6 AM - Capítulo 2 - Laura

5/6/2019

 

  

 

Ívi tentou não demorar no banho, mas ao mesmo tempo sentir aquele chuveiro quente estava extremamente maravilhoso. O chuveiro, a água limpando a sua pele, lhe aquecendo, aproveitou tudo o que pôde e decidiu que faria assim também com o resto da sua noite: iria aproveitar o que podia. Se sua preocupação era onde iria dormir, não dormiria, atravessaria a escuridão na tal balada e pensaria no que fazer pela manhã. E apesar de ser um plano tão falido quanto tentar dormir no metrô, ter um prazo maior lhe fez relaxar. E só tinha tal plano por causa daquela menina linda que apareceu do nada para lhe tirar daquele vagão.

 

Ela tinha lhe visto. Aliás, estava lhe olhando, ela mesma disse, será que Ívi estava fantasiando demais ou...?

 

Melhor não pensar no ou. Saiu do banho e sentir uma lingerie limpa no corpo foi a melhor sensação. Preta, justa, aliás, só tinha lingeries pretas, sem exagero nenhum. Calça, seu colar que não tirava por nada, separou uma camiseta branca, urban, que deixaria ver um pedaço e outro de lingerie pelo corte diferente, suas botas, é claro, queria se sentir invencível, desodorante, creme de pele, passou uma maquiagem básica, delineador nos olhos, deixou bem afiado, alongando seus olhos puxados, gostava do seu olhar assim, deu um jeito em seus cabelos, perfume porque ficar cheirosa era algo que ela sempre tentava e ouviu alguém batendo na porta.

 

— Ívi? Tudo bem?

 

Era a sua menina bonita. Laura. Se checou no espelho novamente para ver se estava mais arrumadinha mesmo, deu uma sacudida nos cabelos, pronto, abriu a porta e ela...

 

Laura se perdeu um tanto. Perdeu o olhar que automaticamente caiu no sutiã de Ívi, caiu pelos seus braços, no seu abdômen definido, no seu colo, em todos os lugares menos nos seus olhos. E é claro que ela enrubesceu. Laura, não Ívi.

 

Ívi adorou os olhos dela pelo seu corpo e começou a pensar no ou novamente mesmo sem querer. Laura já tinha sido maravilhosa lhe ajudando por àquela hora, lhe pareceu extremamente indelicado que Ívi pudesse ao menos estar pensando em qualquer outra coisa que não fosse apenas ficar completamente grata a ela.

 

Mas quase ninguém controla atração. Seria uma lição que aprenderia aquela noite.

 

— Desculpa, eu achei que você já estivesse pronta — Ela abriu um sorriso sem jeito.

— Não se preocupa — Ívi vestiu a camiseta e achou interessante que ela tivesse enrubescido por ter lhe visto de sutiã. Laura pareceu bem mais confortável ao lhe olhar de camiseta.

— Eu te trouxe uma vitamina de banana e um queijo quente, eu fiz para as meninas, então… — Entregou um copo cheio de vitamina e um queijo quente que estava cheirando tão bem que Ívi temeu que seu estômago acabasse roncando alto como resposta.

 

Pegou da mão dela com um sorriso no rosto.

 

— Laura...

 

Ela também lhe sorriu, bem mais tranquila, havia uma serenidade pelo rosto dela que Ívi simplesmente gostava, estava apegada.

 

— Vem, senta aqui, come tranquila — Ela lhe puxou delicadamente para o quarto.

 

Sentaram-se num banco acolchoado junto a janela e Ívi já tinha provado o lanche antes mesmo de se sentarem.

 

— Está uma delícia, obrigada.

— É uma das minhas especialidades — Ela respondeu brincando — Eu não esperava por estas tatuagens! — Outro sorriso, relaxando um pouco mais.

— É verdade, eu estava mais vestida quando a gente se cruzou, eu gosto deste efeito inesperado — Outro sorriso, outra mordida, o queijo estava... Hum, nem dava para mensurar. Ívi tinha muitas tatuagens, discretas, mas muitas, sua coxa era tatuada, seu braço, as costas e a que Laura tinha visto era a que chamava mais atenção, a que ficava pouco abaixo dos seus seios.

— O que são essas que eu vi?

— A do abdômen é uma mandala, está vendo? — Subiu a camiseta um pouquinho para mostrar a ela — Com linhas indígenas, para lembrar de onde eu vim, minha mãe é a primeira geração fora de uma tribo...

— Mesmo?

— Sério, a etnia dela é linda, você tem que ver como a minha mãe é linda. Bem, a tatuagem aqui do braço é um olho de suçuarana...

 

Ela abriu outro sorriso lindo.

 

Suçu...?

— Onça-parda — Respondeu sorrindo. Laura falava português, claramente falava, mas tinha um sotaque que Ívi nunca tinha ouvido — Eu tenho uma história com esse animal, então decidi tatuar o olho dela...

Olhando os filhotes — Era parte da cabeça de uma onça-parda e então dentro do olho dela, tinha o desenho de dois filhotes. Ficava no braço de Ívi, na parte de dentro, abaixo da articulação entre o braço e o antebraço.

 

Ívi abriu outro sorriso.

 

— Eu quero muito ser mãe.

— Entendi. Os desenhos são tão delicados... — Tocou suavemente a onça-parda em seu braço. Ívi sentiu aquele toque em formato de vontade de tocar nela outra vez. Foi olhar para ela e sentir vontade de tocá-la.

— São todas do meu irmão, meus pais quase o expulsaram de casa, a primeira eu era menor de idade ainda — Contou, a fazendo rir.

— Sério?

— Eu tenho uma flecha no meio das costas, fizemos escondidos no quarto dele, eu adoro tatuagens, não via a hora de ter uma.

— E esse pingente? — Ela tocou seu pingente de prata em forma de pena que pendia pouco abaixo da linha dos seus seios — É tão bonito.

— Ainda raízes indígenas. E este seu aqui? É um colar também, não é? — Perguntou, tocando a pulseira de pingente esverdeado no pulso dela.

— É um colar. É que eu nunca tiro por nada, mas não estava combinando no meu pescoço por causa do vestido. É un árbol de la vida, um símbolo celta, minhas raízes também. É importante manter as raízes perto por que…

— Assim a gente nunca se perde — Ívi a completou, olhando naqueles olhos bonitos.

— Isso, é… Isso — Ela olhou para baixo e sorriu. E Ívi abriu um sorriso também, ela era uma overdose de beleza e coisas gostosas, Ívi nem sabia.

— Eu ouvi errado ou é seu aniversário?

— Na verdade, foi ontem.

— Treze de agosto, leonina.

— Leonina suave, prometo — Outro sorriso.

— Então — Terminou a vitamina e seu queijo quente, não sobrou nadinha — Posso te dar um presente?

— Ívi, não precisa...

— Espera um segundo — Ívi voltou para o banheiro, mexeu na sua mochila, achou o que estava procurando e voltou para o banco na janela — Eu comprei em Alagoas, porque achei lindíssimo...

— É lindíssimo, Ívi! — Era uma gargantilha dourada, com um pingente em forma de meia lua, pendurada pelo meio — Eu vi um filme esses dias...

— Água Rasa?

— É esse! É um filme ruim pra caramba, mas é tão bom...

 

Ívi caiu no riso.

 

— Filme ruim e bom pra caramba, este entra para a categoria! Ainda não estreou no Brasil.

— Estreia semana que vem, uma coisa assim, eu vi algumas cenas pela internet. A fotografia do filme é maravilhosa e a joalheria é belíssima, eu fiquei apaixonada e este colar é lindo demais, Ívi, deve ter sido um achado.

— Foi um achado, eu tinha acabado de ver as cenas e adorei a joalheria, mas não combina em nada comigo — Disse sorrindo — É delicado, muito feminino, então... — Delicadamente, passou a gargantilha pelo pescoço dela e fechou, com cuidado para não a tocar demais. Olhou, era um colarzinho mais curto, ficava acima da gola do vestido — Ficou perfeito com o Domenèch!

— Ívi... — Ela tocou o pingente, abrindo um sorriso — Eu quero, mas não precisa — Disse, a fazendo rir.

— É seu.

— Um presente para uma estranha?

— Você trouxe uma estranha para a sua casa, não me julgue.

 

Mais sorrisos, os dedos de Laura sobre o pingente, se perguntando qual a probabilidade delas duas terem visto o mesmo filme ruim de tubarão. Deveria ser a mesma de cruzar com uma desconhecida no metrô e trazê-la pra casa.

 

— Obrigada.

Obrigada você. Pelo chuveiro, a vitamina, o queijo quente, o ombro que eu usei para chorar, a festa que você vai me levar — Sorriu, arrancando outro sorriso dela — Bem, eu já estou pronta.

 

Laura sorriu novamente.

 

— As meninas também estão. Então, a gente pode ir?

 

Ívi olhou bem para ela. A magia persistia, ela estava ainda mais bonita do que há vinte minutos. E a vontade de tocá-la só aumentava também. Pensava nos dois abraços que tinham trocado, no corpo dela perto do seu, no seu coração disparado. Agora que o tempo tinha sido restabelecido, Ívi estava conseguindo perceber tudo o que tinha acontecido, tudo o que tinha sentido naquele curto lapso de tempo roubado entre elas. Voltou ao banheiro, pegou uma camisa xadrez para fazer sobreposição e uma jaqueta curtinha porque estava frio.

 

— Podemos sim.

 

Pegaram um táxi dessa vez. Laura lhe explicou que as três estavam sendo voluntárias nas Olimpíadas e que uma outra amiga era promoter, e estava organizando uma festa para os atletas.

 

— Espera, atletas podem participar de festas?

— Então, não podem — Karime respondeu sorrindo — É uma festinha meio clandestina, para umas modalidades que não começaram ainda. Você vai encontrar de jogadores de polo aquático aos caras do rúgbi, passando pelas meninas do hóquei que a Laura vai poder apresentar muito de perto para você... — Ela continuou em tom de provocação.

 

Ívi não entendeu na hora, mas entenderia em breve.

 

A festa acontecia perto da Vila Olímpica. As garotas desceram primeiro e Ívi desceu em seguida, segurando a porta e gentilmente dando a mão para Laura descer, afinal ela estava de saltos e com aquele vestidinho que... Bem. O presente de Thai era para Laura e para todo mundo que tinha olhos. O gesto a fez sorrir e deu a Ívi o motivo perfeito para pegar a mão dela na sua e fingir que tinha esquecido de soltar. Esperou que ela escapasse do toque, mas a verdade é que os dedos dela enroscaram nos seus com uma naturalidade enorme. A camisa xadrez na cintura, a jaqueta desenhando o estilo que nada tinha a ver com o vestidinho airoso de Laura e ainda assim, elas combinavam. De uma maneira tão inesperada quanto aquele encontro no metrô, evoluindo para uma balada não programada. Se olharam de novo, sem dizer nada, só olharam, sorriso de Ívi, sorriso de Laura, tão à vontade por estarem tão perto, Ívi não queria pensar no ou, mas a verdade é que Laura não estava ajudando muito.

 

O lugar estava lotado e elas sequer tinham entrado! Havia uma fila enorme, elas falaram com o segurança e quando Ívi percebeu, uma moça veio até elas, alta, estilosa, cabelos negros cortados um pouco abaixo dos ombros. Natalia. Foram apresentadas e Laura perguntou se tinha como Ívi entrar.

 

— Laura Bueno, com esse rosto eu ia na rua pedir pra ela entrar, vambora, todo mundo pra dentro!

 

Ela colocou as quatro para dentro e Ívi não pôde acreditar naquele lugar! Parecia um galpão antigo, as luzes piscando, o bar bombando, o buffet também, um DJ tocando e bastou um set para seu ego lhe dizer que podia estar fazendo um trabalho muito melhor do que ele. O que tinha que fazer para ter uma chance? Uma única chance de mostrar o seu trabalho?

 

— Ívi, a maioria é atleta, posso fazer uma pergunta indiscreta? — Era Karime.

— Eu prefiro as garotas — Se adiantou em dizer fazendo-as cair no riso. Menos Laura. Laura apenas ensaiou um sorriso junto a um pensamento que não deveria estar tendo.

— Outra pergunta indiscreta, você está namorando? — Thai emendou.

 

Ívi não tinha sequer um teto, imagina uma namorada.

 

— Não estou não, aliás, acho que eu nunca estive pra falar a verdade...

 

Mais risadas, e enquanto Ívi estava distraída com Thai e Karime lhe bombardeando de perguntas, uma moça diferente encostou em Laura.

 

Encostou mesmo, muito junto, muito perto, muito carinhosa. Encostou pelas costas, a pegando pela cintura, falando no ouvido dela e a fazendo sorrir, e Ívi se perguntou se...

 

Laura se virou para abraçá-la, beijá-la no rosto, se agarrar nela um pouquinho, muito carinhosa, muito dócil com ela.

 

Vente aquí — Sussurrou para ela antes de pegá-la pela mão e trazê-la para perto — Ívi, essa aqui é a Julia.

— Elas não são irmãs — Karime informou como se fosse algo extremamente necessário, o que era bem engraçado, já que elas sequer se pareciam.

— Não somos. Julia — Ela se esticou para abraçar Ívi, usando a pronúncia espanhola, “Rulia” — Tudo bem?

— Tudo bem — Ívi correspondeu ao meio abraço e foi esquisito. Houve uma troca de olhares e de uma energia que não deu para definir. Se não era irmã, era namorada por acaso?

— Laura, eu acho que ela está bem ali!

 

Como alguém podia ficar tão feliz e tão triste pela mesma coisa?

 

Então, Julia, de pronúncia espanhola, não era irmã, nem namorada.

 

E ela que estava bem ali, abriu um sorriso enorme e veio buscar Laura, veio lhe roubar sorrisos solares e veio beijá-la bem na frente de Ívi. Era sério? Era sério. Sua menina bonita ficava com mulher e estava ficando com uma bem na sua frente. E era uma gringa, que falou com as garotas, falou com Ívi, não entendeu nem uma vírgula, mas quando a viu se afastando com Laura entendeu que talvez estivesse lhe informando que iria roubar a sua garota por alguns instantes. Elas se afastaram, bem agarradas e Ívi ficou...

 

Olhando em pura desolação.

 

Era real? Tudo bem, outro beijo daqueles, era real e a tal gringa era bem bonita, o corpaço se mostrando no jeans e no cropped que exibia um abdômen mais definido que o de Ívi, cabelos castanhos claros, olhos claros, grife no jeans, no top, por onde os olhos de Ívi conseguiram pegar e desta vez, teve certeza que não era Domenèch, era de Gucci para cima mesmo. Virou de costas e encontrou Karime e Thai lhe olhando de maneira engraçada.

 

— O que foi?

— Você tinha que ver a sua cara agora! — Era Karime, agora rindo demais.

— Ela levou a menina na minha frente — Ívi ainda não estava acreditando.

— Então, elas namoram. Tem uma semana eu acho. O nome dela é Kelsey, atleta de hóquei da seleção da Grã-Bretanha, a Laura é atleta da seleção brasileira de hóquei, elas se conheceram assim.

— Namoro de uma semana?

— Onde você estava há uma semana, garota? — Era Julia, num tom mal-humorado, mas amigável. Ela parecia assim, mal-humorada, mas amigável.

— Perdendo tempo por aí, era isso o que eu estava fazendo. A comida é livre?

 

Mais risadas.

 

— É livre sim.

 

Ívi disse que ia dar uma volta, já que suas expectativas de “ou” tinham sido agora enviadas para o espaço. Assaltou a mesa do buffet da maneira mais delicada possível, tentando não parecer esfomeada apesar de estar mesmo ainda morrendo de fome e, Karime e Thai mantiveram os olhos nela por uns instantes.

 

— Você viu a cara dela?

— Ela adorou e odiou na mesma proporção. Tem uma coisa entre elas, né? Uma vibe.

— É mais que uma vibe, Thai, tem uma vibração inteira entre essas duas aí. A Laura a trouxe para casa, tipo, a Laura.

 

Julia olhou para as duas apertando o semblante. Era uma moça morena, com olhos castanhos-brilhantes e um longo cabelo charmosamente desgrenhado de praia, naturalmente colorido pelo sol.

 

— O que vocês estão dizendo? A Laura a conheceu agora?

— Do nada e levou ela pra casa. Parece que ela estava chorando no metrô porque não tem onde dormir, alguma coisa assim.

 

Julia apertou os olhos ouvindo tal informação.

 

— Conheceu no metrô e levou pra casa só por que ela estava chorando feito uma Madalena? A Laura enlouqueceu?

Aturdida — Thai respondeu.

Qué?

— Ela disse que ficou aturdida, que não pensou direito.

Aturdida por essa menina linda, mira, Julia, que guapa! Não me diz que você também não ficou meio aturdida... — Era Karime, fazendo a seríssima Julia cair no riso por um instante.

— Eu só fiquei aturdida uma vez na vida.

— Também foi num trem, não foi?

 

Julia se deu conta.

 

— Também foi num trem. Deve ser uma habilidade da Laura, deixar garotas aturdidas no transporte público — Respondeu, agora com bem menos humor.

— Bem ou mal, ela trouxe a gata para casa e, ela está sozinha... — Era Karime, com os olhos fixos em Ívi.

 

Julia pegou um drinque, seguindo o olhar de Karime até Ívi.

 

— Uma gata de rua. Que pelo seu tom, não vai ficar sozinha por muito tempo.

 

Foi por pouco tempo mesmo.

 

Ívi comeu tudo o que podia e então, foi até o bar apesar de não beber. Pediu um refrigerante e viu outro beijo entre Laura e Kelsey, ok, não ia ficar passando vontade mesmo. Olhou para o lado e, gringa, a outra era gringa também, Ívi falou com elas, então outra garota chegou, ajustou a sua mira e, beijo na australiana! Roubou tão rápido que nem deu tempo dela lhe dizer qualquer coisa que fosse. Também não ia adiantar, então decidiu encurtar qualquer conversa e falar da maneira com a qual sempre havia sido boa: olho no olho, mãos delicadas, investidas decididas. Depois da australiana, beijou uma americana e foi para a pista de dança, tirou uma loira alemã para dançar, a beijou para se apresentar, as luzes piscando, aquele set do DJ até que era aceitável, comeu uma fruta, pegou outro refrigerante e vez ou outra, seus olhos sempre caíam nos olhos de Laura.

 

Queria entender o que os olhares significavam, porque ela seguia lhe buscando com os olhos, mas então se deu conta que era muito possível que Laura também não soubesse o que significava. Tinham acabado de se conhecer, pouca coisa fazia sentido, Ívi só sabia que o rompimento no tempo que aconteceu quando se tocaram tinha criado um campo magnético que seguia as atraindo uma para outra. Agora tinha certeza que o fenômeno acontecia com Laura também.

 

Daí a alemã começou a insistir em alguma coisa e Ívi procurou ajuda.

 

— Thai, fala com ela, ela está tentando me explicar alguma coisa...

— Espera, você não fala inglês?

— Não falo não.

— E como conseguiu beijar as gringas? Você só ficou com gringa!

— Falar é perda de tempo, você tem que olhar, tocar, mostrar as intenções, não precisa falar muito não — Respondeu sorrindo, aquele sorriso lindo que estava deixando mais gente aturdida, Karime era uma vítima recorrente — Mas ela está me dizendo alguma coisa agora e está insistindo.

 

Thai falou com a moça e começou a rir.

 

— Ela não quer que você fique com outras pessoas.

— Eu também não queria a Laura ficando com outras pessoas, a gente não tem tudo o que quer, é a vida.

 

Mais risadas, porque aquela gata de rua não existia.

 

— Você quer que eu diga isso pra ela?

— Não diz não, só diz que... Que eu vou falar com aquele DJ rapidinho.

 

E Ívi simplesmente deixou a alemã com elas e subiu no palco do DJ e ainda bem, ele era brasileiro. Falou com ele por alguns instantes e quando Laura olhou para o palco outra vez, abriu um sorriso enorme.

 

Porque era Ívi quem estava tocando.

 

De cabelos molhados, sorriso no rosto, com os headphones em volta do pescoço e dominando a pick-up de uma maneira totalmente diferente do outro DJ, a ponto de fazer Laura querer dançar. Puxou Kelsey e foi dançar, perto do palco, onde podia olhar para Ívi um pouco mais, onde podia sentir a vibração do trabalho dela, ela era toda vibração, toda energia, ela pulsava junto com a música, junto com as batidas e foi automático, Ívi assumiu a pick-up e a pista imediatamente encheu. Pessoas são como insetos, são atraídas por luz e ali estava, uma franca exposição de luz natural. Ívi estava brilhando, sorriso brilhando, olhos brilhando, com uma felicidade excessiva de quem está fazendo aquilo que ama. Mais olhares.

 

Muitos olhares.

 

Ívi tocou um set inteiro e terminou aplaudida como estava habituada. Daí ela agradeceu ao DJ e voltou para a pista, para sua alemã com quem estava se divertindo demais! A essas alturas, a madrugada já começava a se apresentar, Thai estava agarrada num rapaz, Karime beijando demais a americana que já tinha sido de Ívi e Laura voltou para perto porque Kelsey precisava se despedir. Ela tinha treino bem cedo e precisava ir. Trocou outro longo beijo com Laura e então juntando-se a umas colegas de time que estavam na festa também, partiu de volta para a Vila Olímpica.

 

E Laura, bem, Laura foi até o bar e pensou trinta vezes antes de pedir uma taça de espumante, mas pediu, porque sua mente estava fervendo e seu corpo ficava lhe dando comandos de coisas que não deveria seguir. Recebeu a taça fervescente, tomou um gole grande, buscou Ívi com os olhos em um desses comandos que não deveria. A achou do outro lado da pista, com uma alemã agarrada no seu pescoço.

 

— Laura? — Era Julia, surgindo do nada para não perder o costume. Ela era especialista em aparecer inesperadamente.

— É apenas uma taça, Juls.

¿No es esto, lo que está mirando?

 

Laura lhe olhou. O tipo de olhar que sempre fazia a pulsação de Julia acelerar porque tal como Ívi, Julia nunca tinha ideia do que os olhares significavam. Ela terminou sua taça de champanhe e deixando um beijo no rosto de Julia, levantou do bar e atravessou o galpão sem dizer uma palavra.

 

Laura não costumava responder coisas das quais não tinha certeza.

 

Ívi tinha visto tudo, Kelsey indo embora, Laura tomando a taça de espumante e então a assistido andar em sua direção. Laura abriu um sorriso simpático para a ficante de Ívi e em inglês, perguntou se podia roubá-la por uns instantes.

 

— Eu conheço você? — A alemã lhe perguntou tão amistosa quanto Julia com Ívi.

— Eu acho que nos conhecemos no pré-olímpico, eu joguei pela seleção brasileira.

— A garota que pegou Kelsey Harris, a gente se conhece sim. E agora você quer pegar...?

— É só um minuto, ela volta para você rapidinho. É que eu preciso apresentá-la para umas pessoas.

 

A alemã lhe olhou bem nos olhos.

 

— Dois a zero, Ferrer Bueno. Ela quer ir com você de qualquer jeito.

 

Ívi queria. E mesmo sem entender inglês, desconfiou que a conversa tinha sido parecida com esta porque não estava interessada em gastar esforço escondendo seu interesse por Laura. Principalmente quando ela caminhou de volta em sua direção, menos ainda quando esticou a mão e lhe convidou a ir para qualquer lugar. Naquela hora da madrugada, ir para qualquer lugar com ela era tudo o que Ívi queria, não importava o cenário ou a namorada que tinha partido.

 

— A menina conhece você, não conhece?

 

Laura sorriu, apertando os lábios em seguida.

 

— Nós jogamos um evento-teste juntas e, é por causa da Kelsey também. A Kelsey é bem popular entre as jogadoras.

— Eu estava beijando uma jogadora?

 

Ela lhe olhou sorrindo novamente.

 

— Köhler-Hernandez, eu não me lembro o primeiro nome dela, mas sei que ela é meio espanhola também. Escuta, eu vou te apresentar para algumas pessoas...

 

Ela realmente levou Ívi para conhecer algumas pessoas e principalmente para conversar com Natalia, que era promoter e tinha lhe visto tocando. Tiveram uma conversa rápida, mas promissora, Laura insistiu que Natalia deveria ouvir Ívi tocando outra vez, com mais calma e quem sabe? Não era exatamente ela quem contratava DJs, mas ao menos sabia quando estavam precisando de um. E então, de todos os rumos e as formas que Ívi achou que aquela noite poderia tomar, de repente tudo se transformou em algo muito mais...

 

Quente. Quando tudo tinha ficado tão quente?

 

Provavelmente quando o assunto com Natalia terminou e Ívi não quis voltar para a sua alemã.

 

— Ívi, a Köhler vai querer a minha pele se você não voltar para ela…

 

Ívi suavemente prendeu Laura contra a parede, sem tocá-la, apenas a cercando.

 

— Eu protejo você… — Respondeu, a fazendo rir.

— Ah, você protege?

— Protejo sim — Ívi olhou naqueles olhos lindos um pouco mais de perto — Está fugindo de ficar sozinha comigo?

— Não, é claro que não — Daí olhou em seus olhos outra vez — Bem, talvez... — Disse, fazendo Ívi rir — Um pouco, só um pouco, não por mal...

 

Ívi riu mais porque ela era linda demais.

 

— Escuta, você já jantou? Não te vi comer nada ainda.

— Eu… Eu esqueci, é verdade.

— Ainda tem coisas no buffet, você gosta de doce? — Laura lhe respondeu abrindo um sorriso lindo — Tem cara de quem gosta — Disse sorrindo ao fazer um carinho suave no rosto dela — Vem, vem comer alguma coisa e depois a gente vai encontrar as outras meninas…

 

Levou Laura para comer alguma coisa no buffet, ela pegou um pedaço de bolo, pediu uma limonada, conversaram um pouco mais, sobre qualquer coisa, coisas que sequer lembrariam até o final da noite porque, bem, atração, muito forte, olho no olho constantemente, Ívi queria tocá-la, senti-la, queria avançar e não deixá-la sequer pensar, mas ao mesmo tempo… Ao mesmo tempo, Laura lhe abraçou e perguntou se podiam ir encontrar as garotas.

 

Podiam, é claro que podiam.

 

Foram atrás das meninas e elas estavam na pista de dança, se divertindo juntas, rindo demais, dançando cheias de proximidade e de algo mais que Ívi estava tentando decifrar. Foi quando Karime agarrou seu pulso e lhe puxou para o meio, a trazendo para mais perto, literalmente lhe tirando da mão de Laura.

 

Tirando mesmo, Ívi não gostou de soltar.

 

Mas tudo bem, ela queria dançar, não tinha problema porque Laura foi a próxima a ser puxada para junto também, para a dança, para as risadas e para aquele clima que parecia tão inocentemente sedutor até uma sensação que Ívi não costumava sentir começar a lhe tomar tão devagar quanto aquelas meninas lhe puxando para mais perto:

 

O sentimento de presa sendo cercada por leoas.

 

E bem, Ívi estava sentindo a proximidade, sentindo o tesão e não, agora não tinha mais nenhuma ideia do que podia acontecer.

Não era ruim. A sensação de estar tão perto delas fisicamente não era nada ruim, porque o estar “tão perto delas” incluía estar perto de Laura, porque entre as músicas, os risos e o tesão generalizado, sempre acabava voltando para perto dela, para as mãos dela, para os olhos dela e pronto, estava ela perto outra vez, perto o suficiente para...

 

Lhe desnortear.

 

Ívi fechou os olhos, porque de repente estavam perto o suficiente para sentir o cheiro dela, perto o suficiente para o calor da pele dela aquecer a sua e o magnetismo falou mais alto, aquele magnetismo louco causado pela ruptura no tempo. Laura tocou sua testa na dela e Ívi lhe pegou pela nuca, lhe tocando por baixo dos cabelos enquanto os dedos de Laura se agarravam pela sua camiseta, a puxando para junto, para perto, tão firmemente que marcaram o tecido. Respiração, batimentos, um arrepio e, Laura deixou ir.

 

Recuando centímetros, indo para outro lugar e deixando a mente de Ívi uma bagunça só. Principalmente quando cada vez mais, Karime caía e caía para cima de si, linda, cheirosa e quente demais. Era colombiana, impaciente e atrevida, Ívi conseguia sentir as intenções dela e se perguntava das suas próprias intenções. Sabia muito bem o que queria, mas não sabia bem se poderia ter o que queria, então...

 

Então que Laura lhe olhava nos olhos de novo, lhe olhava de perto, lhe mordendo pedaços mentais e Ívi não tinha ideia.

 

— Laura…

 

Ela lhe abraçou outra vez.

 

— Precisamos ir embora.

 

Precisavam. Julia se despediu, Laura contou que ela cantava na noite, que tinha um barzinho para fazer antes de ir pra casa, ela lhe explicou enquanto estavam muito perto uma da outra, Laura pedia um Uber e olhava Ívi nos olhos, e elas se comiam um pouco mais, dava para morder olhando? Ívi já estava mais do que convencida que dava sim. Laura lhe olhava e Ívi sentia como se estivesse lhe beijando o pescoço, olhava de novo e a sentia em sua nuca, puxando seu cabelo, lhe pegando pela cintura. Era melhor parar de olhar. Era melhor parar de pensar. A vontade de tocar era quase desumana, Laura estava ao seu lado e a todo momento, Ívi pensava em fazer o mesmo que tinha passado a noite inteira fazendo com as outras garotas, olhar, tocar, mostrar decisão e pegar o que queria, mas…

 

Estava nervosa. Suas pernas não tremiam, mas sua respiração…  Se Laura não tivesse namorada era uma coisa e daí Ívi se perguntou quantas vezes já tinha se preocupado com isso antes. O Uber chegou, Laura entrou primeiro no banco de trás, Thai no banco da frente e Karime fez questão de entrar em seguida.

 

Ela queria Ívi sob o seu domínio.

 

O caminho até o apartamento foi de quinze minutos, não mais do que isso, em que Karime falou no ouvido de Ívi o tempo todo fazendo seu coração acelerar. Mas não por causa das coisas que ela estava dizendo, que eram todas deliciosas, só por causa dos olhares que estava recebendo de Laura enquanto Karime fazia isso. Não podiam vir com legenda? Os tais dos olhares? Não tinham cobrança, nem reprovação, era uma outra coisa, os olhos dela ardiam e Ívi sentia o incêndio.

 

Chegaram no apartamento e as garotas ainda estavam agitadas, Thai colocou uma música e foi pegar algo na geladeira, lá veio Karime, falando, falando, olhando em seus olhos, elas foram para a cozinha, esquentar uma lasanha, algo aleatório que Ívi notou: só havia um copo sujo de bananada sobre a pia. Ok, comeram as quatro juntas no balcão, risadas, olhares, Laura, mais daqueles olhares, mais coisas sem legenda. Havia um clima, um tesão e enquanto Ívi falava qualquer coisa com Laura, viu Karime colocando Thai contra a parede, muito sexy, muito incisiva, beijo no pescoço, mordida no queixo, beijo na boca, gostoso demais, quente demais e Ívi...

 

Laura riu.

 

— Aham, eu passo pela mesma coisa... Eu vou pegar um chocolate quente para nós.

 

Pegou o chocolate, mudou de assunto, saíram da cozinha, foram para a varanda, ver qualquer coisa no celular, ouvir qualquer música, falar de qualquer assunto, voltaram para dentro e foram para o sofá com Thai e Karime, mais conversas capciosas, o riso fácil, um toque e outro, Ívi se distraiu por um instante entre elas duas e quando procurou por Laura, ela não estava mais. Perguntou, Thai disse que ela já tinha ido dormir. Dormir? Ela tinha ido dormir e deixado Ívi...

 

Morrendo de tesão. E totalmente perdida entre Karime e Thai. Saiu do sofá, Karime lhe pegou contra a parede, tentou sair de lado, Thai lhe fechou, sorrindo, pedindo para ela ficar calma.

 

— Ela não vai tirar pedaço, eu prometo que não vai — Thai lhe informou sorrindo.

— Você parece tão boa menina... — Tanto que Ívi não tinha certeza se...

 

Não queria. Queria? Queria Laura, mas o tesão é a mais cega das emoções.

 

— Ela é boa. Eu que não sou muito... — Karime encostou a boca suavemente em seu ombro sorrindo — Você é nossa convidada, nossa hóspede, o que você quer? Onde quer dormir? Fala para mim, quer dormir sozinha ou na minha cama, na cama da Thai, entre nós duas, o que você quer?

 

Foi quando o que Ívi queria, aconteceu.

 

Laura voltou para a sala.

 

De calcinha preta, um moletom cinza, nada mais. E nada mais incluía nenhuma palavra.

 

Atravessou a sala do mesmo modo que atravessou aquele galpão, ela tinha certeza, mas ao mesmo parecia insegura, Ívi viu que ela veio muito certa do que fazer, mas algo a parou antes de fazer o que queria. Então parou lhe olhando, como quem pergunta, como quem não sabe e então, se moveu como quem decide. Passou entre Thai e Karime, e pegou Ívi para si, pelas mesmas marcas de dedos que havia deixado a pegada em sua camiseta na boate, agarrou firme, puxou firme, olhos dentro de olhos, não sabendo se alguém tinha negado seu ato, só sabendo que Ívi não negou.

 

Ela queria. É claro que ela também queria.

 

Nem deu para chegar no quarto. Não com as mãos se agarrando, se pegando, com uma pele ardendo contra a outra e...

 

Não dava não. Não dava para Ívi.

 

Colocou Laura contra a parede do corredor, muito, mas muito suavemente, sua mente não querendo tocá-la demais, mas seu corpo implorando por isso e Laura estava tão, mas tão cheirosa que...

 

— Laura...

Shsssss... — Laura a puxou para mais perto, a coxa pressionando os quadris de Ívi contra o seu corpo, a boca dela perdida pelo seu pescoço, o tesão suspenso por um segundo enquanto as mãos de Laura agarradas na camisa xadrez de Ívi pareceram ponderar mais uma vez sobre o que fazer.

 

Decidiu.

 

Deslizou a camisa do corpo dela, afundando os dedos pelos braços fortes de Ívi, sentindo aquele corpo afundando contra o seu, o tesão pressionando forte, a vontade pulsante, as mãos de Ívi testando aquele corpaço, as bocas se mordendo, mas não se tocando, as mãos de Laura pela sua garganta, pela sua nuca enquanto as mãos de Ívi deslizaram pela sua cintura, buscando suas costas por dentro do moletom e se Laura fosse apenas linda, tudo bem, Ívi tinha como se controlar, mas ela era linda, cheirosa, meio esquisita e estava morrendo de tesão, estava dando para sentir contra a sua coxa, aí ficava difícil pensar, ficava difícil entender, não querer.

 

Ívi a puxou contra o seu corpo um pouco mais, afundando o nariz pelo pescoço dela, sentindo aquele cheiro gostoso, ela tinha acabado de sair do banho, estava de cabelo molhado e hum, ela era toda atrevida, estava tocando Ívi inteira sem sequer lhe encostar um dedo.

 

— O que você quer?

— Eu quero que… — Ela arfou, pondo a boca no ombro de Ívi, sentindo a sua pele com a língua — Eu acho que… Entra no banho.

— Laura...

 

Ela lhe puxou mais firme ainda pela nuca e lhe beijou no pescoço, tão gostoso que Ívi gemeu, arrepiou, suspirou, empurrou a parte baixa do seu corpo todinha contra ela porque estava quase doendo. E, ela lhe afastou, suave tal como afastou naquele abraço no metrô. Afastou o corpo, um centímetro, o olho nem isso.

 

— Entra no quarto, vai para o banho.

 

Olho no olho, o pulso de Ívi disparado, o coração batendo na mente, a puxou para perto de novo, cheirando o pescoço dela, deixando sua mão naquela pele gostosa e cheirosa enquanto ela lhe agarrava para perto também, lhe pegando pela nuca, pelo meio dos cabelos para gostosamente abraçar Ívi plenamente contra o seu corpo, fechando os olhos, sentindo o cheiro dela e aquele coração tão disparado quanto o seu.

 

— Vai para o banho, amoriño — Ela pediu novamente em seu ouvido.

 

Ívi mordeu a boca e a vontade, está bem, ia para o banho, se era o que ela queria, faria. Entrou no quarto, que claro, era de Laura e foi para o banheiro dela sem saber o que pensar. Ívi estava com tanto tesão que mal tirou a roupa e já estava querendo se tocar, mas por outro lado...

 

Por outro lado achou que aquela garota linda, cheirosa e maluca ia aparecer no meio do seu banho, então não se tocou, esperou por ela, esperou muito, mas depois de vinte minutos no chuveiro, percebeu que ela não vinha não. Então se acalmou. Respirou fundo, arrumando seus pensamentos, pondo em ordem tudo o que havia acontecido aquela noite e aquele lugar onde estava. Não físico, o emocional. Tudo bem, nervos no lugar, pensamentos também, saiu do banho, abriu sua mochila, vestiu algo para dormir e quando voltou para o quarto, Laura estava sentada na cama de pallet claramente mais calma. Elas se olharam, Ívi de calcinha, camiseta, cabelos molhados e Laura a chamou para junto.

 

Ívi foi para perto e elas não precisaram dizer nada, ambas sabiam de tudo. Estavam loucamente atraídas uma pela outra, mas Laura tinha namorada. Ela pegou sua mão e ambas se deitaram na cama, de lado as duas e frente a frente, se olhando, se sentindo perto, ambas partilhando um sentimento muito delicado e particular: Ívi não sentiu nenhuma vontade de estar lá fora; Laura não sentiu nenhum arrependimento por tê-la trazido pra casa. Tudo estava bom como estava, elas só precisavam ficar perto assim, se olhando até entenderem o que estava acontecendo. Porque algo estava acontecendo, ninguém precisava dizer.

 

Ela tocou o rosto de Ívi. Contornou o canto de seu olho puxado, demorou a ponta dos dedos pela covinha do seu sorriso, ganhou um beijo em seu toque e ardeu outra vez, os dedos escorregando pelos lábios de Ívi enquanto os seus próprios lábios se apertavam e os olhos não perdiam o contato. Não com os olhos de Ívi, era contato com aquele sentimento que ardia.

 

Arde — Ela confessou.

— Eu sei — Ívi beijou a testa dela e a viu fechar os olhos.

 

Fechou os olhos, respirando fundo e bem devagar, pôde senti-la pegando no sono. Ela foi adormecendo e se ajeitando, virou de peito para cima e então, virou-se de costas e Ívi...

 

Ívi não sabia de coisa nenhuma. Nenhuma coisa além de que não conseguiria dormir sem encostar nela e foi algo que lhe levou muito tempo. Essa dúvida sobre tocar nela e se causar um problema. Tinha um teto, achou que ia dormir na rua, mas não, estava ali, dormindo numa cama macia e perto de uma menina que...

 

Em horas estava lhe arrancando algo bem diferente. E olha, Ívi já havia sentido muito para ser surpreendida daquela forma. Precisava tocá-la, ou não iria parar de arder. Suavemente, escorregou o braço por baixo do corpo dela, não queria acordá-la, só queria senti-la um pouco mais para acalmar toda aquela ansiedade que estava lhe roendo por dentro. Passou o braço, mas foi só um segundo e se arrependeu. Puxou o braço de volta, mas...

 

Laura não deixou.

 

Ela segurou sua mão e se virou, se agasalhando no peito de Ívi, achando lugar tão fácil como se sempre houvesse dormido ali. E Ívi sorriu. Abriu um sorriso enorme e beijou a testa dela a aconchegando contra o seu peito da melhor maneira possível. E agora sim, agora sua ansiedade podia se acalmar, agora a ardência já podia queimar contra algo, agora já podia dormir.

 

Seu relógio de pulso deu sinal: eram 6 da manhã.

Notas do Capítulo Extra:

 

Olá, meninas!  

 

Fiquei muito feliz em saber que vocês curtiram o 1º capítulo de 6 AM!

 

Como eu disse no capítulo anterior é sempre muito difícil prever ou ter certeza de como uma história nova vai impactar, se o enredo vai agradar ou não, nunca dá pra saber direito o que vai acontecer. Portanto, quando a gente tem uma recepção tão boa só se pode agradecer! Então, antes de qualquer coisa eu quero muito agradecer vocês pela recepção tão calorosa que tiveram com 6 AM! Depois do capítulo 0, que foi a nossa 1ª viagem no tempo, e depois de conhecer a Ívi, chegamos ao capítulo 2 para saber um pouquinho mais sobre a Laura e para descobrir como a aquela noite atípica iria terminar! Para o alívio dos corações já roubados pela Ívi, nossa gata de rua dormiu sob um teto muito bem protegida por suas novas amigas e por inesperados sentimentos. Como prometido, conhecemos nossa 5ª protagonista, Julia e vimos também um pouquinho mais de Thai e Karime.

 

Próximo capítulo, intitulado “Karime”, será postado no domingo, dia 09/06 e vocês já sabem o nosso acordo: 25 comentários, até às 23 horas de sexta-feira, dia 07/06 e capítulo liberado ^^. Espero que estejam curtindo a história e, aviso que dia 12 de junho está chegando e sabem quem faz aniversário de 1 ano dia 12? Havana, Sal e o nosso site! E para comemorar, além do dia das namoradas e todos esses aniversários, teremos a postagem da primeira versão explicit do Desafio de 1.000 Palavras do site Lettera e, começaremos por Passional 😊. Animadas?

 

Espero que sim!

 

 

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