Capítulo Extra Havana: Por Favor, Não Ame Alguém

14/4/2019

 

 

As coisas não eram boas para Caribe nos dias que fazia frio.

 

Era no que pensava quando por nenhuma razão, se viu obrigada a parar no estacionamento de lojas porque estava se sentindo extremamente desfocada para dirigir. Parou, de frente para a praia de Muizenberg, as famosas casinhas coloridas se enfileiravam em sua visão periférica da esquerda enquanto os surfistas boiavam esperando por ondas ainda que estivesse chovendo, a água congelante e o céu totalmente escuro. À parte os tubarões. Enfrentar tudo isso e ainda poder dizer “oi” a um tubarão era o tipo de coisa que chamava de vontade imparável em plena quarta-feira. Estava frio, estava ventando, por que sempre ventava na Cidade do Cabo? Ah, sim, era um cabo, quase podia ouvir sua irmã gritando conceitos de geografia quando fazia este tipo de pergunta retórica sobre o tempo. Sua cabeça doía, sua mente estava agitada e algo lhe apertava por dentro tão intensamente a ponto de ferir os seus pulmões e mal lhe deixar respirar.

 

Estava ansiosa, sabia. Seus dedos apertavam as mãos com tanta firmeza que estava se fazendo marcas. Respirou fundo, olhou para o celular, o pegou, olhou suas notificações, nada, nenhuma coisa que gostaria de ver. A grande verdade é que Brighton tinha chegado na cidade no dia anterior e desde então, Caribe mal podia respirar.

 

Fechou sua jaqueta e desceu do carro, avistando uma cafeteria do outro lado da rua. Pediu um chocolate quente, uma água e voltou para o carro. Abriu a bolsa, tomou um tranquilizante, fez os exercícios que passava para todos os seus pacientes que sofriam de ansiedade e tentou se acalmar tomando o chocolate quente. Podia ir para Constantia e se esconder lá até a crise passar. Ou seja, até Brighton voltar para Joanesburgo.

 

Não é que não quisesse vê-la, sua ansiedade fazia exatamente o contrário. Caribe queria tanto vê-la que doía, machucava, sufocava e lhe ansiava mais ainda o fato de Brighton não querer lhe ver. A última vez que tinham se falado havia sido há seis meses e parecia definitivo: Brighton lhe disse que não conseguia mais, que estava cansada do relacionamento esfacelado que arrastavam por todo aquele tempo, Caribe não iria mudar, então Brighton precisava mudar e ter coragem para se afastar de vez. E o desespero de Caribe de agora consistia em não fazer ideia se em algum momento conseguiria ter Brighton inteira de volta, uma vez que até aquelas partes que ela não conseguia resistir em lhe dar, agora Brighton tinha definitivamente tirado.

 

Havia sido assim desde o término do namoro e a partida de Brighton para Joanesburgo. A verdade é que tinham terminado, mas nunca realmente terminado,  Brighton insistia em terminar, se afastava, mas Caribe não deixava, a puxava de volta, lhe mordia em um pedaço e outro, não abandonava a vida dela e sempre que elas se viam novamente, era irresistível, elas não conseguiam se manter separadas, ainda que Brighton quisesse. A parte que ela não lhe conseguia negar era a paixão que sentiam uma pela outra; a parte que ela não conseguia escapar era do arrebatamento que acontecia cada vez que uma pele encostava na outra e de alguma maneira, isso sempre manteve Caribe sã. Não estavam juntas, Brighton deixava claro que não estavam, mas também não estavam totalmente separadas e isso lhe alimentava. Ainda que ela tivesse outras pessoas e Caribe também. Haviam passado os últimos nove anos desta forma, mas algo nos olhos de Brighton naquele último encontro desastroso, contou a Caribe que ela estava mesmo falando sério dessa vez.

 

Teve certeza uma semana depois, quando descobriu que Brighton tinha mesmo lhe bloqueado para valer em seu celular e em todas as redes sociais. Teve uma crise, comprou uma passagem para Joanesburgo e só não embarcou porque Havana descobriu e não permitiu. Ela lhe arrancou do aeroporto praticamente a força porque Caribe tinha tido uma crise de nervos, tinha dado um escândalo daqueles e aquela semana foi terrível. Não saber de nada, não poder falar com Brighton e sua condição sem ela muito lhe lembrou seus pacientes em crise de abstinência. Esperou que algo mudasse, que ela cedesse, ela não cedeu.

 

E seguia não cedendo até então.

 

Ficar sem Brighton foi como uma desintoxicação. No primeiro mês, Caribe ficou tão mal que só conseguia sair da cama quando Havana insistia muito. Teve que ser afastada do trabalho por depressão e passou aqueles dias sozinha, trancada em casa, assistindo séries e se alimentando do que suas sobrinhas insistiam para que ela comesse. Todos os dias lhe aparecia uma de suas coisas lindas, Gigi era a que mais lhe visitava, mas Parker também viera alguns dias e não lhe dizia quase nada. Apenas pegava o seu violino e tocava para Caribe pela casa, a coisa mais delicada que podia existir no mundo. E quando ela ia embora, lhe abraçava e dizia que lhe amava, e que tudo ia ficar bem. Havia também os dias em que Kenny vinha com as gêmeas e era uma bagunça. Elas vinham almoçar, jogar videogame, fazer Caribe rir um pouquinho e desta forma, cada dia que passava as coisas iam ficando mais fáceis.

 

Quando voltou ao trabalho no mês seguinte, Caribe se sentia simplesmente derrotada. Aceitou que tinha mesmo perdido Brighton, que ela não ia voltar atrás em sua decisão e o que viu num almoço quando roubou o celular de uma das gêmeas para olhar o Instagram de Brighton, lhe cortou o coração um pouco mais. Aparentemente, ela estava namorando uma médica bonita e perfeita, e isso doeu tanto que chorou pela noite inteira sem conseguir parar. Daí parou pela manhã quando se convenceu de que seria como as outras, que não iria durar. Isso lhe consolou por algumas semanas até ter certeza que aquele relacionamento só ficava firme e mais firme.

 

Esquentou as mãos em volta do chocolate quente no qual sequer tinha tocado ainda, sentindo cada músculo do seu corpo tenso como se algo estivesse prestes a acontecer.

 

— Nada vai acontecer, Caribe. Esta cidade é enorme e ela sequer vai te procurar — Falou para si mesma.

 

Mas podiam se esbarrar. Na casa de Ryan, ela com toda certeza iria querer ver a mãe e a irmã, além das meninas que tanto amava. Então decidiu que iria simplesmente evitar qualquer encontro, daí não correria o risco de cruzar com Brighton e ouvir o que não queria, ver o que não queria, havia acabado, já estava conformada com isso, mas ainda tinha vários temores. Temia ouvir o que não queria e mais, fazer o que não devia, não queria ter uma crise com Brighton presente, fazer uma cena, era a última coisa que queria e apesar de achar que tinha mesmo melhorado nos últimos meses, era melhor não se testar.

 

Colocou o chocolate quente intacto no porta-copos do carro e decidiu que iria para o seu apartamento. Ficaria por lá e só sairia para ir ao trabalho aquela semana, iria tentar parar de lembrar a todo momento que Brighton estava na cidade e tudo ficaria bem. Ligou para James, seu atual namorado, perguntando se ele não queria fazer algo mais tarde, ele concordou, podia passar no apartamento dela, pronto, tudo certo. Caribe voltou a dirigir. Parou em um supermercado no caminho, iria cozinhar alguma coisa, cozinhar sempre lhe relaxava. Pegou uma cesta de compras e foi repassando uma receita mentalmente, pegando cada coisa que precisava, os piercings haviam partido daquele rosto bonito, o antes curto cabelo loiro desgrenhado tinha crescido e escurecido um pouco, os olhos estavam mais azuis do que nunca. A cor do cabelo os destacavam, a sua pele pálida dos últimos dias também. E seu visual preto por inteiro daquele dia também os deixavam em destaque, ainda mais quando…

 

Quando ouviu uma risada que apertou seu coração.

 

Daí seu rosto enrubesceu inteiro, deixando seus olhos ainda mais em destaque. Não, devia ser coisa da sua cabeça, estava se pregando uma peça mental apenas para se deixar nervosa, não fazia o mínimo sentido que…

 

— Não, de jeito nenhum! Eu não vou te deixar comprar vinho de supermercado quando eu tenho uma amiga que produz o melhor vinho sul-africano que já provei, de jeito nenhum! — Era a voz de Brighton, leve, animada, feliz.

— Mas eu quero tomar vinho agora! Como é que faz pra gente tomar esse vinho incrível agora? — Outra voz perguntou, tão leve e animada quanto.

— Há outras coisas que nós podemos fazer além de tomar vinho…

— Muitas coisas? — Os braços dela foram para a cintura de Brighton e…

 

E era Brighton. Namorando entre as prateleiras de um supermercado. Era Brighton.

 

O coração de Caribe caiu junto com a cesta de suas mãos. Um pote de molho vermelho espatifou contra o chão, espalhando tons escarlate por todos os lados.

 

E Caribe saiu correndo. Sem ter ideia se ela tinha lhe visto ou não, sem lembrar que precisava pagar o pote estragado, apenas saiu correndo com seu peito apertando e hiperventilando, a garganta secando, passou pelo meio das pessoas, passou pela porta do supermercado, correu pelo estacionamento, procurando as chaves do carro, onde estava, onde...? Estava destrancado, tinha deixado destrancado, abriu a porta e...

 

Seus olhos transbordaram e ela desabou chorando. Tanto, mas tanto que sua visão embaçou, suas mãos trêmulas não encontravam as chaves do carro, onde estavam, onde…? Tinha deixado cair? Era a mesma moça. A mesma médica perfeita para o seu grande amor. A mesma, seis meses depois, ainda era a mesma! As chaves, onde estavam…?

Abriu a porta para procurar pelo estacionamento e:

 

— Caribe! Ei!

 

Tentou simplesmente voltar para dentro do carro para que ela não lhe visse chorando, mas era tarde. Brighton segurou a porta.

 

— Caribe.

Por favor, não ame outra pessoa. Como você me amava. Por favor — Pediu, com os olhos azuis feridos, vermelhos, extremamente magoados.

 

Brighton soltou o ar preso no nó que aconteceu em sua garganta.

 

— Você… Deixou cair as suas chaves — Estavam na mão dela.

— Eu… Eu deixei, nem percebi — Disse, sentindo o fôlego voltando para sua garganta — Você pode…?

— Eu preciso voltar lá dentro para pagar as suas compras, me espera aqui, está bem?

— Brighton, você está acompanhada, só me deixa ir pra casa, eu vou pagar o pote que quebrou, é que…

— Eu fico com as chaves. Eu vou lá dentro, vou pagar as coisas, falar com a Michaela e nós duas vamos conversar em algum lugar. Estou tentando te ligar desde ontem.

 

Aquilo pegou Caribe totalmente de surpresa.

 

— Você… Está?

— Você me bloqueou — Ela disse, como se estivesse extremamente magoada por isso.

— Você me bloqueou antes — Tentou sorrir no meio de sua ausência de ar.

— Mas não você. Você nunca… Nunca — Ela estava magoada mesmo — Eu vou lá dentro e você não sai daqui, está bem? Eu volto em cinco minutos.

 

Ela partiu com suas chaves. Linda, com os cabelos loiros soltos, longos, bem cuidados como sempre, os olhos clarinhos e a boca vermelha, a menina perfeita que Caribe tinha perdido. Para outra menina com quem ela ria e bebia vinhos. Com quem parecia tão feliz que…

 

Chorou novamente, baixando a cabeça contra o volante, sentindo seu coração na garganta e seus sentimentos no chão, jogados, espalhados, com tão pouco valor agregado. Brighton estava sendo feliz com outra pessoa. A sua Brighton, o seu amor. Era de outra agora e Caribe simplesmente…

 

Precisava andar, precisava escapar dali, não ia aguentar uma conversa sobre “como anda a sua vida? A minha está ótima, conheci alguém, estamos muito felizes”, não, não conseguiria aguentar. Ficou ali, chorando, remoendo, tentando controlar as mãos que não paravam de tremer e não, não ia aguentar mesmo.

 

Desceu rapidamente, fechando a porta do carro e quando se virou para ir embora:

 

Colidiu com o corpo de alguém. Que não lhe deixou escapar.

 

As sacolas caíram no chão e Brighton a abraçou. A prendendo contra o seu corpo, a cercando com os seus braços, sentindo o coração dela batendo tão rápido que...

 

— Brighton… — Respirou fundo pelo casaco de Brighton, porque só de sentir o cheiro dela...

 

Inebriou as duas. Brighton lhe abraçou muito forte, lhe apertando pela cintura, lhe puxando pela nuca, afundando o rosto no ombro de Caribe porque, o cheiro dela.

 

— Eu senti o teu perfume. Antes de te ver lá dentro, eu senti o teu perfume...

Caribe se agarrou no casaco dela, um elegante casaco trench coat vermelho que ela usava por cima de um daqueles vestidinhos que ela adorava e Caribe…

 

Nem sabia. A respirou, chorando nos braços dela, a sentindo de olhos fechados, lhe mantendo muito perto, muito junto de si. O coração disparado dos dois lados, era ansiedade, era saudade? Ou só nervosismo por estarem se vendo depois de seis meses? Caribe não sabia. Só sabia que ouvir o coração de Brighton tão perto deu um jeito de acalmar o seu.

 

— Pra onde você ia?

— Eu… Eu não sei. Eu só queria… Brighton, eu não quero conversar. Eu acho que não consigo conversar com você…

— É claro que a gente vai conversar, Caribe, por favor, está bem? Entra no carro, eu paguei as coisas da sua cesta, mas... — Olhou para as sacolas jogadas no chão — Eu acho que quebrei o molho outra vez…

 

Algo vermelho escapava de uma das sacolas fazendo Caribe rir um pouquinho.

 

— Não é para ser usado, vou tirar da receita.

— Era para frango xadrez?

 

Caribe apertou os lábios olhando para ela. Ela estava tão bonita de vermelho.

 

— Era. Eu ia fazer no jantar — Brighton era vegetariana, mas desde quando provara o frango xadrez de Caribe, passou a ser a única proteína animal que ingeria.

— A gente… A gente podia jantar.

 

O coração de Caribe acelerou tão forte outra vez que ficou toda vermelha. “Não se iluda. É só um jantar. Não se iluda”, repetiu em sua mente. Mas só de pensar num jantar com Brighton…

 

— E… E a Michaela?

— Eu vou encontrá-la mais tarde no hotel.

— Ela… Sabe…?

— Quem você é? Sabe, é claro que sabe. Se não tiver nenhum compromisso, eu gostaria muito que jantássemos juntas.

 

Caribe respirou fundo, ficando instantaneamente feliz por dentro! Lembrou de não se iludir, era só um jantar, mas quando percebeu, já estava simplesmente feliz, inevitavelmente feliz.

 

— Eu… Vou comprar outro molho, está bem?

 

Brighton sorriu.

 

— Vamos juntas.

 

Guardaram as coisas no carro e voltaram para o supermercado. Caribe ainda tão feliz que sequer percebeu que Michaela estava no caixa quando entraram. Trocou um olhar com Brighton, nada precisava ser dito, pagou seu vinho e saiu. Caminharam até a prateleira do bendito molho, pegaram mais um e:

 

— Vai querer pudim de sobremesa? — Brighton adorava pudim.

 

E o rosto dela se iluminou assim que ouviu.

 

— É lógico que quero se você fizer.

— Vamos fazer — Pegou o que precisava para o pudim e então para alguns tacos vegetarianos que ela adorava também, a viu sorrir em cada um dos ingredientes escolhidos e enquanto Brighton pagava as coisas no caixa, Caribe escreveu desmarcando com James. Sequer esperou resposta, não importava, nada importava muito quando Brighton estava por perto.

 

Partiram para o apartamento. Brighton quis dirigir porque Caribe ainda estava tremendo, estava ansiosa, meio sem saber direito o que estava acontecendo. Brighton tinha um monte de coisas para dizer, para falar, coisas que deixaram pela metade quando novamente a impulsividade de Caribe quebrou aquele relacionamento mais uma vez. Não sabia se queria vê-la. Era verdade que tinha ligado, ligou por impulso, amor e descontrole. Ligou porque quando estava perto de Caribe o suficiente para não precisar de um avião, ficar com ela era tudo o que queria, ligou porque jurava que estava tudo bem, que seu bem-querer estava controlado, mas quando percebeu que ela tinha lhe bloqueado…

 

Parou num sinal vermelho.

 

— Não vai passar nunca? — Perguntou em voz alta.

— O que não vai passar, Brighton?

 

Brighton olhou para ela.

 

E Caribe saltou em seu pescoço e lhe beijou.

 

Muito gostoso, escorregando sua boca densamente pela dela, sentindo os lábios de Brighton pegando o seu lábio inferior e a língua dela passeando tão perto da sua boca…

 

Caribe afundou o beijo, pegando a língua, os lábios dela, a puxando pelo casaco, firmemente para contra o seu corpo e Brighton…

 

Era louca por ela.

 

Puxou Caribe pela nuca e a beijou de novo e outra vez, as mãos ansiosas abrindo a jaqueta dela, a puxando pela pele, para mais perto, mais junto, a boca escorregando, pegando o ombro, o pescoço de Caribe, a mão afundando em sua cintura, buscando o seu abdômen por baixo das roupas e…

 

Milhares de buzinas. O sinal tinha aberto!

 

Arrancaram aos risos! Os sul-africanos não eram lá muito pacientes no trânsito, era o mínimo que podia se dizer. Por sorte, não estavam longe do apartamento e Brighton teve que dirigir por mais três minutos com sua garota agarrada em seu pescoço, lhe mordendo inteira, nuca, pescoço, sentimentos, os dentes de Caribe pareciam ter sido feitos exclusivamente para morder os sentimentos de Brighton. Com ela, nunca tinha controle. Com Caribe tudo era sempre intenso, denso, à flor da pele. Brighton sentia de verdade que era como se sempre a sua pele estivesse implorando pela boca dela e nada sabia.

 

Não sabia de coisa alguma.

 

Entrou no estacionamento do prédio dela e mal conseguiram pegar as sacolas! As bocas se buscaram, se pegaram, tinham uma urgência, uma saudade, da pele, do cheiro uma da outra, do corpo, da presença, da rotina incomum que tinham criado em todo aquele tempo que ficaram separadas, mas sempre juntas. Estavam com saudades até daquela rotina.

 

— Brighton, eu ainda não acredito que… — A abraçou pelas costas enquanto ela tirava as sacolas do carro, sentindo o cheiro gostoso dos cabelos dela mais uma vez.

— Eu que não acredito que você me bloqueou… — Estava tão magoada com aquilo!

— Você me bloqueou primeiro!

— Não importa — Virou-se de frente, a puxando pela cintura um pouco mais perto — Eu não achei que… Você ia. Que ia parar de… — Olhou nos olhos dela — Você está amando outra pessoa?

 

Caribe a beijou antes de responder. A puxando pela nuca, a mantendo muito perto de si, de seu corpo, sua pele, seu coração. Brighton tinha o seu coração nas mãos, como ela podia achar…?

 

— Caribe?

 

A voz de James ecoou pelo estacionamento inteiro.

 

Caribe parou o beijo, não fazendo ideia do que…

 

— O que… O que você está fazendo aqui, James?

 

Ele não parecia irritado. Só parecia… Passado. Passado demais.

 

— Eu te escrevi, disse que já estava aqui, que ia te esperar pra gente ver a questão do carro rapidinho — Ele explicou, chegando um pouco mais perto.

 

Silêncio. E Brighton se perguntou quantos namorados mais de Caribe teria que conhecer.

 

— Desculpa, eu não vi a tua mensagem.

— Eu desconfio que não — Ele olhou para Brighton.

— James, esta é a…

— Brighton, imagino — Ele esticou a mão para Brighton.

 

Brighton apertou a mão dele com educação.

 

— Isso, Brighton, tudo bem?

— Tudo bem — Ele respirou fundo, um tanto constrangido. Daí olhou para Brighton outra vez — Bem, ficou claro agora os motivos que ela não consegue te esquecer...

— James!

— Eu sequer estou fazendo uma cena, Caribe.

— Tudo bem, eu te pedi um espaço hoje, lembra?

— Um espaço só hoje?

— Pode me dar um espaço pra vida toda se você preferir assim, está bem?

— Ei! Eu não quero terminar nada com você, fica calma.

— James... — Respirou fundo. Gostava muito dele, mas não queria de jeito nenhum que seu momento com Brighton fosse estragado, por qualquer motivo que fosse. Chegou perto dele — Eu preciso dessa noite — Disse, só para ele ouvir — Eu preciso... Muito.

 

Ele respirou fundo.

 

— Você precisa dela. Eu gosto muito de você, mas você nunca ficou agarrada em mim do jeito que eu vi agora.

— A gente pode...?

— Falar depois, é claro que sim.

 

Ele lhe deixou um beijo no rosto e foi embora. E quando Caribe voltou para perto de Brighton...

 

— Caribe…

— Foi só um contratempo, por favor, sobe? Eu vou fazer um jantar pra gente. Por favor — Brighton a olhou ainda incerta. Ela detestava a ideia de Caribe com rapazes, só não odiava mais do que a ideia de vê-la com outra garota, agradecia todos os dias por nunca ter visto — Brighton, eu vou fazer o pudim, quer subir, por favor?

 

Ela riu com o pudim. Ok, não iria desperdiçar nem uma horinha ao lado dela, de jeito nenhum. Subiram e Caribe foi passando para a cozinha, trazendo Brighton pela mão e mal encostaram no balcão, e já estavam aos beijos, com mãos ansiosas outra vez, relembrando o primeiro beijo delas, os sentimentos que tinham sob a pele, a verdade sobre o que eram. Se olharam nos olhos, aliviaram a carga de emoções, cozinharam juntas falando sobre qualquer assunto que não corresse o risco de machucar, doer ou magoar. Falaram sobre como estavam indo no trabalho, sobre a vida, Caribe contou que tinha voltado a praticar pole dance, o que explicava as linhas levemente definidas que Brighton tinha sentido dentro do carro, Brighton contou que também tinha voltado para a academia e que tinha entrado em aulas de espanhol. Tinha trocado de carro e isso levou ao assunto do carro que James tinha tocado.

 

O jantar ficou pronto, os assuntos seguiram leves, ninguém queria se machucar, mas quando Caribe tirou o pudim do congelador e elas foram para o sofá, era o momento limite para aqueles assuntos que estavam com medo de tocar.

 

— Vocês vão comprar um carro juntos?

— Não, na verdade, eu quero trocar de carro e não entendo bem deste assunto, ele está me ajudando.

— Entendi. Vocês estão juntos há muito tempo?

— Três meses. Menos tempo que… Você e a Michaela.

— Caribe… — Brighton respirou fundo, deixando o seu pudim de lado por um instante — Você não fez um escândalo.

— Como?

— Pela primeira vez, você me viu com alguém e não fez um escândalo. Da última vez você fez uma cena no meio de um restaurante por causa de uma cliente, lembra? Sequer era namorada, só uma cliente mesmo.

— Não me lembra disso, eu morro de vergonha só de pensar.

 

Outra reação positiva. Caribe não costumava se envergonhar depois das crises.

 

— Eu achei que… Já que você não fez um escândalo talvez tivesse… Tivesse me esquecido mesmo. Mas então eu fui atrás de você e o que me disse…

 

Caribe agarrou os olhos dela com os seus.

 

Que não amasse outra pessoa. Como você me amava. Eu sei que não tenho direito nenhum, mas só de pensar em você amando outra menina com o mesmo amor que sentia por mim…

 

Brighton tocou o rosto dela e a beijou. Longa e carinhosamente desta vez, de olhos fechados, toque sútil, delicado, igual ao amor que ainda sentia por aquela maluca.

 

— O seu amor continua seu. Eu continuo sua. Eu nunca vou amar outra pessoa assim, Caribe. Ainda que você nunca seja minha, ninguém pode tirar o que é seu de mim, eu já desisti, sei disso muito bem. Eu estou com a Michaela, mas ela sabe. Nós decidimos fazer uma tentativa, quem sabe se eu parasse de falar com você, parasse de te ver pelas redes sociais… Bem, no final das contas eu suborno a Ri-Ri para saber de você. Eu tenho a senha do Instagram dela e…

 

Caribe já estava morrendo de rir e de lagrimar, tudo ao mesmo tempo.

 

— É sério que você tem?

— Eu não consigo ficar sem te ver. Sem saber de você, Caribe, eu não consigo. A verdade é que eu sequer consigo querer direito ficar longe de você, apesar de eu dever. Caribe, o que aconteceu da última vez…

— Foi o fundo do meu poço, Brighton. O pior é que não foi a cena que eu fiz que foi o meu fundo do poço, foi a tua reação, o quanto você ficou… — Apertou as mãos, a ansiedade crescia só de lembrar — Envergonhada de mim. Ver aquela expressão no seu rosto, o jeito que você me olhou depois de me acalmar e cuidar de mim… Você ainda me cuidou. Se desculpou pela minha cena, me levou pra casa, me abraçou até que eu parasse de soluçar. E quando acordamos pela manhã, você tinha aquela expressão. De estar muito envergonhada para entrar no seu escritório. Eu sei que você acabou mudando de escritório logo em seguida e eu estava aqui, apenas querendo parar de existir. Eu sei que o melhor pra você é se casar com alguém como a Michaela, mas…

 

Brighton a beijou outra vez, lhe tocando o rosto, o amor, o carinho, sua testa na dela em seguida.

 

— O melhor pra mim é me casar com a melhor versão sua que você pode ser. Eu fiquei magoada, Caribe, é claro que fiquei, mas não foi necessariamente com você, foi com o que você fez com a gente. Com o nosso romance, a nossa paixão. Você é o meu sonho, menina — Confessou, porque era toda a verdade — É a minha namorada da adolescência, a garota que roubou o meu coração e o amor sem me perguntar se podia. Eu já tentei o suficiente e vim aqui por muitos motivos, e por motivo nenhum também. Michaela vinha para um congresso, quando percebi, já estava vindo junto e meus dedos estavam ligando para você porque se estou perto, eu tenho que te ver, tenho que tocar e… — Aqueles olhos doces se encheram — Eu nem acredito que você não fez um escândalo. Que não fez e ainda me ama.

 

O coração de Caribe se derreteu por inteiro.

 

— É claro que eu amo. Mais do que qualquer coisa. E igualmente ao tanto que eu me amo agora. Eu percebi isso, Brighton. O problema é que eu nunca me achei suficiente para você. Então temia tudo e qualquer coisa por achar que não estava à sua altura, mas agora... — Respirou fundo, beijando a mão dela que tocava o seu rosto — Eu estou fantasiando demais ou...?

 

Brighton a beijou outra vez, subindo para o colo dela, sentindo aquelas mãos ansiosas pelo seu corpo, pelas suas coxas, censurando o seu vestido e a pegada de Caribe era... Mordeu a boca suspirando, sentindo aqueles braços fortes em volta de seu corpo, a boca dela pelo seu pescoço e...

 

Caribe parou.

 

— Caribe...?

 

Ela respirou fundo, se acalmando, ainda com as mãos perdidas por aquela menina que tanto amava.

 

— Brighton... — Os olhos dela estavam cheios — Eu só quero que façamos amor quando estivermos juntas de verdade de novo.

 

E foi tão doce que Brighton se derreteu sorrindo inteira.

 

— Quando estivermos juntas de verdade, minha coisa linda?

— É que ficamos juntas, vamos pra cama e depois você vai ter que ir dormir com a sua namorada perfeita e...

— Sabe o que tem daqui a dois meses?

— O que é que tem?

— Minha filha do meio estará fazendo quinze anos — Sua Parker, é claro — E é óbvio que eu vou estar aqui e, o que você acha? A gente se dá dois meses para resolver tudo. Você resolve com o James, eu converso com a Michaela e... — Olhou naqueles olhos que estavam transbordando — A gente casa. E faz amor na lua de mel — Ela sorriu, lhe agarrando, lhe beijando, lhe apertando muito! — Isso é um sim? — Ela sorria e chorava, tão engasgada que não estava conseguindo falar. Mas disse que era um sim, beijando e agarrando Brighton, a derrubando no sofá, arrancando o vestido do seu corpo com tanta propriedade que Brighton teve certeza que ela ia deixar o plano da lua de mel para lá!

 

Mas não. Elas apenas se beijaram, se tocaram, ficaram de lingerie naquele sofá sentindo a pele e o amor uma da outra tal como na primeira vez em que ficaram, tão cheias de tesão e culpa pelo sofá de Ryan. E foi horrível ter que deixar Brighton ir embora. Caribe não queria que ela fosse, mas também não queria de jeito nenhum fazê-la mudar de ideia. Não sobre ir embora, e sim, sobre dar outra chance a elas. A Caribe de antes a arrastaria pra cama, a deixaria sem pensar, a faria não ir encontrar a namorada, faria um estrago enorme, mas quem ela era agora...

 

Quem ela era agora só queria ter paciência para finalmente ser feliz com Brighton.

 

Brighton foi embora e não se viram pelo resto da visita dela na Cidade do Cabo. Se desbloquearam de seus celulares e de suas redes sociais, porém aqueles dois meses foram mais difíceis do que imaginavam. A grande verdade é que nove anos de um relacionamento complicado era de fato, muito complicado de ser passado a limpo e aconteceu que uma semana antes do aniversário de Parker, Brighton ainda estava com Michaela e Caribe seguia com James.

 

Brighton estava em seu escritório em Joanesburgo, no alto de um prédio todo espelhado que sempre lhe dava a sensação de estar em um aquário. Que ficava no meio de uma nuvem. Estava trabalhando até mais tarde quando seu celular tocou e era Parker. Uma Parker ansiosa pela festa de aniversário, querendo porque querendo uma resposta de Brighton agora. Ela andava ansiosa ultimamente, Brighton desconfiava que tinha a ver com uma certa menina da escola.

 

— Parker, você sabe que não é apenas ir ou não ir.

— Eu sei. Olha, você consegue ver isso aqui? — Ela aproximou a testa da câmera, deixando ver uma determinada cicatriz que tinha na testa.

— É a sua cicatriz daquela queda de skate — Respondeu sorrindo, tentando entender onde ela queria chegar. Parker sempre queria chegar em algum lugar por caminhos inesperados.

— É, daquela queda do skate. E eu só tenho ela porque vocês se amam. Você e a Caribe. Foi por isso que eu caí. Porque vocês estavam se amando, se olhando, namorando, eu me lembro...

 

Brighton estava rindo demais.

 

— Você lembra?

— É um superpoder. Eu me lembro de cada coisa. Se você soubesse...

 

Mais risos de Brighton.

 

— Por favor, nunca me conte!

— Não conto — Ela abriu um sorriso — Mas eu só tenho isso aqui porque vocês se amam demais, eu caí, teve que costurar e tudo, a mamãe ficou muito brava. Não interfere na minha beleza nem nada, mas...

 

Mais risadas, Parker não existia! E então Brighton ficou olhando para ela por um instante.

 

— Eu entendi, Parker.

— Você tem que vir, Brighton.

 

Foi assim que Brighton acabou naquela festa de 15 anos, pedindo Caribe em casamento no aeroporto e foi assim que dez dias depois, estava no Jardim Botânico de Kirstenbosch, um dos sete majestosos do mundo, mais do que pronta para se casar com a noiva que sempre quis e que tanto amava.

 

Estava mais do que pronta, com o seu leve vestido branco, andando de um lado a outro, com uma ansiedade totalmente inesperada lhe comendo o coração. Ryan veio para perto, lhe trazer água, pedir para ela se acalmar, estava tudo bem, Caribe estava linda e chegaria muito em breve. Abraçou aquele ex-amor da sua vida, recebeu um beijo na testa de Havana, respirou fundo. Parou. Nem precisou olhar, sabia que ela tinha chegado.

 

— Não olha agora — Ryan lhe sugeriu sorrindo — Vai com o seu pai e só olha para trás quando estiver no altar.

 

Aceitou a sugestão, o violino de Parker encheu aquele parque mágico e sem conseguir parar de sorrir, Brighton caminhou até o altar de braços dados com seu pai, ele lhe beijou a testa com carinho, lhe olhou nos olhos, estavam felizes, toda a sua família estava feliz por finalmente, Brighton e Caribe estarem juntas.

 

— Agora você olha para a sua noiva.

 

Brighton se virou devagar e o sorriso escapou da sua boca junto com o seu coração. Lá estava, sua noiva tão linda de branco, num vestidinho justo, curtinho, o contraponto perfeito ao vestido esvoaçante de Brighton. E então teve que respirar fundo outra vez conforme ela se aproximava porque, ela tinha cortado os cabelos, deixado desgrenhado um pouco abaixo do pescoço, cabelos mais claros, mais luminosos, mais parecidos com aquela Caribe de dez anos atrás, por quem tinha tão intensamente se apaixonado. E o piercing no nariz...

 

Brighton se derreteu num sorriso. Cora lhe entregou a filha sorrindo e Brighton não podia acreditar.

 

— Mesmo?

— Eu sei que você tinha uma queda de andares por este piercing. Você sempre gostou do meu lado rebelde.

 

Não era mentira. Brighton beijou a testa dela e a cerimônia começou. Brighton não lembraria de uma palavra do que foi dito, nem uma, sua mão estava trêmula dentro da de Caribe e toda vez que pensava na vida que teriam, só de pensar que iria dormir e acordar ao lado dela todos os dias, só de pensar nisso...

 

Então que pensou em algo mais. Quando o juiz perguntou se aceitava Julia Caribe Exposto como sua esposa, olhando para ela tão linda parada bem à sua frente, Brighton foi transportada para o momento em que atendeu a porta numa manhã qualquer e do outro lado, estava aquela menina linda com quem tinha conversado a noite inteira. Lembrava do sorriso nervoso, do coração que disparou e quando ela sorriu...

 

Brighton lagrimou olhando para ela.

 

Eu nunca vou amar ninguém como eu amo você. Por favor, não me perca nunca mais. Nem por dez minutos.

 

Caribe transbordou os olhos e a beijou, antes da hora, antes do juiz lhe perguntar se aceitava Brighton Jamie Reed como sua legítima esposa.

 

— Nem por dez minutos — Prometeu, com sua testa tocando a dela, os olhos fechados, os braços de Brighton em volta de sua cintura — Eu nunca vou amar ninguém como eu amo você.

 

Ninguém precisava perguntar mais nada. E quando o pôr do sol atingiu a natureza ímpar do Kirstenbosch, a senhora e senhora Exposto-Reed já estavam em seu quarto de hotel, fazendo amor, rompendo as núpcias, a pele uma da outra, aquela paixão resistente, paciente, única. Por favor, não ame alguém. Que não fosse uma à outra. Não amaram, não amariam, se pertenciam. Era tudo.

 

Notas do Capítulo Extra:

 

Olá, meninas!

 

Então, não é que Brighton e Caribe ainda tinham algo para contar? É algo que tem acontecido enquanto escrevo esses extras, no começo sempre olho para a personagem e me pergunto o que ainda falta escrever sobre ela, afinal, são histórias finalizadas que em tese, não há mais o que se acrescentar. Então começo a escrever e de repente, algo surge, pequeno, tímido, incompleto. Leva algumas horas e pronto, a personagem começa a falar, volta a vida, mostra o tanto de sua história esta autora encurtou, ignorou, decidiu não contar.

 

É o caso de Brighton e Caribe

 

Ainda existem coisas a se contar sobre essas duas que podiam ter desenvolvido um relacionamento abusivo e tóxico (afinal, esses relacionamentos são altamente sedutores), mas lutaram por uma cura. Brighton não parou de insistir pelo relacionamento lindo que aquele amor merecia; Caribe não desistiu de lutar contra o monstro do ciúme e da insegurança que lhe comia por dentro. Neste capítulo extra, vimos o primeiro raiar desse amor finalmente saudável 😍

 

Agora, falando rapidinho do nosso cronograma, como as batalhas da categoria “amorzinho” ainda estão em andamento, decidi adiantar o extra de uma tal de Arantxa Iglesias Regras do jogo desta semana: 25 comentários, de leitoras diferentes e o extra “Guerreira” será postado no próximo domingo, 21/04 ^^.

 

Aproveito também para contar que, “Sal” já está disponível na Amazon com um capítulo bônus inédito!

 

Espero que tenham curtido a leitura!

 

Beijos!

 

 

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