6 AM - Capítulo 12 - Gata de Rua

13/7/2019

 

 

 

Aquele despertador não tinha coração.

 

Despertou novamente, informando que já eram seis da manhã e que precisavam levantar para o dia mais longo até então naquela arena. Seriam seis jogos, Laura estava de folga, porém seria o segundo jogo de Kelsey, é claro que ela estaria lá e Ívi estava animada para receber um cachê um pouquinho maior. Agora já estava mais consciente de tudo o que estava acontecendo, da sorte que havia tido, das coisas se encaixando devagar e de tudo o que repentinamente tinha ganhado. O teto, a chance, as pessoas que entraram em sua vida. Abriu os olhos, parando o despertador e o rosto de Laura estava muito junto ao seu. Ela estava acordando também e aqueles olhos logo pela manhã...

 

— Esse teu olho ainda vai fazer o meu coração parar, sabia?

 

Laura abriu um sorriso, tocando a nuca dela por baixo dos cabelos carinhosamente, juntando sua testa na de Ívi. E então se deu conta de uma coisa:

 

— Ívi, o que você está fazendo aqui?

 

Ívi abriu um sorriso também.

 

— Eu estava dormindo aqui embaixo e você me puxou no meio da noite.

 

Laura sentou na cama, mexendo nos cabelos desgrenhados, muito confusa.

 

— Eu... Puxei?

— Aham, eu estava dormindo e você me puxou, insistindo muito para que eu viesse pra cama, deve ter sido o seu sonambulismo...

 

E Laura já estava rindo demais.

 

— Eu nunca tive um episódio assim!

— Deve estar piorando, amoriño...

— Ívi...

— Eu sei, eu sei, mas é que estava frio, eu ia acordar antes, você nem ia saber... — Ela lhe disse, se agarrando um pouquinho em Laura, lhe beijando o braço, encontrando lugar em seu colo, bem pertinho do seu pescoço, fazendo Laura...

 

Sorrir. O que mais podia fazer além de sorrir?

 

— Você parece um filhotinho pedindo colo, sabia?

 

Ívi colocou seus olhos puxados nos dela.

 

— Deve ter sido por isso que você me achou na rua e me trouxe pra casa... — Respondeu sorrindo, ainda toda apegada.

 

Laura sorriu e beijou a testa dela, escorregando os dedos delicadamente por aqueles cabelos meio indígenas e meio italianos que já tanto adorava. Como era bom estar com ela. Nem conseguia mensurar o quanto.

 

— A gata abandonada. Eu esperei você voltar ontem.

— Eu também — Respondeu, perdendo um pouco do sorriso. Laura lhe fez outro carinho.

— Na arena?

— É que você disse que ia voltar…

— Eu sei. Mas acabou levando mais tempo e... Eu vim direto pra casa.

 

Silêncio.

 

— Você está feliz?

— Está tudo bem, Ívi...

— Não foi isso que eu perguntei.

 

Laura apertou os lábios, olhando para ela.

 

— Eu estou feliz sim.

— Então é o que importa. Eu só quero você feliz.

 

Outro silêncio. Os dedos dela correndo pelos cabelos de Ívi e então, Laura curvando-se para deixar um beijo perto do seu ouvido.

 

— Eu também quero você feliz. E algo que me faz extremamente bem é ficar junto com você, eu adoro o tempo que a gente tem, é pouco, está corrido, eu sei, mas eu adoro cada segundo.

 

Ívi abriu um sorriso beijando o punho dela com carinho.

 

— Eu sei, é a melhor parte do meu dia. Laura, você vai me expulsar do quarto?

 

Ela riu, deslizando a mão até a sua nuca, bem gostoso, Ívi nem sabia.

 

— Por que eu faria?

Karime.

— Vocês ficaram? — Perguntou sem parar os carinhos.

— Ficamos ontem.

— Ficaram de beijos, ficaram de cama…?

— De beijos, ela é muito legal.

— Ela é, eu sei, ela é uma menina linda — Laura ficou quieta por um tempinho, processando tudo aquilo — Foi tudo bem?

— Se você não me chutar pra fora do quarto, foi sim, foi tudo bem…

 

Laura abriu outro sorriso.

 

— Você ainda quis dormir aqui, não quis? Mesmo depois... Mesmo depois.

 

Ívi virou-se em seu colo e olhou para ela.

 

— Estamos nos tornando um tipo de casal muito moderno, Laura Bueno... — Disse, a fazendo rir, tirando o peso que tinha se estabelecido nela ao dizer aquela última frase.

— Eu acho que estamos — Outro carinho nos cabelos dela, outro olhar naqueles olhos — Eu tenho que conversar com a Julia...

— Sobre a cena de ontem, a Kelsey deve ter estranhado.

— Não estranhou, ela já sabe como a Julia é, ela só ficou triste, enfim. Eu só não sei se...

— Chama ela aqui.

— Aqui?

— Agora. Chama ela, eu apoio você.

 

Esta era Ívi. Era por isso que Laura nem sabia. Pegou o celular e ligou para Julia, ouviram o celular tocando e uma voz sonolenta atendendo.

 

— Vem aqui no quarto?

— A gente vai ficar? — Ela perguntou, fazendo graça.

— Vamos ficar nós três, vem aqui.

 

Ela veio em segundos. Entrou, beijou Laura na testa, Ívi da mesma forma, se jogou na cama entre elas.

 

— A gente pode fazer daqui a cinco minutos? É que eu estou com sono ainda… — Disse, as fazendo rir.

— Cinco minutos, sem problemas — Laura a beijou na nuca com carinho, porque o amor de Laura por Julia era inegável, não podia ser escondido, sempre transbordava, o que explicava e não explicava todo o medo que Julia tinha de perdê-la — Julia, temos que falar sobre ontem...

— Eu vim fazer ménage e você vem me falar da Kelsey, Laura, sinceramente…

— Escuta, Julia, é sério. A Kelsey vai ser campeã olímpica, ela está focada e eu tenho certeza que é isso que vai acontecer, e de jeito nenhum eu vou atrapalhar a concentração dela, por qualquer motivo que seja.

— Isso me toca em qual parte...?

— Na parte de fazer cenas com ela presente. Acha que ela não notou nada ontem? Acha que ela ficou bem?

— Eu não me importo se ela está bem ou não, Laura, eu não acredito que você ainda não notou esta parte...

— Julia, ela nunca fez nada pra você, nada, nenhuma coisa, muito pelo contrário. Juls, por favor, ela é importante pra mim. Eu não quero ser responsável por nenhum segundo de desfoque da Kelsey no campeonato mais importante da vida dela, você entende isso?

— Ela entende, mas faz birra de qualquer forma — Ívi interferiu, com a dureza necessária para lidar com Julia no que tocava Laura — Não vai mais fazer.

— Ívi, você tem essa irritante mania de responder por mim…

— Não vai fazer mais, ponto. Você acha que eu também não quero fazer uma cena? — Perguntou, mudando de tom inesperadamente e fazendo as duas rirem — O drama é parte do nosso DNA, nós somos latino-americanas, Julia, é claro que eu também quero fazer uma cena, isso não é exclusividade sua!

Por Díos… — Laura deitou para trás rindo demais, bastava uma fazendo cena.

— Toda vez que eu olho pra Kelsey eu quero fazer uma cena, Juls, cena clássica, com discussão, gritaria, briga física — Disse gesticulando, fazendo a irritação de Julia se quebrar em longas risadas — Eu quero fazer toda essa cena, mas eu faço? Eu não faço, eu deixo a Laura ir dormir com a gringa usando a minha camisa... — Ívi estava sorrindo também, só queria amenizar a fúria de Julia e estava funcionando.

— Eu tirei, não foi assim...

— Eu tenho certeza que tirou, Laura, motivos para mais uma cena, mas ok, vamos deixar para lá — E fez um carinho em Julia, ela estava sorrindo, mas sabia que brincadeiras à parte, ela sofria de verdade — Julia, se a gente for perder a briga, temos que perder com dignidade, está bem? A gente perde, mas seguimos dignas, não vamos nos sujeitar a fazer cenas, entendeu?

— Nós somos duas, ela é apenas uma, não é possível que a gente perca, Ívi…

 

Mais sorrisos, o ambiente tinha ficado leve, por causa de Ívi, é claro. Laura pegou a mão dela.

 

— Vamos, nada de cenas, nada de brigas, só vamos ficar bem, ok? Aquela menina treina desde quando tinha sete anos, eu só não quero interferir de forma negativa, não é direito meu. Entende, Juls? É o mesmo que eu sinto sobre interferir na sua carreira, eu sempre protegi sua carreira, não protegi?

 

Protegeu, Julia não podia negar.

 

— Então promete? Que não vai fazer outra cena parecida como a de ontem? Ela me perguntou um monte de coisas por conta de você ter agido esquisito, ela fica mal com isso porque ela gosta de você, você sabe, ela sempre deixou claro.

— Eu sei que ela gosta de mim, eu também gosto dela, é que… — Julia respirou fundo — Tudo bem — Foi uma promessa.

 

Laura a beijou no rosto, muito carinhosamente.

 

— Obrigada, de verdade. Eu sei que você não faz por mal, eu só não quero que isso atinja a Kelsey, está bem? É o momento mais importante da carreira dela, Juls.

 

Estava bem, Julia permaneceu quieta, mas pareceu ter entendido. E Ívi... Ívi era perfeita. Estava no olho dela, no jeito que interferiu para quebrar o gelo com a conversa com Julia, no jeito que estava lhe olhando agora. Laura não precisava dizer nada a ela, sabia que Ívi já tinha entendido tudo sem a necessidade de uma verbalização, ela só entendia e o coração de Laura enchia de gratidão por tê-la. Ainda que não a tivesse de fato, não a impedia de se sentir assim.

 

— Tudo bem, por que vocês não vão para o banho enquanto eu faço o nosso café?

— Não, amoriño, você vai para o banho, eu faço o café hoje — Ívi lhe fez um carinho nos cabelos — Você fez ontem, vai para o seu banho tranquila, vai, eu vou fazer o cappuccino que você gosta — Olho no olho, um sorriso e Ívi se afastou suavemente — Julia, vem, eu tive uma ideia para hoje…

 

Ívi arrastou Julia para a cozinha consigo e Laura ficou…

 

Perdida, com o cheiro das duas agora espalhado pela sua cama. Tomou seu banho, com tranquilidade como Ívi pediu e pensando nela num efeito em loop infinito. O chuveiro lhe lembrava Ívi, já tinham uma história com banhos e autocontrole. Tinha tanto medo de perder o controle com ela, mas estar com Ívi e frear lhe demonstrava o contrário. Na verdade, andavam tendo muito controle entre si. A chamava de mí amor porque ela era mesmo um amor. Só faltava ser sua, mas isso era assunto para discutir consigo mais tarde. Depois dos jogos de Kelsey. Depois das Olimpíadas. Depois de Kelsey?

 

Isso também precisava deixar para pensar depois.

 

Saiu do banho, se vestiu, outra camiseta de Kelsey, a vermelha desta vez, pegou o que precisava estudar, tinha tirado uma licença de duas semanas da faculdade por causa das Olimpíadas e já tinha perdido o controle de metade. Perdeu uma prova importante, estava se enrolando com os trabalhos e seu estado mental entre Kelsey e Ívi não estava ajudando também. Estava se sentindo uma bagunça e isso também não ajudava, a primeira bagunça em que havia envolvido a sua vida foi o seu relacionamento com Julia e até hoje, as coisas ainda não estavam no lugar. Deixou tudo prontinho e quando chegou na cozinha, tinha uma festa acontecendo.

 

— 400 mil visualizações, de meia-noite para cá, olha isso! — Era Thai com o celular, olhando o vídeo que Julia tinha postado, o cover de Víveme com Ívi.

— E o mais engraçado, não, essa é a melhor parte… — Karime não conseguia parar de rir.

— Qual a melhor parte? Cadê? — Era Laura.

— Olha os comentários… — Karime rolou pelos comentários e:

— Estão shippando a gente? — Julia ainda não estava entendendo.

— Muito claramente! — Era Ívi, morrendo de rir desde quando tinha percebido tal coisa.

— Mas como…? É a Ívi! Estávamos cantando pra Laura…

— Eu sei, mas a Laura está fora do quadro e olha aqui, esta parte aqui, olha o jeito que você está olhando pra Ívi, cantando no ouvido dela… — Thai selecionou a parte do vídeo e colocou para rodar de novo e Ívi não estava conseguindo se controlar com as reações.

— Você parece muito a fim de mim, Julia, olha isso, está louca por mim…

 

Julia a empurrou, rindo demais.

 

— É claro que não!

Juls, se eu tivesse vendo este vídeo e não soubesse que você é você, eu estaria tendo a mais absoluta certeza, esta menina está louca por mim, 100% de certeza!

— Estão achando que a Ívi é a responsável pelas marcas no seu pescoço! Essa menina aqui fez toda uma história na cabeça dela — Thai estava falando de um determinado comentário — Olha só, para ela vocês dormiram juntas, acordaram românticas, se cantando uma música de amor...

— As pessoas são tão criativas, gente...

— Elas são e é por essas e outras que se diz por aí que, a fanfic se escreve sozinha! — Thai continuou, muito empolgada.

— Oi?

— Se escreve mesmo e ninguém vai desmentir, Julia.

— Como assim?

— Não precisa desmentir, você postou algo na internet, seus seguidores adoraram e as pessoas gostam mais de imaginar coisas do que saber a verdade, juro pra você — Thai explicou com um sorriso no rosto — Todas essas pessoas aqui querem conhecer a Ívi, saber mais sobre ela, apresenta a Ívi para eles, grava outros vídeos, deixa as visualizações acontecerem, não responda nada sobre vocês, é assim que as coisas acontecem, está bem? Vocês são um duo, não são?

— Por duas semanas.

— Que sejam Haíz por duas semanas e, mantenham este clima aqui. Gravem outra música romântica pra Laura, interajam entre vocês, pois de uma maneira inesperada, vocês ficam muito bem juntas, dá um clima gostoso, vocês são lindas, combinam visualmente, pode funcionar muito, eu sei do que estou falando…

— Se você diz — Julia abraçou Thai pela cintura, beijando o ombro dela com carinho, estavam agarradas depois do amor que fizeram no chuveiro, tinha sido tão, mas tão bom que Julia nem sabia — A minha Nutella é cheia de fãs adolescentes na internet, sabia? Por causa desse rosto lindo que ela tem e pelas benditas fanfics — Thai escrevia fanfics de seriados em seu tempo livre — Se ela diz que é, tem que fazer, Ívi, você vai gravar alguma coisa comigo hoje…

Ívi ainda não tinha conseguido parar de rir.

— Que seja, parecer louca por mim é algo que você faz sem se esforçar aparentemente…

— Vai gravar e vai você parecer louca por mim, está bem? Vamos dar ao público tudo o que ele quer, o seu charme indígena-italiano está fazendo vítimas, Schelotto…

 

Tomaram café todas juntas e foi aquela correria para o banho, Ívi correu para seu quarto, Julia e Thai tomaram banho juntas e Karime já estava pronta. Os remédios regulavam a vida dela inteira, incluindo suas horas de sono, tinha acordado praticamente de madrugada.

 

— Laura, você não tem noção da pegada da menina… — Estava contando para Laura sobre a ficada com Ívi — Ela me pegou aqui, pela garganta, me colocou contra a parede e eu nem sabia o que fazer mais, fiquei toda desnorteada.

— Você está me ajudando mesmo, tem certeza? — Laura não parava de rir.

— Eu sei que não estou, mas é que você tem que saber que a gata me pegou e foi gostoso demais, Laura! O beijo, a pegada, a conversa, foi uma hora deliciosa...

— Você não está disposta a me ajudar mesmo — Laura tomou outro gole de café — Karime, eu preciso me concentrar. Mas ela acordou na minha cama de novo.

— Laura, ela é um amor, eu tenho certeza que todo o respeito que ela usou comigo ontem usa em dobro com você. Ela não vai fazer nada que você não queira.

— Eu sei que ela não vai fazer nada, ela é a coisa mais doce, nem se move se eu não me mover primeiro. Karime, se você não tivesse a empurrado para me tirar para dançar, teríamos ficado a noite inteira apenas nos olhando — Argumentou sorrindo, Ívi era um amor mesmo — O problema de dormirmos juntas não é ela, o perigo sou eu mesma...

 

Karime a abraçou rindo alto.

 

Cariño, tu se está convirtiendo en un desastre, un desastre total…

 

Laura tinha plena consciência que estava mesmo. Conseguiram sair no horário, todas juntas, todas iriam torcer por Kelsey e, Laura tinha mais um pedido a Julia e Ívi enquanto estavam no velho trem para Deodoro.

 

— Não precisamos não! — Era Julia.

— Precisam sim. Você dormiu no sofá ontem, a Ívi está dormindo no chão, dormir é uma das coisas mais importantes, Juls, tudo está indo bem esta semana, não dói separar algum dinheiro para investir numa cama, no conforto de vocês.

— Eu não vou dormir com a Julia, Laura — Era Ívi sorrindo.

— Não é para dormirem juntas, mí amor, é só para terem mais uma opção de onde dormir. Tem espaço no meu quarto, comprem uma cama e deixem lá.

 

As duas pararam olhando para ela.

 

— Que foi?

— Chamou a Ívi de amor no automático e eu nem sei pelo que estou mais chateada agora... — Era Julia, fazendo Laura rir e ficar vermelha. Nem tinha percebido.

— A gente compra, Juls — Ívi cortou o assunto, abraçando Laura para perto, a cheirando um pouquinho, a respirando porque tinha adorado o “mí amor” sem querer.

— De que lado você está, Schelotto? Eu nunca sei de que lado você está, te juro...

— Ela é sonâmbula, lembra? Ela vai parar na nossa cama de qualquer forma, eu tenho certeza…

 

Daí Laura caiu no riso e o clima foi quebrado. Chegaram em Deodoro já buscando uma cama na internet. Se separaram, as garotas entrando pela entrada de público e Julia agora também já tinha crachá de crew.

 

— Eu não acredito que você concordou com isso, Ívi…

— Julia, ela tem razão, a gente precisa mesmo de uma cama, eu não quero você dormindo no sofá e menos ainda quero eu continuar dormindo no chão. Porém eu também não quero que isso aconteça muito rápido porque, bem, dormir numa cama é bom, mas dormir com a Laura é incomparável. De qualquer forma, não vai dar para comprar agora, compramos daqui uns dias, é uma coisa que vai nos deixar mais confortáveis, pronto, não faça um drama por isso — Porque o padrão era Julia fazer drama cada vez que se sentia preterida por Laura em qualquer coisa que fosse, ainda que a coisa não tivesse nenhuma ligação direta com sentimentos, tal como a compra de uma cama — Escuta, você acha que a Kelsey pode ser campeã olímpica mesmo? De verdade, sem ser o que você quer que aconteça, só o que pode acontecer.

 

Ela respirou fundo, se acalmando um pouco.

 

— O time da outra olimpíada era melhor, mas a Kelsey e a goleira por exemplo estão muito melhores agora. Vai, eu acho que elas vão passar da fase de grupos, porém devem cair diante da Argentina ou da Holanda na próxima fase, eu tenho certeza.

— Eu me sinto péssima torcendo contra, mas é que, imagina?

— Você gata de rua contra uma campeã olímpica, eu estou imaginando sim, a gente nem consegue comprar uma cama agora, Ívi…

 

Era verdade, Ívi sabia que era bem isso. Riu, mas então ficou mais séria, tinha acordado pensando em uma coisa.

 

— Eu não quero ser egoísta, Juls.

— Não é egoísmo, Ívi, não pensa que é. Você gosta da Laura, eu gosto também, nós duas sabemos que não somos a melhor opção, mas sei lá, nós somos sobreviventes, estamos tentando alguma coisa, não fica com essa postura de derrota não, Schelotto.

 

Era isso, apesar de Ívi ainda se sentir egoísta de poder estar atrapalhando Laura em um relacionamento que de fato, parecia promissor. Kelsey era muito estável, tirando o que não tinha tanta importância como ser bonita fisicamente do jeito que era, ela também parecia bonita por dentro, era delicada e boa, se preocupava com Laura, queria cuidar dela e parecia muito apaixonada. Laura podia ter razão sobre estarem apenas muito atraídas uma pela outra. Queria ser altruísta e abrir mão, tentar outra coisa, mas a grande verdade é que não tinha como. Não iria. E enquanto neste momento ainda não podia se mover, o melhor que podia fazer era esperar sem atrapalhar. O fio podia enrolar e parecia enrolado agora, mas não iria romper, disso Ívi não tinha dúvidas. Então decidiu ter paciência, ponto. Estava decidido.

 

Foram para a cabine onde agora podiam ser vistas pelo público e tudo já estava no automático, Ívi já estava confiante o suficiente para fazer o que precisava e Julia nem se fala. Julia assumiu o som externo, Ívi o interno, prepararam-se para a abertura e foi uma verdadeira festa, como já era o esperado que fosse. O primeiro jogo era Austrália e Estados Unidos, e a torcida estava mais do que animada! Final de jogo, Estados Unidos 2x1 e mal tiveram tempo de comer alguma coisa, o segundo jogo começou às 13:30, Nova Zelândia e Alemanha, e Julia quase passou mal, por motivos de, era uma garota linda e durona atrás da outra, as alemães belíssimas, as neozelandesas nem se fala e elas nem sabiam para quem torcer, era apenas apreciar.

 

— Você não lembra mesmo o nome da sua alemã? — Porque elas tinham certeza que ela estava em campo, mas de onde estavam, todas pareciam com a menina que Ívi havia ficado.

— Eu não lembro, mas a Laura sabe quem ela é, lembro que me falou o sobrenome dela e...

 

Houve um som seco acompanhado de um grito assustador.

 

E foi quando Ívi viu como aquele esporte podia ser perigoso.

 

Uma bola alta tinha atingido o pulso de uma das alemãs e aquele grito de dor agudo silenciou a arena inteira.

 

— Caramba, Julia… — A moça caiu no chão segurando o punho e mesmo daquela distância toda, ficou claro o suficiente que tinha fraturado.

— É isso que me assusta! Eu não sei se a Laura contou pra você do acidente de trem, que ela teve traumatismo craniano.

— Ela me contou sim.

— Ela não era sonâmbula antes disso. E daí ela pratica este esporte que tem esse tipo de risco, o que pode acontecer se ela for atingida na cabeça por um taco ou uma bolada assim? — Daí levantou para ver o atendimento da alemã no campo — Ívi, eu posso estar muito enganada, mas eu acho... Tem certeza que não foi com ela que você ficou?

 

Ívi levantou para ver melhor.

 

— A que está machucada?

— Eu lembro dela, acho que foi com ela sim...

 

Tiveram um intervalo um pouco maior depois deste jogo e puderam comer todas juntas num cantinho do parque fazendo um piquenique improvisado. Os olhos de Ívi não saíam de cima de Laura nem um pouquinho, tinha ficado chateada com a evolução do namoro? É claro que tinha, mas ao mesmo tempo tinha definido consigo mesma que aquilo não lhe afetaria. Queria Laura feliz, ela queria o mesmo para si, tudo estava no lugar então. Fim do intervalo, voltaram para a bolha e pela primeira vez, pouco antes de Holanda e Coreia do Sul, elas se ouviram sendo anunciadas.

 

Anunciadas? Alguém havia as anunciado, dizendo que era hora de “Haíz”!

 

— É a gente?

— É claro que é a gente!

 

Elas começaram com Rather Be e a festa era algo que nunca terminava na arena em que elas estavam. A Holanda passou em cima da Coreia do Sul novamente, 4x0 com uma enorme facilidade e um verdadeiro desfile de meninas bonitas novamente, o coração de Ívi ficava todo enfraquecido e a próxima hora trouxe o jogo de Kelsey. Ela veio mais cedo, para ficar com Laura, é claro, sentou ao lado dela, ficou feliz de vê-la com outra camisa sua, beijaram, trocaram carinhos e estavam mais apegadas, aquele tipo de apego que acontece depois de fazer amor pela primeira vez. Ívi desviou, não ia pensar no amor, ia se concentrar no que precisava fazer e ponto.

 

— A Índia tem tradição, né?

— São só as maiores campeãs.

 

Bem, esqueceram de avisar das tradições para a equipe da Grã-Bretanha, especificamente para Kelsey Harris. Ela estava particularmente inspirada. 3x0, três golaços de Kelsey e Julia ficou louca que Ívi continuasse colocando músicas brasileiras para ela, só para deixá-la ainda mais popular, era isso?

 

— Julia, é esquisito, mas eu gosto dela, sabia?

— É esquisito sim, muito esquisito!

 

Final de jogo e Kelsey correu para a arquibancada, para outro beijo longo em Laura que se agarrou nela muito feliz.

 

— A treinadora disse que vai te levar para a Vila Olímpica ela mesma se o resultado for esse aqui sempre… — Sussurrou, a fazendo morrer de rir.

— Você estava incrível, sabia?

— É o seu efeito em mim. Eu quase não consegui dormir pensando na gente, fiquei rolando pela cama, procurando um sono que não vinha por sua culpa…

 

Outro sorriso, outro abraço longo de quem não quer soltar.

 

— Fica para ver o próximo jogo comigo? Você pode?

— Posso, vou só trocar de roupa, tá?

 

Outro beijo e Kelsey foi para as entrevistas, as assinaturas e voltou mais tarde, já de roupa trocada, banho tomado para assistir Espanha x China bem agarrada em Laura, com Thai e Karime também adorando a companhia dela. Ela teve que ir ao final do jogo, abraços longos, beijos longos, Julia sofrendo um pouquinho. Ela sofria e isso apertava o coração de Ívi, que também sofria um tantinho, mas no final das contas…

 

— Eu tenho aprendido com vocês, sabia? Sobre simplicidade acima de tudo, eu fiquei com a Karime ontem e nada mudou por causa disso, não teve clima, nada, tudo ficou exatamente no lugar.

— Eu disse pra você que metade das coisas são simples. A outra metade a gente dramatiza, mas sobrevive mesmo assim...

 

Foi o último jogo da noite para elas, estavam livres. Receberam quatrocentos reais cada uma, separaram um dinheiro para a cama e Ívi estava vendo suas economias da dívida no hostel crescendo. Ainda faltavam 800 reais, mas sabia que ia resolver. Kelsey foi embora e tinha um jogaço acontecendo na outra arena, Argentina x Japão e Ívi enfim pôde sentir o gosto de estar numa arquibancada, apenas curtindo uma partida. E foi maravilhoso fazer isso com as suas garotas! Torcer com elas, sentir a emoção daquele jogo, Las Leonas era um time incrível e ficar no meio da torcida argentina levou Ívi de volta ao momento que viu Laura pela primeira vez, lá no metrô. Parecia que havia sido uma vida atrás, não apenas alguns dias.

 

Voltaram pra casa juntas, direto para o restaurante da outra noite, teriam o dia seguinte livre, o hóquei voltava apenas um dia depois, a Argentina tinha passado em cima do Japão, 4x0 e seria o próximo adversário da Grã-Bretanha. O jogo mais difícil até então, havia um trauma por parte das britânicas contra as argentinas, só haviam perdido duas vezes na outra Olimpíada, Argentina na fase de grupos, Holanda na semifinal. Foram jantar antes de Julia começar a cantar, o mesmo clima agradável, a mesma vontade de ficar perto, ficaram para o show dela, ela pediu que Ívi cantasse alguma coisa com ela e Ívi teve que ser praticamente arrastada para o palco.

 

Praticamente não, foi mesmo.

 

— Julia, eu não sou cantora, entendeu? — Disse, agarrada nos punhos dela que lhe arrastava de qualquer forma.

— Ívi, você é cantora, cancela que não é. A gente canta junto o tempo todo!

— Não na frente de tanta gente!

— Meio milhão.

— O quê?

— Meio milhão de visualizações no nosso vídeo, quando você pensa nisso não parece ridículo não querer cantar para cem pessoas?

— Meu coração parece que vai sair correndo do peito, Juls...

— Escuta, só olha pra mim, não olha para mais ninguém.

 

E isso acabou... Funcionando. De alguma forma, Julia a convenceu com esta frase e quando Ívi se deu conta, estava no palco, quando deu por si, estava acompanhando o violão de Julia enquanto faziam uma versão acústica de 90 Minutos, uma voz buscando a outra, tão lindamente se encontrando, os olhos conectados, a alma de uma conectada à alma da outra, era assim, Julia e Ívi eram este tipo de encontro, este tipo de conexão e terminou que acabaram mesmo pintando uma outra cena muito bonita. Começaram dividindo as frases, se encontrando num verso e outro, ambas estavam muito felizes, algo andava deixando Ívi confiante demais, podia ser Julia, podia ser Laura, podia ser todas as coisas. Começou cantando com os olhos em Julia, mas para o meio da música, seus olhos automaticamente procuraram Laura. Cantou para ela, cantaram para ela, como se estivessem na sala de casa outra vez. Muitos alguéns fizeram vídeos, Ívi adorou ver todos aqueles celulares apontados para si, adorou os sorrisos, adorou ouvir os aplausos calorosos no final da canção. E quando voltou para sua mesa, foi recebida por um empolgado abraço de Laura.

 

— Que lindas, que lindas! Vai ter mais um monte de meninas shippando vocês duas agora, sabia?

— Eu desconfio que sim — Ívi respondeu, a abraçando pela cintura, afundando o nariz no ombro dela para lhe respirar um pouquinho mais — Eu fui bem? Eu nem estava conseguindo me ouvir.

— Eu adoro a sua voz, por mim você canta com a Juls todos os dias, canta sozinha, qualquer coisa, só tem que parar de ignorar essa parte que também é sua.

 

Ívi olhou nos olhos dela um pouquinho.

 

— Quer bolo de pote, amoriño?

 

Ela sempre queria. Abriu um sorriso lindo e se agarrando na mão de Ívi, foram comprar o doce que ela gostava e ter outra longa e aleatória conversa sentadas naquela calçada, comendo o bolo de pote com garfo de plástico. Ainda queriam saber tudo uma da outra, qualquer coisa que fosse, ainda não tinham o suficiente, a noite estava suave, a voz de Julia cantando alguma canção bonita, uma felicidade imensa. Viva. Presente entre elas. Tão densa que podiam tocar. Se não a felicidade, ao menos uma a outra porque era natural e impossível fazer parar.

 

Estavam sentadas muito juntas, os potes de bolo agora vazios, um braço enrolado no outro, as mãos dadas, um corpo se apoiando no outro.

 

— Você acredita que a gente se olhou no metrô e agora estamos aqui? Que tudo aconteceu assim?

— Laura, às vezes ainda é irreal. Tudo me parece muito irreal, desde a minha saída lá de Maragogi, até chegar aqui, ser enganada e então ir parar na rua, e você me encontrar. Então a minha vida está um desastre, eu tenho dois reais no bolso e você me leva numa festa e de repente, eu ouvi o meu nome sendo anunciado em um jogo de Olimpíada. Melhor, o nome do meu duo, com a menina que me detestou assim que olhou para mim… — Disse, fazendo Laura rir.

— É que você estava me olhando, aí ela reage, você sabe…

— Eu estava olhando mesmo, não conseguia parar.

 

Laura se agarrou em seu braço um tantinho mais, deitando a cabeça no ombro de Ívi. Ívi lhe beijou os cabelos com carinho.

 

— Laura, o que acontece depois dos jogos?

— Eu… Eu ainda não sei. Eu não estava preocupada com isso até você aparecer. Ívi, eu só preciso não atrapalhar a Kelsey por esses dias, eu não sei o que vai acontecer depois e sinceramente, agora mesmo, eu sinto um tanto enorme por vocês duas. Mas ao mesmo tempo, pode ser só…

— Não é só tesão, confirmamos que não é.

— Confirmamos que não é, é verdade. Estamos aqui comendo bolo de pote juntas enquanto a Julia está cantando A Lua que Eu te Dei lá dentro, não tem como ser só tesão — Respondeu sorrindo — É mais do que isso. É bem-querer também, eu sei.

 

Ívi sorriu, a cheirando um pouco mais.

 

— Eu fiquei feliz que você me pediu pra comprar uma cama.

— É apertado dormir comigo, eu sei, a cama não é tão grande.

— Eu adoro a sua cama apertada e seus ataques de apego durante o sonambulismo, não é isso — Contou sorrindo — É só que comprando a cama, significa que você não pretende me mandar embora logo.

 

Laura sorriu.

 

— É claro que não, não se devolve o filhotinho que se pega pra adoção...

 

Mais sorrisos.

 

— Ainda mais quando o filhote se apega.

 

Laura lhe beijou o punho com carinho.

 

— Você pode ficar o tempo que quiser, as meninas estão te adorando, eu estou te adorando, ninguém quer que você vá embora logo.

— Eu também não quero ir embora logo. Aliás, que nada disso vá embora. Eu acordei pensando no final das Olimpíadas, Laura, o que eu vou fazer quando acabar? Eu estou fazendo algo muito legal, mas que não vai durar para sempre e quando terminar...

— Você vai seguir a sua carreira. Outras coisas vão aparecer, você não tem que se preocupar. Você vai ser grande, Ívi, eu tenho certeza disso. Você é linda, é talentosa, toca, canta, compõe, o que é que pode dar errado? Vai dar tudo certo, pra você e pra Julia também, eu tenho certeza, você não tem que temer. Como diz mesmo aquela música que você gosta de cantar pra mim? Víveme sin miedo ahora, que sea una vida o sea una hora... Acho que é sobre fazer uma coisa de cada vez, não é? Vamos nos pôr um tempo agora, até o final das Olimpíadas, depois que acabar, a gente volta a pensar nas coisas, tudo bem?

 

Ívi queria perguntar se isso incluía elas duas, mas estava com medo da resposta. Na verdade, já sabia a resposta, envolvia sim e tudo o que suavemente Laura tentou lhe dizer durante aquele dia, incluía também que deviam colocar uma distância segura entre elas, porque algo acontecia o tempo todo em que estavam perto. A coisa por dentro, a energia, a pele que arrepiava. Ficar perto era se colocarem em posição de perigo o tempo inteiro e se Laura estava tão focada em não perturbar o caminho de Kelsey até a final olímpica, Ívi se sentia no dever de ajudá-la.

 

Os dias tinham passado, mas o sentimento da primeira noite não mudara: Ívi ainda se sentia imensamente grata por tudo o que Laura tinha feito por si e pedir dela qualquer coisa mais, naquele momento, lhe parecia incabível.

 

Então, decidiu apenas acatar os pedidos entrelinhas que ela tinha lhe feito.

 

Voltaram para casa perto das duas e naquela noite, Ívi fez tudo direito. Entrou para o banho, se trocou e quando Laura saiu do banho, já estava muito bem agasalhada em sua cama no chão, de olhos fechados, quase dormindo. Não devia ser difícil pegar no sono, estava exausta, os últimos dias haviam sido intensos demais, mas de alguma maneira... Foi difícil. Ouviu Laura se arrumando, se ajeitando para dormir e ela pegava no sono com uma facilidade enorme. Pronto, sono, estava dormindo feito um anjo e Ívi ali, a olhando escondida, morrendo de vontade de...

 

Só morrendo de vontade. Nem era de fazer muita coisa, era só de dormir sentindo o cheiro dela.

 

Pegou no sono em algum momento. E não houve crise de sonambulismo.

 

Infelizmente.

 

E o fio foi estirado pela primeira vez.

 

Notas do Capítulo Extra:

 

Olá, meninas!

 

Como estão?

 

Eu juro de dedinho que tentei postar o capítulo um pouco antes do que hoje, mas infelizmente não deu :/. Tive uma correria extra nos últimos dias, mas deu para chegar e publicar o capítulo ao menos um pouquinho antes ^^.

 

Então, aqui estamos! Um capítulo depois daquele que jogou ansiedade sobre todas as minhas queridas leitoras hahaha. Juro que não foi proporcional, Kelsey é parte importante do arco #Laurivi e parte importante do desenrolar geral desta história, juro para vocês que tudo fará sentido em breve 😊. Capítulo de hoje para acalmar um pouco e girar as engrenagens das próximas pontes importantes que teremos pela frente.

 

E falando do que teremos pela frente, próximo capítulo “Coração Rompido” (não criemos pânico, é menos intenso do que parece hahaha), a ser postado na próxima quarta-feira, sob aquele nosso acordo de damas de 25 comentários, hein? ^^

Bom sábado a todas!

 

Beijos!

 

 

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