Capítulo Extra Havana: O Efeito do Sorriso Dela

5/5/2019

 

Precisava concordar com Caribe: as coisas pioravam um tantinho em dias mais frios.

 

Gigi já estava no Brasil há dois meses e estava adorando estar! Adorava falar apenas em português a maior parte do tempo, estava adorando a companhia constante de Isadora, a melhor amiga de sua mãe, lhe ensinando sobre finanças e administração pelas manhãs e então, pelas tardes, fazia o que mais gostava de fazer no mundo: ia correr as plantações, verificar as mudas, ver como estavam crescendo, se desenvolvendo, passava sempre parte de seus dias com os agricultores, com as mãos na terra, entendendo e melhorando a produção. E entre essas duas tarefas, existia aquela que havia feito Gigi se apaixonar pelas fazendas:

Ainda adorava fazer as turnês! Tanto pelos campos de chá como pela vinícola, simplesmente adorava e sentia que podia passar o dia inteiro fazendo aquilo sem sequer se cansar.

 

A fazenda era mista, 70% dela era ocupada com as plantações de chá e os outros 30%, ainda produziam vinho, que como presente em um dos aniversários de casamento, Ryan havia rebatizado de “Havana”. Tinham mudado toda a produção em segredo, trazido a fazenda de volta porque afinal, vinho sempre seria a paixão principal de sua esposa, Ryan havia cuidado de tudo isso e Gigi se sentia muito feliz de ter uma vinícola em pleno funcionamento para dar conta também! As turnês variavam muito, algumas incluíam a sub-fazenda de vinho, outras apenas os campos de chá, o restaurante era algo novo que estava começando a dar muito certo, ficava no alto, num estilo bangalô, meio casa na árvore, assinado por uma talentosa arquiteta venezuelana que dava um ar romântico acompanhado pela cozinha rústica e delicada. Era a nova paixão de Gigi, sempre fazia questão que tudo estivesse perfeito no restaurante e se orgulhava de dizer que as coisas que eram servidas lá, eram produzidas na própria fazenda, o que sempre fazia Isadora rir e dizer que ela era mesmo filha de Havana Exposto, não tinha dúvida nenhuma a respeito disso.

 

Resumindo, tudo ia muito bem no Brasil, a não ser pela falta constante que sentia de casa.

 

Levantou da cama tremendo de frio! Tinha acendido a lareira, mas algo a apagou durante a noite, Kenny era melhor em fazer fogo, estava morando na casa de Cora, aquela que ficava no finalzinho da fazenda onde haviam passado seu primeiro Natal todas juntas no Brasil. Adorava as lembranças daquela casa, adorava dormir e acordar numa fazenda, sua avó não morava ali, morava na capital, mas sempre vinha nos finais de semana lhe fazer companhia, o que era extremamente bom! Nunca havia tido uma avó só para si, era uma experiência totalmente nova, mas ainda assim…

 

Sentia falta. De estar rodeada por sua família, falta da gritaria pela casa, falta das gêmeas correndo com Kenny, dos inventos de Parker espalhados por todos os lugares, falta de suas mães, do carinho, do colo de todo dia. Caramba, estava mesmo frio! Tocou no chão de madeira e seu corpo inteiro estremeceu, estava parecido com pisar sobre gelo puro, se enrolou no cobertor e decidiu dar uma olhada pela janela. E, tinha neve! Como assim tinha neve?

 

Caçou os chinelos pelo quarto e foi lá fora, Isadora já estava fazendo o café. Ela não morava lá, mas morava também, acabava ficando a semana toda e Gigi sempre tinha companhia.

 

— Tem neve!

— Eu sei, criança africana, eu te disse que neva de vez em quando… — Ela respondeu sorrindo ao coar o café.

— Mas eu não achei que… — Estava encantada olhando lá fora. Era uma fina camada, não dava nem para fazer uma bola de neve decente, mas ainda estava caindo do céu e era… Lindo. Lindo demais — É neve, Isa, a gente tem que ir lá fora!

 

Arrastou Isadora para fora da casa, porque queria e queria muito sentir aquela neve rala caindo, Isa nem pôde dizer não, Gigi estava crescida, mas nem tanto e sabendo o quanto ela andava triste, vê-la feliz com aquela neve lhe fez bem também.

 

— Isa, as gêmeas iriam adorar! — Ela disse, correndo de cobertor pelo quintal, fazendo Isadora morrer de rir.

— Só as gêmeas? Parker iria adorar, Kenny também, essas crianças africanas carentes de neve…

 

A deixou ficar lá fora um pouco mais e então, a trouxe para dentro, ou iriam se atrasar para o escritório aquele dia!

 

— Vamos, corre para o banho, se veste e nós tomamos café no escritório, temos uma reunião importante agora, lembra?

 

Sobre a produção para os parceiros comerciais, Gigi iria apresentar, lembrava sim. Correu e entrou num banho quente porque tudo estava gelado demais! Saiu do banho, se vestiu rapidinho, calça e botas de montaria que lhe lembravam de Havana, uma camisa branca de colarinho por baixo e um suéter elegante de Ryan por cima, azul, Ryan adorava azul, Gigi tinha roubado roupas de todo mundo quando veio para o Brasil. Arrumou os longos cabelos loiros numa trança e quando apareceu na sala…

 

Isadora suspirou. E lhe fotografou com o celular.

 

— Ei! — Aquilo sempre fazia Gigi rir.

— As suas mães têm troços sempre que eu envio as suas fotos assim, toda arrumada, ninguém acredita que você se tornou esta moça tão alinhada!

 

Mais sorrisos de Gigi.

 

 — É só para o trabalho.

— E tem que ser mesmo, aquele seu estilo meio largada faz o maior sucesso que eu sei. Vem, vamos, para dar tempo de tomarmos um café decente…

 

Tomaram café apenas café e foram para o escritório. Deu tempo de comer uma fruta, pães fresquinhos feitos no restaurante, o céu sisudo, o frio intenso e tiveram a reunião conduzida perfeitamente por Gigi. Ninguém tinha mais propriedade daquelas plantações do que ela, ainda da Cidade do Cabo, Gigi sempre tinha mais informações do que Isadora, não fazia ideia de como, mas ela estava sempre presente. E os parceiros de negócios adoravam. Que ela fosse tão jovem e tão segura, era como uma garantia estendida de bons negócios, quando Ryan e Havana se retirassem da empresa, deixariam aquela garota brilhante e segura do que fazia, com tino para empreendimento e paixão extrema pelo meio-ambiente. A decisão só era boa se fosse bom para os negócios e para os pampas, ponto final. Almoçaram juntas, sozinhas no restaurante agora vazio, a neve tinha afugentado os turistas, o que Gigi considerava um absurdo. Os campos de chás eram lindos demais e sob aquela fina chuva de neve, tinham ganhado tons mágicos, uma pincelada dos deuses. Estava distraída, olhando para o horizonte vasto.

 

— Giuliana?

— Oi.

— Vai ficar assim todo o tempo? Gigi, eu sei que é difícil, mas você está fazendo um trabalho ótimo aqui. Olha a apresentação de agora, os resultados que você mesma mostrou.

— Eu adoro estar aqui, Isa, adoro mesmo, amo o trabalho, a fazenda, todas as coisas, está sendo maravilhoso para mim.

— Sendo assim eu não deveria estar indo dormir todos os dias com medo que você acorde e pegue o primeiro avião para a Cidade do Cabo… — Disse, a fazendo rir.

— Não é assim, mas é que... Eu não sei explicar.

— Eu vou explicar: você está cercada de gente velha... — Mais risos de Gigi.

— Você não é velha!

— Quê? Tenho vinte e pouco anos a mais que você e ainda assim, sou uma das pessoas mais jovens deste lugar. Eu estou contratando estagiários, dei preferência para estudantes da sua idade, você precisa sair um pouco, Gigi, conhecer as cidades aqui perto, ir para a capital de vez em quando, com alguém que não seja a Cora ou eu. Eu sei que você sente falta das suas irmãs, falta da Cidade do Cabo, das suas mães, mas melhora se você pensa em outras coisas, se sai com outras pessoas, entendeu?

 

Gigi olhou para ela.

 

— Sério que contratou estagiários só para eu não me sentir sozinha?

 

Isadora pegou a mão dela sobre a mesa.

 

— Eu preciso de você bem e que fique comigo mais tempo. Você está aqui há dois meses e já fez um monte de diferença. É como ter a minha melhor amiga perto de mim outra vez.

 

Gigi beijou a mão dela, sabia que Isa gostaria de ter Havana por perto mais tempo.

 

— Acho que precisamos contratar estagiários da sua idade para você fazer uns amigos, Isa... — Disse, fazendo Isadora gargalhar.

— Você é igualzinha à sua mãe mesmo.

— É por isso que você gosta de me ter aqui, sente falta da mamãe por perto.

— E você é tão boa quanto ela. Pois bem! — Ela olhou alguma coisa no celular — Só uma cliente não desmarcou a turnê e ela é todinha sua...

— Ei, por quê?

— Olha este sobrenome — Mostrou o celular a ela — Gringa com toda certeza, os gringos ficam tão felizes de encontrar outra gringa por aqui...

 

Mais sorrisos de Gigi. Olhou o nome.

 

— Deve ser alemã?

— Uma senhora alemã que vai passar voando pelos campos de chá em busca da degustação dos vinhos! Divirta-se!

 

Isadora era ótima. Gigi estava se sentindo um pouco solitária, era verdade, sentia falta de ter amigos da sua idade, mas sua melhor amiga agora era Isadora e a adorava demais. Foi para a recepção então, pegou um chá quentinho, esquentou suas mãos e viu um carro se aproximando. Pela placa, era alugado, com toda certeza era sua senhora alemã da turnê.

 

— Ela reservou para apenas uma pessoa? — Perguntou para a recepcionista.

— São três pessoas, senhorita.

 

Os funcionários lhe chamavam de senhorita, achava uma graça. E então que sua alemã desceu do carro e bem, era tudo, menos uma senhora.

 

Sua mente fez “uau” e por sorte, não se tornou audível. Ela desceu, botas nos pés, meia-calça, vestidinho, um casaco elegante por cima, bonita demais, airosa demais e, parecia bem mais árabe do que alemã. E então, do lado do passageiro desceu uma loira... Era sério? Eram a sua única turnê do dia? A árabe veio ao seu encontro primeiro.

 

Mrs. Krähenbühl?

— Chloe, por favor — Ela lhe respondeu sorrindo e, em português.

— Brasileira? — Foi inevitável abrir um sorriso para ela.

— Meio suíça, meio árabe, mas nascida neste país maravilhoso — A moça loira muito mais agasalhada que a árabe respondeu sorridentemente — Ei, ela não vai descer mesmo? — Ela perguntou olhando para trás.

— Brenda, eu vou lá falar com ela, espera aqui...

— Não, diamante, eu vou lá, eu não vim de BH pra essa garota ficar dentro do carro!

Musa, compreensão, ok? Ela não está bem.

— Compreensão? Às vezes, há momentos que pedem por incompreensão, Chloe. Espera, você é a nossa guia?

 

Gigi sorriu.

 

— Sou eu sim, Giuliana Scholtz, prazer, como você está?

— Brenda Rippi — Ela pegou a sua mão sorrindo — E, você sim deve ser a gringa por aqui!

— Então, sul-africana — Outro sorriso.

— Filha da Havana, provavelmente.

— Conhece a minha mãe?

— Viemos aqui há uns dois anos e tive o prazer de conhecer a sua mãe, passamos uma segunda lua de mel aqui na cidade e ela fez a nossa turnê. Espera, eu já volto, só um minuto — Ela voltou para o carro deixando Gigi sozinha com Chloe.

— Então, Giuliana, deixa eu te explicar: eu sou pintora — Ela lhe contou sorrindo.

— Minha mãe deve ter adorado você!

— Ela é violinista, não é? Me mostrou vídeos das suas irmãs, uma que toca violino e a outra que toca piano.

— Ryan e Parker, ela adora ter artistas em casa.

— Ela me disse essa parte também. Então, nós viemos para a turnê, porque adoramos este lugar da outra vez, mas eu queria saber se tem como eu desistir do passeio para pintar um pouquinho...? É que nevou e olha este visual! Me deu vontade de pintar assim que cruzamos o portão — Ela lhe contou sorrindo.

— É claro que não tem problema — Sorriu para ela — Será bem diferente ter alguém pintando por aqui! Sinta-se à vontade para... — E então, Gigi parou de repente. Porque Brenda tinha voltado do carro e, não tinha voltado sozinha.

 

Que menina... Linda. Loira, cabelos longos, a boca tão vermelha e os olhos também estavam vermelhos, ela parecia ter chorado há pouco tempo e parecia tão frágil que... Ela lhe olhou. Com olhos profundamente castanhos, aquela beleza gratuita que não precisava de muita coisa, respirou mais fundo pintando o ar de branco e Gigi... Estava falando, tinha esquecido. Olhou para Chloe novamente.

 

— Desculpa — Não fazia mais ideia do que estava dizendo — Tem preferência de lugar? Quer que eu peça uma cesta para você já que não vai fazer a turnê? Vem mel, geleias, croissants, alguns doces, chá, é claro.

 

Chloe abriu um sorriso.

 

— Seria muito gentil.

 — Então eu vou solicitar e — Se voltou para Brenda e aquela menina linda. Caramba, ela era bonita mesmo — Vocês duas irão fazer a turnê?

 

Brenda olhou para a garota, ainda com cara de choro.

 

— Eu vou tirar algumas fotos.

— Você me trouxe aqui para me deixar sozinha, é isso?

— Desculpa, mas — Gigi interrompeu — Eu vou fazer a turnê com você, então sozinha tecnicamente... — Disse charmosamente e ela...

 

Ela sorriu. Sorriu e o efeito do sorriso dela fez Gigi sorrir também, enervar um pouquinho, tentou ser suave para que ela não ficasse desconfortável, mas não achou que ganharia um sorriso. Ela sorriu e isso... Causou um efeito. Que raro.

 

— Turnê para uma pessoa?

— Uma pessoa de bom gosto, este lugar fica ainda mais bonito assim, não acha?

 

Ela olhou para a irmã. Eram muito parecidas, ninguém precisava dizer que eram irmãs.

 

— Vai, irmãzinha — Brenda sussurrou para ela e ela...

 

Deu um passo em direção a Gigi, que, é claro, abriu outro sorriso. Era sério? Sua alemã chata tinha se convertido numa pintora árabe bonita demais, com uma esposa charmosa ao lado que nem queriam saber de sua turnê e ainda por cima, aquela menina. Iria poder passar uma horinha com ela, não podia reclamar de nada, adorava o Brasil, amava o seu emprego.

 

— Eu vou pedir para que tragam a cesta e, este aqui é o meu número — Entregou um cartão — Podem me chamar de onde estiverem caso não fiquem por aqui, a fazenda é de vocês, sintam-se livres para dirigir para qualquer lugar. A turnê dura uma hora mais ou menos, voltamos para cá mesmo — E então olhou para a garota novamente — Me acompanha, por favor?

 

Ganhou um segundo sorriso. Bem, dois sorrisos, já era alguma coisa. Ela lhe acompanhou, passando a caminhar ao seu lado.

 

— Eu não me apresentei, Giuliana Scholtz — Deu a mão para ela sorrindo — Tudo bem? Como você está? — A educação sul-africana era um charme com as brasileiras, Gigi já sabia desta parte.

— Desculpa, que idade você tem?

 

Gigi caiu no riso.

 

— Vinte e um, por quê?

— É que a gente já fez umas cinco turnês diferentes e os guias não parecem muito com você não — Ela estava sorrindo também.

— Devia me ver fazendo isso com sete, oito anos, era uma gracinha, os visitantes sempre se derretiam.

— Então já faz isso há muito tempo?

— Posso contar uns treze anos de carreira — Outro sorriso e chegou no balcão da recepção — Por favor, prepare uma cesta para as duas moças lá fora. Elas vão pintar e tirar umas fotos, e — Anotou algo para a recepcionista — Para uma hora, ok?

— Tudo bem. Aqui mesmo?

— No restaurante, muito obrigada — E então, se voltou para sua visitante — Então, vamos lá?

 

Ela respirou fundo sorrindo.

 

— Estou prontíssima.

— Você não me disse o seu nome.

— Ah, sim! Renée. Renée Rippi, desculpe, eu não sou tão educada quanto você, ainda estou trabalhando nisso. Ah, dezenove anos, está bem? — Disse, a fazendo rir enquanto caminhavam para fora — Minha irmã me disse que eu estou parecendo uma criança de doze, mas é que...

— Dia difícil?

Mês difícil — Pisaram fora do escritório e Renée se arrepiou inteira porque estava frio demais.

— Espera um pouco — Gigi voltou para dentro e trouxe um casaco extra e dois copos de chá — Gosta de hortelã? Este tem uma erva indiana que intensifica o sabor e, tem este casaco aqui se você quiser, o frio te pegou de surpresa?

 

Ela abriu um sorriso pegando o casaco das mãos dela.

 

— Piorou durante o dia — Vestiu o casaco que ela lhe ofereceu e esperava que o perfume suave no tecido fosse o dela. Então pegou o copo de chá — Muito obrigada. Já começamos as degustações?

— Vai melhorar a sua temperatura. E, eu também ando tendo um mês difícil, então me compadeço do seu mês também...

Isadora desceu as escadas, vendo Gigi se afastar com Renée.

— Aquela é a alemã velha e viciada em vinho que eu estava esperando?

 

A recepcionista riu.

 

— Então. Vieram em três, mas duas delas vão pintar e tirar fotos, e deixaram a menina...

— Pra Gigi. Quem são essas pessoas que deixaram essa menina linda pra Gigi? Eu preciso conhecer, gente, tenho que agradecer a boa vontade dessas criaturas...

 

Iniciaram a turnê numa velocidade diferente. Degustando o chá que era de fato delicioso, olhando as montanhas, os campos de chá magicamente brilhantes por causa da neve fina enquanto Gigi e Renée falavam de tudo, menos dos chás. Ou das uvas. Ou do clima. Ou de qualquer coisa a respeito dos processos fabris da Kalahari, se esqueceram desta parte, porque quando Gigi deu por si, estava simplesmente levando aquela menina linda para passear.

 

— Então você está quase se formando.

— Se tudo der certo, formo no final do ano. Eu fiz uma pausa, peguei umas disciplinas que podia em EaD porque, eu senti que precisava estar aqui, para entender melhor deste negócio, ajudar de alguma forma, o restaurante estava inaugurando e a sócia das minhas mães trabalhando aqui sozinha...

— Suas mães?

— É, eu tenho duas mães — Respondeu sorrindo.

— Bem, eu só tenho uma mãe, mas tenho a Brenda e a Chloe que acham que precisam dar um jeito em mim, então é como ter três mães...

 

Mais risos.

 

— Elas parecem muito apaixonadas.

— Elas são, parece que não vai passar nunca, elas se adoram, se admiram e eu tinha certeza que... — Respirou fundo, olhando as montanhas — Tinha encontrado um relacionamento parecido.

 

Então era isso. O choro era de coração partido.

 

— O que aconteceu?

Ela parou de gostar de mim — E o “ela” no começo da frase foi maravilhoso de ser escutado — Simplesmente parou. Têm uns dois meses já e eu acho que machuca tanto porque é verdade. Ela foi muito sincera e muito sem jeito em ter que me contar isso, eu só vim para Porto Alegre por causa dela, ela conseguiu um bom emprego aqui e eu ia começar a faculdade, por que não? Pareceu uma boa ideia. E então... — Respirou fundo — Se foi, o que a gente tinha. E se foi para mim também, e é tão estranho que...

— Espera, você também parou de gostar?

— Parece uma derrota — Ela disse, escalando e sentando-se numa cerca de madeira — Você investe bons sentimentos numa boa pessoa, numa garota linda, que esteve comigo numa fase tão complicada e de repente... Tudo se vai. Sem nenhum motivo, nenhuma traição, apenas se vai, deixa de existir.

 

Gigi olhou bem para ela.

 

— Você estava chorando no carro...?

— Eu vi uma foto — Confessou sorrindo e sem jeito — Acho que ela está ficando com outra pessoa e... Brenda me arrancou do carro. Ela tirou uns dias para ficar comigo, está preocupada, elas têm um estúdio de arte e moda em São Paulo, vieram só para cuidar de mim, e... — Outra longa respiração e, escorregou os olhos para Gigi — Ela disse que você era bem bonita...

 

Gigi caiu no riso.

 

— Ah, ela disse?

— Disse — Renée estava sorrindo também — Disse que passar uma hora ouvindo uma menina bonita e bebendo chá não me faria mal.

— Olha — Gigi subiu e sentou ao lado dela na cerca — Ela tem razão, eu sou bonitinha, os chás são incríveis, aparentemente você gostou um pouquinho de mim...

 

Ela caiu no riso.

 

— Você é convencida!

— Você está sorrindo pra mim! É uma pequena conquista — Outro sorriso, outro olhar para ela — Você gostou dos meus olhos, eu vi você olhando... — Mais risos causados nela — Eles são raríssimos, olhos verdes só são menos raros que olhos vermelhos, sabia?

— Existem olhos vermelhos?

— Pra você ver o quanto são raros, as pessoas nem sabem que eles existem. Eu queria que você sorrisse.

 

Ela se alongou lhe olhando.

 

— Queria?

— Você já é um absurdo de bonita com cara de choro, sorrindo é como uma quebra de recorde de beleza ou alguma coisa assim — Disse sorrindo e a fazendo sorrir novamente, e elas estavam se olhando tão de perto, estavam tão juntas uma da outra, ela parecia estar mesmo gostando da companhia de Gigi, mas... Estava trabalhando e não tinha certeza se devia... Bem, ela era uma visitante de qualquer forma, não devia mesmo — Então — Olhou para frente, quebrando um pouco aquela proximidade — Você estuda o quê?

— Engenharia aeronáutica.

— Sério?

— Muito sério — Ela respondeu sorrindo.

Gênio! Eu tenho uma irmã que é gênio também, sabia?

— Eu não sou gênio, só sou boa em matemática, física...

— Gênio, está vendo? — Desceu, a convidando a voltar a andar, ainda estavam no meio do caminho — Igual a Parker. Ela estuda Engenharia Aeroespacial em Joanesburgo.

— Aeroespacial? Ela é gênio! Acabou de me colocar no chinelo com esse curso...

 

Andaram um pouco mais, riram um pouco mais, falaram de coisas aleatórias, olharam o tempo, sentiram o frio as aproximando mais e mais um pouco, passaram pelas estações de experimentação, haviam barris de água quente e chás que Gigi fez questão de preparar. E então, chegaram até a vinícola. Correram para a adega, para se esconderem um pouco do tempo gelado e:

 

— Quer aproveitar e degustar um vinho nosso? — Gigi perguntou quando sentaram-se ao balcão.

— Hum, então...

 

Nem precisou dizer nada. Gigi pediu dois chocolates especiais para sua barista.

 

— Você não bebe.

— Não mais. Eu tive uns probleminhas com álcool há uns anos.

 

Gigi a olhou surpresa.

 

— Você só tem dezenove!

— Eu sei — Ela riu — Mas é que... Eu tinha irmãs gêmeas...

— Mesmo? Eu tenho irmãs gêmeas.

— Espera, quantas irmãs você tem? Eu já perdi as contas aqui!

— Quatro — Recebeu os chocolates quentes — Obrigada. Nós produzimos o cacau aqui também, é uma receita especial.

— Parece delicioso só de olhar!

— É uma delícia mesmo — Deu um gole em seu copo — Então, eu tenho quatro irmãs, Parker, de dezoito anos, Kenny de dezesseis e as gêmeas de treze, Ryan e Eiffel.

— Então, eu só tinha duas, Brenda e Isa, e de repente, eu as perdi — Ela disse com tanta dor que Gigi sentiu — Isa faleceu de repente e a Brenda desapareceu, sumiu, não sabíamos onde ela estava, se estava viva ou não, para mim foi como perder as duas ao mesmo tempo e... — Ela respirou fundo, os olhos cristalizaram — Havia tanto silêncio. Eu acho que comecei a beber para ver se fazia um pouco de barulho porque o silêncio me machucava tanto, passava por mim como se deixasse milhares de cortes de papel, invisíveis, dolorosos, daqueles que sangram ardendo e devagar — Ela tomou um gole do chocolate quente — Eu não suportava o silêncio.

 

Houve um silêncio entre elas também.

 

— Renée, eu sinto muito. Eu nem consigo imaginar perder uma das minhas irmãs. Elas são tudo pra mim. O meu mês difícil...

— Não é um relacionamento, né?

— Não é, são elas. A falta que elas me fazem. Preciso te confessar uma coisa: eu vim para cá por todos os motivos que te falei, mas também vim porque a minha irmã Parker iria para Joanesburgo e eu não fazia ideia de como iria lidar com isso. Nós sempre estivemos juntas, foi sempre uma loucura, uma bagunça, eu sempre tive um bebê para ajudar a cuidar em casa e quando você falou sobre o silêncio... Eu sei. Eu te entendo, o silêncio me assusta aqui também. E me assustaria em casa porque, de repente, todas cresceram, a Parker cresceu, arrumou um grande amor e... — Sorriso entristecido — Precisava ir. Precisava de outra pessoa e eu não fazia ideia de como reagiria a isso. Elas estão lá, sabe? Crescendo, se virando sozinhas e ainda assim... — Outra longa respirada. Tocou a mão de Renée sobre a mesa — Eu sinto muito mesmo.

 

Ela lhe olhou.

 

— Obrigada por entender. A maioria dos meus amigos da época não puderam me ajudar porque, eu não sei o que acontece, mas parece que os irmãos não se amam como deveriam. Eu amo as minhas irmãs e perder uma delas acabou comigo, acabou com a Brenda e para as outras pessoas... Era só algo que deveria ser deixado para trás. Você é muito família, não é?

— Extremamente — Abriu um sorriso — Aliás, vou mostrar elas para você! Espera só um pouco...

 

E Renée achou que ela lhe mostraria fotos, mas ao invés disso...

 

— Gigi!

— Ei, você! Ri-Ri, cadê as meninas, estão perto de você?

— Kenny está aqui, cozinhando! — Ela virou o celular, mostrando Kenny e Eiffel na cozinha — Eiffel é a assistente dela, porque eu sou um desastre, Gigi...

— Como a Parker diz, você é boa em outras coisas, não sofra por isso! A gente não toca piano, sabia? — Kenny respondeu sorrindo.

— E nem sabe matemática como você, não seja derrotista. Gigi, você notou que é a cozinha do restaurante? Estamos cozinhando para as nossas mães! É uma data especial...

— Que tipo de data especial que eu não estou sabendo?

— Kenny voltou de Joanesburgo e quer ser chef de cozinha!

— Estão comemorando que eu não vou me tornar vendedora de bilhetes de loteria, Gigi...

 

Mais risos, incluindo o de Renée.

 

— Meninas, quero apresentar uma amiga para vocês...

 

Apresentou Renée que foi imediatamente bombardeada. De perguntas, de elogios, Ri-Ri a achou linda, tinha um cabelo lindo, um sorriso lindo, ela sabia que era muito bonita? A pequena Ryan era sempre a coisa mais doce. Já Kenny quis saber se ela era solteira porque Gigi também era, informação à toa, Eiffel perguntou se ela era maior de idade e estava bom de perguntas! Encerrou a ligação dizendo que estava morrendo de saudades, ouviu que elas também estavam e então desligou, disse que ligava antes de elas dormirem.

 

— Elas são intensas!

— Eu sei que são, espera, agora tenho que te apresentar a Parker...

 

E a ligação foi bem diferente. A calma de Parker, o sorriso de sempre, a empolgação porque a mãe tinha cedido e Sophia podia ficar! Não iria mais precisar dizer para ela ir embora. Apresentou Renée para a irmã e quando contou o que ela estudava:

 

— Você deve ser um gênio também! Eu sei como é, espera, você é tão bonita, a minha irmã já disse que você é muito bonita?

 

Mais sorrisos de Renée.

 

— Ela disse sim, só não disse “muito”.

— Ela deve estar tímida. Você podia ficar amiga dela, Gigi precisa de amigos, a minha irmã é tão legal, você vai adorar passar um tempo com ela! Você gosta de Arrow e Supergirl? Ela adora! Se não gostar, têm outras coisas que você pode gostar...

 

Desatou a falar uma lista de coisas que Gigi gostava, a fazendo sorrir demais.

 

— Feito! Eu acho que vou ser amiga dela sim, você acabou de me convencer — Ren estava sorrindo demais também.

 

Conversaram um pouco mais e outra ligação encerrada com uma dorzinha no coração.

 

— Você é apaixonada por elas.

— Eu sou. Por isso é tão difícil ficar por aqui. Eu adoro este lugar, adoro o meu trabalho, mas... Falta.

— Pensa que elas estão felizes no mesmo planeta que você. Não são como a minha Isa que agora é só energia em outro planeta. Eu só posso sentir falta dela, mas você ainda pode pegar um avião daqui a uns meses e ir abraçar essas quatros meninas lindas, Gigi.

 

Aquilo delicadamente, mudou um pouquinho o ângulo de visão de Gigi. Rápido, de modo suave e tão significativo que...

 

— Está vendo aquele sol tímido ali atrás?

 

Tinha um risco de sol no céu.

 

— Estou sim.

— Vai se pôr em meia hora. Quer assistir comigo lá do restaurante?

 

Ren abriu um sorriso lindo.

 

— Não está fechado?

— Está. Mas eu pedi uma cesta de piquenique para nós duas se você quiser.

 

Renée apertou os lábios sem sequer perceber.

 

— Ainda está trabalhando?

— Por mais meia hora — Outro sorriso.

— Ok. Eu quero a cesta e o pôr do sol.

 

Gigi pegou um quadriciclo para levá-la de volta. Até o restaurante daria mais uma longa caminhada, mas queria mesmo assistir ao pôr do sol com ela, foi melhor usar o veículo. O pôr do sol não era tão bonito quando tinha nuvens, mas a neblina tinha lá o seu charme. Restaurante fechado, Ren ouviu os drones de sua irmã em algum lugar, a risada de Chloe, elas estavam aos beijos, aos sorrisos, não precisava ver, era sempre assim. Três anos de casadas e nada mudava. Subiram para o segundo andar do restaurante, havia um deck, uma lareira acesa e de fato, uma cesta de piquenique esperando. Gigi fez questão de fazer a mesa, colocando as xícaras, as canecas, as cestinhas de pão, queijos, mel, croissants, biscoitos enquanto contava a Ren que tinha se apaixonado por sua mãe Havana à primeira vista, mas que depois de comer brigadeiro, tinha decidido que sua mãe Ryan teria que ficar com aquela mulher.

 

— Se ela não quisesse, seria todo problema dela, nem que eu tivesse que crescer e casar com a Havana eu mesma, não podia deixar aquela mulher escapar... — Mais risos quando puxou gentilmente a cadeira para Ren. Ela era tão gentil e educada, Renée nem sabia. Sentou-se e ela sentou ao seu lado, já lhe servindo um chá.

— É mais simples? Quero dizer, ter uma orientação homo numa família homo?

— Então, é e não é — Serviu chá para ela, pondo croissants e pain au chocolate em seu prato, receita de Kenny, como nunca pensaram que ela poderia ser chef de cozinha? Ela decidiu que assinaria um prato no restaurante novo e acabou assinando uma das cestas de piquenique inteira, aquela que Gigi estava servindo. Aliás, a ideia das cestinhas de piquenique também havia sido dela e estavam fazendo muito sucesso, aquele lugar pedia por este tipo de coisa — Eu cheguei à conclusão que nunca é simples para os pais, porque ter uma orientação diferente da maioria acaba exigindo um pouco mais da gente. Mais determinação, mais persistência, mais coragem, é sempre mais, entende? Mas ao mesmo tempo, é simples. Eu sou bissexual, tudo bem, não foi um problema, a Parker se apaixonou por uma menina e podia ser um garoto, ela se apaixonou por alguém que conseguiu entrar na mente dela, acho que só se deu conta de que era uma garota quando contou pra mim. Eu disse, “espera, é uma garota?” e ela ficou pensativa, “é, é uma garota, eu não tinha pensado nisso”. As gêmeas aparentemente são boys crazy, adoram garotos, a Kenny também, mas ela gosta de flertar com as meninas, gosta do beijo, não sente vontade de fazer mais, mas curte o beijo. E sabe? Deveria ser assim para todo mundo.

— Fazer o que queremos sem cobranças. Nem nossas, ou dos nossos pais, ou dos outros. Tem menina que morre de vontade de beijar garotas, mas não faz por medo do título. Como se sexualidade pegasse por beijo.

— Exatamente! Ei, olha que pontual — Era o sol descendo tímido e bonito pelo meio da névoa.

— Quase seis da tarde — Ren apertou os lábios, olhando para Gigi bem de perto — Gigi, ainda é trabalho...?

 

Gigi abriu um sorriso, a vendo tão, mas tão perto.

 

— Ainda é trabalho...?

— Você ter me trazido aqui. É parte do trabalho?

— Bem, o meu turno acaba em um minuto — Olhos nos olhos dela, sorriso de ambas.

— Você programou o piquenique — Sorriu, estava encantada com o piquenique — Aliás, como é que sabia que eu ia dizer sim? Você pediu na entrada, não foi? Quando anotou alguma coisa para a recepcionista?

 

Outro sorriso de Gigi, ela tinha notado.

 

— Eu não sabia. Mas queria ter uma cesta caso você dissesse sim.

— Sim para...?

— Me conhecer melhor, passar um tempo comigo, ver ao pôr do sol, quem sabe? — Mais um sorriso e seu celular deu sinal. Gigi checou.

— Tudo bem?

— Seis da tarde, está me avisando que o meu turno acabou.

— Acabou?

Uhum — Abriu um sorriso, vendo o jeito lindo em que ela estava lhe olhando — Escuta, você tem que ser bem clara se eu puder te beijar porque...

 

Renée sorriu demais e, a beijou.

 

Delicadamente e sem tocá-la com as mãos, apenas levando seu rosto para o dela, roubando a sua boca, pegando o beijo que tanto queria. Renée deslizou suavemente os lábios pelos seus, mordiscando a sua boca, doce, delicada, uma delícia, com gosto de morango britânico e chá indiano. Respiraram fundo, as testas juntas, os sorrisos abertos, os olhos fechados, era sério que ela beijava gostoso assim? Gigi a puxou pela nuca e a beijou novamente, mais profundo, mais longamente, tocando o rosto dela, sentindo aquelas mãos lhe pegando pelo casaco, lhe puxando para perto enquanto o sol caía lindo e lentamente.

 

Como aquele encontro. Aquela paixonite dócil e juvenil surgida naquela tarde de neve fina e cristalina.

 

Se beijaram até a luz partir, trocando sorrisos, abraços, vontade de estar junto, estavam loucas para se beijar desde quando se olharam, Gigi confessou, Renée também, aliás, só desceu do carro porque a viu pelo retrovisor e tinha adorado o estilo dela.

 

— E se eu te contar que geralmente sou mais jogada?

— Eu vou gostar e querer ver.

 

Sorriso de Gigi, outro beijo longo com ela guardadinha entre os seus braços.

 

— Gostar antes de ver?

— Você me passa credibilidade — Ela respondeu sorrindo e, seu celular começou a tocar.

 

Era Brenda, é claro, afinal, já tinha escurecido e as pessoas precisavam fechar a fazenda!

 

Gigi tinha esquecido completamente delas. Daí desceu correndo com Ren, pegou o quadriciclo, dirigiu para lá rapidinho e, encontraram as duas aos beijos no carro enquanto olhavam as estrelas. Saldo? Três telas lindas de efeito marmorizado e, Renée sorrindo demais.

— Me desculpe, senhorita Scholtz, mas você sequestrou a minha irmã! — Brenda disse sorrindo quando as viu chegando tão culpadas.

— Eu sei! Sinto muito, nós ficamos conversando e perdemos a hora.

— Tem batom dela no seu colarinho.

— Sério?

 

Brenda caiu no riso.

 

— Não! Eu só queria saber se vocês tinham ficado, você acabou de se entregar, mocinha...

 

Não acreditava que aquela moça tinha lhe passado para trás, mas ok! Ela parecia feliz em ver a irmã relaxada e como já estava tarde, Gigi perguntou se não gostariam de jantar na casa dela. Explicou que ficava na fazenda, dava para ir de carro e o espírito de Chloe e Brenda gritou sim! Por que não? A noite estava tão agradável. Foram para casa, Gigi avisou Isadora pelo caminho e quando chegaram, ela estava esperando.

 

— Podemos abraçar você? Nós abraçamos qualquer pessoa com o nome de Isadora — Renée disse para Isa sorrindo e era um ótimo sinal de que ela estava melhor. Fazia dias que Brenda não via sua irmã sorrindo.

— É claro que podem! — Isa respondeu sorrindo, sentindo aquele abraço tão carinhoso daquela menina linda — Só me contem a honra, por favor.

— É por causa da nossa irmã, a minha gêmea chamava Isadora, temos um amor incondicional por essas letras... — Brenda a abraçou também, muito delicada e aquilo sempre fazia Chloe sorrir. Aquelas duas amavam e honravam Isa o tempo inteiro, que fosse sempre assim — Obrigada.

— Obrigada vocês por esses abraços — Isa olhou para as duas, um pouco emocionada. O quanto aquelas duas amavam a irmã era tocante até para desconhecidos — É muito bonito. De verdade. — E então abraçou Chloe também, dando boas-vindas, as convidando a entrar.

 

Tiveram uma noite muito agradável. Chloe se ofereceu para cozinhar com Isadora e a conversa delas três na cozinha foi um presente, as três eram viajadas demais e quando começaram a trocar figurinhas, nunca mais pararam. Bom para Ren e Gigi que ficaram pela varanda, se beijando um pouco mais, ficando um pouco mais juntas, olhando o céu que tinha decidido abrir e se estrelar, esquentando-se uma na outra. Jantaram todas juntas e foi muito bom, a conversa, se conheceram um pouco mais e acabou que foram embora apenas quase perto da meia-noite. Chloe deixou um dos quadros de presente, agradecendo pelo dia e Ren e Gigi... Não queriam separar, é claro, mas precisavam.

 

Foi difícil decidir o último beijo, Chloe e Brenda ficaram no carro por uns quinze minutos enquanto Gigi se despedia e quando ela finalmente partiu...

 

— Você cravou as garras na menina! — Isa a empurrou sorrindo.

— Ela é linda! Eu não podia não tentar qualquer coisa.

 

Não podia mesmo. Elas pegaram um hotel em Bento Gonçalves aquela noite e Renée voltou no dia seguinte para almoçarem juntas, porque o voo de Chloe e Brenda era no dia próximo e elas precisavam voltar para Porto Alegre. Não era um problema, Poa ficava a duas horas e pouquinho de distância, mas de alguma forma...

 

Depois da quarta noite conversando muito, morrendo de vontade de ficarem juntas novamente, Gigi se deparou com um outro problema.

 

— Gigi, o que foi agora? — Isa lhe perguntou naquela manhã que corriam as plantações para ver se tudo ia bem — Está tudo certo com a Ren, não está? Você não vai vê-la no final de semana?

— Eu vou, quero dizer... — Respirou fundo — Eu nem sei.

Isadora parou o que estava fazendo.

— Não sabe?

— É que... — Outra longa respirada — Eu só vou ficar por mais cinco meses aqui, Isa. E eu já estou gostando muito dela, como isso vai ser? Se a gente se apegar mais?

 

Isadora lhe falou um monte de coisas sobre isso, mas Gigi ainda não sabia mesmo. Era sexta-feira e quando ligou para Ren aquela noite, contou para ela este medo. Ela valorizava a verdade, ainda que não fosse agradável.

 

— Gigi, sinceramente? A minha irmã Isa viveu o amor da vida dela no seu ano de contagem regressiva. Se você tiver que voltar, só estará voltando para a África do Sul, não é para um outro planeta, lembra disso? Olha, não me diz nada. Se achar que deve me ver outra vez, você tem o meu endereço.

 

Acordou com isso na cabeça. Isso quando conseguiu dormir porque quase não conseguiu também.

 

— Giuliana?

— Eu... Vou ver as plantações.

 

❧❧❧

 

Renée se recusou a chorar. Não iria chorar, talvez, no final das contas, Gigi estivesse lhe cuidando de uma ferida maior. Já estava sozinha novamente, naquela cidade em que a única pessoa que conhecia era Alice, com quem não namorava mais e Giuliana que, bem, aparentemente tinha preferido terminar antes de começar qualquer coisa de fato. Era sábado, então decidiu estudar. Fazer algumas tarefas atrasadas, seu término tinha atrapalhado o seu semestre inteiro, mas não podia se dar mais o luxo. Podia voltar para Belo Horizonte. Podia ir para São Paulo com Brenda. Ou podia ficar, se formar, entender como era morar sozinha, podia ser uma boa coisa também. Rolou no sofá, pegou seu celular, não tinham mais se falado desde a noite passada. Tinha sido tão bom... Mas tão que...

 

Suspirou, pensando naquela sul-africana que era a coisa mais linda, que era doce, educada, que tinha decidido melhorar o seu dia apenas porque lhe viu chorando. E então, seu interfone tocou. Levantou para atender e, abriu um sorriso enorme! Mandou subir, correu para o espelho, se deu uma olhada, estava de short de algodão e um blusão comprido, esperou que ela não fosse se importar!

 

Correu para atender a porta e:

 

— Você veio... — E então, seus olhos correram até os pés dela meio que sem querer — Com botas de trabalho?

 

Gigi abriu um sorriso.

 

— Eu saí para trabalhar, olhar as plantações, mas de repente, me deu uma coisa, eu nem pensei, só peguei a estrada e... — Apertou os lábios sorrindo, estava tão feliz de olhar para ela outra vez — Você está tão linda — Sussurrou, se encostando na porta, a fazendo sorrir mais.

— De blusão e descabelada?

Uhum — Outro sorriso, a olhando um pouco mais. Olhos nos olhos, lábios apertando e...

 

Renée a puxou para dentro.

 

E a beijou, a agarrando pelo pescoço, sentindo Gigi lhe pegando, lhe puxando pela cintura, lhe apertando em seus braços, sentindo a sua pele, o seu cheiro, aquele beijo gostoso, do tipo que se sente pelo corpo inteiro, da cabeça ao dedão do pé. Beijar Renée tinha sido assim. Gigi tinha sentido em seu corpo, em sua mente, em seu coração. Não podia ignorar, não podia deixar para lá, não podia ficar mais um dia que fosse, sem beijá-la outra vez.

 

— Espera, esta é você mais largada?

 

Gigi sorriu, tirando o boné de sobre os cabelos, agora soltos, sem tranças.

 

— Boné e essa xadrez vermelha são um clássico.

— Eu estou muito ferrada...

— Você não é a única — Respondeu sorrindo, olhando naquele rosto lindo, o braço em volta da cintura dela, a mantendo tão, mas tão perto. Estava morrendo de saudade, nem sabia explicar — Eu já estou gostando de você como se fossem meses.

Deixa parecer anos. Eu quero que a gente fique junto. Só hoje ou amanhã, ou por uma semana, os meses que restam, não importa. Eu quero.

 

Como que tinha pensado em perder aquela menina linda? Gigi fez um carinho no rosto dela.

 

— Afinal, nós estamos no mesmo planeta, não é? Eu entendi que só isso já é um privilégio enorme.

 

Renée sorriu, a agarrando demais, a beijando outra vez. Estavam no mesmo planeta, era tudo o que deveria importar e aquele sorriso bonito no rosto dela...

 

O efeito do sorriso dela. Gigi não fazia ideia do futuro, ou de como as coisas seriam, mas sabia que o sorriso daquela menina linda... Queria. Precisava. Fosse pelo tempo que tivessem.

 

— Poxa, eu saí de repente, nem trouxe nada para você...

— Você se trouxe para mim — Encostou sua testa na dela, fechando os olhos, a mantendo junto — Eu tenho chocolate em pó, de supermercado mesmo — Disse, a fazendo rir — Pão de queijo congelado que a minha mãe mandou, tenho Netflix, este sofá que a minha irmã comprou, e um monte de saudade. Você não faz ideia do monte de saudade...

 

Na verdade, fazia. E estava bem, chocolate industrial, pão de queijo mineiro, sofá, Netflix, os beijos dela. Tudo estava bem, bastava descartar a saudade de uma vez.

Notas do Capítulo Extra:

 

 

Olá, meninas!

 

Aqui estamos com o último extra do Projeto “As Favoritas” que teve como saldo final mais do que positivo a publicação de 7 extras e mais o superávit de dois livros a serem publicados em breve! 😉 Eu só tenho a agradecer a todo mundo que votou, que entrou na brincadeira, agradecer aos mutirões que lutaram para conseguir capítulos extras dos extras (coisa que somente vocês conseguem, viu ❤️), agradecer a quem entra aqui para ler e mais ainda agradecer a quem lê e deixa sua marquinha aqui em forma de comentário, muito obrigada mesmo!

Como disse antes, o desafio me rendeu, pelo menos, dois livros novos, as senhoritas já podem contar com Delirium: Tempestade Tropical e também já podem começar a contar com um projeto que está aqui na minha mente sobre uma série de livros de extras, talvez um para cada história publicada até aqui (Havana, Bali e Sal), lembrando que ainda temos os extras de Delirium que no projeto oficial, de fato, seriam um livro à parte. Então, como livro de estreia dessa série de extras, acho que ficou muito claro para mim que Havana (que rendeu 4 dos 7 extras do desafio), é o livro preferido e sim, vamos começar por ele! Mais informações em breve. 🙃

Falando um pouquinho do extra de hoje, enfim, Gigi teve algum espaço significativo e pudemos ver um pouco de como está a vida dela no Brasil, seus anseios, seus medos, sua solidão de ficar longe das irmãs. Acho que com as meninas Scholtz, acontece algo parecido com as Iglesias de Sal, as irmãs são parte importante uma da outra. Espero que tenham curtido o extra e também, a participação especial das meninas de Bali!

Vamos lá, acabaram-se os extras, mas ainda temos um texto aqui na manga que queremos publicar. A versão explicit de Mediterrâneo está finalmente concluída e será postada no próximo domingo, dia 12/05. Meta de comentários: 25, de leitoras diferentes, até às 23h00 de sexta-feira, dia 10/05 e versão explicit liberada!

Ah, 6 AM está chegando! 😍 História nova no site para acompanharmos juntas e bem de perto!

 

Beijos! ❤️

 

 

 

 

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