6 AM - Capítulo 10 - Víveme

7/7/2019

 

 

6 AM.

 

E o celular de Ívi despertou tentando tirá-la da cama a todo custo. Mas a cama estava tão boa, Laura toda cheirosa e quentinha em seus braços, estava uma manhã ainda fria e a última coisa que conseguia pensar era em querer levantar. Mas sabia que precisava.

 

— Ívi? Está na hora de acordar...

 

Ívi a respirou um pouco mais, a apertando em seus braços, cheirando os cabelos dela só um pouquinho mais.

 

— Eu já vou, prometo.

— Está bem, eu vou fazer o nosso café, tá? — Laura saiu dos seus braços, deixando um beijo em sua testa — Não demora.

 

Preferia ficar na cama com ela, mas não podia reclamar. Dormir com Laura agarradinha em si tinha sido a coisa mais gostosa. Ficou na cama mais alguns minutos e sabia mesmo que precisava levantar. Se pôs de pé e tinha certeza que se não tomasse um banho de imediato não conseguiria acordar de verdade. Então tomou banho, escovou os dentes, acordou sua mente, pronto, agora estava acordada. Colocou sua lingerie, vestiu um dos seus quimonos boho que tanto tinha apego, pegou algumas anotações suas do dia anterior. Ívi nunca se separava de seu caderno de notas e tinha começado a compor alguma coisa, mas ainda estava uma bagunça. Pegou suas anotações e também as anotações que fizeram na mesa, e quando saiu do quarto, lá estava, a coisa mais linda que aquela manhã luminosa podia lhe oferecer.

 

Laura fazendo o café de lingerie, com um moletom cinza e só, os cabelos soltos, desgrenhados, os pés descalços. Ok, podia se acostumar a acordar assim todos os dias, sem nenhum sacrifício, totalmente podia. Foi até a cozinha e a abraçou pela cintura, beijando o ombro dela com carinho porque era absolutamente irresistível.

 

— No que eu posso te ajudar, amoriño?

— Deixa que eu cuido disso, cuida do que faltou fazer ontem, eu sei que ainda há coisas a fazer.

— Certeza?

— Certeza, vai lá.

— Está bem. Você notou que a Julia está dormindo no sofá?

 

Laura olhou para a sala.

 

— Onde estão as meninas?

 

Ívi olhou para trás, a porta do quarto de Karime dava na cozinha. Ela estava dormindo na cama sozinha e Thai fazia o mesmo no quarto da frente.

 

— Laura, elas vão arrancar pedaços da Julia, sabia? É quase desumano o que elas fazem com ela! — Disse, fazendo Laura rir.

— Eu sei, mas nem sei de que lado ficar, é uma equação bem complicada de se resolver.

— Será que eu posso usar o teclado?

— Claro que pode. Vai lá, acorda a Julia da melhor maneira possível.

 

Foi para o teclado que ficava na sala, bem perto de onde Julia estava dormindo profundamente, só de lingerie e enrolada numa manta. Ívi deu uma olhada e era provável que ela não tivesse sido expulsa de cama nenhuma, na verdade, ela devia ter ido parar no sofá porque estava trabalhando. A luminária estava acesa e a playlist que deveriam tocar logo mais estava praticamente pronta sobre o peito dela. Ívi pegou a lista, desligou a luminária, viu que ela tinha rascunhado a palavra “Raiz” várias e várias vezes. Deu uma olhada na playlist, fez anotações de notas e tons, escreveu “guitarra” onde cabia guitarra, “launchpad” onde cabia tal instrumento, escreveu “não sei tocar” onde não sabia, mas eram apenas duas músicas do setlist. Colocou as anotações do que estava compondo sobre o teclado, dedilhou algumas notas no modo piano clássico tão habilidosa que Laura até olhou para trás. Ívi tocava tão bem quanto Julia. Tocava um pouco, anotava, tocava de novo, ainda estava faltando alguma coisa. E enquanto faltava alguma coisa, era sempre melhor tocar outra coisa que de repente, a peça faltando na coisa 1 aparecia. E se não, ao menos precisava tirar aquela canção da sua cabeça para abrir espaço para outra, devia ser o que não estava lhe deixando pensar.

 

No necesito más de nada ahora que... Me iluminó tu amor inmenso fuera y dentro... — Ívi começou a tocar e a cantar muito afinada, muito delicada, tão delicado e bonito que captou a atenção de Laura de imediato. Ela estava cantando em espanhol? Perfeitamente em espanhol e com aquela voz que… Mexia com Laura, intrinsecamente, não sabia explicar. Foi impossível continuar o que estava fazendo.

 

Largou tudo e foi pra sala, se aproximando devagar, não querendo perturbar aquele estado de espírito tão bonito em que ela estava. A voz delicada, a música tão doce, o sol entrando discretamente pela janela da sala iluminando todas as coisas.

 

Créeme esta vez, créeme porque, créeme y verás, no acabará, más...

 

A sala era onde Julia gravava seus vídeos para o Youtube, a câmera já ficava posicionada perfeitamente para enquadrá-la junto ao teclado, Laura apenas tocou em um botão e sabia que a câmera já começara a gravar.

 

Tengo un deseo escrito en alto, que vuela ya... Mi pensamiento no depende de mi cuerpo... — E esta frase cantou diretamente para Laura, ela tinha se abaixado logo ali, onde a câmera não podia pegá-la, mas os olhos de Ívi podia olhar de perto — Créeme esta vez, créeme porque, me haría daño ahora, ya lo sé...

 

Notas no piano, Ívi sabia que era uma excelente guitarrista, mas seu talento no piano sempre lhe auto surpreendia. Tanto quanto…

 

Hay… Gran espacio y tú y yo… — E Ívi abriu um sorriso enorme, porque Julia tinha acordado, da melhor maneira possível, bem como Laura tinha pedido, tinha acordado e estava cantando para si — Cielo abierto que ya, no se cierra a las dos... Pues sabemos lo que es necesidad... — Há um grande espaço e você e eu, céu aberto que já não se fecha para nós, porque já sabemos o que é necessidade...

 

Sorriso de Laura, sorriso de Ívi que correu direto para o refrão.

 

Víveme sin miedo ahora! Que sea una vida o sea una hora... No me dejes libre aqui, desnudo, mi nuevo espacio que ahora es tuyo, te ruego... — Vive-me sem medo agora, que seja uma vida ou uma hora, não me deixe livre aqui sozinha, meu novo espaço que agora é teu, te peço... Outro sorriso, porque ainda estava cantando para Laura, mas sentiu Julia sentando ao seu lado, tomando um lado das teclas, deixando o som mais poderoso ainda.

Víveme sin más vergüenza! — E o poder da voz de Julia sempre encheria qualquer espaço, os olhos dentro dos olhos de Laura também era algo real, os cabelos soltos, a lingerie branca, o contraste perfeito com a lingerie preta e o quimono florido de Ívi —Aunque esté todo el mundo contra, deja la apariencia y toma el sentido! Y siente lo que llevo dentro...! — Vive-me sem mais vergonha! Ainda que todo mundo seja contra, deixa a aparência e toma sentido e sinta o que eu tenho por dentro...

Y te transformas en un cuadro dentro de mí... — Ívi retomou da maneira mais doce possível — Que cubre mis paredes blancas y cansadas...

— Créeme esta vez... — Julia tocando ao seu lado, perfeita como se sempre houvessem tocado juntas.

— Créeme porque...

— Me haría daño una y otra vez... — Julia apertou os lábios olhando para Laura outra vez, ainda havia tanto amor ali que era quase palpável, podia-se sentir nos dedos.

Sí, entre mi realidad... — E Ívi abriu as notas, subindo um pouco mais — Hoy yo tengo algo más… — Se, na minha realidade, hoje eu tenho algo mais... Ívi estava dentro dos olhos de Laura, em nenhum outro lugar — Que jamás tuve ayer, necesitas vivirme un poco más...! — Que jamais tive ontem, você precisa me viver um pouco mais...

Víveme sin miedo ahora...! Que sea una vida o sea una hora — Mais linhas para Laura, mais notas para ela, diretas, muito bem entregues — No me dejes libre aqui, desnuda, mi nuevo espacio que ahora es tuyo, te ruego...! — Ívi abriu um sorriso, olhando para Julia, ela que pegasse a nota alta que tinha subido agora — Víveme sin más vergüenza! Aunque esté todo el mundo en contra, deja la apariencia y toma el sentido y siente lo que llevo dentro has abierto en mí...

 

Você abriu em mim... Ívi retomou, delicadamente.

 

La fantasia, me esperan días de una ilimitada dicha... — A fantasia, me esperam dias de uma ilimitada alegria... —  Es tu guión, la vida mía... Me enfocas, me diriges, pones las ideas... — É o teu roteiro, a minha vida, me foca, me dirige, me coloca as ideias... E era o ponto em que a música baixava, voltava para o doce tom inicial, Julia tirou os dedos do teclado, deixando Ívi tocando sozinha enquanto passou a cantar no ouvido dela, bem baixinho, para que ela ouvisse o tom perfeitamente.

Víveme sin miedo ahora, aunque esté todo el mundo en contra... — O tom bem baixinho, guiando o piano de Ívi — Deja la apariencia, toma el sentido y siente lo que llevo dentro...

 

Olhos de Ívi nos olhos de Julia, sorrisos, a última nota e o abraço trocado foi doce, verdadeiro e cheio dos melhores sentimentos. Ívi beijou a testa de Julia e quando as duas olharam com aqueles lindos sorrisos abertos para Laura, ah, sim, elas mereciam beijos logo pela manhã.

 

Laura beijou Ívi, beijou Julia.

 

— Quem tem dueto ao piano de Laura Pausini às seis e vinte da manhã, gente?

— Laura Bueno, é claro. Ívi e seus poderes esquisitos de não falar o idioma, mas saber as letras! Como você sabe essa letra?

— Laura Pausini é a cantora preferida do meu pai, foi assim que eu descobri o poder esquisito de decorar as letras e as pronúncias, eu queria agradá-lo. A câmera... Está gravando? — Os olhos de Ívi bateram na câmera.

— Está — Laura deu stop na gravação — Você começou a cantar lindamente, a Julia estava dormindo linda ali atrás, a câmera estava aqui, por que não? Vocês funcionam imensamente bem sem ensaios, já sabemos desta parte. Eu estou hiperventilando — Disse sorrindo — Lindo, vocês duas juntas... Acho que vocês não têm noção.

És muy guapa, se queda guapísima a mi lado... — Julia abraçou Ívi com carinho, que ainda estava dedilhando alguma coisa no teclado.

— Lembrando que você queria me deixar na rua... — Ívi respondeu brincando.

— Superado! Não deixo mais na rua coisa nenhuma — Beijou os cabelos dela sorrindo — Se a Laura por algum motivo te colocar pra fora, eu juro que vou lá te buscar...

— Eu tinha um pressentimento que isso ia acabar acontecendo, sabia? Torre-Schelotto é real! — Sorriso de Laura também — Vamos lá, mi vida“Mi vida” foi pra Julia. Foi a primeira vez que Ívi a ouviu chamando Julia um tanto mais carinhosa — Vai para o banho, eu vou terminar o café...

 

Julia a puxou de volta antes de Laura se afastar, beijando a mão dela com carinho.

 

— Você deveria se casar com nós duas, sabia?

— Íamos cantar para você todos os dias — Ívi completou, fazendo Laura sorrir luminosa outra vez.

— Eu também acho que deveria me casar com vocês duas — Beijou a mão de Julia de volta com carinho, cheirou os cabelos de Ívi na passagem, pensou um pouquinho, borbulhando sentimentos efervescentes por dentro. Mais dois beijinhos e voltou para a cozinha.

 

Julia pegou a câmera e começou a rodar a gravação. Tinha pouco mais de três minutos, mas eram três minutos que...

 

— Você tem problemas de aparecer de lingerie na internet?

— Por quê?

— Porque ficou lindo demais, olha! — Julia trouxe a câmera para Ívi assistir, tudo estava perfeito, a luz do sol entrando, Julia de lingerie, a tatuagem de Ívi tão bonita sobressaindo no quimono aberto, a acústica, a afinação das duas — Eu preciso subir hoje à noite no meu canal, sério, Ívi, muito sério!

 

Ívi sorriu.

 

— Dá para ver os chupões, tá... — Julia estava cheia de chupões no pescoço e no colo.

— Ninguém vai reparar neste detalhe — Ela respondeu sorrindo — Você achou o setlist que eu rascunhei?

— Achei, juntei com a outra que eu estava fazendo ontem, por incrível que pareça, nós sabemos um monte de músicas em comum.

— Isso aqui é uma música? — Pegou a caderneta aberta de Ívi de sobre o teclado — “Aturdida” — Ela leu e abriu um sorriso — Es una canción de amor!

— Não é nada — Ívi começou a rir.

— É pra Laura!

— Mas não é de amor, eu estou pensando em... — Pegou o launchpad na mochila e rapidamente mostrou o que estava pensando e era...

— É... — Primeiro era um som grave e então se soltava a batida — Funk?

Urban. Tem a pancada forte que é bem do funk, mas eu gosto desse outro som aqui...

— Trompete?

— Trompete da salsa, que hoje popularizou de novo no reggaeton. Mas então, faltam pedaços, está vendo?

— É porque chama “Aturdida”, você precisa de espanhol nessa letra também.

 

Ívi arrancou a folha da caderneta e entregou para ela.

 

— Sua parte. Julia, você está toda marcada, menina.

— Foram aquelas selvagens lá do quarto. Eu pensei sobre o nome do duo...

— Raiz?

— Foi a única coisa que me ocorreu. A única coisa que temos em comum é a música, que é...

— A nossa Raiz. Espera — Ívi olhou para o papel, pegou uma caneta, escreveu uma vez, duas vezes e na terceira “Haíz”.

 

Julia sorriu.

 

— Ainda é Raiz.

— Mas é tecnológico, a gente faz música eletrônica nesse duo, lembra? Música latina, mas também eletrônica.

Haíz, gostei! Temos um nome!

 

Tinham um nome! Julia correu empolgada para o banho e quando voltou, Thai e Karime já estavam acordadas rindo muito de uma inusitada novidade.

 

Adivinhe quem estava na primeira página do caderno de esportes do jornal?

 

“A Festa brasileiríssima de Kelsey Harris na arena de Deodoro”. A Festa de Ivete Sangalo que você colocou para ela comemorar o gol, Ívi, olha isso!

— Continua lendo, vai, está muito divertido, ela acabou de ser eleita a queridinha dos brasileiros! — Era Thai lendo a matéria na internet e Ívi não conseguia parar de rir, pois de fato, estava engraçado demais.

“A estrela da equipe britânica de hóquei mostrou que tem um pé no Brasil. Confessou que escuta música brasileira por influência...” — Julia começou a rir de desgosto, raiva e nervoso — É sério isso?

“Por influência da namorada brasileira!”, a Laura também está no jornal! — Era Karime, mais do que empolgada!

— A Laura...? — Ívi esticou os olhos para o celular de Karime, e sim, lá estava Laura, em duas fotos, uma de costas para a câmera ao lado de Kelsey, a foto mostrava o nome e o número nas costas dela e a outra era Laura torcendo na arquibancada. Ívi abriu um sorriso — Você tá linda demais, amoriño.

 

Ela abriu outro sorriso em troca, pegando a mão de Ívi, guardando entre as suas com carinho.

 

— Alguém deu as informações.

— Você é voluntária em Deodoro, todo mundo tem um monte de informações sobre o seu namoro.

— A melhor parte desta reportagem inteira é: Laura Bueno, a namorada brasileira! É a primeira vez que alguém se refere a mim como brasileira no meu país, estou emocionada, de verdade — Ela disse sorrindo, cheia de luz — Tudo bem, eu vou me trocar.

 

E voltou com o uniforme amarelo bem brasileiro dos voluntários das Olimpíadas. Saíram no horário, para realizar o longo caminho até Deodoro, de metrô e então de trem, e Julia estava extremamente sonolenta, a ponto de simplesmente pegar no sono assim que pisaram no trem.

 

— Ela tem trabalhado muito, me dá muita pena — Era Laura com Julia derrubada em seu colo. Derrubada mesmo, em sono profundo — Me dá pena e eu me sinto culpada, eu sou a mais velha, sou eu quem deveria cuidar dela.

 

— Ela gosta da intensidade, Laura, estávamos falando sobre isso ontem, eu entendo, pois eu também sou assim. Gosto de trabalhar duro, a ponto de apagar por falta de energia, gosto de me sentir em movimento, viva, lutando, acho que é parte do artista, a Julia é assim também. Ontem ela foi trabalhar comigo sem fazer ideia de que receberia por isso também, mas ela foi, por motivo nenhum. Ela estava sem dinheiro porque comprou os remédios da Karime e olha tudo o que aconteceu. Se ela não fosse tenaz, não teria acontecido nada disso, ela ser assim faz toda a diferença — Fez um carinho nos cabelos de Julia porque seria eternamente grata a ela por aquela atitude de ir consigo — Laura... Como foi o acidente? Ela me disse que não gosta de trens.

 

— Foi mais difícil para ela do que para mim. Foi muito rápido, Ívi, a coisa mais rápida que já aconteceu na minha vida. Ela me disse que já sabia quem eu era e eu também já sabia dela, ela era a cubana numa escola galega, eu era a brasileira numa escola galega, o que é bem engraçado porque agora que eu estou no Brasil, eu sou a galega numa escola brasileira, é como se eu fosse estrangeira em qualquer lugar que eu vá, enfim. Então, eu me lembro que foi um dia regular, normal, a não ser pela chuva forte que estava caindo quando eu acordei. Eu fui para a escola, a chuva continuava e no final da aula, ainda estava chovendo. Eu fui para a estação de trem e eu a vi. Sozinha, ela sempre gostou de ficar sozinha, a menina de Havana que não precisava de ninguém — Abriu um sorriso, Julia sempre havia sido assim — Nós entramos no trem. Tudo estava normal. Foi normal por uns cinco minutos. E um segundo depois não estava mais. Eu acordei com a cabeça sangrando, eu tinha sido jogada contra o teto. Não fazia nenhum sentido pra mim, mas tinha sangue meu no teto, era meu, eu sabia. Mas como eu tinha batido no teto? Eu acho que fiquei uns trinta segundos pensando nisso, até alguém pisar em mim. Aí eu me dei conta que tinha acontecido um acidente e que na verdade, eu estava deitada no teto.

 

— O vagão...?

— Tinha saído do trilho e capotado. Eu consegui levantar e a primeira coisa que eu vi, foram as pessoas desesperadas, porque tinha fogo em algum lugar, havia uma luz laranja, um calor, mas não dava para saber de onde estava vindo. E então, eu vi a Julia — Ela falou, acariciando os cabelos de Julia que dormia em seu colo — Com a perna quebrada. E as pessoas passando em cima dela como se ela sequer existisse. Foi assim que ela quebrou a perna, alguém pisou na perna dela, não foi no acidente. Tinha umas cem pessoas ali, mais da metade delas machucadas. Mas eu só vi a Julia, como se...

 

O seu fio estivesse te levando para ela.

— Isso — Ela sorriu — Ninguém mais ia machucá-la, ninguém. Eu só ia sair de lá se conseguisse levá-la comigo, eu decidi no mesmo instante, como se não houvesse outra opção.

— E como você conseguiu?

— Eu não sei como. Primeiro não deu para se mover, então eu embarreirei o corpo dela com o meu, não deixando ninguém mais encostar nela, tinham pessoas empilhadas envolta da gente, mortas ou desmaiadas, e eu me lembro da sensação de que eu e nem a Juls iríamos nos juntar a elas. O teto era boleado, então não dava para andar direito, as pessoas escorregavam o tempo todo, desesperadas em efeito manada e começou a ficar muito quente, o fogo estava chegando e a gente precisava sair. Eu carreguei a Julia para fora.

— Sério?

— Um pico de adrenalina. Eu não sei até hoje como consegui. Eu apaguei do lado de fora, num campo alagado e cheio de desespero. Lembro de pensar na eletricidade, que não deveríamos estar perto dos trilhos e na água, porque seguia chovendo, mas eu apaguei, levei dez pontos na cabeça, tive traumatismo craniano moderado, não foi uma pancada simples. Eu apaguei e acordei no colo da Julia, ela estava com a perna quebrada, mas não me deixou ficar longe. Eu não sei quanto tempo levou até alguém aparecer, alguém que pudesse ajudar, mas daquele momento em diante, nunca mais nos perderíamos e eu sabia disso, sentia que seria assim de alguma forma. Então os nossos pais se conheceram no hospital e aqui estamos, tanto tempo depois.

 

Ívi estava olhando para ela.

 

— Teve emoção assim quando você conheceu a Kelsey?

 

Laura abriu um sorriso.

 

— Não teve grandes emoções assim não. Na verdade, até teve uma emoção básica, alguém trincou o meu taco de hóquei enquanto eu me trocava no vestiário e me disseram que tinha sido uma gringa, de olho azul, cabelo castanho e piercing no nariz. Eu fui atrás dessa garota porque não ia deixar as coisas assim, um taco é caro pra caramba.

— Era a Kelsey.

— Então, a questão toda é que nem foi a Kelsey, mas foi ela quem passou na minha frente primeiro com tais características e eu parti pra cima dela. Eu estava nervosa, disse um monte de coisas e ela me pediu calma, que a gente já ia resolver. Ela me levou no vestiário das britânicas e meu deu um taco novo, muito melhor que o meu que tinha estragado.

— Mas não tinha sido ela?

— Não, tinha sido outra garota que trincou sem querer, mas ela só me contou, sei lá, no terceiro encontro. Ela me chamou para sair depois do campeonato, a gente saiu e ficou, o campeonato durou mais quatro dias, as holandesas passaram em cima de todo mundo, a gente saiu novamente e eu fiquei cheia de dúvidas, se a gente deveria ou não... Sabe? — Ela estava falando de ir pra cama — Ela ia embora, eu não gostaria de me apaixonar por alguém que mora tão longe. Então eu decidi que era melhor não, ela entendeu, mas disse que paixão geralmente já é paixão em dois minutos. Então nós ficamos um tempo sem conversar, eu sei que ela ficou chateada, mas reapareceu depois. A gente começou a se falar todos os dias, fomos construindo uma conexão e... — Abriu um sorriso, Ívi estava lhe olhando diferente — O que foi?

— O que você vai contar quando te perguntarem como a gente se conheceu?

 

Laura respirou fundo sorrindo.

 

— Que eu vi uma menina linda no metrô. E ela começou a chorar e eu fiquei tão desesperada que levei ela pra casa comigo.

 

Ívi pegou a mão dela e beijou.

 

— O meu coração parou quando você disse que estava me olhando, sabia? Eu te notei assim que você entrou e então você desaparece e reaparece bem na minha frente, eu fiquei muito perdida.

— Eu vi que ficou, eu também fiquei, meu coração veio na garganta. Ívi, eu sei que alguma coisa diferente aconteceu, eu não quero que você ache que eu não sei. É que a situação é muito atípica pra mim, de verdade.

— Eu sei que é. E não estou te cobrando nada.

— É que eu fiquei refletindo sobre a noite que a gente teve e eu não sei se não estou sendo só egoísta.

— Laura, não tem como você ser egoísta. Deixa os meus sentimentos comigo, eu tomo conta deles, você não tem culpa de nada, eu também não tenho, a Julia tem menos. Eu estava pensando nela agora que você contou do acidente, que coisa maravilhosa deve ter sido ir morar com a paixão de infância, com o primeiro amor e depois não poder fazer nada porque vocês tecnicamente tinham se tornado irmãs.

 

Laura lhe olhou no olho.

 

— Você acha mesmo que isso parou a Julia? Esse detalhe foi problema todo meu, Ívi, ela nunca nem pensou nisso.

— Então vocês…?

 

Ela não disse mais nada. Era um assunto que a deixava extremamente desconfortável e Ívi não tinha nenhum interesse em deixá-la desconfortável de maneira nenhuma. Já bastava o que Julia havia dito, Laura tinha sido sua primeira garota e com toda certeza, não teria sido sem um namoro antes, não precisava ouvir claramente para saber. Mudou de assunto, deixando tudo mais leve, elas sempre tinham assunto e assim que chegaram em Deodoro, Julia acordou. Tinham meia hora ainda, decidiram parar para tomar um outro café para ver se ela despertava de vez. E enquanto tomavam café num boteco, Laura recebeu uma ligação. Era Kelsey, os olhos dela brilharam assim que ouviu a voz dela, porém... Foi distinto. Laura sorriu, mas sorriu preocupada, deu para ver que ela estava preocupada ou... Ah, sim, tinha um “ou”, ela estava preocupada ou dividida. Ou os dois. Ela desligou e ficou esquisita, sem dizer nada por um tempinho.

 

— O que foi, Laura? — Julia perguntou.

— Ela... Ela vem me buscar. 

— Como assim vem te buscar? Você não tem que trabalhar hoje? 

— Tenho, mas vou tentar trocar de turno… — Ela digitou algumas mensagens, tinha tirado turno para uma amiga esses dias e ela morava em Marechal Hermes, podia chegar rapidinho — Uma amiga vai trocar comigo, posso ir só mais tarde...

— Laura, você está sendo irresponsável — Julia estava extremamente chateada. 

— Eu troquei o plantão, não vou faltar, fora que eu vou estar na Vila Olímpica… 

— Vila Olímpica? Como você…?

Houve uma tensão enorme. Principalmente porque Laura agora parecia dividida numa terceira parte, o que devia ou não para Julia. 

— Julia, no es un problema, vale? Dejame ver mi novia, ok?

 

Julia levantou-se da mesa no mesmo instante e, Ívi não deixou. A segurou pelo punho e a puxou de volta, já tinha entendido tudo o que estava acontecendo, inclusive, as três partes em que Laura estava dividida. Tinham nome as partes, chamavam-se namorada, ex-namorada e futura namorada. Ívi estava irritada, mas foi naquele exato momento que decidiu de verdade, quase em juramento, que Laura seria sua futura. E que não demoraria.

 

— A gente tem que terminar o setlist. 

— Ívi…! 

 

Apenas a olhou. Ela sentou de volta. 

 

— O que ainda falta? 

 

Voltaram as atenções para o setlist e Laura nunca tinha visto até então a atenção de Ívi tão focada de fato. Ela não lhe olhou mais. Até o momento em que a van das atletas da Grã-Bretanha parou em frente ao boteco e Kelsey desceu para buscá-la. 

 

— Foi a carona que eu consegui — Ela lhe beijou a mão sorrindo e então cumprimentou Ívi e Julia, abraçando as duas, agradecendo o que tinham feito por ela, a música no final das contas tinha causado um efeito muito especial. Ívi sorriu, mais simpática que conseguia, Julia nem fez questão, só disse que ela deveria agradecer a Ívi. 

 

Não houve mais assunto, Laura apenas beijou as duas e entrou naquela van cheia de atletas olímpicas. E Julia ficou… 

 

Desolada. 

 

— Julia, ei, não fica assim. 

— Ívi, se essa menina tirar a Laura daqui a culpa vai ser sua, sabia? 

— Do que você está falando? 

— Que Londres é do lado de Madrid, do lado! O que você acha que vai acontecer se esse namoro prosseguir? A Laura vai voltar pra Europa e a culpa vai ser sua!

— Julia, para, está bem? Eu não tenho nada com a Laura, não tenho como exigir nada, eu não posso, entendeu? 

— Ela só quer sair do fogo com essa menina! Quer escapar do que a gente tinha, fez a mesma coisa com a Natalia... Ela já te disse que namorou a Natalia por insuportáveis seis meses, só para me manter longe? Eu não tenho mais chances com ela, eu estraguei tudo, mas você está aqui, e ela disse que acontece um incêndio cada vez que vocês se tocam! Você pode queimar a tal estabilidade que essa Kelsey representa, mas não quer, não insiste, nem tenta! 

— Julia, olha pra mim! — Segurou o rosto dela e buscou seus olhos — Se ela estivesse comigo, você estaria me infernizando igual, entendeu? O problema não é quem, é que você ainda não sabe o que fazer com o que sente por ela.

 

Ela teve uma crise de choro quase desesperadora. Se abraçou em Ívi e chorou de soluçar, como se algo extremamente grave tivesse acontecido e Ívi não sabia o que fazer. Comprou uma água, a colocou sentada e daí a fez levantar, estava na hora, iriam se atrasar. Disse para ela chorar enquanto andavam, mas quando chegassem na porta da arena, ela tinha que parar. Ela concordou, tudo bem, chorou o caminho inteiro e parou pouco antes de entrarem no parque olímpico. Caminharam para cápsula onde se apresentavam e a descobriram… 

 

— Aberta? 

— Eu quero que as pessoas possam ver vocês duas. Haíz, não é? Adorei! Adorei! Boa sorte hoje — Natalia beijou as duas e as deixou sozinhas.

 

Ívi olhou para Julia. 

 

— Julia? 

— Eu nunca vou me curar dela. Mas algo com essa Kelsey me dói mais que as outras, a Natalia doeu, mas foi bem menos. 

— Ela já teve muitas namoradas depois de você? 

— Poucas, nunca dura. Acaba antes mesmo de se tornarem namoradas. Eu acho que o problema agora é que… 

— Ela gosta da Kelsey. 

— Eu não quero ficar sem a Laura, Ívi. 

— Escuta, você nunca vai ficar sem ela, ela nunca vai deixar você, entendeu? O namoro pode ter acabado, mas é muito menor do que o que vocês partilham agora. Então fica calma com tudo isso. 

— Você está calma? 

 

Ívi respirou fundo. Sentou-se em sua cadeira, pensou, pensou e pensou.

 

Pro inferno, não estava calma coisa nenhuma, mas sua raiva naquele momento era algo que precisava resolver. Laura seria sua, ponto. Não precisava correr, não precisava perder antes de ganhar qualquer coisa, ela seria sua e se jurou internamente, que em algum tempo pensaria naquele dia e riria dele; tal como jurou a si mesma que um dia riria do empresário que a enganou no Rio.

Ívi costumava manter suas promessas. Pensou nisso e sentiu o fio vermelho preso em seu dedo lhe apertar o coração.

 

Notas do Capítulo Extra:

 

Olá, meninas!

 

Como estamos neste domingo cedinho, dia de final de copa do mundo, hein?

 

Meu amor pelo time norte-americano é imenso, mas confesso que meu coração foi roubado por uma tal de Lieke Martens e hoje sou toda torcida holandesa, apesar das chances serem mínimas, quem sabe, não é? Hahaha.

 

Vamos lá! Capítulo pós-noite quente começando da maneira mais doce possível, com dueto de Ívi e Julia para apertar um determinado fio e estreitar um outro um pouco mais, descobrimos mais de Julia e Laura e, como o prometido, Kelsey de volta no finalzinho, chegando para roubar Laura de cena deixando duas meninas sentidas de maneiras diferentes para trás. Próximo capítulo, “Kelsey”, a ser postado na próxima quarta-feira caso a meta de comentários seja atingida até o dia anterior, já sabem! Posso adiantar que teremos pela frente um capítulo sobre uma namorada que espera, outra que não sabe o que fazer com o que sente e um terceiro coração apertado demais que precisa respirar 😉.

 

Beijos! Bom domingo!

 

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