Capítulo Explicit Mediterrâneo: O Azul dos Olhos Dela


Havana | Tessa Reis

Era a décima hora de voo e os olhos de Lívia seguiam no MacBook, totalmente hipnotizados pelos números. Os cabelos longos, castanhos, tão brilhantes quanto aqueles olhos pelos quais Isabela se apaixonou tão cedo e de maneira tão irremediável. Tocou os cabelos dela com carinho.


— Lívia?

— O que, meu amor? — Respondeu, sem lhe olhar.

— Você disse que estaríamos de férias, lembra?


Ela lhe olhou e discretamente, tirou a mão de Isabela dos seus cabelos, deixando um beijo em seus dedos para disfarçar. Lívia detestava carinhos em público, por mais singelos que fossem, tinha uma lista de motivos questionáveis para esta atitude dos quais Isabela discordava veementemente. Não via sentido, menos ainda dentro de um avião em direção a Itália onde provavelmente não conheciam ninguém.


— E eu vou estar. Só estou aproveitando este tempo em público para não deixar nada atrapalhar a gente depois, está bem? — Seguia com os olhos na tela do computador — Por que você não escreve um pouco? Como está indo o livro?


Isabela respirou fundo, se afastando dela, afundando em sua poltrona.


— Está… Estagnado. Ando sem inspiração.

— Bem, eu peguei esta casa pensando em você. Tenho certeza que você vai voltar com o livro pronto.


Ficou olhando para ela um pouco mais, morrendo de vontade de tocá-la. Era sua esposa, a mulher por quem era apaixonada, a carência de Isabela queria tocá-la o tempo todo, e o afastamento de Lívia não lhe ajudava muito. Reclinou sua poltrona e decidiu tentar dormir um pouco, de Curitiba para Napoli eram dezoito horas de voo, ainda estavam na metade do caminho.


Foi pouco antes de pegar no sono.


Lívia passou mal. Tão mal que sequer estava conseguindo dizer bem o que era. Isabela lhe deu um comprimido para dor de cabeça, mas o enjoo a atacou antes de sequer engolir a cápsula direito. Chamou ajuda, levaram Lívia para o banheiro, a comissária lhe pediu calma, não podiam permitir duas pessoas na cabine, Lívia entrou sozinha, contra a vontade de Isabela.


— Ela é minha mulher, está bem?

— Eu compreendo, senhora, mas são as normas de segurança, se ela precisar de ajuda, poderá entrar. Por favor, fique calma.


Mas ela não precisou. E saiu da cabine do banheiro aparentemente muito bem restabelecida. Brigaram, porque Lívia tinha ouvido Isabela dizendo que eram casadas para a comissária e sinceramente, Isabela não tinha ideia.


— Eu não sei por que você continua casada comigo! Ninguém pode saber, como se ainda estivéssemos na adolescência escondendo o namoro da nossa família!

— Isabela, eu tenho uma rede de hotéis nas minhas mãos, você se lembra disso? Lembra da minha responsabilidade?

— E o que o nosso casamento desabona a sua responsabilidade, me explica?


Ela lhe olhou furiosa.


— Por que você não dorme e me deixa pagar as suas contas? Não é o melhor dos cenários?


Achava que tinha adormecido de ódio, tentando comprimir o choro e a frustração.


E foi acordada por um beijo na testa.


— Meu amor? Vamos pousar em breve, acorda, eu peguei o seu café da manhã.


Tinha pegado seu café da manhã, guardado o notebook, organizado a área da primeira classe onde estavam, pedido um cobertor extra para lhe proteger. Isabela achava que qualquer dia, iria acordar louca, sem saber dizer sequer o próprio nome com o tanto que Lívia mexia com a sua mente. Já tinha passado para ela, a briga de horas atrás aparentemente sequer tinha acontecido e Isabela… Bem, era melhor deixar para lá. Ela gostava de fingir que nunca havia acontecido e Isabela começou a gostar também quando percebeu que isso resolvia os problemas de imediato. Ao menos de imediato, tinha paz e lampejos da menina por quem tinha se apaixonado aos seus quinze anos de idade.


Assistiu a belíssima descida para o Aeroporto de Napoli com a mão de Lívia na sua, com o sorriso dela aberto, o tipo de carinho que tanto ansiava. Pena que só durou até estarem dentro do táxi, em direção ao Porto de Molo Beverello. As ruas estavam engarrafadas, buzinas soavam a todo momento, as vielas apertadas, antigas e Lívia começou a reclamar, a discutir com o motorista que mal estava a entendendo.


— Lívia, quer parar? Ele não fala inglês!

— Pois deveria! Eu tinha que ter lembrado, esses italianos acham que são donos do mundo, que não precisam falar a língua universal da humanidade! Diz você pra ele que eu não quero ficar neste engarrafamento!


Isabela olhou para o motorista já irritado e falou com ele em italiano: