6 AM - Capítulo 6 - Thai

22/6/2019

 

 

 

Ívi acordou sorrindo.

Sim, porque até então, podia ter sonhado que Laura tinha saído de sua confortável cama e vindo dormir na sua improvisada no chão, mas acordar com ela tão agarrada em si e com o cheiro dela tão presente não lhe deixou dúvida nenhuma: tinham dormido juntinhas e bem agarradas uma na outra.

 

Abriu os olhos e respirou bem fundo, a respirando um pouco mais, tão agarrada em si e tão bonita, tão calma, tão cheia de coisas boas. Laura era toda cheia de coisas boas e sim, ainda estava ardendo e Ívi nem sabia de coisa nenhuma. Das coisas com Laura, Ívi não sabia de nada, não presumia nada, o que lhe deixava numa interessante situação em que nunca havia estado antes. Em relacionamentos, Ívi era a que sabia onde, quando e com quem iria acontecer, bem, com Laura era tudo ao contrário. E a sua inclinação de se afastar dela era a mesma em levantar da cama sabendo que precisava: nenhuma.

 

— Ívi, você tem que levantar... — Ela lhe disse acordando suavemente.

 

Ívi abriu um sorriso.

 

— Já está acordada?

— Acordando agora — Ela se esticou, se movendo do seu corpo, sentando-se bem devagar — Ívi... — Apertou a expressão — Como eu vim parar aqui?

 

Outro sorriso. Ívi tocou o rosto dela com carinho, a vendo tão bonita contra a luz do sol da manhã que invadia o quarto. Ela estava bonita de uma outra maneira, o cabelo liso não era tão liso assim e agora se mostrava atraentemente desgrenhado, cheio de perfeitas imperfeições, o DNA espanhol e brasileiro, é claro.

 

— Você veio sozinha.

— Sozinha?

— Eu nem sei como, eu estava bem cansada.

 

Ela pareceu pensar seriamente consigo mesma. Não parecia que ela estava fazendo uma cena.

 

— Você devia ter me mandado voltar. Eu faço algumas coisas dormindo...

— Algumas coisas...?

— Acordava na cama da Julia, com onze, doze anos. Ou na sala. Até na varanda. A casa inteira tinha redes de proteção porque a minha mãe temia que, bem, eu pudesse sair por uma janela qualquer dia.

— Você, tipo, abria a porta e...?

— Saía andando. Ou fazendo coisas. Eu desenho dormindo, não sabia que desenhava até os desenhos começarem a aparecer pelas manhãs. Mas se você falar comigo e me mandar voltar para a cama, geralmente eu volto.

— Laura, alguma vez na vida a Julia te mandou voltar da cama dela?

 

Ela abriu um sorriso.

 

— Você pode mandar, está bem?

— Está bem.

 

Ela lhe olhava, abriu outro sorriso.

 

— Eu não acredito em você!

— É uma opção sua — Respondeu sorrindo — Já que você veio parar aqui, fica aqui, só mais dois minutos?

 

Laura olhava para ela. Não disse mais nada, apenas deitou de volta e ficaram assim, muito perto uma da outra, explorando a pele uma da outra de leve, falando sobre qualquer coisa, rindo sem grandes motivos. E então, depois do último riso:

 

— Você acha que eu vou me sair bem? — Ívi perguntou baixinho, agora que tinha ido parar no colo dela. Estava sentindo os dedos suaves de Laura pelos seus cabelos.

— Se você vai se sair bem? É claro que vai, eu tenho certeza, não se preocupa com isso. Você é muito boa, nada vai dar errado.

— Acha mesmo? Me deu um pouquinho de pânico ontem antes de dormir.

— Ei, eu tenho certeza — Ela lhe fez um carinho e abriu um sorriso — Não fica preocupada com nada, você tem o domínio, o talento e se algo der errado, tem a Julia com você. Ela é arrogante porque é mesmo muito boa no que faz, confia em você, confia nela, tudo vai dar certo, está bem?

 

Estava bem, se ela dizia, Ívi acreditava. Ela foi para o banho e Ívi suspirou longamente. E se desse errado? Ainda não tinha cogitado que podia dar errado, era melhor continuar da mesma forma. Levantou, tinha outro banheiro que podia usar lá fora, pegou uma toalha, suas coisas, mas quando se aproximou da porta...

 

Risadas. Julia era inconfundível, Ívi só não tinha ideia de quem mais estava no banho com ela. Foi para a sala esperar e o mistério não demorou a ser resolvido. Thai saiu do quarto sozinha. Fez contas visuais, estava sozinha, o chuveiro estava ocupado, as risadas, ela respirou bem fundo.

 

— Bom dia — Ívi sorriu para ela tentando quebrar a tensão.

— Bom dia — Ela veio para perto e lhe deu um abraço carinhoso. E um tanto sentimental, deu para perceber, ela tinha ficado magoada com aquele banho, ninguém precisava contar.

— Tudo bem?

— Tudo bem sim — Ela disfarçou com um sorriso — Pronta para mais tarde?

— Mais ou menos pronta, mas tudo bem — Devolveu o sorriso para ela — Você vai estar lá também?

— Todas nós, Julia era a que não ia, por motivos de, ela não gosta da Kelsey, mas surpreendentemente, ela decidiu ir por sua causa, veja como a vida gira rápido... — Disse, fazendo Ívi rir.

 

E então, houve um silêncio.

 

— Thai, tudo bem mesmo? Eu não quero me intrometer, mas é difícil para a minha compreensão entender algumas coisas que acontecem nessa casa, sabe...

 

Ela começou a rir.

 

— Eu sei, eu tenho plena consciência que as coisas não são comuns por aqui. Mas assim, Ívi, no hóquei existe uma regra tácita que fala sobre posição de perigo. Se você se coloca em posição de perigo, as responsabilidades são suas.

— O que seria uma posição de perigo?

— Baixar a cabeça, por exemplo. Os tacos ficam para baixo a maior parte do tempo, mas o movimento de tiro é uma meia lua para cima, se você baixar a cabeça em algum momento, é provável que se machuque.

— E a culpa é de quem baixou a cabeça.

— Exatamente. Eu acho que isso se aplica há muitas coisas, sabia? Baixar a cabeça e começar a gostar da Julia é claramente me colocar em posição de perigo por diversas razões. Ívi, a minha mãe teve um casamento dos sonhos, sabe? Casou na praia, com um cara incrível, me planejou, então me teve e dois anos depois, abandonou o meu pai e me abandonou para a minha avó criar, indo morar em São Paulo com outra mulher. O meu pai nunca me deixou, sempre cuidou de mim, mas não tinha como morar comigo, ele até tentou, mas não conseguiu conciliar todas as coisas e eu acabei sendo criada pela minha avó e assim, você deve imaginar a reação dela a este assunto. Assumir uma relação homo é um passo enorme pra mim e se este passo envolver a Julia... — Thai respirou fundo — Ívi, você não faz ideia de quantas meninas andam atrás dela o tempo todo. Bem, na verdade, você deve fazer sim, vocês duas têm o mesmo magnetismo, claramente a Laura atrai um tipo...

 

Ívi começou a rir.

 

— Está tão claro assim?

— Que vocês duas voam em volta dela feito mariposas na luz? Está meio claro sim. A Julia seguiu a Laura até aqui, veio da Espanha sozinha atrás dela assim que ganhou a maior idade, você claramente está interessada nela desde o metrô. Aliás, você estava tão vidrada nela que se desfez da Karime, tipo, meninas já se desfizeram de mim, poucas, não são muitas não... — Disse, muito cheia de si e fazendo Ívi rir demais — Mas eu nunca vi isso acontecer com a Karime, foi totalmente inédito...

 

Mais risadas de Ívi.

 

— A Karime é linda, você é linda, não tem a ver com isso.

— E  tem a ver com o quê?

 

Daí Ívi respirou fundo.

 

— Eu não sei. Tem a ver com a Laura, mas... Eu não sei o que é permitido ter a ver, dada toda a situação. Eu estou interessada na Laura, tudo bem, mas ela está namorando uma atleta olímpica, ok? E eu tenho dois reais no bolso, só para te dar alguma perspectiva...

 

Thai começou a rir.

 

— Ívi, eu vou te falar um negócio: Laura Ferrer Bueno, essa mina é sinistra, tipo, sinistra — Disse, fazendo Ívi rir novamente — Você não tem noção de metade das coisas que ela é! Têm coisas nela que você não faz ideia, você olha para o quanto ela é bonita, porque ela é bonita pra caramba, mas quando você começa a conhecer ela além da beleza é que você se perde. Eu não culpo a Julia não, ter paixonite pela Laura é normal, acontece com metade das meninas que se aproximam dela, ela tem mel, eu não sei te explicar, a gente não sabe se quer ser amiga dela, se quer ser ela ou quer pegar ela, ou todas as alternativas juntas... — Mais riso de Ívi — Ela está pegando a jogadora de hóquei mais badalada das Olimpíadas, mas Ívi, a Kelsey vai estar aqui só por duas semanas. Depois ela vai ter que voltar para Londres, ela não vai ficar. A gente adora a Kelsey, ela combina muito com a Laura, tanto que... Eu não sei. Eu gosto mais quando as pessoas descombinam, parece mais promissor assim, não parece? As pessoas precisam de complementos, sei lá.

— Como você e a Julia.

 

Ela respirou fundo.

 

— Olha, a garota tem que ser muito dona de si para namorar alguém como você ou a Julia, Ívi… — Ela disse no mesmo momento em que Karime entrou na sala com um saco de pão nas mãos.

— Ou tem que ser Laura Bueno, Nutella. Laura tem autoconfiança o suficiente para namorar até as duas ao mesmo tempo sem ter uma crise de insegurança que seja — Ela tirou um pedaço de pão do pacote e comeu. E então notou que elas estavam lhe olhando diferente — O que foi?

— É que... Eu achei que você estivesse no banho com a Julia.

— Você notou que ela saiu da cama no meio da noite? Alguma menina apareceu aqui de noite, Thai.

 

E Thai ficou... Irritada, abriu um sorriso, mas ficou muito irritada. Bateu em Ívi, um tapinha do nada.

 

— Ei!

— Você não é assim, é? Porque se você for assim também, eu juro que...!

— Não sou, não sou! — Ergueu as mãos, rindo, pedindo calma. Já até devia ter sido assim na idade de Julia, mas já tinha passado — Meninas não aparecem pra mim no meio da noite não.

 

E então que Laura saiu do quarto, fez uma conta visual e:

 

— Quem está no banho com a Julia?

 

E, bem, Laura Bueno era mesmo sinistra.

 

Foi uma enorme confusão, uma confusão causada por Laura que Ívi jamais achou que ela fosse capaz. Ela entrou sem bater, daí descobriu quem era que estava com Julia, uma menina bonitinha, aparentemente com poderes mágicos de se materializar dentro de apartamentos alheios e depois que ela foi “gentilmente” convidada a se retirar por Laura, ela partiu para cima de Julia e a briga das duas na sala foi quase de outro mundo.

 

— Que língua é essa? Parece espanhol, mas... — Ívi estava toda confusa.

— É galego, parece um pouco com português de Portugal, não é? Elas falam entre elas em galego, brigam em galego e a gente nunca entende nada — Era Karime, extremamente calma preparando seu café da manhã.

— Nem você entende?

— Nem uma vírgula. Alguma coisa ou outra é parecida, mas a composição do idioma é muito diferente. Inclusive, o castelhano da Espanha é diferente do meu espanhol. Laura? Laura, acalmate, la chica es mala, ya ló sabemos...

 

Julia olhou para Karime.

 

— De que lado você está?

— Eu quero tirá-la de cima de você, bebê, só isso.

 

Laura puxou Julia pela mão.

 

— Não faz mais isso — Continuou, em galego — Você acha que elas não ficaram magoadas?

— Você é a única que está aqui gritando comigo.

 

E foi quando algo voou pela sala.

 

Voou mesmo e somente quando bateu na parede que Ívi descobriu que era um estojo de lápis.

 

— Você está pegando mais do que eu te dei — Thai tinha atirado o estojo e alguns sentimentos pelo ar.

— Thai...?!

— Foi por isso que ela te deixou! Porque você sempre está pegando mais do que estamos dispostas a dar, você pede muito, menina, pede demais!

— Thai, se acalma, por favor.

— Quem disse que eu estou nervosa, Julia? Por acaso eu tenho motivos para ficar nervosa com você? Você não me interessa!

— Ah, claro que não, é a Renata quem te interessa, não é? Só fala dessa menina o tempo todo!

— É melhor que ela me interesse do que você, sua egoísta! — E daí ela gritou de raiva e se trancou no banheiro. E o choro tentando ser evitado foi muito mais sonoro do que ela gostaria.

 

E o silêncio na sala foi tão audível quanto.

 

Julia... — Laura nem sabia mais o que dizer para ela. Seguiu falando em galego — Elas gostam de você, você sabe disso, essa história toda já é complicada demais sem você adicionar mais ninguém nessa soma. O meu amor por você é incondicional, mas elas são minhas amigas, eu as amo também, nós já falamos sobre isso trinta vezes. Por que você fez isso?

 

Julia respirou fundo.

 

— Eu achei que você fosse dormir mais, que elas fossem dormir mais. Foi só por isso.

“Só por isso” — Às vezes achava que não conhecia Julia do jeito que achava que conhecia. Voltou a falar em português — Escuta, são duas horas até Deodoro, vai você com a Ívi que a gente cuida da Thai.

— Laura, eu vou lá falar com ela!

— Julia, você sabe como a Thai é, ela demora para tirar os sentimentos de dentro e quando tira é intenso desse jeito e ela precisa devolvê-los sozinha para o lugar. Só se veste, vai com a Ívi, nos encontramos em Deodoro.

 

Julia pensou por um instante, nunca sequer sabia direito o que dizer para Thai, achou melhor seguir o que Laura estava dizendo. E daí foi Ívi que teve um pequeno ataque de pânico. Só com a ideia de ir sem Laura.

— Laura...

— Vai para o banho, a Julia vai com você, está bem? Eu entendi que você precisa dela para te deixar mais tranquila com os equipamentos, não é isso? Então ela vai com você agora. Você precisa ir mais cedo, precisa comer alguma coisa no caminho.

— Mas você vai?

 

Laura pegou a mão dela.

 

— É claro que eu vou. Mas tenho que tirar a Thai do banheiro antes.

 

Se era assim, Ívi se acalmou e foi fazer o que ela pediu. Tomou seu banho no banheiro do quarto, se vestiu sem ter certeza do que exatamente deveria vestir, optou por ir quase invisível, jeans, camiseta branca, amarrou uma camisa jeans na cintura e ligou para sua mãe, disse que estava tudo bem e contou do seu trabalho! A ouviu ficando eufórica do outro lado e quando saiu do quarto, estava falando com Tiziana por um instante, explicando tudo o que faltou explicar no dia anterior. Ainda estavam ouvindo o choro de Thai.

 

— A Julia já está lá embaixo, você tem um cartão de metrô, não tem?

 

Tinha, o cartão que havia lhe dado segurança, um teto e Laura, Ívi jamais se desfaria dele. Deu um beijo nas duas e desceu com suas coisas, encontrando Julia sentada em frente à lavanderia. Bonita pra caramba, de jeans, camisa de botões azul-royal repuxada até os cotovelos, o relógio brilhando no pulso, os óculos escuros. Tentou ler alguma expressão no rosto dela, mas ela parecia simplesmente chateada.

 

— Vamos — Ela lhe disse num tom bem seco — A gente ainda tem que comer alguma coisa.

 

Deodoro ficava bem longe. Julia explicou que tinham que ir até a Central do Brasil e depois pegar um trem para Deodoro, porém, Ívi sequer conseguiu entrar em Jardim Oceânico.

 

— É sério que você encontrou a Laura com o último centavo desse cartão?

 

Aparentemente era sério. E daí que Ívi tinha um problema, nem os dois reais que tinha havia lembrado de trazer.

 

— Me dá aqui.

 

Julia comprou créditos para o seu cartão, lhe comprou um café e um pão francês com manteiga, tomaram café juntas antes de entrarem no metrô, Julia estava quieta e ficou quieta o caminho inteiro até a Central do Brasil. Daí que aquele lugar assustou Ívi um pouquinho. Coisa pouca, mas assustou. Julia percebeu imediatamente e sorriu.

 

— Me dá a guitarra que eu levo, segura em mim, está tudo bem.

 

Nem se fez de rogada, agarrou o braço dela imediatamente. A icônica Central do Brasil era bem assustadora, haviam muitas pessoas por todos os lados, uma profusão de vozes, de gritos, ambulantes, passageiros, era caótico e Ívi sentiu-se tonta o caminho todo até o seu trem. Vinha de uma cidade que apesar de turística, era pequena, não tinha lá nenhum lugar que juntasse tanta gente assim, lhe deu uma sensação esquisita de claustrofobia com uma ânsia nervosa.

 

— Eu me senti assim a primeira vez em Madrid, nós crescemos em um lugar relativamente pequeno, sabe? Chama Pontevedra, já ouviu falar? — Ela estava conversando para lhe acalmar, Ívi já tinha percebido.

— É na Galícia?

— Isso, a Laura é galega. Esse é o nosso trem, vem.

 

Subiram no trem, velho, antigo e com um balanço característico que enjoou Ívi um tantinho mais. Mas ao ver uma senhora extremamente elegante com chapéu de alta costura e tudo dentro daquele trem enferrujado, começou a rir.

 

— É o único transporte até Deodoro, onde o centro de hipismo também está, vamos ver mais pessoas muito finas usando esse trem terrível. Eu não gosto de trens. O acidente me deu a Laura, mas ainda assim... Eu fico um pouco tensa. Eu posso pegar a guitarra?

— Pode, é claro que pode.

 

Ela queria se distrair, não era problema. Então pegou a guitarra vermelha de Ívi e ficou tocando baixinho, apenas sentindo as cordas por um tempo, dedilhando uma coisa e outra.

 

— Julia...

— Oi.

— Nós somos da mesma espécie. Você ficou chateada pela reação da Thai.

— É claro que fiquei, eu não esperava que... Ela fosse reagir assim.

— Por que você ficou com a outra menina?

— Eu achava que ninguém ia notar.

— Nós somos da mesma espécie, lembra?

 

Ela ficou calada por uns segundos, sem tirar os olhos da guitarra.

 

— Eu não quero um problema. Não quero deixar a Karime chateada nem a Thai, então eu só tentei... Fazer as coisas voltarem ao normal.

— Julia... — Ívi abriu um sorriso — Como vocês chegaram a este relacionamento?

— Escuta, nada disso teria acontecido se a Laura parasse de me rejeitar. Mas ela me rejeita e a Karime estava lá, a gente fica sem compromisso há muito tempo. Mas então aconteceu a Thai, ela veio morar com a gente no começo do ano e... — Ergueu os olhos para Ívi — Estava funcionando.

— E parou de funcionar por que você está gostando mais de uma delas?

— Eu não sei por que não está mais funcionando. A Thai nem é gay, Ívi, só ficou comigo porque tem uma paixãozinha de infância pela melhor amiga dela que nunca se concretizou.

— A Renata de quem você falou?

— Essa Renata. O pior tipo de hétero. Sabe aquela que fica provocando a amiga gay de todas as formas? Essa é a Renata.

— Você acabou de dizer que a Thai não é gay, Julia.

— Se ela não sabe quem ela é, imagina eu. Eu só não quero... Mexer no equilíbrio da casa. Nós vivemos muito bem, não quero que isso mude por minha causa.

— Julia, você já percebeu que há sentimentos?

 

Ela lhe olhou, não disse nada.

 

— Você não percebeu mesmo que tem sentimentos ainda.

— Não é isso, é que eu gosto da Laura há tanto tempo que eu não tenho certeza se dá para gostar de outra pessoa, eu vou precisar de um tempo para perceber se é isso mesmo.

— Julia... — Ívi respirou fundo — Olha, eu tenho um irmão. Que não é meu irmão sanguíneo, eu tinha dez anos quando a minha mãe se casou com o meu pai, que já tinha ele com a mesma idade que a minha e assim... — Abriu um sorriso — Nunca, nada me passou pela cabeça. Não é um julgamento, é só uma coisa que eu estou tentando entender, você e a Laura.

— Não nos conhecemos assim, como você e o seu irmão. Nossos pais se conheceram por nossa causa e eu já gostava da Laura. Eu era pequena e ficava escondida no pátio da escola esperando-a sair e daí a seguia até o metrô enquanto voltávamos pra casa. Nossos pais se conheceram no hospital, depois do acidente de trem e tudo foi muito rápido, acho que um mês depois já estavam morando juntos e a La Mari nasceu, exatamente um ano depois.

— La Mari?

María, eles tiveram um bebê muito rápido. Laura não era minha irmã nem um pouco, nunca foi. Nós só estávamos morando na mesma casa, o que era ótimo para mim.

— Mas pra Laura...?

— Somos irmãs. Ela falou de mim assim para você, é por isso que está me fazendo essas perguntas.

 

Silêncio. E Ívi começou a reconhecer o que ela estava dedilhando.

 

— Você estava cantando ontem... Provavelmente para a menina que se materializou no apartamento... — Ela sorriu — Algo tipo “Yo soy el tiempo que tu y yo hemos compartido...”? — Era o que ela estava tocando.

— Esse seu superpoder é surpreendente — Ela seguiu tocando — Ahora dime que no, perdemos las dos, si te vas... É a música preferida da Laura.

— E você estava cantando para outra.

 

Ela riu outra vez.

 

— Não é a música dela comigo. Ela ainda precisa de um par. Você lembra o refrão?

— Eu acho...

— Espera — Ela pegou o celular, abriu uns arquivos, entregou para Ívi — Vamos, três, dois, um e...

Y a que no me dejas, a que te enamoro una vez más antes de que llegues a la puerta, a que no...

A que no me dejas, a que hago que recuerdes y que aprendas a olvidar... Eu gosto desse tom doce na sua voz, é tão suave — Ela lhe elogiou sorrindo.

Y a que no me dejas, a que hago que se caigan las murallas de tu pena... — Abriu um sorriso, se enrolando um pouco na letra — Esse idioma de vocês é enrolado!

— Olha, vai mudar de ideia quando ouvir os argentinos. A que te ves, te entregas, que ni siquiera te des cuenta… Si quieres apostamos corazón...!

 

A essas alturas, Ívi já estava mexendo em sua mochila, tirou uma coisa esquisita de lá.

 

— Que negócio é esse?

— Um launchpad. Continua tocando.

 

E um launchpad era uma coisa muito, mas muito legal! Um tablet colorido capaz de imitar sons de bateria, de teclado, piano, quase qualquer coisa. Ívi fazia música com os dedos literalmente, com uma facilidade inacreditável e acompanhar Julia naquela canção tão bonita, começou a chamar atenção.

 

Atenção mesmo, a ponto de quando terminaram...

 

Aplausos! E alguém jogou umas moedas no estojo da guitarra, então uma nota de dois reais, mais moedas e...

 

— Eles...?

— Digna, Ívi, seja digna!

 

E a senhora de chapéu jogou cinco dólares no estojo.

 

— É digníssimo, Julia! Não seja orgulhosa. Você nunca ganhou dinheiro assim antes?

 

A cara dela contou tudo. Mas ela acabou rindo olhando para aquela nota de dólar. Não estava precisando, mas Ívi estava, então...

 

Por que não?

 

— Tem uma hora até Deodoro. Mas eu não consigo imaginar uma música que eu saiba e que você saiba também. Nós não temos nada a ver uma com a outra.

 

Era verdade. Julia e suas músicas voz e violão em espanhol, e Ívi e suas músicas que iam de eletrônica a funk passando por muitas outras coisas. E dentre essas coisas, uma e outra devia sim fazer a sua rua encostar na de Julia.

 

Começou uma intro inconfundível com aquele instrumento mágico de fazer música.

 

Shakira. Shakira era ouvida em qualquer pedaço deste planeta.

Agora tudo tinha ficado silencioso.

 

— Entramos? — Laura perguntou a Karime, com a mão na maçaneta da porta que não trancava.

— E se ela ainda quiser ficar sozinha?

— Ela está sozinha há uma hora, Karime, temos que resolver isso — Entrou de qualquer forma e...

 

Thai estava sentada num canto, não chorava mais, estava mais calma.

 

— Thai, ei... — Laura abaixou-se para abraçá-la, Karime fez o mesmo e ela se agarrou nas duas as abraçando muito forte.

— Desculpa, eu estou com vergonha.

— Vergonha por que, Thai? Está tudo bem, vergonha é uma emoção desperdiçada, não serve para nada.

— Mas por que eu tinha que reagir daquele jeito? Aquela menina me tira de mim, não tem ninguém que me tire do sério do jeito que a Julia me tira, eu não consigo entender.

— Deve ser porque você gosta dela, não tem problema nisso, o problema é como a Julia se comporta.

— Eu não gosto dela...

— Thai, encurta, cariño, você não manda nisso, está bem? — Era Karime.

— Karime, eu nem sou gay! É claro que eu não estou gostando dela...

— Você não é gay, Thai? Você não é? Até a dona Eleonora de setenta e dois anos sabe que você é gay... — Laura disse, a fazendo rir inevitavelmente. Dona Eleonora era uma senhora costureira que morava no apartamento de baixo, como Thai não tinha máquina de costura, sempre que tinha uma encomenda, ia para o apartamento dela pedir a máquina emprestada.

— Você acredita que ela me chama de “minha viadinha”? Eu não consigo acreditar naquela senhora, ninguém me respeita neste prédio.

— Thai, vamos admitir, hétero você não é e outra coisa, pouco importa o rótulo por fora, o que importa é o que se tem por dentro, o que se sente, independente das classificações. Sentimento é muito complexo para perdermos tempo engarrafando, rotulando, caracterizando. Você e a Julia estão acontecendo, ponto — Karime lhe disse.

— Não tem nada acontecendo, Karime, eu não estou gostando dela, eu... — Olhou para Karime se dando conta de uma coisa — Você está diferente.

 

Karime abriu um sorriso.

 

— Ela comprou os meus remédios ontem.

— Julia?

— A única pessoa que tem dinheiro nesta casa. E ela poderia ter gastado esses seiscentos reais dos remédios com um monte de coisas, mas decidiu gastar comigo, com o meu bem-estar. Thai, escuta, a Julia é uma amiga maravilhosa, mas eu não sei se... Ela está tão pronta para alguma outra coisa. Nós moramos juntas, está bem? Se começarmos a brigar aqui dentro não vai ser agradável. Se você estiver tão na Julia assim, eu me afasto, ok? Eu não quero te fazer mal.

— Você não me faz mal, os nossos acordos são bem claros para mim, o problema todo é que... — Os olhos dela se encheram novamente. Daí ela limpou as lágrimas, respirando fundo — Eu não quero.

— O que você não quer? — Perguntou Laura.

— Continuar com essa brincadeira. Eu já sofri pela Renata o suficiente, eu não vou sofrer tudo de novo pela Julia. Eu vou falar com ela, a gente vai se resolver, nós vamos ficar bem. Do que eu estou disposta a dar ou não, eu posso ter controle.

— Thai, ninguém controla de quem gosta ou não, você gosta dela, ponto, vocês precisam começar a assumir o que está acontecendo.

— A Julia não é capaz de amar, Karime, gostar dela não é algo inteligente de se fazer.

— Ei, ela não é incapaz de amar, Thai, não diz isso, não é verdade — Era Laura.

— E se ela só for capaz de amar você? Tem gente que é assim, só ama uma pessoa a vida toda. Eu não vou concorrer com você por ela, Laura, não faz o mínimo sentido. Está decidido, se você consegue decidir coisas absurdas e cumprir, eu consigo também.

 

E Laura abriu um sorriso.

 

— Desculpe, que coisas absurdas eu decidi ultimamente...?

Não ficar com a Ívi. Cada vez que ela flexiona um músculo daquele corpaço, eu fico toda perdida e você aí, dormindo junto sem fazer nada. É um absurdo e você está cumprindo, eu prefiro concorrer nisso com você, sobre quem mantém uma decisão absurda por mais tempo, acabei de decidir. Então — Respirou fundo, se recompôs e abriu um sorriso — Vamos para Deodoro?

 

Laura e Karime se olharam. Concordaram que não cabia mais nenhuma palavra, Thai era tão teimosa quanto Julia, naquele momento falar mais só iria lhes atrasar. Então a abraçaram e era hora de acelerar para chegar em Deodoro em tempo!

 

Correram com todas as coisas, Thai e Karime dividiram um chuveiro enquanto Laura foi para o outro, pronto, se vestiu rapidinho, Karime também, mas esta tarefa de fato, era árdua demais para Thai. Não era por nada, era só pela bagunça que era o seu guarda-roupa.

 

— Eu não creio, não creio nisso! Eu nunca consigo encontrar nada!

— Você é um desastre só nisso, cariño, pensa pelo lado bom — Karime já estava uniformizada para seu dia de trabalho voluntário na arena e Laura terminava um café improvisado para elas enquanto Thai se vestia. Ela lhe entregou uma xícara de café e falou apenas entre elas, em tom mais baixo porque não queria que Thai ouvisse.

— Eu me surpreendi com você. Eu juro que achava que...

— Laura, olha para elas. A Julia com vinte e um anos, a Thai com vinte e três, uma está gostando da outra, eu ando me sentindo quase uma tía no meio delas... — Disse, fazendo Laura morrer de rir.

— Que tia, Karime! Um absurdo, é claro que não.

— Vamos focar no quanto elas estão se gostando. A Julia não sabe que está, mas eu acho que ela está sim e a Thai, melhor deixá-la achar que pode controlar isso. Se acontecer qualquer coisa, você estará aqui para cuidar delas. E para cuidar de mim. Eu não sei o que faríamos sem você, Laura. Eu sei que a Julia comprou os remédios, mas sei que você não a deixa esquecer a minha condição, nem eu controlo os meus remédios tão bem quanto você. Você não precisa fazer isso, a Julia precisa menos, mas ainda assim...

 

Laura abriu um sorriso e a abraçou.

 

— É claro que a gente precisa. Nós somos o que me restou de família, lembra? São vocês, a La Mari e acabou.

— Haverá mais alguém, a sortuda que ficará com você — A beijou e a abraçou um pouco mais.

— Nem vai ser tanta sorte assim, pobrecita, eu tenho tantos problemas — Respondeu sorrindo — Karime, não podemos deixá-la sem os remédios mais, eu sinto tanta falta desta de você assim, livre, forte...

— Eu vou lutar, está bem? Eu não vou desistir de me livrar de tudo isso, dos remédios, dos episódios, de tudo, eu prometo para você.

— E de encontrar alguém que te respire, vai desistir?

 

Ela abriu outro sorriso lindo.

 

— Acho que eu sou menos preparada do que a Julia para este tipo de coisa. Laura, você tem que ignorar certas coisas que eu digo quando eu não estou sozinha em mim...

— É você e uma outra versão que tem sentimentos...

— Exatamente! Ignore, pode ignorar.

Sete músicas depois, vinte e três reais, cinco dólares, e chegaram a Deodoro e o coração de Ívi agora estava na garganta. O trem foi muito divertido e ajudou a lhe distrair, já tinha feito isso antes, não dentro de um trem, mas pelas praias do Rio de Janeiro e sempre conseguia algum trocado. Fazer isso com alguém do seu lado foi mais simples ainda, ainda mais que, Julia tinha aquela voz. Ívi cantava afinado, era musicista, saber cantar era parte do trabalho, mas não cantava como Julia, com a alma, a técnica e a beleza que ela fazia, aquela menina tinha talento sobrando. Desceram e ainda tinham que andar bastante até o parque olímpico de Deodoro depois do VLT e Ívi estava trêmula, nervosa e algo lhe dizia que estaria mais tranquila com Laura por perto.

 

— Ela está vindo, Ívi, relaxa, vai. Cadê o seu crachá?

 

Ívi tirou do bolso e colocou no pescoço.

 

— Você tem que entrar por aqui, eu vou entrar pela entrada do público e a gente se encontra na arena.

 

Ela foi para a outra entrada e Ívi caminhou para a entrada “Crew”, bem menos lotada que a entrada do público. Ainda estava achando que tinha sido enganada outra vez, não estava acreditando que Natalia tinha mesmo conseguido algo nas Olimpíadas e isso começou a lhe consolar. Colocou seus fones em volta do pescoço e caminhou para a entrada tendo total certeza de que a credencial não iria passar. Porém...

 

— Ívi Bueno, arena de hóquei, ok?

 

Era real! Era real e só de entrar naquele parque olímpico foi uma emoção enorme! O clima de festa, os torcedores, mas o parque ainda estava silencioso e a culpa deveria ser sua. Demorou um pouco para encontrar a arena de hóquei, o dia estava quente, um calor inacreditável, chegou na arena, Julia ainda não estava e quando ela apareceu, já estava com Natalia, muito diferente de como havia a visto antes. Jeans, camisa polo da organização, óculos escuros, já totalmente naquele clima bom de festa diurna.

 

— Tudo certo? Eu vou te mostrar onde você vai trabalhar, Julia me disse que vai ser sua assistente.

— Ela pode ser? É só...

— Pra você se sentir mais segura, Julia tem esse poder. Não tem problema, eu vou arrumar uma credencial para ela...

 

Levou as duas para dentro, o campo de hóquei azul brilhando, perfeito, sendo irrigado, hidratado para os jogos de mais tarde, Ívi checou o relógio, faltavam duas horas para o primeiro jogo e quando deu por si, estava nas cabines de transmissão. Isso lhe deu um frio na espinha.

 

— Esta é a mesa de som, você pode plugar as suas coisas, você sabe como fazer melhor do que eu, deixa só eu te falar dos canais...

 

Desatou a falar dos canais, o canal do campo, da arena, também estava responsável pelo som fora da arena e o coração de Ívi acelerando mais, o peito hiperventilando, começou a fazer o som lá de fora, ok, isso era simples, música boa, de festa, estava tudo fácil, o problema foi quando foram deixadas sozinhas e a arena começou a encher.

 

— Você acha que a Laura não vem?

— Ela vem, a Karime tem que trabalhar, elas já devem estar vindo. Está vendo todas essas câmeras? Dá para ver e ouvir lá fora! — Julia estava muito empolgada com todos os aparelhos enquanto Ívi ainda estava extremamente nervosa.

 

E então a arena começou a encher de verdade. O primeiro jogo era Estados Unidos x Argentina, só ouvia que era um jogaço o tempo todo dos comentaristas na cabine ao lado.

 

— Você acha que ela tem chances de ser campeã?

— Kelsey? Nada, a Holanda vai ser tricampeã, eu tenho certeza, eu nem acredito que elas vão conseguir ganhar da Austrália hoje...

 

E pronto, ali estava, o maior público para qual Julia e Ívi já tinham tocado na vida! Tipo, de longe, quilômetros de distância o maior público. E Julia estava flipando! Ela lhe explicou que flipar era tipo ficar empolgado e pelo o quanto ela estava empolgada, devia significar empolgado ao quadrado.

 

— Quatro mil pessoas, Ívi, você tem noção? Quatro mil pessoas!

 

Estava repassando tudo mentalmente outra vez, a música ambiente já estava rolando sem problemas, mas precisava lembrar dos hinos, dos intervalos, teria uma apresentação de cheerleaders no intervalo e o cerimonial começaria em cinco minutos.

 

E então que, viu Laura.

 

Entre dezenas de pessoas chegando, seus olhos pegaram Laura entrando na arena e boa parte dos seus medos se dissiparam quase que por passe de mágica. E ela olhou em sua direção, reto, direto.

 

— Está te buscando, está vendo? Ela não pode te ver, essa cabine não reflete para dentro, mas ela sabe que você está aqui e quer que você saiba que ela chegou.

 

Ívi abriu um sorriso.

 

— Eu não vou estragar tudo.

— Você está usando o sobrenome dela, lembra? É melhor honrar. Pronta? — Julia estendeu a mão no alto em sua direção.

 

E Ívi pegou a mão dela, cruzando seus dedos pelos dela.

 

— Vamos fazer uma festa!

 

Notas do Capítulo Extra:

 

Olá, meninas!

 

Me digam, curtiram a surpresa do capítulo adiantado? 💙

 

Eu espero que sim! Decidimos subir o capítulo com 24 horas de antecedência porque senti que precisava agradecer de uma forma especial a chuva de comentários nas últimas postagens e aqui estamos, um dia antes pondo este capítulo na mesa de vocês cedinho nesta manhã de sábado!

 

Capítulo para conhecermos um pouco mais da Thai e de como de fato, aquele apartamento funciona com todas aquelas garotas. Acho que fica cada vez mais claro que Karime está vivendo uma grande instabilidade mental, mas que quando volta para si, se torna uma espécie de escudo de suas melhores amigas, vimos o papel de Laura como ponto de equilíbrio e vimos Julia ainda um tanto enigmática. Mas a parceria com Ívi parece promissora! Próximo capítulo, “Torre-Bueno”, um pouco sugestivo, não? A ser postado na quarta-feira, dia 26/06, sob a mesma regra dos 25 comentários de pessoas diferentes até às 12h00 do dia anterior!

 

Espero que estejam curtindo a história!

 

Bom sábado a todas!

 

 

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