6 AM - Capítulo 5 - Julia

19/6/2019

 

  

  

Julia respirou muito fundo ao ver aquela proximidade, e então, outra proximidade lhe fez sorrir.

 

A boca de Thai no seu pescoço, perto do seu ouvido, faltava pouquinho para o pôr do sol e elas chegaram muito juntas, muito agarradas, Julia de camiseta branca e camisa xadrez azul por cima, com as mangas enroladas, os charmosos cabelos desgrenhados, aqueles olhos bonitos, o relógio dourado brilhando no pulso e ah, sim, sua Nutella lhe mordiscando o ouvido e dizendo que ia lá embaixo, ver se ainda dava para jogar um pouquinho. Julia a beijou antes de deixá-la ir, ficar com Thai era tão bom que nem sabia. Ela correu para o campo e Julia voltou os olhos para aquela outra proximidade. Ívi estava cuidando do joelho de Laura.

 

Desceu até onde elas estavam e, sentou-se na fileira de cima da arquibancada, pondo Laura entre as suas pernas e a abraçando muito, mas muito apegada por trás.

 

Tanto que se olhar matasse, “Rulia” estaria bem morta. Pelos olhos indígenas de Ívi Schelotto.

 

— Como você consegue fazer essas coisas, hein?

— Eu estiquei demais e abriu de novo — Laura beijou o punho dela com carinho — Eu achei que você não vinha.

— Eu te disse que vinha, só atrasei um pouco porque nós estávamos longe. E aí, Ívi, curtiu o hóquei?

— É uma loucura, mas eu adorei. É bem diferente, eu nunca tinha assistido — Abriu um sorriso para ela sentindo um convite tácito para se afastar — Bem, se você ficar quieta um pouco deve parar de sangrar — Cobriu o corte com uma toalhinha esportiva molhada — Eu vou adiantar as playlists.

 

Laura pegou a mão dela e beijou.

 

— Vai lá, não vamos demorar muito para ir embora, está bem?

 

Outro olhar de Ívi trocado com Julia, porque os olhos dela estavam em si por algum motivo.

 

— Está bem.

 

Ívi voltou para seu notebook, para os seus headphones, mas baixou o volume. Estava perto o suficiente para ouvi-las. Julia desceu da fileira de cima e sentou-se ao lado de Laura.

 

— A Natalia conseguiu as Olimpíadas para ela, foi isso mesmo? — Entre elas, elas falavam galego sempre, não adiantou Ívi baixar o volume dos seus fones, naquela primeira frase inteira só entendeu seu nome.

— A sorte dela tinha que virar em algum momento, não é?

— Até ontem ela estava vagando nas ruas do Rio de Janeiro, a sorte virou desde quando você colocou as mãos nela. Ela não saiu do nosso apartamento, saiu?

Julia…

 — Laura, escuta, só me escuta, mí vida — Tocou o rosto dela, Laura era um pouquinho mais baixa, Julia lembrava do quanto havia ficado feliz quando finalmente seu corpo decidiu crescer e percebeu que estava mais alta do que Laura, e que além disso, estava mais forte também. Mais alta e forte suficiente para protegê-la quando fosse necessário. Altura e força para protegê-la das pessoas da escola, ou da fúria da mãe maluca que Laura tinha, para protegê-la ainda da incompreensão de seu pai, porque sabia que uma hora ela seria incompreendida, sabia, sempre teve certeza — Você não conhece ela.

— Eu sei que não. Mas estamos começando a nos conhecer agora, Thai e Karime não se opuseram, Juls.

— É claro que não, Karime tem planos com ela.

— E a Thai não tem?

 

Julia olhou bem nos olhos dela.

 

— Quer me perguntar alguma coisa, Laura?

— Quero saber se você tem certeza do que está fazendo. A Karime está em um momento muito sensível, Julia, eu não sei se ela aguenta uma decepção.

— A Karime e eu não temos nada, Laura, você sabe disso melhor do que eu. Não temos nada além de tesão, ponto, isso é claro para todo mundo. O momento em que a Karime está, tudo pode virar uma decepção, independente de sentimentos, ela cria sentimentos, cria cenários, não são reais, é a doença agindo nela. Mas eu não estou criando nada com a Thai, eu... Gosto dela.

— Gosta quanto?

— Bastante, você sabe que eu gosto dela mesmo.

— Eu sei que você gosta dela, mas também gosta da Karime, gosta de mim, eu quero saber se você gosta dela diferente. Pra onde vocês foram hoje? Levou ela para almoçar fora?

 

Julia apertou os lábios. E deitou no colo de Laura, buscando os olhos dela com os seus.

 

— Almoçamos, fomos ao cinema, depois ficamos um tempão numa livraria e fomos jogar paintball — Contou sorrindo e recebendo um carinho de Laura em seu cabelo.

— Vocês adoram fazer coisas juntas.

— Eu adoro sair com ela.

— E por que não faz as coisas direito, Juls?

— Laura, pra começar, a Thai sequer é gay. Até beijar a Karime, ela nunca tinha ficado com nenhuma garota e tem aquele trauma que ela nunca vai abandonar.

— Da mãe que abandonou ela pequena com a avó para viver com outra mulher.

— Esse trauma. Você deveria estar preocupada comigo, não com ela.

— Julia, sério? A Thai tem o trauma dela, mas ela é no mínimo bi, só acontece dela não ser gay lá na cabeça dela, porque em qualquer outro lugar está claro que ela não é hétero. Eu vejo vocês duas se aproximando desde o dia em que se conheceram, mas eu sei que tem uma outra intensidade nessa proximidade desde quando ela veio morar com a gente e vocês ficaram. Porém... — Laura respirou fundo, era tudo complexo demais — Você ficou com a Karime essa madrugada, Juls.

— Eu sei que fiquei, ela colocou as garras em mim e eu sou apenas humana. Eu nem sei como a menina ali resistiu a Karime ontem.

 

Laura não disse nada.

 

— Você, é claro que foi você!

— Julia, a gente tinha acabado de se conhecer, a Karime anda em crise e eu não tinha certeza se a Ívi estava à vontade com ela. Eu a trouxe para casa, ela é minha responsabilidade.

 — E te ter cuidando dela é a última coisa que ela quer, é claro. Aparentemente, Ívi e eu somos mais parecidas do que imaginamos.

 

Houve um silêncio. E Laura a abraçou, se curvando sobre ela porque seus sentimentos por Julia eram tantos e mudavam o tempo todo, sabia, mas sua necessidade de tê-la perto parecia algo que não iria mudar nunca.

 

— Eu não quero a gente discutindo, Julia, mas a Ívi não vai voltar sozinha para a rua de jeito nenhum — Disse, deixando seus olhos bem perto dos dela. Sempre conversaram melhor assim, se olhando muito de perto.

— Eu sei que você não quer, eu não quero também — Respondeu, segurando no braço dela, o relógio brilhando em seu pulso tanto quanto seus olhos, ter Laura perto sempre lhe causava as melhores sensações, muita coisa mudava entre elas, mas esta sensação não mudava nunca também — Você sabe como eu sou filantrópica com gatas abandonadas…

 

Laura caiu no riso. Tinham se desentendido há uns três dias, por causa da irresponsabilidade de Julia com sua própria permanência no Brasil, o visto tinha expirado há muito tempo e ela não agia, tinham brigado e não tinham se entendido direito ainda. E Laura detestava ficar brigada com Julia, detestava.

 

— Então não me julga.

— Eu não julgo você, não é isso, eu só não sei se você sabe direito o que está fazendo. Primeiro, você aparece namorando, eu ainda quero que você me convença de que não aceitou esse namoro só para me afastar de você…

— Você é tão convencida… — Outro sorriso.

— Eu não sei mesmo, Laura. E agora você encontra essa menina na rua, traz ela pra casa, coloca ela na sua cama…

— Não foi assim.

— Vocês dormiram juntas.

— Só dormimos.

— É mais grave ainda. Tudo bem, o problema nem é esse…

— Eu sei qual é o problema, mas ainda assim, eu não consigo deixar que ela saia sem ter para onde ir. Ela ia sair hoje de manhã, mas você imagina? Ela vagando sozinha por aí?

 

Julia olhou bem para ela. Respirou fundo.

 

— Laura… À parte tudo o que nós já tivemos, nós temos aquele outro laço — O laço que as fazia irmãs — Eu preciso cuidar de você, entendeu? Foi o nosso pacto, eu cuido de você, você cuida de mim, nós duas cuidamos da María, é assim. Eu só estou preocupada.

— Eu entendo o porquê você está preocupada, Juls, é claro que entendo, eu teria a mesma reação se você fizesse o mesmo. Eu não sei te explicar os motivos pelos quais eu a trouxe para casa, e menos ainda o que está me fazendo confiar tanto nela, só aconteceu assim, eu estou sendo sincera com você. Você também não está confortável com ela dormindo na rua, você sentiu algo parecido.

— Eu não fico confortável sabendo que menina nenhuma está dormindo na rua, mas isso não quer dizer que eu quero essas meninas no seu quarto.

Julia... — Apenas a olhou e aqueles olhos bonitos enfraqueciam Julia há mais tempo do que podia se lembrar — Eu não quero que a gente se desentenda.

— Porque você não vai mudar de ideia.

— Não me coloca nesta situação, Julia.

— Eu não vou te fazer escolher, é estúpido, eu só estou tentando entender o porquê.

— Se você entender mais rápido do que eu, me conta, porque eu ainda não tenho a resposta também. Eu só quero que ela fique bem, que fique segura, nós temos isso — Disse, enquanto acariciava os cabelos dela outra vez — Nós temos sorte, Julia, as coisas não estão indo muito bem para três de nós, mas você está indo bem, nós temos um lugar seguro, não precisamos nos preocupar com isso, é só por uns dias, Juls.

 

Julia respirou fundo.

 

— Só por uns dias?

— Eu te disse sim quando você me pediu pela Thai.

— É diferente.

— Por que é tão diferente?

— Porque você não tem ciúmes e eu tenho, essa é toda a diferença...

 

Laura abriu um sorriso.

 

— Você e seus ciúmes.

— Vai ficar toda deprimida se eu mandar a gata de rua embora, não vai?

— Gata de rua? — Outro sorriso de Laura.

— Achou ela no metrô, não foi? É gata de rua — Disse, fazendo um carinho em Laura ainda deitada no colo dela — Laura, eu não concordo com isso, mas você é a pessoa com mais intuição eficiente que conheço. Se você sente que pode confiar nela, que ela fique, eu espero que ela dê certo amanhã, eu só...

 

Outro sorriso de Laura.

 

— Está dizendo que sim?

— Como se fizesse grande diferença o meu sim ou o meu não, mas que seja o que você quiser, está bem? Se vai te fazer feliz…

 

E Laura a agarrou e a beijou muito, sorrindo demais!

 

— Caramba, o quanto você queria isso! — Julia não parava de rir ao sentir aquela empolgação.

— Eu não quero que ela fique sozinha e não quero ficar brigada com você, você sabe que eu detesto quando discutimos.

— Eu também detesto discutir com você, eu só... Não sei. E não sabendo eu só vou aproveitar para te dizer mais uma vez que essa história de você namorar aquela gringa me chateia mais do que essa outra de você estar apegada na gata de rua… — Beijou a testa dela carinhosamente e então a puxou pela nuca — Vente aquí…

— Juls…

— Un piquito, vale? Solo un piquito, dame, dame…

 

Laura deu. O tal piquito aparentemente era um selinho, que deixou Ívi…

 

O quanto de modernidade pairava por aqueles seres humanos? E olha que Ívi se considerava supermoderna, adorava relacionamentos abertos, mas estava se sentindo tão antiquada nas últimas horas, sinceramente.

 

Anoiteceu. Foram para casa de metrô e uma alquimia acontecia quando elas se juntavam, independente dos piquitos ou dos beijões, ou do sexo casual, quando aquelas quatro meninas se juntavam, eram melhores amigas se divertindo pelo mundo. Ívi não sabia se seria parte delas, mas sabia que à parte disso, já estavam se dando muito bem, não se sentia de lado ou deslocada, menos ainda com a mão de Laura sempre tão perto da sua.

 

Estava sempre por perto. A mão, ela, sentaram-se no chão do metrô e ela estava bem do seu lado, bem ao seu alcance porque os olhos sempre se encontravam e os sorrisos também. Vontade de tocá-la, sim, o tempo todo, elas estavam lado a lado e aquele magnetismo não passava, o arrepio que parecia passear de um corpo para o outro, a energia, era isso, sempre havia uma energia preenchendo o espaço mínimo que as separava.

 

Não separou mais. Laura se encostou no corpo de Ívi, o uniforme agora bem menos impecável, sujo de grama, o joelho ralado e ainda assim, combinando com Ívi e seu All Star surrado, sua camiseta swag, a jaqueta larga e estilosa. Laura esticou os olhos para o celular que Ívi mexia.

 

— Muitos contatos novos para atualizar?

 

Ívi abriu um sorriso ouvindo uma animada conversa paralela entre Karime, Julia e Thai.

 

— Alguns. Mas ainda não tenho o que me interessa.

— Quê? Gostou de alguma menina em especial?

 

Ívi abriu sua tela de discagem e passou o celular para Laura.

 

— De uma que não me passou o número dela ainda. Anota o seu número pra mim?

 

E Laura caiu no riso.

 

— Sua boba.

— Você não me deu o seu contato ainda, oras.

— Nós estamos morando juntas!

— Irrelevante, a gente precisa trocar contatos. Me dá o seu celular.

 

Laura desbloqueou seu celular e passou para ela enquanto salvava o seu contato no aparelho dela.

 

— Prontinho — Ívi devolveu o celular dela, pegou o seu de volta e, Laura sorriu. Ívi tinha salvado seu contato assim: Ívi ♡.

— É sério o coração?

— Te evitando o trabalho de acrescentar depois — Beijou a mão dela com carinho e assim, lado a lado e com 0 centímetros as separando, elas foram até o Jardim Oceânico.

 

Chegaram em casa e Karime foi pra cozinha com Thai, anunciando que fariam cozinha do Pacífico, de Santa Marta, de onde ela era! Ívi correu para tomar um banho rápido e voltou pra sala, onde sentou-se no chão e voltou a trabalhar duro, pesquisando muito, vendo vídeos de jogos inteiros, entendendo como funcionava um evento esportivo de verdade. Viu Laura entrar no banho e voltar pra sala com uma pilha de livros, viu Julia fazer o mesmo, mas voltar pra sala com o seu violão.

 

E como aquilo funcionava bem entre elas! As garotas conversando na cozinha, trabalhando juntas, Laura estudando no sofá, Ívi montando suas playlists e Julia que sentou no chão, perto de Ívi e começou a afinar o seu violão. Habilidosamente, os dedos dela correram pelas cordas do instrumento com uma facilidade enorme, com um talento notável, a ponto de roubar a atenção de Ívi imediatamente. Ergueu os olhos para ela, a vendo domar as cordas, ajustou, esticou, soltou, pronto, estava perfeito.

 

Perfeito para ela começar a cantar.   

 

Com a voz mais densa, rouca e atraente possível.

 

Te siento en esta habitación conmigo... Teniendo tu respiración tan cerca... Haces que se me valla mis dudas sobre ti... — E o braço de Ívi arrepiou inesperadamente. Assim, no primeiro verso. Foi como se a voz dela tivesse entrado pelo seu ouvido e espalhado pelo seu corpo, provocando os arrepios, o quente por dentro, aquele tipo de reação física que só acontece quando a emoção é estremecida.

 

Estremeceu. Ívi sabia que tinha estremecido.

 

Tirou os fones de ouvido, olhando para ela, aquelas notas densas, delicadas, românticas, a expressão de Julia tão charmosa, tão sedutora, aquela voz rouca, os olhos que brilhavam, devia vir daí aquela capacidade de roubar beijos na boca com tanta facilidade.

 

Me acerco lentamente con mi mano... Sabiendo cual será nuestra respuesta, voy sin saber lo que harás de mi... — E com a voz rouca vinha o sorriso lindo, vinha o olhar intenso — Prefiero callarme a confesar que me haces sentir...

 

Ok, aquela nota de passagem era de quem sabia muito, mas muito bem o que estava fazendo. Julia subiu os degraus dos tons como se nada fossem e domou aquele refrão intenso com uma enorme facilidade.

 

He abierto mis ojos... Cancelando mis enojos y he sentido que te tengo un poco mas... — A densidão da voz dela, Ívi se arrepiou outra vez — Aprovecho y me cuelo enredendote en mi pelo! Insistiendo en que me vuelvas a buscar... — A música parecia correr pelo corpo dela, como o oxigênio pelo seu peito — 90 minutos no puede durar el amor... Pideme mas...

 

Ívi abriu um sorriso e achou os olhos de Laura em si, lhe olhando, lhe sorrindo, notando a sua surpresa ao ouvir Julia pela primeira vez. Tão bonito que quis ouvir mais. Afastou o notebook, esticou a mão para Laura, deitou-se no chão paralela ao corpo dela no sofá, podia relaxar por um instante, ficar perto de Laura, ouvir aquela canção tão bonita naquela voz tão poderosa. Sério que Julia era tudo aquilo de cantora e instrumentista? Era sério, e era a primeira vez que Ívi encontrava outra pessoa que tinha a música assim, como parte tão forte de si. E tinha que ser justamente Julia, que queria lhe atirar pela janela. Curtiram aquele momento quase mágico juntas e o jantar ficou pronto.

 

E estava maravilhoso. O jantar e o clima. Comeram todas juntas no chão da sala, uma paisa colombiana de se esquecer o próprio nome de tão boa que estava. Jantaram conversando, rindo, falando das coisas do dia, a canção de Julia seguia repetindo-se na mente de Ívi insistentemente, queria aprendê-la, queria ouvir de novo, queria… Parar de olhar para Laura. Seus olhos tinham clara preferência por ela e Ívi não sabia de nada.

 

Principalmente porque depois do jantar ela foi para a varanda conversar com a namorada britânica e, Ívi e Julia…

 

Karime começou a rir.

 

— Vocês estão fazendo a mesma cara! Está muito engraçado… — Ela pegou Thai pelo caminho, dizendo que precisava de ajuda com alguma coisa da faculdade, foram para o quarto juntas deixando Julia e Ívi sozinhas na sala com seus instrumentos.

 

E com um clima bem esquisito entre elas.

 

— Você não me quer aqui — Ívi sempre tinha ótimas maneiras de iniciar um diálogo, ficava impressionada consigo mesma.

— Não me entenda mal, eu não me importo de você estar aqui, eu me importo de você estar aqui com a Laura.

— Vocês têm alguma coisa? Eu estou bem confusa.

— Eu a amo, ponto, é o que você precisa saber. E acho que o problema na verdade… — Seguia dedilhando a canção de antes, agora no teclado em modo piano — É que nós somos da mesma espécie, você e eu.

 

Ívi sorriu, ajustando sua guitarra.

 

— Da mesma espécie?

— Nós somos, eu vi você lá na festa, a sua facilidade com as garotas, nós somos da mesma espécie, gata de rua.

— E você é territorial.

— Um pouco, mas eu também gosto de dividir, então você pode ficar. Se bem que eu acho que se a Laura me pedisse para deixar aquela gringa ficar aqui dentro, eu ia acabar cedendo também, eu não tenho nem um pouco de disposição em resistir a nada que a Laura queira… — Ergueu os olhos para Ívi — Você sabe tocar essa coisa sexy mesmo?

 

Ívi arrancou alguns acordes poderosos de sua guitarra, deslizando os dedos pelas cordas com tanta habilidade quanto Julia pelo seu violão.

 

— Você sabe tocar!

— Eu não ia carregar esse negócio à toa. O que você está tocando agora?

— India Martinez, 90 Minutos.

— Quer dizer o que parece?

90 minutos no puede durar el amor... É o que parece sim. Acho que vou incorporar no meu setlist, música latina sempre ganha a plateia.

— Você se apresenta sozinha?

— Sozinha, apenas eu e o meu violão, geralmente.

— E como você faz isso? Eu toco vários instrumentos e canto um pouco, mas só de pensar em estar em um palco fazendo isso sozinha... Eu nem sei — Disse, fazendo Julia sorrir plenamente pela primeira vez.

— Você se esconde atrás da pick-up e da música dos outros, é isso?

— É isso, eu me sinto segura assim — E da guitarra, Ívi arrancou acordes que Julia conhecia muito bem. Era guitarra, mas o jeito que ela arrancou os acordes de 90 Minutos... Quem não olhasse podia ter certeza de que se tratava de um violino. Hora de impressionar de volta.

— Pegou de ouvido?

— Eu tenho essa facilidade. E um superpoder esquisito de… Pegar a letra, sem entender a letra. Tipo... — Começou a cantar — La luna brilla más cuando está inquieta, quedando el sol detrás para alumbrarla así me siento yo, siempre andas detrás... É isso?

A mi alrededor te intuyo, son mis besos sólo tuyos! — E Julia seguiu no teclado, abrindo um enorme sorriso quando Ívi simplesmente lhe acompanhou naquela nota poderosa na guitarra como se não fosse nada! — Aunque bese, aunque bese a otro más...

He abierto mis ojos, cancelando mis enojos, y he sentido que te tengo un poco más...

— Aprovecho y me cuelo, enredendote en mi pelo, insistiendo en que me vuelvas a buscar...

90 minutos no puede durar el amor... — E elas se olharam, mirando na mesma nota e quando a voz densa de Julia encontrou a voz suave de Ívi, algo muito, mas muito inesperado aconteceu:

 

Química. Química insana.

 

Pídeme más... — Pegaram a nota ao mesmo tempo, com perfeição, com uma voz casando na outra e criando uma outra coisa, uma outra voz, inesperada, temperada, agridoce.

— Eu vou morrer de tesão com vocês duas! — Era Karime gritando do quarto, fazendo as duas rirem e as vozes trouxeram Laura de volta à sala, depois de ter encerrado a sua ligação de quase uma hora com Kelsey.

 

Entrou da varanda, mas passou direto para a mesa da sala de jantar, não querendo interromper aquela conversa entre Ívi e Julia sobre o quanto estavam surpresas de como as vozes tinham se encaixado, como a guitarra encontrou com o piano, surpresas e empolgadas de uma maneira tão inesperada que elas estavam bem sem jeito uma com a outra.

 

— Que superpoder estranho! Você ouviu o quê? Cinco vezes?

— É estranho e meio inútil, eu podia usar isso para aprender a língua, não só para imitar, mas enfim. Você joga hóquei? — Ívi perguntou ainda bem desconcertada por aquele entendimento musical. A química tinha deixado as duas meio sem graça com a situação. Que esquisito.

— Não jogo, só assisto as meninas, mas provavelmente entendo mais do que você, a Laura joga desde os dez anos, eu já passei muito tempo nas arquibancadas esperando por ela, acredite. Quer ajuda em alguma coisa?

Amanhã. Você entende de mesa de som, não entende? É que eu não queria operar sozinha, tem que prestar atenção no jogo e na sonoplastia.

— É muita coisa.

— Você vai estar lá?

 

Julia trocou um olhar com Laura mesmo à distância.

 

— Eu… Sim, vou estar sim.

— É só para eu ficar mais tranquila. Se você pudesse… Ficar por perto só no primeiro jogo?

 

Outro olhar esquisito. Só não era mais esquisito que aquele sentimento que tinha surgido ali, a tal química inesperada. E Julia disse que sim, que é claro que podia ficar, Ívi podia contar com ela. Ficaram um tanto mais na sala e então, Julia foi dormir e Laura a seguiu até o quarto.

 

— Obrigada por ir com ela — Laura a abraçou.

— Eu vou comprar o ingresso, é meu interesse que essa garota dê certo também, vai.

 

Outro longo abraço em Julia e Laura a deixou ir dormir. Com Karime porque ela estava chorosa e depressiva, por último, Laura viu Thai indo para a cama de Karime também e apesar de conhecer as três muito bem, ainda era demais para sua mente. Daí foi para o seu quarto, arrumou o mais confortável possível a cama de Ívi no chão com almofadas, colchonetes e edredons, ela agradeceu quando entrou e Laura achou que ela fosse dormir, mas não, ela seguiu estudando, anotando, fazendo a programação que precisava, incansável, no escuro para não atrapalhar o sono de Laura.

 

Não tinha ideia de quanto tempo passou, só que quando checou o relógio de pulso novamente, eram quase duas da manhã. Olhou para Laura, ela estava dormindo, calma, serena, respirando tão compassadamente que Ívi nem sabia. Desligou o notebook, estava cansada, exausta, precisava dormir, tinha assistido uns dez jogos de hóquei, pesquisado músicas novas, mas a grande verdade é que não sabia bem se tudo ia funcionar. Ao menos, Julia estaria por perto se não desse certo. Se ela tinha lhe passado segurança em meia hora, ela deveria mesmo ser este tipo. Deitou, a cama de pallet permitia que Laura seguisse em seu campo de visão.

 

Respirou muito fundo novamente. Laura lhe causava esse descompasso. Embaralhava seus pensamentos, aturdia suas emoções. Ela era como a pena que flutua no mundo tão bonito daquela música do Radiohead. Era o anjo da pele que faz chorar. Era paixão da música de Alejandro Sanz que ouviu Julia cantarolando em algum outro momento. Fechou os olhos pensando nisso, sua mente estava cansada, seu corpo também, havia uma adrenalina por dentro misturada ao medo de estragar todas as coisas, medo de perder a sua chance, como podia dormir? Com todas aquelas coisas no seu corpo e na sua mente?

 

Esfriou. Esfriou muito. Ívi se agasalhou muito bem sob os edredons, mas para uma menina do nordeste brasileiro, um pouco de frio já era frio demais. Respirou fundo outra vez. Queria subir na cama e dormir agarrada em Laura, sentindo o cheiro dela, e ali embaixo, a vontade de tocar nela era tanta que estava doendo, lhe deixando sem ar. O que ia fazer com aquela vontade toda?

 

Não podia fazer muita coisa. Fechou os olhos e algo bom a guiou até o sono. Um sono pesado, mas resistente, Ívi estava muito cansada, não conseguia manter os olhos abertos, mas seu corpo ao mesmo não conseguia desconectar do plano acordado. Ouviu Julia cantando alguma coisa outra vez, era real ou estava apenas em sua mente? Não sabia, só sabia que tinha uma canção na mente que ia e voltava, às vezes mais presente, às vezes mais distante, o sorriso de Laura brilhando no sol, os olhos enigmáticos, de cores inventadas, o dia desaparecendo em algum lugar, a escuridão do sono, o relaxamento e quando Ívi estava afundando em sua nuvem de dormir…

 

Um peso em seu peito. Algo ardendo por dentro. Mãos lhe agarrando, braços em volta de si. Ívi lutou para abrir os olhos e ver o que estava acontecendo, não conseguiu, não precisava.

 

A guardou em seus braços, achando lugar, a sentindo ficar confortável e assim, Ívi pôde enfim, pegar no sono.

 

Yo soy el tiempo que tú y yo hemos compartido...

 

Era o que dizia aquela canção em algum lugar. Ívi tinha certeza que era.

 

Notas do Capítulo:

 

Bom dia, meninas!

 

Seguimos na nossa nova rotina de madrugar aqui no site com as postagens de 6 AM!

 

Estamos no nosso penúltimo capítulo introdutório e acho que deu para fazer uma ideia básica de quem seja Julia, mais uma das nossas protagonistas. O tema central de 6 AM transpassa o romance puramente e irá permear também outros tipos de amores e de ligações, que ficarão mais evidentes no passar dos próximos capítulos. Falando em próximo, o capítulo 6 "Thai", está previsto para o dia 23/06, desde que tenhamos batido a meta de 25 comentários, de leitoras diferentes, até o 12:00 do sábado, dia 22/06 :)

 

Ademais, muito obrigada pela leitura de todas vocês e pelos comentários lindos que a história vem recebendo! Estarei respondendo a todos em breve com muito amor e carinho!

 

Abraços!

 

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