6 AM - Capítulo 9 - Mordidas

3/7/2019

 

  

Voltaram para dentro, Ívi levando os outros bolos das meninas e com Laura agarrada em sua cintura, sem se afastar nem um pouquinho e a preocupação de Ívi em mantê-la afastada era a mesma que estava tendo com o final daquela noite: nenhuma. Levaram os bolos para a mesa, mas Thai e Karime não estavam mais lá, sim, porque das canções românticas, Julia tinha partido direto para a conexão com Havana! Tinha deixado o violão de lado e sua base gravada começou a tocar uma sequência de…

 

Viva Celia! — Ívi gritou no seu melhor espanhol possível e Laura lhe olhou absolutamente surpresa.

— Você conhece Celia Cruz?

— Eu fiquei num hostel que era uma casa cubana também, Celia e eu somos praticamente amigas, vem dançar, vem!

 

Ia, porque todo mundo estava dançando! Encontraram Karime e Thai suadas na pista, dançando juntas, dando aula de salsa para quem quisesse ver. Karime dançava demais!

 

Viva Colombia!

 

Vida longuíssima a Colômbia que tinha produzido aquela garota linda e cheia de energia, swing, DNA latino para dar e vender! E bem, salsa parecia também inesperadamente, parte dominante do DNA de Laura Bueno. O All Star branco nos pés começou a dançar de meia-ponta, de um lado a outro, puxando Ívi pela mão, para o centro, deslizando pelo ritmo, sorrindo, cheia de passos habilidosos, com classe, sensualidade e diversão, tudo isso junto. A energia surreal de Julia no palco, guiando uma coreografia improvisada que contagiava cada pessoa naquele lugar, fazendo todo mundo segui-la numa festa inacreditável e com agudos fora deste mundo! Que agudo tinha sido aquele que ela soltou? Foi a primeira vez que Ívi pensou que Julia Torre deveria estar na rádio, nos aplicativos de música, em algum tipo de palco todos os dias.

 

Julia piscou para Thai e puxou Karime para o palco, para dançar com ela, movimentos amplos, conectados, perfeitos e Julia fazia tudo aquilo sem parar de cantar. Um, dois, três movimentos de vai e volta, cruza, descruza, solta, pegada firme e sorrisos duplos, Julia a girou a soltando no meio do movimento e desceu do palco, dominando a letra, dominando o fôlego para pegar Thai pela mão e cruzá-la em um, dois movimentos, mãos que se soltam, dedos que se tocam, a soltou e pegou Ívi quase em um só movimento, um giro, outro e ela veio terminar com Laura, em movimentos bem mais elaborados, de quem dança junto uma vida inteira. Movimentos amplos, pernas que se cruzam, sorrisos que se acham, beijo na mão de Laura antes de fazer seu caminho de volta ao palco, seguindo sem intervalo para a próxima música, tão quente quanto, com gosto e todo o calor da cidade de Havana, tanto que o frio em Ívi já tinha partido em minutos. Julia era uma performancer, Ívi só queria ser um tantinho como ela, já estava de bom tamanho ter só metade daquela energia e daquela confiança intensa no palco.

 

Pegou Laura de volta, a ouvindo dizer que era por isso que Ívi não dormia no hostel, estava aprendendo a dançar salsa lá naquela casa cubana e era meia verdade, só meia. Começaram a dançar outra vez, mãos pegadas, a pele de uma agarrando pela pele da outra, os passos rápidos e se conectando mais rápido ainda! Ainda quando se perdiam, mal durava um segundo, logo corrigiam, logo se encontravam e o espaço na pista era dado a quem sabia bem o que estava fazendo.

 

Abriu-se um espaço para elas, para os tênis riscarem o chão ainda mais, para a amplitude dos movimentos, para o olho no olho e as surpresas pelas pernas estarem se entendendo tão bem! A conversa também não parava, dançavam, mas seguiam falando, seguiam rindo, se divertindo demais naquela noite e, se pegando em um momento e outro, aconteceu também, aconteceu outra vez em que foram parar num canto escuro, se dizendo coisas com as mãos, com o calor da pele, com a vontade apertando e Laura resistia cada vez menos, desistia cada vez mais, Ívi sabia que ela estava oscilando, mas ao mesmo, não sabia. Se devia forçar, se devia... Não sabia, apenas não sabia. Então deixava o momento ir, para qualquer lugar, qualquer outra música, qualquer outra coisa. Foram para o bar no meio de outro set, pegar água para refrescar e acabaram encontrando colegas de faculdade das garotas, algumas meninas, alguns rapazes e na hora que Ívi ia ser apresentada:

 

— É a namorada gringa? — Um dos rapazes perguntou sorrindo e Laura ficou… Respirou fundo, abriu um sorriso.

— Só o nome é gringo, esta é a Ívi, uma amiga minha, a Kelsey não pode estar neste tipo de festa agora.

— As Olimpíadas, é claro! Oi, Ívi, tudo bem? — Ele a cumprimentou cordialmente.

— Tudo bem sim — Estaria melhor se fosse a namorada nacional de sua espanhola, mas nem sempre pode ser ter tudo o que se quer, ok.

— A Julia vai fazer uma pausa, ela precisa de…

— Deixa que eu cuido dela. Ela cuidou de mim hoje.

 

Ívi escapou dos amigos da faculdade porque era a pessoa mais esquisita conhecendo pessoas que não queria conhecer e, foi levar água e bolo de pote para Julia no canto do palco. Ela tinha deixado música eletrônica rolando enquanto respirava um pouco depois do set poderoso de salsa.

 

— Bolo de pote? Que romantico tía! — Ela lhe abraçou rindo demais e Ívi a apertou rindo também, Julia não existia.

— Se você não fosse tão comprometida, a gente podia até ser casal.

— Eu que gosto de ser comprometida, é claro que sou eu. Eu vi você romantizando com a Laura lá fora!

 

Ívi mordeu um sorriso pensando consigo e tentando filtrar se havia sido um comentário ciumento. Parecia.

 

— A gente vai ter problemas com isso?

— Eu sempre vou ter ciúmes da Laura, Ívi — Ela abriu o bolo e começou a comer — Mas se eu sei o que você quer e você sabe o que eu quero, então não tem por que ser um problema...

 

Elas começaram a conversar sobre o assunto, Ívi sentia que tanto Laura como Julia tinham uma resistência natural a falar do que existia entre elas, mas com a proximidade se estreitando, ambas andavam mais abertas a falar sobre com Ívi e enquanto tinham esta conversa, enquanto Julia lhe explicava algumas coisas entre uma garfada e outra de bolo de pote, Thai apareceu.

 

— Qual o sabor?

 

Julia olhou para ela, limpou o garfo e abriu um sorriso.

 

— Descobre você.

 

Ela aceitou descobrir por ela mesma.

 

Thai agarrou Julia pela nuca e a beijou, muito forte, muito gostoso, empurrando Julia contra a parede, comendo a boca dela inteira, com a língua, com os dentes e Julia esticou o braço, entregando o bolo para Ívi, para descer as mãos pelos quadris de Thai, a puxando contra o seu corpo, a sentindo pulsando inteira enquanto a boca deslizou pelo pescoço, pelo queixo dela até lhe morder a boca num beijo outra vez, quente, nervoso, delicioso. Julia a pegou por baixo dos cabelos, enrolados e desgrenhados aquela noite, compridos até o meio das costas por onde a puxou para bem junto, olhando bem para ela.

 

— Menina...

— Eu quero tudo igual. Eu preciso de você para... — Falou baixinho em seu ouvido o que precisava fazendo Julia... Estremecer inteira — Quantas músicas? Cinco?

— Thai... — Olhou nos olhos dela.

— Eu não vou fazer cena, eu vou ser boa — Ela disse, toda agarrada no pescoço de Julia — Eu vou ser boa pra você. A Karime também...

 

Acabou que Julia deu a ela tudo o que ela queria e ainda por cima teria que voltar para o palco com um baita chupão no pescoço. Daí Thai a beijou novamente, deixou um beijinho no canto da boca de Ívi e as deixou sozinhas, como se nada tivesse acontecido.

 

— Julia, você é a vítima! — Ívi não estava acreditando.

— Você viu isso? Elas me mordem inteira, Ívi, depois elas me enlouquecem, me fazem sentir culpada, eu decido fazer o melhor para uma ou para outra, tento fazer tudo certo e de repente... — Respirou fundo, estava um calor danado agora.

— Thai parece tão boazinha, toda cremosa com essa cor linda de creme de avelã…

— As boas meninas são as piores, você sabe o que esperar de uma garota como a Karime, ela vai te pegar, te morder, te enlouquecer e te deixar, mas a Thai ou a Laura... Você nem notou que a Laura está te mordendo todinha também e se ela te arrastar pra cama você vai estar muito ferrada...

 

Ívi mordeu a boca olhando para ela.

 

— Como você tem essa informação?

 

Julia se retraiu.

 

— Que informação?

 

Ívi a colocou contra a parede igualzinho Thai tinha feito.

 

— Como você sabe, Julia? Como a Laura é na cama, como você sabe?

 

Julia lhe olhou nos olhos, percebendo que não tinha saída. Nem física, nem mental.

 

— Ela... Ela foi a minha primeira.

— Então foi concreto, vocês duas? Eu jurava que isso tudo era só coisa da sua cabeça...

 

Julia a empurrou rindo.

 

— Acha que eu fiquei deslumbrada por nada? Eu já tive a Laura, Ívi, ela já foi minha, mas agora…

— O quê?

— Ela só me evita.

— O que você fez pra ela?

— Por que tem que ser eu quem fez alguma coisa?

— Ela é toda perfeitinha, Juls, claro que foi você quem fez alguma coisa.

 

Julia soltou o ar, segurando os braços de Ívi que lhe cercavam.

 

— Vão achar que a gente tá se pegando… — Ela disse, fazendo Ívi morrer de rir.

 

Deu risada, beijou o pescoço dela só para acharem mesmo e ver se ela ia se arrepiar. Arrepiou, Julia não valia nada.

 

— Ívi!

— Se eu moro com você, tenho que te beijar, lembra? Eu não acredito que você ficou com a Laura…

— E eu não acredito que você achava que eu tinha me deslumbrado por nada! Cadê meu bolo? — Ela abriu um sorriso, respirando fundo — Eu preciso terminar meu bolo...

 

E Laura precisava de uma bebida. Uma taça só, apenas para... Resfriar suas ideias. Queria uma taça de champanhe, não tinha, se contentou com uma de vinho e Karime veio sentar do seu lado no exato momento que Julia tinha voltado para o palco.

 

— Tá passando muito tesão?

 

Laura abriu um sorriso, degustando seu vinho.

 

— Você não está?

— Estou, mas eu estou medicada, né, gata sob controle. Já você... — Tão delicada quanto podia, retirou a taça dos dedos de Laura, tomou um golinho e tirou do alcance dela.

— Karime, quando nós nos olhamos no trem aconteceu uma sensação instantânea, eu olhei para ela e um carinho enorme me encheu, imediatamente, como se fosse alguém que eu já conhecesse e agora... Eu não sei. Eu estou tendo um sentimento bem complexo, que eu não queria ter.

— Envolve a Kelsey? — Tinha pedido uma água ao garçom, passou para Laura.

— Envolve a mim mesma.

 

E foi quando Thai chegou em Karime sorrateiramente, sorrindo, falando em seu ouvido e Karime...

 

Mordeu a boca. A sua e a dela, porque se ela estava lhe dizendo aquelas coisas não tinha como reagir de outra maneira. Trocaram um beijo todo mordido e então, Thai tomou um golinho da taça de vinho, beijo na testa de Laura e ela desaparecendo sorrindo no meio das pessoas.

 

— Eu não tenho tanta certeza se ela não precisa mesmo ir ao seu médico, Karime...

 

Karime começou a rir.

 

— Sabe o que está acontecendo? Ela me usa para não ficar sozinha com a Julia. E não está ruim para mim, cariño, se é que você me entende.

— Ainda quer trocar de blusa, amoriño? — Ívi voltou para perto, Laura tinha reclamado do calor, a camisa de hóquei não era lá muito fresca — Eu peguei essa aqui pra você.

 

Laura olhou para Karime, ah, sim, estava sofrendo um pouquinho sim de vontade, coisa pouca.

 

— É sua? — Era a camisa cor de jeans, mas fininha.

— Eu não ia te fazer tirar a camisa da Kelsey para pôr uma da Julia, Laura, fora de cogitação... — Respondeu, a fazendo rir alto — Vem trocar pra gente dançar um pouco mais.

 

Laura se derreteu num sorriso. É claro que ia sim. Tomou o resto da sua água só de uma vez e foram para o banheiro, porém a fila estava enorme e elas não tinham tempo, afinal, na madrugada as horas são mais curtas, já sabemos. Não tinha problema, podia trocar ali mesmo, sob a proteção de Ívi. Laura tirou a camiseta virada para a parede e de costas para Ívi, os cabelos castanhos deslizando pela gola da blusa, as costas delicadas, cheia de sinais de beleza, ela parecia bonita em cada pequeno detalhe seu, Ívi não se cansava. Ardia. Ah, sim, seguia ardendo o tempo todo. A ajudou com a camisa, vendo novamente o movimento dos cabelos que cobriam e descobriam aquela nuca, Laura fechou alguns botões e amarrou a parte de baixo na cintura, a camisa era maior do que ela. Amarrou e permaneceu imóvel, de costas para Ívi por mais alguns segundos, bem pertinho e Ívi não tinha dúvidas do que era, era aquela vontade, aquela atração que…

 

Ela pôs as mãos para trás puxando Ívi para perto e Ívi grudou nela, lhe beijando os cabelos, respirando nela muito longamente.

 

— Sabe o que a Karime me disse? Ela nos olhou quando estávamos dormindo e disse que parecia que... Você estava me respirando. Ou respirando por mim, ela não soube definir.

 

Ívi abriu um sorriso, ainda cheirando os cabelos dela.

 

— Ela está certa, eu devia mesmo estar — Respondeu, a abraçando com carinho — Que bonito isso.

— Eu também achei. Você ainda quer dançar?

— De namorinho, eu quero dançar sim.

 

Porque no palco a cantora cubana de salsa num estalar de dedos tinha se convertido na catalã que cantava reggaeton lento, para dançar junto e foram vinte minutos extremamente divertidos e gostosos. Elas tinham o mesmo ritmo, os braços de Laura em seu pescoço, os olhos dela dentro dos seus, a conversa que nunca acabava, acertando e errando passos juntas, Ívi mostrando a ela um passo ou outro de forró enquanto Laura lhe mostrava bachata que também tanto gostava de dançar. O que mais ela gostava? De acordar cedo, de ir pra praia, de andar de bicicleta. Ívi andava de patins, Laura queria aprender, depois das Olimpíadas? Sim, só teriam vida depois das Olimpíadas, podia ser, podia ser sim. Podiam aprender inclusive: hóquei in line! E Ívi começou a rir, que coisa era hóquei in line? Ela lhe explicou que era hóquei, mas jogado de patins, aquela espanhola não existia e Ívi se sentia incapaz de dizer não para qualquer coisa que ela pedisse.

 

Lição da noite: era sim para tudo o que Laura pedia.

 

 Julia terminou seu show sob aplausos e gritos de “mais”, porém já era hora de ir embora.

 

A quentíssima hora de ir embora. Dois Ubers, Julia, Karime e Thai foram em um, numa ansiedade de mãos quase impossível de ser contida e, Laura e Ívi foram em outro, juntas, agarradas e em silêncio. Estava quente, estava gostoso, a vontade de não parar os movimentos era tão incendiária quanto aquela que impedia Julia, Thai e Karime de não ficarem juntas aquela noite. Laura ficou nos seus braços, subiu as unhas pelos seus braços em determinado momento, pegando a sua pele, sentindo, agarrando firme e Ívi nem sabia, nem de si, nem o que fazer e só piorou quando chegaram no apartamento. Julia estava esperando do lado de fora.

 

Juls?

 

Julia puxou Laura pela cintura, beijando o pescoço dela.

 

— Sobe, galega. Me deixa falar com a Ívi rapidinho?

 

Ela abriu um sorriso, deixava sim. Subiu sozinha e ficaram as duas lá embaixo.

 

— O que aconteceu?

— Você quer se divertir?

— Julia...

— Se você quer, tem que ter mais atitude, Ívi. A Laura chega perto de você e aparentemente você esquece de quem é! Você quer se divertir?

 

Que pergunta difícil. Ívi não fazia ideia do que queria, respondeu que não tinha ideia, podia sentir na hora? Podia, Julia aparentemente só queria testar os seus limites, até onde Ívi permitiria... Uma coisa ou outra. Subiram e outra festa acontecia no apartamento, mais reggaeton, duas pizzas congeladas no forno, as garotas conversando e ficando na sala e Ívi não tinha ideia do que pensar. Elas estavam juntas, se divertindo e os toques apareciam aqui e ali, os beijos de Karime e Thai ficando mais longos, as mãos sempre buscando Julia e, Julia, bem, Julia querendo Laura o tempo todo.

 

Ela queria Laura, claramente queria e a comunicação visual com Ívi lhe contava mais ou menos o que ela achava que podia acontecer. As pizzas ficaram prontas, comeram na mesa, o assunto de Laura e Julia continuou num canto da cozinha, uma conversa olho no olho, pele na pele, poucos centímetros as separavam e Ívi não tinha ideia se...

 

Na verdade, não tinha ideia e tinha. Tinha ideia sim.

 

Entrou na cozinha, pegou um copo de água e, pegou Laura pela mão. Pegou, puxou, a tirou do domínio de Julia.

 

— Schelotto... — E ela não tinha ficado muito feliz.

 

Laura lhe beijou a mão.

 

— Eu prometi que ia ler uma Penny Blood pra ela... — Disse sorrindo, quebrando a irritação de Julia.

— Sério?

— Ela não lê em inglês.

 

Julia acabou sorrindo olhando para elas duas.

 

— Vocês são tão esquisitas juntas. O que é estranhamente bom.

— Você acha mesmo?

— Eu acho — Julia beijou a mão de Laura longamente — Eu sinto demais a sua falta — Confessou, sem pensar muito.

— Não precisa sentir. Eu estou bem aqui o tempo inteiro.

 

Não do jeito que Julia queria, não do jeito que ela precisava. Laura lhe abraçou longamente, lhe dando boa noite, Ívi também e as duas partiram para o quarto enquanto por alguns minutos, Julia não pôde se mover.

 

A ponto de Karime notar.

 

Julia sentiu braços em volta de si de um corpo quente, apenas de lingerie.

 

— Você comprou os meus remédios... — Ela sussurrou sorrindo, lhe beijando o pescoço com carinho e fazendo Julia rir — Obrigada.

— Não tem que me agradecer — Julia beijou a mão dela com carinho — Yo te quiero mucho, quero você bem sempre.

— Eu também quero você bem sempre. Juls, me desculpa pela outra noite, o meu descontrole, sabe?

 

Julia beijou a mão dela abrindo um sorriso.

 

— O seu descontrole que fez a gente ter uma noite maravilhosa...?

— Eu nunca sei se não estou abusando de ninguém, mas não consigo controlar. Eu não quero abusar, menos ainda de meninas que eu amo como você e a Thai. Eu sinto muito, Julia.

 

Julia se virou de frente, enroscando os braços pelo pescoço dela.

 

— Menina, eu gosto tanto de você, tanto que você nem deve fazer ideia... — Contou, deitando a cabeça no peito de Karime, que beijou sua testa, lhe embalou delicadamente, a cheirando um pouquinho.

— Eu gosto de você demais, Juls. Quero você bem sempre.

— Você me faz bem.

— Tem certeza que faço?

— Sem você, eu já teria desistido.

 

Ela falava de Laura, Karime sabia que falava.

 

Me pega — Julia pediu e Karime sabia exatamente o que isso significava.

 

A beijou, deslizando as mãos pela cintura dela firmemente e então sorrindo, a sentiu subindo pelo seu corpo, Julia adorava se agarrar em seu pescoço, adorava pedir colo, adorava se sentir protegida e Karime achava que este era o seu ponto com ela no final das contas: ela aceitava toda a proteção que uma mente instável como a de Karime se esforçava para dar. A tirou do chão e a colocou sobre o balcão da cozinha, a beijando mais, a sentindo mais, Julia era uma delícia, era tão sinestésica que Karime nem sabia, os toques que arrepiavam, a boca que explorava cada pedacinho de pele, o beijo quente, gostoso, a pegada na nuca que sempre fazia Karime esquecer do próprio nome...

 

E esquecer completamente de não se colocar em posição de perigo.

 

Julia era um perigo. O beijo que sentiu em sua nuca era outro.

 

Thai levantou seu cabelo e mordiscou a sua nuca, a mão de Julia em sua garganta, a boca mordendo seu ombro e então mordendo o canto da boca de Thai, aquele beijo sempre tão quente entre aquelas duas e de repente, já estava acontecendo, era sempre assim, vinha uma vontade pequena, apenas de ficar junto, de ficar perto e de repente, tudo incendiava, a vontade crescia e...

 

A mão de Thai descendo pela sua lingerie, as mãos de Karime livrando Julia da camisa, Julia lhe beijando o pescoço, censurando seu sutiã, deslizando a boca para a boca de Thai e, Karime puxou Thai para o meio, a prendendo de costas para si, grudando os quadris dela contra a parte baixa de sua cintura, atacando o vestido, puxando o zíper para baixo, descobrindo aquele corpaço que deixava a decidida Julia sempre tão, mas tão perdida.

 

Sempre. Ela não se cansava de ficar de joelhos cada vez que Thai tirava a roupa e lhe pedia.

 

Ficou novamente, imediatamente, a vendo de lingerie, sentindo a boca dela mordendo o seu abdômen, mordiscando o botão de sua calça, durou alguns segundos de tesão e Julia desceu do balcão, se ajoelhando à frente dela, causando um choque em Thai, um estremecimento intenso, antes mesmo de ser tocada as mãos já buscaram apoio sobre o balcão, o coração disparado batendo tão forte na garganta e Karime...

 

O nome de Julia saiu todo mordido, porque se a boca dela estava em Thai, a fazendo trincar o abdômen de tesão e agarrar as mãos ao balcão, os dedos já tinham encontrado Karime e ali estavam todos os motivos pelos quais nenhuma delas conseguia abrir mão de nenhuma delas...

 

Julia pensou em Laura por um instante. E então deixou o pensamento partir quando Thai lhe pegou pela nuca e colocou os olhos dentro dos seus.

 

Os olhos de Thai dentro dos seus eram quase uma escravidão.

 

E era por isso que Julia sempre se deixava morder por elas. Que fosse mordida inteira, a pele, o corpo, os sentimentos, deixava que lhe mordessem, que todas essas mordidas curassem as mordidas ainda abertas de Laura, não havia problema nenhum.

 

Falando em Laura, ninguém lembrou de trazer a Penny Blood para o quarto, ninguém lembrou de muita coisa, aliás, ter lembrado do caminho para o quarto já foi muito para Ívi. Laura lhe puxou para dentro, pondo uma música diferente no celular, o jogando em cima da cama, agarrando Ívi pelo abdômen, pela mente, pelo tesão e Ívi a colocou contra a parede, sentindo seu corpo pulsando inteiro, em cada uma de suas células, as nervosas, as não-nervosas, cada uma delas.

 

— O que você quer, Laura?

— Vem pro banho...

— Laura...

— Só vem.

 

Ela lhe levou para o banheiro, desabotoando a camisa de Ívi que estava usando, enervando seus dedos pelos músculos dela, seus braços, as laterais do seu dorso, escorregando para dentro, pegando a mandala indígena sob seus seios, como se fosse irresistível, como se ela não controlasse. E Laura detestava não ter controle. Detestava. Ívi a pegou pela cintura e a colocou sobre o balcão da pia, sem deixá-la pensar direito, agarrando as coxas dela por um segundo, sentindo o cheiro do pescoço dela, a boca dela pelo seu ombro, o coração disparado e dividido demais. Se abraçou em Ívi, mudando toda a energia, ela já estava culpada e dividida, e Ívi também estava, dividida entre o que queria e o que Laura precisava.

 

Não seria a primeira vez que optaria pela segunda opção.

 

— Vem, vamos para o chuveiro, amoriño, vem.

 

Tomaram banho juntas, de lingerie sob o chuveiro quente enquanto ouviam música e ficavam simplesmente juntas. Ívi tinha certeza que se insistisse, e havia sido o que Julia lhe disse para fazer, para insistir, Laura acabaria cedendo, mas também tinha certeza que fazê-la ceder só a faria se sentir extremamente culpada depois. Então se acalmaram. Como na primeira noite. Apesar de Ívi não ter ideia de onde tinha tirado controle ao ver aquele corpo mignon assim, só de lingerie. Os músculos suaves, as tatuagens aqui e ali, contou duas ao menos, uma na costela, na curva das costas, a outra tão baixa que a calcinha escondia, as curvas perfeitas, os seios eram lindos, os quadris delicados, curvilíneos e era outra loucura pensar que havia uma festa no quarto ao lado na qual Ívi tinha ticket de entrada livre, mas que ela preferia ficar bem onde estava. Num banho de lingerie, regado a mais alguma boa conversa, com aquela menina linda que conhecia a lenda do fio vermelho atado a sua alma gêmea e que, acreditava nela. Na lenda. No fio que nunca se rompe. Que sempre encontra o seu caminho, não importa o tempo ou a circunstância. Sendo assim, por qual motivo, Ívi deveria ter pressa com ela?

 

Saíram do banho juntas, se trocaram de costas uma para a outra e a cama de Ívi tinha ficado lá fora.

 

— Elas vão te comer viva se você for lá fora — Laura lhe informou sorrindo.

— Como é que você sobrevive aqui?

— Eu sou muito boa em resistir. E fico confusa se tem mais de uma pessoa, eu acho que é necessário uma organização extrema para fazer o que elas fazem, Ívi... — Respondeu, arrancando o riso de Ívi.

— É necessário mesmo, você tem razão.

— Você já fez isso antes, não é?

— Eu estou bem mais calma agora — Respondeu, tentando improvisar uma cama no chão com o que tinha pelo quarto mesmo.

— Certeza que não quer dormir no outro quarto?

— Eu estou bem feliz de dormir nesse quarto aqui, galega.

— Então vem pra cama.

— É que eu achei que...

— Só vem pra cama.

 

Ívi a olhou bem nos olhos. Foi pra cama e delicadamente, esticou seu braço para ela.

 

— Não te deixo dormente? — Ela perguntou, já se agasalhando no seu peito.

— Não é exatamente o efeito não... — Respondeu fazendo graça e Laura rir.

— Eu sei do efeito. Eu... Falei pra Kelsey sobre você hoje.

— Você falou?

— Me incomoda muito mentir. Ou omitir. Eu disse que dormimos juntas duas vezes.

— E o que ela disse?

— Que não vê a hora de dormir comigo. A gente ainda não... Não, sabe?

— Ela não pode dormir fora da vila olímpica.

— Não pode.

— Você gosta mesmo dela, né?

— Eu gosto, ela é uma menina incrível. Começamos a namorar faz pouco tempo, mas construímos uma relação por mais de um ano antes disso e eu... Eu não sei, Ívi. Olha a noite que tivemos. Você é uma garota linda, eu comecei a gostar de você lá naquele metrô e eu não faço ideia. Eu quero que você saiba disso claramente e que me perdoe por ainda não saber de mim mesma direito ainda.

 

Ívi lhe beijou a testa.

 

— E eu só quero que você saiba que eu gosto mesmo de você. E que eu entendo.

 

E em virtude disso, Laura estava começando a acreditar que tinha nascido no mínimo com uns três fios diferentes atados ao seu coração.

 Da cozinha, acabaram no quarto de Karime, numa trilha de lingeries e ansiedade latente, os beijos se misturando, duplos, triplos, línguas que tocam, que buscam, que necessitam e de Thai, elas nunca sabiam de nada, ela tinha medo de ativar certas coisas, mas ao mesmo sua natureza sempre parecia gritar mais alto e as pegadas em Julia e Karime desnorteavam, as excitavam, as faziam acreditar que desta vez, ela faria mais, que iria além, o que nunca acontecia, porém para alguém viciada em jogos mentais como Julia, ser enganada por ela e não tê-la de joelhos à sua frente, acabava sendo tão orgásmico quanto. A empurraram para a cama e Karime a pegou assim, de costas para si, a provando, a sentindo enquanto para Thai buscar a boca de Julia era natural e irresistível, enquanto provar do corpo dela lhe fazia de refém, nunca se cansaria da pele de Julia na sua boca, nunca se cansaria dos orgasmos que Karime lhe arrancava em segundos e daqueles que ela alongava por minutos, apenas para lhe maltratar, apenas para gritar que a luta de Thai contra a sua própria sexualidade era perdida. Olho no olho de Julia, aqueles olhos quase vermelhos cortando o mel dos seus olhos, bebendo deles e quando Karime subiu sobre os próprios joelhos e trocou seus lábios por seus dedos, Thai sabia bem que se perderia de si.

 

Karime a prendeu de costas para si e seguiu a penetrando, a pegando firme enquanto Julia à sua frente lhe comia o pescoço, o tesão, a vontade, o mínimo espaço as separando, a mão na garganta de Thai enquanto alcançava Karime em seu toque com a outra, olho no olho novamente, Julia nos olhos de Karime e quando a mão dela lhe alcançou também...

 

Era de se agradecer todos os dias que Karime Echevarría fosse ambidestra.

 

Os gemidos encheram o quarto, movimentaram a madrugada, os quadris de Thai investindo contra os dedos de Karime, a sentindo vibrar por causa de Julia, fazendo Julia vibrar com o que fazia de melhor, a boca de Thai em seu pescoço, mordendo, marcando, as mãos por todos os lugares, os sentimentos também e quando o orgasmo as atingiu juntas, Thai sabia o quanto ainda estava ferrada.

 

Beijou Karime muito forte, comendo a boca dela inteira e:

 

— Eu quero assistir você.

 

Ela sempre queria. Julia jogou Thai na cama, tendo sua cintura imediatamente enroscada pelas coxas dela, a sentindo lhe puxar, arranhar, lhe agarrar enquanto Julia a provava, mordia, sentia, a pegando, a beijando, excitando, Karime deitou ao lado delas, nua em pele, olhando bem de perto, sentindo o calor, aquele cheiro que lhe excitava, porém, nada lhe excitava mais do que ver aquele olhar entre elas, o olhar que sempre acontecia quando Julia contava a Thai que iria descer para entre as coxas dela.

 

Julia beijou a testa dela, o nariz, a boca, deixou os lábios no pescoço de Thai e então suavemente, desceu por ela, abdômen, cintura, as costas sensualmente se movendo, o beijo suave, o braço passando por baixo das coxas de Thai e, ela era sua.

 

Julia a fez flutuar, estremecer, se perder, os músculos tensionando, retornando, comprimindo, tremendo e pedindo mais, querendo mais e não podendo com mais, as mãos dadas, um romantismo inesperado, a mão na nuca de Julia, os olhos dentro dos dela e Karime se tocando, sentindo, excitando, Thai sussurrando o quanto queria Julia, enlouquecendo por ela, as mãos se apertando, o tesão sufocando, tremulando e, Julia gozou primeiro, sentindo que Thai iria gozar, gozou com a voz dela, o cheiro dela e o mesmo aconteceu com Karime, gozou forte, vendo as mãos dadas, os olhos se encontrando, o orgasmo agarrando e Thai estremeceu, sentindo a pancada, sentindo o prazer, quente, intenso, epitelial. Como podia ficar sem ela? Era o que sempre se perguntava em momentos assim, como podia ficar sem ela?

 

Karime pegou no sono, afastada, de costas, ela não gostava de dormir agarrada em ninguém, só quando Thai pedia, carente e precisando dela, daí cedia. Ficava chateada por Julia escolher outras para dormir junto, mas no fundo sabia bem que este era um romantismo que não precisava. Thai pegou no sono do outro lado da cama, nua, exausta e Julia...

 

Julia não conseguiu. Decidiu ir para o banho, decidiu ouvir alguma coisa vinda do quarto de Laura, desejou entrar e olhar para ela como costumava fazer em segredo, mas não podia mais. Na verdade, temeu um pouquinho o que podia ver se olhasse, não sabia se estava pronta, não sabia se estaria pronta em algum momento que fosse. Sentia falta dela. Sentia que tinha fracassado. Mas ao mesmo tempo...

 

Foi para o banho, não demorou muito, escovou os dentes, pensou um pouco mais. Voltou para o quarto, vestiu uma lingerie limpa e olhou para Thai dormindo no canto da cama. Se abaixou pertinho dela, sentindo seu cheiro, tocando aqueles cabelos que tanto adorava. Respirou pertinho dela, na bochecha, na mandíbula, perto do ouvido o que a fez acordar sorrindo.

 

— Já amanheceu? — Ela perguntou, toda manhosa, sentindo Julia.

— Ainda não, você pode dormir. Eu só queria olhar pra você um pouquinho.

 

Thai abriu os olhos, a vendo tão perto de si.

 

— Deita aqui comigo, bebê — Ela pediu, lhe fazendo um carinho doce. Thai sempre ficava a coisa mais doce depois que faziam amor.

— Eu tenho que adiantar umas coisas antes de dormir, mas venho daqui a pouco. Eu queria um beijo.

 

Thai abriu um sorriso, porque Julia lhe pedindo um beijo sempre lhe fazia sorrir. A beijou, docemente, a puxando pela nuca, a sentindo perto um pouco mais. A abraçou em seguida, sentindo o cheiro dela assim, geladinha depois do banho.

 

— Me desculpa, Nutella. Pela garota de ontem.

— Não precisa se desculpar, Juls...

— É claro que preciso.

 

Thai a olhou, a beijou outra vez.

 

— Se você precisar, eu também vou precisar me explicar os motivos pelos quais você precisa se desculpar...

 

Julia abriu um sorriso. Era verdade. Então beijou a testa dela e foi se afastando devagar, em direção a porta do quarto.

 

— Julia? — Ela lhe chamou de volta.

— O que, meu bem?

 

Thai sentou-se na cama, os cabelos encaracolados caindo em cascatas perfeitas, cobrindo parte do lençol que em parte a cobria. Os olhos cor de mel grudando em Julia ainda que o quarto estivesse escuro. E então, com uma voz interna e quase inaudível, ela lhe pediu:

 

— Não faz mais, Juls. Outra menina. Por favor.

 

Julia voltou e a beijou longamente, a deitando novamente, buscando o peito e os braços dela porque ela estava quente e poucas coisas eram tão boas para si quanto os braços de Thai assim.

 

E era por isso que a temia tanto. Não por causa dos braços, apenas pelos pedidos que não conseguia negar.

 

 

Notas do Capítulo Extra:

 

Olá, moças!

 

Tudo bem nesta manhã de quarta-feira? Capítulo mordido para vocês! Estava fazendo uma reflexão sobre o pé no acelerador das minhas últimas protagonistas e acho que a maior espera para um capítulo quente foi em Havana e levou... 5 capítulos haha. Então 6 AM andou quebrando recordes, tanto de demora em primeiros beijos, como em demora para cenas mais quentes, mas aqui estamos, finalmente mordidas por três das nossas protagonistas, espero que tenham curtido o final da noite!

 

Capítulo longo, em que foi possível dar mais uma beliscadinha na história de Julia e Laura e nos aprofundar um pouco mais na conexão da Laura com a Ívi, tivemos nosso trisal numa noite das três e acho que alguns sentimentos ficaram aparentes no resumo da noite. Próximo capítulo "Víveme", previsto para o próximo domingo, seguindo as regras da meta: 25 comentários, leitoras diferentes e capítulo fresquinho na manhã do domingo para vocês ♥. Daremos uma boa olhada na manhã seguinte e, retorno de Kelsey, não que eu ache que vocês estejam com saudades, mas, enfim haha.

 

Abraços!

 

 

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