6 AM - Capítulo 23 - O Coração Partido

21/8/2019

 

 

 

Kelsey acordou se despreguiçando pela confortável poltrona reclinável da primeira classe e Laura estava… Olhando pela janela, com o olhar perdido entre as nuvens negras que suavemente faziam o avião trepidar.

 

Baby?

— Ei, oi, meu bem — Olhou para Kelsey sorrindo.

— Oi, anjo — Fez um carinho em sua namorada — Não conseguiu dormir mesmo? Nem um pouquinho?

 

Laura negou sorrindo, com um livro sobre o colo.

 

— Não tive sono. Falta pouco pra gente chegar.

 

Kelsey checou o relógio.

 

— Duas horas ainda. Está lendo seu livro?

— Acabou — Outro sorriso.

— É um Game of Thrones!

— Eu sei, mas acabou, não sei como aconteceu — Ela respondeu com aquele sorriso lindo que estava meio…

 

Meio partido. Laura tinha passado boa parte da viagem monossilábica, meio distraída, desconexa, assistiu a trilogia do Rei Leão agarrada em Kelsey que não tinha ideia do que fazer, o que pensar, como retomar a conversa que tinham cortado no meio, ou se devia retomar, não sabia mesmo.

 

— Laura, eu sei que é algo esquisito de se dizer, mas eu estou feliz que a gente tenha discutido. Nós nunca tivemos uma briga, casais brigam, se desentendem, é normal.

 

Laura respirou fundo, voltando para a briga que tinham tido no aeroporto.

 

Não havia sido simples. Tinha tentado acordar Ívi, queria falar com ela, dizer que achava que tinha que ir, explicar seus motivos, mas de alguma forma, ela não acordou, sequer se moveu, por mais que tivesse tentado. E então que Julia acordou e foi uma discussão enorme, ela lhe segurou tão forte pelo punho que os dedos dela ficaram marcados até Laura chegar ao aeroporto, onde tentou de todas as formas dizer a Kelsey o que havia acontecido. Mas ela sequer quis saber, não lhe deixou contar nada, dizer nada, só repetia que precisavam embarcar e de repente, a discussão que tinha tido com Julia ficou pequeninha diante daquela discussão com Kelsey.

 

Não se conheciam, foi a sensação que teve. Kelsey desconhecia aquela versão nervosa de Laura, que estava se recusando a embarcar, exigindo ser ouvida e Laura não conhecia aquela Kelsey, fria, direta e absolutamente cortante.

 

— Laura, eu não vou chorar e fazer uma ceninha emocional para você, dizendo que você me prometeu, que é minha namorada, nada disso. Eu vou falar de uma quebra de acordo entre nós duas — Ela lhe disse, olhando reto em seus olhos — Nós acordamos juntas que iríamos para Londres, não foi uma decisão minha, foi uma decisão nossa, você concordou também. Então, sinceramente, a última coisa que eu quero saber é como foi a sua noite, Laura. A única coisa que me interessa é que você entre naquele avião e cumpra a sua parte do acordo. Nós confiamos uma na outra. É como chegamos até aqui.

— Dane-se o seu acordo — E Laura a deixou falando sozinha, a ouvindo chamar seu nome muito irritada, mas de alguma maneira...

 

Não parecia certo. Coisa nenhuma parecia certa, então voltou atrás de Kelsey e se resolveram na fila de embarque.

 

— Você precisa deixar que eu me desculpe.

 

Kelsey a beijou.

 

— Você está aqui, nós já nos desculpamos.

 

E agora, de volta a primeira classe, Kelsey ainda não tinha certeza se Laura tinha lhe desculpado mesmo. Pela frieza, sabia que tinha sido fria, mas era porque Laura era fria também, as coisas não eram simples e esta deveria ser a razão pela qual tinha ficado feliz por aquela briga. Tinha esquentado uma com a outra além da cama e isso não parecia tão ruim assim.

 

— Laura, está tudo bem mesmo? Quer falar do que eu não te deixei dizer? Podemos falar agora se você quiser, eu estava nervosa, mas já me acalmei agora.

— Está tudo bem, nós já nos resolvemos, não resolvemos? Eu só não sou muito de voos longos. Olha! Você acordou bem na hora do café da manhã…

 

Começaram a servir o café da manhã e Kelsey tratou de preencher as horas que faltavam com uma boa conversa e muito carinho, Laura sempre funcionava melhor quando era mimada de carinho, era uma felina manhosa aquela sua, podia ser apenas isso. Estavam viajando com o resto da delegação de hóquei, tanto feminina como masculina e depois que todo mundo acordou, outro clima tomou o voo. Inúmeras conversas paralelas, momentos sendo relembrados, as medalhas que aparentemente ninguém soltava nem por um instante e Laura pareceu melhor. Sabia da noite, sabia de Ívi e a briga com Kelsey também não lhe incomodava tanto. Ser lembrada do acordo também não havia sido ruim. Ela tinha razão, haviam feito um acordo e a coisa mais injusta que Laura podia fazer era quebrá-lo quando Kelsey havia sido tão compreensiva o tempo todo. Estava se sentindo muito esquisita, mas o voo longo podia mesmo estar piorando tudo e o fato de Kelsey não ter conseguido se manter acordada ao seu lado também podia. Não havia sido por mal ou desleixo, é que Kelsey estava exausta e Laura ainda por cima lhe desgastou um pouco mais naquela discussão no aeroporto.

 

Pronto, o pouso foi anunciado pelo comandante.

 

Chegaram numa Londres extremamente fria, que fez Laura recorrer a seus casacos de imediato, tinha esquecido deste detalhe, o frio europeu, já estava desacostumada. Beijou Kelsey pouco antes de desembarcar, porque, bem, Laura desembarcou junto com os outros passageiros enquanto as delegações desembarcaram para a imprensa, sob um show de flashes e repórteres para todos os lados. Viu sua campeã olímpica sendo cercada pela imprensa, a medalha no peito, o sorriso no rosto que pelo que Laura tinha lido nos jornais britânicos nos últimos dias, seria a nova cara do hóquei feminino no Reino Unido. Ok, tinha que desembarcar. Sozinha.

 

Passou pela imigração sem grandes problemas, o passaporte espanhol nas mãos, vermelho, lhe lembrando de sua origem, se perdeu um tanto por aquele aeroporto enorme, mas pronto, encontrou o lugar onde Kelsey tinha lhe pedido para esperar. Demorou mais do que achava, decidiu comer alguma coisa, esperou mais, olhou para o seu celular, comprar um SIM card tinha sido sua primeira ação. Esperou por mensagens, mas nada, melhor, havia mensagens, mas não de quem gostaria que tivesse lhe escrito. Olhou o contato de Ívi, ela estava online. E Kelsey apareceu, quase uma hora depois, toda culpada, pedindo desculpas pela demora, dizendo que já iam pra casa.

 

— Em Westminster — Laura se agarrou em seu braço e Kelsey teve que beijá-la na testa sorrindo.

— Você está adorando esta parte, não é?

 

Era perto de tudo e Laura queria muito voltar para Londres. Tinha estado naquela cidade com sua mãe e Julia quando tinham treze e onze anos, e sempre quis voltar. Voltar com Claudia e Julia de preferência, tinha sido o melhor tempo delas três juntas. Foram para Londres por uma semana, para comemorar o aniversário de Julia, sua mãe estava muito relaxada, muito tranquila, um dos raros momentos em que pareceu realmente bem, mais raro do que sua mãe bem e feliz, apenas Julia desarmada, Claudia tinha a surpreendido com a viagem-presente e Laura lembrava como ela não conseguia parar de sorrir durante a viagem inteira. De fato, pareceram uma família normal naquela semana, sem brigas, sem problemas, apenas uma mãe de trinta e poucos anos passeando com suas duas filhas pré-adolescentes, ouviu isso de sua mãe e nunca esqueceu o quanto ela estava feliz ao lhe dizer essa frase. Mas acabou não mais acontecendo. Porque sua mãe tinha sido tirada de si de uma maneira tão violenta e repentina.

 

Foram de metrô, Kelsey dispensou o táxi, de metrô era mais rápido e quando chegaram no apartamento dela… Era uma coisa linda, no décimo oitavo andar de um prédio moderno e com aquela cidade clássica e elegante se movendo lá embaixo. Era bom estar de volta à Europa. Só não tinha ideia de que ia sentir falta de seu apartamento na América do Sul tão rápido.

 

Kelsey quase não conseguiu entrar. Teve que correr, tomar um banho rápido, se trocar, tinha entrevistas para dar e um ao vivo em um programa esportivo mais tarde. Mas jurou que voltava para jantar, tudo bem, não tinha problema e pouco antes de sair:

 

— Laura, você pode ir para a Espanha em duas semanas?

— Posso sim, por quê?

— Eu quero ir com você. Só preciso terminar esse ciclo de entrevistas e nós vamos juntas, está bem? — Tinha acabado de ter uma longa conversa com Julia pelo celular que deixou Kelsey bastante preocupada — Escuta, meu bem, o cartão de crédito está aqui, se você quiser já comprar as passagens, não tem problema, compra para nós duas, prefere ir de trem ou de avião, baby?

— Você… — Laura abriu um sorriso, porque estava morrendo de medo de ir para a Espanha sozinha — Vai comigo mesmo?

— Vou sim, anjo — Kelsey entregou o cartão para ela e a beijou — E não se preocupe com nada, está bem? Pega o hotel que você quiser e a passagem que você quiser, será a nossa lua de mel, eu prometo para você que vamos aproveitar muito, que eu vou relaxar, que você vai relaxar e a gente vai se descobrir, ok? Desculpe pela cena no aeroporto, eu sei que fui muito dura.

— Não se preocupe com isso, eu também não fui lá muito doce...

— Não foi — Ela respondeu sorrindo — Quando a Julia me dizia que tinha uma parte sua que eu não gostaria de conhecer, eu não achava que fosse sério. Volto pra te levar para jantar, está bem?

 

Ela lhe beijou a testa, indo embora e Laura ficou… Ao menos um pouco mais leve. Seria ótimo não ir sozinha, de verdade.

 

Tomou um banho quente, relaxou na banheira, se trocou e o celular em sua mão lhe enchia de vontade de ligar pra casa. E casa agora era Julia e era também Ívi, e podia ser muito bem que nem uma nem outra quisesse falar consigo. Então ligou para Karime e ela lhe deu o termômetro das coisas, um coração partido em fúria, outro partido em dor e ouvir que Ívi estava sofrendo… Seu coração apertou no peito. Sair dos braços de Ívi tinha sido a coisa mais difícil que Laura teve que fazer desde quando deixara Julia e La Mari na Espanha. Não queria sair. Não queria deixá-la. Mas algumas coisas simplesmente…

 

Estava sem saída. Essa era a verdade. Não teria abandonado sua faculdade por um mês, sua casa, a garota por quem estava sentindo tanto se tivesse outra saída. E outra verdade também era que Kelsey lhe tinha sentimentos muito bonitos, mas Ívi…

 

Baixou a cabeça e chorou um pouquinho. Ainda não tinha chorado, não podia chorar na frente de Kelsey e enquanto se acalmava, chamada de vídeo.

 

Era María.

 

— Eu não acredito que você está em Londres mesmo! — Lá estava, a coisa mais linda, María era os traços que Laura mais gostava em si misturados a toda beleza de Julia, era uma menina linda, que ninguém dizia que tinha só treze anos, era impressionante o quanto ela estava crescida e bonita.

— Eu estou, irmãzinha, eu não disse que a gente ia se ver?

— Mas eu não tinha certeza se você vinha! E pra casa, quando você vem?

— Em duas semanas, está bem? Eu vou para Madrid em duas semanas, a Kelsey conseguiu uma folga e vai comigo.

— Hum, então a namorada medalhista olímpica vem junto?

— Ela disse que vai sim — Laura estava tão feliz de não precisar ir sozinha, Kelsey lhe passava uma segurança imensa, era uma das coisas que mais gostava nela, o quanto lhe fazia sentir segura — Mari, eu só não sei se é tudo bem você comentar com o Alejandro que eu estou indo te ver.

— Não é tudo bem, eu não vou falar para ele de jeito nenhum. Laura, eu tenho que ir embora daqui, eu quero morar com você e a Juls, por favor.

 

Outro pedacinho do coração de Laura cortado na carne. Era assim que sentia cada vez que percebia o desespero de sua irmã.

 

— Nós vamos resolver isso, está bem? Você só precisa ter mais um pouco de paciência.

 

Ela baixou os olhos entristecida.

 

— Está bem. Eu espero. Se você promete que eu vou morar com vocês, eu espero.

— Ei — Chamou os olhos dela de volta para si — Não fica assim, eu vou dar um jeito, eu prometo para você. Sorria para mim, vamos.

 

E ela abriu o sorriso lindo que tinha, o sorriso que lembrava Laura que ela ainda era uma criança. Sem mãe, sem as irmãs por perto, com um pai que a sufocava e pressionava o tempo todo.

 

— Isso, eu gosto de te ver assim. Te amo tanto, eu acho que você não faz ideia.

 

Desligou e esperou. Estava cansada, mas não conseguia dormir, ficou pelo apartamento, vendo tevê, assistiu a live de Kelsey num importante programa de tevê, ela estava linda, bem articulada como sempre, a porta-voz perfeita do time campeão. Ouviu um pouco de música, olhou pelas enormes janelas de vidro, encontrou alguns livros para ler, anoiteceu, onde estava Kelsey? Dormiu no sofá em algum momento, o cansaço e o fuso horário provavelmente e quando acordou, já era meia-noite e nada de Kelsey. Decidiu fazer alguma coisa para jantar, encontrou macarrão, molho de caixa, era o que tinha, achou café, açúcar e chá, pronto, nada mais, jantou o macarrão e se fez um chá de sobremesa. Olhava para o celular. E ligar para Ívi foi um impulso. Ligou, meio trêmula, meio incerta, porém a ligação de vídeo apenas chamou até cair. Daí ficou muito triste e decidiu só ir dormir.

 

No quarto confortável, com o perfume de sua namorada, rolou um pouco, colocou a tevê para lhe distrair. Pegou no sono em algum momento e acordou com Kelsey lhe abraçando e lhe implorando desculpas. As coisas tinham se alongado, havia mais agenda para cumprir, Laura a beijou, disse que não tinha problema, que só queria dormir perto dela, estava tudo bem. Dormiu e quando acordou, sabia que ela tinha lhe deixado um beijo na testa e tinha saído bem cedo. Daí levantou, sentindo uma angústia enorme, sabia que tal angústia tinha nome e motivo muito bem definidos, mas o que podia fazer?

 

Tomou um banho e quando chegou na cozinha, tinha um lindo café da manhã preparado lhe esperando junto a um bilhete na geladeira. Kelsey, é claro, sendo doce e perfeita na medida do que conseguia fazer, era outro dia de agenda cheia, Laura sabia e ainda assim, ela tinha achado um tempo para lhe preparar um belo café da manhã antes de sair e aparentemente, tinha feito supermercado em algum momento, talvez antes de voltar para casa, não fazia ideia. Tomou café, respirou fundo, planejou seu dia, queria apenas andar por Londres, visitar alguns lugares aleatórios, sentir a cidade, buscar algumas lembranças. Checou seu celular mais uma vez, nada, nem uma mensagem. E percebeu que não iria a lugar nenhum com aquela angústia lhe fechando a garganta.

 

Decidiu ligar para Ívi novamente. Se ela não atendesse, ficaria clara a situação e não insistiria mais, prometeu a si mesma. Respirou fundo e ligou.

 

Chamou, chamou e quando baixou o celular sabendo que a ligação ia cair:

 

— Ei... — Ela atendeu, fazendo o coração de Laura parar. Porque ela estava de calça jeans, cabelos molhados, apenas de sutiã preto e com o colar celta de Laura no pescoço, o que a fez imediatamente sorrir. Pelo colar, por todo o resto.

— Você… — Passou a língua pelos lábios inconscientemente e Ívi sorriu, se dando conta.

— É que eu não consegui atender quando você ligou antes, eu estava tocando e não percebi que o celular estava chamando. Eu liguei de volta assim que eu vi, mas não consegui mais, não tinha sinal, daí fiquei desesperada de perder a sua ligação agora.

— É o fuso, eu acabei indo dormir e… — Desligou a internet, por causa de Kelsey, não queria que ela pensasse que mal tinha pisado em Londres e já estava correndo para Ívi outra vez — Você está usando o meu pingente?

— Eu me sinto nua se não tenho nada no pescoço e não sei onde foi parar o meu pingente, então eu peguei o seu emprestado, tudo bem?

 

Laura abriu outro sorriso. E puxou o pingente de Ívi de dentro da própria blusa.

 

— Ele está em Londres, comigo. Eu me senti muito sozinha tendo que… Deixar você dormindo.

 

E saber que ela estava com o seu pingente colocou um enorme sorriso no rosto de Ívi, automaticamente.

 

— Deixou o seu pra mim no lugar?

— Eu não queria... — Respirou fundo — Vir inteira. Foi uma coisa... Uma coisa, só.

 

Silêncio. Olhos buscando olhos.

 

— Uma coisa só — Ívi sorriu.

— É, isso — Sorriu também meio sem graça — Que horas são aí? Agora que eu me dei conta.

— São… — Ívi checou o relógio — Seis da manhã.

A nossa hora.

— A nossa hora — Ívi concordou, tinha pensado a mesma coisa.

— E o que você faz acordada tão cedo? Você não disse que estava tocando?

— Nós tocamos numa boate até umas quatro da manhã, aliás, Julia adorou tocar numa boate, ela nunca tinha feito isso, foi muito legal! Nós fizemos um show diferente, tocamos músicas nossas também e todo mundo pareceu curtir demais, eu estou feliz até agora pelo resultado. Chegamos umas quatro e pouco, mas eu tenho um trabalho lá no estaleiro me esperando, então preferi não dormir.

— Vai direto para lá?

— É melhor, hoje a minha noite será livre, eu posso descansar depois — Abriu outro sorriso porque olhar para Laura era a melhor coisa. Ívi estava com a ausência dela lhe apertando o peito demais, mas não quis interferir. Não quis mandar a mensagem errada, não quis perturbar a decisão de Laura, sabia que não havia sido fácil, ela não precisava lhe dizer isso para saber.

— Às vezes eu acho que você não precisa de descanso igual aos seres humanos normais, sabia?

— Eu te disse, estou acostumada com esse tipo de rotina. Então, quais os planos? Cadê a Kelsey? O que vocês vão fazer hoje?

 

Laura abriu um sorriso, mexendo nos cabelos.

 

— Então, na verdade o meu dia sou eu sozinha porque a Kelsey teve que ir almoçar com a Rainha.

— Oi? — Ívi começou a rir de nervoso e Laura também.

— É sério, o time de hóquei foi convidado para almoçar com a Rainha Elizabeth, no Palácio de Buckingham, então eu estou por mim mesma hoje. Acho que vou dar uma volta, ela me deixou um cartão de metrô e um cartão de débito que eu estou me sentindo meio esquisita em usar.

— Laura, ela deixou com você, não deixou?

— Deixou, mas não é meu dinheiro, o meu dinheiro está em outro cartão, não é muito, mas...

— Laura, Kelsey é campeã olímpica, ganha em euro todo mês e ela quer cuidar de você, dá para deixá-la fazer isso em paz?

— Eu não mereço todo esse cuidado, Ívi.

— Laura, você cuida de todo mundo o tempo todo. Você está fora 24 horas e nós já estamos nos batendo aqui sem você, sem saber bem como fazer as tarefas, que tarefas tem para fazer, como manter esta casa com comida ou a geladeira com água, tipo, a gente já ficou sem água gelada em menos de 24 horas, galega, é um absurdo — Disse, a fazendo sorrir um pouco — Você cuida de todo mundo, a Kelsey pode te cuidar um pouco, deixa a menina, vai.

— Eu não me sinto bem, Ívi. Aliás, não me sinto bem com nada disso, estou sentindo que cometi um erro por impulso em aceitar vir, uma precipitação de nós duas, minha e da Kelsey…

— Laura, ei, olha pra mim: ela quer você com ela. Você não pediu nada, contou tudo para ela e ainda assim, ela quis esse tempo com você. Você contou...?

— Ela não me deixou. Nós brigamos no aeroporto, eu quis dizer o que tinha acontecido, mas ela não quis saber, nós nunca brigamos antes, nem sabíamos como era isso direito, eu fiquei surpresa com ela, ela ficou surpresa comigo, enfim.

— Laura, ela sabe o que aconteceu, só não quer ouvir e ainda assim, ela quis que você fosse com ela.

— Nós temos um acordo e quando acordamos o que acordamos, concordamos que precisávamos passar algum tempo juntas para decidir o que fazer com a nossa relação, mas eu não sei como isso pode acontecer com a agenda corrida que eu vi que ela terá nos próximos dias. Foi uma precipitação e ainda por cima... — A voz quebrou, Laura estava se sentindo péssima com tudo.

— Tudo bem, escuta — Ela estava fazendo algo no notebook — Eu acabei de transferir para você a expressiva quantia de: dez euros — Disse, a fazendo morrer de rir. Ívi tinha uma conta que recebia euros, ela e Tiziana viviam se emprestando dinheiro.

— Dez euros? Você precisa que eu te compre alguma coisa?

— Preciso, mas você terá que seguir à risca algumas instruções para comprar o que eu preciso. Vamos lá, você vai pegar o seu cartão de metrô e vai se dirigir até a estação Notting Hill Gate, que você chega pegando a Central, District ou a Circle Line, gostou do meu inglês? Está melhorando, não está?

— O seu inglês é muito bom, Ívi, chega a ser um absurdo, por isso que eu insisto para que você estude, você vai fazer carreira fora, vai precisar — Ela lhe disse sorrindo, Laura estava insistindo demais em um curso de inglês para Ívi — Vamos lá, Notting Hill Gate, ok, estou acompanhando o seu raciocínio.

— Ótimo — Ívi estava sorrindo também — Daí você vai descer e vai caminhar pela Portobello Road, aquela do cinema, porque hoje é sábado e é o melhor dia para fazer esse passeio! Enquanto você estiver na Portobello Road, você vai comprar três coisas com esses dez euros…

— Quais coisas?

— Um buquê de flores, as mais bonitas que você enxergar, se você conseguir um buquê todo colorido, melhor ainda, deve custar uns quatro euros. Depois do buquê, eu preciso que você compre um chaveiro bem bonito, daqueles que você gosta, sabe? — Deve custar uns dois euros mais ou menos e depois do chaveiro, você vai encontrar um cupcake de chocolate lindo, com alguma cobertura deliciosa...

 

Laura estava rindo demais.

 

— Ívi! Como é que eu vou levar isso para o Brasil?

— Não é para trazer, meu bem, é tudo para você — Respondeu, a fazendo sorrir e quase chorar — As flores são suas, o chaveiro é para você prender no Simba que eu vi que você levou, e o bolinho é para te fazer feliz, está bem? São presentes meus para você.

— Ívi, o seu dinheiro, você precisa…

— Preciso e fico muito feliz de usar 48,00 reais do dinheiro que eu ganhei essa noite para fazer você sorrir assim. Não se consome, está bem? Fica bem, nós estamos bem aqui, a María está feliz porque vai te ver, aliás, que coisa linda é a María! Ela parece filha sua com a Juls, eu ainda não a conhecia!

— Você a conheceu?

— A Julia conheceu a Tiziana ontem, ficou toda apaixonada e eu quis conhecer a María, nos falamos por vídeo, ela é um amorzinho. Escuta, Laura, a Kelsey está muito feliz por ter você perto dela e eu tenho certeza que está fazendo o melhor que ela pode para que você se sinta bem. Então, colabora conosco, está bem?

 

Uma lágrima caiu de Laura. Laura quase nunca chorava, foi algo que Julia lhe contou, então apertava o coração de Ívi ver aqueles olhos marejados na sua presença.

 

— Ívi… Você achou o meu bilhete?

 

Ívi enfiou a mão no bolso e pegou.

 

— Está bem aqui.

— E você… Bem, eu te pedi uma coisa nele.

 

Ívi apertou os lábios olhando para ela. Quis tocar a tela do celular.

 

Perdono, como é que eu não vou perdoar? Mas você precisa ficar bem, não fica assim que me parte o coração. Promete pra mim que vai até Notting Hill? Eu sempre quis ir em Notting Hill! Tenho essa rota que eu te falei decorada de tanto que já pesquisei sobre.

 

Laura sorriu, limpando o rosto.

 

— Prometo que vou, não sei se hoje, mas prometo que vou sim. Ívi, você não precisa ser tão boa comigo.

— E você não precisa ser tão dura com você mesma. Laura, você se arrependeu? De ter ficado comigo?

— É claro que não, Ívi, eu adorei a nossa noite, não é por isso.

— Então que não seja por nada. Você ia de qualquer forma, decidiu ir por motivos que está esquecendo agora, mas que são coesos, que fazem sentido. Então, não se preocupe, está bem?

 

Laura apertou os lábios.

 

— Está usando as suas técnicas de sedução.

 

Ívi riu.

 

— Que envolvem querer o seu bem e te ver feliz, me deixa te seduzir, Laura Bueno, para de me dar trabalho — Outro sorriso — Vai para Notting Hill? Eu prometo que um dia vou com você pessoalmente, está bem? Mas por hoje, leva o meu pingente e o meu bem-querer que é enorme por você?

 

Laura se quebrou um pouco mais. Costumava ter mais controle das suas emoções, mas não estava funcionando.

 

¿Y tu perdón?

— Pode levar com você também, não tem problema. Conversamos sobre o que esses dias podiam fazer com a gente e nós duas concordamos que nada mudaria, lembra? Então que não mude, Laura. Me chama qualquer coisa?

 

Laura respondeu sorrindo, chamava sim, era tudo o que queria.

 

E quando elas desligaram, o fio ainda estava esticado, mas parecia uma tonelada mais leve.

Ívi terminou a chamada sorrindo. E sorrindo foi fazer o café da manhã, deixar para as meninas, foi checar como Karime estava, ela havia tido febre de noite, mas estava bem, era só uma gripe, checou Julia, ela estava dormindo na cama de Laura e lembrou que tinham mesmo que comprar uma cama. Saiu de casa, sentindo o pingente de Laura em seu pescoço, ouvindo a voz dela, tendo a imagem dela em mente, tão mais leve que nem conseguia mensurar. Ainda estava sentindo muito? Estava, mas assim que a raiva passou, falar com Laura era tudo o que queria. Ponderou se deveria ligar, ficou mal quando perdeu a ligação dela, mas agora que tinham se falado...

 

Estava leve, tranquila, nada mudara. Só queria ter certeza de que nada tinha mudado mesmo.

 

Chegou no estaleiro, foi se trocar, trabalhou suas quatro horas de tempo no concerto de um casco de barco de pesca, tão relaxada que nem sabia, ouvindo suas músicas, conversando um pouco com um outro funileiro quando ele veio lhe ajudar. Estava um belo dia de sol e quando Ívi terminou, sentiu uma vontade enorme de dar um mergulho. Ainda que a água estivesse gelada demais! Não podia nadar, mas lembrou do dia que fizeram a travessia das ilhas, com suas garotas, com Laura. Lembrou com carinho até de Kelsey, porque tinha mesmo um carinho enorme por aquela britânica, pensou em Viktoria também e se perguntou se algum dia voltaria a vê-las.

 

Daí foi para o vestiário e quando estava prestes a entrar no banho…

 

Seu celular deu sinal. E era uma foto. Mas não qualquer foto, era uma foto de Laura linda demais, de botas, vestidinho, meia calça e casaco longo, sentada numa calçada onde podia se ler uma placa escrita “Portobello Rd”, com um lindo ramalhete de flores selvagens, lilases, amarelas, vermelhas, azuis, a coisa mais delicada, um chaveiro que era uma colher de chá muito britânica e uma rosca confeitada em cor de rosa, cheia de chocolate, coco e granulados, e o sorriso dela tendo tudo isso em seu colo era…

 

O sorriso de Laura Bueno era luz. Era abrasador e aquecia o coração. Era todos os motivos de Ívi, todos, cada um deles. Ligou para ela rapidinho, ela ainda estava em Notting Hill e a voz dela estava muito melhor. Ela lhe disse que era um dia muito bonito, que estava frio e que Notting Hill era maravilhoso, que Ívi precisava ir mesmo, que precisavam fazer aquele passeio juntas. Jurou que iria um dia. Para ela e para si mesma. Que iriam para Londres e depois iriam abraçar Tiziana em Siena. Desligou e transformou aquela foto em sua lockscreen. Tomou seu banho, se vestiu, lingerie preta, calça jeans e enquanto penteava os cabelos que tinha tido que lavar novamente, decidiu deixar o celular aceso, bem à sua frente, onde podia olhar para Laura um pouco mais. Colocou o colar dela, hidratou seus cabelos e no meio do processo…

 

— Mecânica de grife! — Ela sussurrou chegando pelas suas costas e Ívi quase teve um ataque cardíaco!

 — Mas...! — Daí olhou e ela estava rindo — Você me assustou!

— Eu sei. É que você estava tão compenetrada olhando para… — Olhou para onde ela estava olhando — Entendi a compenetração.

— Ah, entendeu?

— Entendi completamente — Ela estava muito relaxada, o que era esquisito uma vez que, era a moça do RH, aquela mal-humorada — Que olhos são esses? — Os olhos de Laura estavam verdes-intensos naquela foto, devia ser a luz, não dava para explicar.

— Precisa ver de perto como eles são bonitos. Eles mudam de cor, derretem, viram outra coisa, eu nem sei explicar.

 

Ela se recostou nos armários e Ívi ainda não entendia o que ela estava fazendo ali.

 

— Você veio…?

— Eu vim procurar uma funcionária, que também não está aqui. Então, a menina linda aqui é sua namorada?

 

Ívi olhou para ela. Que direta.

 

— Provavelmente é o amor da minha vida, mas não, ainda não é namorada não — Respondeu sorrindo, terminando de enxugar os cabelos.

 

Ela abriu outro sorriso.

 

— E por que não é ainda?

— Bem, é que... — Encontrou sua camiseta preta na mochila — Lembra daquele teste que você fez comigo sobre obstáculo e vantagem?

— Claro que lembro, você se saiu muito bem nele.

— Então, porque ela não é minha namorada ainda, há um obstáculo — Vestiu a camiseta e determinados olhos passearam pelo movimento de seu abdômen comprimindo e relaxando, os músculos se desenhando.

— Qual obstáculo?

— Ela tem namorada. E a menina é campeã olímpica.

 

Ela sorriu.

 

— Tipo...?

— Medalha de bronze em Londres 2012 e campeã olímpica, Rio 2016. Ela é bonita pra caramba, é boa garota, colocou o amor da minha vida num voo de primeira classe para Londres onde neste exato momento, ela e o time de hóquei estão almoçando com a Rainha da Inglaterra, este é o obstáculo.

 

Agora a moça estava rindo demais.

 

— Estou entendendo o tamanho do obstáculo, acabei de entender! E a vantagem?

— Bem, a vantagem é que se com todo este obstáculo cheio de qualidades ela decidir ficar comigo, só pode ser amor.

 

E ela riu mais, o que surpreendeu Ívi porque pela seriedade dela naquela entrevista, nem podia imaginar que ela tinha humor.

 

— O seu senso de julgamento é perfeito, foi por isso que eu decidi por você. Escuta, acho que eu nem me apresentei aquele dia.

— Não se apresentou e você parecia tão brava que eu nem quis perguntar o seu nome.

— É que eu tinha entrevistado uns quinze brutamontes sem cérebro, enfim — Esticou a mão para ela — Noah.

— Noah? Tipo...? — Pegou a mão dela sorrindo.

— Adivinha, nasci durante um daqueles dilúvios de janeiro que acontecem em Angra, daí... Noah.

Noé, é apropriado.

— Veja como minha mãe é criativa — Ela abriu outro sorriso — Passa no RH para pegar o seu cheque? — Ela lhe perguntou, apontando olhos verdes em sua direção. Ívi nem tinha reparado nela na primeira vez, nos olhos, no rosto bonito, ela era bem bonita mesmo.

— Claro, eu só vou terminar aqui.

— Ok.

 

E com outro sorriso, ela saiu do vestiário. Ívi terminou suas coisas e quando saiu, seu companheiro de trabalho daquela tarde estava esperando.

 

— Ívi, o que a Noah estava fazendo aí dentro? — Ele parecia muito curioso.

— A Noah? Ela disse que estava procurando uma funcionária.

 

E ele começou a rir.

 

— Ívi! Só tem uma funcionária que usa este vestiário especificamente, que é você, não tem outra técnica aqui, criatura!

 

Ívi não tinha se dado conta disso. Era verdade, era a única técnica na empresa inteira, por qual raio de motivos...? Manteve aquele pensamento em mente pelo tempo que levou até o RH onde pegou seu cheque e então o deixou partir ao olhar para sua lockscreen novamente. Não tinha ideia do que estavam fazendo, só sabia que mal fazia 24 horas e já estava morrendo de saudades de su amor.

 

Notas do Capítulo:

 

 

Garotas!!! Como estão?
 

Novidades? Por aqui as coisas estão um tanto quanto corridas. Confesso que 24 horas está sendo bem pouco para nós, precisávamos no mínimo de 32 horas, assim conseguiríamos fazer tudo o que planejamos. Enfim, hoje a nota será bem curta e rápida.
 

O que falar desse capítulo, hein?! Depois de uma noite daquelas, depois de um estresse com Kelsey, Laura está em Londres, 'sozinha', perdida e cheia de 'arrependimento'. Será? Eu aposto que essa viagem será um tanto quanto transformadora para esse casal. Eu aposto! Ah, e eu aposto também que Noah será alguém especial na história, alguém marcante... ok?! Alguma ideia? Alguma sugestão?
 

Bom, mudando um pouco de assunto e ainda falando sobre... rsrsrs
Bali está pronto e ficou LINDÍSSIMO! Pré-Venda em outubro, galera. Como muitas novidades, brindes e coisas lindas que estamos preparando para vocês.

 

Então, as mesmas regras de sempre, e capítulo 24 sendo postado domingo, dia  25/09.
 

P.S: Meninas, aqui é a Ana, hein! ^^

 

 

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