6 AM - Capítulo 7 - Torre-Bueno

26/6/2019

 

  

 

Sí, fiesta, fiesta, fiesta! Porque Ívi nunca achou na vida que se divertiria tanto! Todas as coisas foram um show à parte, a torcida animada, o calor e o céu azul que deu as caras, as seleções entrando, se enfileirando, a execução dos hinos que Ívi quase soltou antes por motivos de:

 

— Ela vai anunciar em três idiomas, se acalma aí! — Julia segurou seus dedos sorrindo um pouco antes de soltar o hino e então que foi mesmo anunciado em três línguas diferentes e só então, a execução liberada. Hino da Argentina, Las Leonas, Julia lhe explicou, francas favoritas ao título também, tal como as americanas tinham alguma chance e foi quando Ívi percebeu que para Julia, até a seleção brasileira tinha mais chances que o time de Kelsey, que aliás, tinha sido medalha de bronze nas últimas Olimpíadas, parecia um pouco pessoal, coisa pouca, ok. Bola rolando e menos ainda Ívi achou que fosse gostar tanto de assistir a uma partida daquele esporte!

 

Era inacreditável, a força e a beleza daquelas garotas, porque, sinceramente, nunca tinha visto um esporte com tantas meninas bonitas juntas. Corpos fortes, tão bem construídos, a habilidade, o quanto eram duronas, trombavam, disputavam a bola corpo a corpo, o som dos tacos, das pancadas secas na bola e quando os lances de perigo começaram a aparecer, os samples de Ívi começaram a funcionar. A vibração da plateia, a reação das atletas, não, estava surreal, uma energia inexplicável!

 

— Você viu? Caramba! Passou muito perto! E acho que a gente já entendeu o que funciona… — Julia estava cuidando do som fora da arena e Ívi estava se perguntando como estaria fazendo tudo isso sem ela por perto. Ela parecia ligada no 220 volts o tempo todo, sua atenção estava em todos os lugares e ela ainda se divertia vendo o jogo! Ah, não, teria que aprender alguma coisa com aquela menina.

— Música global!

Exacto! A gente tem que separar mais dessas coisas para o próximo…

 

Ívi olhou para ela.

 

— Acha que vão chamar a gente de novo?

— Por favor, Ívi, olha esses americanos felizes da vida na arquibancada junto com os argentinos tão felizes quanto! É claro que vão chamar você de novo.

 

O jogo estava intenso, mas nada de gols. Ívi estava concentrada plenamente em seu trabalho, mas era inevitável que seus olhos escapassem um pouquinho para buscar por Laura na arquibancada. Ela estava linda, de tênis, short jeans curtinho e uma camiseta da equipe da Grã-Bretanha, é claro, com o nome e o número da namorada atrás, ela era perfeita, por qual motivo não seria a namorada também perfeita?

 

— Ívi, você está vendo a Thai?

— Do lado esquerdo da Laura.

— A gente vai tocar uma música para ela no intervalo, tá bom?

— Você é imparável, menina.

 

Ela era, não negava que era, adorava ser imparável. Intervalo sem gols e lá vieram as cheerleaders darem o seu show e ainda assim, sobraram uns minutinhos que precisavam preencher.

 

— Você não vai tocar Justin Bieber na minha pick-up, Julia!

— Pensa que não é Justin Bieber, é Julia Michaels… — Ela respondeu rindo, já soltando “Sorry”, a música que Thai mais ouvia ultimamente.

— Julia Michaels?

— A compositora. Ela olhou para cá! — Abriu um sorriso — Está vendo? Ela olhou, ela sabe.

 

Aparentemente, era Julia quem não sabia muito bem o que estava fazendo. Segundo tempo começou e foi um pouco melhor do que o primeiro, gol dos Estados Unidos, outro gol americano e no finalzinho, um gol argentino, 2x1 e Ívi tinha sobrevivido!

 

Nem acreditava, pronto, primeiro turno encerrado e todas as coisas tinham dado certo! Deixaram uma longa playlist tocando e fizeram um intervalo, estavam famintas e Ívi queria um abraço de Laura enquanto Julia, bem, Julia queria a mesma coisa.

 

Julia se adiantou e apenas o jeito que elas se abraçaram foi eloquente o suficiente para tudo o que precisavam se dizer. Aparentemente, não era raro que Julia e Laura discutissem, mas detestavam quando isso acontecia, era de ambas, não haviam sido feitas para ficarem brigadas.

 

— Cadê a Thai? Acho que agora eu já posso falar com ela, não posso? Ela já se acalmou?

— Julia, deixa ela um pouquinho, vai.

— Laura, eu tenho que falar com ela! Não podemos ficar assim não, ela atirou uma coisa em mim, sabia?

 

Laura riu.

 

— Não foi em você, foi na parede. Mas visivelmente ela acertou alguma coisa em você, só não sei bem o que é. Ela foi comprar um hot-dog aqui na frente, vai atrás dela, mas vai com calma.

 

Julia deu um beijo no rosto de Laura e foi atrás de Thai. E daí que Ívi e Laura se olharam e o sorriso foi tão imediato quanto o abraço trocado, longo, apegado, cheio de uma querendo roubar um pouco mais do cheiro da outra, porque estavam longe há quatro horas e parecia tempo demais. Daí Ívi, delicadamente se afastou ao lembrar que Kelsey já estava na arena, Karime tinha acabado de dizer que havia falado com ela, lembrou disso.

 

— Foi tudo bem?

— Tudo bem — Ívi abriu um sorriso — A primeira parte inteira eu estava tremendo, mas depois tudo foi tranquilo, ter a Julia perto ajudou muito.

— Ela me disse que vocês tocaram juntas no metrô — Ela contou sorrindo.

— Tocamos, foi muito legal! No final das contas, eu de uma maneira esquisita… Me sinto muito segura perto dela.

— Julia tem esse tipo de poder — Ela ficou lhe olhando um tempinho e então lhe abraçou novamente, bem apertado — Queria ter te desejado boa sorte antes, mas eu precisava cuidar da Thai.

— Não tem problema, você está aqui agora — A cheirou rapidinho, Laura sempre estava tão cheirosa — Ela está bem?

— Veio aqui terminar tudo com a Julia, mas você ouviu a conversa? Vai dar em nada.

 

Ívi riu, tinha ouvido.

 

— Julia tocou uma música para ela.

— E lá se foi a determinação da Thai em terminar tudo, eu a entendo.

 

Ívi buscou os olhos dela.

 

— Dificuldades em terminar com a Julia também…?

 

E, foram interrompidas.

 

Baby! — Interrompidas por Kelsey.

 

Era Kelsey, mais bonita do que Ívi se lembrava, ela estava bonita daquele jeito quando se conheceram? Se não estava era um absurdo, porque agora de uniforme de aquecimento ela estava muito mais atraente do que Ívi lembrava. Ela falou com Ívi educada e sorridentemente, e então se apossou de Laura, a puxando pela cintura para beijá-la longamente, como quem está morrendo de saudades... As mãos no rosto dela, o sorriso, o olho brilhando, Ívi queria tanto, mas tanto achar que elas não se gostavam tudo isso… Mas aparentemente gostavam e Kelsey era mesmo maravilhosa. Disse alguma coisa para Laura e então se dirigiu a Ívi, falando e falando.

 

— Ela está dizendo que não fala português suficiente ainda, mas quer que você saiba que torceu por você hoje e que não vê a hora de te ouvir no jogo dela.

 

Ela era adorável! Que desnecessário! Ívi também não conseguia parar de pensar no quanto era desnecessário ela ser educada e adorável.

 

— Pergunta o que ela quer ouvir quando marcar um gol hoje? Ela é meio-campista, né?

— É meio ofensiva — Daí falou em inglês com ela e Kelsey abraçou Ívi feliz da vida.

— Ivete Sangala!

— Ivete Sangalo, ok — Ívi abriu um sorriso, que inesperado — Marca o seu gol que eu coloco Ivete pra você. Bem, eu vou comer alguma coisa antes de voltar.

— Ívi, você precisa…? — Laura perguntou tão delicada quanto podia, era dinheiro, Ívi entendeu.

— Não se preocupa — Beijou a mão dela e se afastou.

 

Ívi partiu para comprar alguma coisa para comer lá fora, pagou praticamente tudo o que tinha ganhado no trem em um cachorro-quente bem mais ou menos com Coca-Cola e deu a volta na arena, ficando do lado oposto ao que Laura e Kelsey estavam. Conversando, ficando muito juntas, gostaria de saber o que elas estavam conversando e então, imediatamente deixou essa ideia para lá, era melhor não saber. Foi comer lá na sua cabine. Sentou-se, olhou a sequência de músicas, não precisava se preocupar por mais alguns minutos. Tentou não olhar para Laura. Não conseguia. Caramba, o que estava acontecendo?

 

Não sabia. Só sabia que crescia dentro de si um bem-querer absurdo por Laura a cada segundo que passava. Comeu sozinha, checou suas mensagens e todas elas lhe pareciam um tanto desinteressantes. Tinha seus contatinhos do Rio e estava trocando mensagens com duas meninas que conheceu no hóquei, mas ainda assim... Não sabia, estava esquisita mesmo. Julia voltou para a cabine.

 

— Tudo bem com a Thai?

— Tudo bem, a gente conversou, está tudo certo. Ela me pediu um espaço pra gente se acertar.

— Você aceitou dar?

— Entre aceitar e dar o espaço há uma grande diferença, minha cara Schelotto…

 

Só Julia para lhe fazer rir.

 

— Ei, as pessoas estão sentadas — Ela continuou.

— É que o jogo não começou ainda.

— E a gente está aqui pra quê? Vem, pega a sua criatividade, pega a sua guitarra, vamos fazer alguma coisa!

 

E foi quando o som empolgante de um solo de guitarra irrompeu nos alto-falantes fazendo todo mundo olhar para a cabine. Era música global, era Living On a Prayer e ninguém mais ficou sentado de jeito nenhum! Living on a Prayer ao vivo, com uma guitarrista poderosa, riffs incríveis gravados com o tablet mágico de fazer música e Julia cantando rock como se sempre tivesse feito isso na vida. Cantando, falando com o público, incentivando uma coreografia improvisada e Laura não conseguia parar de sorrir! E nem conseguia acreditar no que elas estavam fazendo durante o aquecimento das equipes, era uma insanidade inesperada e muito divertida!

 

— Laura, essas suas namoradas são demais! A Ívi está tocando, é isso? — Era Natalia.

— E a Julia cantando! Elas são tão talentosas, você está ouvindo isso?! Espera, elas não são minhas namoradas.

— Porque você não quer. Daí eu olho e vejo a sua namorada oficial aquecendo como atleta olímpica, eu queria ser você, sabia?

 

Laura abriu um sorriso.

 

— Você é tão boba. A Julia é a Julia e a Ívi eu conheci ontem…

Chá de hortelã — Beijou a testa dela, eram como chamavam Laura, chá de hortelã porque ela era a coisa mais mentolada e gostosa da vida — Continua se dizendo todas essas coisas, uma hora você se convence.

— Nat…

— Laura, bebê, só presta atenção em você, está bem? Eu entendi que tudo está recente, mas você já me tem como parâmetro. Só pensa em você, ok?

Fiesta, fiesta, fiesta! — Karime apareceu do nada — Eu nunca vi essa arena tão animada assim!

 

Ninguém nunca tinha visto mesmo. O aquecimento acabou e o cair da noite trouxe o próximo jogo: Grã-Bretanha x Austrália. E Ívi já se sentia uma profissional da arena.

 

Cerimonial, hinos, início de jogo! O primeiro tempo passou em branco apesar do jogo estar muito bom, cada vez mais, Ívi entendia melhor os detalhes técnicos e estava mais sincronizada com o tempo de jogo. E nem precisava de tanto para ver que Kelsey era a estrela daquele time. E ver Laura tão empolgada torcendo por ela machucou mais Julia do que Ívi. Ainda entenderia bem como funcionava aquela moça. Primeiro tempo passou em branco, cheerleaders no intervalo e Natalia invadiu a bolha delas.

 

Seven Nation Army!

— Quê?

— Vocês duas, pega a sua guitarra, você pega o microfone, vamos fazer de novo o que vocês fizeram ainda agora! White Stripes, vamos lá!

 

Se ela insistia…

 

Lá foram, tocando e cantando Seven Nation Army com Julia inclusive lendo a letra no computador, elas funcionavam bem assim aparentemente, ensaio é para os fracos, por que não fazer tudo de improviso mesmo? Encerraram o intervalo sob gritos e aplausos enquanto as equipes voltavam para o jogo.

 

— Vocês são malucas, sabia? — Natalia estava morrendo de rir.

— Você mandou a gente fazer!

— Eu sei, mas eu sou maluca, não sabia que vocês também eram.

 

O segundo tempo começou com gol aos seis minutos, da Grã-Bretanha! Não foi Kelsey, por isso, soltaram Spice Girls para comemorar! A noite estava linda, estrelada, sem nuvens no céu, o clima era maravilhoso, agradável e quando de repente, a Austrália empatou, Ívi se descobriu torcendo para a Grã-Bretanha. Um pouquinho, mas estava.

 

— Eu não disse para você que elas não são tão boas assim?

 

Foi Julia calar a boca e a Grã-Bretanha deu a saída, e alguém fez a jogada perfeita. Um toque, um lançamento, um drible desconcertante e foi um golaço. Um tiro perfeito, no alto, no ângulo, totalmente indefensável.

 

Gol da número 11, gol de Kelsey Harris.

 

Que comemorou fazendo a festa literalmente e quando os torcedores brasileiros ouviram e viram a reação de Kelsey à Ivete Sangalo, todos pareceram virar britânicos instantaneamente. Kelsey correu para a torcida, carregando a energia da música com ela, causando uma reação enorme de todos os brasileiros na arena.

 

— Ívi, que negócio foi esse?!

— Ela pediu Ivete Sangalo se marcasse.

— Ah, ela pediu? Agora você é amiguinha dela, é?

 

Ívi a abraçou morrendo de rir! Era sério?

 

— Muito sério! Diz pra ela vir aqui cantar enquanto você toca, vai lá, diz pra ela!

 

Julia não existia. Aquela noite também não pareceu existir. Final de jogo, Grã-Bretanha 2x1, outra franca demonstração de carinho entre Kelsey e Laura que durou até a última atleta deixar a arena. Elas aproveitavam cada segundo que podiam. E Kelsey quase não conseguiu sair mesmo, assinando camisetas, tirando fotos, coisa de atleta profissional, de estrela do time e enfim, Julia e Ívi estavam dispensadas. Natalia apareceu para pagar as duas.

 

— Você vai me pagar também?

— Os organizadores querem vocês duas de volta, eu garanti que as duas vão voltar, estão entendendo? Eu acho que vocês ainda não se deram conta de uma coisa bem engraçada...

— Que coisa?

— Vocês são um duo! Só pensem nisso, sem compromisso. Sejam um duo durante as Olimpíadas, o que vocês acham?

 

Elas se olharam.

 

— Nat, a gente não tem nada a ver…

— Eu sei, isso não importa nada. Ok, eu preciso de um nome para amanhã.

— Eu acabei de arrumar um nome pra mim!

— É um ótimo nome, você vai continuar usando, mas o nome do duo, o duo Torre-Bueno, vocês pensem para amanhã. Eu adoro vocês! Criaturas talentosas!

 

E ela saiu da sala, lhes deixando meio sem saber direito das coisas.

 

— Julia, são trezentos reais.

— Eu disse que não quero por acaso? Eu venho com você, a gente só tem que pensar em algumas coisas.

— Torre? É seu sobrenome?

Julia Torre, sí.

— Tipo, só Torre? Geralmente é Torres, né?

Torre del Mar.

 

Ívi sorriu ao ouvir.

 

— Que bonito!

— Eu também acho bonito — Ela abriu um sorriso — É o sobrenome da minha mãe. A gente não sabe o que aconteceu com ela, ela simplesmente desapareceu em Havana, como tantas pessoas ainda desaparecem hoje misteriosamente por conta do governo. Eu sei que ela está viva, em algum lugar e quem sabe um dia ela clique em um vídeo meu e me reconheça. Ela é cantora também. Eu sei que parece fantasia de criança, mas…

— O mundo está cheio de histórias assim — Ívi beijou a testa dela, quase que por impulso. Daí esperou uma reação, mas Julia…

Julia apenas sorriu.

— Schelotto, eu acho que gosto mais de você hoje, sabia?

— Eu também acho que gosto mais de você hoje, Torre del Mar — Outro sorriso — Vamos pra casa?

— Casa? Que casa nada, vem que eu tenho planos melhores, a gente precisa comemorar!

 

Aquela cubana podia não ser tão animada pela manhã, mas pelas noites, ela parecia ter bateria infinita! Arrumaram seus equipamentos e foram encontrar as garotas lá fora, as três lhes esperavam na arena já praticamente vazia e o jeito que Laura olhou para Ívi e Julia…

 

Foi muito bonito. Ela estava claramente orgulhosa. Beijou Julia primeiro, muito carinhosa, a abraçando pela cintura, tocando-a por cima dos cabelos, falando e olhando nos olhos dela, testa tocando testa, Laura era toda feita de intensidades, intensidade espanhola e carinho latino-americano, era a melhor combinação. O carinho e a intensidade espirravam e espalhavam por todos os lados. Julia abriu o sorriso mais bobo do mundo ao ouvi-la falar e quando ganhou um piquito sem pedir, os olhos dela brilharam tanto que Ívi nem sabia. Daí ela foi para os braços de Thai e Karime, e Laura, bem, Laura olhou dentro da alma de Ívi e lhe puxou para os seus braços.

 

Com o mesmo carinho, a mesma intensidade, aquele abraço que devia ser o melhor do mundo… O braço dela em volta do seu pescoço, a mão em seus cabelos e o lado do rosto colado ao seu, enquanto ela lhe dizia o quanto estava feliz e orgulhosa por Ívi ter se saído tão bem. E o coração de Ívi a essas alturas estava batendo tão forte que tinha certeza que ela pôde sentir contra a pele. Daí também lhe olhou nos olhos, tocando a testa na sua, com aqueles olhos tão verdes... Quando tinham ficado de amendoados para tão verdes? Devia ser quando ela transbordava carinho, devia ser isso. Os olhos verdes, o sorriso, o beijo no nariz que fez Ívi sorrir.

 

— Ela trabalhou melhor do que eu? — Perguntou para Laura.

— Por quê?

 

Abriu um sorriso, nem precisava responder! Laura abriu aquele sorriso luminoso, as meninas notaram o que estava se passando.

 

— A Julia ganhou um beijo, senhorita Bueno! — Era Karime.

— Eu sei, mas é que… — Laura tinha ficado desconcertada, coisa rara, era a primeira vez que Ívi conseguia causar o efeito nela e não ao contrário.

— Espera, espera um pouco — Julia voltou para perto e, o selinho em Ívi foi a coisa mais inesperada deste planeta! Daí foi Ívi que desatou a rir.

— Torre del Mar?

— Ívi, se você mora comigo você tem que me beijar, são as regras da bachelor. Está bem, ela já foi beijada, Laura, já é oficialmente uma de nós, já pode beijar agora.

— Ainda faltam duas — Agora Laura também não parava de rir.

— Mas não seja por isso! — Lá veio Karime, mais um selinho e Ívi sentia que estava ficando vermelha — Thai, por sua conta.

 

Lá veio Thai e piquito novamente!

 

— Pronto, Laura, não faça a desunida, vai…

 

Ela lhe olhou nos olhos outra vez e nunca um selinho tinha deixado Ívi de pernas trêmulas na vida.

 

Deixou agora.

 

As rupturas no tempo, ah, sim, mais uma ruptura no tempo. Pareceu uma hora inteira dentro do tempo rompido.

 

Laura deu um passo em sua direção e lhe puxou pela nuca, para perto, delicadamente e levou outra ruptura o tempo entre este toque e ela chegar mais perto ainda. Primeiro tocou a sua testa, o lado do seu rosto, os olhos se fechando e o toque em seus lábios foi doce, suave, três segundos, durou, não foi rápido, uma boca pareceu deslizar pela outra para que o toque durasse, não acabasse, fosse inesgotável. Foi inesgotável, ainda quando acabou, ainda existia, perdurava e Ívi achava que ia levar bem mais tempo para parar de sentir. Outra ruptura no tempo, é claro, era culpa da ruptura. Abriu um sorriso, ainda a sentindo tão perto de si.

 

— Obrigada. Por ter mudado tudo em setenta e duas horas. Obrigada.

 

Laura não respondeu falando, apenas abriu aquele sorriso lindo que deixava Ívi desnorteada todas as vezes, apertou os braços em volta da cintura dela, num abraço longo, gostoso e Julia anunciou que iriam jantar em algum lugar! Algum lugar barato, ratificou logo em seguida, fizeram contas rápidas, podiam ir sim, elas davam um jeito depois. Caminharam conversando muito para o metrô, ouvindo um jogo de rúgbi na outra arena, o parque olímpico continuava movimentado. Começaram a saga da volta, primeiro um VLT, depois o trem, absurdamente lotado, sentaram-se num canto, no chão mesmo enquanto conversavam sobre o dia incrível que haviam tido. Nem perceberam que levou quase duas horas, quando se deram conta, já estavam de volta a Central do Brasil e então estavam de volta à Tijuca e Julia quis ir jantar num barzinho que costumava tocar.

 

Era na Barra mesmo, um lugar muito agradável, com som ambiente, gente bonita, lotado sempre, é claro. Estava cheio, mas Julia falou com um dos garçons que conseguiu uma mesa para elas. Pediram uma porção enorme de coxas de frango empanadas, cebolas, batatas, queijo, pães, estavam morrendo de fome e Ívi em particular mais ainda. Até o jantar da noite anterior, não comia uma proteína animal há mais de uma semana e isso causou riso pela mesa quando contou.

 

Estavam em um clima muito especial, todas elas. Julia parecia ter lugar natural entre Thai e Karime, sentada entre elas tudo parecia no lugar, e encontrar lugar ao lado de Laura para Ívi foi tão natural quanto procurar lugar à mesa. Sentaram juntas, falando, ainda contando do dia, de como tudo havia sido, do que tinham sentido, a vontade de tocar entre Ívi e Laura ainda era a mesma, ardendo, sim, seguia, mas ambas sabiam que não deviam. O selinho tinha contado que não deviam, o coração de Ívi estava disparado até agora, então elas não se tocaram, só ficaram perto uma da outra o suficiente para sentirem o calor da pele e ver a cor dos olhos sem erros. Estavam perto assim, sempre perto assim, ainda quando não falavam só entre elas porque o assunto na mesa não parava nem um segundo. Estavam falando do tal duo que precisavam nomear, fazendo um brainstorm guiado por Thai que adorava métodos criativos.

 

— O problema é que a gente não tem nem uma coisa em comum, estávamos pensando nisso, nem uma coisa que seja…

— O mais engraçado da história toda é que além de não terem nada a ver, vocês estão tocando coisas que não tem nada a ver com vocês também, daí essa sensação de que tudo está tão fora do lugar. Comida, enfim! A comida chegou!

 

E era comida pra caramba, o plano de não gastarem muito já tinha ido por água abaixo, mas ao menos, estavam felizes, empolgadas, eufóricas. Era uma sensação geral de euforia, pelo tanto que elas tinham se saído bem, por Kelsey ter se saído bem, por elas terem se acertado entre si e Ívi não parava de se sentir grata, porque a sua lista de gratidões também não parava de crescer. Estava grata por ter cruzado com Laura no metrô, grata por ela simplesmente existir, grata pela oportunidade que teve, grata por Karime e Thai, grata pelo talento de Julia, grata pela comida, pelo abrigo, pelos primeiros cem reais guardados para pagar a sua dívida naquele hostel.

 

— Você vai fazer isso em breve, não se preocupa — Era Karime.

— É que me incomoda demais, sabe? Eu estou sufocada e envergonhada com isso.

— Você vai voltar lá e resolver, Ívi — Laura lhe disse, enquanto bebia um outro gole de seu suco — Vai entrar pela porta da frente, se desculpar e pagar, não pensa tanto nisso, você fez o que precisava.

— E vai reparar logo — Era Julia, anotando mais um pensamento na folha que estavam fazendo de brainstorm e então, um garçom se aproximou, falou algo no ouvido dela, ela afirmou e ele se retirou em seguida — Ele veio me perguntar se eu posso tocar.

 — E você vai tocar?

— Vou sim, termino lá pelas duas, dá tempo de dormir e acordar amanhã às… — Checou o horário anotado por Natalia — Siete, cariño! Acordo às sete e a gente vai para Deodoro, tá? — Ela falou diretamente para Ívi enquanto o garçom voltou com um violão e entregou para ela.

— Sério, Julia? Você vai conseguir acordar?

— Termino de dormir no trem. Vocês não querem ficar? Eu vou tocar algumas músicas que dê para dançar um pouquinho — Ela começou a afinar o violão rapidamente, com uma habilidade enorme — Fiquem um pouco, vai.

— Eu fico, corazón — Era Karime — Não tenho turno amanhã.

— Eu fico também — Thai apoiou — Eu tenho aula, mas não estou disposta.

 

Ívi olhou para Laura, abrindo sorrisos as duas, se perguntando sem precisar falar.

 

— Você quer ficar? — Laura perguntou só para ela ouvir.

— Se você ficar…

 

Laura não devia, estava trabalhando no dia seguinte, tinha prova à noite, mas quando percebeu, já tinha concordado.

 

— Vamos começar o show! — E Julia começou a dedilhar veementemente, arrancando um potente e contagiante ritmo flamenco daquele violão — Este corazón… Comigo, vamos, este corazón partío…

 

E “com ela” era batucar na mesa enquanto ela intercalava as notas poderosas do violão. Começaram a segui-la, do jeito que ela estava marcando, batendo na mesa, seguindo o ritmo e quando Ívi percebeu, Julia levantou, passando a tocar e a cantar aquele compasso pelas mesas, pedindo que todos lhe acompanhassem, que fizessem o mesmo e o som foi ganhando vida, foi ficando mais alto, mais forte e Ívi não conseguia acreditar no que ela estava fazendo!

 

 — Ela vai…?

— Ela já começou o show dela.

 

E o som ambiente já tinha sido reduzido e todas as mesas do bar já estavam a seguindo naquele compasso, nas batidas, nas notas flamencas.

 

Este corazón… Todo mundo, vamos, de novo! Este corazón partío… — Ela subiu no palco e alguém veio plugar o violão à caixa de som e enfim, aquela nota invadiu o lugar inteiro como uma onda em rebentação. Ívi se sentiu arrepiar e desconfiava que não tinha sido a única. Julia fez uma pausa dramática e então — Ya lo sé, que corazón que no ve, es corazón que no siente, el corazón que te miente, amor… — Ela começou perfeitamente, arrancando aplausos já no início — Pero sabes que en lo más profundo de mi alma sigue aquel dolor, por creer en ti — Ela olhou para Laura, fazendo graça, a fazendo rir na mesa, Julia sempre fazia a mesma coisa — ¿Qué fue de la ilusión y de lo bello que es vivir? — Daí flertou com Thai, abrindo aquele sorriso conquistador lindo que tirava qualquer uma de si — ¿Para qué me curaste cuando estaba herió si hoy me dejas de nuevo el corazón partío? — Então ela fez outra pausa dramática — Boa noite, senhoras e senhores, meu nome é Julia Torre e hoje nós vamos fazer uma conexão Rio de Janeiro – Barcelona, com escala em Havana. Todos prontos? — Só respostas positivas — Então embarquem comigo! — E aí ela acelerou seu violão flamenco poderosamente direto para o refrão — ¿Y quién me va a entregar sus emociones? ¿Quién me va a pedir que nunca la abandone?¿Quién me tapará esta noche si hace frío? ¿Quién me va a curar el corazón partío? ¿Quién llenará de primaveras este enero? ¿Y bajará la luna para que juguemos? Dime, si tú te vas, dime cariño mío! ¿Quién me va a curar el corazón partío?

— Como é que ela faz isso? Eu fico para morrer toda vez que tenho que me apresentar!

— Ívi, você é duas, sabia? Você chega nas garotas sem nenhuma timidez, subiu no palco de um desconhecido e pediu para tocar com ele e de repente…?

— É porque eu sabia o que fazer, quando cheguei perto das meninas eu sabia o que fazer, quando subi no palco para tocar com o DJ lá naquela festa, eu também sabia, mas quando eu não sei, eu só quero ir para um canto chorar até acabar… — Contou, arrancando risos pela mesa — Eu tenho confiança, mas têm algumas coisas que simplesmente… — Olhou para Laura e ela lhe deu aquele olhar. Laura também era duas.

— Simplesmente o que, mí amor?

 

Não conseguiu responder, ficou pela sua garganta, pelos seus neurônios, ou pelos seus hormônios, por qualquer lugar.

 

— Ívi, respira! — Era Thai, morrendo de rir — Não faz isso com ela, Laura!

— Eu não fiz nada — Ela estava rindo demais agora.

— Laura, você não tem coração, sabia?

— Eu tenho sim, gente.

— Não tem não, deve ser a rainha dos corações partidos, Julia tem toda razão… — Era Ívi, enfim reagindo.

— Não me diz isso, não você... — Ela pediu, se recostando em Ívi, deitando a testa no ombro dela, buscando um toque que só Ívi podia dar. A tocou pela nuca sorrindo, trocando um olhar com Thai e Karime, cheirando os cabelos de Laura em seguida.

— Eu não sei se você merece que eu não diga — E deslizou a mão pelos cabelos dela, fazendo um carinho, a cheirando gostoso porque a vontade de tocar em Laura já estava quase desumana. Ívi não se movia um centímetro sem que antes Laura se movesse, ficava toda travada, feito sua versão adolescente que tinha medo das meninas. Porém, a madrugada se aproximava e Ívi sentia de verdade que nas madrugadas, Laura deveria ser sua um pouquinho mais…

 

Karime puxou Thai para mais perto enquanto seus olhos ficaram naquele carinho inesgotável bem à sua frente. O carinho, a conversa que tinha se tornado só delas, os risos em segredo, era pouco tempo juntas e muitas vezes quando isso acontecia, elas se isolavam entre elas e o resto do mundo parecia desaparecer.

 

— Ívi? — Karime a chamou.

— O quê?

— Você sabe dançar junto?

— Eu sou do nordeste, é claro que eu sei — Respondeu sorrindo.

— Então leva essa espanhola para dançar que é a coisa que ela mais ama fazer na vida. Leva a Laura, vai.

 

Ívi olhou para Laura, como quem pede autorização. E ela lhe estendeu a mão prontamente.

 

— Me mostra como se dança lá na sua praia.

 

Notas do Capítulo Extra:

 

Olá, meninas!

 

Como estamos esta semana? Eu espero que esteja tudo bem com vocês!

 

Tivemos feriado semana passada e deu para dar um gás nos comentários, logo alcanço vocês! Enquanto não chego junto, aqui estamos com mais um capítulo de 6AM onde pudemos ver um pouco de como a inesperada parceria de Julia e Ívi irá se desenrolar 😊. Aliás, capítulo com Julia um pouco mais presente e onde pudemos acenar para Kelsey Harris mais uma vez, prometo de dedinho que vocês ainda irão querer dar uma chance para a nossa atleta olímpica ^^.

 

Acho que ainda não disse como 6AM surgiu, então vamos a um breve histórico aqui: em 2016, Ana e eu realizamos o sonho de curtir uma Olimpíada de pertinho e um dos esportes que mais me impressionou foi o hóquei sobre a grama. Saí de lá com a ideia fixa de que precisava escrever sobre o hóquei, sobre as Olimpíadas em si, utilizei o título provisório de “Stamina” e no final das contas, aqui estamos, a história acabou não sendo focada numa atleta, mas Kelsey Harris é minha homenagem a esta protagonista que ficou sem história haha. E ah, sim, Laura Bueno, assim como eu passei por uma desconhecida na Cidade do Cabo e ela me deu Ryan Scholtz, eu estava voltando de Deodoro de boa no metrô quando outra desconhecida me deu Laura Bueno 😊.

 

Falando do próximo capítulo, teremos uma noite quente pela frente! Capítulo 8, “Namorinho” traz uma noite intensa regida pela voz de Julia Torre e pelo magnetismo de Ívi e Laura. Para que tudo isso esteja disponível no próximo domingo, dia 30/06, já sabem, não é? 25 comentários até o meio-dia do sábado!

 

Boa semana!

 

Beijos!

 

 

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