6 AM - Capítulo 19 - Reconexão

7/8/2019

 

 

 

Quando Ívi acordou, já não havia pressão sobre o seu peito. Se moveu devagar no sofá, procurando por Laura, mas ela... Ela não estava. Será que tinha sonhado? Com o corpo dela, a presença dela, será que…?

 

Abriu os olhos. Não tinha sonhado não. Ela estava sentada na mesinha de centro, bem à sua frente, lhe olhando dormir.

E a expressão no rosto dela era… Não deu para definir. Ela estava lhe admirando, sonolenta, envergonhada, cansada…?

 

— Laura…?

— Bom dia, mí amor — Ela abriu um sorriso doce lhe contando que na verdade estava todas as alternativas anteriores juntas. Laura estava uma bagunça. Mas uma bagunça que seguia carinhosa com Ívi.

— Bom dia, amoriño — Ívi se sentou e Laura buscou suas mãos imediatamente, numa sofreguidão imediata — Ei... Tudo bem?

— Ívi, me desculpa, está bem? Pela noite toda, pela situação em que eu te coloquei… — Os olhos aflitos, cheios de coisas, de mais sentimentos do que qualquer coração logo pela manhã era capaz de processar.

— Ei, calma, calma — Ívi a puxou e a abraçou, carinhosamente, a tocando na nuca, por cima dos cabelos — Está tudo bem, não houve situação nenhuma. Eu entendi, a Kelsey também, tudo está bem.

— Eu causei uma confusão enorme, sei que causei. Eu não deveria ter bebido, não deveria ter…

 

Ívi buscou os olhos dela, sem se afastar muito. Ela estava com os olhos molhados.

 

— Laura, você tem um histórico, não pode fazer essas coisas. Nem é por confusão nenhuma, Kelsey e eu estamos bem, o problema é o histórico mesmo.

— A Julia… Contou?

— Ela ficou preocupada. Não queria que você viesse sozinha com a Kelsey porque me disse que quando… Quando acontece o que aconteceu ontem, você fica muito intensa e…

— Fora de controle — Ela respirou muito fundo — Ela disse… Disse da…?

— Reabilitação? Disse e você não tem que ter vergonha disso, você teve um problema, tratou dele, ponto.

— Ívi, não era tão grande assim, mas o Alejandro me internou de qualquer forma. Acho que ele só queria me afastar da Julia por um tempo…

 

Ívi pegou os olhos dela com os seus mais uma vez.

 

— Você acha que não precisava mesmo? Não se afastar da Julia, a outra questão.

 

Ela respirou fundo, olhando para baixo.

 

— Comportamento de viciada, não é?

 

Ívi a puxou para o sofá, a fazendo sentar ao seu lado, a mantendo em seus braços, bem junto de si.

 

— Escuta, meu bem, eu venho de uma realidade diferente da sua. Apesar de trabalhar a noite, eu não bebo, seja porque geralmente tenho que trabalhar de manhã também ou pelo ambiente mesmo, meus amigos de Alagoas também não bebem, é um choque de cultura estar inserida entre vocês agora, que socialmente bebem. Então eu não sei mesmo se tem um problema, se não tem, só é diferente pra mim. Mas quando a Julia citou reabilitação, acendeu uma luz de atenção na minha cabeça.

 

Ela ficou em silêncio por um tempo.

 

— Eu me lembro das coisas, mas não de todas. Eu fiz algo com você que…?

 

Ívi abriu um sorriso.

 

— Que eu não quisesse? Eu nem sei se você consegue fazer algo que eu não queira de verdade, mas… — Disse, a fazendo sorrir.

— Ívi, é sério.

— Não fez não, amoriño. Eu sabia que você ia se arrepender pela manhã.

— Não por ter feito nada com você, você sabe que não seria…

— O caso, eu sei, o caso seria a Kelsey.

 

Outro silêncio. Outro olho no olho.

 

— Você entendeu tudo? Da viagem…?

— Entendi. Entendi sim. Do espaço que você precisa para se dar certeza, a sua necessidade de ir ver a María.

 

Laura apertou os lábios, ela estava muito culpada, dava para ver claramente.

 

— Eu queria… Queria saber se…

— O que você quer saber, meu bem? Pode perguntar.

— É que eu queria saber... — Outra longa respiração — O que eu queria saber é o que trinta e três dias podem fazer com a gente.

Quero dizer, com nós duas, com o que a gente tem agora.

 

Ívi segurava as mãos dela nas suas.

 

— Foi este pensamento que te fez beber? — Ela deu de ombros, desviando os olhos, havia sido — Laura, eu te respondi ontem, antes de você começar a tentar se incendiar de vodca. O que eu te disse?

 

Os olhos dela molharam desta vez, se encheram de lágrimas.

 

— Ívi, você falou comigo como se não tivesse se importado muito, como se isso não fosse fazer nenhuma diferença porque sabe que eu vou acabar voltando de qualquer jeito e...

— Ei, não, não, Laura, por favor, não. Não foi isso que eu quis dizer...

— E eu tampouco quero que você pense que o que eu estou fazendo agora é julgar como você deveria ter reagido ou não — Mais lágrimas engasgadas — Eu sei que a culpa é minha, que fui eu quem tomou a decisão, mas eu não me preparei para ouvir você falando comigo daquela forma, eu não estava esperando e não soube bem como processar. Você tem todo o direito de reagir como quiser e eu mereço qualquer reação que seja...

— Ah, Laura, por favor, é claro que não — Ívi a abraçou para perto carinhosamente — Eu sei que não fui muito delicada com o que disse, mas é que você também me pegou de surpresa, eu não estava esperando ouvir aquilo, mas eu não quis soar arrogante ou me desfazendo de você.

 

Ela limpou os olhos tentando respirar fundo.

 

— Mas é o que você acha que vai acontecer? Não é porque me magoou que eu não gostei daquela resposta...

 

Ívi sorriu.

 

— Você se magoou, mas gostou?

— Eu preciso desses dias, mas tenho medo ao mesmo tempo.

— Por que não quer perder a gente, não é? — Perguntou puxando-a pela nuca, tocando sua testa na dela, a olhando nos olhos.

— Não quero. Mas também não quero que você sofra.

— Mas também não quer que eu não sofra nada, estou entendendo — Abriu um sorriso a fazendo sorrir — Laura, escuta, sem arrogância ou me desfazer de você: Você não vai me deixar. Nem desistir da gente. Você vai e quando voltar, vai ser direto para mim, entendeu? Não sou eu sendo cheia de mim, é o que vai acontecer, galega, você sabe que vai acontecer melhor do que eu. Não precisava beber.

 

Ela fechou os olhos, se agarrando no pulso de Ívi da mão que lhe tocava a nuca porque mais do que qualquer coisa nela, a voz dela lhe excitava o tempo inteiro, principalmente quando ela falava assim, baixinho, tão perto de si.

 

— Talvez por isso precisasse tanto.

 

Foi a cena que Viktoria viu quando saiu do quarto seguida por Kelsey. Se olharam entre elas e o clima de Ívi e Laura foi quebrado por um celular. O celular de Ívi começou a tocar e ela se virou procurando o aparelho, e foi quando viu que não estavam sozinhas. Abriu um sorriso, quebrando o gelo, beijou a testa de Laura enquanto ela disfarçava os olhos molhados e Ívi levantou atendendo o celular. Abraçou Kelsey pelo caminho, deu um selinho em Viktoria antes de ir falar em outro canto. Laura veio até Kelsey, a abraçar, a beijar, se desculpar por tudo, estava tudo bem, ela lhe garantiu, desde que ainda quisesse ir para Londres juntas, estava tudo bem. Laura respondeu a abraçando muito forte. E Ívi voltou pra sala.

 

— Era do estaleiro que eu deixei curriculum semana passada, lembra? — Ívi tinha saído em suas duas folgas para distribuir currículos já visando o final da Olimpíada, precisaria de um outro trabalho — Eu preciso estar lá às dez para uma entrevista.

— Mas a Natalia não disse que vocês vão tocar nas competições de BMX? — No dia seguinte, começariam as disputas de BMX em Deodoro, nos três últimos dias da Olimpíada e tinham sido contratadas para esses dias — Esse trabalho parece pesado demais, Ívi, é para a vaga de funileiro, não é?

— Não é nada que eu não fizesse lá em Maragogi, Laura, fora que eu preciso de dinheiro, você sabe. Eu preciso ir.

— É tão cedo ainda, a Kelsey pediu café da manhã pra gente.

— É que é perto da guarderia, vou aproveitar para ir lá também, eu fiquei de voltar hoje para conversar, as vezes eles precisam de guias extras, é outra oportunidade.

 

Kelsey perguntou o que estava acontecendo e Laura explicou. Daí ela falou com Ívi em italiano.

 

— Toma ao menos o café, a noite destruiu nós duas, eu te deixo onde você precisar para não perder tempo.

— Kelsey…

 

Ela tocou Ívi pelos ombros.

 

— Schelotto, você só quer escapar — Disse sorrindo — Eu estou bem com tudo, Viktoria é só sua ficante, está tudo bem.

 

Talvez ela tivesse um pouquinho de razão. Sobre a parte de querer escapar.

 

Decidiu ficar. Tomou um banho quente, Ívi estava cansada e estava faminta. Queria saber quando ia passar a parte de estar faminta, parecia que nada do que comia era suficiente ao mesmo que não podia gastar tanto dinheiro com comida porque tinha dívidas a pagar, era um paradigma. E tinha Kelsey. Não queria aceitar nada dela por conta de toda a situação, mas de qualquer forma…

 

Ela tinha pedido café para quatro. E para completar, Ívi não tinha o que vestir, seu jeans estava molhado, sua camisa também e cheia de marcas de mão e de batom, não daria tempo de passar em casa e para completar mais ainda, Kelsey era a que tinha roupas e sua mesma altura e medidas parecidas.

 

Só as roupas não eram muito parecidas. Ela lhe ofereceu uma calça jeans de marca americana e um cropped delicado, bonito, branco, todo desenhado em tiras que com muito estilo dava para ver o abdômen aqui ou ali. O abdômen, a tatuagem de Ívi, sabia que tinha ficado lindo, porém…

 

— Kelsey, eu vou para uma entrevista de “reparos navais”... — Disse a última parte sorrindo em português, não tinha ideia de como explicar isso em italiano.

Barcos, eu entendi, mas é que eu não trouxe muitas opções — Ela respondeu sorrindo.

— Harris, você é uma garotinha! — Disse, a fazendo rir demais — Eu não achava que você era tão feminina assim...

— Ei, esta sou eu menos feminina, a Laura prefere o seu estilo, o estilo da Julia, então eu ando tentando ficar mais... Sei lá, urban, alguma coisa assim — Ela confessou sorrindo, ainda mexendo na mala.

— Onde estão suas roupas esportivas?

— Na Vila Olímpica. Espera — Ela abriu o armário, abriu outra mochila e achou uma camisa branca, de botões, comprida — Esta aqui é da Vik...

— Eu não acredito que a Köhler é menos garotinha que você!

— Não é nada, ela usa como vestido — Se defendeu sorrindo enquanto Ívi vestia a camisa por cima do cropped, ela era mais alta que Viktoria, ficou uma camisa normal, que Ívi arrumou abrindo alguns botões — Escuta, põe esse aqui por cima... — Era um terninho feminino, três-quartos, grife italiana, Ívi nem precisou olhar.

— Mas… Kelsey, eu posso estragar essas peças…

— Não se preocupe. Se veste e vem tomar café.

 

Ívi pensou, pensou e, não tinha alternativas. Se vestiu, a calça jeans, a camisa branca aberta, deixando o colo amostra, seu colar de pena sempre, colocou os saltos, arrumou os cabelos como pôde, terninho italiano repuxado até perto dos cotovelos e quando pisou fora do quarto…

 

Uau.

 

Laura apertou os lábios e o “uau” se escreveu pelo seu rosto inteiro, pelos olhos puxados feito um imã, a boca que ficou aberta e a respiração que quase esqueceu de deixar fluir. Ívi estava… Un absurdo. A ponto de desconfigurar o cérebro de Laura e fazê-la pensar em espanhol. Como podia ficar bonita de tantas formas diferentes? Ívi veio e sentou-se na mesa onde o café já estava servido.

 

— Tudo bem? — Perguntou, vendo que Laura estava lhe olhando esquisito.

Todo bien, se pasa que… — Outro sorriso — Estas un absurdo, Ívi… Todos los días estas un absurdo, pero hoy... — Respirou fundo — Yo nunca te vi así, en este estilo, tu belleza esta un disparate diferente…

 

Ívi achou que entendeu.

 

— A mágica das roupas de grife da sua namorada… — Respondeu a fazendo rir e reiniciar a sua ordem cerebral.

 

Ívi tomou café e na hora de ir, Kelsey lhe chamou um táxi.

 

— Kelsey, eu vou de metrô, não precisa…

— Vai de táxi que esses saltos podem te machucar. Boa sorte. E, obrigada.

 

Devia ser “obrigada por estar deixando a Laura para mim um dia inteiro porque você tem que procurar emprego", mas tudo bem, aceitou, porque irritantemente, Kelsey era uma garota incrível. Ívi se despediu de Viktoria com um beijo longo, cheio de sorrisos, não sabia se a veria novamente, mas gostaria de vê-la, quem sabe ainda teriam um tempinho juntas antes dela voltar para a Europa. Beijo na testa de Laura, aqueles olhos nos olhos de sempre e só então entrou no carro.

 

Foi bem particular aquela uma hora até a Barra. Já tinha perdido a hora de passar na guarderia, mas não tinha problema, podia ir outro dia, sua cabeça estava em um estado de flutuação esquisita, precisava fazer seus pensamentos pousarem antes de qualquer coisa. Ívi sabia que estava cansada e que as noites principalmente andavam sendo intensas, mas também não era apenas isso. A verdade é que tinha dito muitas meias-verdades e a verdade de como estava se sentindo na real passou batido total. Lhe incomodava a ideia de Laura ficar tanto tempo fora. Lhe incomodava que fosse com Kelsey e que Ívi não se sentisse o suficiente para entrar na briga de fato. Laura precisava de equilíbrio, estabilidade e, precisava voltar pra Europa.

 

Precisava ver sua irmã mais nova porque não a ver estava a consumindo completamente e pelo que conversou com Julia aquela manhã, ela temia que Laura voltasse a ter problemas por causa de outra angústia grande causada pela situação de La Mari. Ela precisava ir, ponto. Ívi não tinha o direito de evitar. Menos ainda sabendo o jeito que ela olhava para Kelsey e sabendo que Kelsey era Kelsey, uma menina boa, educada, sempre tão gentil e com uma mente tão aberta e compreensiva.

 

Então parte de si queria mesmo magoar Laura na outra noite porque em partes, Ívi estava mesmo magoada, mas parte de si também sabia que dada a situação, não podia culpá-la por estar tentando fazer as coisas darem certo com Kelsey.

 

Chegou ao seu destino, ajustou suas mangas, arrumou os cabelos de novo e levou uma hora inteira de espera num escritório gelado, de frente para uma secretária impaciente, vendo homens e homens entrando e saindo da sala de entrevistas enquanto não conseguia parar de pensar em Laura. Na noite. No que poderia ter acontecido se tivesse, sei lá, só a beijado. Um beijo só. Cada vez que ela falava em seu ouvido pedia um beijo, não pedia para ir pra cama nem nada, só pedia um beijo e agora fazia sentido. Ela estava com medo de perder Ívi antes de um único beijo e pensar nisso lhe deixava numa angústia tão grande que nem sabia. Se curvou sobre o seu corpo, fechando o terninho ainda mais porque o frio daquela sala estava lhe apertando inteira junto com a angústia.

 

— Ívi Matis Schelotto — Uma moça bonita e mal-humorada abriu a porta da sala de entrevistas e a chamou.

— Aqui — Ívi se colocou de pé e caminhou até ela.

 

E ela lhe olhou dos pés à cabeça imediatamente.

 

— Para a vaga de funileiro naval?

— Isso.

 

Ela baixou a prancheta e do meio do mau humor, surgiu um sorriso.

 

— Menina, isso é sério?

 

Ívi se deu conta. Abriu um sorriso também.

 

— Olha, as roupas não são minhas, são emprestadas, eu não estava em casa quando me ligaram e acabei tendo que… Bem, são de uma amiga — Outro sorriso.

Amiga, ok — Ela lhe olhou um pouco mais — Jura pra mim que por baixo dessas roupas finas tem uma funileira?

— Sou técnica em construção naval e tenho muita experiência em funilaria, prometo que sei do que estou falando.

 

Ela lhe olhava ainda incrédula.

 

— Tudo bem, vamos conversar.

 

A conversa foi muito boa. Ívi tinha boas referências, tinha pedido que sua mãe lhe conseguisse cartas de recomendação pelos estaleiros que tinha passado, ela conseguiu sem grandes dificuldades, Ívi sempre tentou trabalhar direito em todos os lugares pelos quais passou. Seu conhecimento de funilaria tinha iniciado muito antes de começar a estudar a área, sempre foi a assistente de seu pai e com ele aprendeu tanto quanto em sua escola técnica. Mas a moça do RH ainda não parecia muito convencida.

 

— Olha, menina, seu curriculum é bom, a sua conversa também, mas antes de te passar para a outra fase, eu queria propor um teste.

— Qualquer teste, o que você quer que eu faça?

 

Ela lhe levou até um vestiário e a convidou a trocar de roupa.

 

— Eu quero que você tire essa sua roupa de grife e vá até o estaleiro, porque tem um casco enorme de lancha para ser entregue hoje e eu não tenho gente suficiente para fazer isso. O que você acha?

 

Tirou os saltos na hora, vestiu a camiseta que ela lhe entregou, calçou as botas de proteção e foi lá para fora imediatamente.

 

E não dava para acreditar no tamanho da lancha! E só tinha um senhor trabalhando nela e, ele lhe trouxe uma emoção imediata porquê…

 

— Então você vai ser a minha assistente? — Ele lhe recebeu sorrindo.

— Para o que você precisar — Ele parecia com seu pai.

— Olha essa lancha! Nós temos exatamente cinco horas para deixar tudo pronto, o que você acha?

 

Achava que podiam conseguir sim. Foi uma tarde exaustiva, mas ao mesmo, uma tarde que conseguiu fazer Ívi parar de pensar em Laura ao menos por algumas horas. Naquele estaleiro, perto do mar, conversando com alguém que parecia com seu pai, Ívi se sentiu reconectada com aquela parte sua. Foi uma tarde longa, em que repintou o casco de uma lancha enorme conversando com aquele carioca que era extremamente agradável e boa gente. Que lhe contou que tinha uma filha bonita como Ívi, mas que nunca a imaginou selando um casco com ele. Ívi colocou uma máscara de proteção outra vez, sentiu o cheiro de tinta náutica, almoçou uma marmita sentada na areia olhando para o mar e notou o quanto a calça de marca de Kelsey estava suja. Teria mesmo que trabalhar para ao menos pagar a calça que tinha estragado. Voltaram para o trabalho duro e pouco antes das cinco, pronto, o casco estava pronto!

 

Trocou um abraço com seu companheiro de trabalho e voltou para a recepção para encontrar a moça mal-humorada.

 

— Agora você parece apta para este serviço!

— Você parece mais feliz me vendo assim agora — Respondeu sorrindo. A calça estava detonada, os pés com botas de proteção, a camiseta suja de thinner, cabelos amarrados num rabo de cavalo, mas ok, ela parecia mais feliz mesmo em lhe ver assim.

— Eu estou! Vai ser ótimo ter uma menina como você trabalhando lá fora, dá representatividade, sabe? Vamos lá, eu vou te explicar como funciona…

 

Ela lhe explicou que não era um emprego mensalista, sim, horista. Que iria lhe chamar sempre que precisassem de uma mão extra e ela tivesse disponibilidade. Bem, era melhor do que nada, Ívi assinou o termo e ela lhe entregou um cheque para descontar na tesouraria e lhe confidenciou que Ívi seria o seu contato preferido. Queria aquela empresa cheia de mulheres e Ívi ficou extremamente feliz. Sua hora de trabalho valia R$23,50. Recebeu R$117,50. Tinha saído sem uma mochila que fosse, então teve que pendurar a camisa de Köhler em sua calça, o terninho italiano de Kelsey em seu braço, trocou os saltos por uma Havaiana que comprou no caminho, saltos pendurados nos dedos e foi para o metrô, não estava muito longe de casa e a noite cairia em breve. Suas mãos estavam ardendo, suas costas quebradas, mas sua mente estava leve, fresca, foi bom se sentir em casa em alguma coisa novamente. Colocou seus fones de ouvido no metrô, sentindo uma sensação ótima por dentro, ouviu algo sobre Kelsey ter que voltar pra Vila Olímpica e talvez Laura estivesse em casa quando chegasse? Sorriu, estava com saudades dela, queria fazer as pazes com calma, tinha ficado furiosa, mas já tinha passado, agora só queria mesmo ficar bem com ela porque ficar longe um mês inteiro, já seria difícil demais por si só.

 

Desceu do metrô e algo lhe chamou atenção. Viu alguém comendo o bolo de pote que Laura gostava em plena seis e pouco da tarde! Parou a pessoa e educadamente perguntou onde ela tinha comprado o bolo naquele horário. Andou algumas ruas para trás e pronto, lá estava! Uma pequena loja familiar que vendia os tais bolos que Laura jurava que só podia encontrar à noite.

 

Comprou três bolos, um para cada fiozinho seu que morava naquele apartamento e ao qual já era tão, mas tão apegada. Comprou também um para si e dois para Laura, ela adorava o de chocolate com coco e o de cenoura também e, na saída da loja, do outro lado da rua, avistou uma grua de pegar pelúcia cheia de personagens da Disney. Atravessou até lá e, R$5,00. Quem podia comprar um bichinho fofo de pelúcia por R$5,00? Era o melhor negócio possível, que melhorou mais ainda quando lá no canto, Ívi avistou uma pelúcia do Simba filhote. Então, Laura esquisita e amante dos livros de horror, também era apaixonada por filmes de animação, tinha todos os clássicos antigos e todos os novos clássicos, era uma coleção de respeito e totalmente inesperada, que ficava enfileirada ao lado dos seus livros obscuros. E o filme preferido de Laura era O Rei Leão.

 

Colocou R$5,00 na máquina na qual era especialista, tinha desenvolvido uma técnica durante a faculdade de engenharia desvendando as tais máquinas de grua, tinha uma chance, uma única chance, os controles em suas mãos, os olhos atentos, o tempo correndo e, baaaam! Pelúcia! E não qualquer pelúcia, ganhou o Simba filhote que tanto queria! Resgatou seu prêmio feliz da vida, comprou um sorvete para si mesma, comprou margaridas numa banca na esquina, um ramalhete simples com cinco flores, adorava isso no Rio, esta facilidade de encontrar flores bonitas quase em qualquer esquina. Caminhou pra casa, tomando o seu sorvete e quando passou por uma papelaria, viu algo muito legal! Sua última compra do dia, se prometeu, “O Gato” do livro Coraline em forma de chaveiro. Ficaria lindo no bonsai do quarto. Arrumou tudo dentro da sacola de papel onde estavam os bolos e seguiu para o apartamento. Já tinha anoitecido quando chegou. Entrou, chamou o elevador e quando a porta abriu…

 

O troco nunca veio tão rápido.

 

Era Laura e ela estava… Deslumbrante. De tirar o fôlego, o discernimento, a consciência de qualquer um. De vestido branco, justo, saltos altos, um elegante casaco nos braços e nunca na vida, o coração de Ívi tinha dado um tranco tão grande por causa de uma mulher. Ou qualquer outra coisa. Não lembrava. Primeira vez. Quase tropeçou nos próprios pés.

 

— Ei, você voltou!

— Voltei e… — Respirou fundo, seu coração disparado, os olhos em cima dela, o sorriso que não conseguia deter — É um Domenèch?

— O resto daqueles dois vestidos que a Thai fez esses dias — Ela respondeu sorrindo, linda demais. Eram dois tecidos, dois tons de branco, as costuras criando linhas de alta costura inacreditáveis, as cores se completando demais.

— Laura, para onde você está indo? E ainda linda desse jeito, meu Deus... Você não pode sair por aí assim, menina, é cruel com os outros… — Disse, a fazendo rir.

— Eu vou... — Abriu um sorriso, Ívi estava toda suja, queimada de sol e seguia linda, queria entender a mágica — Eu vou jantar com os pais da Kelsey.

— Com os pais...? — Ívi abriu um sorriso nervoso, apertando as coisas que tinha trazido nas mãos — Que... Que evolução.

— Então, ela está vindo me buscar, disse que está chegando. Deu tudo certo na entrevista pelo que eu estou percebendo!

— Tudo mais ou menos certo, consegui um contrato de horista e comecei hoje mesmo, trabalhei cinco horas, ganhei algum dinheiro e...

 

Os olhos dela bateram nas flores que escapavam da sacola de papel nas suas mãos.

 

— Flores?

São suas. Eu te comprei umas coisas…

 

Ela abriu um sorriso lindo e empolgado.

 

— Umas coisas? Que coisas?

— Você... — E Kelsey chegou, de Mercedes Benz — Você vê quando tivermos um tempo juntas, não se atrasa, bom jantar para você.

 

Laura não se moveu.

 

— Nem um beijo? Yo soy a que no te dejas, te acuerdas?

 

Daí foi Ívi quem sorriu. É claro que lembrava.

 

— É que eu estou suja e... Dane-se — Ívi beijou a mão dela com carinho — Bom jantar. Você está... Linda demais. Eu estou toda perdida — Abriu outro sorriso.

— Eu ao menos me arrumei, eu estou toda perdida por você de Havaianas e suja de thinner, o meu caso é muito pior...

Sorrisos trocados, olhos brilhando, uma vontade de ficar junto que não atingia apenas um lado da equação. E Laura tinha que ir. Ela beijou a mão de Ívi de volta e caminhou para o carro, linda, superbem arrumada, cheirosa, elegante, em direção à Mercedes onde a namorada a aguardava. A tal namorada que Ívi sequer conseguia torcer contra. Kelsey desceu do carro para acenar para Ívi e beijar a testa de Laura, para dizer o quanto ela estava linda, para abrir a porta para ela tão bem arrumada quanto, de calça preta, jaqueta de couro, o par perfeito. Ívi subiu suspirando. Ainda que não fosse parte do tal par perfeito que viu partindo de Mercedes.

 

Se prometeu naquele momento que um dia, iria levar Laura para jantar assim. Exatamente daquela forma.

 

Entrou no apartamento, Julia estava dormindo no sofá, Karime estava na faculdade e Thai trabalhando, mais dois vestidos, uma capa para e-book, era de Laura, ela tinha começado e Thai estava finalizando, estavam numa fase boa de conseguir dinheiro. Elas tinham este tipo de conexão, tão afinada que eram capazes de terminar desenhos uma da outra sem que ninguém notasse. Beijou os cabelos de Thai, deixou os bolos de pote das meninas sobre a mesa, um dinheiro na cestinha da cozinha, tinham uma cestinha onde colocavam dinheiro para coisas do dia a dia e que geralmente, estava vazia. Pronto, deixou trinta reais, daria para alguns cafés da manhã. Entrou no quarto, deixou os presentes dentro da sacola sobre o criado-mudo e tomou um banho longo, sem pressa, com a imagem de Laura alto padrão em sua mente. Ligou para sua mãe, perguntou como ela estava, contou que tinha feito um depósito na conta dela, para que não trabalhasse ao menos dois dias, para que se recuperasse, era parte do dinheiro que tinha ganhado fazendo a final do vôlei de praia. E então, ligou para sua irmã.

 

— Ívi, está tudo bem mesmo? A sua voz está tão... Aconteceu alguma coisa? — Tiziana sempre conseguia lhe sentir, nem precisava estar lhe vendo, ela sempre sabia.

— Está tudo bem sim, é só que...

Laura, eu imagino.

 

Ívi sorriu.

 

— Então. Ela é comprometida, você sabe, então... Enfim. Eu vim até aqui para trabalhar, eu não posso ter espaço para isso.

— Sei. Porque claramente a gente decide essas coisas, é claro que sim...

 

Conversaram um pouco mais e era sempre muito bom falar com sua irmã, porém ainda assim, não funcionou muito naquele momento. Desligou a ligação e as luzes do quarto, pôs uma música para ouvir baixinho no celular e quando Julia apareceu na porta, Ívi estava literalmente olhando para o nada jogada na cama.

 

— Ívi?

— Hum?

— Não tem como deixar esse cenário mais depressivo, sabia?

 

Ívi respirou fundo. E Julia veio sentar-se na cama perto de si.

 

— Está tudo bem?

— Eu... Eu não sei — Respondeu sorrindo porque não sabia mesmo. Estava feliz e estava meio para baixo, mas não porque Laura tinha saído com Kelsey, era mais porque Laura não pôde ficar consigo em casa, fazia pouco sentido, daí deixou pra lá — Vocês conversaram?

— Conversamos sim. Sobre todas as coisas, eu sei que me comportei mal ontem, mas quando eu ouvi que ela ia viajar com a Kelsey... Eu só ouvi essa parte. Mas tem a La Mari e eu sinceramente não sei. Me aliviou saber que ao menos a Laura vai poder vê-la.

— Eu sei que ela está preocupada com a María, sei também que ela precisa de um tempo com a Kelsey, eu só não sei bem como… Como vai ser vê-la indo, sabe?

— Sei — Ela abriu um sorriso lhe tocando a mão com carinho — Eu sei sim. Escuta, eu vou fazer uma jantinha pra gente, tá? Eu vi que você trouxe a sobremesa e depois podemos tocar um pouco e pensar no que vamos fazer amanhã! — Ela falou animada, querendo e conseguindo animar Ívi um pouquinho — Sabia que temos um palco?

— Sério?

— BMX, o esporte é novo na Olimpíada, querem fazer tudo bem moderno. Descansa que eu vou fazer algo potente que eu sei que você deve estar morta de fome, você sempre está...

 

Mais sorrisos, ela foi fazer o jantar, Ívi descansou um pouco, ouviu suas músicas, viu as milhares de fotos que já tinha de Laura no celular, sofreu um tantinho mais, a jantinha ficou pronta, uma delícia, Julia também cozinhava muito bem e a noite com ela foi bem relaxante. Tocaram juntas, gravaram um vídeo para o canal, leram os comentários, se divertiram porque Ívi oficialmente parecia mesmo a namorada de Julia Torre, principalmente depois que postaram a música que Ívi tinha cantado na noite passada, com Julia lhe cantando no ouvido para lhe deixar calma. Nem viram a hora passar. Karime chegou, Thai terminou os desenhos e perto das onze, Ívi foi para o quarto tentar dormir.

 

Só tentar mesmo. O sono não vinha apesar do seu cansaço. Ficou virando de um lado para o outro naquela cama que tinha o cheiro de Laura, tentando relaxar, encontrar algo que lhe fizesse dormir e quando finalmente parecia que ia pegar no sono...

 

— Laura?

— Ei — Ela abriu um sorriso tirando os sapatos, ela tinha acabado de entrar no quarto — Eu não queria te acordar.

— Eu achei que você ia dormir com a Kelsey!

— Não, ela teve que voltar pra Vila Olímpica. Tem milhares de entrevistas para dar, tem o time dela, o encerramento depois de amanhã, enfim, muitas coisas — Sentou-se na cama.

— Eu... — Sorriu novamente, estava tão feliz de vê-la em casa! — Eu nem fiz a minha cama no chão, eu achei que você ia dormir com ela.

— Não precisa de cama no chão, eu não quero dormir no chão.

— Oi?

— Eu provavelmente vou atrás de você se dormir no chão — Ela confessou, lhe olhando nos olhos — Eu fui atrás de você lá no hotel e, eu não sei, acho que preciso voltar ao médico, o meu sonambulismo está bem mais forte ultimamente.

 

Ívi mordeu um sorriso.

 

— Você não tem ataques quando dorme comigo...

 

Ela não resistiu a rir e lhe sorrir de volta.

 

— Convencida. Espera, você disse que me comprou coisas!

— Não é nada demais, é que...

— Minhas coisas, amoriño, por favor?

 

Outro sorriso. Mas é que depois de Kelsey chegar de Mercedes, Ívi se sentiu quase ridícula com seus presentinhos. Mas se Laura queria tanto...

 

— Então, eu achei o lugar que faz aqueles bolos de pote...

— Você achou? Como assim achou? Só vende de madrugada!

— Não, aquele cara vende de madrugada, mas compra de um lugar que fica bem pertinho daqui — Pegou a sacola de papel com o que tinha comprado — Então eu te comprei esses aqui e tinha uma máquina de bichinhos de pelúcia...

— Eu não acredito — Ela resgatou o pequeno filhote de Simba de dentro da sacola e imediatamente o abraçou contra o peito — Ívi, olha pra ele! — Abriu outro sorriso, vendo o quanto o bichinho era fofo! — Espera, você ganhou naquelas máquinas que ninguém ganha?

— Eu te disse que é a minha especialidade. Eu achei que você fosse gostar deste aqui depois daquela maratona de O Rei Leão que você me fez assistir...

— Você adorou! — Os olhos brilhando, o sorriso aberto.

— Pode ser que tenha gostado, coisa pouca. E você viu o chaveiro...

Coraline! É O Gato, olha que lindo, terrível e assustador ele é...

 

Ívi riu, era tudo isso mesmo.

 

— Eu achei que você fosse gostar — Respondeu sorrindo e vendo aqueles olhos caindo sobre as flores — São suas também.

 

Mais luz surgiu por aquele rosto.

 

— Margaridas?

— Às vezes você é romântica que se envergonha...

 

Mais risos, mais Laura lhe olhando tão bonita, tão dócil, tão cheia de luz. Ela pegou as flores, lhe olhou nos olhos um pouco mais, ela estava diferente, dava para ver, sentir, só não dava para ter certeza do motivo.

 

— Espera — Ela saiu do quarto e voltou com dois garfos, pegou o outro pote e entregou para Ívi — Come comigo.

— Eu já comi um...

— Come outro, vamos — A fez sentar na cama, ficando bem pertinho dela — Come comigo, ultimamente eu só como esses bolos com você, come comigo.

 

Como se Ívi resistisse a qualquer pedido dela. Pegou o bolo de cenoura e Laura deu um jeito de se agasalhar em seus braços.

 

— Agora me conta do seu dia direito. Como foi no estaleiro, como é o trabalho? Me fala se você curtiu, se deu tudo certo...

 

Ela queria saber de seu dia de derrotada e Ívi nem sabia. Comeram bolo juntas, porque aparentemente, Laura não tinha comido quase nada no tal jantar, conversaram, riram, Laura ficou feliz que tivesse dado certo no estaleiro, feliz que ela tinha encontrado sua fábrica de bolo de pote preferida no mundo, que tivesse ganhado um Simba filhote para si e lhe comprado um chaveiro assombrado, e cinco margaridas. Adorava flores, chaveiros, O Rei Leão e seus bolos de pote de madrugada, nada poderia ter lhe feito mais feliz no final daquela noite. Então foi tomar banho e quando voltou, veio direto para os braços de Ívi, cheirosa, geladinha, toda apegada. E a rapidez com a qual ela pegava no sono era quase tão grande quanto com a qual ela começava a entrar em sonambulismo.

 

Mas ela não levantou, sequer se moveu, apenas falou. Primeiro, muito baixo, tanto que Ívi mal pôde ouvir e então, um sussurro mais claro, mais denso, mais bonito.

 

No me dejas, Ívi... Tu no me dejas...

 

E Ívi esperava de todo o seu coração que sonambulismo tivesse alguma relação com pensamentos perdidos e suprimidos no cérebro, ou simplesmente pudesse ser produto de alguma partícula perdida saída do coração.

 

Três dias voaram, passaram num piscar de olhos. O final da Olimpíada se aproximava e pouco a pouco, a rotina delas ia se encaixando de volta ao que era, menos a de Ívi com Julia. Fazer os três dias do campeonato de BMX foi extremamente divertido! Uma experiência única que por muitos motivos, Ívi não ia esquecer e um desses motivos foi que, naqueles dias, tinha conseguido transformar Julia numa verdadeira cantora de rock! Elas se divertiram demais, fizeram do campeonato de BMX quase um festival de música e o presente final foram ingressos para assistir à cerimônia de encerramento no Maracanã. Correram para o VLT e enquanto corriam para pegar o trem, Julia a parou.

 

— Ívi, espera, escuta: você vai levar a Laura.

— Como?

— Eu vou te dar o meu ingresso e você vai chamar a Laura para ir com você, ela está louca para ir, quer ver a Gisele...

— Gisele Bündchen?

— Ela adora a Gisele e, me escuta, guapa, me escuta bem: — Tocou o rosto de Ívi com ambas as mãos, olhando em seus olhos — Dá o seu jeito de fazer a Laura desistir. O voo é amanhã à tarde, você tem que fazer alguma coisa, entendeu?

— Eu achei que você tinha concordado que era melhor ela ir!

— Melhor pra La Mari, porque pra mim não é e eu já estou surtando de novo! Ívi, só faz alguma coisa, qualquer coisa, a gente vai dar um jeito de mandar a Laura para a Espanha, a gente trabalha duro, junta algum dinheiro, eu não sei, eu só... Não estou pronta. Eu tenho um pressentimento ruim quando penso nessa viagem...

— Você só está assustada, Julia...

— Talvez. Não muda. Eu não quero que ela vá embora, você também não, você tem que fazer isso, Ívi.

Juls...

— Liga, Ívi. Liga agora.

 

Ívi respirou muito fundo. E antes de entrar no trem, ligou para Laura, contando dos ingressos, perguntando se ela queria ir consigo com o coração tão nervoso que dava vergonha. Ela ficou empolgada do outro lado e disse que já estava indo pra casa, que estaria pronta quando Ívi chegasse e Ívi nem sabia. Estava ansiosa, nervosa, tudo ao mesmo tempo, o que queria e o que achava que não tinha direito de fazer, mas ver Laura fazendo as malas pela manhã tinha quebrado seu coração, então...

 

Bem, ao menos finalmente, a levaria em um encontro.

 

Chegaram e ela já estava pronta, empolgada, linda demais, de vestidinho preto, justo, outro Domènech feito de sobras, os cabelos soltos, bem penteados, maquiagem leve, perfeita, toda cheirosa, saltinho nos pés, o colar celta enrolado no pulso e ela correndo para Ívi assim que entrou, perguntando se iam mesmo, se era sério e Ívi sorrindo muito boba, dizendo que era, que só ia tomar banho e se vestir. Fez isso rapidinho, mas pensando muito bem em cada coisa. Calça de couro preta e procurou uma determinada camisa swag também preta, encontrou, a vestiu, amarrou a camisa preferida de Laura na cintura e vestiu sua jaqueta jeans por cima, aquela estilosa que repuxava até os cotovelos, Ívi sabia muito bem como usar suas sobreposições, botas nos pés, desgrenhou os cabelos, maquiagem leve, olhos bonitos, alongados, afiados, uma longa respiração.

 

Era a primeira vez que iria sair sozinha com ela. Explicava seu nervosismo. Não anulava a vontade de fazer Laura perder o ar quando lhe olhasse. Ívi só sabia que aquela era a sua noite e que de jeito nenhum ela iria escapar.

 

Saiu do quarto e Laura...

 

Suspirou. Audível o suficiente para Ívi ouvir. Aquele estilo todo lhe deixava toda perdida. A jaqueta larga, a calça justa, sua camisa preferida, o pingente indígena pendendo no peito dela, suspirou de novo mesmo sem perceber.

 

— Pronta?

— Pronta — Beijou a mão de Laura e sem soltá-la, foi a levando para a porta — Você está linda, amoriño, deveria ser proibido... — Beijou a mão dela de novo a fazendo sorrir.

— Está usando uma compilação de todos os nossos primeiros encontros?

— Eu achei que você fosse gostar.

— E me desnortear — Disse, agarrando na jaqueta de Ívi pela primeira vez na noite. Ela estava tão cheirosa, Laura simplesmente adorava o perfume dela — Você realmente está me levando para um encontro vinte e quatro horas antes do meu voo, Ívi?

 

Ívi parou, olhando bem para ela.

 

Perdona, mí amor. Mas eu tenho que lutar.

Notas do Capítulo:

 

Olá, moças!

 

Adivinhem quem está de volta? Este ser humano! Que adora postar capítulos em horários temáticos, que quase não dá spoilers, que não conta quase nada, Tessa está de volta, depois de uns dias corridos, que me deixaram meio aturdida e impossibilitada de escrever nossas notas haha.

 

Alguns capítulos se passaram neste período e queria voltar rapidinho em "A Coroa", momento em que nossa Kelsey Harris se consagra campeã olímpica. Eu não sei se alguma de vocês percebeu, mas o caminho da Kelsey foi idêntico ao caminho da equipe da Grã-Bretanha nos Jogos Olímpicos Rio 2016 ^^. Fiz questão que assim fosse, porque caí de paixão por aquela equipe e se tiveram a chance de assistir ao menos os melhores momentos da final olímpica, entenderão os motivos pelos quais eu caí de amores pelas britânicas e por que uma delas acabou sendo uma das minhas personagens preferidas de 6 AM ♥.

 

Falando um pouco agora do capítulo de hoje, o amor surge nas menos inesperadas das situações, às vezes nos esbarra sem querer, nos alcança a distância, tropeça na gente num metrô lotado em que seu coração ocupado jamais estaria procurando por outro morador. Mas encontra mesmo assim. É o caso da nossa Laura e como paixão não lê estado civil, aqui estamos, com nossa galega mais do que dividida entre duas garotas maravilhosas tão irremediavelmente, que ela sequer sabe direito onde seu coração bate mais forte. Abracem a minha galega, a situação dela não é fácil e diante de grandes protagonistas como Havana Exposto, Chloe Krähenbühl, Rafaela Iglesias e Diana Ferraz, prometo que Laura Bueno senta nesta mesa de jantar entre elas e não faz feio em nada que toca complexidade e bom coração ♥

 

E agora, moças, alguma aposta para o que acontecerá? Próximo capítulo, "Primeiro Encontro", já sabem as regras! Não é por nada não, mas se eu fosse vocês, garantia, viu ;).

 

Abraços!

 

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