6 AM - Capítulo 15 - Namorada

24/7/2019

 

 

O coração de Laura parou no peito por um segundo, mas foi apenas por um segundo mesmo. Kelsey estava ali parada, com o agasalho da delegação britânica e assim que viu Laura, caminhou em sua direção e lhe deu o abraço mais doce e protetor seguido do beijo mais longo e amoroso…

 

Abraço, beijo, braços, olhos nos olhos.

 

— Você está bem, baby? Te machucaram, te fizeram alguma coisa, você conseguiu dormir?

— Consegui sim, meu bem, desculpa te ligar daquele jeito…

— É lógico que você tem que me ligar, é claro que tem, eu sou sua namorada — Tocou sua testa na dela, olhando naqueles olhos que adorava — Laura, meu Deus…

 

Ela teve uma pequena crise e Laura teve que acalmá-la, convencê-la que tudo estava bem mesmo e não estava acreditando que tinha causado um transtorno daqueles um dia antes do jogo mais importante para Kelsey até então. Nem havia pensado nisso quando ligou, ligar para ela havia sido um impulso também. Ela se acalmou, mas queria…

 

— É sério?

— A sós com ela, eu preciso sim.

 

Laura voltou para perto das garotas. Kelsey falou com todas elas, sorridente apesar do semblante preocupado, ela era sempre extremamente educada.

 

— Ívi, a Kelsey quer falar com você.

— Comigo?

— Sozinha, só uns minutos.

 

Ívi olhou para Julia. E ela estava se divertindo.

 

Briga física! Briga física, Ívi, vai acontecer, vai ser agora! — Sussurrou para ela a fazendo rir, só Julia mesmo.

— Você é muito boba, eu nem sei como aceito essa parceria — Respondeu sorrindo e então olhou para Laura — Mas vamos conversar em qual língua?

Italiana. Laura mi ha detto che parla italiano — A própria Kelsey respondeu.

— Ela entende um pouco de português e fala italiano, e um pouco de espanhol, acho que vocês vão conseguir.

 

E Kelsey lhe estendeu a mão com um leve sorriso no rosto. Ívi tentou ler algo pela expressão dela e só mais tarde se daria conta que era simplesmente gratidão. Kelsey era uma menina muito diferente e muito boa mesmo, boa de coração, boa em suas intenções, boa de cabeça, pensava diferente, entendia as coisas de forma diferente. Ívi pegou a mão dela e lhe puxando para perto, Kelsey a levou para caminhar pela arena.

 

— Como aprendeu italiano? — Ívi quebrou o gelo enquanto percebia os joelhos de Kelsey praticamente em carne viva. Tinha visto estas cicatrizes em Laura no outro dia, o campo queimava principalmente os joelhos e cotovelos de quem se atrevia a fazer aquele esporte. Mas nem o corte reaberto de Laura estava tão feio quanto os joelhos de Kelsey, os cortes estavam vivos e agressivos demais. E ela ia jogar nas próximas horas.

— Kelsey Harris Giulliani, minha avó é italiana e só fala italiano, quem quiser conversar com ela tem que ser em italiano — Ela respondeu sorrindo, mas o semblante estava bem preocupado. Elas seguiram caminhando lado a lado — Ívi, obrigada por ontem. De verdade. Obrigada por ter ido buscar a Laura, por ter enfrentado o assediador — Usou uma palavra em inglês para assediador, mas Ívi entendeu — Só… Obrigada mesmo por estar lá por ela, eu nunca vou ter como te agradecer.

— Kelsey, você sabe que…

— Eu sei, eu sei sim, sei de tudo e não te culpo — Sentou-se no banco de reservas, convidando Ívi a fazer o mesmo — Eu sei que você gosta dela, que ela também gosta de você, e que gosta de mim e do que nós estamos tendo. Mas Ívi, ontem quando ela me ligou tão desesperada, eu fiquei… — Ela respirou fundo, levando as mãos à cabeça — A minha namorada me ligou precisando de mim e eu simplesmente não podia fazer nada. Se você não tivesse ido, ela teria ficado lá e eu não poderia fazer nada.

— Porque você está no torneio mais importante do planeta, Kelsey, porque você é a capitã de uma equipe, não é culpa sua.

— Não anula o fato dela ter me ligado e eu não ter podido fazer nada. Eu quase não consegui dormir pensando nisso, me sentindo culpada, pensando em todas as coisas. E depois, Ívi? Como vai ser? Quando acabar as Olimpíadas e eu tiver que voltar pra Londres? Ela vai seguir me ligando sem que eu possa fazer alguma coisa, sem que eu possa vir abraçá-la, acalmá-la, protegê-la. Você não sabe, Ívi, é que… — Ela respirou fundo e os olhos já estavam cheios de lágrimas — Desde 2012, eu não tenho tido um segundo para respirar. Um segundo de paz, sabe? Eu tinha acabado de fazer vinte e dois anos, não tinha sido convocada para o pré-olímpico nem nada, mas fiz ótimos jogos nas finais do nacional e acabei sendo convocada de última hora para as Olimpíadas de Londres porque alguém se lesionou. Eu me saí bem nos treinos, acabei ganhando lugar no time titular e de repente, eu estava nos Jogos Olímpicos em casa, com toda a imprensa em cima de mim, com o Príncipe William e Kate Middleton assistindo aos meus treinos, foi muita coisa ao mesmo tempo. Passamos com muita facilidade na primeira fase, a torcida empurrando, eufórica, foi maravilhoso estar em campo naqueles primeiros jogos. Mas então nós perdemos o último jogo da primeira fase para a Argentina e isso se arrastou para a segunda fase, essa baixa que nós tivemos e tudo o que se lia e ouvia no país inteiro era “temos chances de ganhar se Kelsey Harris voltar a jogar”. Eu estava em campo, mas não estava rendendo mais, faz ideia de como é isso? O hóquei é muito popular na Grã-Bretanha, é como se a sua seleção de futebol fosse mal em uma copa do mundo em casa…

 

Ívi abriu um sorriso e Kelsey também ao se dar conta do que tinha dito.

 

— Péssimo exemplo, né, eu sei, vocês sabem muito bem como é isso. A gente foi muito mal na segunda fase, eu fui muito mal na segunda fase e acabamos ficando fora da final num jogo contra a Holanda, e tudo caiu em cima de mim, inclusive, eu mesma. Desde aquele jogo perdido todos os dias eu acordava me perguntando por quê. Por que não tinha conseguido jogar bem, fazer mais, por quê? Todos os dias, sem uma pausa que fosse, todos os dias era meu último pensamento antes de dormir e o primeiro quando acordava. Sabe qual foi a primeira vez que eu acordei pensando em outra coisa? Ano passado, quando eu conheci a Laura.

 

Aquilo tocou Ívi.

 

— Ela foi o meu primeiro respiro em quatro anos de pressão e eu sei bem também que ela foi o seu primeiro respiro em muito tempo de pressão, essa menina linda tem poderes, ela cura a gente, melhora todas as coisas, joga luz, sabe? Não dá para pensar em perdê-la. Eu não quero perdê-la, Ívi.

— Você não vai perder ninguém, Kelsey, se é por minha causa…

— Ela te chamou de “mí amor”.

 

Ívi ficou absolutamente surpresa.

 

— Ela… Não. Não chamou não.

— Eu ouvi, Ívi. A Laura esqueceu que eu ainda estava na linha com ela quando você chegou, eu ouvi. O “mí amor”, percebi o alívio que ela sentiu ao te ver, deu até para ouvir o suspiro de quando você a abraçou, eu ouvi tudo. E eu, eu não sei. Eu me sinto egoísta prendendo ela em mim sendo que eu vou ter que ir embora. Mas ao mesmo tempo, eu não quero perdê-la de jeito nenhum, eu estou apaixonada, não sei o que fazer.

— Kelsey, escuta, me escuta bem: você tem que vencer esse jogo de hoje, está bem? — Disse, a fazendo inesperadamente rir, que mudança repentina de assunto tinha sido aquela? — É que se você perder, a Laura vai se sentir extremamente culpada por isso, então por favor, dá um jeito e não perde, está bem?

 

Kelsey estava rindo sem parar.

 

— Eu não pretendo perder não. Eu quero ganhar da Argentina há quatro anos.

— Ok, ponto um resolvido! Ponto dois, ela gosta de você, está bem? Não está acontecendo nada entre a gente.

— Ívi, vocês estão apaixonadas, você não percebeu ainda?

— A gente… Eu... Eu estou — Admitiu, não sabendo se deveria admitir ou não.

— Ela também. Mas também está apaixonada por mim e ama a Julia, são muitas questões.

— Mas não anula a questão de que não estamos fazendo nada. Nada no sentido físico, está bem?

— Você é uma guerreira. Vocês estão dormindo juntas, não estão?

— Só dormindo, Kelsey...

— Guerreira de combate. Eu sei lá se ia conseguir dormir com a Laura sem fazer nada — Ela respirou fundo, piscando os olhos longamente, controlando o choro — Ívi, eu não sei mais o que te dizer. Só te agradecer. Por estar com a Laura, por estar sendo boa para ela e por estar me respeitando tanto, de verdade. Eu não sei mesmo como tudo isso vai ficar, mas…

— Escuta, Kelsey, dada essa situação diferente, eu fui convencida a focar a curto prazo e acho que você deve fazer isso também. Ninguém mais vai pensar nisso até o final da Olimpíada, tudo bem?

— E o que vocês têm? E se eu estiver atrapalhando a Laura…

— Se o que a gente tem for real mesmo, ainda vai estar aqui mais tarde e por mais um tempo enorme. Ninguém tem que correr com nada, se è amore, lo sarà attesa anche.

 

Kelsey olhou para ela. Repetiu.

 

Se é amor, será espera também — Era o que Ívi havia dito — Que bonito.

— Acho que vou colocar em uma música que acordei pensando hoje — Respondeu sorrindo — Está tudo certo?

 

Kelsey a abraçou.

 

— Tudo certo. Obrigada. De verdade. Inclusive por ter me visto chorar agora, eu detesto chorar, que tenha sido na sua frente.

Ívi a apertou nos braços.

— Você poderia ser uma ciumenta surtada que não faz bem pra Laura, daí a gente não estaria nessa situação esquisita de gostar uma da outra...

 

Kelsey deu risada.

 

— Te digo o mesmo. Você é uma menina muito diferente, a Laura é muito diferente, deve ser o que atraiu vocês uma pra outra. Mas eu sou muito britânica, sempre segui tudo certinho e a Laura é muito certinha também, mas a liberdade que ela tem... Virou os meus sentimentos de cabeça para baixo e eu adorei. Ela me desarrumou e me arrumou de outra maneira, eu não sei explicar de outra forma. Daí aparece você e de repente, olha a situação.

 

Ívi beijou a mão dela. Tinha calos, partes esfoladas, roxos e verdes.

 

— A gente vai ficar bem. Lembra de ganhar hoje.

— Deixa comigo.

 

Voltaram e Laura já estava sozinha. Karime e Thai estavam trabalhando aquele dia e Julia tinha subido para adiantar as coisas enquanto Ívi voltava.

 

Va bene vocês duas? — Laura perguntou sorrindo, mas um tanto apreensiva.

Va bene sim — Kelsey beijou a testa dela com carinho — A gente conversou, está tudo bem, não é, Ívi?

— Tudo bem sim — Daí falou em italiano com Kelsey — Não esquece aquele detalhe, tá?

— Pode deixar — O detalhe de vencer.

 

Ívi se despediu e disse que precisava subir, faltavam vinte minutos para o primeiro jogo, Índia x Austrália. Laura lhe deu um longo abraço e um beijo no rosto, dizendo que ficaria bem na frente da cabine aquele dia. Novamente, Ívi desejou boa sorte a Kelsey e então subiu. Julia já tinha ligado tudo, colocado som tanto na arena quanto fora e estava afinando a guitarra quando...

 

Ívi entrou.

 

E começou a sofrer.

 

— Ívi? — Julia largou a guitarra e veio até ela — Ei, Ívi, o que foi? O que aconteceu?

 

Ívi se agarrou nela muito apertado.

 

— Ela é maravilhosa, eu quero que ela seja campeã olímpica, Juls...

 

E Julia começou a rir, sem soltá-la do seu abraço.

 

— Ela seduziu você também, é por isso que eu evito contato com aquela britânica. O que ela queria conversar?

— Sobre essa situação toda. De eu estar gostando da Laura, ela sabe...

— Ívi, todo mundo sabe, até a dona Eleonora já sabe disso, ela ficou me zoando porque a Laura agora tem você — Dona Eleonora era a melhor vizinha — Escuta, eu já estive numa situação parecida em relação a Laura, ela é diferente, age diferente e nós duas sabemos que ela está apaixonada pela Kelsey, mas também está apaixonada por você. Eu acho, de verdad, es lo que pienso de verdad, que se apaixonar por uma pessoa de cada vez é algo do costume social, não da natureza humana, entende? É ideal que você se apaixone por uma pessoa de cada vez, mas sabe? Se você tirar o filtro e a Laura não tem filtro nenhum, pode acontecer sim e é mais comum do que a gente pensa.

— Quem pode entender uma situação assim, Julia?

— Eu não sei quem mais vai entender — Respondeu sorrindo, pensando em Thai e no modo que seus sentimentos andavam evoluindo por ela — Mas o que importa é que você e a Kelsey entendem, que eu entendo e se a gente entende, não precisamos mais de ninguém. Nós somos as interessadas, não somos?

 

Ívi pensou um pouco, ela tinha razão.

 

— Nós somos.

— Então se acalma que você lembra que hoje é você quem canta, não é?

— Julia, eu ainda não tenho certeza, eu não sou cantora...

— Bem, eu tenho novidades para você — Respondeu, já pondo o microfone na mão dela e a alça da guitarra em volta do seu próprio pescoço — Você é cantora também, está bem?

— Você é cantora, Julia...

— Eu sei, mas você também é, não tão boa quanto eu, mas é... — Disse, a fazendo rir enquanto vestia a jaqueta de couro em Ívi, tinha a feito calçar botas por causa da tal confiança e jaqueta de couro também tinha o mesmo efeito — Você é afinada, eu adoro a sua voz e eu não falo italiano muito bem, ou seja, tem que ser você e você vai se sair muito bem.

Tra te e il mare? — Iria ter que jurar para Kelsey que não era indireta, era coincidência mesmo.

— Isso — Colocou o retorno no ouvido dela, ajustou o microfone na altura certa, era uma cabine de sonoplastia, elas precisavam improvisar todas as coisas — Olha ali na frente, olha como ela é linda e perfeita, e tudo de melhor que existe neste mundo inteiro — Era Laura, é claro, sentada na arquibancada no meio do público — Canta pra ela.

— É... É agora, já? — A base da música já estava rolando.

— Em — Olhou a contagem da música — Cinco, quatro, três, dois e... — Julia abriu os microfones — Ladies and gentlemen, senhoras e senhores, bem-vindos ao Parque Olímpico de Deodoro! Estamos muito felizes por tê-los aqui, as seleções que serão nossas anfitriãs de hoje agradecem a presença de todos — Daí repetiu em espanhol a mensagem e finalizou em português, com... — Eu sou Julia Torre, esta é Ívi Bueno e juntas nós somos Haíz.

 

E ela soltou o solo de guitarra que entrou por cima da batida, Julia era inacreditável, era uma cantora incrível e uma instrumentista fora do normal, Ívi ficava toda boba por ela e Julia, bem, Julia nunca imaginou que ficaria tão feliz de ter um negócio mágico daqueles que fazia música! O tal do launchpad. Pularam a parte baixa da música, foram direto para a ponte mais alta e Ívi respirou fundo, fechou os olhos, os abriu, viu Laura.

 

Bastou. A confiança entrou em seu corpo sinestesicamente.

 

Io che avrei vissuto da te — Começou, cheia de gestos, intensa, bonita naquela jaqueta preta, charmosa, densa, com uma postura inabalável, fazendo Laura sorrir — Nella tua straniera città! Sola, con l'istinto di chi sa amare... Sola ma pur sempre con te! — Sozinha, com o instinto de alguém que sabe amar, sozinha, mas sempre com você — Non posso più dividermi tra te e il mare... — Abriu um sorriso, vendo Laura lhe sorrir, fazendo as pessoas reagirem a sua música, não posso mais me dividir entre você e o mar... — Non posso più sentirmi stanca di aspettare... — Olhou para o lado e sua guitarrista estava sorrindo, Ívi devia estar fazendo as coisas corretamente. Saltou com toda energia para o refrão pondo fogo naquela arena — No, amore no! Io non ci sto... O ritorni o resti li! Non vivo più, non sogno più, ho paura aiutami...!

Amore non, ti credo più! — Julia se juntou a ela no refrão, nas notas arrepiantes da guitarra, na mágica do remix que Ívi tinha criado no launchpad e na pickup de som — Ogni volta che vai via! — Julia buscou os olhos dela, tinha mágica aquela sua alma gêmea, tinha luz — Mi giuri che, è l'ultima, preferisco dirti addio!

 

E o som agudo de um lobo uivando surpreendeu e animou ainda mais! Ívi podia ter uma coisa ou outra de cantora, mas tinha plena consciência de que seu talento maior estava nas mixagens surpreendentes. Laura estava tão focada olhando para elas que sequer percebeu que Natalia estava ao seu lado.

 

— Laura, elas não estão fazendo o trabalho que eu contratei.

 

Laura a olhou assustada.

 

— Elas...?

— Estão dando um show! Eu queria só uma DJ para fazer sonoplastia, mas olha pra isso! O meu chefe quer mandar as animadoras de torcida embora, nada é mais eficiente que essas duas. O pessoal do vôlei de praia me ligou hoje, eles querem elas lá também, nas finais, elas não vão parar aqui não.

 

Laura abriu um sorriso.

 

— Eu também acho que não.

 

A Austrália passou em cima da Índia, 6x1 e quando o jogo de Kelsey chegou, Laura estava nervosa como nunca. Sabia muito bem o que aquele jogo significava, era mais do que um jogo da fase de grupos, era um fantasma a ser exorcizado. Kelsey veio antes de entrar, pediu um beijo de boa sorte, dava todos os beijos, esperava mesmo que não tivesse atrapalhado a concentração dela. O jogo iniciou e o primeiro tempo foi tenso demais, muito disputado, Las Leonas não estavam indo tão bem, precisavam vencer e Ívi nunca achou que ficaria tão nervosa num jogo do jeito que ficou! Não era apenas mais um jogo, era O Jogo, contra uma das duas equipes em que tanto se apostava que a Grã-Bretanha cairia diante novamente. Pronto, segundo tempo e a Grã-Bretanha marcou primeiro, respiraram por dois minutos e marcaram novamente, e no intervalo, todas já estavam mais tranquilas. Mas foi apenas até o terceiro tempo começar.

 

Tiro livre para a Argentina e quando os tiros livres aconteciam, as garotas corriam e pegavam máscaras de proteção que sempre ficavam atrás dos gols, e isso sempre dava um nervoso em Ívi, uma sensação de guerra mesmo, os cabelos sempre trançados também eram inspirados em rituais de guerra, não havia guerreiro que fosse para o campo de batalha sem sua trança bem apertada. Lá estava Kelsey com seus longos cabelos trançados e com a máscara de proteção no rosto, sim, ela parecia estar mesmo numa guerra onde sequer cogitava perder.

 

A Argentina descontou naquele tiro livre e pouco antes do final do terceiro tempo, pronto, elas empataram e Laura simplesmente não conseguia mais assistir. Levantou, respirou fundo, trocou um olhar com Ívi na cabine, a torcida inglesa estava nervosa, os argentinos eufóricos, Ívi olhou para Kelsey, ela estava falando e falando, falando com toda a equipe, com cada uma das garotas, pronto, quarto tempo, elas voltaram para o campo e no meio do tempo...

 

Sim, a Grã-Bretanha podia ser campeã olímpica desde que Kelsey Harris decidisse jogar.

 

Ela começou a jogada, recebeu de volta e Ívi só conseguiu contar três dribles, mas tinha plena consciência de que tinham sido mais antes dela limpar a área de tiro e acertar o ângulo da goleira com perfeição!

 

Gol de Kelsey Harris, comemorado com ganas e vibração de campeã, com gestos efusivos para a torcida antes de ser derrubada pelas colegas de equipe. Faltavam dez minutos para o final, também tenso, também cheio de ataques argentinos que a Grã-Bretanha segurou até o final, aos gritos, na fase maravilhosa que vivia a sua goleira e na força da sua capitã. Kelsey não perdeu.

 

Era uma mulher de palavra.

 

Apito final e Ívi estava quase tão cansada quanto ela. As comemorações efusivas do lado britânico, a vibração da quebra do feitiço daquela derrota na semifinal de quatro anos e o beijo de Kelsey em Laura na arquibancada estamparia boa parte do caderno de esportes do dia seguinte. Laura não iria ceder a nenhum tipo de homofobia e Ívi não esperava menos dela. E Kelsey...

 

Naquela tarde, Ívi teve certeza absoluta que ela seria campeã olímpica.

 

Assinaram um pacto silencioso aquela noite, depois de todos os jogos quando voltaram juntas para casa. Estavam exaustas, pelo caminho que era longo, pelo sol quente que esteve presente o tempo todo, passaram um tempo todas juntas, jantaram e quando foram para o quarto, Ívi armou sua cama no chão. Laura não se opôs, ficaram em silêncio por um tempo, ambas mexendo em seus celulares e quando Ívi se agasalhou para dormir:

 

— Ívi?

— Oi.

— Eu acho que estou apaixonada por vocês duas.

 

Ívi abriu um sorriso.

 

— Eu acho que estou apaixonada por vocês duas também.

 

Laura a olhou sorrindo.

 

— Ela é incrível.

— Eu sei. Eu vi, senti, ela é uma moça maravilhosa, eu entendo a sua paixão.

— Então você entende?

— Entendo sim. A gente vai ficar bem, ok? Não se preocupe.

— De verdade?

— A Julia me fez ver mais cedo que no final das contas, o que a gente tem, é só você e eu que precisamos entender. Eu entendo, você entende, você me sente e eu te espero, está bem? Eu te espero.

 

Ela abriu aquele sorriso lindo e os próximos dias foram insanos.

 

Kelsey jogou no dia seguinte, a melhor partida que Ívi já tinha visto dela até então, 2x0 contra o Japão, dois gols dela, devidamente dedicados, comemorados com mais música brasileira e Ívi assistiu a Argentina cair novamente diante da Austrália. Voltaram pra casa tarde, Julia ainda foi cantar em outro lugar, Ívi apagou na cama de Karime, tinham ficado outra vez, ficado apenas de beijos, estava bom assim, Ívi não precisava de mais. O final da primeira fase aconteceu no dia seguinte, novo jogo, duríssimo dessa vez, contra os Estados Unidos que marcou primeiro e segurou tudo o que pôde a virada das britânicas. Bem, não foi o suficiente, elas viraram literalmente em três minutos, faltando dez para o final com um gol de Kelsey, que terminou absolutamente exausta em campo. Ela estava exausta e Laura agradeceu muito que as finais só fossem começar em dois dias.

 

Laura passou o dia seguinte inteiro trabalhando na Vila Olímpica e perto dela, muito caprichosamente a quartas de final seria contra o time da Espanha.

 

— Eu não sou patriota, pode mandá-las pra casa, está bem? — Disse sorrindo ao deitar no peito de Kelsey aquela tarde em que lhes deram duas horinhas juntas.

— Eu vou mandar, pode deixar. Laura, como estão as coisas?

— As coisas...?

— Você e a Ívi.

— Está tudo bem.

— Tranquilo?

— Muito tranquilo.

 

Tanto que Laura estava começando a sentir um tanto por dentro.

 

O fio esticado estava repuxando seu coração.

Notas do Capítulo:

 

Olá!

 

Meninas, eu juro que tentei adiantar o capítulo ao menos em 24 horas, mas final de semana corrido me desarmou e não deu tempo :/

 

De qualquer forma, aqui estamos! Capítulo novinho, com uma atuação maior de Kelsey em vários sentidos. Acho que a conversa entre ela e Ívi era extremamente necessária, principalmente para clarear Ívi sobre a situação real e tal conversa junto ao andamento do campeonato de alguma forma, está afastando Laura do ponto tão próximo em que estava de Ívi antes.

 

Afastada, mas com o coração ainda muito atado na gata de rua.

 

Próximo capítulo, "A Coroa", nos traz um momento inesperado de puro apego entre duas das nossas meninas e traz também, a muito esperada decisão dos Jogos Rio 2016! Apostas sobre quem estará na final? Aviso de capítulo longuíssimo vindo pela frente! Próxima postagem, domingo, dia 28/07, sob as mesmas regras de comentários que vocês já conhecem ^^.

 

Muito obrigada por estarem tratando 6 AM com tanto carinho!

 

Abraços!

 

 

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