6 AM - Capítulo 30 - Fatti Sentire

5/10/2019

 

Acordaram tarde e Laura sabia que estavam desconectadas. Que tinham dormido desconectadas, mas aparentemente, era só impressão sua já que Kelsey acordou muito feliz falando dos planos daquele dia. Tentou conversar com ela, sobre a distância que tinha acontecido durante o amor da outra noite, quis se explicar sobre as coisas que pediu, mas ela apenas lhe beijou e disse que estava tudo bem. Que aquele não era assunto para agora.

 

E lhe disse de uma forma que não sobrou espaço para Laura insistir.

 

Que fosse, tinha decidido que faria o melhor possível em Londres e havia dado certo, faria o melhor possível na Itália e veria no que iria dar. Deixou aquela discussão que não aconteceu para trás e apenas seguiu em frente com seu dia.

Mais dias gostosos, mais Laura fazendo perguntas inconvenientes para si mesma, estava muito mais encontrada do que quando chegou a Londres, mas ainda faltavam coisas. Fizeram passeios bonitos, o tempo com sua irmã foi precioso e vê-la trocar as botas pelos tênis e a longboard foi uma coisinha que lhe deixou muito feliz em ver. Ela adorou as primas de Kelsey, adorou sua bisavó, eram uma família despedaçada as Bueno e os Torre del Mar, não havia avós ou primos com quem se relacionar, Kelsey tinha razão, foi bom para ela essa sensação de família, essa configuração diferente do que ela conhecia. Chegaram no sábado, ficariam até a terça-feira à noite, o voo sairia às nove, daria tempo de chegarem e María ir pra aula no dia seguinte.

 

E foi na terça-feira, durante uma linda manhã de sol que Laura Bueno foi buscar Tiziana Schelotto na estação de trem.

 

— Tiziana?

— Laura Bueno! — Ela veio para perto sorrindo e lhe abraçou com um lindo sorriso no rosto e foi assim que Laura descobriu que o sorriso lindo de Ívi e as irises líquidas eram puramente italianos.

 

Elas eram parecidas, Ívi e Tiziana, irmãs que se viram uma única vez na vida e tão parecidas, não dava para entender. Parecidas fisicamente, a altura de Ívi também era italiana, os olhos de Tiziana eram maiores, não eram puxados como os de Ívi e ela tinha os cabelos mais claros, mas ainda assim, se parecia demais com aquela irmã de quem falava com tanto carinho e emoção.

Ela ficou emocionada quando abraçou Laura. Explicou que era muito especial poder abraçar alguém que já havia tido sua irmã em seu abraço, alguém que sua irmã queria tão bem e alguém que provavelmente, teria na sua família em breve, ela disse, quebrando a emoção e fazendo Laura rir um pouco.

 

— Fala em português comigo? — Ela pediu, muito docemente.

— É claro que sim, eu não sabia que você falava português!

— Aprendi com a minha irmã, eu quero manter a sensação de que ela poderia estar aqui com a gente, sabe? Aliás, será a crise de quando a gente se encontrar, ela sempre quer falar italiano e eu sempre quero falar português.

— Nós falamos em português, sem problema. Obrigada por ter vindo. Foram quase quatro horas de trem, eu sei.

— Eu nem percebi passando, estava muito ansiosa! Eu trouxe umas coisas para a Ívi e tenho um monte de coisas para te perguntar, a gente pode dar uma volta na Piazza del Duomo, o que você acha?

— O que você quiser.

 

Voltaram para o embarque da estação e pegaram um metrô até a praça, cerca de dez minutinhos e estavam em seu destino enquanto conversavam sem parar. Tiziana era arquiteta, tinha fascinação pela arquitetura antiga e passeando por aquele belíssimo pedaço de Milão, elas puderam se conhecer melhor. Falaram uma da outra, já tinham conversado antes, mas não para se perguntarem coisas específicas, Laura contou que estava se formando em fisioterapia e que havia sido jogadora de hóquei, sim, havia, já considerava sua carreira encerrada, precisava focar em uma carreira rentável, que fosse lhe tornar estável o suficiente para cuidar de sua irmã e daquela família que sonhava em ter. E então falaram de Ívi, de coisas que Tiziana queria saber, coisas que não se pergunta para a própria pessoa sobre, que se precisa de um olhar externo. Como ela era pelas manhãs, que cara fazia quando se irritava, o cheiro dela, como era e Laura achou a coisa mais doce que ela quisesse saber de todos esses detalhes.

 

Foram almoçar depois do passeio, em uma trattoria, numa bela esquina antiga puramente italiana. Um restaurante coberto de flores onde pediram uma massa e um vinho para acompanhar. Laura não disse não ao vinho, mas se contentou apenas com meia taça, não se rejeita vinho de uma italiana, ainda mais com uma massa tão deliciosa e uma conversa tão boa. Se sentia cada vez mais no controle de suas vontades, o que lhe deixava extremamente confortável consigo mesma.

 

— Então você vai embora depois de amanhã? — Tiziana lhe perguntou no meio do almoço.

— Voltamos para Madrid hoje à noite, eu devolvo minha irmã para o meu padrasto e depois voamos para Londres na noite seguinte. Eu fico mais um dia e então, Rio de Janeiro — Respondeu, escrevendo uma mensagem no celular.

— Com licença, é a minha irmã?

 

Laura a olhou e abriu um sorriso.

 

— É ela, acabou de chegar do outro trabalho e está indo dormir.

— Ela é imparável, não é?

— Ela é, às vezes eu acho que ela sequer precisa dormir, ela só continua e continua fazendo tudo que precisa porque o sono, o cansaço e a dor não devem ser valorizados — Respondeu sorrindo.

— Típica frase de Ívi Schelotto. Isso a faz mais indígena do que italiana, sabia? Nós italianos não curtimos muito esse negócio de trabalho duro não... — Disse, fazendo Laura rir um pouco mais.

— Então, ela deve ser mais indígena mesmo.

— Laura, posso ser bem indiscreta? — Ela perguntou, limpando o molho do prato com um pedaço de pão. Fare la scarpetta, um costume plenamente italiano.

— Fique à vontade.

 

Ela mordeu o pão cheio de molho, tomou outro gole de vinho e fez a sua pergunta.

 

— Você vai embora em dois dias e a sua namorada sequer insiste para vir com você? Quero dizer, eu achei que ela viria também, vocês têm pouco tempo juntas e tal.

— Então, o Milan está jogando... — Disse, fazendo Tiziana rir demais.

— E ela adora futebol, é claro.

— Na verdade, eu adoro, ela não curte muito, mas quando eu percebi, ela e María já tinham ingressos enquanto eu vinha encontrar com você. Ela... Ela é britânica. Você e eu somos europeias latinas, mas você sabe que há uma grande diferença entre a minha cultura e a sua com a do resto dos países europeus. Ela tem uma irmã e nunca mencionou. Eu juro para você que tinha certeza de que ela era filha única, porque, quem tem irmãos e não fala sobre eles?

— Britânicos, eles quase não falam de nada, você sabe.

— Então, estou descobrindo sobre — Abriu um sorriso — Não é ruim. Eu sei que ela gosta de mim, que estamos bem juntas, entendo que ela fica mais confortável quando tem o próprio espaço e que ingleses nascem com uma necessidade de espaço pessoal maior. É cultural mesmo, tal como a educação, a calma, a elegância, mas ao mesmo tempo... As meninas em casa pegam no meu pé dizendo que eu sou fria, polida demais, imagine se eu fosse britânica, ia acabar congelando as pessoas sem querer...

 

Mais risadas. E então:

 

— Posso ser indiscreta de novo?

— Vá em frente.

— Nós estamos juntas há mais ou menos sete horas e nesse tempo todo, eu não te vi enviar uma mensagem pra Kelsey, mas já deve ter enviado umas quinhentas pra Ívi. Ela me falou dos stories, dos passeios que você a levou para fazer por chamadas de vídeo, das horas online, das longas ligações, falou da correria da Kelsey e eu entendo, ela é atleta, campeã olímpica, anda num pique enorme de coisas, mas sabe? A Ívi também anda, você também anda, o dia de vocês três tem 24 horas e você veio lá do Brasil, viajou mais de doze horas para estar em Londres com a Kelsey porque achou que assim, estaria mais perto dela para resolverem a questão da distância geográfica entre vocês. Você por acaso se sente mais perto dela agora do que estava antes?

 

Laura buscou o vinho, tomou um gole longo, pensando, pensando.

 

— Nós realmente tivemos pouco tempo, por conta de...

— Por conta de nada, Laura, fatti sentire! — Ela gesticulou, como toda boa italiana — Faça sentido, carina — Ah, sim, carina era bonitinha, ela lhe chamava assim o tempo todo — Não importa o tempo ou a distância geográfica, quando duas pessoas querem estar juntas, elas ficam. Eu sei da natureza moderna do relacionamento de vocês, eu mesma já conversei com a Kelsey algumas vezes — Elas tinham criado um grupo de WhatsApp depois da Olimpíada onde todas se falavam — Sei que ela é mente aberta, que sabe do seu romance clandestino com a Ívi, mas você acha que não é uma tentativa? Ela não queria te deixar lá com a Ívi no momento em que vocês duas não se tocarem estava quase insustentável, ela te trouxe para cá pelo relacionamento, é claro, mas também para pôr uma distância entre você e a Ívi que simplesmente não aconteceu. Sabe por quê? Porque quando duas pessoas querem ficar juntas, elas ficam. Não tem falta de tempo, questão geográfica, obrigação moral nenhuma que consiga impedir. Então seja lá o que quer que você tenha na cabeça agora, só fatti sentire adesso, não deixe para depois, não é porque nós temos tempo que ele deve ser desperdiçado.

 

O pingente de Ívi pesou em seu pescoço, o perfume dela também, era outra coisa que Laura tinha posto em sua mala enquanto ela dormia, depois da noite perfeita que haviam tido. O dia com Tiziana terminou com Laura a levando de volta à estação de trem, aquela menina linda e maravilhosa, com quem tinha trocado ideias significativas e que estava lhe mandando de volta ao hotel com um monte de presentes para Ívi e a mente cheia de coisas. María tinha uma longboard e uma camisa do Milan quando chegou e Kelsey estava feliz e triste ao mesmo tempo.

 

Fez as malas assim, sorrindo e querendo chorar, Laura entendia, estava emotiva também, não era nada boa em despedidas e sabia que teria duas dificílimas pela frente. Foram para o aeroporto, jantaram qualquer coisa e o voo foi frio e silencioso. Laura estava mais calada, Kelsey nem se fala, um clima de baixa ocitocina estava começando a tomar conta das duas, mas ninguém queria falar sobre isso naquele momento.

 

Laura ainda tinha algo complicado para fazer no dia seguinte.

 

Voltaram para o apartamento em Madrid agarradas e muito sentidas, as três. Laura teve um ataque de tristeza por causas independentes e complexas, só de pensar que teria que deixar María na escola e ir embora no dia seguinte, doía demais, doía desesperadamente, era um pedaço seu do qual precisaria se despedir novamente e teve uma outra versão de Kelsey pelo quarto aquela noite. Ela seguia silenciosa e Laura desconfiava do motivo: se ela falasse, choraria. Ela não queria chorar ainda, não com Laura tendo algo tão complexo para fazer pela manhã.

 

— Dorme com ela, meu bem. Ela não para de chorar.

 

Era María. Que não parava de chorar mesmo, estava escondida no quarto chorando, mas podiam ouvi-la, era de partir o coração.

 

— Desculpa, Kelsey — A abraçou com carinho, recebendo um beijo na testa.

— Não por isso, anjo. Ela precisa de você, vai dormir com ela, vai.

 

Dormiu com María aquela noite e quando foi deixá-la na escola, Alejandro estava presente. Agradeceu a ele, prometeu que faria com que Julia ligasse, que trabalharia para que se reaproximassem, era sua missão em agradecimento ao tempo que ele lhe permitiu com María. Então elas duas e aquela separação foi quase tão ruim quanto a primeira. María chorou muito, ficou muito agarrada como da primeira vez, pediu que Laura não fosse ou não lhe deixasse, ela podia escolher e isso partiu Laura em muitos pedaços. Mas tal como da primeira vez, Laura a acalmou. Era sua obrigação de irmã mais velha, amá-la, cuidá-la, fazer com que se acalmasse. Dizendo que a amava, que tudo ficaria bem, que logo estariam juntas novamente. A despedida de Kelsey também foi triste, María agradeceu muito, pelo skate, pela viagem, por Laura.

 

— Escuta, María, presta atenção: — Kelsey falou com ela em inglês, Alejandro só falava espanhol — Se você se sentir ameaçada ou precisar de qualquer coisa, eu estou a duas horas de distância, está bem? Você me liga, eu venho.

 

Ela se agarrou em Kelsey e então em Laura, e os olhos de María dentro dos de Laura era algo que ela levaria tempo para esquecer, a dor, o amor, a vontade de que Laura não fosse. Mas precisava ir. As duas sabiam que precisava e ouvindo o que Kelsey tinha dito, María pareceu aceitar melhor. Não que ela não estivesse triste. Ela estava e quando Laura se afastou viu que ela estava tão triste que pediu o colo do pai. Ele a cheirou, a tirou do chão, falou com ela com carinho e isso acalmou o coração de Laura.

 

María estava e ficaria bem. E além disso, Laura estava indo embora com outro abraço de Alejandro na bagagem, nada poderia ser melhor.

 

Bem, até poderia. Poderia não ter que lidar com outra separação em menos de 48 horas.

 

Outro voo silencioso, feito de mãos dadas e carinhos mudos. Kelsey estava mais sentida agora e entrar no apartamento foi triste como nenhuma delas imaginou que podia ser. Tão triste, que sequer quiseram sair, disseram que iriam sair para jantar, mas não, não dava não. Preferiram ficar em casa, fazendo o jantar juntas, conversando um pouco enquanto o dia da vida real batia em suas portas. Dormiram juntas e acordaram sozinhas. Sim, porque o sonambulismo de Laura andava mais forte e nos últimos dias, Kelsey andava acordando sozinha todas as vezes. Tentou várias coisas para ajudar, mas então percebeu que a única ajuda real que poderia dar era trancar portas e janelas. Falou com Julia, ela lhe disse que bastava mandar Laura voltar para a cama que geralmente ela voltava, porém, desconfiava que ela só obedecia a comandos em espanhol porque tentou isso várias vezes e deu em nada.

 

Então acordou antes do sol nascer, foi beijar sua namorada no sofá, dizer que tinha que ir treinar em uma hora e ela lhe disse que ia junto.

 

— Você vai?

— Assistir ao menos a parte da manhã, tudo bem?

 

Kelsey sorriu feliz demais.

 

— É claro que tudo bem, baby!

— Então — Laura se sentou — Vamos para o banho? — Beijou o pescoço dela, o colo — Depois eu te faço um café rapidinho, eu li ontem a dieta que você precisa.

 

Laura propôs amor no chuveiro. Mas acabou mudando o plano no meio do caminho. Parecia que todos os chuveiros do mundo tinham dona agora e não se sentia bem em levar nenhuma garota para um banho junto, incluindo sua própria namorada. Fizeram amor no carpete, algo que já era muito delas e enquanto Kelsey correu para o banho, Laura correu para a cozinha, para fazer o café que ela precisava, tomar um banho rápido, se vestir e quando Kelsey saiu do quarto, já tinha um café maravilhoso preparado e uma namorada linda e cheirosa lhe esperando.

 

Tomaram café juntas e Laura a acompanhou para o treino pesado de retorno do time de Kelsey. Conhecia algumas garotas do time, a goleira da seleção jogava junto de Kelsey, e é claro, Köhler também jogava, foi estranhamente bom revê-la. Assistiu o treino do banco de reservas, bem de pertinho, olhando para aquela garota incrível da qual teria que se despedir. Andava uma bagunça total nos últimos dias, sentimentos bagunçados, vontades desencontradas. Ficou com ela até o meio-dia e então foi almoçar e se despedir da cidade. Andou meio a esmo, apenas curtindo, pensando um pouco mais, tomando tempo para si. Recebeu uma mensagem de Kelsey quando estava voltando pra casa, Laura podia ficar linda em um dos seus vestidinhos para irem jantar? É claro que podia. Voltou para o apartamento, tomou um banho longo, se arrumou e Kelsey chegou atrasada, correndo, dizendo que ficaria pronta rapidinho. Ela ficou, pronta e linda, arrancando um sorriso de Laura porque, cada dia passado, mais e mais girly Kelsey ficava. Era uma menina linda, que adorava os vestidos curtos tanto quanto Laura adorava e Laura se perguntava o que mais ainda não sabia sobre ela. Elas saíram para jantar, em um restaurante que Laura andava apaixonada, que tinha uma iluminação linda e mesas em um jardim florido.

 

E agora, as duas sabiam que não tinham mais tempo, não havia assunto que pudesse ser adiado. E Kelsey... Estava diferente. Jantaram e quando pediram a sobremesa, ela quis se sentar ao lado de Laura, onde pudesse tocá-la, senti-la mais perto. Estava esfriando, o Rio Tâmisa ficava perto e ventava um pouco mais, não foi difícil para Laura encontrar lugar pelos braços dela.

 

— Eu estou feliz por nós duas. Feliz por este tempo aqui, por ter descansado por uns dias e feliz por voltar aos treinos. Mas também estou triste por ter que voltar a treinar, é uma sensação muito complexa, eu amo o que faço, mas eu acho que ultimamente, isso tem me levado mais do que eu entreguei — Ela confessou, com a voz quebrada e com Laura carinhosamente em seus braços.

— Kelsey... — Laura respirou fundo, sentindo aquela dor nela — Eu não sei como você faz isso. Eu sei que seria uma boa atleta, eu sou uma boa atleta, mas nunca seria atleta olímpica pelo nível de exigência. Eu sei que você tem sido muito exigida. Exigida antes da sua medalha, exigida depois e...

— Parece que nunca é suficiente. Eu acabei de ser campeã olímpica e já vou ter que começar tudo de novo, já me deram novas metas, novas exigências, quando se vai longe, tem que ir mais longe depois e, eu amo o que faço, mas não sei como lidar.

— O que você quer? Fala pra mim, todas as coisas que você gostaria.

— Eu queria que não requeresse tanto tempo e esforço, eu queria que fosse mais simples, eu queria que você não fosse embora, Laura.

 

Laura se agarrou no braço dela.

 

— Eu também não queria ir, meu bem, tudo passou tão rápido.

— Eu sei. E eu queria que tivesse sido melhor, mas ao mesmo não sei como poderia ter feito melhor. Viktoria contou as horas da nossa rotina de treinos enquanto estávamos no Rio e eu achei um exagero. Mas sabe? Eu voltei a vida real e ainda são doze horas de treino, ainda são ciclos de doze dias, ainda são doze refeições por dia e dez horas de sono ou não consigo fazer tudo isso no dia seguinte. Me sobram duas horas de tempo, se contar o tempo que precisamos mesmo passar sozinhas, banhos, higienes e etc., sobra uma hora e meia, 90 minutos. Que romance pode sobreviver com 90 minutos?

 

E Laura sentiu que o tom emotivo estava subindo e Laura não sabia bem. Até então, só Ívi tinha visto Kelsey emotiva, Laura não sabia bem o que esperar. Nem da emoção e nem daquela conversa. Sentia que aquela conversa as levaria a algo denso que não sabia bem se já estava preparada para falar.

 

— Kelsey, as coisas não são assim, a gente não chegou até aqui com 90 minutos...

— A partir de hoje, tudo o que eu terei a te oferecer novamente são 90 minutos, Laura — Havia um crack na voz dela, ela estava embargada — E sim, se buscarmos as nossas conversas, você vai perceber que o tempo máximo que passávamos juntas online eram 90 minutos. Não é justo com você, e nem comigo. Eu amo o que faço, mas o preço é alto e, você nunca será uma seguidora.

— Kelsey, não tem a ver com isso...

— Desiste de voltar ao Rio — Ela pediu assim, só de uma vez.

— Eu não posso, baby, você sabe que eu não posso. Tem a minha faculdade, os meus planos...

— Está vendo? Você não é uma seguidora, você não é este tipo de mulher, que vai viver em função da vida de outra pessoa. E não tem nada de errado com isso, nem com ser, nem com não ser essa pessoa, aliás, você ser tão dona de si foi um dos motivos pelos quais eu me apaixonei por você. Ser determinada, responsável, independente. Só não é justo, Laura. Você pode me estapear agora pelo que vou te dizer, mas uma das coisas pelas quais eu apostava que dava a mínima chance de nós duas darmos certo é que você não tem muito no Brasil. Eu não achava que você me seguiria, mas quem sabe pudesse mudar de país? Continuar reconstruindo sua vida mais perto de mim, mas sabe? Você estando aqui ou não, ainda serão 90 minutos — Kelsey lagrimou — Você merece mais do que isso. Eu quero te agradecer por você ter tentado me contar. Agradecer pela sua honestidade. Você brigou para me dizer o que precisava.

— Você não merece menos — Laura perdeu uma lágrima — Eu não queria essa situação, Kelsey, mas ao mesmo tempo, eu não consegui evitar, foi maior do que eu e tudo o que acabou acontecendo... — Sua voz travou, Kelsey a apertou mais forte.

— Obrigada por não ter me dito claramente. Obrigada por ter ficado nas frases pela metade ou na metade da frase, eu não sei bem, mas sei que você tentou me dizer e só não disse para que a gente tivesse uma chance justa. A Viktoria me falou ainda lá no Rio que o meu namoro estava por um beijo. Que assim que você beijasse a Ívi, não havia como o nosso relacionamento resistir. Bem, ela estava errada, a gente resistiu ao beijo.

 

Laura sentiu muito agarrada no peito dela. Sentiu porque queria que as coisas fossem diferentes, queria ter feito diferente, mas agora...

 

Me desculpe — Pediu já chorando.

— Não se desculpe — Kelsey perdeu uma lágrima cheirando os cabelos dela — Obrigada. Por esses dias. Pela nossa chance. Obrigada. Você sabe o quanto eu queria que a gente desse certo, você é perfeita para mim.

 

Laura respirou fundo.

 

— Você me quis tanto por causa disso. Porque eu fico bem em você, porque nós combinamos e...

— Você fica perfeita ao meu lado sim. Mas eu realmente me apaixonei por você, não foi uma decisão fria.

— Eu sei que não foi — Laura beijou a mão dela com carinho — Eu amo você, Kels.

 

Ela lagrimou.

 

— Eu também amo. Muito. Obrigada. Obrigada mesmo.

 

Último jantar, último passeio, últimos beijos, última cama. Fatti sentire, Laura repetiu em sua mente antes de dormir, fatti sentire, pegou no sono e mais uma vez, acordou no sofá.

 

 Ívi não conseguiu dormir. Era domingo, tinham tocado até às quatro da manhã, mas ainda assim, não conseguia dormir. Julia tinha dormido de imediato, estava exausta, Thai e Karime ainda dormiam e o apartamento estava silencioso e vazio demais. Já tinha chorado um pouco no chuveiro, sentido aquele vazio brutal que tanto lhe lembrou o tempo que passou sozinha e com medo naquela cidade. Chorou pela solidão escolhida, não precisava estar sozinha, mas tinha escolhido isto, chorou porque não podia comprar uma passagem e ir ver sua irmã na Itália, chorou porque não podia fazer o mesmo por Laura e por fim, chorou de saudades dela.

 

Estava sendo difícil. Ela tinha lhe enviado uma mensagem curta, dizendo que já estava no avião e nas próximas 12 horas, ela voaria em sua direção e Ívi sequer sabia por que não podia ficar simplesmente feliz por isso. Estava andando de um lado a outro, de short curto, agasalho de Laura, cabelos presos no alto, a cama tinha chegado, faltava ser montada, a casa estava perfeita porque, tinha tido uma crise de ansiedade e limpado tudo para melhorar, passou pelo teclado, dedilhou algumas notas de Víveme e, o interfone tocou.

 

Era Noah.

 

Liberou o portão, ela subiu e assim que Ívi abriu a porta, ela estava adorável, sorrindo e segurando uma sacola de papel.

 

— Já tomou café? — Ela entrou e beijou Ívi com carinho — Eu trouxe o nosso café.

 

Café que Ívi de fato, ainda não tinha tomado. Foram para a cozinha, desempacotaram o café da manhã e Noah notou a limpeza que estava exalando por todos os lados.

 

— Você sabe que isso é esquisito, não sabe? Ninguém limpa para desestressar... — Ela disse, fazendo Ívi rir.

— Admito, é esquisito, mas funciona, vou fazer o quê? — Respondeu sorrindo.

— Como foi o show? Deu tudo certo?

— Tudo certo.

— Eu quase fui, mas o cansaço bateu e não consegui sair da cama.

— Não faz mal não.

 

Silêncio. Quebrado por Noah.

 

— Ívi... — Ela fez uma longa pausa, buscando sua mão sobre a mesa — Eu vim aqui te pedir uma coisa.

 

Ívi beijou a mão dela com carinho.

 

— O que você precisa?

 

Ela lhe olhou nos olhos.

 

— Eu quero levar a Karime em um encontro. Num encontro de verdade, sabe?

 

Ívi abriu um sorriso.

 

— Você está interessada nela mesmo.

Há dois anos. Essa menina ficou na minha cabeça por dois anos, todos os dias, por dois anos, eu pensava nela de alguma forma, um pensamento de um segundo ou um pensamento de 24 horas, variava assim e de repente, agora... Quando a gente se cruzou na empresa, eu só sabia que queria você, de maneira quase irracional — Contou, fazendo Ívi rir — Eu te achei linda, atraente, fiquei toda perdida e me certifiquei de, desta vez, pegar o seu nome, seu telefone, seu Instagram, todas as coisas direitinho para não te perder do meu radar — Mais sorrisos — Eu soube que você tinha alguém logo naquele nosso encontro no vestiário.

— Em que você foi atrás de mim.

— Obviamente — Ela confessou sorrindo — Mas quando você me falou da situação, falou da namorada campeã olímpica... Qual é, Ívi? Que chances existiam daquela menina voltar para você? — Mais risos, Ívi passava tanta credibilidade, nem sabia — Eu achei que ela não fosse voltar. A gente começou a se dar tão bem que eu nem me preocupei. Mas para a minha surpresa, de alguma maneira, ela está voltando, não está? Já pegou o avião?

 

Ívi afirmou sorrindo.

 

— E o que você acha que vai acontecer quando ela chegar daqui a doze horas?

 

Daí mordeu o sorriso, sentindo o coração acelerar só pela menção a Laura estar voltando.

 

— Eu não sei bem. É o que tem me angustiado e me deixado ansiosa.

— Ívi, ela não tem um motivo racional para voltar. Ela está mais perto de casa, mais perto da irmã, está em um apartamento confortável num bairro refinado de Londres e tem uma namorada disposta a fazer de tudo por ela. Aquela espanholinha não pagaria uma conta que fosse em Londres, não se preocuparia com a despensa ou em conseguir um emprego com urgência. E de alguma forma, ela entrou no avião de volta ao Brasil, de volta a esta cidade caótica em que a gente vive. Eu não faço ideia do que está passando pela cabeça dela por realmente estar voltando, mas eu apostaria numa emoção irracional chamada paixão — Disse, roubando outro sorriso de Ívi — Eu não sou o seu fio, você sabe, eu sei, mas acho que...

— O seu fio passou por mim. Noah, você não precisa me explicar mais nada, você é uma menina linda, que se encaixou aqui sem julgar ninguém, que não me cobrou nada, que nunca foi menos do que gentil comigo e com as garotas também. Você nem precisava me pedir nada...

— A gente tem alguma coisa, Ívi, é claro que eu precisava. Te pedir isso e te agradecer, pelas nossas noites, os nossos momentos, eu não sei se a gente vai parar de ficar, mas Ívi, a menina que você gosta está voltando e...

— A menina que te deixou zonza reapareceu.

 

Sorrisos. Era isso, era simples, sequer doeu. Se abraçaram, sabendo que estavam indo em direções diferentes, mas agradecidas pelo tempo que tiveram juntas.

 

— Todos os relacionamentos deveriam terminar assim, não é?

— Eu concordo — Deveriam, é claro que deveriam.

— Então — Noah respirou fundo, abrindo outro sorriso, não era porque era simples que fosse fácil — Escuta, nós vamos para Arraial do Cabo...

— Nós...?

Nós, não você — Ela respondeu sorrindo — A avó da Thai está viajando e nós vamos, Julia, Karime, Thai e eu, vamos porque a Laura quer que você vá buscá-la sozinha.

— Ela... Quer?

— Nós conversamos antes dela embarcar. Ela queria saber algumas coisas, medir o meu relacionamento com você, ela é muito educada, muito pés no chão e se ela me fez aquelas perguntas e pediu para Karime que fizesse você ir sozinha... Olha, Ívi, a sua espanholinha está chegando, dá um jeito nessa ansiedade e, sei lá, eu só acho que ela está voltando livre para você. Então, Ívi Schelotto, essa é a sua chance de se tornar Bueno de verdade.

 

Ívi a abraçou muito longamente, sentindo algo por dentro que nunca tinha sentido antes. Algo que piorou quando viu que a história de ir para Arraial do Cabo era verdade! Iriam no carro de Noah, tinham acertado tudo antes, assim que Laura falou com Noah. Elas desceram cedinho, antes das oito, iriam tomar café na estrada, Karime parecia ótima, Thai estava leve e sorridente, abraço de Noah em Ívi, o último beijo foi na testa e então, Julia lhe abraçou muito, mas muito longamente. Não se disseram nada, ela apenas entrou no carro e as quatro partiram, ouvindo funk no último volume, Ívi sorriu, tadinha de sua cubana, estava em minoria.

Voltou para o apartamento, pareceu levar dias e não horas. Dormiu um pouco, mas muito pouco, então se colocou de pé e decidiu se vestir e ir para o aeroporto. Ainda que faltassem três horas para Laura chegar. Se vestiu umas três vezes, pôs uma roupa e trocou, então trocou novamente, queria estar bonita, mas estava nervosa, por que Laura não tinha lhe dito nada? Não sabia e isso estava lhe fazendo sentir igual a quando Natalia lhe mandou para a Olimpíada com uma credencial que parecia falsa.

 

Respirou fundo, encontrou o que queria vestir. Short jeans curto, camiseta swag preta, aquela do primeiro beijo, a jaqueta larga e comprida, maquiagem nos olhos, cabelos presos num coque bagunçado e apenas saiu, parou de pensar, de achar o que não sabia, sua galega estava voltando e independente de qualquer coisa, só de tê-la de volta já seria algo maravilhoso. Ligou para Natalia, pediu o carro emprestado, ela podia emprestar? Claro que podia, então pegou o metrô até a casa dela, ela veio lhe entregar a chave, lhe deu um outro abraço longo e disse que tinha uma boate para Ívi na noite seguinte. Tudo bem, tudo estava indo muito bem, Ívi dirigiu para o Aeroporto Internacional Tom Jobim, era onde sua menina linda ia chegar. Estacionou, comeu alguma coisa, ainda faltava uma hora. Tanto tempo. Respirou fundo, colocou seus fones, ouviu um set de Julia, a voz dela lhe acalmava. E então, seu celular vibrou.

 

“Você está aqui?”

 

Abriu um sorriso, é claro que era a sua galega. Ligou para ela, ela disse que estava pegando a bagagem e quando Ívi a viu surgindo por aquele portão...

 

Ela abriu o sorriso mais lindo do mundo quando olhou para Ívi. Se olharam, se sorriram e sem pensar em coisa alguma, apenas caminharam uma para a outra. Laura puxando a mala, ainda tão europeia, calça, botas nos pés, camiseta, o casaco nas mãos, o pingente de Ívi no pescoço. Os passos acelerando, ficando mais apressados, os olhos de uma muito dentro dos olhos da outra, o pingente celta no pescoço de Ívi, vinte metros, quinze metros, lábios apertando, coração acelerando, dez metros, passos mais rápidos, mais apressados, respirações mais apressadas, cinco metros, Laura largou a mala, deixou o casaco também, três metros, dois metros e, nem um centímetro.

 

Nem um mínimo centímetro para mantê-las separadas.

 

Laura saltou no pescoço de Ívi e o beijo foi longo, foi denso, foi molhado. Boca molhada, olhos molhados, sorrisos molhados porque, estavam loucas de saudade, loucas de vontade e Ívi ainda não fazia ideia...

 

Freou o beijo por um segundo, o coração disparado, a boca dela deslizando pelos seus lábios, a respiração fugindo do peito.

 

— Laura, Laura... — Outra respiração entrecortada por um beijo — Você está livre?

— Não se depender de mim — Ela respondeu, deixando boca e respiros por seu rosto e ouvido — Eu não quero estar livre, Ívi, eu quero estar namorando você...

 

E Ívi se derreteu sorrindo, se derreteu agarrando-se nela inteira, derreteu a tirando do chão e a beijando novamente, a apertando contra o seu corpo, contra a sua ansiedade, a sua felicidade.

 

Ah, não, Laura não estava livre, Laura estava sua.

 

Fatti sentire, faça sentido. Nada poderia fazer mais sentido do que isso.

 

Notas do Capítulo:

 

Olá, meninas!

 

Enfim, de volta à terras sul-americanas!

 

Confesso que viajar é maravilhoso, que em alguma vida passada eu devo ter nascido lá por Viena ou Barcelona (mais especificamente no bairro gótico de Barcelona ♥), mas voltar para o meu DNA sul-americano é extremamente reconfortante. Meu país, minhas pessoas, nada de contas mentais para lembrar qual idioma falar, nos últimos dias em Praga eu já andava confusa assim, aceitando qualquer coisa que me dessem, sorrindo e acenando haha.

 

Agora falando um pouco mais do capítulo, confesso que adoro este capítulo 30, mas nada como adoro o capítulo 31, denominado "El hilo rojo". É meu capítulo preferido de toda a história, foi escrito com muito amor e carinho, e com uma febre diferente. Para mim, existe essa diferenciação, capítulos técnicos, capítulos decisivos e capítulos em que essa "febre" me toma, esse ímpeto de escrever, são quase 20 páginas em que eu escrevi sem parar, por horas seguidas, foi assim com o capítulo 5 de Bali, foi assim com o capítulo 31 de agora, espero que consigam sentir o amor e a paixão que escapam dele ♥.

 

Falando em Bali, pré-venda na segunda! Já conferiram como está lindo demais no Instagram? *.*

 

Então meninas, segue a regra, postei capítulo mais cedo porque sei que já estamos em abstinência e para o capítulo 31 ser postado no próximo domingo, dia 13/10, precisamos bater a meta de 25 comentários, como sempre ^^. 

 

Beijos!

 

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