6 AM - Capítulo 4 - Arde

16/6/2019

 

  

Foram para a cozinha. Laura foi mostrando a dispensa, dizendo onde ficavam as coisas enquanto de fato, decidiram se conhecer de verdade. Feito gente comum que conversa antes de dormir agarrado, se pegar ou morar junto, este tipo de coisa.

 

— Então Karime é a mais velha?

— Ela tem vinte e cinco, é a mais velha. Eu fiz vinte e três, a Thai também, a Juls tem vinte e um, estamos sendo sustentadas pelo bebê da casa... — Contou, fazendo Ívi rir.

— Acontece.

— Você tem...?

— Vinte e quatro.

— E estava fazendo faculdade de quê? Você disse alguma coisa ontem.

— Estava no terceiro ano de Engenharia Civil lá em Maragogi. Eu já tenho um curso técnico na área, então eu fazia faculdade e trabalhava nos turnos vagos, fazia passeios de prancha numa guarderia e trabalhava numa oficina de barcos com o meu pai, fazendo funilaria.

— Funilaria?

— É pintura e conserto de cascos de navios, lanchas, iates, qualquer coisa que flutue — Contou sorrindo — Selar o casco corretamente é a coisa mais importante em uma embarcação, qualquer mínimo arranhão pode ser porta de entrada para ferrugem que come tudo de dentro para fora. Eu adoro esse trabalho e adoro passar tempo com meu pai, ou seja, era perfeito. Mas então eu tive essa ideia de largar tudo e tentar diferente aqui no Rio de Janeiro. Eu sempre me senti meio diferente. Diferente do lugar que eu nasci, das perspectivas das pessoas que me rodeiam, da cultura local e eu acho que a minha arrogância me colocou nessa situação. Quando ouvi de alguém que eu era mesmo diferente, acreditei sem nem pensar duas vezes.

— Não é arrogância, Ívi, você é mesmo diferente. Acontece isso com a Julia também, você olha para ela e sabe que ela é artista, no jeito que se move, que se veste, no jeito que cria com tanta facilidade. Eu vi isso em você ontem. Me corrija se eu estiver errada, mas — Ela roubou um pedacinho de queijo e comeu — As meninas de Maragogi não andam por aí de botas, calça de couro e camisa xadrez.

 

Ívi abriu um sorriso.

 

— Não andam não. Não tem a ver com o nosso lugar, o clima não é nem um pouco propício a tal estilo. Eu sempre me senti meio alienígena por isso.

— Não é alienígena, você é como a Julia mesmo, se expressar é importante demais para a composição geral de um artista de palco. Vocês são diferentes de mim, por exemplo, a menina comum que estuda fisioterapia e faz uns desenhos esquisitos de anatomia… — Disse, fazendo Ívi rir.

— Não são esquisitos, são lindos! Igual ao vestido de sobra de tecido que a Thai fez pra você, eu ainda estou impressionada. Então você estuda fisioterapia.

— Me formo ano que vem. Eu não tinha ideia do que queria estudar, sempre tinha sido atleta, mas não me via estudando Educação Física ou sendo atleta, eu precisava de outra coisa. Foi quando eu descobri a fisioterapia, que de uma maneira esquisita juntou a minha habilidade com desenhos anatômicos com estudar o movimento e o corpo humano, e então eu me apaixonei. Eu quero muito trabalhar com fisioterapia infantil, estou estagiando na área em um projeto social no hospital da UFRJ e era o que faltava para eu ter a certeza do que quero.

 

Ívi olhou para ela.

 

— Combina com você — Disse sorrindo — A ciência médica e o trabalho com crianças. Mas eu ouvi mais de uma vez algo sobre seleção brasileira...

— De hóquei — Ela sorriu — A sede da seleção brasileira está na minha universidade e como não é um esporte popular por aqui, você deve imaginar como é complicado encontrar atletas de ponta, o que abre oportunidades para atletas medianos. Eu cheguei a jogar algumas partidas, mas minha nacionalidade não saiu em tempo das Olimpíadas.

— Hoje você tem dupla nacionalidade?

— Desde a semana passada, da Galícia ao Rio de Janeiro, tudo minha casa!

 

Elas trocaram um sorriso e então houve um silêncio. E aquela coisa lembrando as duas que estava ardendo, queimando devagar por dentro, ansiando por um centímetro mais perto uma da outra que fosse. Não passava, não acalmava. Ívi parou o que estava fazendo por um instante e recostou-se no balcão da cozinha abraçando os próprios braços, ocupando suas mãos para não esquecer que não deveria tocá-la. Apesar da vontade.

 

— Laura, sobre a gente ontem...

— Ívi, eu sei de tudo, eu senti tudo igual, você não está maluca. Mas eu tenho namorada e ela está no torneio mais importante da vida dela. O namoro nem deveria ter começado para falar a verdade, mas nos aproximamos quase que por acaso ano passado, num torneio que foi evento-teste aqui no Rio. Ficamos, trocamos contatos e agora que estava perto dela vir para cá de novo, a relação intensificou. Ela chegou aqui, nos encontramos, ela disse que deveríamos namorar, que temos muito em comum e... Eu aceitei. Porque eu gosto dela, ela é uma menina maravilhosa. Que não merece ser distraída agora por algo que eu faça. Você e eu não nos conhecemos — Ela sorriu, tentando dizer aquela verdade da maneira mais suave possível — Estamos começando a nos conhecer agora e as coisas que sentimos sem conhecer, geralmente resumem em atração. Atração não é uma emoção muito segura, entende?

 

Ívi soltou os braços, pensando por um instante.

 

— E se a gente não for um “geralmente”?

 

Ela sorriu outra vez.

 

— Ainda vai estar aqui por tempo suficiente para ser percebido. Obrigada por ter entendido ontem à noite. Entendido todas as coisas. Eu fui para o quarto porque sabia que era o correto, mas então eu volto, te puxo do meio das garotas, nem pergunto o que você quer fazer, se queria ficar com elas, se queria ir comigo. Daí te levo de qualquer jeito e quando a gente entra no quarto... Desculpa. Por ter te impedido de fazer o que você queria por nada.

 

Ívi olhou nos olhos dela.

 

— Você me impediu mesmo de fazer o que eu queria. Mas não foi por nada, foi porque você tem namorada — Ívi beijou a testa dela e Laura...

 

Respirou fundo, fechando os olhos, perdendo o ar e assim se agarrou no punho dela por instinto. Voltou a respirar. Abriu os olhos, abriu um sorriso, aquela moça linda continuava tão perto.

 

— Ívi...

Obrigada. Por ter se importado comigo no metrô, por ser tão generosa, obrigada por me deixar ficar. Eu te juro que vou dar um jeito, a chance que aparecer vai ser a minha chance, o que você está fazendo por mim eu mesma vou devolver para você.

 

Laura a abraçou. Um abraço longo, de quase um minuto em que esticou seu corpo inteiro pelo dela a mantendo muito perto de si.

 

— Você pode dormir no meu quarto se quiser, mas não tão juntas, está bem? Eu monto uma cama para você, dou um jeito de deixar aconchegante, nós temos colchonetes, almofadas, vamos deixar bem confortável. Eu não quero que a gente...

— Eu sei, você não tem que explicar nada — O tesão era uma emoção cega, Ívi sabia muito bem o que podia acontecer se dormissem juntas de novo — Quer que eu durma na sala? Você já está fazendo demais.

— Aquela sala é altamente movimentada, Ívi, você não faz ideia... — Disse, a fazendo rir no exato momento que seu celular começou a tocar.

 

Laura se afastou para atender e uns dois minutos depois, voltou.

 

— Você disse qualquer chance, não disse?

 

E Ívi ficou empolgada e preocupada na mesma proporção!

 

— Por que você está usando este tom?

— Antes da nossa conversa, você já tinha ouvido falar de hóquei sobre a grama?

— Eu... Ok, que coisa eu tenho que fazer?

— O DJ que estava contratado para fazer os jogos de hóquei em Deodoro desistiu, Natalia ligou, ela trabalha na agência dos organizadores do parque e convenceu todo mundo de que você é a melhor DJ com experiência esportiva que ela já ouviu tocar na vida! A vaga é sua!

 

E o coração de Ívi saiu galopando pelo seu peito.

 

— Experiência esportiva? A vaga é minha? Que coisa faz um DJ num evento de esporte? Quanto pagam? Eles pagam? Que coisa é hóquei? É tipo no gelo?

 

Laura começou a rir.

 

— É tipo o do gelo, só que sobre a grama, eles pagam trezentos reais por dia, seu dia começa amanhã, primeiro jogo às dezessete horas, é a estreia da Kelsey, eu vou estar lá, Karime também e vai dar tudo certo, Ívi...

 

E é claro que Ívi já estava surtando.

 

— Laura, é amanhã de tarde!

— Eu sei, eu sei! Mas você disse qualquer coisa...

— Eu sei que disse, mas... Está bem, eu consigo, trezentos reais, eu nunca recebi isso de cachê na vida! Mas o que eu devo fazer? Eu nunca tinha ouvido esse termo até hoje.

— Experiência esportiva? Alguns eventos esportivos são uma verdadeira festa. Já assistiu vôlei de praia?

— Já, vôlei de praia já.

— Quando acontece um ponto bonito ou um bloqueio, sempre tem trilha, nos intervalos, antes e depois da partida, é isso que o DJ faz em um evento esportivo. Escuta, vai ter hóquei lá na UFRJ daqui a uma hora, a gente almoça, você pega o seu equipamento e nós vamos para lá, eu te explico as regras, em que momento tocar, que tipo de música funciona nesses eventos e...

 

Ívi estava hiperventilando se dando conta de uma coisa.

 

— São as Olimpíadas, Laura.

 

Ela sorriu, luminosa.

 

— Eu sei. Tem gente que estreia grande. E se a primeira chance que apareceu é esta, eu acho que você é desse time.

 

Ívi olhava para ela. Era louquinha aquela espanhola, mas quando ela falava lhe passava tanta certeza que Ívi nem sabia. Abriu um sorriso.

 

— Você deu tanta certeza pra Natalia ontem de que conhecia bem o meu trabalho que ela acreditou. Você só me ouviu tocar uma vez, por uns cinco minutos.

 

Ela deu de ombros.

 

— Ívi, eu não sei os motivos. Nem pelos quais eu te abordei no metrô e te trouxe para casa, ou porque eu acredito em você. Talvez um esteja dentro do outro, quem sabe? Eu só vou saber depois, não tem problema, nós temos tempo — Ela sorriu novamente, deixando Ívi...

 

Sorriu, apertou os lábios, o coração também.

 

— Trezentos reais? Eu vou levar todas vocês para jantar, até a Julia...

 

Laura não duvidava de nada.

 

Cuenta la leyenda que todos nacemos con hilo rojo invisible atado a persona que amaremos por toda la vida...

 

Ívi a olhou e ela lhe olhava de uma maneira... Intensa. Diferente.

 

— Como você me chamou ontem mesmo?

 

Laura abriu um sorriso.

 

Amoriño?

Amoriño — Ívi a abraçou pela cintura porque era simplesmente irresistível. A abraçou, a pegou, roubou o cheiro gostoso dela, aquela menina era cheirosa demais — Você parece um incêndio, sabia? Arde quando você olha assim…

— Você não deve me dizer essas coisas — Ela lhe pediu, toda agarrada no pescoço de Ívi.

— Eu não digo mais — Respondeu, na promessa mais vazia que já tinha feito na vida.

Foram acordar Karime. A criatura furiosa devia ter dormido por uns vinte minutos apenas, mas precisavam dela, ela não queria ir para o hóquei de domingo? Uma das únicas quadras decentes de hóquei sobre a grama no Brasil fica na UFRJ, a base da seleção brasileira. De domingo, sempre jogavam atletas e alunas da universidade, na tentativa de atrair novas praticantes para uma modalidade tão pouco conhecida. Ela acordou, calma que nem parecia que tinha acabado de quase quebrar a porta do quarto num ataque de raiva. Almoçaram rapidinho, um macarrão maravilhoso que Ívi havia cozinhado e:

 

— Você tem quinze minutos para ficar pronta.

 

Ívi correu para o quarto, precisava tomar um banho rápido, se arrumar e estava tão acelerada que nem sabia. Era muita coisa em menos de vinte e quatro horas, de repente Laura, proteção, um lugar para ficar e uma chance de fazer um bom trabalho, e ter algo em seu case da próxima vez que fosse pedir outra chance a alguém. Não tinha ideia de nada, nem de como se jogava hóquei, ou o que a música tinha a ver com isso, mas iria dar um jeito, iria se virar, iria fazer dar certo.

 

Correu para o banho e quando saiu, se deu conta de que seu celular ainda estava desligado! O ligou rapidamente, tinha ficado sem bateria no dia anterior e sem uma tomada que pudesse usar. Ligou e tinha muitas mensagens preocupadas, ligou para sua mãe imediatamente e chorou quando ouviu a voz dela. Não deixou que ela percebesse o choro, não a queria preocupada, mas depois do pânico de ficar na rua no dia anterior, ouvir sua mãe e não precisar assustá-la com uma condição complicada foi algo maravilhoso. Explicou que teve um problema, que teve que comprar outro carregador, inventou qualquer coisa, pediu desculpas pelo sumiço, tudo estava bem.

 

E estava mesmo. Daí desligou e ligou para a única pessoa que sabia que na verdade, as coisas ontem não estavam nada bem.

 

Sua Tiziana.

 

— Ívi! Não faz isso, caramba! A última vez que nos falamos você estava sem ter para onde ir, e então eu não consegui mais falar com você.

— Eu disse pra você que ia acabar a bateria, foi isso que aconteceu.

— E só retornou agora? O que aconteceu? Eu consegui algum dinheiro emprestado, posso mandar pra sua conta.

— Não manda não, um monte de coisas aconteceram de ontem para hoje, mas eu vou precisar de tempo para te contar! Tempo que não tenho agora, pois preciso sair rápido, mas conversamos quando eu voltar, prometo.

— Voltar para onde, Ívi? Você estava na rua até onde eu sei!

— Não estou mais. Eu tenho onde ficar, estou segura, fica tranquila, está bem?

 

Ela não pareceu muito tranquila ainda, mas Ívi realmente precisava ir. Desligou e foi buscar o que vestir imediatamente. Lingerie, short jeans curto, tinha uma camiseta swag preta em algum lugar, que cobria o short, mostrava sua tatuagem na coxa, “inquebrável” era o que estava escrito, ficava bonita e Ívi queria ficar bonita, se absteve de se explicar os motivos, só queria. Abriu a mochila inteira, procurando a tal da camiseta e, Laura entrou no quarto.

 

E desviou os olhos imediatamente.

 

— Aparentemente algo me atrai para o quarto sempre que você está sem camiseta — Ela disse sorrindo ao virar de costas — É que eu não divido o quarto, daí não tenho o costume de... — Sentiu uma presença física chegando muito perto de si. Ardeu. Caramba, não ia mesmo parar? — Bater.

 

Ívi abriu um sorriso, vestindo a camiseta que tinha acabado de encontrar, tão perto de Laura que estava sentindo o calor da pele dela.

 

— O quarto é seu, você não tem que bater mesmo — Então vestiu uma jaqueta jeans por cima, tão longa quanto a camiseta, subiu as mangas, tirou o colar de dentro da camiseta — Eu já estou pronta.

 

E estava cheirosa a ponto de deixar Laura meio zonza. Virou-se de frente, olhando para ela e apertar a própria nuca foi um reflexo.

 

Iria morrer de vontade, pensamento aleatório.

 

— Escuta, a Natalia veio pegar a gente e quer falar com você rapidinho. Eu vou trocar de roupa e já te encontro, está bem?

Ívi a deixou trocar de roupa e foi para a sala onde Natalia lhe esperava.

 

Outra menina bonita, aparentemente, Laura fazia coleção. Natalia a recebeu com um abraço.

 

— Ei! Tudo bem com você?

— Tudo bem sim! É o melhor dia seguinte que eu poderia imaginar na vida — Ívi abriu um sorriso para ela.

— Eu imagino! Escuta, que nome você usa para tocar?

— Nome?

— Você tem nome artístico, alguma coisa assim?

 

Ívi ficou pensando consigo.

 

— É que…

— Quando alguém te chama para tocar em algum lugar, que nome você usa?

— Ah, as pessoas só me chamam, eu não tenho um nome artístico…

— Ok, qual o seu sobrenome?

Matis — Matis era o nome da tribo de sua mãe, lá da fronteira do Amazonas com o Peru, o sobrenome que ela tinha recebido quando deixou a tribo com a avó de Ívi.

— Matis? Ívi Matis? Isso é nome de advogada, Ívi, não de DJ! — Ela respondeu sorrindo — Você tem um outro sobrenome?

 

Ívi abriu um sorriso, porque é claro, tinha o nome de seu pai também, mas era...

 

Schelotto.

 

E todo mundo caiu no riso.

 

— Isso é nome de médica, garota! Acho que você está predestinada a duas coisas que você não quer. Tudo bem, eu preciso informar um nome artístico para a agência, pensa em alguma coisa.

— Agora?

— Você tem trinta segundos.

 

E nesses trinta segundos, Laura voltou pra sala. Impecavelmente uniformizada, toda em azul-royal com detalhes em branco, camiseta manga curta, minissaia, os braços mostrando sua definição muscular enquanto ela prendia os cabelos num rabo de cavalo e sinceramente…

 

Ívi respirou muito fundo.

 

— Ívi?

Ívi... — E só uma coisa lhe veio em mente — Bueno.

— Oi? — Karime começou a rir.

— Perfeito! Ívi Bueno é nome de DJ — Natalia anotou alguma coisa no celular — Vou mandar um e-mail e a gente já vai…

 

E o olhar entre Laura e Ívi seguiu...

 

Infinito.

 

— Ívi Bueno? — Laura não estava acreditando.

 

Ívi beijou a mão dela, olhos ainda conectados.

 

— Pensei numa predestinação que eu gostaria de seguir.

 

De fato, ela ia falhar deliberadamente na missão de não dizer certas coisas a Laura.

 

Entraram no carro e partiram para o hóquei e Ívi não sabia mesmo o que estava acontecendo ou o que estava sentindo. Viu Laura teclando com Kelsey o caminho inteiro, não entendia uma palavra em inglês, mas os emojis lhe contavam bem mais do que ela gostaria de saber, tal como também lhe dizia muito o sorriso recorrente de Laura a cada mensagem recebida. Ela parecia mesmo gostar da menina e isso lembrava Ívi de que precisava de verdade focar nas suas coisas. Laura ainda lhe deixava aturdida, desfocada e talvez, a teoria da atração fosse real. Era só atração.

 

E aquele tesão que não passava por nada. Bastava ignorar, era isso, devia resolver.

 

Chegaram na faculdade e já tinha jogo rolando. O sol tinha decidido sair, o céu tinha azulado e aquele esporte… Aquele esporte era uma loucura!

 

Movimentos vigorosos para todos os lados, goleiras de armadura, tacos, a bola, as traves, os movimentos fortes, agressivos, a comunicação feroz, as pancadas fortíssimas e as garotas fazendo tudo aquilo de… minissaias. Tipo, minissaias!

 

— Laura, olha aquilo, esse barulho! Essa bolinha é pesada?

— Você não quer estar na frente de um tiro desses — Ela lhe respondeu sorrindo ao arrumar as meias até perto dos joelhos ralados recentemente. Ívi tinha notado ainda no metrô e se perguntado por que aquela menina tão delicada teria os joelhos ralados daquele jeito, agora tinha a resposta — Vem cá, senta aqui comigo, eu vou te explicar as regras básicas…

 

Sentou ao lado dela, enquanto pegava seu equipamento e observava um pouco mais daquele jogo tão intenso enquanto Karime aquecia empolgada para entrar.

 

— Você joga em qual posição?

— Eu sou meio-campista, sou canhota, jogo ali pela esquerda. Olha, você conhece futebol? É basicamente a mesma coisa, são onze para cada lado e o objetivo é fazer gols…

 

Ela começou a lhe explicar mais algumas coisas, algumas particularidades, explicou que havia tanto o momento certo para a música como o momento certo para o silêncio.

 

— Os pênaltis são dinâmicos. A bola fica ali, a goleira se prepara e depois que o juiz apita, a atacante tem oito segundos para converter o tiro a gol.

— Não é só bater e pronto?

— O drible é parte muito importante, então o juiz apita e nós podemos bater direto para o gol ou colocar a bola em movimento e tentar driblar a defesa, o que geralmente acontece. E para que tudo isso aconteça com eficiência, é necessário usar plenamente o tempo, se a atacante não ouve o apito do árbitro, nós perdemos performance, entende?

— Então nesse momento o silêncio é importante.

— Isso. Outra coisa, você vai ficar nas cabines de transmissão, terá que ter muita atenção para ver os gols, a bola é pequena, quem não está acostumado pode demorar para ver, aliás, até os árbitros se confundem às vezes. Outro dia levamos uma bola na trave que foi marcada como gol porque o tiro foi muito rápido e não deu para ver.

— E na hora dos gols a música precisa funcionar.

— Exatamente. Na hora dos gols, ou de algum tiro perigoso ou bonito. Você tem algumas playlists prontas? É claro.

— Tenho algumas, mas não faço ideia do que devo tocar…

— Eu vou te mostrar algumas playlists minhas, vamos lá…

 

Ela lhe mostrou, pacientemente e enquanto ouvia as músicas, e via aquelas garotas duronas jogando aquele game tão complexo e intenso, Ívi foi começando a captar o espírito da coisa. Começou a anotar regras, posicionamentos, artistas, estilos, algumas músicas, a caneta escrevendo tudo rapidinho, a guitarra sobre o colo e Laura apertou os lábios, amassou a própria nuca, sem parar de olhá-la, porque...

 

— Eu achei que você teria medo.

 

Ívi buscou os olhos dela.

 

— Eu tenho medo, estou morrendo de medo, mas eu tenho que fazer, vim aqui para isso — Respondeu sorrindo.

 

Era o tipo de resposta que Laura gostava. Resposta de quem tem força e coragem, resposta da garota que imaginou que Ívi fosse mesmo.

 

— Eu quero saber como você faz isso. Como incorpora a guitarra com a pick-up.

— Posso fazer barulho aqui?

— Todo o barulho que você quiser.

 

Ívi ligou tudo rapidinho, o notebook, a pick-up, os controles, a pequena, mas estrondosa caixa de som, a guitarra, cada um daqueles equipamentos tinha sido comprado a base de muito suor, muito trabalho duro e isso sempre causava um misto de emoções em Ívi.

 

— São os frutos do seu trabalho.

— Eu sei que são. Mas eu venho de uma casa muito humilde, Laura, você não faz ideia. Esses quase sete mil reais de equipamentos poderiam fazer toda a diferença — Respondeu, enquanto terminava de ligar os fios — Mas a minha mãe nem quer saber. Ela sempre me incentivou, diz que são investimentos, acredita muito em mim, então você imagina como ela ficaria se eu contasse que havia sido enganada. Sobre a minha etnia, as pessoas julgam duas coisas: um, porque somos indígenas, somos agressivos e selvagens, e dois, porque somos indígenas, somos bobos, inocentes e ela sempre me ensinou a não ser inocente, a ficar esperta com todas as coisas. Mas eu falhei, né.

— Ívi, tudo o que você possa ter falhado, já recuperou nas ruas. Essa cidade não é fácil não, e você se virou nas ruas sozinha por vinte dias, vindo de um lugar pequeno, enfim. Eu vejo a sua etnia, está nos seus olhos, em alguns traços seus, mas por outro lado, este cabelo mais rebelde aqui e aquele seu sobrenome...

— O meu lindo cabelo indígena foi misturado com DNA revolto italiano, foi este o problema — Respondeu sorrindo, seu cabelo misto era a melhor prova de DNA possível na vida — Meu pai é italiano e o DNA indígena é recessivo, aí deu nisso...

 

Mais risadas e Ívi terminou de ligar o seu equipamento, e a caixa de som começou a vibrar. Primeiro numa batida bem suave, então a música se apresentando, era Las de la intuición, de Shakira e então um remix que começava a crescer, começava a encher todo o lugar e a reação que Ívi gostava de ver, as garotas no campo reagindo a sua música, os pés começando a bater no chão, a música ganhando vida aos poucos até explodir feito um vulcão no refrão! Porque não eram apenas as batidas crescentes, eram as batidas crescentes e o som arrepiante da guitarra de Ívi.

 

Que sempre vinha do nada, que sempre surpreendia, tão forte e inesperado que o jogo simplesmente parou lá embaixo! As garotas pararam para ver, para entender o que estavam ouvindo, mais daquelas reações adoráveis, mais sorrisos solares de Laura que não estava acreditando quando Ívi terminou!

 

— Ívi, isso é muito, muito legal!

— É diferente, não é?

— Eu nunca vi nenhum DJ fazendo isso! Vamos lá, por que a gente não vai lá para baixo e faz o som da partida? Acho que vai te ajudar a ter noção…

 

Desceram a arquibancada para perto do campo, montaram tudo de novo e lado a lado com ela, Ívi foi entendendo melhor o tempo de cada coisa, em que momento soltar o som, que tipo de som soltar, que música combinava com o quê. O tempo foi passando, mais jogos foram acontecendo, mais garotas chegaram, outras partiram, mais paciência de Laura, mais trabalho duro, seriam dois jogos, intervalos, som da arena, não eram poucas horas de música, só era pouco tempo para que Ívi conseguisse fazer tudo. E quando Laura desceu para jogar um pouco, foi o único momento em que perdeu a concentração do que estava fazendo.

 

Não conseguia parar de olhar para ela, nem um pouquinho que fosse. Laura era uma coisa linda e feroz, aquele esporte não era para qualquer garota não, as pernas fortes, o abdômen mais forte ainda, os braços firmes e aqueles tacos para todos os lados deixando Ívi um tanto aflita! Ela jogou dois tempos, marcou um gol, armou mais dois e, sentou-se do lado do campo. Ívi pulou o alambrado para ver o que tinha acontecido e, um dos cortes no joelho tinha aberto.

 

— Laura…

 

Laura agarrou a mão dela, sentindo aquele tom de bronca.

 

— Eu sei, eu não sabia que ia abrir. Você pode pegar uma água para mim? Só para dar um jeito nisso aqui?

— Claro que posso.

 

Ívi fez o que ela pediu e quando voltou, Laura não escapou de apresentá-la para algumas garotas, porque enquanto estava jogando, foi só o que ouviu. Quem era a DJ, a garota bonita que tinha trazido, que Laura precisava apresentar, então apresentou e houve um festival de troca de celulares impressionante. Ok, era de se esperar, Julia causava um efeito parecido. A deixou com as garotas um pouco, conversando e os olhares seguiam, sempre longos, sempre indecifráveis. Levou mais um tempinho e Ívi voltou para perto.

 

— Carona até a arquibancada?

— Quê? Vai me levar no colo?

— Eu tenho certeza que você exige menos força do que o tombar de um casco de lancha.

 

Bem, não é que ela exigia bem menos? Ívi a carregou no colo aos risos e os braços dela agarrados em seu pescoço, num nervoso básico por estar fora do chão. Laura se considerava uma garota bem forte, mas Ívi era um outro patamar! Ela não só caminhou com Laura nos braços sem grandes problemas, como subiu alguns degraus até onde estava montada sua pick-up e esta foi exatamente a cena que Julia viu assim que entrou na arena: Laura nos braços de Ívi.

 

Não viu mais nada, nenhuma coisa, era como se sua visão se tornasse vermelha toda vez que via alguém tão perto de Laura assim.

 

Ficou vermelha. Os braços, os risos, a proximidade. Julia respirou fundo e apertou os lábios tão forte que os sentiu partindo.

 

Notas do Capítulo Extra:

 

Olá, meninas!

 

Como estão? Gostei de ver a chuva de comentários para garantir o capítulo de hoje. hahaha

 

E aqui estamos, domingo de manhãzinha com capítulo novo de 6 AM para vocês ♥. Capítulo tranquilo, para conhecermos um pouco mais de Ívi e Laura e, um pouco mais também de duas personagens à parte que serão o hóquei sobre a grama e a música eletrônica 😊. Tanto o hóquei quanto a música terão importância ímpar na história e estarão nos acompanhando do começo ao final ^^. Agora que já tivemos um pouco mais de Ívi e Laura, e também um pouquinho de Karime, é hora de conhecermos Julia Torre mais de perto 😉. Curiosas para entenderem um pouco mais da relação entre Julia e Laura?

 

Próximo capítulo, "Julia", a ser postado dia 19/06, desde que a meta de 25 comentários de leitoras diferentes seja batida até o meio-dia do dia 18! Ou seja, não deixe para comentar depois ^^.

 

Beijos, meninas! Espero que estejam curtindo a leitura!

 

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