Capítulo Extra Havana: A Dimensão Parker

28/4/2019

 

 

Não sabia o que estava acontecendo. Mas tinha começado ainda durante as aulas da faculdade. Parker estava distraída, aquele tipo de distração que lhe isolava do mundo. Era como uma bolha à prova de sons, via tudo o que estava acontecendo ao seu redor, mas não conseguia ouvir com clareza. A voz da professora estava longe, os comentários de seus colegas de classe também. Queria que Sophia estivesse por perto, mas ela ainda não tinha chegado. Havia ido visitar os pais, a avó estava doente, ficaria uma semana fora e tinha que acontecer justamente quando ela não estava por perto.

 

Sophia sabia entrar em sua bolha. E depois que estava dentro, sempre conseguia furá-la e trazer Parker de volta à realidade. Foi torturante esperar até o final da aula. Agarrava a gargantilha com o anel de sua mãe e desejava estar na Cidade do Cabo, desejava correr para casa e pedir leite caramelizado, queria o colo de suas mães e pedir um jantar especial. Sentia falta da comida, sentia falta de suas irmãs. Sentia falta da atmosfera sempre protegida em volta de si, falta de não se preocupar com nada, em se sentir simplesmente segura porque Gigi, Kenny ou as gêmeas estavam por perto. Era mais fácil antes. Quase não tinha crises.

 

Agora era a terceira em uma semana. Fugiu do conservatório de música aquela tarde. Foi uma fuga mesmo, Parker entrou na escola e de repente, sentiu que as paredes estavam apertando ao seu redor, os sons estavam vindo de todos os lugares, se misturando, gritando em sua mente e quando deu por si, estava fugindo.

 

Fugiu de skate. Porque esqueceu das direções em que precisava pegar o transporte, esqueceu seu endereço, não sabia dizer onde era, mas tinha memorizado as ruas de Joanesburgo e ainda que estivesse do outro lado da cidade como estava, sempre sabia voltar para onde morava. Mas as ruas eram insanas! O som dos motores, as vozes das pessoas, as buzinas, cada coisa estava batendo em sua mente e lhe fazendo de refém. Enfiou a mão no bolso, seus fones de ouvido, sempre estavam ali, colocou os fones, abriu seu Spotify, música no último volume e voltou para seu skate, ah, sim, tudo parecia mais controlado agora.

 

Voltou de skate e primeiro estava muito calor, a calça jeans parecia grudar contra o seu corpo, a jaqueta fechada sufocava, mas ela não percebia, fazia um sol intenso, Parker jurava que o sol era maior em Joanesburgo do que na Cidade do Cabo, se não fosse cientista, até se atreveria a dizer uma coisa assim, devia ser o posicionamento da cidade em relação aos meridianos ou ao equador, pensaria a respeito. Sua universidade ficava um pouco afastada de onde morava, era uma estrada, uma estrada no meio da savana e Parker simplesmente adorava aquela sensação. De estar deslizando contra o vento em seu skate, adorava até o sol da savana, o isolamento que a música lhe trazia. Jurou ouvir um rugido, o Lion Park não ficava distante, sol, calor e uma hora depois mais ou menos, começou a chover. Mas não fez diferença, seguiu empurrando, entrando e saindo de ruas depois que deixou a estrada, sentindo uma bússola dentro de si lhe levando para sua casa, não estava pensando, sabia que não estava, era aquela outra parte sua que às vezes parecia ter vontade própria.

 

A parte tinha vontade. Tanta, que às vezes saía do domínio de Parker.

 

— Menina!

 

Bateu com tudo contra o capô de um carro que freou em cima de si e lhe arrancou de cima do skate. Parker rolou pelo asfalto, o skate foi parar do outro lado da rua.

 

— Ei! — O motorista berrou, já a vendo levantar, checar o estojo do violino nas costas, estava tudo bem, o violino estava bem. Daí andou, já indo pegar o skate do outro lado — Ei, precisa de ajuda? Você apareceu do nada!

 

Não respondeu. Porque não ouviu nada. Apenas bateu as mãos fazendo a poeira soltar e voltou a empurrar o skate. Levou mais uma hora, a chuva alternando, chovendo forte e partindo, o sol secando sua roupa, o violino em suas costas, lhe lembrando de casa, lhe lembrando de Havana. Queria tanto um leite caramelizado! Apenas isso. Sabia fazer, mas nunca ficava igual. Sabia cozinhar um pouco também, mas nunca ficava igual. Fechou os olhos, era uma ladeira, o skate estava lhe levando praticamente sozinho, os fones tocando dentro da sua mente, a música costumava aliviar as crises, aliviava, desapertava, mas não fazia desaparecer. Abriu os olhos, os cabelos loiros molhados, sentiu seu jeans rasgado e algo nas costas de sua jaqueta parecia incomodar. Abriu a jaqueta, usava um cropped por baixo e por algum motivo, estava se sentindo sufocada. Desceu do skate, olhando em volta de si, os carros, as buzinas, a cidade urgia e Parker só queria ir pra casa, entrar na banheira e cobrir-se de água até os ouvidos.

 

Mas não chegou em casa. Meia hora depois, estava em sua rua, ainda estava chovendo e por algum motivo, não conseguiu se mover da frente da casa de Brighton e Caribe. Não tinha ninguém em casa, as duas estavam trabalhando, mas ainda assim, não conseguiu se mover da varanda delas. A ponto de…

 

Caribe estava em seu consultório quando recebeu uma ligação.

 

— Caribe, aquela sua menina… — Era sua vizinha.

— Parker? O que tem a Parker?

— Ela está parada na sua varanda, olhando para a porta tem quase uma hora. E ela… Não parece bem. Não por causa das coisas do autismo, não é isso, ela não parece fisicamente bem. Está com a roupa rasgada e sangrando um pouco. Eu tentei falar com ela, mas não parece que esteja me ouvindo…

 

Nem a deixou terminar. Caribe pediu que remarcassem o seu último paciente e foi voando para casa. É claro que estava chovendo, é claro que pegou milhares de engarrafamentos e depois de quase uma hora, enfim, chegou em casa. E Parker ainda estava exatamente como a vizinha havia descrito, parada, violino nas costas, skate nas mãos e toda rasgada, olhando para a sua porta.

 

— Parker? — Se aproximou dela devagar, mas ela não reagiu. Ela estava de fones nos ouvidos, em uma outra dimensão. A dimensão Parker. Caribe a avaliou fisicamente, ela estava ralada, sangrando um pouco, nas costas, no joelho, tirou os fones dos ouvidos dela, de maneira muito suave para não assustá-la — Parker, ei… — A virou para si e ela pareceu reagir. A notou, sorriu — Ei, meu amor, o que aconteceu?

— Eu… Eu esqueci onde fica a minha casa. Que esquisito. Eu esqueci.

— É no final da rua, lembra?

 

Ela molhou os lábios.

 

— É no final da rua, eu tinha esquecido.

— Parker… — Caribe a segurou pelo punho enquanto abria a porta, Parker tendia a fugir quando estava assim — O que aconteceu? Você está toda ralada, caiu de skate, Parker?

 

E foi como se Caribe tivesse aberto a porta para a dor aguda em seu sistema nervoso. Foi ela falar e tudo começou a doer, seu joelho começou a arder, suas costas também, tinha ralado o joelho, o ombro esquerdo estava em carne viva e sua cintura…

 

Caribe não acreditou quando tirou a jaqueta que ela estava vestindo.

 

— Parker, vamos para o hospital agora!

 

Ela tinha uma marca enorme na cintura, onde o carro havia a acertado e Caribe não fazia ideia…

 

Os braços de Brighton a abraçaram no hospital.

 

— Ei, meu bem, ei, está tudo bem.

— Um carro atropelou a Parker e ela nem sentiu, amor! Ela não sentiu!

— Eu sei, mas ela já está fazendo os exames, falei com a médica, ela disse que aparentemente tudo está bem, ela se arranhou, vai acordar dolorida amanhã, mas está tudo bem. Você já ligou para a Ryan e a Havana?

— Ela não quer que eu ligue. Disse que as mães vão ficar preocupadas, que vão querer que ela volte para casa. Eu sei que devemos ligar, mas… Olha, você está aqui. Você é o pai, não é?

 

Brighton sorriu, beijando-a na testa. Tinham feito três anos de casadas na noite anterior e ainda estavam sentindo o gosto da lua de mel que improvisaram.

 

— Eu sou o pai. Escuta, fica aqui, pega um café, eu vou lá falar com ela.

 

Fizeram assim, Caribe foi se acalmar tomando um café e Brighton foi encontrar sua skatista que havia acabado de sair da ressonância. Estava de camisolinha de hospital e parecia muito bem para quem tinha sido atropelada.

 

— Hazel Parker.

— Eu não vi o carro. Estava distraída, é um dia de distração — Ela respondeu sorrindo, sentando na cama.

— Estava usando isso aqui? — Brighton mostrou o celular de tela trincada ainda com os fones plugados.

— Estava muito barulho.

— Parker, sabe por que a Ryan permitiu que você viesse para Joanesburgo?

— Para que eu… Desenvolvesse autonomia…?

— Na verdade, foi apenas porque você é a mais cuidadosa das suas irmãs. Foi apenas por isso. Ela achou que você não iria andar de skate com os ouvidos tapados por exemplo.

 

Parker apertou os lábios.

 

— Brighton… Eu acho que… Eu não sei bem como… Ter crises sozinha. Eu tive uma crise. Estava ansiosa, eu sei. O meu sistema nervoso ficando descontrolado. Mas eu estou sozinha e ainda tenho crises. Eu tenho que saber como consertar. A crise sozinha.

— Por isso voltou a andar de skate e a ouvir música na rua?

— Algo tem que funcionar. Eu vou ter crises para sempre, tenho que aprender a contornar.

— Ok, vamos começar por: você não está sozinha. Se sentiu mal na faculdade? Me liga, liga pra Caribe.

— Eu não consegui lembrar. Não sou eu quem liga. Na crise.

 

Brighton a estudou com os olhos.

 

— Não é, é verdade. São as suas irmãs ou a Sophia.

— Eu não consegui lembrar de ligar. Mas o meu corpo sabia ir pra casa. Eu fui pra casa. Mas esqueci onde ficava, lembrei da sua casa e então fiquei lá tentando lembrar onde eu morava. Mas a minha cabeça estava… — Ela respirou fundo — Cheia. Por que está tão cheia, Brighton? Eu não consigo estudar assim, não consigo tocar…

— Shssss, não fica ansiosa, olha pra mim — Buscou os olhos dela — Não fica ansiosa.

— Vai ligar para as minhas mães, não vai?

— É por isso que você está ansiosa — Brighton a puxou para os seus braços ainda que ela não quisesse. Parker nunca queria — Não vou ligar, está bem? Mas vamos precisar fazer acordos de damas você e eu.

— Eu faço, só não conta isso. Do carro. Que eu fui irresponsável.

 

Resultados da ressonância, e Parker estava bem. Ficaria dolorida, mas não tinha acontecido nada demais, o roxo no abdômen se desfaria com os dias e assim, voltaram para casa. Brighton e Caribe nos bancos da frente com uma adolescente linda e desconectada no banco de trás. Ela só se ligou quando percebeu que não estava em casa.

 

— Não é a minha casa.

— Termo 1 do acordo: hoje você dorme com a gente.

 

Contra a vontade, mas ela aceitou. Ficou com elas, Caribe a mandou para o banho, trocar de roupas e quando ela desceu para o jantar, estava sentindo muita dor. Deram os comprimidos que a médica receitou, ela comeu e parecia que não comia desde…

 

— O café da manhã. Eu vim de skate, leva muito tempo.

 

A colocaram no quarto de hóspedes e quando foram pra cama, Caribe ainda estava muito preocupada.

 

— Ela não comeu, Brighton. Andou de skate por cinco horas inteiras. Foi atropelada.

— Eu sei, meu bem, mas eu sinto que se tirarmos isto dela agora… Será pior. E você sabe como a Ryan é, se souber disso, chega aqui amanhã para levar a Parker de volta.

— E o que você está pensando em fazer?

— Eu acho que ela precisa de uma transição. Para esta vida em que ela é responsável por tudo.

— E como a gente faz isso?

 

Brighton tinha uma ideia. Ligou para Havana pela manhã, ela costumava ser menos desesperada do que Ryan, mas assim que contou do acidente…

 

— Brighton, é a minha filha! Como é que você deixa a minha filha se machucar de novo?!

 

Brighton caiu no riso.

 

— Ela não tem mais três anos, Havana, tem dezoito.

— Eu sei, é que… — Ela respirou fundo do outro lado — Ok, qual é o seu plano?

— Vai ficar do meu lado?

— Do lado do crescimento da minha filha. Me fale o que você precisa.

 

E o que Parker precisava, chegou no voo do final da tarde.

 

— O que nós estamos fazendo aqui? Eu não acredito que você ligou para as minhas mães!

— Não são as suas mães, Parker, quer relaxar?

— Eu sou autista, eu nunca relaxo.

 

Brighton riu, a sinceridade cortante de Parker Scholtz.

 

— Se não são as minhas mães, quem viemos buscar? — Os cabelos estavam despenteados, Parker andava uma bagunça e estava refletindo nela mesma. Ela nunca saía desarrumada. Menos ainda para o conservatório de música, mas ali estava, de macacão e camiseta manchada — A Sophia voltou?

— Ainda não, só semana que vem, ela não disse pra você?

— É da natureza humana fazer surpresas. Eu não gosto de surpresas.

— Mas acho que dessa você vai gostar.

 

Pronto, lá estava, ainda de uniforme cheio de terra e grama do treino de hóquei, apareceu Kennedy Scholtz.

 

— Kenny!

 

E Parker que não gostava de surpresas, atravessou correndo o saguão do aeroporto e saltou em sua irmã, literalmente saltou, pulou no pescoço dela tão forte que Kenny quase caiu! Mas foi só quase mesmo, ela era forte feito uma pedra, jogou a mochila de lado e tirou sua irmã do chão, a apertando nos braços, a cheirando, sorrindo com aquela reação tão boa. E daí foram para o chão mesmo, aos risos porque aqueles tênis de grama sempre escorregavam!

 

— Kennedy, como deixaram você subir no avião deste jeito? — Brighton não estava acreditando que ela tinha embarcado imunda daquele jeito.

— Eu ouvi alguém perguntando se eu tinha sido criada por lobos — Ela contou sorrindo sem soltar de sua irmã.

— Parece que foi! E que a mamãe lobo arrumou seus cabelos com as garras — Brighton se abaixou sorrindo e beijou os cabelos dela, escuros, mal presos numa trança bagunçada.

— Não deu tempo de tomar banho! E eu tinha que treinar, daí fui direto para o aeroporto depois que saí do treino com a mamãe dizendo que ia me deserdar.

— Havana.

— Claro — Outro sorriso — Parker, por que você está de camiseta manchada? Vai ser deserdada também!

 

Parker riu, ainda nos braços da irmã, ela estava muito feliz.

 

— É que eu não sei bem como usar a máquina de lavar. Quero dizer, mecanicamente eu sei usar, mas aconteceu isso aqui…

— Está misturando as cores! Não pode misturar. Olha, a gente tem que dar um jeito na sua vida, porque a mamãe vive dizendo que nenhuma de nós consegue se virar tão bem quanto você, que você é organizada, responsável, todo esse tipo de coisa. O que aconteceu com o seu joelho?

— Acidente de carro. Estava ouvindo música e andando de skate.

— Parker, você está se tornando uma irresponsável! Meu Deus, nós temos que dar um jeito nisso mesmo, não faz o menor sentido você se tornar uma irresponsável…

 

Brighton soube na mesma hora que tinha tomado a melhor decisão. Levou as duas até um parque, Kenny estava faminta, queria um cachorro-quente, então parou, comprou lanche para as duas e se afastou um pouquinho, queria dar privacidade a elas que não se viam há quase três meses. A última vez tinha sido no aniversário de dezesseis anos de Kenny. Então elas ficaram sentadas na grama, comendo e conversando, e quando Brighton percebeu, as risadas estavam altas e aquelas duas rolavam pela grama porque, eram Parker e Kenny, e o único momento em que Parker se sujava na vida era com aquela sua irmã ao lado. Todas as meninas de Ryan e Havana tinham conexões especiais entre elas, e a coisa de Parker e Kenny sempre tinha sido essas brincadeiras em que se sujavam demais. Foi ótimo ouvir Parker rindo de novo, ótimo vê-la naquele laço tão bonito com sua irmã do meio. Era hora de ir para casa e sim, depois dos beijos de Caribe nas duas, Brighton permitiu que fossem para a casa de Parker. Mas Caribe ficou apreensiva demais quando viu as duas se afastando para a casa que ficava no final da rua.

 

— Brighton, você tem certeza? Se fosse a Gigi, tudo bem, mas a Kenny é a rainha da irresponsabilidade.

— Kenny está crescendo também, tem melhorado, ajudado em casa, cuidado das irmãs. A Gigi está no Brasil e a Kenny bem aqui, pode ser muito bom para ela também, se sentir necessária, você sabe, ela está naquela fase, anda se sentindo um fracasso.

— Eu sei. E no final das contas, ela é uma mini-Havana, não é? Cozinha, cuida das meninas, se vira muito bem na rua. Acho que há ponto nesse seu plano maluco. Apesar da Kenny ser a Kenny, ela chega e todo mundo corre para esconder os namorados, as namoradas, tudo o que for proibido ou ilícito…

 

Brighton a beijou morrendo de rir.

 

— Ela é uma mini você na adolescência, não uma mini-Havana!

— Outro ponto nesse seu raciocínio: eu não deixaria uma filha minha sair com a minha versão adolescente…

 

Foram pra casa, descendo a rua de skate.

 

— Você não pode namorar os dois, Kenny!

— Por que não posso? Eles querem! — Kenny andava namorando um rapaz e uma garota ao mesmo tempo.

— É complicado um só, imagina dois.

— Está complicado com a Sophia?

— Nunca é complicado com a Sophia — Respondeu sorrindo — Só é complicado lidar com duas pessoas. Duas pessoas que não sejam a Sophia, entendeu?

— Entendi — Outro sorriso, pirulito na boca, já todo mordido — Aqui é a sua casa?

— É aqui.

 

Entraram em casa e não estava necessariamente desarrumada. Mas não estava de um modo que Parker gostaria, Kenny viu logo de cara. A verdade é que Parker tinha uma condição em que reafirmações a faziam se sentir segura: o quarto sempre arrumado da mesma forma, os móveis dispostos de uma certa maneira, a rotina marcada, ela só havia começado a melhorar criança quando Havana entrou em sua vida, pondo horário em todas as coisas, refeições, brincadeiras, estudos, banhos. Não que seguissem tudo ritualmente todos os dias, mas a maior parte do tempo, sempre sabiam o que vinha depois e essa sensação deixava Parker segura, o poder de antecipar o que aconteceria em seguida.

 

— Escuta, eu vou tomar banho, você vai também e nós duas vamos cozinhar o jantar.

— Nós duas? Eu não sei fazer direito, Kenny! — Retrucou sorrindo.

— Parker, você é um gênio, esqueceu? Se não sabe fazer direito agora, pode aprender em meia hora.

 

Era verdade, Parker era um gênio, tinha esquecido disso também. Foi para o banho, levou um pouco mais de tempo que o habitual porque tinha machucados que precisavam de cuidados. Às vezes paravam de doer e ela precisava lembrar. Às vezes a porta da dor se abria em seu sistema nervoso e não lhe deixava esquecer. Pronto, conseguiu e quando desceu, Kenny estava escrevendo em uma folha A3 sobre o balcão da cozinha.

 

— O que é isso?

— Sua lista de tarefas, seus horários, as coisas que você tem que fazer. Não pode esquecer, Parker, das suas refeições por exemplo. Dos seus horários de estudo da faculdade e da música. Onde estão as suas aulas de alemão?

— Eu sei os dias. Mas não consigo me lembrar nos dias.

— Pega a sua matrícula pra mim.

 

Ela colocou todos os horários de estudo, de aulas enquanto faziam o jantar. Fariam sopa de peixe e isso também foi anotado numa receita na porta da geladeira. Kenny separou também as tarefas domésticas, limpar a casa duas vezes por semana, lavar roupa no final de semana, limpeza do banheiro, do quarto, fazer compras, ela tinha que fazer compras pra casa a cada 15 dias, precisava também cuidar dos seus sapatos, no momento pareciam que todos tinham sido mastigados por algum cão raivoso. Colaram o quadro na cozinha e jantaram juntas, e só de sentir o gosto da sopa…

 

Era como ser transportada para a Cidade do Cabo.

 

— Como você consegue? Que fique igual da mamãe?

— É só seguir a receita e o tempo de cada coisa, você é cientista, sabe disso melhor do que eu. Amanhã eu vou para a faculdade com você, está bem?

 

E Parker ficou inacreditavelmente feliz. O tempo passava e nada era mais bonito do que o sorriso de sua irmã, Kenny tinha certeza. Jogaram um pouco de videogame, dormiram juntas, acordaram no horário para a faculdade. Tão no horário que, Parker teve tempo de pensar no que vestir. Foi mais arrumadinha aquela manhã, Kenny se esforçou para ir à altura de sua irmã e concordaram que Parker precisava de roupas. Ligou para Ryan no caminho da universidade, disse que iria usar o cartão porque Parker precisava de roupas. Não contou que precisava porque ela tinha manchado metade do seu guarda-roupas, só disse que ela precisava. E ir para a faculdade com Kenny foi muito legal, Parker se sentiu protegida de novo, relaxada para prestar atenção na aula, focada no que tinha que fazer depois, mas com muito mais calma. Tudo estava anotado, bastava olhar para a agenda e a ansiedade relaxava. Se soubesse que seria tão simples, que bastava anotar as coisas…

 

Falou disso no almoço que fizeram no parque, antes de irem para o conservatório de música.

 

— Parker, as suas aulas, eu não consegui acompanhar nada! Como que você consegue aprender? É tudo extremamente complexo.

— É física. A professora diz que a física escolhe os seus estudantes — Respondeu sorrindo — Eu não tinha pensado em anotar, Kenny. As tarefas, eu não tinha pensado.

— É porque você está distraída construindo um satélite — Outro sorriso — Parker, basta anotar. O seu cérebro não tem mesmo que ficar se debatendo tentando lembrar das coisas. Eu anotei o seu endereço, os números de telefone, a quem ligar se você não estiver se sentindo bem, a única coisa que precisa lembrar é de olhar na agenda, tudo está nela. Outra coisa, as suas rotas estão aqui também. Skate é perigoso, não pode ir nele para todos os lugares, entendeu?

— É que eu não estava conseguindo lembrar mesmo. A Sophia vem comigo para a faculdade e me deixa nas outras aulas quando está aqui. Eu me sinto mal por ela ter que fazer isso, mas me sinto bem porque não esqueço de nada.

— Ela reclama de fazer? Porque pra mim, ela diz que adora, que gosta de passar a maior parte do tempo com você.

— Eu sei que ela não se importa, eu adoro passar tempo com ela também, mas não queria que isso fosse uma obrigação. Tipo, se ela não vier, eu vou me perder.

— Eu entendo o que está dizendo. Mas acho que faltou pra você e para as nossas mães também lembrar que você passou dezoito anos sendo cercada de cuidados. A gente nunca te deixou fazer muita coisa e acho que a culpa maior é nossa, minha e das meninas. A gente não deixava, a gente te cercava, te protegia de tudo, a culpa é nossa, você não precisava de tudo isso. Você e a Sophia, como estão fazendo? Ela fica na sua casa quando está aqui?

— Não todos os dias. A mamãe acha que não é bom morarmos juntas ainda, que eu sou muito jovem, ela também.

 

Kenny lhe olhou.

 

— Sério que você manda a Sophia embora?

 

Parker abriu um sorriso.

 

— Só depois que ficamos juntas. Eu me sinto culpada se ela dormir comigo todos os dias. Mas é melhor quando ela fica aqui, ela também precisa de rotina.

 

Kenny ficou pensando nisso. Então foi para as aulas de música de Parker e no final do dia, fizeram supermercado, com uma lista que criaram juntas e que tinha espaço para anotar quando tal coisa acabasse. Outro jantar juntas, outra receita anotada, arrumaram a sala aquela noite, de modo que lembrasse a sala de Constantia e fizeram a mesma coisa no quarto, onde Kenny ouviu uma videochamada de Parker com Sophia e sorriu apenas de sentir a sorte que sua irmã tinha. Só não era maior que a sorte de Sophia por ter Parker ao seu lado.

 

Final de semana e saíram para andar de skate, trocar músicas no Spotify, ficar de bobeira, ir até um parque de vida selvagem. Os animais sempre relaxaram Parker, sempre, ela adorava observá-los, já fazia mais de seis meses que Parker estava em Joanesburgo e ainda não tinha entrado no Lion Park. Ela ficou olhando as girafas por horas, os crocodilos do Nilo, os empalas, as zebras. Compraram salgadinhos de milho e ficaram andando de um lado a outro, fizeram um passeio para ver os leões e quando voltaram pra casa, Parker estava leve demais. Estudou um pouco, Kenny a ajudou com as raladuras e no domingo, a ensinou a lavar roupas. Tudo anotado, separação por cor, sabão, alvejante, outra tragédia não aconteceria e pela tarde, foram para um shopping comprar roupas novas e quando Parker desceu na segunda-feira, pronta para ir para a aula, Kenny suspirou.

 

— Meu Deus, pronto, esta é você!

 

Ela estava impecável. Calça jeans, blusa branca, terninho italiano de manga 3/4, os cabelos trançados, sapatos limpos, aquela era Parker Scholtz!

 

— Eu acordei com tempo. E separei as roupas ontem — Daí desceu mais rapidinho ainda, sentindo um cheiro característico — Você fez leite caramelizado!

— Para o seu café da manhã, vem, senta aqui, eu fiz aqueles pãezinhos ontem à noite…

 

Tinham tempo também para apreciar o café, para colocar o almoço na mochila, se Parker cozinhasse quando chegasse da escola, sempre teria almoço na mochila e os dias que não tinha, podia almoçar numa lista de lugares que Kenny marcou em sua agenda.

 

— Parker, eu ainda não faço ideia do que quero fazer. Só tenho mais um ano e nada me vem à cabeça. Estes dias na tua faculdade me deixaram assustada.

— Kenny, alguma coisa vai escolher você. Ou já escolheu. Você pensa em alguma coisa, eu tenho certeza que pensa.

— Educação física. Eu gosto de esporte. E gosto de cozinhar. Até cozinhei no restaurante da vinícola antes de vir para cá, sabia? Foi muito divertido! A chef ficou surpresa por eu não ter me atrapalhado.

— Você nunca se atrapalha. Sempre foi extremamente organizada, todas essas listas que você fez, eu fui incapaz de pensar. Mas não me puni por isso, porque… — Outra bocada nas torradas com geleia que ela também tinha feito — O meu cérebro funciona diferente. Eu não sou boa em todas as coisas. Você também não tem que ser. Aliás — Olhou para ela — Você já é boa em coisas demais, Kenny. É bonita demais, organizada demais, cozinha demais, é uma atleta incrível. O que mais você quer ser? Eu só sou bonita e genial… — Disse, extremamente sincera e fazendo Kenny rir demais.

— Ser bonita e genial, coisa pouca, é claro. Parker, eu não tinha ideia dessas coisas que você disse sobre mim, mas agora que você disse… É verdade!

— Acho que a maioria das pessoas não consegue se ver, Kenny. Obrigada por ter vindo. Eu não sei como seguiria se você não tivesse aqui.

 

E Kennedy Scholtz poucas vezes na vida se sentiu tão útil como naquele momento. Iria embora naquela tarde. Foi para as aulas com Parker outra vez e procurou cursos no catálogo da universidade. Achava que gostava mais de cozinha do que de esportes, podia ser uma chef de cozinha que curte esportes no final de semana, a ideia lhe agradou muito! Agradaria suas mães? E Parker lhe mandou relaxar, ela não tinha que agradar todo mundo, só achar algo que lhe fizesse bem, ela falou naquela sinceridade cortante que fazia Kenny rir. Foram almoçar no shopping e, Parker chorou.

 

Não de tristeza, não porque Kenny estava indo embora, chorou porque ela lhe comprou uma boneca de super-heroína.

 

— É a Capitã Marvel!

— Guarda ela com você, no seu quarto, é por isso que seu quarto não parece seu quarto, não tem uma boneca nele!

 

Aula de música e era hora de Kenny ir para o aeroporto. Calhou de sua partida ser meia hora depois do retorno de Sophia. Elas se encontraram no aeroporto e eram namoradas há três anos, mas Sophia entendia que os beijos de Parker eram um privilégio. Sim, agora ela já lhe beijava sempre, mas não perdia o gosto de privilégio de jeito nenhum. Elas se sorriram, se olharam nos olhos, se pegaram nas mãos e Sophia veio abraçar Kenny, uma de suas melhores amigas.

 

— Eu não acredito que você já tem que ir!

— Não posso perder mais aulas, mas estou feliz que esteja de volta logo! Não queria deixar a Parker sozinha.

— Você nunca quer. Nem deixar ela sozinha, ou ficar longe dela, pensa que eu não sei?

 

Era toda a verdade. Kenny partiu para o embarque, olhando para trás só para se certificar de algo que já sabia há muito tempo. Sophia era a pessoa certa para Parker, ponto. Esquisitamente, Parker também era a pessoa certa para Sophia e achava que os outros chamavam isso de romance. A viu mostrando sua boneca para a namorada toda feliz e viu o sorriso de Sophia ao ver a super-heroína. Ela entendia o que cada coisa significava e o que Kennedy não compreendia era por que suas mães também não entendiam isso. Três horas de voo e desembarcou numa gelada Cidade do Cabo! E Ryan tinha vindo lhe buscar.

 

— Bem se vê que você estava com a Parker! — Sua mãe lhe beijou os cabelos cheirosos e arrumados.

— Mãe, se você visse a Parker fazendo bagunça… Eu nem sei se vou superar a visão, juro que não sei…

 

Ryan caiu no riso e levou sua filha para comer alguma coisa. Kennedy sempre estava com fome, achava impressionante.

 

— Sabe o que a gente podia fazer? — Ryan perguntou enquanto dirigia.

— O quê?

— Pôr do sol na Signal Hill! — Respondeu, já mudando o caminho.

 

Kenny adorou a ideia! Podia estar crescida, mas um tempo sozinha com uma de suas mães sempre era especial. Pararam num food-truck, pediram sanduíches e chocolates quentes, e então foram se sentar no alto da montanha, para ver o sol se pôr ainda que estivesse um pouco nublado. As galinhas da Angola davam o seu show e já deu saudades de Parker.

 

— Ela adora essas galinhas.

 

Ryan puxou a filha para perto.

 

— Já está sentindo falta, bebê?

— Dela, da Gigi, ainda bem que tem as gêmeas, eu ia me sentir muito sozinha, mãe.

— Eu sei, filha, já disse que sei como você se sente — Beijou os cabelos dela — O que achou da sua irmã?

— Que ela é incrível. É um gênio mesmo. Vai pôr um satélite em órbita antes dos trinta anos, eu tenho certeza. Mas mãe, ela não sabe muito bem como se virar sozinha. Ela precisa de direções, eu deixei algumas anotadas e sei que ela vai seguir, e se sair muito bem, mas… — Tomou um gole do seu chocolate com creme — Por incrível que pareça, aquela autista não nasceu para ficar sozinha e eu acho que a culpa é nossa… — Disse, fazendo Ryan rir demais. Estava bem esporte aquele dia, jeans, suéter azul, relógio no pulso, óculos escuros, sempre charmosa, sempre bonita.

— Vocês a mimaram demais.

— Muito, mãe, a Parker é mimada até pela Ri-Ri, imagina pelo resto de nós. Ela sente falta. De mim, da Gigi, da Eiffel, da Ri-Ri agarrada nela, veja bem, até da Ri-Ri agarrada nela… — Parker detestava contatos físicos. Mas adorava estar agarrada em Havana e adorava ter a extra carência da pequena Ryan agarrada em si — Ela está bem e vai ficar melhor ainda, mas eu acho que a permanência da Sophia faria uma enorme diferença positiva.

— Elas são muito jovens, Kenny.

— Eu sei, elas sabem também. Mas nós mimamos a Parker, e agora? Ela se atrapalha até para lavar as roupas, mãe.

 

Mais risadas de Ryan.

 

— Por isso gastaram todo aquele dinheiro em roupas novas?

— Estavam todas manchadas, a minha irmã não pode andar igual a mim por aí, mãe, nem combina. Promete que vai pensar com a mamãe sobre isso?

— Prometo sim, juro para você que irei pensar em tudo o que me disse.

 

Uma galinha passou ao lado delas, se sacudiu inteira, eram lindas, barulhentas e coloridas aquelas aves, e o sol começou a desaparecer no horizonte.

 

— Mãe, eu quero ser chef de cozinha.

 

E Ryan abriu outro sorriso olhando para ela.

 

— Sério?

— Eu posso ser? Eu pensei de estagiar no restaurante da vinícola, a chef disse que eu me saí bem, eu podia aprender mais a respeito, o que você acha?

— Eu acho que a Havana vai ter uma coisa quando ouvir isso! — Apertou sua menina nos braços — De verdade, filha, é isso o que você quer?

— Se vocês me apoiarem…

— Kenny, sua mãe estava disposta a te apoiar ainda que você decidisse, sei lá, ser atleta de snowboard nessa cidade sem neve… — Agora os risos foram de Kenny.

— É sério, mãe? Eu posso ser qualquer coisa?

— É claro que você pode ser qualquer coisa. Nós vamos estar aqui para te apoiar, só queremos que você estude, filha, que tenha um rumo, eu fico feliz que tenha voltado da visita a Parker assim. A sua irmã sempre te fez bem, sempre. E você sempre fez bem para ela, é uma troca justa, vocês se completam.

 

Ryan sentia que era assim, verdadeiramente sentia e assistindo aquele belo pôr do sol com sua menina do meio, se deu conta de algo extremamente importante: estava casada com Havana uma semana depois de terem se beijado pela primeira vez. Não fazia sentido manter Parker afastada de Sophia apenas porque aquela ideia lhe deixava desconfortável.

 

E assim, Parker e Sophia estavam morando juntas na semana seguinte, seguindo o calendário de Kennedy e uma rotina com a qual Parker ficasse confortável. Se esqueceram das crises; com a felicidade e a organização de Parker, as crises pareciam muito sem graça para aparecer.

Notas do Capítulo Extra:

 

Olá, meninas!

 

Viram como o puxão de orelha de leve surtiu efeito? ♡

Muito obrigada por todos os comentários no último capítulo extra desta nossa brincadeira aqui e muito obrigada de verdade, por terem compreendido e comprado a mensagem: eu curto e quero muito continuar produzindo conteúdos gratuitos para o site, mas eu preciso ver retorno disso ou não faz sentido 😊

 

Superada a fase do puxão de orelha, aqui estamos com mais um extra de Havana! Daqui a pouco, dará para fazer um outro livro só com os extras de Havana, acho que contando por cima, já temos ao menos umas cem páginas de extras já escritas hahaha.

No extra de hoje, tivemos uma outra fase da Parker. Nossa garota cresceu, deu um passo de independência, mas ao mesmo tempo, a dimensão onde vive Parker Scholtz cruza com a nossa, mas não se firma por aqui. Senti a necessidade de trazer um pouco dos desafios dela em viver sozinha e senti também uma enorme vontade de escrever um pouco mais da nossa outra garota Scholtz: tivemos um pouco das gêmeas no extra da Havana, e agora foi a vez de vermos um tantinho da Kenny também ^^

 

Falando nas nossas garotas Scholtz, temos extra de Gigi chegando no próximo domingo! Mesmas regras, se atingirmos 25 comentários até às 23 horas de sexta-feira, dia 03/05, extra publicado no dia 05/05 às 17 horas!

 

Extra com direito a crossover, hein!!! Fui buscar uma paixão para Gigi em uma outra história aí, quem arrisca dizer quem é?

 

Ei, publiquei um conto no Lettera esta semana também! Quem quiser dar uma olhada, clica aqui, se Passional for bem aceito, quem sabe não rola uma Versão Explicit aqui no site?

 

Abraços!

 

 

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