Isis era apaixonada pela mãe, o que acabou, paradoxalmente, a afastando de Hanna por tanto tempo. Amor excessivo, era como ela descrevia.

 

Amor excessivo era o amor de Behati por Diana.

 

Subiu para o seu apartamento e assim que abriu a porta:

 

— Mamãe! — Behati saiu correndo e pulou nos braços de Diana, que a pegou no colo sorrindo, abraçando, cheirando sua menina. Ergueu os olhos e viu sua Rhian entrando, com sacolas de supermercado e flores de todas as cores, toda de branco, com aqueles olhos que Diana tanto amava.

— Flores, amor?

 

Rhian sentou ao seu lado no sofá, onde quando abriu a porta, Diana estava deitada, ainda de moletom, com a sala completamente no escuro. Janelas fechadas, tevê desligada, apenas uma luminária acesa que iluminava o livro do qual estava lendo. Toda Luz que Não Podemos Ver. Rhian a beijou, carinhosa, tocando o rosto dela, sentindo seu cheiro.

 

— Sua filha escolheu pra você, não foi, meu amor?

— Eu escolhi! É todas as cores, olha.

— São lindas, bebê — Diana beijou a testa de sua filha e beijou sua esposa outra vez, porque vinte e quatro horas longe dela sempre havia sido demais, mas ultimamente, ficar sem Rhian, que fosse por um pouco, andava doendo quase fisicamente.

 

O que só subia a ansiedade de Diana porque muito claramente sentia que perder sua mulher estava por um fio.

 

— Rhian…

— Escuta, nós vamos fazer o jantar pra você, Behati e eu, não é, filha?

— Nós vamos, mamãe! Vamos fazer macarrão e biscoito! A gente pode fazer biscoito, né, mamãe?

 

Rhian sorriu, tocando os cabelos da filha.

 

— Amor, isso está além das habilidades dessa sua mãe aqui.

 

E Behati ficou triste. E Diana podia estar sofrendo como ainda estava, podia estar perdendo feio para o monstro na sua cabeça, mas ver sua filha triste batia muito mais.

 

— Eu faço os biscoitos com você, está bem? Vamos todas para a cozinha!

 

Behati ficou mais do que empolgada e saltou no pescoço de Diana outra vez, puxando Rhian para perto, feliz demais porque suas duas mães iriam para a cozinha com ela. Olhos nos olhos, os olhos verdes de Rhian dentro dos olhos castanhos de Diana, a tempestade de um lado, o tropical do outro, elas não precisavam falar, elas sabiam tudo uma da outra. Diana estava tentando, Rhian nunca a culparia por não tentar. Não tinha forças quando ficava sozinha, mas com Rhian e Behati por perto, ela sempre se esforçava, levantava, tentava fazer coisas juntas, lutava para se pôr de pé todos os dias e cuidar da filha, cuidar de Rhian, agora que definitivamente estava sem emprego.

 

Havia acontecido algo após o nascimento de Behati. Diana era uma exímia atiradora e a polícia não desistiu de tê-la em seu quadro, fosse como uma atiradora de elite sob demanda e o convite para que saísse da reserva chegava todos os dias. E depois de pensar muito, depois de ouvir Rhian e Isis, Diana decidiu aceitar e se tornou atiradora de elite na Divisão de Sequestros. Ela curtiu, havia um lado seu que gostava das ações policiais, porém havia também um outro lado que não lidava bem com o estresse das operações e cada vez que seu celular tocava, e era da Divisão de Sequestros, seu coração tremia. A princípio, não havia comentado com ninguém, guardou para si, Diana ia, tinha sucesso em suas missões, voltava para casa, mas a sensação de medo foi crescendo e quando compartilhou o que estava sentindo, ouviu incentivos para prosseguir. Era uma carreira de fato estressante, mas Diana estava contribuindo para a sociedade com algo em que era boa e ainda tinha tempo para cuidar de sua família.

 

Em algum momento, a ansiedade das missões começou a ser maior do que Diana. E aparentemente seu nível de estresse tinha explodido num viaduto do Rio de Janeiro, no meio de um tiroteio e com sua filha dentro do carro.

 

— Diana, meu amor, está tudo bem?

 

Diana acordou de seus pensamentos. Olhou para a mesa, os biscoitos já estavam todos moldados e na assadeira enquanto sua garotinha corria pela cozinha suja de farinha. E o cheiro do carbonara enchia o lugar. Abriu um sorriso.

 

— Tudo bem sim. Você põe os biscoitos no forno? Eu vou dar banho na Behati.

 

Fizeram assim, Diana saiu correndo atrás de sua pimentinha pela casa e aos risos a levou para o banho e quando voltou para sala:

Uau.

— Mamãe, é um jantar romântico! — Behati falou toda animada!

 

Diana abriu um sorriso pela empolgação de sua criança por estar em um jantar romântico, Rhian tinha arrumado tudo, a mesa, as luminárias, as flores, uma música calma e Diana não podia acreditar na esposa que tinha, estava tudo perfeito. Jantaram juntas, Rhian na cabeceira da mesa, Diana ao seu lado e o amorzinho da vida das duas falando e falando, contando tudo do seu dia, Behati era uma maquininha de fazer perguntas, de distribuir sorrisos e amor. Sua filha tinha tanto amor que era capaz de alimentar uma cidade inteira de carinho sozinha. Jantaram macarrão à carbonara, comeram biscoitos de sobremesa e sua mocinha começou a cair de sono. Diana a pegou no colo.

 

— Vou fazê-la escovar os dentes e colocá-la na cama, vai para o seu banho, vai.

 

Rhian a beijou com carinho e foi para o banho, enquanto Diana foi fazer Behati escovar os dentes e colocá-la na cama para dormir. Ela pediu para dormir no colo de Diana, ela sempre pedia o mesmo, desde o tiroteio. Então Diana a colocava no colo, contava uma história e assim sua menina podia dormir. Ela dormiu. A cobriu, a beijou, voltou para o seu quarto.

 

Rhian ainda estava no banho, estava frio e chovendo lá fora, podia ver pela janela. O quarto no escuro, as fotos na parede. As fotos do seu casamento, no alto daquele vale, Rhian de Versace e Diana com o vestido que sua mãe havia feito, tão felizes, com tantas cores e sentimentos nos olhos, Diana lembrava como se fosse ontem do sentimento de predestinação que permeou toda a cerimônia, do sentimento de estar casada com o amor da sua vida que lhe acompanhou, a única garota no mundo, nada poderia ser igual. Então viu fotos de sua gravidez, em que Rhian tinha sido tão perfeita o tempo inteiro, não havia sido tranquila, foi uma gravidez de risco, onde Diana sequer se sentiu em perigo, porque sua esposa nunca permitiu ou lhe passou menos do que plena segurança. O nascimento de Behati havia sido mágico, o abrir daqueles olhos verdes lhe causou algo tão forte por dentro que Diana lembrava de ter esquecido de respirar. Foi um sopro no coração, uma expansão de amor que lhe inflou os pulmões e a transformou na melhor versão de si mesma que jamais havia sido.

 

Mas então veio o convite da polícia. Mas então que a cada missão cumprida, algo crescia em sua mente. Mas então que de repente, fora deixar sua filha na escola e sem sequer perceber, tinha entrado em crise e o monstro em sua mente a fez errar o caminho e se colocar em perigo.

 

Mas então que desde aquele dia, tinha subitamente se convertido na pior versão de si mesma que jamais havia sido.

Diana chorou. Um choro ruidoso, de quem tenta controlar, mas não consegue. Os olhos castanhos afogados em lágrimas, o peito agarrado de dor, a mão por dentro que lhe apertava os pulmões e lhe comprimia enquanto ela temia que novamente o monstro voltasse e abrisse a porta do casebre onde lhe fazia de refém para aterrorizá-la mais uma vez.

 

— Diana? — Rhian saiu do banho imediatamente, deixou a água gastando, pegou uma toalha e correu para o quarto assim que ouviu o choro de sua Diana — Ei, meu amor, minha vida, ei… — Ela correu para os seus braços imediatamente, lhe abraçando forte, pedindo colo, segurança, amor, todas as coisas que Rhian estava tão disposta a dar todos os dias. Mas não para sua garota sofrendo e chorando, não, não era assim que deveria ser — Diana, olha pra mim, olha aqui, amor, eu estou aqui — Tocou o rosto dela, a testa dela na sua, buscando os olhos que tanto adorava — O que aconteceu? Fala pra mim.

 

— Eu quero… Eu quero ir pro banho — Disse entre soluços e Rhian abriu um sorriso.

— Em qual dia em minha sã consciência eu vou dizer não para ir pro banho com você, me fala? — Perguntou e ela acabou rindo. Ao menos por um instante ela riu. E então ficou intensa e magoada de novo.

— Jura que nunca, Rhian? Jura pra mim que nunca… — E ela se agarrava nos braços de Rhian, se agarrava em seu coração e Rhian nem sabia.

— Nunca, amor, nunca. Eu te amo, lembra? Somos uma da outra! Diana, faz treze anos daquele seu vestidinho preto no bar até aqui, com a nossa casa, a nossa filha, a nossa vida, meu bem.

— Eu sinto que estou muito perto de perder você, Rhian. Eu sinto que estamos entrando naquele limite em que eu fui embora e você…

Shsssss — Rhian a beijou, devagar, pegando os lábios dela, tocando só um pouquinho — São duas situações, está doendo, meu bem, eu sei, mas você não está me machucando, só está se machucando e isso vem me deixando louca porquê…

 

Diana soltou a toalha de Rhian, descobrindo o corpo molhado de sua preta linda. Ela olhou, mordeu a boca.

 

— Diana…?

 

Diana a beijou, a pegando firme pela nuca, descendo a mão pelo corpo de Rhian, lhe beijando, lhe mordendo, deixando marcas, dedos, dentes, pela sua pele, pela sua mente e naqueles repentes, Rhian sempre via novamente a mulher intensa e vibrante pela qual tinha se apaixonado na faculdade, com quem tinha casado oito anos depois. Diana a levou para o chão e pediu amor, pediu a força de Rhian, o corpo dela, as mãos que lhe pegavam firme, que lhe faziam tão sua, o som da chuva lá fora e elas dentro uma da outra, se pegando, se tomando, se provando e sempre era diferente, nunca era igual e o natural é que depois de um amor assim, Diana terminasse se sentindo a única garota no mundo.

 

Mas agora não era assim. Agora se sentia a última garota do mundo.

 

Ela chorou mais ainda depois que o amor acabou. A ponto de Rhian se desesperar e quase ligar para Isis por não saber como contornar. A vestiu, calcinha, camiseta, a cobriu com um cobertor grosso e ela ainda estava no chão e não permitia se mover. Foi na cozinha, fez um chá para ela, da erva-príncipe que crescia na cozinha e quando voltou, o choro tinha estancado e ela estava simplesmente inexpressiva.

 

Quis mesmo ligar para Isis. Mas Isis não era o herói que sua mulher necessitava. Disso, Rhian precisava se encarregar sozinha.

 

Diana estava tocando o abdômen, era a cicatriz do tiro, Rhian sabia.

 

— Rhian, eu preciso… — Respirou fundo, pensando no que precisava — Eu juro pela nossa filha que eu estou tentando tudo o que posso, mas eu não estou conseguindo. Eu não quero mais ficar assim — Apontou para si mesma — Eu não quero mais que a minha mulher chegue exausta de um plantão e eu sequer consiga fazer o jantar. Eu não quero mais não ir buscar a minha filha na escola ou não conseguir sair para fazer supermercado. Eu não quero mais ficar sem fazer nada, não quero fugir da internet ou nunca mais assistir tevê. Eu quero mudar isso, mas eu simplesmente… — Mais lágrimas — Eu me sinto uma derrotada, Rhian. Eu nem consigo mais fazer amor com você e me sentir bem com isso.

 

Rhian a abraçou, muito longamente, querendo chorar com ela porque aquelas palavras estavam lhe cortando o coração em pedaços com uma lâmina bem fina.

 

— Devíamos… Sair daqui. Por um tempo que seja, Diana, eu não sei, só… Sair. Desculpa, eu não disse nada pra você, mas desde a semana passada eu entrei com um pedido de licença, são sessenta dias e, sei lá, a gente pode ver uma passagem agora, para qualquer lugar que você queira ir e, a gente fala na escola da Behati, dá um jeito, eu sei que não planejamos nada, mas…

— Rhian, só me leva daqui. Sem me dizer nada, sem justificar, sem planejar, como você costumava fazer quando namorávamos, eu preciso de você, preciso daquela de você, que só me pegava e não me perguntava nada, decidia tudo por mim. Eu estou perdida, me acha você, meu bem, me acha você…

 

E Rhian abriu um sorriso guardando o seu amor nos braços, a aquecendo, beijando os cabelos dela com carinho.

 

— Só levar você? Para qualquer lugar?

— Qualquer lugar, eu só quero descobrir no aeroporto. Me acha você, me salva você...

 

Era verdade, Rhian tinha esquecido. Além de ser a esposa que Diana sonhava, também era parte de todo o pacote ser sempre o herói que ela precisava.

 

Estava na hora de Rhian Kier voltar a ser exatamente quem era e não iria parar até fazer Diana se sentir novamente, a única garota no mundo.

 

Notas do Capítulo Extra:

 

Olá, moças!

 

Confesso que não fazia ideia de como seria voltar a escrever Delirium outra vez três anos depois do último capítulo. Não fazia ideia se eu ainda sabia quem essas personagens são, se sabia como escrevê-las, o que elas têm que as fazem especiais, porque, por menor que a personagem seja, ela sempre precisa ter ao menos uma coisa que a faz especial. E bem, essas moças que fizeram de Delirium uma história tão marcante, só podem ter muitos pontos nesta coluna de coisas que fazem personagens tão especiais, não é?

 

Voltar a escrever um capítulo de Delirium me fez descobrir algumas coisas:

 

Coisa 1: Sim, eu ainda sei quem elas são e o que as fazem especiais; hahaha.

Coisa 2: Ainda que tenham se passado três anos, ao escrever uma cena de Delirium novamente, eu percebi a força que ainda tem essas personagens;

Coisa 3: Sendo que eu ainda sei quem essas personagens são e percebi a força que elas ainda têm, eu tive que admitir que elas ainda estão vivas e que, ainda têm muitas coisas para contar.

 

Então meninas, vocês sabem que esta autora que vos fala é teimosa feito uma porta no que toca escrever continuações de histórias, porém, é Delirium. Delirium muito presente mesmo três anos depois do último capítulo. É Delirium e seus 52 capítulos com tanta ação e intensidade que a felicidade plena precisou ser escrita em extras porque não cabia no ritmo frenético da história. Então não, a surpresa extra que eu divulguei não é que iremos publicar o extra de Isis Ferraz hoje (que aliás, para não perder o costume, está condicionado a marca de 25 comentários, de leitoras diferentes, para que seja publicado de acordo com o calendário, no próximo domingo, dia 07/04 ^^), a surpresa extra que eu estava falando é que, sim, esta autora escreverá sua primeira continuação e, será de Delirium 😊

 

Então vamos lá, anotem em suas agendas literárias, “Delirium: Sinta a Febre”, será relançado este ano, à priori em e-book, revisado e com cenas inéditas ainda neste ano de 2019 e que, “Delirium: Tempestade Tropical” será lançado em livro físico e e-book, em 2020 ^^ A ideia é que serão 20 capítulos, focados em Rhian e Diana/Isis e Ariana, divididos igualmente.

 

Obrigada, meninas! Pela aderência à brincadeira e por me forçarem a ver o impacto de Delirium, viu?

 

Espero que tenham curtido a leitura do primeiro capítulo do nosso próximo livro ღ

 

Beijos!

 

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