6 AM - Capítulo 8 - Namorinho

30/6/2019

 

  

Ívi mostrava imediatamente. Terminou seu suco de maracujá, se colocou de pé e começou a desabotoar a camisa branca, causando um riso de nervoso descontrolado pela mesa! Seu abdômen, é claro, gostava das reações, mas nem era por isso.

 

— Vai repuxar o seu uniforme britânico — Informou, amarrando a camisa na cintura e ficando apenas com um cropped preto que usava por baixo. Já estava usando algo de Thai, parecia um ciclo natural naquele apartamento que tinha peças Domenèch espalhadas por todos os lados.

 

— Sei bem que é por isso — Era Laura, sorrindo ao agarrar a mão dela e levá-la para a pista ainda praticamente sem ninguém. Julia tinha voltado para o começo da música, com todos os acordes, plugando seu celular à mesa de som e ganhando a base gravada junto ao seu poderoso violão. Ela ia e vinha na música sem nenhum medo, sabendo exatamente tudo o que estava fazendo, controlando a base, o violão, sua voz, seu sorriso, o público, ela era demais.

 

Pararam no meio da pista, os olhos de Laura pelo colo de Ívi, pelo seu pingente de pena pairando sobre a mandala indígena, Ívi sabia que mexia com ela e ficava presa em duas emoções distintas: a de usar isso a seu favor e a de se sentir quase culpada por estar causando isso. Podia estar completamente errada, mas a calma de Laura parecia existir apenas na sua superfície, o repente em que tinham se pegado na outra noite lhe mostrou uma tormenta por baixo daquela aparência tranquila. Só não sabia por que ela evitava a tormenta. Sentia que não era apenas pela namorada.

 

Tiritas pa este corazón partió...

 

A base gravada de Julia trouxe Ívi de volta, iria parar de presumir sobre Laura, ela queria dançar.

 

Tiri-ti-tando de frío... — A voz suave de Julia e Laura encontrando o seu lugar por Ívi.

 

Ela queria mesmo dançar. Ívi abriu um sorriso e a ajustou em seu corpo, a pegando pela cintura, sentindo os braços dela encontrando caminho naturalmente para o seu pescoço.

 

— Que ritmo é esse? — Ívi perguntou, já com seu corpo seguindo o ritmo de Laura, foi fácil, específico, direto, um corpo encontrou o ritmo do outro em dois passos.

— É flamenco, mas para dançar de namorinho — Respondeu sorrindo, sentindo Ívi tão perto. A pele quente suavemente lhe ardendo os braços, o ardor por dentro também.

— Ah, de namorinho? — Ívi a girou, e a trouxe de volta, de costas para si — Me avisa se eu não estiver fazendo direito, tá? Eu faço questão de fazer direito… — Disse, fazendo Laura rir muito ao a desenrolar dos seus braços e começar a mostrar para aquela espanhola como se dança pelas praias do nordeste.

 

A puxou contra si, a mantendo muito perto enquanto contava qualquer coisa no ouvido dela, a ouvindo responder, perguntar uma coisa e outra, a música ainda suave, calma e densa, e Ívi desconfiava que dançar de namorinho era dançar naquela inexistência de espaço entre elas, um corpo muito junto do outro, as mãos pegadas pela pele, o cheiro pegado pela mente, a conversa fluía e fluía, tão agarradas, tão juntas, tão à vontade uma pela corpo da outra enquanto ouviam aquela canção sobre um amor que não dá certo, mas ainda assim é amor, ainda assim é romântico e Laura lhe explicou que os espanhóis são assim mesmo, viciados em qualquer sentimento que ao menos se assemelhe ao amor.

 

A voz de Julia alcançou o refrão encorpando o lugar por completo e o violão era tão voraz que parecia haver uma banda inteira tocando ao vivo com ela. Julia era intensidade e calor, era paixão latina com exagero americano, a pista encheu durante o refrão e o ritmo entre Ívi e Laura veio muito rápido, o flamenco energético pelos pés de Laura, o ritmo brasileiro pelo seu corpo inteiro, o corpo tão delicado e intenso ao mesmo tempo, bem desenhado, bonito, viciante de pôr as mãos. Laura era toda mignon, cabia inteira pelo corpo de Ívi, que era mais alta, mais densa, mais forte, o cheiro dos cabelos castanhos de Laura era algo que não podia cansar, ela estava sempre toda cheirosa, toda macia e Ívi nem sabia.

 

Soube menos ainda quando Julia subiu o tom depois do refrão e a espanhola em Laura falou mais alto. Ela estalou os dedos junto com Julia, seguindo o “hey!” junto com ela, abrindo um lindo sorriso, fazendo passos de dança flamenca poderosos, rodeando Ívi, a deixando totalmente encantada, a pegou de volta sorrindo, se perdendo na beleza dela, naquela intensidade toda de quem ama dançar, de quem ama a sua cultura, a girou no ritmo forte da música, a pegando, a soltando, a levando e a trazendo de volta, os tênis de Laura riscando o chão, os pés que nunca ocupavam o mesmo lugar no espaço e quando os olhos ocuparam o mesmo lugar em centímetros... Ívi tocou sua testa na dela, subindo a mão pela nuca dela, por dentro daqueles cabelos e Ívi não tinha a mínima noção de onde tudo aquilo iria terminar, mas já tinha desistido de se preocupar com o final de cada coisa quando a equação envolvia Laura Bueno.

 

Não importava o término, o término era depois, importava apenas o agora, apenas o que eram e podiam ser agora, naquela hora, naquele segundo. Deixou ir, o olho no olho, Laura tão perto de si, deixou ir para puxá-la de volta, para girá-la sorrindo e com precisão, e para vê-la morrendo de rir de nervoso quando do nada, Ívi a curvou num cambré inesperadamente para terminar a música na intensidade que ela merecia. Laura se agarrou pelos seus braços, rindo e com medo de escorregar! Nada, Ívi nunca permitiria.

 

— Ívi!

— Eu sei exatamente o que eu estou fazendo, galega — E Julia tinha emendado uma música em português, “Deixo” de Ivete Sangalo, Ívi ainda não tinha a ouvido cantar em português e ela o fazia com perfeição. Mudou a música, o ritmo, mas Ívi não saiu de perto de Laura nem um pouquinho. A pôs de pé novamente e foram facilmente encontradas por outro ritmo — Ela aprendeu português com você?

— Comigo. Em casa a gente falava português, ou galego, ou catalão, nós aprendemos catalão enquanto morávamos em Barcelona, dependia de quem queríamos que entendesse ou não. Tínhamos pais bombas-relógios, sabe? A minha mãe era muito maluca, por muito tempo ela me fez acreditar que o maluco era o meu pai biológico, que por isso ela tinha fugido daqui, mas conforme eu crescia, eu começava a ver o lado real da história. Ela era maluca, viciada em remédios e em comportamentos negativos, e o pai da Julia tem depressão crônica, desde quando perdeu a esposa em Havana. Então segredos eram necessários.

 

Ívi a ajustou para um pouco mais perto, sentindo os braços dela pegarem seu pescoço mais firmemente enquanto ardiam assim, silenciosamente, centímetros uma da pele da outra.

 

— Ela foi a sua única pessoa por muito tempo.

— Muito tempo — Respondeu, queimando ainda mais aquela distância, encostando a testa no ombro de Ívi — Você tem gosto de praia, sabia? — Ela disse, fazendo Ívi sorrir.

— Gosto de praia?

— Pele de praia, cor de praia, vibe de praia, era nisso que eu estava pensando enquanto te olhava lá no metrô, que você parecia muito menina de praia. Daí você começou a chorar.

— E você ficou aturdida.

— Eu fiquei, fiquei mesmo — E então, Laura tocou sua testa na de Ívi, se mantendo por cima dos braços dela, quase na ponta dos pés para acompanhar a sua altura — Ívi... — Se agarrou pelos braços de Ívi um pouco mais, pelos seus olhos, pelo seu cheiro, estavam tão perto uma da outra, tão perto que... — Tem um cara que vende doces… — Ela disse, fazendo nenhum sentido e fazendo Ívi gargalhar.

— Como…?

 

Laura estava rindo também, sabia bem que não era algo esperado de se dizer quando se tinha uma garota tão por perto, mas enfim.

 

— Lá fora tem um cara que vende doces, ele vende bolo de pote, eu queria...

 

Ívi olhava para ela, toda agarrada em si, as testas ainda se tocando, os olhares também e um sorriso que Ívi não conseguia tirar do rosto. Sua espanhola queria doce, que surpresa!

 

— Bolo de pote?

— Eu gosto muito desse bolo — Ela respondeu sorrindo, ainda dependurada em seu pescoço e então ela ficou intensa, densa, Ívi nunca sabia precisar — Eu quero ir lá fora, comer bolo de pote e saber coisas sobre você, qualquer coisa — Ela pediu, agarrada na nuca de Ívi, fechando os olhos ao afundar o rosto pelo seu pescoço — Uma, duas, ou todas as coisas, o que você quiser me contar, eu só quero saber.

 

E era com esse tipo de coisa que Laura lhe mordia a mente e pedaços de sentimentos.

 

Foram para fora, do jeito que ela queria e Ívi queria chamá-la de amoriño e levá-la pela mão, como se ela fosse sua e foi quando descobriu que na verdade, não precisava tanto que Laura fosse sua, quando Ívi já era dela. Laura lhe pegou pela mão e lhe chamou de mí amor, falando dos tais bolos de potes, do quanto eram maravilhosos, toda empolgada e quando chegaram lá fora estava uma chuva daquelas! Mas o tal vendedor de doces da madrugada estava logo ali. Compraram cinco, um para cada e vieram comer os seus sentadas na calçada do restaurante, onde podiam ouvir Julia cantando e sentir o gelado doce da chuva naquela noite quente.

 

— Então o seu pai biológico não é o seu pai de agora? — Laura lhe perguntou enquanto devorava o seu bolo de pote preferido, o de chocolate com coco.

— Não é não, ele casou com a minha mãe quando eu tinha dez anos. Ela era mãe solteira, ele pai solteiro, do meu irmão...

— Esse que é tatuador?

— Isso — Abriu um sorriso, comendo seu bolinho de cenoura com cobertura de brigadeiro, uma delícia.

— Então você não conhece seu pai biológico?

— Eu conheço, a gente se viu algumas vezes, mas foram bem poucas. Ele veio passar férias em Maragogi onde conheceu a minha mãe, eles tiveram um romance e ela ficou grávida de mim. Ele foi embora um mês depois, ninguém sabia da gravidez, minha mãe soube uns dois meses depois, conseguiu o contato dele na pousada onde eles se conheceram, mas ele já estava na Itália, de volta para a ex-namorada que ele tinha deixado lá e que adivinha?

 

Laura abriu um sorriso.

 

— Estava grávida também?

— Estava! Eu tenho uma irmã da mesma idade que eu.

— Italiana — Pegou outra garfada generosa do seu pote.

— Italiana, mora em Siena com o meu pai. Ele veio quando eu nasci, com a Tiziana ainda bebê. Ele trouxe o bebê e trouxe a namorada que tinha sido promovida a esposa. Ele e a minha mãe foi uma aventura, algo que aconteceu, ele não sabia que a ex-namorada tinha ficado grávida em Siena e nem tinha como saber que a minha mãe tinha engravidado em Maragogi. Ele me registrou...

— O Schelotto é dele.

— Isso, o Matis é da minha mãe, é tribal, eu adoro também. Eles ficaram aqui um mês e ele teve que voltar para Siena. Ele sempre pagou pensão, não é muita coisa, o jovem viajante herdou a padaria modesta do meu avô e ficou por lá, mas ele sempre me ajudou como pôde. Porém ver ele, eu só vi umas três vezes na vida. Ele veio quando eu nasci e então quando eu fiz cinco anos, depois veio para o aniversário de doze, e foi só. Eu só fui entender o que era ter um pai mesmo com o Marcelo.

— Mas vocês têm contato ainda?

— Ah, a gente conversa — Raspou o brigadeiro dos lados do pote — O português dele é péssimo, mas eu aprendi italiano para poder conversar com ele...

— Então você fala italiano!

— Falo, aprendi junto com o português porque falava com o meu pai toda semana — Contou sorrindo — A gente continua se falando hoje, com menos frequência, mas ao menos uma vez por mês a gente conversa.

— Tem vontade de ir à Itália? — Outra bocada, cheia de cobertura.

— Ah, eu tenho! Não só de ir à Itália, mas de abraçar a minha irmã, a gente conversa sempre...

— Espera, é com a Tiziana que você fala o dia inteiro?

— É ela! E a gente nem se conhece pessoalmente, quero dizer, a gente só se viu bebê — Sorriso, sempre sorria ao lembrar de Tiziana.

— Que bonito, Ívi — Ela não perdia o sorriso e nem os olhos pelos olhos de Ívi — Eu achei que ela fosse uma amiga sua lá de Alagoas.

— Não, é minha irmã italiana. Ela não tem como vir aqui, eu não tenho como ir lá, mas quem sabe um dia.

— Você não faz ideia de como eu quero voltar à Espanha e morro de pena que a Julia não possa voltar a Cuba em segurança, para rever Havana, sabe? O lugar que nasceu, onde passou a primeira infância, para procurar a mãe dela. Apesar de tudo o que aconteceu ela ama aquela cidade, sonha com as cores, com a vibração, o cheiro daquele lugar.

— Não tem nenhum jeito dela voltar em segurança?

— Se ela conseguisse cidadania brasileira por exemplo, ela poderia. Mas ela está inclusive ilegal no país, o visto de visitante expirou e ela não se move para resolver isso. Ela sabe que precisa da legalidade e da cidadania, mas só se dispõe a resolver se for de maneira rápida.

— Ela precisaria casar com uma brasileira para ser mais rápido.

— Consegue imaginar a Julia casada? — Abriu um sorriso, limpando o garfo contra a língua — Mas seria uma solução sim. Eu sei que o Brasil não tem histórico de deportar ninguém, mas se ela for deportada, é para Cuba que vão mandá-la, não para a Espanha, isso me assusta.

— Ela está sendo irresponsável, vou ver se consigo falar com ela sobre isso. Então você quer voltar para a Espanha?

— Para visitar, sim. E para trazer a minha irmã comigo.

— A Julia me contou que vocês têm uma irmã em comum.

— Nós temos, uma menina linda e complicada que anda me preocupando demais. A María não quer ficar com o pai, é um problema que Julia e eu teremos que resolver mais cedo ou mais tarde. Mas ela é menor de idade ainda, acabou de fazer treze anos, ainda não decide por ela — Ela abriu outro sorriso ouvindo a música que Julia estava cantando agora — Eu adoro essa música!

 

Era aquela música. A que ficou na cabeça de Ívi quando não conseguia dormir, a que estava aprendendo com Julia. Olhou nos olhos de Laura, a coisa mais linda morrendo de felicidade ao comer aquele bolo de pote com garfinho de plástico enquanto Julia lhe cantava sua música preferida lá dentro.

 

— O que foi? Às vezes eu sou romântica que me envergonho...

 

Ívi começou a rir.

 

— A música é linda, Julia está me ensinando.

— Canta pra mim o que você já aprendeu.

 

Ívi olhou nos olhos dela novamente. De madrugada, Laura devia mesmo ser sua um pouquinho mais. Sorriu, pegou a mão dela na sua, deixou seu bolo de pote de lado e se colocou de pé.

 

— Vem. Eu te mostro.

Laura abriu um sorriso a olhando. Se pôs de pé e, assim, no meio da chuva que agora estava bem fina e num pedacinho de calçada qualquer, Ívi lhe tirou para dançar.

 

— Nosotros éramos los que éramos ayer y los que seremos mañana, nosotros somos los de me quedo, si te quedas… — A tirou para dançar enquanto cantava no ouvido dela, sentindo aqueles braços achando lugar em volta do seu pescoço mais uma vez — Nosotros éramos los que… — Daí perdeu a palavra, Laura continuou sorrindo.

Quedábamos bajo la mesa, nosotros somos los de que de postre, mirábamos a la puerta…

— Yo soy el tiempo que tu y yo hemos compartido, ahora dime que no, perdemos los dos si te vas...?

 

Ninguém além de Julia cantou mais. Ívi não conseguia pensar com Laura tão agarrada em seu pescoço, não conseguia pronunciar qualquer palavra que fosse com o cheiro dela tão preso no seu senso, no seu bom senso, ou no seu senso ruim, nenhum dos dois respondia com aquela menina linda tão perto de si. A letra tinha toda razão, era o que Ívi era agora, o tempo compartido com Laura por perto. Sentia-se como se fosse algo antes, mas no Rio, houvesse sido reduzida a quase nada, porém desde quando Laura apareceu... Desde quando ela apareceu, Ívi era apenas o tempo que elas duas andavam partilhando, nada mais, nada menos, apenas o que existia quando Laura estava por perto. A noite quente, a chuva fina, a canção enchendo todo o seu coração que Laura mordia, como se fosse de chocolate com recheio de coco, como se fosse um bolo de pote de Prestígio, o seu preferido. Aquela energia entre elas, a pele arrepiando, o abdômen de Ívi contraindo em uma rajada fria, as coxas nuas de Laura arrepiando pelo mesmo motivo, a vontade apertando e Ívi...

 

Apertou os lábios, sentindo a mão dela subindo pelo seu pescoço, o rosto grudado no seu, os olhos fechados, a chuva fina, o tempo compartido. Era isso, era tudo.

 

Ívi a segurou pelos braços, pelos cotovelos sentindo todo o carinho com o qual tinha a tirado para dançar se convertendo num tesão de mente inacreditável. Não podia com o corpo de Laura, com a pele, com aquele cheiro gostoso que vinha dela e lhe inebriava inteira. A dança parou e Ívi simplesmente a segurou pela cintura, a grudando contra o seu corpo, a sentindo lhe pegando daquela forma Laura de pegar, lhe tocando todinha sem lhe encostar um dedo que fosse.

 

Foi muito para a determinação em não a tocar demais.

 

Ívi a pegou e a colocou contra a parede em dois passos, as pernas dela se enrolando pelas suas, a mão em seu abdômen, no cós de sua calça jeans, a mão de Ívi na garganta dela, a boca passeando, queixo, mandíbula, lado do rosto e Laura a apertou inteira contra o seu corpo, inteira.

 

— Você me morde, Laura...

Muérdeme tu. Todo el tiempo, muérdeme tu... — Ela lhe falou, muito junto ao seu ouvido, com os olhos bem fechados enquanto estavam totalmente pegadas uma na outra e então, Laura mordeu de outro jeito — Perdona, mí amor — Ela pediu de repente, num outro tom, em outro sentimento — É que eu não fazia ideia de que eu podia te conhecer...

 

Era uma única frase. Que dizia mil coisas.

 

O tesão refreou e se volveu no abraço mais longo, pelo tempo mais curto.

 

Se de madrugada Laura era mais sua e Ívi estava sentindo que era de fato, ao mesmo, foi ali a primeira vez que percebeu que de madrugada, as horas eram mais curtas.

 

O abraço durou minutos inteiros, Ívi sabia que tinha durado, minutos sob aquele sentimento, minutos do “perdona, mí amor” sendo sentido plenamente pelas duas. Quem podia imaginar? Ninguém podia. Se dissessem a Ívi que ela cruzaria com uma menina que lhe causaria medo de se mover outra vez no pior momento de sua vida, nunca acreditaria. E tinha certeza que se dissessem o mesmo a Kelsey, que cruzaria com esta mesma menina no melhor momento de sua vida, ela também não acreditaria. Não era culpa de ninguém. Só havia acontecido e Kelsey tinha chegado uma semana antes.

 

Ívi terminou o abraço a olhando sorrindo. Beijou a testa de Laura e resgatou o bolo de pote abandonado que ela comia com tanta felicidade.

 

— Vem, termina o seu bolo, amoriño.

— Agora está frio! — Ela reclamou, manhosa, se escondendo pelo corpo de Ívi.

— Eu te esquento, vem.

 

A levou para a pequena cobertura do telhado junto à parede, onde a protegeu do vento com seu próprio corpo enquanto ela terminava as últimas garfadas do bolo e elas voltavam a conversar. Tão perto uma da outra, cumprindo a promessa de que queriam se saber qualquer coisa. Qualquer coisa mesmo.

 

Do tipo, a paixão de Ívi por livros de terror, suspense e romances policiais. E Laura ficou eufórica quando ouviu tal informação!

 

— Sério que você curte suspense e romance policial? — Outra garfada enquanto olhava Ívi nos olhos, Laura era adorável devorando aquele bolo, um absurdo, Ívi nem sabia.

— Eu adoro! Suspense, romances policiais, literatura gótica é a minha preferida! Aquela fase obscura da humanidade, sabe? Londres vitoriana, do Jack, O Estripador.

— Paris dos crimes noir, a capital dos crimes passionais, cometidos naquelas noites silenciosas antes da invenção do rádio ou da tevê. É o que mais me toca nesses filmes, sabia? O silêncio, as ruas de pedra, deveria ser muito assustador sair em noites assim.

— Hum — Outra bocada de bolo — Você sabe que em Veneza, das ruas de pedra e dos becos que acabam em canais nesta época, existia uma profissão chamada codega, que era um sujeito que andava com uma lanterna na sua frente evitando mortes acidentais como quedas em canais e também assassinatos na neblina — E então, Ívi se deu conta de algo — Laura, você é a primeira menina que não foge quando eu começo a falar do que leio...

 

Laura gargalhou.

 

— Posso dizer o mesmo. Qual foi o último livro que você leu?

— O Signo dos Quatro.

— Sherlock Holmes!

— Você já leu?

— Toda a coleção, tem em casa se você quiser reler — Mais sorrisos.

— E qual foi o último livro que você leu?

— Não vai sair correndo?

 

Ívi estava rindo demais.

 

— Me conta!

Sweeney Todd, o barbeiro demoníaco de Fleet Street.

Penny Bloods! Claro que sim, por que não me surpreende?

 

Laura também não parava de rir.

 

— O texto original, igualzinho os que foram publicados nos jornais de 1846! Eu adoro esses textos, são históricos, fazem parte de uma era importante, a revolução industrial tinha feito a população de Londres triplicar de tamanho e essas histórias de terror começaram a surgir, entretenimento barato.

— Publicadas em folhetins que custavam um centavo de libra. Eu sou fascinada por Londres, você não faz ideia — Roubou uma garfada do bolo dela — Laura, a Thai tem toda razão, você é sinistra, menina, sinistra! Não é nada do que eu esperava e isso é tão maravilhoso... — Disse, a fazendo rir mais.

— Você já leu? Você tem que ler para me entender!

— Não tem em português, não é? Acho que nunca foi traduzido no Brasil, eu vou aceitar demais que você leia pra mim — Respondeu sorrindo — Tem assassinatos, Londres Vitoriana, está na minha lista tem um tempo. Quando você começou a ler este tipo de romance?

— Ah, eu era pequena. Lembro de ter lido O Mágico de Oz e pensado no quanto aquele livro parecia assombrado — Contou sorrindo, limpando o garfo outra vez — Eu adorei os pedacinhos obscuros, cada um deles e quando percebi estava lendo romances policiais com onze, doze anos. A minha mãe tinha depressão e em um dos psiquiatras que ela passou, ouviu dizer que a depressão podia ser genética. Como um gene obscuro, sei lá. Daí ela sempre se preocupou que eu pudesse tender para um lado sombrio e então ficou tranquila quando eu comecei a ler esses romances porque para ela, era “um sombrio inofensivo”, eu ia ficar bem.

 

Ívi a fintou.

 

— E você ficou bem com os romances?

— Eu... Nem sei, Ívi. Foi assim que entrei para o hóquei. Eu tinha medo de ficar triste do nada igual a minha mãe e não dá tempo de sentir tristeza quando se está em movimento constante. Quando se está num jogo de hóquei, você perde um dente se ficar triste do nada — Ela respondeu sorrindo — Eu me sinto muito forte quando estou jogando, eu fico aguerrida, inabalável e eu acho que isso me protege. Eu nunca entendi a minha mãe direito. Achava que ela só se rendia, mas era porque eu nunca tinha visto ela não depressiva. Eu só vim entender as coisas melhor depois da Karime, porque eu a conheci antes deste quadro e de jeito nenhum ela é o tipo de pessoa que desiste, é uma coisa que realmente não combina com ela. A Karime é forte, é determinada, inteligente, autoconfiante, ela se adora, sabe? Ela sabe que é bonita, adora ser vista, é intensa demais, ela tem casos de amor com ela mesma do tanto que ela se adora... — Disse, fazendo Ívi rir — Mas então acontece uma crise e ela se torna outra pessoa.

 

Ívi olhou bem para ela.

 

— Sente muito por não ter conhecido outra versão da sua mãe?

— Às vezes eu me pergunto como seria outra versão dela, mas ao mesmo tempo, sei lá, eu tento não pensar muito nisso também, porque, vai que o gene é obscuro mesmo... — Quebrou o peso da conversa sorrindo outra vez — Vamos lá! Me canta alguma coisa que nem me passa pela cabeça que você saiba cantar só para isso ficar mais justo e eu parar de me sentir a esquisita aqui.

 

Ívi deu risada.

 

— Tudo bem, vamos lá — Ívi pensou em algo inusitado, mas que ao mesmo, podia dizer alguma coisa — Olha, você tem todas as coisas... Que um dia eu sonhei pra mim. A cabeça cheia de problemas... Não importa eu gosto mesmo assim... Tem os olhos cheios de esperança... — Ela lhe abriu o sorriso mais luminoso daquela madrugada inteira, Ívi nem sabia — De uma cor que ninguém mais possui... Me traz o meu passado e as lembranças... Coisas que eu quis ser e não fui...

— Roberto Carlos — Ela estava lhe olhando e sorrindo, de um jeito lindo — A sua voz…

— O que tem?

 

A excitava. Não aguentava com Ívi cantando, tinha uma queda quase obscena pela voz dela. Mais do que pelos braços fortes ou o sorriso lindo, a voz de Ívi lhe tirava de si.

 

— Eu gosto. Da sua voz e da música.

 

Olhou nos olhos dela outra vez, tão inacreditavelmente verdes, como se fosse a cor de todo dia.

 

— Você sabe algum poema de cor? Recita pra mim.

 

Ela abriu um sorriso, limpando o garfo pela última vez. O bolo tinha acabado.

 

Cuenta la leyenda que todos nacemos con hilo rojo invisible atado a la persona que amaremos por toda la vida. Sin importar el tempo, el lugar o la circunstancia. El hilo se pondrá a estirar, contraer o enredar... Pero jamás romperá. Y sin importar el tiempo o a donde nos lleve la vida, el hilo puede que se estire o se enrede. Pero nunca se va a romper. Eu nunca sei ele inteiro, eu sempre tiro ou acrescento alguma coisa.

— É uma lenda. Eu acho que conheço. A minha mãe me dizia quando eu era pequena que a gente nasce com um fio vermelho amarrado no nosso dedinho, preso a pessoa que vamos amar para sempre.

 

Laura sorriu.

 

— É essa lenda!

— Você acredita nela?

 

Ela deu de ombros.

 

— Talvez a gente tenha mais de um hilo. Mais de um fio. Talvez ele não seja só vermelho. Pode ser azul ou amarelo, ou lilás — Aquele sorriso lindo sempre aberto — Quando eu cruzei com a Julia naquele acidente de trem, eu sei que ela me puxou por um fio. Eu vou amá-la por toda a minha vida, eu sei. Mas não acho que o fio seja vermelho.

— Romance não é a única forma de amor.

 

Laura se perdeu olhando para ela um pouco mais.

 

— Não é. De verdade, não é.

 

Elas refletiram em silêncio sobre tudo aquilo por um instante. Das mordidas que haviam se dado passando pelos romances policiais até a lenda do fio vermelho. O fio atado a pessoa que amaremos a vida inteira.

 

— Arrepiou — Laura lhe disse, notando a pele de Ívi arrepiar por outra rajada de vento frio — Devíamos entrar, eu quero dançar mais.

 

Ívi abriu um sorriso e a puxou pela nuca, a beijando na testa com carinho.

 

— Eu também quero.

 

Era hora de voltar para dentro. A noite só estava começando.

 

Notas do Capítulo Extra:

 

Olá, moças!

 

Bom dia a todas vocês!

 

Mais uma vez começamos o domingo com capítulo novo de 6 AM! Capítulo 8 para vocês, mostrando o comecinho de uma noite que continua sob o sugestivo título de “Mordidas”, é o capítulo 9 que nos espera!

 

Capítulo centrado em Ívi e Laura, e nesse relacionamento que anda crescendo entre elas, como lembrado pela Ívi anteriormente, uma só está na vida da outra há setenta e duas horas e ainda há muito para se saber, para se conhecer e aparentemente, quanto mais elas descobrem sobre a outra, mais conectadas se percebem 😊. Trata-se de duas personagens fortes, que passaram por muitas coisas, que amadureceram de maneiras diferentes e agora se encontram num momento denso da vida das duas ^^. A noite continua no próximo capítulo!

 

Nas notas anteriores, citei algumas coisas sobre a concepção da história, alguém tem mais alguma curiosidade? Sintam-se à vontade para perguntar! Ademais, já conhecem as regras para liberar o próximo capítulo! 

 

Bom domingo a todas!

 

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