6 AM - Capítulo 3 - Karime

12/6/2019

 

  

Conta la leyenda que todos nacemos con un hilo rojo invisible, atado a la persona que amaremos por toda la vida. Sin importar el tempo, el lugar o la circunstancia. El hilo se pondrá estirar, contraer o enrendar.

Pero jamás se romperá...

 

Laura acordou respirando muito fundo enquanto a sua mente por algum motivo, estava repetindo o poema preferido de sua mãe numa altura que seu próprio pensamento a despertou. E se não tivesse sentido o cheiro de Ívi tão presente, teria certeza de que havia imaginado toda a noite passada, do começo ao fim. Mas era o cheiro dela, o cheiro que buscou a noite inteira, pelo qual andava meio viciada desde quando chegou perto dela naquele metrô. O perfume delicado, a pele quente, parecia que quente era a temperatura normal dela, a pele de Laura delicadamente queimou todas as vezes que aquela atração lhe fez de refém até alguma parte sua encostar em algum pedaço dela.

 

Estava quente agora. O peito dela contra o seu rosto.

 

E ainda ardia.

 

Ainda estava ardendo igual.

 

Abriu os olhos e ela estava dormindo. Dormindo como se fosse a coisa mais bonita do mundo inteiro naquela hora da manhã. O rosto sereno, a luz que a marcava pela metade, os traços indígenas pareciam fazer participação especial naquele rosto atraente demais, se via o indígena e ao mesmo se via algo europeu que Laura não conseguia precisar, a beleza dela era globalizada e dormia numa tranquilidade infinita. E caramba, Laura ainda estava com tesão, como podia?

 

Desencostou dela, devia ser a causa, já era tarde? Checou o relógio no pulso de Ívi, eram dez da manhã. Olhou para Ívi só um pouco mais.

 

Levantou-se devagar, Ívi estava cansada, não queria acordá-la, só de imaginar o que ela tinha passado no dia anterior já lhe dava uma aflição enorme. Laura sabia bem o que era vagar sem rumo nenhum, tinha passado por isso há cinco anos, quando desembarcou no Rio de Janeiro com alguns euros e nenhuma ideia do que fazer. Tão distante do que conhecia por sua casa, distante da sua língua, dos seus costumes, mas de volta ao país de seu pai, que não via desde quando tinha três anos. Tantas coisas poderiam ter dado errado, mas no final, terminou o dia na segurança da mão de alguém e nunca esqueceria o conforto e o alívio que sentiu quando isso aconteceu.

 

Esperava que Ívi tivesse sentido algo parecido quando impulsivamente lhe trouxe para casa.

 

Dez e vinte. Olhou para ela só mais uma vez, como quem olha um teorema e tenta buscar um sentido antes mesmo de se começar os cálculos. Apertou os lábios e foi para o banheiro, lavou o rosto, escovou os dentes, estava frio, voltou, ela sequer se moveu. Conta a lenda que todos nascemos com um fio vermelho invisível atado a pessoa que amaremos por toda a vida... O poema seguia voltando na sua cabeça. Deixou Ívi dormindo e saiu do quarto.

 

Laura dormia sozinha, era a dona do apartamento, já estava ali antes de suas garotas chegarem para ocupar os outros dois quartos que restavam. O seu quarto era separado, ficava do outro lado do corredor, mas os outros dois, apesar de terem entradas independentes, também eram conjugados entre si e, viviam de portas abertas. No quarto dos fundos, dormia Karime, o quarto da frente era de Thai, e Julia parecia dormir uma noite com cada uma delas e algumas noites, dormia com as duas. E quando lhe convencia, e Julia tinha um enorme poder de convencimento, noite ou outra, ela dormia com Laura também.

 

Só queria saber onde a carreira de bachelor de Julia iria acabar.

 

Bem, lá estava ela, dormindo entre os braços de Thai, totalmente agarradas uma na outra, Thai a abraçava por trás enquanto Julia agarrada em seus braços também guardava a mão dela carinhosamente contra o seu peito, porque haviam dias que aquelas duas eram puro apego, tanto apego que fizeram Laura sorrir logo pela manhã. Elas estavam dormindo muito profundo e Karime, bem, La Eche já estava de pé.

 

De pé, apenas de robe e lingerie, e aquelas linhas corporais mais latinas impossíveis. O abdômen desenhado pelo hóquei, as pernas bem torneadas desenhadas pela sua etnia, ser atraente era da natureza dela, algo que ela fazia sem sequer se esforçar. A sala já estava completamente arrumada, desenhos, tecidos e equipamentos no lugar, o piso limpo e o café estava ficando pronto naquele momento. Karime passou da cozinha para a mesa trazendo o café consigo.

 

— Mas olha quem acordou... — Abriu um sorriso assim que olhou para Laura e veio lhe abraçar — Para! A gata não tirou essa roupa de você?

 

Laura sorriu, dando um beijo nela e sentando-se à mesa.

 

— Não tirou. Não tiramos. Você fez o café?

— Fiz, fiz torradas também, dei um jeito na sala, eu não consigo dormir até tarde, você sabe... — Na verdade, ela conseguia sim, o não conseguir dormir ainda mais numa noite tão curta contava a Laura que Karime estava ansiosa. Perigosamente ansiosa — Espera, por que ninguém tirou a roupa de ninguém? Você levou a garota da minha mão, Laura!

 

— Eu sei, é que... — Outro sorriso, agora Laura tinha de fato voltado a si, apesar da ardência ainda persistir, o “aturdida” tinha passado. Sem importar o tempo, o lugar ou a circunstância, tinha passado, mas o poema seguia voltando — Eu não sei, eu não tinha certeza se ela estava à vontade e eu sei bem da tua intensidade quando você decide atacar...

Karime caiu no riso.

 

— Você voltou para defender a moça, é isso mesmo, Laura Bueno?

— Eu... Não sei por que eu voltei na verdade — Não sabia, de verdade, estava pensando nisso desde quando acordou — Karime, eu estou meio perdida comigo mesma, eu me surpreendi totalmente com tudo o que fiz. Do impulso de ir até ela no trem até o impulso de trazê-la para cá. Acho que foi quando eu ouvi que ela não tinha para onde ir...

— Então você lembrou de quando a gente se conheceu.

 

Laura olhou para ela com carinho. Karime era sua melhor amiga, um dos amores da sua vida que lhe tinha tantos bons sentimentos.

 

— Eu também não tinha para onde ir.

— Mas nós demos um jeito juntas.

Você deu um jeito — Agarrou a mão dela na sua — Ainda que só fizesse três horas que nos conhecêssemos. Foi um pouco disso também e um pouco de... Eu não sei mesmo. Ela teve um efeito em mim, não foi casual, comum ou normal, eu sei que não foi, só não sei ainda o que foi.

— Laura, vocês não fizeram nada mesmo? Eu vi vocês se pegando no corredor...

— Karime, tem a Kelsey, esqueceu? Eu só tive um descontrole...

— Porque a gata é gata demais e a química de vocês é capaz de incendiar esse apartamento inteiro! Laura, alguma coisa aconteceu com você...

— Eu sei, mas ainda assim, eu tenho um compromisso. Eu me sentiria muito mal se tivesse me deixado levar, mais do que eu deixei por que... — Apertou os lábios lembrando — A gente se pegou mesmo. Não transou, não beijou, mas se pegou, se tocou, ela me pegou inteira em milésimos de segundos, sério, de repente tinha mão dela por cada pedacinho meu. Mas se tivesse sido ainda mais do que isso… Pode ser nada, Karime.

— Você dormiu pertinho dela?

 

Laura lhe olhou sorrindo. E Karime viu aqueles olhos lindos brilharem.

 

Agarrada nela. Deitamos perto depois que nos acalmamos, ela estava quente, eu estava quente, nós duas sabíamos bem o que a outra estava sentindo, uma vontade de ficar juntas. Daí eu me virei, tentei só dormir, eu não sei, tentei por meia hora e de repente, senti o corpo dela se aproximando, o braço dela passando por baixo de mim e... — Sorriu diferente só de lembrar — Eu fui para o peito dela e pareceu que... — Soltou o ar — Eu já tinha dormido ali antes, tão familiar. E foi só isso. A gente dormiu assim.

— Laura... — Karime abriu um sorriso. E como era típico de sua condição mental bagunçada, o sentimento mudou no rosto dela muito rapidamente — Eu fiquei com a Julia.

— Hoje?

— Hoje, assim que ela chegou eu a puxei para o meu quarto. Ficamos, nos divertimos, ela me deixou louca e quando tudo acabou, nós fomos para o banho juntas. Daí voltamos, por dentro do quarto da Thai e ela me deu um beijo de boa noite, e se deitou para dormir com a Domenèch. Não tenho problema com isso, não temos nada sério, nenhuma de nós tem nada sério com nenhuma de nós, mas... É sempre assim, Laura.

— Ela fica com você e depois...?

— Vai dormir com a Thai. Ou com você. Nós ficamos juntas, Thai, Julia e eu, mas não sei se tem mais alguma coisa acontecendo apenas entre elas, se tiver, não tem problema também, mas é que... Por que isso acontece?

— Karime...

— Eu não sou o tipo de garota para dormir de conchinha? Só sirvo para...?

— Não, é claro que não é isso, não deve ser isso. Mas a Julia não mistura muito carinho e atração física, você sabe da atração dela por você, às vezes é só atração somada a amor infinito de amiga. Eu acho que por sua parte também é amor de amiga mais atração, não é?

— É atração. Mas ainda assim, tem atração que termina a noite dormindo muito agarrada e de conchinha. Eu vi você e a Ívi.

Sorriso de Laura.

— O quê?

— Eu queria saber o que você tinha feito, dei uma olhadinha. Você estava toda agarrada nela e ela em você, era como se... Como si ella estuviera respirando a ti — Abriu um sorriso e aquela doçura dita fez Laura sorrir também.

— Como se ela tivesse respirando por mim?

— Isso. Ou como se ela tivesse respirando você. Tão bonito. Eu acho que quero uma coisa bonita assim. Alguém que me respire.

 

Laura pegou a mão dela na sua outra vez.

 

— É um dia ruim?

— Provavelmente — Karime abriu um sorriso entristecido.

Laura se pôs de pé.

— Sabe do que a gente precisa?

— Laura... — Abriu um sorriso, já sabendo o que ela ia dizer.

— Positividade!

 Ívi estava dormindo num quarto cheio de nuvens fofas e branquinhas em algum lugar de um céu azul e perfeito.

 

Quando de repente...

 

LA LA LA LA LA LA LA LA LA

LA LA LA LA LA LA LA

LA LA LA LA LA LA LA LA LA

LA LA LA LA LA LA LA

 

E lá se foi! Literalmente empurrada de sua nuvem tão bruscamente que quase caiu da cama! Sentou assustada, que coisa estava acontecendo?

 

WHEN YOU'RE FEELIN' SAD AND LOW! WE WILL TAKE YOU WHERE YOU GOTTA GO! SMILIN', DANCIN', EVERYTHING IS FREE, ALL YOU NEED IS POSITIVITY!

 

Era Spice Girls, mas não era Spice Girls, eram duas vozes empolgadas cantando muito alto e Ívi não fazia ideia, era salsa? Alguém estava cantando salsa naquela casa cubana, alguém...?

 

Ah, sim, não estava mais no hostel, estava na cova das leoas, tinha acabado de lembrar.

 

E duas das leoas estavam pulando no sofá, cantando num karaokê de tevê.

 

— Julia, é a sua parte! — Karime gritou da sala e uma voz poderosa e sonolenta de repente, se juntou a elas.

COLOURS OF THE WORLD! — Ela gritou ainda agarrada em Thai.

Spice up your life! — As três responderam, inclusive, Thai ainda acordando.

— EVERY BOY AND EVERY GIRL!

— Spice up your life!

— PEOPLE OF THE WORLD!

— Spice up your life!

 

aaaaaaaaaaAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHH!

 

— A gente ainda vai ser presa, sabia?! — Julia gritou outra vez.

Slam it to the left if you're havin' a good time! — Era Laura cantando e dançando pelo sofá.

Shake it to the right if ya know that you feel fine! — Então era Karime fazendo a mesma coisa.

Chicas to the front ha ha! Go round...!

 

Thai levantou correndo, era a sua parte, aquela era a sua parte! Pulou no sofá junto com as duas.

 

— Slam it to the left if you're havin' a good time!

— Shake it to the right if ya know that you feel fine!

Chicas to the front Ha ha, hai Si Ja hold tight! — E com um chute frontal, as três pularam do sofá aos risos e se divertindo demais!

 

Foi isso que Ívi viu quando saiu do quarto para entender o que se passava e encontrou aquelas três cantando, rindo e dançando Spice Girls às onze da manhã. Encostou na porta do quarto, sorrindo inevitavelmente, trocou um olhar com Julia de pé na porta do outro quarto, mais dormindo do que acordada, se sorriram, ela parecia mais simpática agora sendo acordada por um clássico das Spice. Ela veio ao seu encontro, lhe deu outro meio abraço.

 

— Você disse que estava dormindo numa casa de show cubana?

— Eu estava.

— Era animado assim?

— Não era — Ívi abriu um sorriso.

— Eu sou cubana e não acordo feliz assim, te juro, te juro...

Gringa! Eu sabia que alguém aqui era gringa! Espera, são todas cubanas? — Era sério que tinha saído de uma casa cubana para cair num apartamento cheio de cubanas?

— Não, eu sou cubana, a Thai é brasileira, a Karime é colombiana, mas mora no Brasil há muito tempo, a Laura nasceu na Espanha, veio para o Brasil com um ano, voltou para lá com três, me achou na Espanha...

— Te achou na Espanha?

— Eu sou exilada política desde quando nem sabia o que isso significava. Meu pai era opositor ao governo, nós fugimos, fomos perseguidos, passamos por muitas coisas, chegamos na Espanha, onde eu conheci a Laura durante um acidente de trem. O trem descarrilhou, e ela me protegeu de ser pisoteada, eu era uma menina muito pequena, com oito anos era quase invisível.

— Então vocês se conhecem há muito tempo.

— Treze anos. Meu pai e a mãe dela foram casados.

— Então vocês...?

— Não diga irmã. Nunca diga irmã. Nunca.

 

Não pôde dizer mais nada, o show das três tinha acabado sob pancadas no piso vindas do andar de baixo.

 

Mas nada reduziu a positividade, como podia reduzir? Thai disse que ia fazer panquecas para todo mundo, Karime informou que ia ajudar, Julia se jogou no sofá e Laura, bem, Laura veio buscar Ívi na porta do quarto.

 

Sorrindo, tão bonita, tão tranquila. Ela chegou perto de Ívi e houve um abraço antes de tudo, um abraço puxado por Ívi, apertado por Laura, mão no cabelo, nariz buscando o cheiro gostosinho que ela tinha, Laura era toda gostosinha, Ívi estava perdida, confusa e com tesão, ainda com tesão.

 

— Bom dia — Laura apertou a mão na cintura dela — Você está tão quente, é normal? Você é assim sempre?

 

Ívi abriu um sorriso, só quando estava com tesão, mas era melhor não dizer nada disso para ela.

 

— A minha temperatura normal é meio elevada mesmo.

— Eu notei — Ela abriu um sorriso de volta — Desculpa te acordar assim, depois da noite de ontem e da manhã de hoje você deve estar achando que somos todas malucas, mas não somos...

— Só eu sou maluca, com diagnóstico e tudo, não é, Laura? — Era Karime, num tom muito feliz.

— Maluca com diagnóstico somente a Karime, é algo só dela, nenhuma de nós voltou no médico depois dela... — Era Thai, fazendo todo mundo rir.

— Exatamente!

 

Mais risos e o olhos de Ívi se perdendo pelos olhos de Laura mais uma vez. Agora pareciam mais verdes do que castanhos, eram um fenômeno. Daí notaram que tinham ficado presas uma na outra e Laura quebrou o momento, era melhor. A pegou pela mão.

 

— Vem tomar café.

 

Tomaram café, as cinco juntas na longa mesa de madeira da sala de jantar, o clima entre as garotas era algo muito bom, Ívi pôde perceber, elas eram muito próximas, muito unidas, naquele teor que apenas uma convivência diária era capaz de causar. Pelo que entendeu, Laura morava com Karime há cinco anos, o tempo que tinha de volta ao Brasil, então Julia se juntou a elas há três anos e desde janeiro daquele ano, Thai havia se mudado também.

 

Ninguém precisava contar duas vezes que Karime era colombiana, estava por ela inteira, era morena, muito bronzeada, os longos cabelos negros, mais etnicamente identificável impossível, tal como ninguém também precisava lhe contar duas vezes que Thai era carioca do interior. Era uma menina linda, educada, cheia daquele sotaque agradável, era de cidade praiana como Ívi, nascida e edificada em Arraial do Cabo como ela mesma fez questão de dizer. As garotas a chamavam de Nutella, de stroopwafel (um biscoito holandês com calda de caramelo delicioso) e não podia ser mais justificado. Segundo Julia, Thai era bonita, doce e gostosa, e ninguém fazia oposição, a pele de creme de avelã e os olhos cor de mel tinham deixado Ívi toda perdida na outra noite. E Julia, bem, Julia era uma bela de uma malandra. Era bela mesmo, os olhos eram quase vermelhos de tão castanhos, um sorriso lindo, os cabelos desgrenhados de praia e o apelido de bachelor contou a Ívi algumas coisas. Ela saindo com Thai para um programa a duas, confirmou essas coisas.

 

— Elas vão começar a namorar? — Karime esbravejou e desatou a falar em espanhol, coisas que Ívi não precisava saber o idioma para entender que eram xingamentos.  Karime tinha ficado subitamente chateada, era um sobe e desce de emoções que Ívi estava tentando acompanhar, só do momento em que estava acordada ela já tinha mudado de humor de repente umas quatro vezes.

— Ei, ei! Você está falando da Julia, está bem? Não pode falar dela desse jeito na minha frente — Laura reagiu.

— Você deveria ser a última pessoa a defender a Julia!

— Karime, chega, está bem? Você me disse que estava bem com tudo isso.

— Eu estou bem, a pergunta é se a Thai vai ficar bem, você já esqueceu? Del hilo insivible? O da Julia está conectado em você! — Daí ela respirou fundo já em um humor muito mais pesado — Puta madre! — Ela chutou a porta do quarto e entrou, deixando a porta bater de volta sozinha.

 

E deixando Laura e Ívi sozinhas na sala numa bolha esquisita de silêncio. Quebrada por Ívi desta vez.

 

— Você e a Julia...?

— É uma história longuíssima.

 

Ela não disse mais nada. Ívi entendeu que não deveria insistir. Levantou do sofá.

 

— Bem, eu acho que preciso ir. Você salvou a minha vida ontem, eu nem tenho como te agradecer por isso, mas eu ainda tenho muitos problemas para resolver e está ficando tarde...

 

Laura a puxou de volta, a fazendo sentar no sofá novamente.

 

— Ívi, precisamos conversar.

— Conversar sobre... — Fez um gesto, “elas duas?”.

— Sobre isso também. Mas primeiro, você não tem para onde ir, eu não vou te deixar sair, está bem? A não ser que você queira sair, é claro, você deve ter notado que a Karime está com uma condição que a leva a alguns momentos complicados, tipo esse ataque de raiva gratuito ou um comportamento ninfomaníaco do qual você ontem a noite parecia a vítima mais que perfeita. Eu não sei como você se sentiu com isso, eu te garanto que ela nunca faria nada que você não permitisse claramente, que a Thai não iria permitir se ela passasse do ponto, mas de qualquer forma, eu sei que não é apropriado — Sempre ficava dividida com os comportamentos de Karime e quando ela perdia os filtros por causa de sua condição, Laura tinha que ser seu filtro, foi um dos motivos de ter voltado para a sala na outra noite — Porém, se você não tiver se ofendido ou se sentido insegura, nem com ela e nem comigo, porque eu sei bem que não me comportei como deveria noite passada também…

— Laura, só você não se comportou?

— Ívi, você não tem que se comportar, eu tenho. De qualquer forma, se você estiver ok com tudo isso que aconteceu, aqui tem espaço. Você pode ficar por aqui até conseguir um modo de recomeçar. Nós falamos com a Natalia, ela vai conseguir alguma coisa para você, eu tenho certeza, você é boa, eu te ouvi ontem, sei que você vai dar certo, só precisa... De uma porta aberta. E a primeira pode ser a porta da nossa casa, eu conversei com as meninas, elas estão de acordo.

 

Um segundo de entendimento do que ela estava dizendo. E Ívi chorou.

 

Não queria, mas o choro copioso veio sozinho.

 

— Ei, ei — Laura abriu um sorriso, tocando o rosto dela com ambas as mãos, ficava tão desesperada quando ela começava a chorar, não tinha explicação para isso — Não chora, eu não disse ontem para você que tudo ia ficar bem?

— Mas eu não achei que... — Não conseguiu dizer nada, apenas a abraçou muito, mas muito forte.

 

Laura a deixou chorar de novo, aquele choro desesperado, cheio de reações físicas, o corpo dela tremendo inteiro, não tinha como ter se enganado, Ívi era uma menina boa, que não merecia ficar sozinha em perigo por aí de forma alguma, era a decisão certa, seu coração dizia que era, iria acreditar nele plenamente.

 

Ela chorou agarrada em si por uns dois minutos inteiros e então Laura levantou, pegou água para ela, um outro café, Ívi ainda estava fraca, dava para perceber, há quanto tempo não deveria estar comendo direito? Tudo isso lhe afligia, lhe deixava mal, com o coração preocupado, como é que ia fingir não se importar? Aquela desconhecida de alguma maneira estava com a mão em seu coração e Laura não podia, e nem queria ignorar. Podia não entender o que estava acontecendo, mas não podia ignorar que estava acontecendo algo, que estava sim sentindo algo distinto.

 

Pronto, ela tinha se acalmado.

 

— Tudo bem? Se sente melhor?

— Laura… — Agarrou a mão dela por instinto — As meninas estão de acordo mesmo? É sério? Não tem problema?

— As três ficaram desconfortáveis com a ideia de você dormindo na rua, então, para mim, isto é um acordo à sua permanência — Ela abriu um daqueles sorrisos solares — Escuta, não chora mais, está bem? Eu fico muito mal quando você chora — Confessou sorrindo — Você cozinha?

 

Ívi riu no meio do choro.

 

— Cozinho sim.

— Ótimo, todo mundo aqui cozinha, todo mundo limpa, compra o que vê que está faltando, contribui da forma que é possível. Você pode ficar, está bem? As coisas não estão muito simples pra gente também, hoje só a Julia está trabalhando, eu estou estagiando, mas é muito pouco, a Thai está sem emprego tem um mês, mas está se virando do jeito que pode, faz um vestido aqui, vende outro ali, trabalha no que aparece, ela tenta e sempre consegue algum dinheiro. Acho que não te disse, mas eu desenho…

— Aquela bagunça dos desenhos…?

— Era minha e da Thai — Ela confessou sorrindo — Ela faz croquis lindíssimos e eu desenho algumas coisas, faço capas de livros para a internet, ilustrações médicas para as pessoas da faculdade…

— Ilustrações médicas? — Perguntou sorrindo.

 

E Laura abriu sua mochila abandonada no sofá e pegou alguns desenhos.

 

— Assim, está vendo? — Mostrou o desenho anatômico supercomplexo — Este é o sistema simpático e parassimpático, são sistemas responsáveis por algumas funções cerebrais muito importantes. Quando você olha assim, com as cores e os rótulos fica mais fácil de ser aprendido, todo o vermelho é simpático, todo azul é parassimpático…

 

Eram desenhos lindíssimos, que podiam estar na parede do quarto de Ívi de tão delicados.

 

— Laura, são lindos, eu te disse que meu irmão é tatuador e desenha também, mas eu nunca tinha visto nada do tipo… — Olhou mais desenhos anatômicos e encontrou desenhos diferentes — E estes aqui?

— São para o pessoal de biologia, eu faço a mesma coisa com plantas também — Mais sorrisos — Então, eu faço algumas capas para Wattpad, faço esses desenhos, sou barista...

— Esse café maravilhoso...?

— Fiz para você — Sorriu, lhe tocando a mão — A gente se vira por aqui, hoje eu ganho pouco no meio de todas essas coisas, mas esse pouco já salvou a gente algumas vezes, sabe, nós temos este espírito de ao menos estar sempre em movimento. Só a Karime que está numa fase ruim mesmo…

— A história do “maluca”...? — Perguntou, se acalmando um pouco mais, tomando outro gole do café com creme que ela tinha lhe servido. Era sério que tinha um lugar? Parecia sério, não estava conseguindo acreditar.

— Ela é borderline. E tem alguns momentos que essa doença é maior do que ela. Está sendo maior do que ela há dois meses, Karime perdeu um ótimo emprego e não acho que ela esteja estável o suficiente para tentar arrumar outro. Ela está no último ano de Relações Internacionais na faculdade, eu só quero que ela se forme no final do ano.

— Laura... Como vocês estão vivendo? São quatro pessoas. E você ainda está me dizendo que eu posso ficar, sem nenhuma perspectiva.

— Você tem perspectiva, Ívi, a Thai também, eu sei que vou conseguir algo estável em breve, é só um momento complicado. A Julia vai muito bem na carreira dela desde o começo do ano...

— São dela os instrumentos musicais.

— São dela. Ela toca piano, violão, guitarra e canta muito, ela está numa fase ótima, não para de receber convites, o canal dela no Youtube cresceu, por consequência, o cachê na noite também e o apelido de bachelor não é só porque ela, bem, vive indo de uma para outra aqui dentro, é que nesse momento, é a Julia que cuida dessa casa mesmo, cuida da gente.

Ívi olhava para ela.

— Ela não deve ter ficado feliz com a ideia de vocês me deixarem ficar aqui, Laura…

 

Ela abriu um sorriso.

 

— Deixa a Julia comigo, garanto que ela já vai ficar mais feliz sabendo que você cozinha.

 

Ívi começou a rir, poderes de Laura. E então, depois do riso, voltaram para aquilo que já era delas, o silêncio e os olhares longos.

 

— Aconteceu uma coisa, não aconteceu? Entre você e eu — Laura rompeu o silêncio desta vez.

— Eu achei que a gente não fosse... Falar sobre, sabe?

— Falar deixa tudo mais fácil, Ívi. Teve uma coisa, eu não abordo estranhas no metrô, daí teve também a história parecida, eu também já cheguei nessa cidade sem ter um lugar para ir, sem fazer ideia do que fazer.

— Você veio por quê...?

— Eu precisei sair da casa do pai da Julia em Madrid. A minha mãe morreu quando eu tinha dezesseis anos e desde então, eu sabia que uma hora eu teria que sair de lá. Saí com dezoito anos, vim atrás do meu pai biológico, mas não sabia como seria. Bater na porta dele e simplesmente dizer que era eu, a Laura que ele não via desde quando tinha três anos. Enquanto eu pensava sobre isso com o endereço na mão e tentava criar coragem de ir até ele, porque eu ainda estava sem coragem, eu fiquei pelo calçadão da praia de mala e tudo. Fiquei sentada, olhando para o mar, sentindo tanto medo, pensando no que faria se tudo desse errado e... Karime me abordou — Abriu um sorriso — Ela viu o meu passaporte na mochila, perguntou em espanhol se eu precisava de ajuda e eu acabei contando tudo para ela, e de alguma maneira, aquele dia terminou comigo indo para a casa dela, onde fui muito bem recebida e onde eu consegui crescer a coragem de ir falar com o meu pai com segurança. Ela fez isso a uma estranha. Abriu a casa, o quarto dela. E apenas uns três meses depois disso, a amiga com quem ela dividia o apartamento ficou grávida e gentilmente a convidou a sair, já que o namorado viria morar no apartamento. E a Karime estava desempregada e sem ter para onde ir. A essas alturas, eu já estava trabalhando numa cafeteria e o meu pai já tinha me dado este apartamento aqui. Você entende? Alto e baixo são constantes móveis o tempo todo. Como dois lados de uma ampulheta que ao ser trocada de polo, se inverte por um tempo. Quando o baixo inverte, é bom ter algo positivo para se esperar de volta.

 

Ívi a olhava. Ela era tão boa. Ponto. Ela era boa e ponto, nada mais. Limpou seu rosto das lágrimas, respirou fundo, abriu um sorriso.

 

— Eu vou fazer o seu almoço!

 

Outro sorriso solar.

 

— Você vai?

— Vem — A pegou pela mão a levantando do sofá — Vem me dizer o que tem e onde ficam as coisas. E daí a gente pode, sei lá, se conhecer um pouco.

— Feito gente normal, parece um bom plano.

 

O fio poderá esticar, contrair ou enrolar.

Mas jamais se romperá...

 

É claro que podiam se conhecer melhor enquanto o poema repetia-se na mente de Laura como um ciclo viciante e infinito.

Notas do Capítulo Extra:

 

Olá, moças!

 

Como está a semana de vocês? A minha está um tantinho corrida, por isso ando devendo a respostas de alguns comentários, mas com um pouco de paciência, vou responder tudo, promessa de dedinho ^^

 

Como vocês devem ter notado, tivemos aquele velho problema dos comentários, a meta não foi batida e eu tive que ajustar a agenda de postagens novamente e ficamos da seguinte maneira:

 

* Capítulo EXPLICIT de Passional previsto para hoje: adiado para alguma data posterior

* Capítulo 3 de 6 AM: adiantado para hoje para não perdermos o ritmo da história ^^.

 

Falando um pouquinho do capítulo de hoje, pudemos conhecer mais de Karime, além de um desenrolar importante entre Laura e Ívi, nossas garotas estão se aproximando cada vez mais e com a permanência de Ívi, as coisas tendem a tomar rumos interessantes ^^. Próximo capítulo "Arde", previsto para 16/05, meta segue a mesma, 25 comentários de leitoras diferentes até ao meio-dia do sábado, dia 15/05 para liberação do capítulo.

 

Ademais, espero que estejam curtindo a história!

 

Aviso técnico aos navegantes deste site: não deixem para ler depois! Os capítulos ficarão disponíveis por tempo determinado e serão retirados do ar para futura postagem na Amazon :)

Aviso amoroso aos navegantes deste mesmo site: Hoje é dia das namoradas, curtam muito, beijem muito, cuidem bastante de quem importa ♥.

 

Beijos!

 

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