6 AM - Capítulo 20 - Primeiro Encontro

10/8/2019

 

 

Estava uma noite relativamente fria. As mãos de Laura agarradas no braço de Ívi estavam levemente geladas e durante o caminho para a estação, ela também se deu conta de que desde quando se encontraram naquele metrô, era a primeira vez que tinham a oportunidade de estarem sozinhas. Sempre havia alguém junto delas, sempre tinham companhia e estarem sozinhas completamente pela primeira vez, estava deixando as duas ansiosas de uma maneira engraçada.

 

— Eu estou nervosa como aquele dia no metrô, é sério — Ívi dizia a ela enquanto já estavam caminhando com a multidão para os portões do Maracanã.

— Você me achou meio maluca, não achou? — Laura ia agarrada no braço dela, bem juntas, sorrindo o tempo todo.

— Juro que não achei, é que, veja o meu lado, eu estava ali, desesperada, sem conseguir parar de chorar, sem ter onde dormir e por um minuto, tudo desapareceu quando você entrou. Você roubou a minha atenção completamente, uma coisa linda, que surgiu do nada e então eu te perco de vista, volto para o meu desespero e de repente, você — Outro sorriso — Segurando os meus pulsos, me pedindo para ficar calma, eu fiquei achando que sei lá, estava tendo uma alucinação...

 

Mais sorrisos de Laura.

 

— Eu te vi no momento que entrei. Daí fiquei olhando para o celular para disfarçar, mas quando você começou a chorar, não deu, eu precisava ter certeza que você estava bem, foi um impulso...

— E eu já percebi que você não curte muito esse negócio de ter impulsos.

— Impulsos sempre me deixaram em situações complicadas.

— Sei, eu já percebi essa parte também. Laura, sabe o que é mais interessante sobre você? Você não tem nada a ver com a menina que eu achava que você era aquela noite, nada. Você parecia tão organizada, tão clean...

— Daí você descobre que eu sou uma bagunça total.

— Você não é uma bagunça, mas confesso que é bem inesperada em algumas coisas. E é muito melhor que assim seja, porque eu me aproximo de você um pouco, ao menos nesse tantinho de bagunça, sabe? A gente nivela. Esses dias têm sido particularmente meio difíceis para mim, por causa da aproximação da Kelsey e da Viktoria. Não é por elas, elas são maravilhosas, eu adorei compartilhar esse tempo com elas, mas... Olha o que elas têm quase na mesma idade que eu. E olha eu aqui, sobrevivendo só porque você apareceu para me ajudar.

— Eu já te disse que não é assim, Ívi, você precisava de ajuda aquela noite, eu te ajudei com a única coisa que conseguia...

— Um quarto, um banheiro, uma vitamina de banana e um queijo quente — Disse, a fazendo rir.

— Exatamente!

— Você disse que tinha feito o lanche para as garotas, mas não foi, não é?

— Eu fiz só pra você, porque sabia que deveria estar com fome, mas não sabia como te oferecer.

— Você foi tão sensível. Sabia que eu precisava de um banho, sabia que eu estava com fome e não queria que eu me sentisse constrangida por nada disso.

— Eu não queria. Queria que você se sentisse à vontade com a gente. Ívi, você já parou para pensar no que teria feito caso eu não te trouxesse pra casa?

— Eu não sei, eu ia dar um jeito de sobreviver aquela noite e ia tentar vender meus instrumentos pela manhã, comprar uma passagem e voltar pra casa, devia ser o meu melhor plano.

— Foi o que eu imaginei que você fosse fazer. Mas então... — Ela hesitou um pouquinho — Eu tive um sentimento instantâneo por você. Eu queria você perto antes mesmo de saber o seu nome, fue muy raro, no haces idea.

 

Ívi apertou os lábios olhando para ela. E a puxando mais para perto ainda, deixou um beijo no canto da testa dela, se demorando ao cheirar aqueles cabelos em seguida porque tinha adorado ouvir aquilo.

 

— E você ainda acha que vai escapar de mim, não é? — Respondeu, leve, doce, fazendo Laura gargalhar.

 

Pegaram uma longa fila, mas conseguiram entrar antes de começar e assistir à cerimônia de encerramento foi uma experiência muito especial. Laura surtou ao ver Gisele desfilando, surtou com todas as apresentações, sempre agarrada em Ívi, sempre com as mãos dela por perto, o riso, os olhos brilhando, aquele bom sentimento apenas se espalhando pelas duas. Ívi nunca tinha entrado num estádio de futebol, menos ainda em um tão gigantesco! Laura lhe contou que costumava ir no Santiago Bernabéu quando Alejandro ainda lhe chamava de filha e foi a primeira vez que Ívi notou aquela dorzinha dentro dela.

 

O desfile dos atletas foi uma festa e ver Laura buscando por Kelsey há metros e metros de distância contava a Ívi aquela outra parte incômoda, que tocava o que Laura sentia por Kelsey. Foi um lindo encerramento, em que riram, surtaram e que juntas e apenas elas duas, se divertiram demais. Ficaram tristes quando acabou, não apenas porque o show tinha acabado, mas porque a Olimpíada tinha acabado, Haíz tinha acabado junto? Foi um pensamento que deixou Ívi um tanto triste, aqueles jogos tinham sido mágicos, nunca esqueceria, nunca. Era disso que falavam quando deixaram o Maracanã.

 

— Eu vou sentir muita falta, de verdade, porque o que Julia e eu fizemos não pode ser refeito. A gente nunca mais vai tocar numa final olímpica, Laura, e nós tivemos a honra de tocar em três, porém, foram oportunidades únicas.

— Mas ainda podem continuar tocando juntas se quiserem. Ívi, a química de vocês é insana. A Natalia está com isso na cabeça, de não deixar vocês pararem aqui.

— Mas como seria? Eu sou da música eletrônica, de tocar em boates e a Julia é dos acústicos em barzinhos, tipo, em que mundo a gente se encontra? Numa olimpíada, é claro, um cenário único, que não vai se repetir mais — Comentou sorrindo.

— Ívi, vocês estão fazendo o que ambas fazem ao mesmo tempo. Quando você assume a sua pickup, a Julia vira a sua cantora, quando ela te puxa para o palco, você se torna a cantora dela e as duas coisas ficam lindíssimas, funcionam muito bem. Você sabe exatamente quem você é, ela sabe exatamente quem ela é e está sendo muito divertido descobrir quem vocês podem ser juntas. Se tiver que durar mais, deixa durar. Falando na Julia, ela me disse que você finalmente conseguiu o dinheiro para pagar aquela conta.

 

Ívi abriu um sorriso.

 

— O dinheiro do hostel, sim, enfim!

— E por que você já não foi lá? Acabar com essa história que te perturba tanto?

— Eu não sei, eu estou um pouquinho nervosa de aparecer lá de novo, sabe? Não sei bem o que dizer, como me desculpar, se vão me deixar falar, sei lá, você disse que ia comigo.

— E eu vou com você, aliás — Checou o horário — Por que a gente não vai comer um x maravilhoso que tem na Vila Isabel e depois vai até lá?

— No hostel?

— É uma casa de show também, não é? Então vai estar aberto quando a gente terminar de jantar, o que acha?

Ívi abriu um sorriso enorme. É claro que podiam ir! Estava morrendo de medo de ir sozinha, Julia tinha enrolado a semana inteira quando Ívi lhe pediu companhia e agora Laura ia, assim, de surpresa, sem lhe dar tempo de pensar em muita coisa.

— Então resolvido — Laura fez um carinho nela, ela tinha ficado feliz mesmo com algo tão simples? Tinha, Ívi era linda demais, Laura nunca estaria preparada para ela, era um fato. Beijou a mão dela com carinho — Só vamos jantar. Me deixa ver aqui... — Checou no celular — Está dando 30 minutos andando, tudo bem?

 

Ívi não conseguia parar de sorrir.

 

— Tudo bem, é claro, a gente vai conversando. Esses saltos não machucam?

— Não machucam não, são para dançar, está vendo as tiras? Ajudam a distribuir a pressão e deixar confortável.

— Então a gente vai andando de boa — Disse, fazendo uma anotação mental sobre Laura estar com saltos para dançar — Espera, o que é um “x”?

 

Laura começou a rir.

 

— É um x-burguer, um hambúrguer. É que tem esse food truck na Vila Isabel que faz uma receita tradicional de Hamburgo, é uma delícia, você não tem noção...

 

Foram conversando tanto que sequer pareceu distante. Para Ívi, a Vila Isabel inclusive era exatamente ao lado do Maracanã de tão perto que lhe pareceu. Chegaram até a Vila e tinha sambas acontecendo ao mesmo tempo e vindo de lugares diferentes, Laura riu e lhe disse que na Vila e em Madureira, sempre tem sambas acontecendo em algum lugar ou em todos os lugares, ela nunca sabia dizer. Pegaram uma fila no food truck, conversando, sempre conversando e Ívi quis saber se Kelsey sabia que tinham saído juntas.

 

— Eu digo tudo pra ela, Ívi, tento ser o mais transparente possível sempre, ainda mais nesta situação.

— Sabe que você é bem transparente mesmo, é uma verdade, mas o seu interior é turvo, amoriño, então a gente não vê nada de qualquer maneira... — Disse, a fazendo rir.

— Não é assim! — Ela retrucou sorrindo.

— Claro que é, Kelsey, Julia e eu estamos ferradas. Só por curiosidade, onde você jantou ontem? — Pronto, estavam lhe entregando seus hambúrgueres alemães generosos, com molho, refrigerante, batatas, uma verdadeira delícia.

— Em um restaurante em Copacabana, por quê?

— Só para eu te dar perspectiva. Ontem restaurante estrelado em Copacabana e hoje um “x” na Vila Isabel... — Disse, a fazendo rir novamente enquanto foram se sentar num pedacinho de calçada logo ali.

— Ei! Um hambúrguer tradicional de Hamburgo, feito por um carioca da Vila Isabel, que será devorado por uma nordestina e uma galega, isso é globalização! Aliás, nós somos globalização, a nossa casa é globalizada...

— As suas namoradas são globalizadas...

 

Mais risos.

 

— Havana, Londres e Maragogi, a Galícia agradece a preferência — Ela respondeu bem-humorada enquanto sentaram-se na calçada lado a lado. Laura estava bem mais leve aquela noite, muito relaxada, muito tranquila.

— Posso perguntar uma coisa?

Julia — Ela se antecipou em responder o assunto ao dar a primeira mordida em seu hambúrguer.

— Então, é que você falou enquanto a gente estava lá no estádio sobre o Alejandro e eu senti uma dorzinha sua.

— Ah, Ívi, eu não tive pai presente, você sabe como é, nós duas só viemos descobrir o que era pai presente com dez anos de idade. O Marcelo é seu pai e o Alejandro foi o pai que eu conheci também, e ele foi um ótimo pai. Ele é fã de futebol, quando a gente morava na Galícia ele me levava para assistir aos jogos do La Coruña, então em Barcelona eu cansei de assistir aos jogos do Barcelona com ele, em Madrid a mesma coisa já que a Julia sempre detestou futebol. Eu ia com ele, ele vinha assistir aos meus jogos de hóquei, me levava para os treinos, a gente tinha uma relação muito boa, de amizade mesmo. O que era bem interessante é que ele me assumiu como filha, me dizia para chamá-lo de pai enquanto a Julia ia na direção contrária. Foram inúmeras brigas que eles tiveram porque ela me rejeitava como irmã, cada vez que alguém se referia a mim como irmã dela ela negava, dizia que eu não era irmã dela coisa nenhuma, e o Alejandro não entendia, a Claudia entendia menos e isso era uma tensão entre eles também, essa rejeição contínua da Julia em aceitá-la como mãe e me aceitar como irmã. Eu só não sabia que...

— A rejeição era porque ela gostava de você de outra forma. Quando você descobriu? — Perguntou enquanto mordia seu hambúrguer que estava mesmo delicioso.

— Ela tinha treze anos, eu tinha quinze. Nós fomos convidadas por pessoas diferentes para a mesma festa, nós já morávamos em Madrid nessa época e lá, o ritmo era diferente do que estávamos acostumadas, diferente da Galícia, de Barcelona, de tudo. Nós fomos inseridas em outro contexto social, a minha mãe era maluca, você já sabe, mas era extremamente inteligente, talentosa e nós mudamos para Madrid porque ela tinha conseguido um contrato ótimo, que nos elevou mesmo a outra classe. Nós fomos para um colégio particular e fomos parar nessa festa, cheia de adolescentes loucos. Alguém me convenceu a entrar num jogo de verdade e desafio, e foi quando eu descobri que a Julia estava lá também. Ela não ia jogar, mas quando me viu, veio. E adivinha em quem a garrafa parou lá pela terceira vez?

— Entre vocês duas — Outra mordida sorridente em seu hambúrguer alemão.

— Por causa do fio provavelmente, é claro. Um dos garotos colocou a mão na garrafa, dizendo que ia rodar de novo, porque a gente era irmã e ela... — Abriu um sorriso lembrando — Ela empurrou ele de lado passando pelo meio do círculo na minha direção e olhando pra mim, me disse pela enésima vez só aquela semana: “você não é minha irmã”. E me beijou.

— Ela... A menina de treze anos fez isso com você? Laura, com treze anos eu ainda estava brincando de catar bolinha de tênis em um dos hotéis que a minha mãe trabalhava feliz da vida, como se fosse uma caça ao tesouro... — Respondeu rindo e fazendo Laura rir também.

— Eu também! Eu estava ralando os joelhos nos campos de hóquei com treze anos, mas isso somos nós, não a Julia — Continuou sorrindo e comendo seu hambúrguer — Ela já era mais alta do que eu, mais adulta do que eu, mais decidida, mais segura, mais tantas coisas. Ela me beijou e todo mundo ficou alvoroçado, foi uma gritaria só, eram duas garotas se beijando e isso bastava para a euforia. Aquele foi o primeiro beijo dela, não foi o meu primeiro, mas foi o primeiro dela. A gente ficou aquela noite. Depois do beijo eu saí de perto, procurei outro lugar, eu tinha bebido, estava um pouco confusa, mas eu nem consegui respirar, ela veio atrás de mim, me pegou e a gente acabou ficando a noite inteira, eu não conseguia parar. Foi a primeira vez que eu senti essa sensação intensa de não conseguir parar alguma coisa porque a vontade era maior do que eu. Nós ficamos juntas por dois anos. Não foi imediato a este beijo, foi depois, ela era muito nova, nós morávamos juntas, até aquela noite ela era minha irmã. Eu namorava quando a gente ficou a primeira vez e com essa namorada, eu tinha atravessado todos os estágios, sabe? Primeiro beijo, primeira vez, a minha própria descoberta, ela não era qualquer menina pra mim. Porém, pobre menina aquela que eu namorava.

— A Julia é intensa — Ívi nem conseguia imaginar a pressão de Julia em cima da tal garota.

— Nem me diga. E cada ato dela era como riscar um fósforo em cima de gasolina, a menina não entendia nada, a minha mãe não estava entendendo nada e a última conversa que eu tive com ela foi sobre isso. Ela me chamou, isso um ano depois dessa noite, eu já tinha terminado com a garota e as coisas com a Julia estavam começando a acontecer. A minha mãe me perguntou o que estava acontecendo, me proibiu de mentir, disse que queria entender e resolver seja lá no que eu estivesse metida com a Julia. Mas bem, quando eu tentei contar o que estava acontecendo, foi totalmente infernal. Você não faz ideia de como foi aquela briga. Tão intensa, tão pesada, ela me disse coisas horríveis, eu disse outras, ela nem estava se importando que era a Julia, ela só estava enlouquecida porque era uma garota, era a única coisa que ela estava ouvindo. E então a minha mãe saiu para trabalhar e não nos falamos nunca mais.

— O que aconteceu com ela, Laura?

— Ela foi... — Ela se deteve em dizer. Laura sempre se detinha. Fechou os olhos, hiperventilando um pouco, aquele corredor branco e longo, tão gelado, sua mãe tão bonita, o rosto limpo, os cabelos soltos, a expressão serena e... O sangue brotando no lençol branco, de vários pontos diferentes do corpo dela.

— Laura? — Abriu os olhos ouvindo a voz de Ívi, soltando o ar que sequer tinha percebido que prendeu — Ei... — Ívi beijou a mão dela com carinho, a vendo tão consternada — Eu já te disse o que acontece quando a gente deixa um risquinho que seja no casco recém-pintado de um navio. A ferrugem entra despercebida e começa a comer o navio de dentro para fora. Quando se percebe que tem um problema é tarde demais, o navio já está todo tomado por dentro apesar do exterior estar intacto. Então, fala. Fala, escreve, se expressa, não guarda isso só para você, você não tem que se envergonhar de nada.

 

Laura respirou fundo, se recompondo daquela cena que lhe assombrava tanto.

 

Atiraram nela. Quando ela pisou fora do carro no estacionamento do escritório. Seis tiros, todos no peito.

 

E isso pegou Ívi completamente de surpresa.

 

— Seis tiros? Laura, isso foi...

— Uma execução. E não, eu não faço ideia por qual motivo ela pode ter sido executada. Ela era jornalista e eu sei que estava trabalhando em matérias sobre células terroristas na Espanha, mas ainda hoje eu não sei mesmo o que aconteceu, ninguém sabe, se tornou um caso que a polícia espanhola perdeu as pistas e o interesse. Enfim, eu tinha dezesseis anos, a María era um bebê de cinco, tinha a Julia, foi a época que o Alejandro decidiu me mandar para a reabilitação e entrou em guerra com a Julia em casa. Ela não concordava, não me queria longe, tudo estava muito fora de lugar, uma bagunça, eu não sei explicar. Foi uma fase obscura e o meu romance com a Julia só começou de verdade depois que eu voltei da reabilitação. Eu não estava apta a dizer “não” para ela de jeito nenhum, eu estava frágil, precisando de amor e estava apaixonada por ela. Me dei conta disso no tempo em que ficamos separadas e quando eu voltei para casa, houve essa semana em que o Alejandro viajou com a María e nós ficamos sozinhas. Eu estava de luto há mais de um ano e a Julia acendeu algumas luzes dentro de mim. Me deu dias lindos, perfeitos, em que cada segundo era único. Ela cuidou de tudo, cuidou de mim e nós fizemos amor, selando todas as coisas. Eu acho que você já foi a primeira garota de algumas meninas, você me passa essa vibe...

 

Ívi sorriu, já tinha sido de algumas sim. As héteros geralmente ficavam confusas com a sua presença, era coisa comum, ficava mais com héteros do que com lésbicas ou bi, era real.

 

— Mas você já foi a primeira de uma garota, a primeira mesmo, de tudo e qualquer relação? A virgindade é uma coisa que as pessoas estão tratando com tanta banalidade ultimamente e não devia ser assim porque quando protegida, a primeira vez é um momento mágico mesmo. Eu fui virgem até os quinze anos, a Julia também e quando aconteceu a nossa vez... — Abriu um sorriso — Se eu soubesse que seria tão especial, eu teria esperado por ela. Foi a mesma sensação de quando você e eu nos conhecemos, eu já te disse isso, não disse? Eu me perguntei, “por que eu não esperei”? Para começar a namorar, só um pouco mais — Ela lhe disse, abrindo outro sorriso e fazendo Ívi sorrir — Sem me desfazer da Kelsey, eu só... Não esperava por você, sabe?

— Eu tampouco esperava por você — Respondeu, fazendo um leve carinho nela.

— Eu sei. A gente não se esperava. Nem isso e nem a forma que as coisas evoluíram com a Kelsey também, enfim. Mas voltando a virgindade, principalmente entre meninas, é algo que você pode literalmente tocar. Eu toquei, eu senti, eu lembro que ela soltou um gemido baixinho de desconforto e só uns segundos depois, isso se tornou um gemido alto de prazer. Eu nunca vou esquecer de nenhum segundo daquela noite, nunca. Foi linda e olha que eu tive uma primeira vez maravilhosa também, só não foi com tanto... Amor, e bem-querer, e paixão, e vontade, como aconteceu entre Julia e eu. Aliás, como foi a sua primeira vez?

— Um desastre — Contou, a fazendo rir — Eu tinha quinze anos, ela era mais velha do que eu, mas não tinha ideia do que estava fazendo, eu também não tinha e não teve mágica. E nem paixão. Na verdade, foi tão ruim que eu passei um tempo sem querer tentar de novo...

— Mas aparentemente, tudo está bem resolvido... — Respondeu maliciosamente fazendo Ívi rir.

— Você acha mesmo que eu sou o tipo bachelor, não é?

— Ívi, você beijou, sei lá, sete meninas na noite em que a gente se conheceu! — Ela falou em tom de riso, não de crítica, devorando seu hambúrguer tal como Ívi fazia com o seu também.

— Porque você estava lá com a Kelsey!

— Uma coisa não anula a outra, enfim — Ela tomou outro gole do seu suco — Olha, eu tenho vinte e três anos e não sei se é pouco ou muito, eu só sei que até uns dias atrás, antes da Kelsey, eu só tinha estado intimamente com a minha primeira namorada, depois com a Juls e com a Natalia, eu já te disse que a gente namorou?

— A Julia me disse.

— Nós namoramos por uns seis meses. Quantas parceiras você já teve?

 

Ívi mordeu a boca.

 

— Quer um número mesmo?

— Não, não quero, vou me sentir mais principiante ainda...

 

Outro sorriso e Ívi se perdendo no tempo um pouco mais ao olhar para ela. Aquela coisa linda e perfeitinha se lambuzando de molho de hambúrguer.

 

— Eu quero confessar uma coisa — Ívi disse de repente.

— Vamos, confesse, eu estou pronta.

— Julia quase teve que me obrigar a ligar para você...

 

Ela começou a rir outra vez.

 

— Como assim?! — Perguntou limpando um pouco de molho no canto da boca.

— Ela me deu o ingresso dela, disse para eu te convidar para assistir à cerimônia comigo, depois te levar para jantar e eu fiquei tão nervosa que devo ter gaguejado quando nos falamos.

— Você gaguejou mesmo, eu não estava entendendo nada.

— Então, você falou de principiante, principiante é como eu me sinto com você. Uma principiante total, a ponto de precisar de uma amiga para planejar um encontro e me fazer ligar para a menina que eu gosto. Ela me empurrou para te chamar para sair, porque você vai embora amanhã e ela me disse para eu usar as minhas técnicas de sedução com você, porque, eu tenho técnicas, elas funcionaram com todas essas meninas com quem você acha que eu já dormi, mas com você... — Abriu um sorriso — Eu nunca sei o que dizer. O meu coração acelera, minhas pernas tremem e as minhas técnicas de sedução se reduzem a querer o teu bem, te ver feliz, e te cuidar, e tentar te dar tudo o que você precisa.

 

Ela estava rindo muito, limpando as mãos, tinha terminado seu hambúrguer.

 

— Ívi Schelotto — Olhou para Ívi novamente — Para mim, as suas técnicas de sedução estão perfeitas.

— Você acha? — Ívi estava sorrindo também.

— Eu estou muito feliz com elas, de verdade, não tenho do que reclamar — Ela seguia sorrindo, e tomando uma longa respiração, continuou — Ívi, você entende por que me assusta tanto a nossa atração?

— Você não quer outro incêndio, eu sei, mas Laura... É parecido comigo e a Julia, eu sei quem eu sou, ela sabe quem ela é, mas juntas nós não sabemos quem podemos ser. É igual, você e eu, entende? Eu tenho um histórico, eu sei disso, você também tem uma história, mas o que nós podemos ser juntas... Não temos como saber.

— Olha pra mim, Ívi.

 

Ívi olhou, com o coração batendo na garganta.

 

— Eu sei que não tenho como escapar de você. E nem quero escapar. Eu só não sei... O tempo certo.

— O tempo não importa. Nem a circunstância. Estamos atadas, lembra? — Perguntou, mostrando o dedo anelar para ela, que Laura pegou, curvou em seu peito, beijou com carinho. Outra longa respiração. Outro longo olhar nos olhos de Ívi. Todas as coisas que queria dizer. Só não sabia se devia. Não sabia o tempo. Não sabia mesmo.

— Eu vou chamar um Uber pra gente.

— Pra onde? — Ívi perguntou sorrindo.

— Para o seu hostel e então... — Olhou nos olhos dela e Ívi a pegou pela nuca, tocando sua testa na dela, fechando os olhos. Laura respirou fundo, agarrando o punho dela que lhe tocava a nuca — Eu não sei. Eu só quero terminar a noite ao seu lado.

 

Ívi a puxou para perto, beijou a testa dela.

 

— Eu não te trouxe aqui para nada diferente.

Notas do Capítulo Extra:

 

Olá, meninas!

 

Como estamos? Decidi ser boazinha igual a Ana, tá? Quero dizer, meio boazinha né. hahaha. Postamos capítulo mais cedo, meio fora de hora porque, vocês não fazem ideia do que ainda teremos pela frente e eu estou quase mais ansiosa do que vocês!

 

Meninas, vamos alcançar o fechamento da primeira fase da história, "Segundos" fecha no próximo capítulo, denominado "A Patinadora" e a partir dele, começa uma nova fase, denominada "Minutos". Queria ressaltar que "6 AM" superou todas as minhas expectativas, vejam bem, a segunda superação mais alta depois de "Havana" que segue me surpreendendo até agora! Estou feliz demais em estar escrevendo esta história, feliz demais que vocês estejam curtindo, "6 AM", tal como "Havana" me surgiu num momento de vida muito particular, a pessoalidade com esta história é ímpar e a recepção de vocês não poderia ter sido melhor.

 

Próximo capítulo "A Patinadora", a ser postado na próxima quarta-feira, sob aquelas regras que vocês já conhecem bem. =).

 

Bom final de semana e, lembrem-se que, "cuenta la leyenda que todos nacemos con un hilo rojo atado a la persona que amaremos por toda la vida...♥".

 

Beijos!

 

 

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