6 AM - Capítulo 0 - 6 AM

26/5/2019

 

Amá-la era como começar um incêndio numa floresta ibérica em pleno verão: difícil de ser previsto, impossível de ser contido. Algo devastador e surpreendentemente lindo numa mesma proporção.

 

Ívi era assim. A faísca querendo existir na floresta seca. O canhão da onda gigante escondido no solo do mar. Era a beleza e a densidão, era a areia que tinha escorrido pelos dedos da vida que devia ser delas. Por tempo suficiente, Laura teve a certeza que tudo o que tinha restado daquele relacionamento havia sido ela mesma e ainda assim, aos pedaços, apenas uma parte de si onde podia flutuar e sobreviver até o naufrágio passar.

 

Respirou muito fundo, sentada na poltrona ao lado da cama que tinham dividido, a olhando enquanto ela ainda dormia. Os longos cabelos de lado, as costas descobertas, tão bonita e ela sequer estava com aqueles olhos líquidos abertos. Era o que sempre quis todos os dias. Acordar olhando para aquele rosto perfeito, para aqueles olhos castanhos que cravavam em sua alma e lhe arrancavam as risadas mais longas, os sentimentos mais ternos. Ívi costumava dizer que os olhos de Laura eram um incêndio, mas ainda que fossem, Ívi era uma inteira rebelião. Era a coalizão e a colisão. A rebeldia. Era todas as coisas que Laura temia e ainda assim, sempre queria, sempre precisava, não sabia como não querer, precisar, amar. Nunca soube bem como podia não a amar.

 

Agarrou o pingente de pena no seu pescoço e o choro encheu seus olhos enquanto amanhecia lá fora. Porque não sabia. Não sabia se queria começar um outro incêndio quando foi tão custoso apagar o de antes. Não sabia se queria sobreviver a outra rebelião quando os guardas já haviam entrado. Não sabia da coalizão. Da colisão sabia menos. E a rebeldia? Ainda tinha? Porque amá-la lhe exigia uma rebeldia intensa contra todas as coisas que tinha decidido não mais querer.

 

Mas era Ívi. À parte toda a história que Laura já tinha construída antes dela, era Ívi, era seu fio vermelho, era metade de sua alma espelhada para dentro de si e Laura não sabia. Não sabia como “desamá-la”, como “dessenti-la", Ívi era toda feita de verbos que não existiam, era seu doce preferido, era o sorriso que amava, era suas manhãs e toda a capacidade de se apaixonar, de se doar, de ser de alguém outra vez.

 

O relógio dela bipou, eram 6 da manhã. Era a hora delas.

 

E com o relógio biológico mais bem ajustado do mundo, Ívi despertou.

 

— Laura? O que você faz fora da cama? — Apertou os olhos tentando vê-la melhor — Você está acordada, amoriño? Volta pra cá, vem...

 

Laura apenas negou e o choro foi ficando mais forte, a intensidade subindo por sua garganta e Ívi se desesperou. Ela estava acordada e Ívi sabia muito bem tudo o que ela devia estar sentindo.

 

Porque era exatamente tudo o que não queria que ela sentisse.

 

— Não, não, não! Por favor, não — Saiu da cama imediatamente e quando Laura deu por si, estava agarrada em suas mãos, abaixada à sua frente, o pingente celta no peito dela lhe tocando os dedos.

— Ívi, não faz isso, levanta, olha a sua dignidade...

— Eu não preciso de dignidade, preciso de você comigo! Laura, por favor. Você sabe o que é amar cada pedaço de alguém? Eu amo cada pedaço de você, cada pequena coisa sua eu quero encostando em mim, quero sentir em mim, a melhor parte de mim é sua, eu não consigo dar a outra pessoa, não quero dar a outra pessoa. Laura, por favor.

— O bebê está chorando — Disse soluçando, era verdade, o bebê tinha começado a chorar.

— Eu pego o bebê, eu cuido disso, espera aqui, está bem? A gente precisa conversar, só me espera aqui.

 

Ela vestiu uma lingerie, um blusão por cima, amarrou os cabelos no alto e saiu do quarto, deixando Laura sozinha com seu coração partido em dois. A amava com cada bom sentimento que já havia tido em si na vida, a amava desesperadamente, isso não era uma dúvida, a dúvida era se... Ainda se sentia capaz. Se não era melhor simplesmente ficar em paz. Talvez já estivesse acostumado a ser só metade. Era isso, talvez fosse apenas isso. Limpou o rosto, levantou, o bebê tinha parado de chorar. Caminhou até o outro quarto e...

 

Mais lágrimas escaparam.

 

Ela estava de pé, com o bebê nos braços, o sol pintando-a ao entrar pela janela de vidro enquanto ela cheirava aquela coisinha pequena e cantava para que se acalmasse.

 

— Ívi... — Caminhou até ela porque a cena era irresistível. Tocou o bebê, beijou Ívi no canto da testa, a beijou na boca, se abraçou nela a mantendo muito perto e ela sorriu, aquele sorriso lindo pelo qual Laura era tão apaixonada.

Casa comigo. Me deixa cuidar de você, desse bebê lindo, da María, me deixa voltar, Laura, para a nossa casa, para a nossa vida. Eu já vi o que você precisava que eu visse, já entendi o que eu não estava compreendendo, o que falhei, o que deixei passar. Eu prometo que vou fazer direito, que vou ficar com você, que vou te apoiar, que vamos ter mais tempo, tudo o que quero é ser feliz ao seu lado porque eu não vou conseguir ser feliz em outro lugar que não seja você. Por favor. Nós podemos fazer isso. É um absurdo que a gente se separe, Laura, é um absurdo que a gente desista se amando tanto.

 

Laura apenas suspirou. Não respondeu nada.

 

— Tudo bem, me deixa ao menos ficar até o almoço...

 

E Laura caiu no riso.

 

— Você vai de um pedido de casamento a ficar até meio-dia?

— Você me obriga a esse tipo de extremo. Me deixa ficar, amoriño.

— Até meio-dia?

 

Ela beijou a testa do bebê mais uma vez.

 

— Até meio-dia.

— Não é a nossa hora.

— Então me deixa ficar até às seis da manhã. De amanhã. É a nossa hora.

 

Laura a segurou pela nuca, tocando a sua testa na dela, a sentindo muito perto de si.

 

— Até a nossa hora, pode ser.

 

Ívi a beijou, longamente.

 

— Volta pra cama agora?

 

Voltava. Voltaram para o quarto, o bebê entre elas dormindo tranquilamente, as mãos pegadas, tocando uma a outra, os olhos se olhando, se buscando, o tempo inteiro. Como Ívi sentia falta dela. A separação por um todo doía demais, mas nada doía e machucava tanto quanto não ter os olhos de Laura por perto, não poder admirar aquele rosto que amava, não sentir o cheiro dela e... Seus olhos se encheram.

 

— Eu vou enlouquecer sem você, Laura...

— Ívi... — A tocou, a cheirou, beijou a boca dela e Ívi se agarrou a ela, beijando seu punho, a sentindo tão perto.

— Me fala aquele poema — Ívi pediu.

— O nosso poema?

— O nosso poema. Fala ele pra mim.

 

Laura respirou fundo, olhando naqueles olhos que tanto amava.

 

Conta la leyenda que todos nacemos con un hilo rojo invisible, atado a la persona que amaremos por toda la vida. Sin importar el tempo, el lugar o la circunstancia. El hilo se pondrá estirar, contraer o enrendar. Pero jamás se romperá...

 

Ívi se inclinou e a beijou, longamente, tão profundo que deu para sentir os batimentos de uma dentro do corpo da outra.

 

— Você vai me amar de novo até amanhã às 6... — Ívi sussurrou no ouvido dela, tão apegadas, tão agarradas, a fazendo rir inevitavelmente — Vai me amar antes de eu chegar na porta, antes de eu ir embora outra vez, vai casar comigo em um mês. Vamos pôr outro bebê nesta casa, uma galega linda com olhos que mudam de cor — Jurou, com seus olhos transbordados — Você entendeu, Laura? — E então, cantarolou para ela, porque sabia o poder de sua voz sobre a mulher que tanto amava — Ahora dime que no... Perdemos las dos, si te vas...?

 

Laura cuidadosamente passou por cima do bebê, indo para os braços de Ívi, indo para o peito dela, indo ouvir de perto aquele coração que era seu.

 

— Eu devia estar te mandando embora agora...

— Devia. Se não me amasse, era o que estaria fazendo. Mas como você me ama... — Beijou a testa dela sorrindo.

 

Laura se agarrou nela, muito, mas muito forte:

 

Me cuida.

 

Cuidava. Cuidaria dela como cuidara antes, quando poucos segundos lhe pertenciam, cuidaria como cuidara depois, quando os minutos começaram a lhe fazer sentido, não faria o que fez quando segundos e minutos se tornaram horas desperdiçadas porque Ívi tinha esquecido como cuidá-la. Era o seu amor, a mulher da sua vida. Cuidaria dela, a faria feliz, não importava o que isso lhe custasse.

Notas do Capítulo Extra:

 

Olá, meninas!

Aqui estamos, com o capítulo de pré-estreia de 6 AM! Vocês devem ter notado um capítulo bem mais curto do que o habitual (1.500 palavras ao invés das 10.000 habituais haha), mas pensando em coisas novas para a nossa segunda postagem regular aqui no site, eu decidi escrever um capítulo 0, quase em forma de poema para apresentar duas das nossas protagonistas para vocês ❤.

 

Vou resumir mais ou menos como deve funcionar esta história: teremos três fases, a primeira denominada “Segundos”, nosso relógio irá passar para trás, mostrando o cenário há três anos da cena que lemos agora. A segunda fase, “Minutos”, irá correr com o relógio até ele chegar no momento do capítulo 0 e então, a terceira fase, “Horas”, será deste momento Ívi e Laura para a frente ^^.

 

Espero que curtam a proposta e que abracem a nossa nova história!E como vocês já sabem, conteúdo gratuito se paga com comentários ^^ Então, para que o capítulo de estreia de 6 AM denominado “Ívi” seja postado no próximo domingo, 02/06, precisamos bater a meta de 20 comentários, de leitoras diferentes, até às 23:00 de sexta-feira, dia 31/05 😊. E então iremos seguir com nosso calendário semanal de duas postagens por semana tal como foi com “Sal”.

 

Beijos!

 

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